Noite e Dia
Capítulo 6
De todas as horas de um dia comum de trabalho, quais as que mais agradam antegozar e trazer de volta à memória?Se um único exemplo pode servir para formar uma teoria,então cabe dizer que os minutos entre nove e vinte e cincoe nove e trinta da manhã tinham um encanto particularpara Mary Datchet. Ela os passava numa disposição invejável; seu contentamento era quase sem mistura. Alto no ar,como seu apartamento ficava, alguns raios de sol o tocavam,mesmo em novembro. E batendo direito na cortina, cadeira e tapete, pintavam três brilhantes listras de verde, anil e púrpura, nas quais o olho se demorava com um prazer que davacalor físico ao corpo.
Eram poucas as manhãs em que Mary não levantava os olhos, no momento de atar as suas botas, e, ao acompanhar o bastão amarelo desde a cortina até a mesa do café, costumava soltar um suspiro de ação de graças por lhe dar a vidatais momentos de puro prazer. Não tirava nada a ninguémcom isso, e, todavia, o poder extrair tanto prazer das coisassimples, como tomar café sozinha num quarto que tinhabonitas cores, que era limpo desde o rodapé do soalho até astábuas do teto, parecia convir-lhe tanto, que ela procuravade começo alguém a quem pedir desculpas ou alguma falhaque quebrasse a harmonia da situação. Fazia seis meses agora que estava em Londres, e não achara ainda nenhuma falha, mas isso, concluía sempre ao terminar de amarrar asbotas, isso se devia única e exclusivamente ao fato de ter um emprego.Todo dia,ao postar-se de pasta na mão à porta doquarto para um último olhar a ver se tudo estava em ordem antes de sair, dizia consigo mesma que estava muito contente de ter de deixar tudo aquilo; pois ficar sentada ali o diainteiro, no gozo do lazer, teria sido intolerável.
Fora,na rua,gostava de pensar em si mesma como um dosoperários que, à mesma hora, dirigem-se rapidamente e emfila indiana ao longo das largas avenidas da cidade, com a cabeça levemente baixa,como que no esforço de se seguirem um ao outro tão de perto quanto possível; de tal modo que Maryimaginava um caminho de rato traçado no calçamento peloseu constante tropel.Gostava de imaginar-se indistinguível doresto, e assim, quando um dia de chuva a levava ao metrô ouao ônibus, dava e tomava sua parcela de multidão e de águacom funcionários e datilógrafos e empregados do comércio epartilhava com eles o negócio muito sério de dar corda aomundo para que andasse mais vinte e quatro horas.
Pensando assim, na manhã em questão, ela seguiu seucaminho através de Lincoln’s Inn Fields e Kingsway acima, por Southampton Row até que chegou ao seu escritório emRussell Square. De vez em quando se detinha e olhava avitrine de alguma livraria ou de alguma loja de flores onde,nessa hora matinal, as mercadorias estavam ainda a ser arranjadas, e grandes vazios por detrás do vidro revelavam umestado de nudez. Mary simpatizava com os donos das lojas,e esperava que conseguissem atrair a massa do meio-dia efazê-la comprar, porque nessa hora da manhã ela se alinhava inteiramente com lojistas e bancários, e olhava como inimigos comuns e presa natural todos os que acordavam tardee tinham dinheiro para gastar. E logo que cruzava a rua emHolborn, seus pensamentos voltavam-se natural e regularmente para o seu trabalho, e ela se esquecia de que era apenas, para dizer a verdade, uma trabalhadora amadora, cujosserviços não eram remunerados, e que dificilmente poderiaser tida como co-responsável pela tarefa de dar corda aomundo, uma vez que o mundo, até então, mostrara pouquíssimo desejo de aproveitar-se das vantagens que lhe ofereciaa sociedade de Mary em prol do voto feminino.
Ela pensou todo o tempo, até Southampton Row, em papel de rascunho e envelopes, e em como economizar pa-pel (sem, naturalmente, ferir as susceptibilidades de Mrs.Seal), pois estava certa de que os grandes organizadoressempre botam o dedo, para começo de conversa, em ninharias dessas,e constroem suas triunfantes reformas sobre uma base de absoluta solidez. E, sem admiti-la por um só momento, Mary Datchet estava decidida a ser uma grande organizadora, e tinha já condenado a sociedade a que pertencia a uma das mais radicais reconstruções. É verdade que,uma vez ou duas, nos últimos tempos, sobressaltara-se, acordada de chofre,ao dobrar para Russell Square; e acusara-se vivamente por estar já tão bitolada, ela também, e capaz de pensar os mesmos pensamentos toda manhã à mesma hora, de modo que as casas de tijolo cor de castanha deRussell Square tinham alguma curiosa ligação com os seuspensamentos sobre organização de escritório e serviam de sinal de que devia preparar-se para encontrar Mr. Clactonou Mrs. Seal ou quem quer que tivesse chegado antes delano escritório. Carente de crença religiosa, era ainda maisconscienciosa com a sua própria vida do que o seria de outramaneira, examinando sua posição de tempos em temposcom muita seriedade. E nada a aborrecia mais do que surpreender um desses maus hábitos a minar subrepticiamentea preciosa substância. De que servia, afinal de contas, sermulher se não se conservasse fresca,e se não enchesse a vida com toda espécie de idéias novas e de experiências? Assim,ela sempre se dava uma pequena sacudidela ao virar a esquina, e muitas vezes chegava à sua porta assoviando umabalada do Somersetshire.
