Noite e Dia
Capítulo 34
As lâmpadas haviam sido acesas; seu brilho refletia-se na madeira lustrosa; bom vinho era passado em torno da mesa de jantar; antes que a refeição estivesse adiantada, já a civilização triunfara, e Mr. Hilbery presidia a um festim que tomava aos poucos um aspecto alegre e ao mesmo tempo grave que muito augurava para o futuro. A julgar pela expressão dos olhos de Katharine, prometia – mas procurou refrear a abordagem sentimental. Serviu o vinho; sugeriu a Denham que se servisse ele mesmo.
Subiram, e viu que Katharine e Denham se retiravam logo que Cassandra perguntou se não deveria tocar alguma coisa – um pouco de Mozart? Beethoven? Sentouse ao piano; a porta fechou-se docemente atrás deles. Osolhos de Mr. Hilbery ficaram firmes na porta fechada,por alguns segundos, mas aos poucos o olhar de expectativa apagou-se neles e, com um suspiro, pôs-se a ouvira música.
Katharine e Ralph haviam concordado sem mais do que uma ou duas palavras sobre o que desejavam fazer, e num momento ela se tinha reunido a ele vestida para sair.A noite estava parada e enluarada, boa para caminhar,embora qualquer noite lhes tivesse parecido favorável,pois desejavam mais que tudo movimento, silêncio, liberdade de pensamento, e ar livre.
– Enfim! – respirou Katharine, quando a porta da rua se fechou. Disse-lhe de como esperara e hesitara, pensando que ele não mais voltaria; de como escutara pelo som de portas; da esperança de vê-la, debaixo do poste, a contemplar a casa. Voltaram-se juntos para olhar a serena fachada com suas janelas debruadas de ouro, que era para ele o santuário de tanta adoração. A despeito do riso dela e da leve pressão de zombaria em seu braço, não abandonava sua fé, mas com a mão dela no seu braço, e a voz mais rápida e misteriosamente comovente nos ouvidos,não tinha tempo, não tinha a mesma inclinação, outros objetos lhe atraíam a atenção.
Não saberiam dizer como se viram de repente descendo uma rua com uma infinidade de lâmpadas, com esquinas radiantes de luz, por onde deslizava, nos dois sentidos,uma contínua procissão de ônibus; nem explicar o impulso que os levou, a ambos, a escolher subitamente um desses veículos e subir até a imperial. Ocuparam os lugares da frente. Após inúmeras curvas em ruas tomadas de escuridão, tão estreitas às vezes, que as sombras das persianas passavam a poucos pés dos seus rostos, chegaram a um desses grandes entroncamentos, onde as luzes, que se tinham juntado, separaram-se outra vez, escassearam e seguiram para os seus diversos destinos. Deixaram-se levar até que viram as flechas das igrejas da cidade, pálidas e chatas contra o céu.
– Você está com frio? – perguntou ele, quando para-ram à altura de Temple Bar.
– Sim, um pouco – respondeu ela, tomando consciênc:ade que a esplêndida corrida de luzes a deslizar diante dosseus olhos pelas soberbas curvas e guinadas do monstro emque se sentava, chegara ao fim. Haviam seguido um cursosemelhante em seus pensamentos também; haviam sido levados,vitoriosos,na frente de um carro triunfal,espectadoresde um espetáculo montado para eles, senhores da vida. Depé, agora, a sós, na calçada, a exaltação os deixou; estavamcontentes de estar sozinhos. Ralph ficou parado um momento para acender o cachimbo, debaixo de uma lâmpada.Ela contemplou seu rosto, isolado, no pequeno círculo de luz.
– Oh, aquele cottage – disse. – Temos de alugá-lo, e ir para lá.
– E deixar tudo isso?
– Como você quiser – respondeu ela. E pensou, olhando o céu por cima de Chancery Lane, que o teto era o mesmo em toda parte; que ela se garantira, agora, tudo o que esse sublime azul e suas luzes perenes significavam para ela: seria a realidade? Números, amor, verdade?
– Tenho um peso na consciência – disse Ralph abruptamente. – Quero dizer, estive pensando em Mary Datchet.Você se importaria se fôssemos até lá?
Ela fez meia volta antes de responder-lhe. Não tinha desejo de ver ninguém, essa noite; parecia-lhe que a imensa charada fora decifrada; o problema estava resolvido:tinha nas mãos, por um breve momento, o globo que passamos a vida tentando moldar, redondo, inteiro e intacto, da confusão do caos. Ver Mary era arriscar a destruição desse globo.
– Você a tratou mal? – perguntou, um tanto mecanicamente, enquanto andava.
– Posso defender-me – disse, quase desafiadoramente.Mas de que serve quando a gente sente uma coisa? Não me demorarei um minuto. Vou apenas dizer-lhe...
– Naturalmente você tem de dizer-lhe – respondeu Katharine, e sentiu-se então ansiosa de que ele fizesse o que julgavanecessário para que tivesse também nas mãos o seu globo,porum momento que fosse, redondo, íntegro e inteiro.
