Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 13 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 12

Mr. Hilbery está, ou Mrs. Hilbery? – perguntouDenham à empregada da casa de Chelsea, uma semana depois.

Não, senhor. Mas Miss Hilbery está – respondeu a moça.

Ralph antecipara muitas respostas, mas não essa, e agora ficava-lhe inesperadamente patente que fora a esperançade encontrar Katharine que o trouxera através de toda essadistância até Chelsea, sob o pretexto de ver seu pai.

Pretendeu considerar por um momento a questão, e foi conduzido, escada acima, para a sala-de-estar. Como da primeira vez, semanas antes, a porta se fechou como se fossem mil portas, que excluíssem o mundo. E uma vez mais Ralph recebeu a impressão de uma sala cheia de sombras profundas, como fogo na lareira, chamas firmes em velas de prata, e largos espaços a cruzar antes de atingir a mesa redonda do centro do aposento,com sua frágil carga de bandejas de prata e xícaras de chá. Dessa vez,porém, Katharine estava só. O livro na sua mão mostrava que não esperava visitas.

Ralph disse alguma coisa sobre a sua esperança de encontrar-lhe o pai.

– Meu pai saiu – replicou ela. – Mas se quiser esperar,deve chegar logo.Podia ter sido apenas por polidez, mas Ralph sentiu que ela o recebia quase com cordialidade. Talvez estivesse aborrecida de tomar chá e ler um livro sozinha. De qualquer maneira, ela atirou o livro num sofá com um gesto de alívio.

– Será um dos modernos que você despreza? – perguntou ele, sorrindo da naturalidade do gesto.

É – respondeu. – Penso que até você o desprezaria.

Até eu? – repetiu ele. – Por que até eu?

– Você disse que gostava das coisas modernas. Eu dis-se que as detestava.Essa não era, talvez, uma reprodução muito fiel da conversa que haviam tido entre as relíquias, mas Ralph ficou lisonjeado de que ela se lembrasse de alguma coisa pelo menos.

– Ou terei confessado que detesto todo e qualquer livro? – continuou ela, vendo-o que levantava a cabeça com um ar de inquisição. – Não me lembro...

– Você detesta todos os livros? – perguntou ele.

– Teria sido absurdo dizer que os detesto todos, quandoapenas li uns dez talvez. Mas... – e aí ela se conteve.

– Então?

– Sim, detesto livros – continuou. – Por que você quer sempre falar de sentimentos? É isso que não entendo. E a poesia é toda sobre sentimentos; romances também podem ser sobre sentimentos.

Ela cortou um bolo, vigorosamente, em fatias, e preparando uma bandeja com pão e manteiga para Mrs.Hilbery que estava presa no quarto com um resfriado,levantou-se para levá-la ao segundo andar.

Ralph manteve a porta, aberta para ela, depois ficou com as mãos apertadas uma na outra no centro da sala.Seus olhos brilhavam e, na verdade, não saberia dizer se contemplavam sonhos ou realidades. Pela rua toda e, ainda, no limiar da porta, ou enquanto subia os degraus, seu sonho com Katharine o possuía. Na soleira da sala despedira-se dele, a fim de evitar uma colisão por demais penosa entre a sua idéia dela e o que ela era. E em cinco minutos ela havia enchido a concha do velho sonho com a carne da vida, e olhado com fogo pelos olhos do fantasma.Ele se via com espanto ali, entre as cadeiras e mesas da casa dela. E eram materiais sólidos, pois pôde pegar no encosto daquela em que Katharine estivera sentada. E,todavia, eram irreais; a atmosfera era de sonho. Reuniu todas as faculdades do seu espírito a fim de captar tudo o que os minutos lhe pudessem dar. E das profundezas da sua mente surdiu, irreprimida, a certeza de que a natureza humana ultrapassa, na sua beleza, tudo o que os mais loucos sonhos podem oferecer como sugestões, alusões.

Katharine entrou na sala um momento depois.Contemplou-a enquanto avançava, e achou-a mais bela e mais estranha do que o sonho que fazia dela. Porque aKatharine real podia dizer as palavras que pareciam amontoar-se por detrás da fronte e no fundo dos olhos,e a maiscomum das frases brilhava com essa luz imortal.Ela como que desbordava os limites do seu sonho; observou que a suamaciez era como a da grande coruja das neves; e que usavaum rubi no dedo.