O escritório sufragista ficava no topo de uma dessas grandes mansões de Russell Square, que fora um dia a residência de um grande comerciante da City com sua família,e que agora era alugada em fatias a um sem-número de sociedades, que exibiam variadas iniciais nas portas de vidroesmerilhado e escondiam, todas elas, uma máquina de escrever que estalava diligente o dia inteiro. O velho casarão,com sua grande escadaria de pedra, tinha um eco estranhoe cavo, com o ruído das máquinas de escrever e dos garotosde recados, das dez às seis. O estrépito de diversas máquinasde escrever já em atividade, disseminando suas opiniões sobre a proteção das raças nativas ou o valor dos cereais comoalimento, faziam Mary apertar o passo, e a qualquer horaque chegasse sempre subia correndo o último lanço da escada que levava ao seu próprio patamar, a fim de que sua própria máquina assumisse o lugar que lhe cabia na competição com o resto.
Abancou-se para fazer suas cartas e, logo, todas essas especulações estavam esquecidas, e as duas linhas vincavam seu cenho, à medida que o conteúdo das cartas, a mobília doescritório, e os ruídos de atividade na sala ao lado firmavam sua ascendência sobre ela. Por volta das onze horas, a atmosfera de concentração já se movia tão vigorosamentenuma direção que todo pensamento de outra ordem dificilmente sobreviveria à própria aparição mais do que um momento ou dois. A tarefa à sua frente era a organização deespetáculos de benefício cujo lucro aproveitaria à sociedade,que definhava por falta de fundos. Era sua primeira tentativa de organizar em larga escala, e tinha a intenção de conseguir algo deveras notável. Pensava usar essa desajeitadamáquina para pescar esta, aquela e aqueloutra pessoa interessante na confusão do fundo, e botá-las por uma semananuma rotina capaz de atrair o olhar de um ministro deEstado, e uma vez capturado o olhar, a velha argumentaçãoseria usada com uma originalidade sem precedente. Esse era o esquema, em linhas gerais. E ao contemplá-lo ela se punha toda ruborizada e excitada, e tinha de recordar todos os detalhes que a separavam ainda do sucesso.
A porta abria-se e entrava Mr. Clacton, em busca de umfolheto qualquer, enterrado debaixo de uma pirâmide de outros folhetos. Era um homem magro, cabelo cor de areia, com uns trinta e cinco anos de idade, que falava com acentocockney e tinha um ar frugal, como se a natureza não tivessesido de nenhuma maneira generosa para com ele, o que,muito naturalmente, impedia-o de ser generoso para comos outros. Uma vez achado o seu volante, e feitas umas poucas humorísticas alusões à necessidade de manter os papéisem ordem, a datilografia parava subitamente, e Mrs. Sealirrompia na sala com uma carta que exigia esclarecimentos.Isso já era interrupção mais séria, pois Mrs. Seal nunca sabiaexatamente o que queria, e meia dúzia de pedidos saíamdela, explosivamente, ao mesmo tempo, nenhum dos quaisem forma clara.Vestida em belbutina cor de ameixa,o cabelo curto, grisalho, e um rosto permanentemente rubro de entusiasmo filantrópico, Mrs. Seal estava sempre a correr, eparecia sempre um tanto desordenada.Usava ao peito,numapesada corrente de ouro, dois crucifixos,que se embaraçavamum no outro e que pareciam a Mary a perfeita figura da suaambigüidade mental. Só o seu vasto fervor e a adoração deMiss Markham, uma das pioneiras da sociedade, mantinham-na nesse lugar, para o qual não demonstrava qualquer habilitação.
A manhã se desgastava e a pilha de cartas subia e Marysentia, por fim, ser o gânglio central de uma rede finíssimade nervos que cobria a Inglaterra; um belo dia, atingido ocoração do Sistema, essa teia começaria a sentir-se e a mover-se em uníssono e a emitir seu esplêndido clarão como ode fogos de artifício revolucionários porque era essa a metáfora que representava para ela o que sentia com relação aoseu trabalho (com a cabeça quente por três horas de concentração).
Pouco antes das treze, Mr. Clacton e Mrs. Seal renunciaram a seus labores, e o velho chiste sobre o almoço, queressurgia regularmente a essa hora, foi repetido, sem quasenenhuma alteração,Mr.Clacton freqüentava um restaurante vegetariano; Mrs, Seal comprava sanduíches, que comiadebaixo dos plátanos de Russell Square. Quanto a Mary, ia,geralmente, a um espalhafatoso estabelecimento da vizinhança, decorado em pelúcia vermelha, onde, para consternação do vegetariano, era possível comprar bifes de duaspolegadas de espessura ou uma seção inteira de galinha assada, nadando em molho numa travessa de estanho.
– Os galhos nus contra o céu fazem tanto bem à gente – dizia Mrs. Seal, olhando a praça, da janela.
– Mas não se pode viver de árvores, Sally.
