Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 18 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 17

Quando, com fulgor incomum, o sol brilhou naquelasemana de Natal, revelou muito do que estava desbotadoe mal conservado em Stogdon House e seus jardins. Naverdade, Sir Francis fora aposentado pelo Governo daÍndia com uma pensão insuficiente, na sua opinião, paraseus serviços, assim como, sem dúvida nenhuma, parasuas ambições. A carreira ficara aquém das suas expectativas, e embora fosse um velho bastante vistoso, com as suíças brancas e sua cor de mógono, e tivesse acumuladoum escolhido estoque de boas leituras e boas histórias,não se precisava de muito tempo para perceber que alguma tempestade as azedara. Sir Francis cultivava umressentimento. Esse ressentimento datava de meados do último século, quando, devido a alguma intriga, seusméritos haviam sido ignorados da maneira a mais ignominiosa, e ele fora preterido em favor de outro oficialmais novo.

Os dois lados da história, supondo-se real sua existência, já não eram conhecidos com clareza pela mulher e pelos filhos; mas essa decepção desempenhara grande pa-pel nas suas vidas, e envenenara a de Sir Francis, assim como uma decepção de amor envenena – ao que se diz – a vida inteira de uma mulher. O remoer interminável desse fracasso, a contínua consideração e reconsideração dos próprios méritos e das injustiças sofridas tinham feito de Sir Francis um egoísta, e com a aposentadoria seu gênio tomou-se cada dia mais difícil e exigente.

A mulher oferecia agora tão pouca resistência a esse perpétuo mau humor, que já não lhe servia praticamente para nada. Fez da filha, Euphemia, sua principal confidente, e a flor da sua idade vinha sendo rapidamente consumida pelo pai. Era a ela que ditava suas memórias, destinadas a vingar-lhe o nome. E Euphemia tinha de repetir-lhe a todo momento que o tratamento que lhe haviam dispensado era uma vergonha.

Já com a idade de trinta e cinco anos, suas faces descoravam, como as de sua mãe haviam descorado; para ela,no entanto, não haveria a lembrança de sóis da Índia e de rios da Índia, ou o clamor de crianças num berçário; teria muito pouco em que pensar quando ficasse, como Lady Otway ficava agora, sentada a tricotar com lã branca, de olhos quase perpetuamente fixos no mesmo pássaro bordado no mesmo guarda-fogo. Mas Lady Otway, pelo me-nos, era uma dessas pessoas para as quais fora inventado o grande jogo do faz-de-conta da vida social inglesa; passava a maior parte do tempo a pretender, para si mesma e para os vizinhos, que era uma pessoa muito digna, importante e ocupada, de considerável posição social e riqueza suficiente. Em vista do atual estado de coisas, esse jogo requeria grande dose de habilidade; e, talvez, na idade a que chegara – já passava dos sessenta anos – jogasse mais para enganar a si mesma do que aos outros. Ademais, a armadura começava a gastar-se; esquecia-se mais e mais de salvar as aparências.

