Noite e Dia
Prefácio
Noite e Dia é o segundo romance de Virginia Woolf.Experimentalista por excelência, depois do parto difícil quefora A Viagem, seu primeiro livro, Noite e Dia (Night and Day) foi sua tentativa de escrever um romance convencional. No primeiro ela brincara com fogo, conjurando algunsdemônios que habitavam sua mente – como dirá um de seus biógrafos – e sofrera a maior crise mental até então.Por isso, no segundo romance preferiu embarcar em algosadio e quieto, uma obra recuperadora. Certo. De sua história durante a feitura de Noite e Dia consta que ela sofreraapenas as dores da extração de dois dentes e, bem depois,uma gripe que a mandou para a cama duas semanas.
Mas, como em todos os seus romances, do primeiro aoúltimo,neste também ela não deixou de recorrer à sua própriahistória e a de parentes,amigos,conhecidos,antepassados,assim como a observância comportamental da gente povo, que,de algum modo,fazia parte de sua experiência de vida.Virginiasempre foi uma caminhante apaixonada, fosse no campo, napraia ou nas ruas de sua adorada Londres. Em 1917 ela voltaa escrever, quase semanalmente, resenhas para The Times Literary Supplement.Nesse mesmo ano ela e o marido Leonard, vivendo em uma casa chamada Hogarth House, no subúrbio de Richmond,fundam a editora Hogarth Press,que,segundovisitantes, vai atravancando inclusive a sala. Para ocuparVirginia,distraindo-a de problemas de saúde mental,Leonardcomprou uma pequena impressora de segunda mão. Virginiapassa então a se ocupar, também, de um trabalho manual: elamesma mete a mão na massa, ou seja, compõe, com tipos, aspáginas,assim como aprende a lidar com a tinta de impressão.O casal começa, amadoristicamente, por publicar pequenoslivros de pequena tiragem.Originais de escritores amigos e de alguns outros por estes indicados. Nesse mesmo ano ela começa a esboçar Noite e Dia.
No ano seguinte,1918,enquanto o romance vai tomando forma, a editora vai ganhando credibilidade. Virginia eLeonard Woolf recebem originais até de autores que nãoconhecem pessoalmente. Recebem, por exemplo, o manuscrito de Ulysses. Virginia, embora com ressalvas, reconhecevalor no livro mas a editora ainda não tem capacidade técnica de publicar livro tão volumoso. Mesmo o romance que elaestá a escrever terá mais de 500 páginas e terá [ainda] que serpublicado pela editora do meio-irmão Gerald Duckworth,editora de grande porte e que em 1915 publicara A Viagem.
Mas, entre os pequenos volumes publicados pela editora de Virginia e Leonard, o primeiro livro de poemas de T.S. Eliot e a noveleta Prelúdio, 68 páginas, de Katherine Mansfield – com quem Virginia tem bastante convívio e com quem mantém um relacionamento ambivalente de mútua admiração e inveja. Mansfield, que gostara de A Viagem, odiou Noite e Dia. Em sua crítica demolidora, publicada no Athenaum, refutou o livro como “antiquado”dando a entender que nele Virginia se mostrava alienada ao ignorar a realidade da guerra etc. Depois se arrependeu e as duas continuaram o relacionamento ambíguo.
Nesse tempo Virginia freqüenta Garsington, o solar campestre do casal Philip e Ottoline Morrell, perto de Oxford.Nos anos da primeira guerra o solar é um refúgio de pacifistascultos, ilustrados e de estirpe. A excêntrica Lady Ottoline recebe e hospeda em sua mansão no campo figuras brilhantescomo Aldous Huxley,Lytton Strachey, o pintor Henry Lamb, o economista Maynard Keynes e o filósofo Bertrand Russell,com quem Ottoline mantém caso extra-conjugal. E tambéma Mansfield, o Eliot e muitos outros, gente selecionada pelafeérica Ottoline.Um que a essa altura Ottoline já não permitiaentrada em casa era D.H.Lawrence.O autor a expusera como personagem em Mulheres Apaixonadas e Ottoline se magoaracom a exposição. Mais tarde ela também se ofenderá com Huxley. Aldous a fez sentir-se denegrida ao inspirar-se nela e em Garsington para uma das personagens e cenário de seu romance A Feira de Crome (Crome Yellow).
E com grande prazer Virginia continuava o Noite e Dia. Durante o período em que deslancha o livro ela quase nadaescreve no diário sobre o trabalho em progresso. Em compensação, quando termina de escrevê-lo, ela quase não escreve sobre outra coisa nas páginas do diário desses dias.