– Confesso que não sei como faz isso, Miss Datchet – disse Mr. Clacton. – Eu dormiria a tarde inteira, se tomasse uma refeição assim pesada no meio do dia.
– Qual é a última novidade em literatura? – Mary perguntou, de bom humor, apontando o volume de capa amarela debaixo do braço de Mr. Clacton, pois ele invariavelmente lia algum novo escritor francês à hora do almoço,ouencontrava tempo para uma visita a uma galeria de pintura,equilibrando seu trabalho social com uma ardente cultura,da qual tinha secreto orgulho, como Mary logo adivinhara.
Despediram-se, então, e Mary se afastou, pensando se teriam percebido que o que ela realmente queria era livrarse da companhia deles, mas supondo que ainda não tinhamchegado a esse grau de sutileza. Comprou um vespertino,que leu enquanto comia, olhando de vez em quando porcima dele para as figuras esquisitas que compravam bolos ou trocavam segredos, até que entrou uma moça qualquerque conhecia, e ela chamou:
– Eleanor, venha sentar-se comigo.
Acabaram o almoço juntas, despedindo-se na calçadinha estreita que divide as várias linhas de tráfego, com aagradável sensação de que reassumiam, cada qual por seulado, o lugar que lhes cabia no grande e eternamente movediço plano da vida humana.
Mas, ao invés de retornar diretamente ao escritório, nesse dia, Mary virou em direção ao Museu Britânico, e vagueoupela galeria onde estão as formas de pedra até que encontrouum banco vazio diretamente em face dos mármores Elgin.Como de hábito, pareceu-lhe, imediatamente, ao contemplálas estar presa de uma onda de exaltação e emoção, pela qualsua vida se fazia, ao mesmo tempo, solene e bela – uma impressão que se devia, talvez, tanto à solidão, frio e silêncio dagaleria, quanto à beleza mesma dos relevos. É possível suporpelo menos que as suas emoções não fossem puramente estéticas porque, depois de olhar o Ulisses por um minuto oudois, pôs-se a pensar em Ralph Denham. Tão segura ela sesentia com essas figuras silenciosas que quase cedeu ao impulso de dizer em voz alta: “Eu o amo.” A presença dessabeleza imensa e perene dava-lhe consciência do seu desejo deforma quase alarmante, mas ficava ao mesmo tempo orgulhosa de um sentimento que não se exibia em tais proporçõesquando no desempenho do seu trabalho rotineiro.
Reprimiu o impulso de falar alto, levantou-se e andou aesmo entre as estátuas, até que se viu numa outra galeriaconsagrada aos obeliscos, gravados e alados touros dos assírios, e sua emoção tomou outra direção. Começou a imaginar-se viajando com Ralph numa terra em que tais monstroseram jacentes na areia. “Porque”, pensou consigo mesma,olhando fixamente para uma informação impressa coladaatrás de um vidro, “o que é maravilhoso em você é que vocêestá pronto para o que der e vier; você não é absolutamenteconvencional, como a maioria dos homens inteligentes”.
E conjurou uma cena no deserto, com ela mesma em cima de um camelo, enquanto Ralph comandava uma tribointeira de nativos.
“É isso que você sabe fazer”, continuou ela, passando àpróxima. “Você sempre consegue que os outros façam aquilo que você quer.”
Um calor se espalhava pelo seu espírito, e enchia-lhe os olhos de animação. Não obstante, antes ainda que ela deixasse o Museu, estava de novo muito longe de dizer “Eu oamo”,mesmo no seu foro íntimo,e essa frase podia até nãose ter formado. Mary estava, a rigor, aborrecida consigo própria por ter-se permitido tão injudiciosa quebra da própria reserva,o que acabaria por enfraquecer seus poderes deresistência se o impulso voltasse. Era o que temia. Pois, aocaminhar pela rua de volta ao escritório, dominou-a a forçade todas as suas costumeiras objeções a estar apaixonadapor alguém. Não queria casar com ninguém. Parecia-lhe que havia algo amadorístico em pôr o amor em contatocom uma amizade perfeitamente lisa e honesta, como a suacom Ralph, que se baseava, há dois anos já, no interesse comum por tópicos impessoais, tais como habitação paraos desvalidos ou a taxação das rendas imobiliárias.
O espírito da tarde, porém, diferia intrinsecamente do espírito matinal. Mary se descobriu a acompanhar o vôo de um pássaro e a desenhar os galhos dos plátanos no mata-borrão.Chegaram pessoas para ver Mr. Clacton a negócios, e umsedutor aroma de cigarros filtrava do escritório dele. Mrs. Sealandava às tontas carregada de recortes de jornais,que lhe pareciam sempre ‘esplêndidos’ ou, então, ‘abaixo da crítica’. Costumava colecionar esses recortes em álbuns ou enviá-los a seus amigos, depois de riscar na margem uma larga barra a lápisazul, operação que significava, igual e indistintamente, asprofundezas da sua reprovação ou o auge da sua apreciação.