– Desejaria, desejaria... – suspirou, pois que a melancolia a submergiu e obscureceu pelo menos uma seção da sua clara visão das coisas. E o globo dançou à frente dela como que toldado de lágrimas.
– Não tenho remorso de coisa nenhuma – disse Ralph,firmemente. Ela se debruçou para ele, quase como se pudesse ver, assim, o que ele via. Pensou quão obscuro ele ainda era, salvo que, mais e mais frequentemente, ele lhe aparecia agora como um fogo a queimar através do seu fumo, uma fonte de vida.
– Continue – disse. – Não tem remorso...
– De coisa nenhuma, nenhuma – repetiu.
“Que fogo!”, pensou ela consigo. E imaginou-o ardendo esplendidamente dentro da noite, e, todavia, tão obscuro, que pegar-lhe o braço, como tinha feito agora, era tocar apenas a substância opaca que envolvia a chama – chama que rugia, lançando-se para o alto.
– Por que de coisa nenhuma? – perguntou apressadamente. Queria apenas que ele dissesse mais, e fizesse, desse modo, mais esplêndida, mais rubra, mais densamente entremeada de fumaça, a chama que subia com estrépito.
– Em que pensa, Katharine? – perguntou ele, desconfiado, notando seu ar sonhador e as palavras ineptas.
– Pensava em você; sim, juro. Sempre em você, mas você assume tão estranhas formas na minha mente! Você destruiu minha solidão. Deverei dizer-lhe como é que o vejo? Não, diga-me você – e do começo.Com palavras espasmódicas, a princípio, ele conseguiu falar mais e mais fluentemente, mais e mais apaixonadamente, sentindo-a que se inclinava para ele, ouvindo maravilhada, como criança, com gratidão, como mulher. Interrompia-o gravemente de quando em quando.
– Mas foi tolo ficar na rua a olhar as janelas. Suponha que William não o tivesse visto. Você teria ido dormir? Ele revidou dizendo do seu espanto que mulher da idade dela pudesse ter ficado em Kingsway a olhar o tráfego até esquecer-se de tudo.
– Mas foi então que descobri que amava você! – exclamou ela.
– Conte-me desde o começo – implorou ele.
– Não. Não sou pessoa capaz de contar coisas – disse,suplicante. – Eu diria alguma coisa ridícula, alguma coisa sobre chamas, fogo. Não, não posso falar disso.
Mas ele a persuadiu a fazer uma declaracão entrecortada, que para ele era bela, carregada de extrema excitação quando ela disse do escuro fogo vermelho, e do fumoenrolado em tomo dele, fazendo-o sentir que assomava ao limiar de uma outra mente, cuja vastidão, debilmenteiluminada, agitava-se com formas tão grandes, tão indistintas, que apenas se revelavam num relâmpago paramergulhar outra vez na escuridão, engolfadas por ela.Tinham chegado, a essa altura, à rua em que moravaMary, e absortos no que diziam e entreviam, passaram osdegraus da casa dela sem levantar os olhos. A essa horada noite não havia tráfego, e os transeuntes eram poucos,de modo que podiam caminhar vagarosamente e sem interrupção, de braços dados, levantando as mãos de espaço em espaço para desenhar alguma coisa contra a vastacortina azul do céu.
Atingiram assim, num estado de profunda felicidade,uma tal lucidez, que o levantar de um dedo tinha efeito, e uma palavra valia mais que uma sentença. Derivaram, depois, suavemente, para o silêncio, percorrendo lado a lado as escuras veredas do pensamento em direção a alguma coisa que discerniam a distância, e que gradualmente os foi possuindo. Tinham vencido, eram donos na vida, mas ao mesmo tempo absorviam-se na chama, dando a vida para intensificar-lhe o brilho e dar testemunho da própria fé. Passaram, assim, de um lado para o outro, duas ou três vezes, pela rua de Mary Datchet antes que a recorrência de uma luz que ardia atrás de um estore fino, amarelo, os fizesse parar, sem se darem conta da razão por que o faziam. Mas essa razão acendeu-se neles:
– É a luz do apartamento de Mary – disse Ralph. – Ela deve estar em casa – e apontou do outro lado da rua. Os olhos de Katharine demoraram-se lá também.
– Estará só a essa hora da noite? Em que se ocupará?imaginou.– Devemos interrompê-la ? – perguntou com paixão. – O que temos para dar-lhe? Ela é feliz, também. Temseu trabalho. – Sua voz tremeu um pouco, e a luz dançou,como um oceano de ouro, para além das suas lágrimas.
– Você não quer que eu vá? – perguntou Ralph.
– Vá, se quiser; diga-lhe o que quiser – respondeu.
