Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 10 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 9

Tanto quanto o pai, Katharine detestava ter de contar à mãe a falta de Cyril e pelas mesmas razões. Ambos se encolhiam, nervosamente, como gente que teme o disparo de um tiro de revólver no palco, diante de tudo o que há para ser dito numa ocasião dessas. Katharine, ademais,era incapaz de decidir o que pensava do descomportamento de Cyril. Como de hábito, via o que o pai e a mãe pareciam não ver, e o efeito disso era deixar solto no ar o comportamento de Cyril,sem qualquer qualificação mental. Para eles, o que quer que Cyril tivesse feito era bom ou mau. Para ela, não passava de uma coisa acontecida.

Quando Katharine chegou ao estúdio, Mrs. Hilbery já havia mergulhado a pena no tinteiro.

– Katharine – disse ela, com a pena no ar –, acabo de tomar consciência de uma coisa esquisita sobre o seu avô.

Sou três anos e seis meses mais velha do que ele quando morreu. Não podia muito bem ser mãe dele, mas poderia ter sido uma irmã mais velha, e isso me parece uma fantasia agradável. Vou começar com a cabeça fresca esta manhã, e realizar uma porção de trabalho.

Ela começou a sentença, pelo menos, e Katharine sentou-se à sua própria mesa, desatou o maço de cartas velhas nas quais trabalhava, alisou-as distraidamente, e pôsse a decifrar a escrita esmaecida.Num minuto,olhou para a mãe a fim de julgar-lhe o ânimo. Paz e felicidade haviam relaxado cada músculo do seu rosto. Seus lábios estavam levemente entreabertos e seu hálito saía em macios, controlados sopros, como os de uma criança que se rodeia de um edifício de tijolos e cujo êxtase aumenta a cada tijolo posto em posição. Assim Mrs. Hilbery elevava em torno de si os céus e as árvores do passado, a cada golpe de pena, e invocava as vozes dos mortos. Silenciosa como estava a sala, alheia aos ruídos do momento, Katharine podia imaginar que fosse um tanque profundo do tempo passado, e que ela e a mãe se banhavam na luz de sessenta anos atrás. O que poderia dar-lhes o presente, perguntava-se, comparado com a multidão de dons oferecidos pelo passado? Aí estava uma manhã de quinta-feira em curso de fabricação. Cada segundo era cunhado de fresco pelo relógio do console da lareira. Apurava os ouvidos e mal conseguia ouvir lá fora, ao longe, a buzina de um automóvel e o som de rodas que se aproximavam e morriam na distância outra vez, e as vozes de homens anunciando ferro velho e legumes numa das ruas mais pobres, atrás da casa. Aposentos, naturalmente, acumulam suas sugestões, e qualquer quarto em que uma pessoa faz por algum tempo uma ocupação determinada deixa escapar memórias de humores, idéias, estudos de espírito, que ali, um dia,floriram; de modo que qualquer tentativa de fazer no local outra espécie de trabalho é vã, inane.

Katharine sentia-se afetada, cada vez que entrava no quarto da sua mãe, por todas essas influências, cuja origem datava de anos atrás, quando ela era ainda uma criança, e guardavam algo de doce e de solene, e ligavam-se a memórias antigas de cavernosas penumbras e sonoros ecos da Abadia onde seu avô jazia sepultado. Todos os livros e quadros, até as cadeiras e mesas, lhe haviam pertencido, ou tinham relação com ele. Mesmo os cães de porcelana do console da lareira e as pastorinhas com seus carneiros haviam sido comprados por ele, por níquel a peça, de um homem que costumava fazer ponto, em pé,com um tabuleiro de brinquedos, em Kensington High Street, como Katharine muitas vezes ouvira sua mãe con-tar. Freqüentemente sentava-se nesse quarto, com a mente tão fixa nessas figuras passadas que quase podia ver os músculos em torno dos seus olhos e lábios, e restituir a cada uma a sua própria voz, com suas peculiaridades de sotaque, e seu casaco, e sua gravata. Freqüentemente,parecera-lhe mover-se entre elas, fantasma invisível entre os vivos, mais íntima delas do que dos seus amigos pessoais, pois que lhes sabia os segredos e tinha uma divina presciência dos seus destinos. Haviam sido tão infelizes,tão confusos, tão obtusos, parecia-lhe. E ela poderia terlhes dito tudo, o que fazer e o que não fazer. Era melancólico, mas elas não lhe teriam dado atenção, e teriam marchado para o desastre à sua própria maneira, antiquada. Seu comportamento era, muita vez, grotescamente irracional; suas convenções, monstruosas e absurdas; e, todavia, ao meditar sobre tudo isso, sentia-se tão estreitamente ligada a elas que de nada valeria julgá-las. Quase que perdia a consciência de ser um ente diverso, com futuro próprio. Numa manhã de leve depressão, tal como essa, tentaria descobrir alguma chave para essa confusão que as cartas velhas revelavam; algum motivo que pudesse ter feito a vida valer a pena, para aquelas figuras; algum alvo que tivessem mantido sempre em vista. Mas interromperam-na.