Por volta das quatro horas dessa mesma tarde, Katharine Hilbery subia Kingsway. Apresentou-se-lhe o problema dochá. As lâmpadas da rua já começavam a ser acesas, e ela sedeixou ficar por um momento debaixo de uma delas, procurando lembrar-se de algum salão nas vizinhanças,onde houvesse lareira e conversação compatível com a sua disposição.Essa disposição, devido ao tráfego rodopiante e ao véu deirrealidade que a noite fazia baixar sobre as coisas, não seadaptava a seu ambiente em casa. Talvez, de modo geral,uma confeitaria fosse o melhor lugar para preservar esse estranho sentimento de intensificação do ato de existir. Ao mesmo tempo, agradar-lhe-ia conversar. Lembrando-se deMary Datchet e de seus repetidos convites, atravessou a rua,dobrou em direção a Russell Square, procurando o número,com uma curiosa sensação de aventura que não tinha proporção com o fato em si. Achou-se num hall fracamente iluminado,sem porteiro,e empurrou a primeira porta de vaivém. Mas o contínuo nunca ouvira falar em Mary Datchet.Pertenceria à S.R.F.R.? Katharine abanou a cabeça com um sorriso de desânimo. Uma voz gritou de dentro:
– Não. S.G.S. – último andar.
Katharine subiu, passando por inumeráveis portas com siglas no vidro, cada vez mais desconfiada da sensatez da iniciativa. No alto, fez pausa por um momento, a fim de recobrar o fôlego e recompor-se. Ouviu lá dentro a máquina de escrever e vozes formais, profissionais, que não pertenciam, pensou, a ninguém com quem jamais houvesse falado. Tocou a campainha e a porta foi aberta qua-se imediatamente pela própria Mary. Seu rosto teve de mudar inteiramente de expressão ao ver Katharine.
– Você! – exclamou. – Pensamos que fosse o tipógrafo.E ainda a segurar a porta, chamou:
– Não, Mr. Clacton, não é de Penningtons. Seria o casode telefonar-lhes de novo: 33 88 Central. Bem, que surpresa! Entre – acrescentou. – Você chegou justamente a tempo para o chá.
A luz do alívio brilhava nos olhos de Mary. O aborrecimento da tarde dissipara-se num instante, e ela se alegravade que Katharine os tivesse encontrado numa momentâneapressão de trabalho, devido à falta do impressor, que não entregara umas provas.
O globo, sem abajur, brilhando em cima da mesa coberta de papéis, ofuscou Katharine por um momento. Depoisda confusão da sua caminhada semiconsciente e de seus pensamentos desconexos, a vida nessa pequena sala parecialhe exageradamente concentrada e brilhante. Deu-lhe ascostas, instintivamente, para olhar pela janela sem cortinas,porém Mary logo a chamou:
– Foi grande proeza a sua encontrar o caminho – disse. EKatharine ficou pensando, de pé, ali, sentindo-se, de momento, inteiramente alheia e desligada, por que tinha vindo.
Aos olhos de Mary, ela parecia estranhamente deslocada no escritório. Sua figura, com a longa capa de fundas pregas, seu rosto, composto numa máscara perceptiva e apreensiva ao mesmo tempo, perturbaram Mary por um momento. Essa presença de alguém de outro mundo subvertia o seu. Ficou logo ansiosa para que Katharine se deixasse impressionar pela relevância do seu trabalho, e rezou para que nem Mrs. Seal nem Mr. Clacton aparecessem até que essa impressão de importância fosse assimilada.Mas nisso se decepcionou. Mrs. Seal irrompeu na sala com uma chaleira na mão, a qual depositou no fogareiro e, depois, com ineficiente açodamento, acendeu o gás, que explodiu e apagou.
– Sempre assim, sempre assim – resmungou. – Kit Markham é a única pessoa que sabe lidar com essa coisa.Mary teve de ir em auxílio dela, juntas puseram a mesa,desculpando-se pela disparidade das xícaras e pela pobrezado chá.
– Se tivéssemos sabido que Miss Hilbery viria, teríamos comprado um bolo – disse Mary. Ao que Mrs. Seal olhouKatharine pela primeira vez, desconfiadamente, por ser pessoa que fazia jus a bolo.
Mr. Clacton abriu a porta e entrou, lendo em voz altauma carta datilografada.
– Salford se filiou – disse.
Bravo, Salford! – exclamou Mrs. Seal entusiasticamente, batendo no tampo da mesa com o bule de chá, à guisa deaplauso.
Pois é. Finalmente, esses centros provincianos estão sechegando a nós – disse Mr. Clacton. Então Mary apresentou-o a Miss Hilbery, e ele lhe perguntou, da maneira maisformal, se estava interessada ‘em nosso trabalho’.
– E as provas ainda não chegaram? – disse Mrs. Seal, apoiando os dois cotovelos na mesa e a cara nas mãos, enquanto Mary começava a servir o chá. – Isso é mau, muitomau. Nesse ritmo, vamos perder o correio para o interior. Oque me lembra, Mr. Clacton: não acha o senhor que deveríamos distribuir pelas províncias o último discurso de Partridge? O quê? Não leu? Pois é de longe a melhor coisasurgida na Câmara nesta sessão. Até o primeiro-ministro...Mas Mary interrompeu-a sumariamente:
– Não se permite conversa de serviço na hora do chá,Sally – disse com firmeza. – Nós lhe cobramos um níquel demulta cada vez que ela se esquece, e o dinheiro vai para acompra do bolo de ameixas – explicou, procurando incorporar Katharine ao grupo. Já desistira de impressioná-la.