Minha mãe manda dizer-lhe – disse – que espera tenha começado o seu poema. Ela pensa que todo mundo deve escrever poesia.Todos os meus amigos escrevem poesia – continuou e não posso pensar nisso às vezes, porque, naturalmente, toda essa poesia não vale nada. Mas,também, ninguém precisa ler tais versos...

Você não me encoraja a fazer um poema – disse Ralph.

Mas você também não é poeta. Ou é? – perguntou,com um sorriso.

– Deveria confessar-lhe, se fosse?

– Sim. Porque acho que você diz sempre a verdade, – disse ela, escrutando-o em busca de provas disso, com olhos agora quase impessoalmente diretos. Seria fácil,pensou Ralph, adorar uma pessoa tão remota e ao mesmo tempo tão reta. Fácil submeter-se imprudentemente a ela,sem um só pensamento de dor futura.

– Você é poeta? – perguntou. E ele sentiu que a questão vinha prenhe de sentido oculto, como se ela desejasse resposta para uma pergunta não formulada.

– Não. Há anos que não escrevo versos – respondeu.Mas, assim mesmo, discordo de você. Acho que é a única coisa que vale a pena ser feita.

Por que diz isso? – perguntou ela, quase com impaciência, batendo com a colher três ou quatro vezes na xícara.

Por quê? – Ralph lançou mão das primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Porque, imagino, mantém vivo um ideal que caso contrário, poderia morrer.

Uma curiosa mudança operou-se no rosto dela, como se a chama da sua mente se tivesse, de súbito, velado; e ela o olhou ironicamente, com uma expressão a que ele chamara triste, um dia, à falta de melhor nome.

– Não vejo muito sentido em ter ideais – disse ela.

– Mas você os tem – replicou ele com energia. – Por que chamá-los ideais? É uma palavra estúpida. Sonhos,quero dizer...

Ela acompanhava as suas palavras com os lábios entreabertos, como que para responder com sofreguidão quando terminasse. Mas, quando ele disse: “Sonhos, quero dizer”, a porta da sala se abriu, e permaneceu aberta por um instante perceptível. Os dois ficaram silenciosos, os lábios ainda entreabertos.

Ouviu-se, longe, o farfalhar de saias. Então, a dona das saias surgiu no umbral da porta, que quase encheu inteiramente, escondendo a meio a figura de uma senhora muito menor do que ela, e que a acompanhava.

– Minhas tias! – murmurou Katharine, a meia voz. Seu tom tinha uma nota de tragédia não inferior à que a situação requeria. Ela se dirigiu à maior das senhoras como tia Millicent; a menor era tia Celia, Mrs. Milvain, que chamara a si ultimamente a tarefa de casar Cyril com a mulher dele. Ambas, mas Mrs. Cosham (tia Millicent) em particular, tinham aquele ar de existência elevada, esticada e brunida que é própria de senhoras que fazem visitas em Londres por volta das cinco horas da tarde.Retratos de Romney, vistos através do vidro, têm alguma coisa do seu aspecto maduro e róseo, da sua moleza louçã como a de damascos pendurados contra uma parede vermelha numa tarde de sol. Mrs. Cosham estava tão paramentada, com regalos para as mãos, correntes e panejamentos flutuantes, que era impossível descobrir a forma de um ser humano nessa massa de marrom e preto que enchia a poltrona. Mrs. Milvain era uma figura muito mais delgada. Mas a mesma dúvida quanto às linhas precisas do seu contorno assaltou Ralph, que as contemplava com um lúgubre pressentimento. Que observação sua poderia jamais alcançar esses fabulosos, fantásticos persona-gens? Pois havia algo de fantástico e de irreal nos meneios e trejeitos de Mrs. Cosham, como se seu equipamento incluísse uma enorme mola de aço. Sua voz, embora estridente, tinha uma nota de arrulho que prolongava as palavras e cortava-as de repente, até que a língua inglesa já não parecia servir para o uso habitual. Num primeiro momento, de nervosismo, pensou Ralph, Katharine acendera inúmeras luzes elétricas.Mas Mrs.Cosham ganhara alento (talvez seus movimentos ondulatórios tivessem esse fim em vista) para uma conversação contínua. E agora dirigia-se a Ralph, deliberada e elaboradamente:

– Venho de Woking, Mr. Popham. Poderá muito bem perguntar-me. Por que Woking? E a isso eu respondo,talvez pela centésima vez: por causa do pôr-do-sol. Fomos para lá por causa dos crepúsculos, mas isso foi há vinte e cinco anos atrás. Onde estão os crepúsculos agora? Ai de mim! Não há nenhum pôr-do-sol mais próximo que na South Coast. – Suas notas, sonoras, românticas, eram acompanhadas de um gesto da longa mão muito branca,que, ao acenar, relampejava, com um brilho de diamantes,rubis e esmeraldas. Ralph se perguntava se ela teria maior semelhança com um elefante, com um toucado de jóias,ou com uma soberba cacatua, precariamente equilibrada em seu poleiro, a bicar um torrão de açúcar.

– Por onde andam os crepúsculos agora? – repetia ela.

‒ O senhor vê algum, Mr. Popham?

– Eu moro em Highgate – respondeu ele.

Em Highgate? Sim, Highgate tem seus encantos.Seu Tio John viveu em Highgate – disse, e sacudiu-se na direção de Katharine. Mergulhou depois a cabeça no peito, como que para meditar um minuto. Passado este, levantou os olhos e observou:

Ouso dizer que há ruas muito bonitas em Highgate.Lembro-me de andar por lá com sua mãe, Katharine,através de caminhos floridos com pilriteiros selvagens.Mas por onde andam os pilriteiros? Lembra-se daquela encantadora descrição em De Quincey, Mr. Popham? Mas eu me ia esquecendo, na sua geração, com toda a sua atividade e instrução, em face das quais posso apenas maravilhar-me – e aqui ela exibiu suas duas mãos –, ninguém mais lê De Quincey.Vocês têm seu Belloc,seu Chesterton,seu Bernard Shaw. Por que leriam De Quincey?

Mas eu leio De Quincey – protestou Ralph ‒; mais do que Belloc ou Chesterton, em todo caso.

Com efeito! – exclamou Mrs. Cosham, com um gesto de surpresa e alívio misturados. – O senhor é, então, uma rara avis na sua geração. Fico encantada de encontrar alguém que lê De Quincey.

Aqui ela dobrou a mão como um anteparo e, curvando-se para Katharine, perguntou num cochicho perfeitamente audível: – Seu amigo escreve?

– Mr. Denham – disse Katharine, com mais do que a sua clareza e firmeza habituais – escreve para a Review. Ele é advogado.

– Os lábios descobertos, mostrando a expressão da boca! Eu os reconheci imediatamente! Eu sempre me senti à vontade com advogados, Mr. Denham...

– Eles costumavam freqüentar tanto a gente nos velhos tempos – disse Mrs. Milvain. E as notas delicadas, argentinasda sua voz caíam com o timbre suave de um sino antigo.

– O senhor disse que vive em Highgate – continuou.Imagino que saiba dizer se uma velha casa conhecida como Tempest Lodge ainda existe: uma velha casa branca no meio de um jardim? Ralph sacudiu a cabeça e ela suspirou.

– Ah, não. Devem tê-la demolido a esta altura, como todas as outras velhas casas. Havia tão bonitas alamedas naquele tempo. Foi assim que seu tio conheceu sua tia Emily, sabe? – disse para Katharine. – Eles iam para casa atravessando essas alamedas.

– Com um raminho de espinheiro no chapéu – disse Mrs. Cosham, relembrando.

– E no domingo seguinte, ele tinha violetas na botoeira. Foi assim que nós descobrimos.

Katharine riu. Olhou Ralph. Os olhos dele estavampensativos, e ela ficou a imaginar o que teria encontrado nesses velhos mexericos para ruminar com tal contentamento. Sentiu, não sabia bem por quê, uma estranhapena dele.

– Tio John, sim. ‘Pobre John’, você o chamava sempre.E por quê? – perguntou, para que continuassem falando;não precisavam, aliás, de muito incentivo para fazê-lo.