As partes poídas dos tapetes e o palor do salão, onde nenhuma cadeira ou forro foram renovados havia vários anos, não eram devidos apenas à miserável pensão, mas ao desgate causado por doze filhos, oito dos quais, homens.Como freqüentemente acontece em famílias numerosas,uma clara linha divisória poderia ser traçada mais ou me-nos ao meio da progenitura, onde o dinheiro para fins educacionais ficara curto. Os seis filhos menores haviam sido criados mais economicamente que os maiores. Se os meninos eram inteligentes, obtinham bolsas de estudo, e iam para a escola; se não o eram, aceitavam o que as relações de família lhes podiam oferecer. As moças empregavam-se ocasionalmente, mas havia sempre uma ou duas em casa, a tomar conta de animais doentes, a criar bichosda-seda ou a tocar flauta nos seus quartos. A distinção entre os filhos mais velhos e os mais moços correspondia aproximadamente à diferença entre uma classe alta e uma classe baixa; pois que, munidos apenas de uma educação fortuita, e de mesadas insuficientes, os filhos mais moços haviam colecionado ocupações, amigos e pontos de vista não encontradiços entre as quatro paredes de uma escola particular ou de uma repartição pública. Entre as duas divisões havia grande hostilidade; os mais velhos tentavam tratar com superioridade e condescendência os mais moços, e os mais moços recusavam respeitar os mais velhos; mas um sentimento os unia e instantaneamente obturava qualquer risco de brecha: sua crença comum na superioridade da família sobre todas as outras. Henry era o mais velho do grupo jovem, e o seu líder. Trazia para casa livros estranhos e entrava para as sociedades as mais bizarras; andou sem gravata um ano inteiro e mandou fazer seis camisas iguais, de flanela preta. Recusou por muito tempo um lugar numa companhia de navegação e outro no depósito de um importador de chá; e persistiu, a despeito da desaprovação de tios e tias, em praticar ao mesmo tempo violino e piano, e o resultado foi que não podia tocar profissionalmente qualquer dos dois instrumentos. Na verdade, como produto dos trinta e dois anos da sua vida não tinha nada de mais substancial para exibir que um caderno manuscrito com a partitura de meia ópera. Nessa sua forma de protesto, Katharine sempre lhe dera apoio, e como era tida por pessoa extremamente ajuizada, que se vestia bem demais para ser considerada excêntrica, seu apoio lhe fora de algum auxílio. Na verdade, sempre que vinha para o Natal, ela passava boa parte do seu tempo em conferências privadas com Henry e com Cassandra, a caçula das meninas, à qual pertenciam os bichos-da-seda. Tinha, com a facção jovem, grande reputação de sensatez; ademais, possuía uma coisa que eles desprezavam, embora no fundo respeitassem, e a que chamavam conhecimento do mundo, que é a maneira como pensam e se portam as pessoas mais velhas e respeitáveis,que pertencem a clubes e jantam com ministros. Mais de uma vez ela se fizera embaixadora entre Lady Otway e seus filhos. A pobre senhora consultou-a, por exemplo, no dia em que, tendo aberto a porta de Cassandra em missão de sindicância, dera de cara com folhas de amoreira penduradas do teto, as janelas bloqueadas com gaiolas e as mesas cobertas de máquinas feitas em casa para a manufatura artesanal de vestidos de seda.

– Desejaria que ela se interessasse pelas coisas que interessam as outras pessoas, Katharine – observou, queixosa, e detalhando as suas queixas: – É tudo culpa de Henry, você sabe, isso de largar mão de festas e interessarse por esses insetos nojentos. O fato de um homem fazer uma coisa não justifica que uma mulher a faça também.

A manhã estava suficientemente clara para mostrar que cadeiras e sofás da sala-de-estar privada de Lady Otway parecessem mais surradas que de hábito, e para que os galantes gentlemen, seus irmãos e primos, que haviam defendido o Império e deixado os ossos num semnúmero de fronteiras,contemplassem o mundo através de um filme amarelo, que a luz da manhã parecia estender por cima dos seus retratos. Lady Otway suspirou, talvez para essas desbotadas relíquias, e retomou resignada aos seus novelos de lã, que, curiosa, caracteristicamente, não eram hoje de um branco de marfim, mas de um branco amarelado e sujo. Convocara sua sobrinha para uma pequena conversa. Sempre confiara nela, e agora mais do que nunca; seu noivado com Rodney parecia-lhe extremamente apropriado, e exatamente o que se poderia desejar para a filha da gente. Katharine acresceu sua reputação de sabedoria pedindo que lhe desse agulhas também.

– É tão agradável – disse Lady Otway – tricotar enquanto se conversa. E agora, minha querida Katharine,fale-me de seus planos.

As emoções da noite anterior, que ela controlara a ponto de ficar acordada até de madrugada, haviam-na abaladoum pouco e,assim,mais prosaica do que de costume.Estavapronta a discutir seus projetos – casas e aluguéis, empregados e economias como se não lhe dissessem respeito.Enquanto falava, tricotando metodicamente todo o tempo,Lady Otway observou, com aprovação, a postura direita,responsável, da sobrinha, a quem a perspectiva de casamento trouxera gravidade bastante decorosa numa noiva e, todavia, cada vez mais rara nos dias correntes. Sim, o noivado de Katharine mudara-a um pouco.

“Que filha perfeita, ou que nora!”, pensou para simesma. E não pôde deixar de compará-la a Cassandra,rodeada de inumeráveis bichos-da-seda no seu quartode dormir.