Mrs. Hilbery se levantara da sua mesa, e estava de pé aolhar pela janela para uma fieira de barcas que subiam o rio.

Katharine ficou a observá-la . De súbito, Mrs. Hilbery voltou-se e exclamou:

– Na verdade creio que estou enfeitiçada! Quero apenas três sentenças, sabe, algo inteiramente direto e comum, e não consigo achá-la .Pôs-se a andar de um lado para outro, pegando de passagem seu pano de limpeza. Achava-se, contudo, por demais perturbada para encontrar alívio em polir lombadas de livros.

– Além do mais – disse, dando a Katharine a página que escrevera –, ademais, não creio que isto sirva. Seu avô terá visitado as Hébridas, Katharine? – e olhava para a filha com uma curiosa expressão de súplica. – Minha mente voltou-se para as Hébridas, e não pude resistir a uma pequena descrição delas. Talvez possa ser usada no começo de um capítulo. Capítulos muitas vezes começam de maneira muita diversa da que pretendem assumir depois, você sabe.

Katharine leu o que sua mãe escrevera. Podia ser uma professora a criticar a redação de uma criança. Sua expressão não deu a Mrs. Hilbery, que a escrutava ansiosamente, qualquer motivo de esperança.

– Está muito bonito – disse –, mas, você sabe, mamãe, temos de ir ponto por ponto...

– Sim, eu sei – exclamou Mrs. Hilbery. – E é justamente o que não consigo fazer. Surgem outras coisas na minha cabeça. Não é que eu não saiba tudo e não sinta tudo (se eu não o conheci, quem então o conheceu?), mas não consigo expressar em palavras, você entende? Há uma espécie de ponto cego, morto ‒ disse, tocando a fronte –,aqui. E quando perco o sono, fico a pensar que vou morrer antes de fazer a obra.

Da exultação ela passara às profundezas da depressão,que a imagem da própria morte suscitara. Essa depressão comunicou-se a Katharine. Que impotentes eram, remexendo em papéis o dia todo! E o relógio batia as onze, e nada fora feito! Ela observava a mãe, que agora dava busca numa grande caixa reforçada de metal dourado que tinha junto à sua mesa, mas não foi em seu auxílio. Naturalmente – refletia Katharine – sua mãe extraviara agora algum papel, e perderiam o resto da manhã tentando localizá-lo. Baixou os olhos, exasperada, e releu as frases musicais da mãe sobre as gaivotas prateadas, e as raízes de pequeninas flores cor-de-rosa levadas por correntes cristalinas, e a névoa fina, azulada, dos jacintos, até que a impressionou o silêncio da mãe. Levantou os olhos.

Mrs. Hilbery esvaziara em cima da mesa uma pasta repleta de velhas fotografias, e as olhava uma a uma.

– Não há dúvida, Katharine, de que os homens eram muito mais bonitos naquele tempo do que agora, a despeito das suas detestáveis suíças. Veja o velho John Graham, no seu colete branco, veja o tio Harley. Esse é Peter, o empregado. Tio John trouxe-o da Índia.Katharine olhou para a mãe, mas não se moveu nem lhe deu resposta. Ficara, de repente, furiosa, com uma fúria que a relação entre as duas fazia calar, e que, por isso mesmo, resultava duas vezes mais forte e impiedosa.Sentiu toda a injustiça do direito que sua mãe tacitamente se arrogava para seu tempo e a simpatia dele; isso que Mrs. Hilbery reclamava, ela, Katharine, atirava fora – pensou amargamente. Então, num relâmpago, lembrouse de que tinha de falar-lhe sobre a má conduta de Cyril.Sua ira dissipou-se imediatamente, como uma onda que quebra depois de alçar-se mais alto que todas as outras; as águas se incorporaram ao mar outra vez, e Katharine sentiu-se de novo cheia de paz e solicitude, apenas ansiosa em proteger a mãe contra o sofrimento.Atravessou a sala,instintivamente, e sentou-se no braço da sua cadeira. Mrs. Hilbery descansou a cabeça contra o corpo da filha.