– Era assim que o pai dele, o velho Sir Richard, sempre o chamava. Pobre John, ou o bobo da família – apressouse em informar Mrs. Milvain. – Os outros rapazes eram tão brilhantes, e ele não conseguia nunca passar nos exames; então mandaram-no para a Índia, uma longa viagem naquela época, pobre sujeito. Você tinha seu próprio quarto, sabe, e a obrigação de arrumá-lo. Mas ele ganhou seu título de cavaleiro, e uma pensão, acredito – disse para Ralph. – Só que não é a Inglaterra.

– Não – confirmou Mrs. Cosham –, não é a Inglaterra.Naquele tempo, pensávamos que ser juiz na Índia correspondia a ser juiz numa cidadezinha do interior, aqui. ‘Sua Honra’, um belo título, mas ainda assim não era o topo da escada. Todavia – suspirou – se você tem mulher e sete filhos, e as pessoas hoje em dia esquecem muito depressa o nome do pai, bem, há que pegar o que for possível – concluiu.

– E eu tenho para mim – retomou Mrs. Milvain, baixando a voz, confidencialmente – que John teria feito melhor não fosse pela mulher, sua tia Emily. Emily era boamulher, devotada a ele, naturalmente, mas não tinha ambição por ele, e quando uma esposa não tem ambição quantoao marido, especialmente numa profissão como a advocacia, os clientes logo ficam sabendo. Na nossa mocidade, Mr.

Denham, costumávamos dizer que sabíamos quais dosnossos amigos chegariam a juízes, só por observar as moçascom que se casavam. Era assim, e acho que será assim sempre. Não penso – acrescentou, resumindo essas observaçõessoltas – , não penso que um homem é realmente feliz a nãoser que tenha sucesso na sua profissão.

Do seu lado da mesa, Mrs. Cosham aprovou esse sentimento com um ar de sagacidade mais ponderável, primeiro sacudindo a cabeça, depois observando:

– Não, homens não são a mesma coisa que mulheres.Alfred Tennyson disse a verdade a respeito disso, como a respeito de muitas outras coisas. Como desejaria que ele tivesse vivido para escrever “O Príncipe” em continuação a “A Princesa”! Confesso que estou quase farta de princesas. Queremos alguém que nos mostre o que um bom homem pode ser. Temos Laura e Beatriz, Antígona e Cordélia, mas não temos um herói homem. Como é que o senhor, como poeta, explica isso, Mr. Denham?

– Eu não sou poeta – respondeu Ralph, de bom humor.

– Sou apenas advogado.

– Mas o senhor escreve também? – perguntou Mrs.Cosham, receosa de que a fossem privar da sua inapreciável descoberta, um jovem verdadeiramente devotado à literatura.

– Nas minhas horas de folga – disse Denham,tranqüilizando-a.

– Nas horas de folga! – fez eco Mrs. Cosham. – Essa é, na verdade, uma prova de devoção. – Ela havia cerrado os olhos, e permitia-se a visão de um advogado, instalado numa água-furtada, a escrever romances imortais à luz de uma vela de sebo. Mas o romance que banhava as figuras dos grandes escritores e iluminava suas páginas não era,no caso dela, uma falsa radiância. Ela carregava consigo seu Shakespeare de bolso, e enfrentava a vida fortificada pelas palavras dos poetas. Até onde ela via Denham, ou até que ponto ela o confundia com algum herói de ficção,seria impossível dizer. A literatura se apoderara até da sua memória. Ela o comparava provavelmente com certos personagens de velhos romances, pois saiu-se, depois de uma pausa, com isto:

– Um, um... Pendennis, Warrington, nunca pude perdoar a Laura – disse energicamente – por não ter casado com George, a despeito de tudo. George Eliot fez a mesmíssima coisa; e Lewes era um homenzinho com cara de sapo e maneiras de bailarino. Mas Warrington, esse, tinha tudo a seu favor: inteligência, paixão, romance, distinção,e a relação foi uma simples brincadeira de estudantes.Confesso que Arthur sempre me pareceu um tanto janota. Não posso imaginar como Laura foi casar com ele! Mas o senhor diz que é um advogado, Mr. Denham.Agora, há uma ou duas coisas que gostaria de perguntarlhe sobre Shakespeare. Ela sacou do seu volume, pequeno e surrado, com certa dificuldade, abriu-o e brandiu-o no ar: – Diz-se, hoje em dia, que Shakespeare era advogado.Diz-se que isso explicaria seu conhecimento da natureza humana. Eis aí um belo exemplo para Mr. Denham.Estude seus clientes, meu rapaz, e o mundo se enriquecerá um destes dias, não tenho a menor dúvida. Diga-me,como vamos indo, agora: melhor ou pior do que o senhor esperava?