Novembro de 1918 trouxe o armistício e também o final de Night and Day.Em 1º de junho de 1919 o casalcompra, num leilão, por 700 libras, a Monk’s House, no vilarejo de Rodmell, em Sussex, casa que será, para o restode sua vida, a residência campestre do casal. Uma casa atémodesta mas com um vasto jardim. Nessa casa, Virginia eLeonard hospedarão amigos e receberão visitantes famosose/ou importunos. Monk’s House é hoje é uma casa visitável: a casa de Virginia Woolf e o belo jardim de Leonard.Fica a uma hora de trem, de Londres até Lewes, donde ao lado da estação um táxi levará a Rodmell e à casa, mantida, assim como tantas outras casas famosas inglesas, pelo National Trust. No quarto de Virginia obras dela em todasas línguas, inclusive, entre as brasileiras, Noite e Dia, primeira edição pela Nova Fronteira, 1979, tradução de Raulde Sá Barbosa, tradução que o leitor terá o maior prazer deler, nesta nova edição, pela Novo Século, 2008. Vale lembrar, já que chegamos tão longe, que o editor das duas edições, a de 1979 e a de 2008, é o mesmo: Pedro Paulo de Sena Madureira, quem, pela quantidade e qualidade deobras dela por ele editado, é, por excelência, o mais prolíficoeditor de Virginia Woolf no Brasil.
Virginia Woolf estava com 37 anos quando Night and Day foi publicado, em 1919. O romance começa com a filhada casa servindo chá aos mais velhos. A personagem que se segue ao longo é Katharine Hilbery,“cuja mocidade é absorvida pelo passado, freqüentemente sentindo-se como que pertencendo ao mundo dos mortos, como se fosse um fantasma entre os vivos”, segundo Hermione Lee, autora damais extensa biografia de Woolf. E a biógrafa escreveu: “Virginia satirizou relacionamentos familiares, fazendo umaanálise da tirania e da hipocrisia dos pais vitorianos.Virginiafaz entender que a possibilidade de escrever sobre o passadode modo pessoal e não-oficial resulta em arte no seu próprio direito. Uma arte extraída das reminiscências.”
Noite e Dia é um romance na linhagem da tradição inglesa de grandes novelistas como Jane Austen,Charlotte Brontëe George Eliot. Os personagens são puro deleite para o lei-tor. A Sra. Hilbery, mãe de Katharine, a heroína, foi inspirada em uma tia torta de Virginia, de muito convívio em seusanos de menina e moça (e mesmo depois, já casada), a tiaAnny Thackeray. O primeiro casamento de Leslie Stephen,pai de Virginia,foi com Minny,a filha mais nova do autor de Vanity Fair (Feira de Vaidades). Mesmo depois de viúvo ecasado em segunda núpcias com Julia Duckworth, tambémviúva e com quem terá quatro filhos,um deles Virginia.também viúva, todos continuaram muito ligados à cunhada de Leslie, tia Anny. Muito animada e presente, ela própria umaromancista, Anny Thackeray foi uma grande influência emVirginia e serviu de inspiração para a personagem da Sra.Hilbery em Noite e Dia. Segundo Quentin Bell, o romancepode ser lido como um tributo à tia Anny. E Quentin contaem sua biografia da tia Virginia Woolf: “A Sra. Hilbery é umretrato bastante correto de tia Anny. Ela própria era umaromancista de obras tênues e encantadoras em que a narrativa tendia a se perder.Vaga,errática,insinuante.Um de seustalentos consistia em provocar as pessoas com seu otimismojuvenil, vigoroso e animado.”
Como num romance “clássico”,em Noite e Dia,Virginia Woolf atira o leitor dentro de uma sociedade, seus costumes, sua linguagem, num jogo de poder e contestação,através do amor entre Katharine Hilbery e Ralph Denham -advogado, intelectual e burguês. E o enredo se desenrola num estilo ao mesmo tempo sólido e etéreo.
Noite e Dia é um belo e elegante romance de leitura prazerosa. E a tradução brasileira de Raul de Sá Barbosa é uma obra-prima. Em sua resenha do livro, publicada no CadernoB do Jornal do Brasil em 11 de agosto de 1979, escreveuGastão de Holanda: “Conhecendo o inglês profundamente,Raul de Sá Barbosa [com Noite e Dia] pode ombrear-se aostradutores brasileiros que desempenharam papel histórico em nossa literatura.”E cita nomes:Cecília Meireles,Manuel Bandeira, Mário Quintana, Otávio Mendes Cajado, CarlosDrummond de Andrade, Onestaldo de Pennafort, Paulo Rónai e outros. E dá um exemplo: ‘It was past eleven and the clocks had come into their reign...’ “[Raul de Sá Barbosa] encontrou uma perfeita equivalência entre ‘into the reign’ e ‘começava a reinação dos relógios’.”
Sim, Noite e Dia é um romance em que Virginia Woolf experimenta o tradicional. E, indubitavelmente, quem sai ganhando é o leitor. Mas Virginia, ela mesma, não era de deitar sobre os louros. Sua próxima aventura será modernista. Em 1922, ano da publicação de Ulysses de Joyce e da Semana de Arte Moderna em São Paulo, Woolf lançará, e agora por sua própria edi t or a, O Quarto de Jacob, seu primeiro romance decididamente modernista.
Antonio Bivar
Membro do The Virginia Woolf
Society of Great Britain