– Desculpem, desculpem – disse Mrs. Seal. – É desgraça minha ser uma entusiasta – disse, dirigindo-se a Katharine. – Sou filha de meu pai nisso. Nem poderia ser diferente. Ninguém me bate em matéria de comitês. Já estive em tantos! Menores e abandonados, recuperação,trabalho social de igrejas, C.O.S. – seção local –, além dos deveres cívicos habituais que competem a uma dona-decasa. Mas larguei mão de tudo isso para trabalhar aqui, e não me arrependo por um segundo – acrescentou. – Esta é a questão fundamental, penso eu: enquanto as mulheres não puderem votar...
– Serão pelo menos seis níqueis, Sally – disse Mary, dando um murro na mesa. – E estamos todos fartos das mulheres e do voto feminino.
Mrs. Seal deu, por um momento, a impressão de não poder acreditar nos próprios ouvidos, e fez um mortificado tut-tut-tut na garganta, olhando artenativamente paraKatharine para Mary, e sacudindo a cabeça enquanto o fazia. Então disse, um tanto confidencialmente, a Katharine, com ligeiro movimento de cabeça na direção de Mary:
– Mary faz mais pela causa que qualquer uma de nós. Elasacrifica a sua mocidade... Hélas, quando eu era jovem, haviacircunstâncias domésticas... – suspirou e calou-se logo.
Mr. Clacton voltou, rapidamente, à sua pilhéria sobre almoço e explicou como Mrs. Seal se alimentava com umpacote de bolachas debaixo das árvores, qualquer que fosse tempo como se Mrs. Seal fosse um cachorro de estimação pensou Katharine – treinado em fazer gracinhas.
Sim, levo meu pacote para a praça – disse Mrs. Seal,com o ar de culpa de uma criança que confessa um mal-feito aos mais velhos. – É muito alimentício, acreditem. E os galhos nus contra o céu fazem tanto bem. Mas tenho de deixar de ir à praça – acrescentou, franzindo a testa. – A injustiçadisso! Por que devo ter uma bela praça para meu uso,quando pobres mulheres que precisam descansar não têm onde sentar-se? Olhou ferozmente para Katharine, e deu uma sacudidela nas madeixas. – É horrível como a gente é ainda tirana, malgrado os esforços que faz. Tenta-se levar uma vidadecente, mas não se pode. Naturalmente, basta pensar nissopara ver que todas as praças deviam estar abertas para todo mundo. Existe alguma sociedade, Mr. Clacton, com esse objetivo? Se não existe, deveria sem dúvida existir.
Um excelente objetivo – disse Mr. Clacton, com suamaneira profissional. – Ao mesmo tempo, há que lamentar a proliferação de organizações, Mrs. Seal. Tanto esforçomeritório posto fora, para não falar nas libras, shillings epence. Agora, quantas organizações de natureza filantrópicaa senhora supõe que existam na cidade de Londres propriamente dita, Miss Hilbery? – acrescentou, entortando a bocanum pequeno sorriso, como para mostrar que a perguntatinha seu lado frívolo.
Katharine sorriu também. A sua qualidade, diversa dados outros, penetrara Mr. Clacton, que não era, de natureza,observador, e ele estaria a perguntar-se quem, de fato, elaera.A mesma diferença que estimulara sutilmente Mrs.Seala tentar a sua conversão. Mary, por seu lado, parecia implorar-lhe que facilitasse as coisas. Porque Katharine até entãonão demonstrara a menor disposição de facilitar nada.Poucofalara,e o seu silêncio,embora grave e,até,pensativo,pareciaa Mary um silêncio crítico.
– Bem, temos comitês neste edifício que eu nem sequerconheço. No térreo, protegem-se os nativos, no andar seguinte facilita-se a emigração de mulheres e aconselham-se as pessoas a comerem nozes...
– Por que diz que “temos” comitês para fazer tais coisas?
– interpôs Mary, um tanto bruscamente. – Nós não somosresponsáveis por todos os malucos que decidiram vir habitar a mesma casa.
Mr. Clacton limpou a garganta e olhou sucessivamente para cada uma das senhoras. Estava bastante impressionado pela aparência e pelas maneiras de Miss Hilbery, que aseu ver colocavam-na entre aquelas gentes cultivadas e ricascom quem costumava sonhar. Mary, por sua vez, era mais daespécie dele, e um tanto inclinada a dar-lhe ordens. Pegou migalhas secas de biscoito, e enfiou-as na boca com rapidezincrível.
– A senhora não pertence à nossa sociedade? – disse Mrs. Seal.
– Não,acho que não – disse Katharine,com tal inocênciaque Mrs.Seal ficou estupefata,fitando-a com uma expressãoperplexa com se lhe fosse difícil classificá-la entre as variedades de seres humanos de seu conhecimento.
– Mas certamente... – começou.
– Mrs. Seal é uma entusiasta desses assuntos – disse Mr. Clacton, quase apologeticamente. – Temos de lembrar-lhe algumas vezes que os outros têm o direito de ter sua própriaopinião, mesmo se diversa da nossa... O Punch trazia um cartum muito bom esta semana,sobre uma sufragista e umtrabalhador de fazenda. A senhora viu o Punch desta semana, Miss Datchet?