Chamado, assim, a resumir a valia da natureza humana em poucas palavras, Ralph respondeu sem hesitar:

– Pior, Mrs. Cosham, muito pior. Lamento dizer que o homem comum é um patife...

– E a mulher comum?

– Não, também não gosto da mulher comum.

– Ah, meu Deus, não tenho dúvida de que isso seja verdade, muita verdade. – Mrs. Cosham suspirou. – Swift teria concordado com o senhor, de qualquer maneira – olhou para ele e pensou distinguir nítidos sinais de poder mentalna sua fronte; faria bem, pensou, se se devotasse à sátira.

– Charles Lavington, o senhor se lembra, era um advogado – interpôs Mrs. Milvain, até certo ponto ressentida com essa perda de tempo a falar de gente fictícia,quando se podia estar a falar de gente viva. – Mas você não se lembraria dele, Katharine.

– De Mr. Lavington? Oh, sim, lembro-me – disse Katharine, acordando de outros pensamentos com o seu pequeno sobressalto. – No verão em que tivemos uma casa perto de Tenby. Lembro-me do campo e do tanque com os girinos, e de fazer montes de feno com Mr.Lavington.

– Ela tem razão. Havia um tanque com girinos – corroborou Mrs.Cosham.– Millais fez estudos dele para Ophelia.Dizem que é o mais belo quadro que ele jamais pintou.

– E me lembro do cachorro, acorrentado no pátio, e das serpentes mortas, penduradas no depósito das ferramentas.

– Foi em Tenby que você foi perseguida pelo touro continuou Mrs. Milvain. – Mas disso você não poderia lembrar-se, embora seja verdade que você foi uma criança esplêndida. Que olhos tinha essa menina, Mr. Denham! Eu costumava dizer ao pai dela: ela nos observa, e pesa todos os prós e contras na sua cabecinha. E eles tinham uma governante naquele tempo – continuou ela, contando sua história, com encantadora solenidade, a Ralph – que era uma boa mulher, mas noiva de um marinheiro.Quando devia prestar atenção à criança, estava com os olhos no mar. E Mrs. Hilbery permitiu a essa moça, Susan era o nome dela, trazê-lo para ficar na aldeia. Eles abusavam da bondade dela, lamento dizer, e enquanto passeavam pelas estradas, deixaram o carrinho abandonado num campo em que havia um touro. O animal se enraiveceu à vista do cobertor vermelho do carrinho, e Deus sabe o que não teria acontecido se um cavaleiro não passasse nesse exato momento e não recolhesse Katharine nos braços.

– Penso que o touro era uma vaca, tia Celia – disse Katharine.

– Minha querida, era um grande touro vermelho do Devonshire, e não muito depois disso destripou um homem,e teve de ser sacrificado.E sua mãe perdoou a Susan,coisa que eu jamais teria feito.

As simpatias de Maggie estavam todas com Susan e com o marinheiro, imagino – disse Mrs. Cosham, azedamente. – Minha cunhada – acrescentou – tem entregue seus problemas à Providência em todas as crises da sua vida; e devo confessar que a Providência tem correspondido com a maior nobreza, até agora...

– Sim – disse Katharine, rindo, porque gostava da irresponsabilidade que irritava o resto da família. – Os touros de minha mãe sempre se transformam em vacas no momento crítico.

Bem – disse Mrs. Milvain –, alegro-me que doravante você disponha de alguém que a proteja de touros – disse Mrs. Milvain.

Não posso imaginar William protegendo alguém contra touros – disse Katharine.

Acontece que Mrs. Cosham tinha mais uma vez sacado da bolsa o seu volume de Shakespeare e consultava Ralph sobre uma passagem obscura de Measure for Measure. Ele não percebeu no primeiro momento o sentido do que Katharine e sua tia diziam. William, supôs,seria algum dos priminhos,pois via agora Katharine como um bebê, numa camisa-de-pagão. Apesar disso, ficou tão perturbado, que seus olhos mal podiam seguir as palavras no papel. Um momento depois, ouviu-as falar distintamente de um anel de noivado.