– O que é mais nobre que ser uma mulher para quem todos se voltam, nas tristezas e na dificuldade? Como melhorar sob esse aspecto, as mulheres da sua geração,Katharine? Eu posso vê-las, agora, as da minha, cruzando,imponentes, os gramados de Melbury House, com seus babados e folhos, tão serenas, e altivas, e imperiais (seguidas do macaquinho e do anãozinho preto, naturalmente), como se nada mais importasse no mundo, apenas o serem bondosas e belas. Mas penso às vezes que faziam mais do que nós hoje. Elas eram, e ser é mais do que fazer.Lembram-me navios, majestosos navios, firmes na sua marcha, sem fazer pressão, sem abrir caminho aos empurrões, sem se aborrecerem com miudezas, como nós outras, impávidas na sua rota, como navios a vela, como navios de velas brancas...

Katharine tentou interromper esse discurso, mas não houve oportunidade, e sentiu que não suportaria folhear o álbum em que as fotografias estavam coladas. As fisionomias desses homens e mulheres sobressaíam maravilhosamente, depois do alvoroço dos rostos dos vivos, e pareciam, como sua mãe dissera, revestidas de uma dignidade e de uma tranqüilidade surpreendentes, como se houvessem governado seus reinos com justiça e merecessem acendrado amor. Alguns eram de quase inacreditável beleza, outros bastante feios, mas de uma feiúra convincente, poderosa. Nenhum parecia estúpido, ou insignificante ou tedioso. As dobras rígidas das crinolinas combinavam com as mulheres; as sobrecasacas e cartolas dos homens pareciam cheias de caráter. Uma vez mais, Katharine sentiu a serenidade do ar em derredor e pareceu ouvir, muito longe, o embate solene do mar contra a praia. Mas sabia que tinha de ligar o presente a esse passado.

Mrs. Hilbery continuava a divagar, passando de história para história.

– Essa é Janie Mannering – disse, apontando para uma soberba velha-dama de cabelos brancos, cujas vestes de cetim pareciam bordadas de pérolas –, devo ter contado a você sobre como ela encontrou o cozinheiro bêbado debaixo de uma mesa quando a imperatriz era esperada para jantar, e enrolou as mangas de veludo (ela sempre se vestiu como uma imperatriz também), fez todo o banquete,e apareceu no salão como se tivesse dormido o dia todo num leito de rosas. Ela podia fazer qualquer trabalho manual, todas elas podiam, levantar uma cabana ou bordar uma anágua.

– E essa é Queenie Colquhoun – continou, virando as páginas –, que levou seu caixão consigo numa viagem à Jamaica, cheio de formosos xales e chapéus, porque ouvira ser impossível conseguir caixões de defunto na Jamaica e tinha horror de morrer por lá (como efetivamente morreu) e ser devorada pelas térmitas.

– E esta é Sabine, a mais linda de todas. Ah! Quando entrava num salão, era como se uma estrela brilhasse de repente no céu. E esta é Miriam, com o casacão do seu cocheiro, com todas aquelas capinhas superpostas, e usava botas altas por baixo! Vocês jovens se julgam pouco convencionais. Pois não são nada, comparados com ela.Virando a página, deu com o retrato de uma senhora muito bela e muito masculina, cuja cabeça o fotógrafo adornara com um diadema imperial.

– Ah, sua miserável – exclamou Mrs. Hilbery –, que velha perversa e despótica você foi, no seu tempo! Como nós todas nos curvávamos diante de você! “Maggie, ela costumava dizer, se não fora por mim, onde estaria você a estas horas?” E era verdade. Fora ela quem os aproximara.Disse a meu pai: “Case-se com ela.” E ele obedeceu. E disse à pobre Clarinha: “Caia de joelhos e adore-o”, e ela caiu e adorou. Mas levantou-se depois, naturalmente.Que mais se podia esperar? Ela era uma criança, dezoito anos, e meio apavorada também. Mas aquela velha tirana jamais se arrependeu. Costumava dizer que lhes dera três meses perfeitos, e ninguém tem direito a mais. E às vezes,eu penso, Katharine, que ela tinha razão. É mais do que muitos de nós jamais tivemos, apenas pretendemos que tivemos, coisa que nenhuma delas jamais poderia fazer.Acredito – ponderou Mrs. Hilbery – que havia uma espécie de sinceridade naqueles tempos entre homens e mulheres, a qual, com toda a liberdade de falar sem rodeios,vocês não têm.