Mary riu e disse que não.
Mr. Clacton então contou-lhes a substância da graça,que, no entanto, dependia muito, para o seu sucesso, da expressão que o artista dera às pessoas. Mrs. Seal permaneceutodo o tempo perfeitamente grave. E logo que ele terminou,explodiu:
Mas, seguramente, Miss Hilbery, se o bem-estar do seu sexo lhe importa, desejará que as mulheres votem?
Eu não disse que não desejo o voto para elas – protestou Katharine. – Então, por que não é membro da nossa sociedade? – perguntou Mrs. Seal.
Katharine ficou a rodar sua colherinha, contemplou o redemoinho do chá, e permaneceu em silêncio. Mr. Clacton, enquanto isso, armava uma pergunta que, depoisde um minuto de hesitação, fez a Katharine:
– Será a senhora por acaso aparentada ao poeta Alardyce? A filha dele, ao que me consta, desposou um Mr.Hilbery.
– Sim, sou a neta do poeta – disse Katharine, depois de uma pausa, e ligeiro suspiro. Por algum tempo todos ficaramem silêncio.
– A neta do poeta – repetiu Mrs. Seal, em parte consigomesma, e com um aceno de cabeça, como se isso explicasse o que de outra forma seria inexplicável.Uma luz acendeu-se no olho de Mr. Clacton:
– Ah, muito bem. Isso me interessa muitíssimo – disse.
– Tenho uma grande dívida para com o seu avô, MissHilbery.
Houve tempo em que eu seria capaz de repetir de cor amaior parte dos versos dele. Mas a gente acaba por deixar deler versos, desgraçadamente. A senhora não se lembrarádele, imagino?
Uma batida forte na porta tornou inaudível a resposta deKatharine. Mrs. Seal levantou a cabeça com uma renovada esperança no olhar, e exclamou:
– As provas! Finalmente! – e correu a abrir a porta. Oh,é apenas Mr. Denham! – gritou, sem qualquer esforço paraesconder o seu desapontamento.Ralph,imaginou Katharine,era visitante freqüente, pois a única pessoa que julgou necessário cumprimentar foi ela mesma, e Mary logo explicou o estranho fato da sua presença ali, dizendo:
– Katharine veio ver como é que se administra um escritório.
Ralph formalizou-se e disse, constrangido:
– Espero que Mary não a tenha convencido de que sabe como fazê-lo.
– Pois então não sabe? – perguntou Katharine, olhando de um para o outro.A essa troca de observações, Mrs. Seal começou a mostrar sinais de agitação, que se revelaram como um bruscomovimento da cabeça. E quando Ralph tirou uma carta do bolso e pôs o dedo numa sentença, ela se antecipou e exclamou, em confusão:
– Agora, sei exatamente o que vai dizer Mr. Denham! Mas foi no dia em que Kit Markham esteve aqui, e ela perturba tanto as pessoas, com sua maravilhosa vitalidade,quero dizer, sempre inventando alguma coisa nova, que a gente deveria estar fazendo, mas não está... E eu cônscia todo o tempo de que minhas datas estavam confundidas! Não teve nada a ver com Mary, absolutamente, posso assegurar-lhe.
– Minha querida Sally, não se desculpe – disse Mary, rindo. – Os homens são tão tolos! Não sabem quais as coisasque de fato importam, e quais as que não importam.
– Vamos, Denham, defenda seu sexo – disse Mr. Clacton em tom jocoso, embora, como todo homem insignificante,na verdade se ressentisse se uma mulher o apanhava em erronuma discussão, gostando então de se referir a si mesmo como um “simples homem”. Queria, todavia, engajar-se numa conversação literária com Miss Hilbery e, por isso,deixou que o assunto morresse.
– Não lhe parece estranho, Miss Hilbery – disse – que osfranceses,com toda a sua riqueza de nomes ilustres,não têm poeta que se comparem a seu avô? Deixe-me ver: há Chénier,e Hugo, e Alfred de Musset, homens maravilhosos, mas, aomesmo tempo, há uma riqueza, um frescor em Alardyce...
Aí tocou o telefone, ele teve de ir-se, com um sorriso e uma reverência que significavam que, embora a literaturafosse deliciosa,não era,afinal,o trabalho.Mrs.Seal levantouse ao mesmo tempo, mas ficou a agitar-se em volta da mesa,soltando uma longa tirada contra o governo de partido:
– Se eu fosse contar o que sei de intriga de bastidores, o senhor não me acreditaria, Mr. Denham, não mesmo. E é por isso que sinto que o único serviço apropriado para a filha do meu pai, porque ele foi um dos pioneiros, Mr.Denham, e na sua lápide eu fiz gravar aquela passagem dosSalmos sobre os semeadores da semente... E o que não dariaeu para vê-lo vivo agora, vendo o que nós vamos ver... – refletindo, porém, que as glórias do futuro dependiam, emparte, da atividade da sua máquina de escrever, ela sacudiu acabeça e correu para a reclusão do seu pequenino escritório,do qual logo saíram os ruídos de uma atividade entusiasta sebem que errática.Mary tornou imediatamente claro, ao abrir um novo tópico de interesse geral, que embora pudesse ver o ridículo da sua colega, não tinha a intenção de deixar que se rissem dela.