– Eu gosto de rubis – ouviu Katharine dizer.

 

“Sentir-se prisioneira dos ventos implacáveis,

e lançada com incessante violência em roda

desse mundo suspenso...”

entoou Mrs. Cosham. No mesmo instante, Rodney ajustou-se a William na mente de Ralph. Ficou certo de que Katharine estava noiva de Rodney. Sua primeira sensação foi de raiva violenta para com ela, por enganá-lo durante toda essa visita, alimentando-o de amáveis contos da carochinha, deixando que ele a visualizasse como uma criança a brincar numa campina, partilhando sua infância com ele, enquanto todo o tempo não passava de uma perfeita estranha, comprometida com Rodney para casar-se!

Mas seria isso possível? Certamente não era possível.Pois aos seus olhos ela era ainda uma menina. Fez tão longa pausa a examinar o livro, que Mrs. Cosham teve tempo de olhar por cima do ombro dele e perguntar à sobrinha:

– E você já decidiu alguma coisa com respeito à casa,Katharine?

Isso o convenceu da verdade da monstruosa idéia. Levantou a cabeça imediatamente e disse:

– Sim, é uma passagem difícil.

Sua voz mudara tanto, falou de maneira tão curta e mesmo com tal desprezo, que Mrs. Cosham olhou-o, levemente surpresa. Felizmente, ela pertencia a uma geração que esperava grosseria dos seus homens, e apenas se convenceu de que esse Mr. Denham era muito, muito esperto. Ela apanhou o seu Shakespeare, pois Denham parecia não ter mais nada a dizer, e escondeu-o de novo na sua pessoa, com a resignação infinitamente patética dos velhos.

– Katharine está noiva de William Rodney – disse, como que para encher a pausa –, velho amigo nosso. Ele também tem um conhecimento maravilhoso de literatura, maravilhoso. Sacudiu a cabeça um tanto vagamente. – Vocês deveriam travar conhecimento.

O único desejo de Denham era deixar a casa o mais depressa possível; mas as duas senhoras idosas se tinham posto de pé, e dispunham-se a visitar Mrs. Hilbery no quarto, de modo que qualquer ação de sua parte seria impossível. Ao mesmo tempo, desejava dizer alguma coisa,não sabia o quê, a Katharine, quando só. Ela acompanhou suas tias ao andar superior, e voltou, dirigindo-se a ele uma vez mais com um ar de inocência e amizade que o deixaram pasmo:

– Meu pai virá – disse. – Não quer sentar-se? – e riu,como se pudessem os dois, agora, partilhar um riso de perfeita camaradagem, num chá.

Mas Ralph não fez menção de sentar-se.

– Devo felicitá-la – disse. – Foi novidade para mim.

Viu que o rosto de Katharine mudava, mas apenas para ficar ainda mais grave do que antes.

– Meu noivado? – perguntou ela. – Sim. Vou casar com William Rodney.

Ralph permaneceu de pé, com a mão no encosto da cadeira, em absoluto silêncio. Abismos pareciam mergulhar em escuridão entre eles. Olhou-a, mas o rosto dela mostrou que não pensava nele. Nem o remorso nem a consciência de ter feito mal a perturbavam.

– Bem, tenho de ir-me – disse ele, por fim.

Ela pareceu prestes a acrescentar, alguma coisa, depois mudou de idéia, e disse simplesmente:

– Você voltará, espero. Parece que – hesitou – somos sempre interrompidos.

Ralph curvou-se e deixou a sala.