Katharine tentou interromper outra vez. Mas Mrs.Hilbery ganhara ímpeto com as suas memórias, e estava agora de excelente humor:

Eles devem ter sido bons amigos, no fundo – resumiu –, porque ela costumava cantar as canções dele. Ah,como era mesmo? – e Mrs. Hilbery, que tinha uma voz muito doce, cantarolou uns famosos versos do seu pai musicados por algum primitivo vitoriano com um sentimentalismo ao mesmo tempo absurdo e encantador.

É a vitalidade deles! – concluiu, batendo o punho na mesa. – É isso que nós já não temos! Temos virtudes, somosdiligentes, vamos a reuniões, pagamos aos pobres os salários que lhes são devidos, mas não vivemos como eles viviam. Freqüentemente meu pai ficava sem dormir três noites em sete, mas estava sempre novo em folha pela manhã.Posso mesmo, ouvi-lo subir as escadas cantando até o quarto das crianças; pendurava, depois, a merenda na sua bengala-estoque, e lá íamos nós para um dia inteiro de passeios: Richmond, Hampton Court, Surrey Hills. E por que não vamos nós, Katharine? Vai ser um dia bonito.

Nesse momento, justamente quando Mrs. Hilbery olhava o tempo pela janela, bateram à porta. Uma senhora frágil entrou,e foi saudada com evidente consternação por Katharine.

– Tia Celia!

Sabia a que vinha a tia Celia, e daí a consternação.Vinha certamente discutir o caso de Cyril e dessa mulher que não era mulher dele; e devido à sua procrastinação,Mrs. Hilbery estava inteiramente despreparada para receber a notícia. Quem poderia ser mais despreparada do que ela? Pois não estava a sugerir que fossem, as três,numa surtida até Blackfriars inspecionar o sítio do teatro de Shakespeare, porque o tempo não lhe parecia bastante firme para irem até o campo?

Mrs. Milvain ouviu essa proposta com um sorriso paciente, de quem há muitos anos aceita filosoficamente taisexcentricidades da cunhada. Katharine tomou posição aalguma distância, com um pé na grade da lareira, de ondepodia ter uma visão melhor da cena. Contudo, e a despeitoda presença da tia, quão irreal lhe parecia toda a questão deCyril e da moral de Cyril. A dificuldade, agora, era dar anotícia com cuidado a Mrs. Hilbery, fazendo embora queela a entendesse bem. Como laçar a sua mente e amarrá-la a esse ponto minúsculo e sem importância? Uma exposiçãosimples e direta parecia o melhor caminho.

– Penso que tia Celia veio falar de Cyril, mãe – disse,brutalmente. – Tia Celia descobriu que Cyril está casado.Tem mulher e filhos.

– Não, ele não está casado – interpôs Mrs. Milvain, em voz baixa e dirigindo-se a Mrs. Hilbery. – Ele tem dois filhos e um terceiro a caminho. Mrs. Hilbery olhou de uma para outra com espanto.

– Pensamos que seria melhor esperar até que tudo ficasse provado antes de contá-lo à senhora. – acrescentou Katharine.

– Mas estive com Cyril há quinze dias apenas, na National Gallery! – exclamou Mrs. Hilbery. – Não acredito numa palavra dessa história – e sacudiu a cabeça, com um sorriso nos lábios, como se pudesse entender o engano de Mrs. Milvain, muito natural no caso de uma mulher sem filhos, cujo marido era qualquer coisa de extremamente aborrecido no Board of Trade.

– Eu também não quis crer, Maggie – disse Mrs. Milvain. – Por muito tempo não pude acreditar nisso. Agora vi com meus próprios olhos e tenho de acreditar.

– Katharine – perguntou Mrs. Hilbery –, seu pai sabe disso? Katharine assentiu.

– Cyril casado! – repetiu Mrs. Hilbery. – E sem nos dizer uma palavra, ele que sempre tivemos em nossa casa desde pequeno, o filho do nobre William! Não posso crer nos meus ouvidos!

Sentindo que a obrigação da prova lhe incumbia,Mrs. Milvain passou, então, à sua história. Era idosa efranzina, mas sua esterilidade parecia impor-lhe continuamente deveres desse tipo. Honrar a família e zelarpelo seu bom nome eram agora o objetivo principal dasua vida. Contou a história numa voz velada, espasmódica e, por vezes, quebradiça.