– Os padrões de moralidade parecem assustadoramente baixos – observou reflexivamente, servindo uma segundaxícara de chá –, especialmente entre mulheres não muito bem-educadas. Não percebem que as pequenas coisas têmsua importância, e é aí que o negócio desanda e elas se vêemem dificuldades. Eu quase perdi a paciência, outro dia – continuou, olhando para Ralph com um pequeno sorriso,como se ele soubesse o que acontecia quando ela perdia apaciência. – Fico muito zangada quando as pessoas mementem. Você não fica também? – perguntou a Katharine.
– Mas considerando que todo mundo mente... – observou Katharine, olhando em volta da sala para ver onde deixara sua sombrinha e seu embrulho, pois havia uma intimidade na maneira pela qual Mary e Ralph se dirigiam um aooutro que a fazia ansiosa por deixá-los. Mary, por outro lado,sentia-se ansiosa, pelo menos superficialmente, para queKatharine ficasse e desse modo a fortificasse, na sua resolução de não se apaixonar por Ralph.Ralph, ao levar a xícara dos lábios à mesa, decidira que,quando Miss Hilbery saísse, iria com ela.
– Não acho que eu diga mentiras. E não acho que Ralphas diga, hein Ralph? – continuou Mary.
Katharine riu, com mais hilaridade, pareceu a Mary, do que se poderia justificar. De que riria, então? Deles, provavelmente. Mas Katharine, entrementes, se levantara, e olhava para aqui e para ali, para as prensas e os armários, paratoda a maquinaria do escritório, e incluía tudo no seu malicioso divertimento, o que levou Mary a fixar os olhos nela emantê-los assim fixos, duros mesmo, como se se tratasse de uma ave malvada, de alegre plumagem, capaz de pousar nogalho mais alto e picar a cereja mais vermelha sem o menoraviso. Não se poderiam imaginar duas mulheres mais diversas uma da outra – pensou Ralph, olhando de uma paraoutra. Um segundo depois, ele também se levantou e, cumprimentando Mary de cabeça, quando Katharine se despediu, abriu a porta para ela e acompanhou-a.
Mary permaneceu imóvel sem o menor gesto para detêlos. Por um segundo ou dois depois que a porta se fechouatrás deles, seus olhos ainda se demoravam nela com uma fúria a que por um momento misturou-se alguma perplexidade; mas, depois de breve hesitação, depôs sua xícara ededicou-se à tarefa de tirar a mesa do chá.
O impulso que levara Ralph a tomar tal curso de ação fora resultado de um rápido raciocínio e, desse modo, nãoconstituía a rigor um impulso. Passou pela sua cabeça que seperdesse essa oportunidade de falar com Katharine, teria defazer face a um fantasma enraivecido, quando estivesse denovo só no seu quarto,e que este lhe pediria explicações pelasua covarde indecisão. Era melhor, de um modo geral, arriscar o presente embaraço do que perder uma noite a sopesardesculpas e a construir cenas impossíveis com essa facetaintransigente de si mesmo. Desde que visitara os Hilberys,estava à mercê de uma Katharine fantasma, que vinha tercom ele quando estava só, e lhe respondia como desejariaque ela respondesse, e que estava sempre a seu lado paracoroar as várias vitórias que eram negociadas cada noite, emcenas imaginárias, enquanto ia do escritório para casa, a pé,por ruas em que as luzes já se haviam acendido. Caminharcom Katharine em carne e osso serviria para nutrir esse fantasma com comida fresca,o que,como o sabem todos aqueles que alimentam sonhos, é processo necessário de temposem tempos, ou para adelgaçá-lo a tal ponto que, depois dis-so, de pouco serviria. E essa também é uma mudança que todo sonhador acolhe com prazer. E todo o tempo, Ralphestava ciente de que a massa de Katharine não estava absolutamente representada nos seus sonhos, de modo que, ao encontrá-la, pasmava-se de que nada tivesse a ver com o sonho que fazia dela.
Quando, ao alcançarem a rua, Katharine percebeu que Denham se esforçava para emparelhar-se com ela e conservar o mesmo passo, ficou surpresa e, talvez, um tanto aborrecida. Ela, também, tinha sua margem de imaginação e,nessa noite, sua atividade nessa obscura região da mente requeria solidão. Se pudesse dispor das coisas a seu modo, teria caminhado bem depressa pela Tottenham Court Roadabaixo, saltado num táxi e corrido para casa. Para ela, a visãoque tivera do interior de um escritório participava da natureza de um sonho. Fechados lá, Mrs. Seal, Mary Datchet eMr. Clacton eram como figuras encantadas numa torre encantada, com teias de aranha penduradas do teto e todos osinstrumentos de um necromante à mão. Pois de tal maneira arredios, irreais e à parte do mundo normal lhe pareciam eles, naquela casa de inumeráveis máquinas de escrever,murmurando suas encantações e fabricando suas drogas, elançando suas frágeis redes por cima da torrente da vida quebramia lá fora nas ruas.