Ele atravessou a rua imediatamente, e subiu os degraus da casa de Mary. Katharine ficou onde a deixara, olhando para a janela e esperando ver logo uma sombra mover-se através dela; mas nada viu; o estore nada revelou; a luz não se moveu. Era como um sinal, para além da rua; um sinal de triunfo, que brilharia, ali, para sempre, que não seria extinto, deste lado da cova. Ela brandiu a sua felicidade, como se saudasse; fê-la mergulhar, depois, em reverência.“Como ardem!” – pensou, e toda a escuridão de Londres pareceu pontilhada de fogos que subiam para o céu, queimando; mas seus olhos retomaram à janela de Mary e ficaram lá, satisfeitos. Tinha esperado algum tempo, quando uma figura se destacou do umbral e cruzou a rua, devagar, relutantemente, para onde ela se encontrava.
– Não entrei,não pude – disse.Tinha estado à porta de Mary sem conseguir tocar; se ela tivesse saído, tê-lo-ia encontrado lá, com lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto, incapaz de falar.
Ficaram alguns momentos a contemplar os estores iluminados, expressão para ambos de alguma coisa impessoale serena no espírito da mulher que estava lá dentro, elaborando seus planos noite adentro – seus planos para o bemde um mundo que nenhum deles jamais conheceria. Então,suas mentes saltaram à frente e outras figurinhas surgiramem procissão, encabeçadas, segundo Ralph, pela figura deSally Seal. – perguntou. Katharine curvou a cabeça.
– Você se lembra de Sally Seal?
– Sua mãe e Mary? – continuou ele – Rodney e Cassandra? A querida Joan, lá em cima, em Highgate? Parou com a enumeração, não achando possível combinálas de nenhuma maneira que explicasse as estranhas afinidades que neles encontrava, quando pensava neles. Pareciam-lhe mais do que indivíduos; era como se fossem feitos de muitas diferentes coisas combinadas; ele tinha a visão de um mundo organizado.
– É tudo tão fácil,tão simples – citou Katharine,lembrando algumas palavras de Sally Seal, e querendo que Ralphentendesse que ela acompanhava seu raciocínio. Sentia que ele tentava juntar, de maneira laboriosa, elementar, os fragmentos de crença, soltos e separados, a que faltava a unidadedas frases fabricadas pelos velhos crentes. Ela e ele, juntos,andaram às cegas nessa difícil região, onde o inacabado, onão-cumprido, o não-escrito, o não-retribuído, juntavam-seà sua fantasmagórica maneira e assumiam o aspecto do completoe dosatisfatório.Ofuturoemergia,mais esplêndido do que nunca, dessa construção do presente. Havia que escreverlivros, e como livros têm de ser escritos em casas, e casas têm de ter alfaias, e fora das janelas tem de haver terra, e um horizonte para essa terra, e árvores talvez – e uma colina, desenharam uma casa para eles contra as silhuetas dos grandesedifíciosde escritórios do Strand,e continuaram a planejar o futuro no ônibus que os levou para Chelsea; e, todavia, paraambos, o futuro dançava miraculosamente à luz dourada de uma grande lâmpada, fixa e inabalável.
Como a noite já ia avançada, tinham todos os lugares da imperial à sua diposição; e as ruas estavam desertas,salvo por um ou outro casal esporádico, que, mesmo à meia-noite, dava a impressão de esconder suas palavras do público. A sombra de um homem não mais cantava à sombra de um piano. Umas poucas luzes ardiam ainda em janelas de quartos, mas eram extintas, uma a uma, quando o ônibus passava por elas.
Desceram e caminharam ao longo do rio. Ela sentiu o braço dele endurecer debaixo da sua mão e soube, por esse sinal, que entravam na região encantada. Ela poderia falar-lhe; mas com aquele estranho tremor na voz, aqueles olhos de cega adoração, a quem estaria ele respondendo? Que mulher veria? E onde andava ela e quem era o seu companheiro? Momentos, fragmentos, um segundo de visão e, então, o tumulto das águas, os ventos que se dissipavam, dissolviam; então, também, o retorno, o fim do caos, a volta da segurança, a terra firme, soberba, rebrilhante ao sol. Do coração da treva ele proferiu a sua ação de graças; de uma região igualmente longínqua e escondida, ela lhe respondeu. Numa noite de junho, os rouxinóis cantam, respondendo um ao outro através da planície; são ouvidos debaixo das janelas, por entre as árvores,no jardim. Detendo-se, eles contemplaram o rio, que carregava sua escura massa de águas, sem-cessar movente,muito abaixo deles. Voltaram-se, depois. Estavam em frente à casa.Tranquilamente,examinaram o lugar amigo,de lâmpadas acesas,à sua espera,talvez,ou porque Rodney estaria ainda lá, falando com Cassandra. Katharine empurrou a porta a meio e deteve-se no limiar. A luz brilhava em grãos dourados sobre a densa penumbra da casa silenciosa e adormecida. Por um momento esperaram, depois soltaram as mãos. – Boa noite, disse ele num sopro. – Boa noite – ela murmurou em resposta.
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