– Suspeitei, por algum tempo, que ele não estava feliz.Havia novos vincos no seu rosto. Então, fui ver sua casa, quando o sabia ocupado no colégio dos pobres. Ele dá aulas, direito romano ou talvez grego. A senhoria disse que ultimamente Mr. Alardyce dormia lá apenas um dia por quinzena. Ele parecia muito doente, disse-me ela.Vira-o com uma jovem. Suspeitei logo alguma coisa. Fui ver o quarto, havia um envelope em cima do console da lareira e uma carta com um endereço em Seton Street, que é transversal de Kennintton Road.Mrs. Hilbery mexia-se, irrequieta, e cantarolava fragmentos da sua música, como que para interromper.

– Fui a Seton Street – continuou tia Celia com firmeza. – Muito vulgar, casas de cômodos, sabe, com gaiolas de canários nas janelas. Número sete, exatamente como os demais. Toquei. Bati. Ninguém atendeu. Andei em volta. Tenho certeza de que vi alguém lá dentro, crianças,um berço. Mas nenhuma resposta, nenhuma. – Suspirou,e olhou para a frente do nariz com uma expressão petrificada nos olhos de conta, que tinha semicerrados.

– Fiquei na rua – continuou – para o caso de ver algum deles. Esperei por muito tempo. Havia homens rudes a cantar, numa taberna na esquina. Por fim, a porta abriuse, e alguém, pode ter sido a própria mulher, passou rente a mim. Havia só a caixa do correio entre nós duas.

– E como era? – perguntou Mrs. Hilbery.

Era fácil ver como o pobre rapaz se deixou seduzir

– foi tudo o que Mrs. Milvain permitiu-se dizer, como descrição.

– Pobrezinha! – exclamou Mrs. Hilbery.

– Pobre Cyril – disse Mrs. Milvain, pondo uma ligeira ênfase em “Cyril”.

– Mas eles não têm com que viver! – continuou Mrs.Hilbery. – Se ele tivesse vindo ter conosco, como um homem – continuou – e dissesse “Fiz uma tolice”, teríamos tido pena dele, teríamos tentado ajudá-lo. Não há nada de vergonhoso nisso, afinal de contas. Mas ele fingiu todos esses anos, deixando que todo mundo pensasse que era solteiro. E a pobre abandonada da mulher dele...

– Ela não é mulher dele – interrompeu tia Celia.

– Nunca ouvi nada mais abominável na minha vida! Concluiu Mrs. Hilbery, batendo com o punho no braço dacadeira. Ao entender os fatos, ficara profundamente chocada, embora, talvez, mais com a secretividade do pecado doque com o próprio pecado. Parecia esplendidamente desperta e indignada, e Katharine sentiu imenso alívio e orgulho. Era visível que sua indignação era genuína, e que suamente estava tão inteiramente voltada para os fatos quantose poderia desejar; mais, até, que a de tia Celia, que pareciavoltejar timidamente, com mórbido prazer, nessas desagradáveis sombras. Ela e a mãe juntas tomariam a situação nasmãos, visitariam Cyril e levariam a coisa até o fim.

– Precisamos em primeiro lugar entender o ponto de vista de CyriI – disse, dirigindo-se à mãe como que a uma pessoa da sua geração. Mas antes que as palavras estivessem forade sua boca, houve mais confusão do lado de fora, e primaCaroline,uma prima solteira de Mrs.Hilbery,entrou na sala.Embora fosse, pelo nascimento, uma Alardyce, e tia Celiauma Hilbery, as complexidades do parentesco eram tais quecada uma era ao mesmo tempo primeira e segunda prima da outra e, assim, tia e prima do indigitado Cyril, de modo que o seu mau comportamento tanto dizia respeito a primaCaroline como a tia Celia. Prima Caroline era uma senhora de imponente estatura e circunferência. Contudo, a despeitodas suas proporções e das suas vistosas roupas, havia algumacoisa descoberta e desprotegida na sua expressão, como se,por muitos verões, a pele fina e vermelha, o nariz adunco, osmúltiplos queixos,que lhe davam um perfil de cacatua,tivessem ficado expostos às intempéries. Era, na verdade, umasolteirona. Mas tinha, como se diz, sua própria situação, eganhara, assim, o direito de ser ouvida com respeito.