Talvez estivesse consciente de que houvesse algum exagero nessa imagem, pois certamente não desejou partilhá-lacom Ralph. Para ele, supunha, Mary Datchet, compondopanfletos para ministros de Estado, em meio às suas máquinas de escrever, representava tudo o que havia de mais interessante e genuíno; em conseqüência, trancou-os fora doseu quinhão da rua cheia de gente com o colar penduradode lâmpadas, vitrinas acesas, a massa de homens e mulheres,coisa que a tal ponto a estimulava que quase se esquecia do seu companheiro. Caminhava rapidamente, e o efeito da gente que passava na direção oposta era produzir uma estranha sensação de tonteira tanto na sua cabeça quanto na de Ralph, e isso mantinha seus corpos afastados. Mas ela cumpriu suas obrigações para com o seu companheiro quaseinconscientemente:
– Mary Datchet faz essa espécie de trabalho muito bem...Ela é a responsável por ele, imagino?
– Sim. Os outros pouco ajudam. Ela a converteu?
– Oh, não. Quer dizer, eu já era convertida.
– Mas ela não a persuadiu a trabalhar para eles?
– Meu Deus, não! Isso não teria sentido.
Caminharam juntos pela Tottenham Court Road, separando-se e juntando-se outra vez, e Ralph sentiu-se como se estivesse arengando com o alto de um chouponuma ventania.
– E se tomássemos aquele ônibus? – sugeriu.
Katharine assentiu, subiram, e acharam-se sozinhos na parte superior.
Para onde vai? – perguntou Katharine, acordando um pouco do transe em que o movimento entre coisas moventes a lançara.
Vou para o Temple – respondeu Ralph, inventando impulsivamente um destino. Sentiu a mudança operar-se nela, ao se sentarem e ao se pôr o ônibus em marcha.Imaginava-a contemplar a avenida à frente deles com aqueles seus tristes olhos honestos, que pareciam mantê-lo auma grande distância. Mas a brisa lhes soprava no rosto, elevantou o chapéu de Katharine por um momento, e ela tirou um grampo e enfiou-o de novo, um pequenino ato que,por alguma razão, fê-la parecer mais falível. Ah, se pelo menos o chapéu voasse, e a deixasse descabelada, a aceitá-lo devolta, das mãos dele!
– Isso é como Veneza – observou ele, mostrando com a mão. – Os carros, quero dizer, deslizando assim velozes comsuas luzes acesas.
– Eu nunca estive em Veneza – repondeu ela. – Estouguardando isso, e outras coisas, para a minha velhice.
– Que outras coisas?
– Bem, Veneza, a Índia e, penso, Dante também – ela riu. Ao invés de responder-lhe, Ralph pensou se deveriadizer-lhe uma coisa que era absolutamente verdadeira a respeito dele mesmo. E enquanto se decidia, disse-o:
– Desde menino, planejo minha vida em seções, parafazer que dure mais. Sabe, estou sempre com medo de estarperdendo alguma coisa...
– Pois eu também! – exclamou Katharine. – Mas, afinal, por que estaria o senhor perdendo algo?
– Por quê? Porque sou pobre, entre outras coisas – respondeu Ralph. – Você, acho, pode ter Veneza e a Índia eDante todos os dias da sua vida.
Ela não disse nada por um momento, mas apoiou umadas mãos, sem luva, no ferro à sua frente, pensando numavariedade de coisas, das quais uma era que esse estranhorapaz pronunciava Dante tal como estava habituada a ouvir o nome pronunciado, e outra, que ele tinha, inesperadamente, uma maneira de ver a vida que lhe era familiar. Talvez,então, ele fosse a espécie de pessoa pela qual ela podia interessar-se, se chegasse a conhecê-lo melhor, e como o tinhaposto, até então, entre as pessoas que não queria conhecer melhor, isso bastou para deixá-la muda. Recordou-se, atabalhoadamente, da primeira vez que o vira, no salãozinhoem que se guardavam as relíquias, e passou um risco a meiodas suas impressões, como a gente faz quando cancela umasentença mal escrita depois de encontrar a boa.
– Mas saber que se podem ter coisas não altera o fato denão tê-las – disse ela, de maneira um tanto confusa. – Como poderia eu ir à Índia, por exemplo? Ademais – acrescentouimpulsivamente e deteve-se. O condutor se acercou delesnesse ponto e interrompeu-os. Ralph esperou que ela terminasse a frase, mas Katharine não disse mais nada.
–Tenho um recado paraseupai –disse ele. –Talvez você pudesse dá-lo, ou talvez eu devesse ir ...
– Sim, venha – respondeu Katharine.
– E, todavia, não vejo por que você não poderia ir à Índiacomeçou Ralph, a fim de impedi-la de levantar-se, como ameaçava fazer.
Mas, apesar dele, ela se levantou, disse-lhe adeus com seu costumeiro ar de decisão,e deixou-o com o modo abrupto, que Ralph agora associava com todos os seus movimentos. Olhou para baixo e viu-a de pé na guia da calçada, umafigura alerta, dominadora, à espera do momento de cruzar;e que então andou, confiante e veloz, para o outro lado. Essegesto e esse ato seriam acrescentados ao retrato que faziadela. No momento, porém, a mulher real afugentava completamente o fantasma.