Caminhou com extrema rapidez ao longo do Embankment. Cada um dos seus músculos estava tenso como que para resistir a algum súbito ataque do exterior. Nomomento, parecia que o ataque seria desferido contra o seu corpo, e seu cérebro punha-se, então, alerta, mas sem compreender.Achando-se,depois de uns pouco minutos,livre deobservação, e não tendo sobrevindo qualquer ataque, relaxou passo, a dor se espalhou através dele, tomou conta de todosos centros de ação,e não encontrou quase nenhuma resistência por parte das faculdades exaustas pelo primeiro esforçode defesa. Ralph fez seu caminho languidamente, ao longodo terrapleno, afastando-se de casa ao invés de aproximarsedela.O mundo o tinha à sua mercê.Nada do que via lhe faziasentido. Sentia-se nesse momento, como imaginara muitavez quanto a outras pessoas, vogar ao sabor da corrente, e longe de poder dominá-la . Um homem que perdera o governo das circunstâncias. Velhos gastos, vadiando à porta debares, pareciam-lhe agora seus semelhantes, e sentia, comoimaginava que sentissem, um misto de inveja e rancor diantedaqueles que passavam,apressados e,sem dúvida,com destino certo. Eles também viam as coisas como frágeis e sombrias, e podiam ser varridos da face da Terra pelo mais levesopro de vento. Porque o mundo substancial, com suas paisagens de largas avenidas, que levavam além, para a invisíveldistância, escapara-lhe, agora que Katharine estava noiva.Toda a sua vida era de repente visível, e o caminho, reto eestreito, chegaria depressa ao termo. Katharine estava noiva,e o enganara. Procurou escaninhos da sua alma que não tivessem sido afetados pelo desastre, mas não havia limitespara as avarias, e nada do que era ou possuía estava agora asalvo. Katharine o enganara. Misturara-se a cada pensamento seu, e sem ela eles lhe pareciam falsos pensamentos, queteria pejo de pensar outra vez. Sua vida quedara imensuravelmente empobrecida.

Sentou-se num dos bancos da beira do rio, apesar do nevoeiro gelado que escondia a outra margem e deixavasuspensas as luzes por cima de uma superfície vazia e branca, e permitiu que a maré da desilusão o varresse. No momento, todos os pontos brilhantes de sua vida estavam obliterados; todas as saliências, niveladas. Inicialmente, forçou-se a acreditar que Katharine o tratara mal; e tirouconsolo do pensamento de que, uma vez deixada a sós, elairia rever isso, e pensar nele, e oferecer-lhe, pelo menos emsilêncio, uma desculpa. Mas essa migalha de conforto desertou-o depois de um ou dois segundos, pois, com a reflexão, viu-se obrigado a admitir que Katharine nada lhe de-via; Katharine nada prometera, nada tomara; para ela, ossonhos dele nada significavam. Isso, na verdade, era o maisbaixo grau de intensidade do seu desespero. Se o melhordos nossos sentimentos nada significa para a pessoa maisenvolvida neles, que realidade nos é deixada? O velho romance, que aquecera os seus dias, os pensamentos de Katharine, que tinham colorido todas as suas horas, pareciam agora tolos e esmaecidos. Levantou-se para mirar orio, e o rio lhe pareceu, no curso rápido das suas águas pardas, o próprio espírito da futilidade e do esquecimento.

Em que confiar, então? – pensou, debruçado ao parapeito; e tão fraco e incorpóreo se sentia, que repetiu a palavra em voz alta.

Em que pode alguém confiar? Não em homens e mulheres. Não nos próprios sonhos a respeito deles. Não resta nada, nada, absolutamente.

Agora, Denham bem sabia da sua capacidade de engendrar e alimentar uma bela fúria, quando queria. Rodney oferecia um bom alvo para essa emoção. E, todavia, no momento, Rodney e a própria Katharine eram como fantasmas desencarnados. Lembrava-se até com dificuldade do aspecto que tinham. Sua mente afundava-se mais e mais. Ocasamento já lhe parecia sem importância. Todas as coisasse haviam transformado em sombras; toda a massa do mundo se fez vapor sem substância, em derredor da solitária centelha da mente, esse ponto ardente de que se podiajustamente lembrar por ter cessado de arder. Havia acarinhado uma crença e Katharine a corporificava e deixava,agora, de corporificar. Não lhe censurava isso, não censurava nada nem ninguém. Via a verdade. Via a água barrentae a praia deserta. Mas a vida é vigorosa; o corpo vive e era ocorpo, sem dúvida, que ditava a reflexão que o fez mover-se.A gente pode, afinal, deitar fora as formas dos seres humanos e reter, no entanto, a paixão – que antes parecera inseparável do seu invólucro carnal. Agora essa paixão queimava no horizonte, como um sol de inverno a abrir no poenteuma janela verde através de nuvens que se adelgaçam. Seusolhos estavam postos em alguma coisa infinitamente longínqua, remota. Com essa luz achava que seria possível caminhar; e com ela haveria de encontrar, no futuro, o seu caminho. Era tudo o que lhe restara de um mundo populoso e fervilhante.