Essa infeliz história... – começou, mesmo sem fôlego como estava. – Se o trem não tivesse saído da estação justamente quando eu chegava, teria estado com vocês mais cedo. Celia naturalmente já lhes contou. Você concordará comigo, Maggie. Ele tem de ser obrigado a casarse com ela imediatamente, por causa das crianças...

Mas ele recusa casar-se? – perguntou Mrs. Hilbery outra vez perplexa.

Ele escreveu uma carta absurda, em que deturpa tudo. Cheia de citações – bufou prima Caroline. – Ele acha que está agindo muito bem, enquanto nós só vemos a loucura de tudo... E a moça está tão apaixonada quanto ele, e nisso também o culpo.

Ela o enredou – interveio tia Celia, com uma curiosa maciez de entonação, que parecia transmitir a visão de fios entrançando-se para formar uma teia branca e cerrada em torno da vítima.

Não adianta entrarmos nos prós e nos contras do caso agora, Celia – disse prima Caroline, com alguma aspereza.

Ela se julgava o único membro prático da família, e lamentava que, devido ao atraso do relógio da cozinha, Mrs.Milvain tivesse podido confundir a pobre e querida Maggiecom sua versão incompleta dos fatos. – O mal está feito, emal muito sério. Vamos permitir o nascimento de uma terceira criança fora dos laços do matrimônio (lamento ter de dizer tais coisas em sua presença, Katharine)? Ela terá o seunome, Maggie, o nome de seu pai, lembre-se!

Esperemos que seja uma menina – disse Mrs. Hilbery.Katharine,que estivera olhando para sua mãe constantemente, enquanto o papaguear das línguas tomava ímpeto, percebeu que o olhar de vigorosa indignação já desaparecera;Mrs. Hilbery procurava agora, mentalmente, uma forma defuga, um ponto brilhante, uma súbita iluminação que mostrasse, para satisfação de todos, que tudo o que acontecera,fora miraculosa, incontestavelmente benéfico.

É detestável, detestável – repetia, mas em tom de pouca convicção. Então seu rosto se acendeu com um sorriso que, tentativo de começo, tornou-se logo quase confiante.

Hoje em dia as pessoas não vêem tanto mal nessas coisas como viam antigamente – começou. – Será horrivelmente incômodo para as crianças,às vezes,mas se forem valentes,e inteligentes, como o serão, ouso dizer que, no final, isso astornará pessoas notáveis. Robert Browning costumava dizerque todo grande homem tem sangue judeu, e devemos procurar ver as coisas a essa luz. Afinal de contas, Cyril tem sido fiel aos seus princípios. É possível discordar desses princípios, mas, pelo menos, é possível respeitá-los. Como a Revolução Francesa, ou cromwell cortando fora a cabeça do rei. Algumas das coisas mais terríveis da história foram feitas em obediência a princípios – concluiu.

Receio ter idéia muito diferente do que seja princípio – observou prima Caroline, venenosamente.

Princípio! – repetiu tia Celia, com ar de quem deplorava o uso de tal palavra em tal contexto. – Eu pretendo vê-lo amanhã – acrescentou.

Mas por que você chama a si essas coisas desagradáveis,Celia? – interpôs Mrs. Hilbery. E prima Caroline protestou,sugerindo outro plano que envolvia o sacrifício dela.

Farta de tudo isso, Katharine virou-se para a janela e ficouentre as dobras da cortina, com o rosto apertado contra a vidraça, a olhar desconsoladamente o rio, na atitude de uma criança deprimida pela conversa sem sentido dos mais velhos.Estava muito desapontada com sua mãe e consigo mesmatambém. O leve puxão que deu ao rolô, fazendo-o voar até o topo com um estalo, era prova dessa contrariedade. Estavamuito zangada e,todavia,impotente para expressar a sua fúria,ou saber com quem estava zangada. Como falavam e moralizavam e compunham histórias que servissem às suas própriasversões sobre o que era mais adequado fazer, louvando secretamente a própria devoção e tato! Não. Eles habitavam numnevoeiro,decidiu.A milhas e milhas de distância.Mas distância de quê? Talvez fosse melhor casar com William, pensousubitamente. E o pensamento pareceu surdir do nevoeirocomo um chão sólido. E ela permaneceu ali, de pé, pensando no seu próprio destino, e as senhoras continuaram a falar atéque chegaram à decisão de convidar a jovem em questão paraalmoçar e dizer-lhe, muito amavelmente, o modo como senhoras da classe delas viam essa espécie de comportamento.Foi então que Mrs. Hilbery teve uma idéia melhor.