“Sim”, continuou consigo, fixando em Katharine seus olhinhos redondos e verdes, tão inexpressivos como bolas de gude molhadas, “Katharine é como as moças do meu tempo. Levávamos a sério as coisas sérias da vida”. Mas,justamente, quando tirava algum satisfação desse pensamento e se dispunha a oferecer um pouco daquela sabedoria armazenada de que nenhuma das suas próprias filhas, ai!, parecia precisar, a porta se abriu e Mrs. Hilbery entrou, ou melhor, não entrou, pois ficou no umbral, e sorriu, tendo evidentemente errado de sala.

– Nunca vou aprender a andar nesta casa! – exclamou.

– Estou a caminho da biblioteca, e não quero interromper.Você e Katharine estão tendo uma pequena conversa? Lady Otway ficou um pouco contrafeita com a irrupção da cunhada. Como poderia prosseguir no que estava dizendo, diante de Maggie? Pois dizia algo que nunca dissera, todos esses anos, à própria Maggie.

– Eu repetia a Katharine algumas banalidades sobre casamento – disse, com um risinho. – Nenhuma das minhas crianças se ocupa de você, Maggie?

– Casamento – disse Mrs. Hilbery, entrando na sala eabanando a cabeça, uma vez ou duas. – Eu sempre digo que o casamento é uma escola. E não se ganham prêmios senãoindo à escola. Charlotte ganhou todos os prêmios – acrescentou, dando um tapinha na cunhada, o que botou LadyOtway ainda mais canstrangida. Fez menção de rir, murmurou algo indistinto e terminou com um suspiro.

Tia Charlotte estava dizendo que não adianta casar se a gente não se submete ao marido – disse Katharine,reformulando as palavras da sua tia e dando-lhes uma feição bem mais definida do que realmente tinham. E quando disse isso,não pareceu em nada antiquada.Lady Otway olhou-a e fez uma pequena pausa.

Bem, de fato não aconselho uma mulher que quer ter sua própria vida a casar-se – disse, começando uma nova discussão de maneira um tanto elaborada.

Mrs. Hilbery conhecia, em parte, as circunstâncias que,a seu ver, inspiraram essa observação. Num momento, seu rosto anuviou-se com uma simpatia que não sabia como expressar.

– Que vergonha foi aquilo! – exclamou, esquecendo que seu pensamento poderia não ser tão óbvio para as duas ouvintes. – Mas, Charlotte, não teria sido muito pior se Frank se tivesse desgraçado de uma maneira qualquer? Não importa o que os nossos maridos consigam, mas o que eles são. Eu também sonhei um dia com cavalos brancos e palanquins. No entanto, gosto mais de tinteiros, hoje em dia. E, quem sabe? – concluiu, olhando para Katharine – seu pai pode ser feito barão amanhã.Lady Otway, que era irmã de Mr. Hilbery, sabia muito bem que, em particular, os Hilbery chamavam Sir Francis “aquele velho turco”, e embora ela não seguisse o fio das observações de Mrs. Hilbery, podia imaginar o que as provocava.

– Mas se você pode ceder a seu marido – disse ela, dirigindo-se a Katharine como se houvesse um entendimento separado entre as duas –, um casamento feliz é a coisa mais feliz do mundo.

– Sim – disse Katharine –, mas... – não pretendia terminar a frase, apenas desejava induzir sua mãe e sua tia afalarem sobre casamento, pois sentia que outras pessoaspoderiam ajudá-la, se assim quisessem. Continuou, então, atricotar, e seus dedos trabalhavam com uma decisão que eracuriosamente diversa do ritmo macio e contemplativo dagorda mão de Mrs. Otway. De tempos em tempos, levantava os olhos rapidamente para sua mãe, depois para suatia. Mrs. Hilbery tinha um livro na mão, e estava a caminhoda biblioteca, como Katharine podia adivinhar, a fim deacrescentar um parágrafo àquele variado sortimento de parágrafos, a Vida de Richard Alardyce. Normalmente, Katharine teria apressado a ida da mãe para o andar térreo, e cuidado para que nenhuma distração se lhe interpusesse nocaminho. Com as outras mudanças, no entanto, sua atitude para com a vida do poeta mudara também; sentia-se contente de esquecer tudo sobre o seu programa de trabalho.Mrs. Hilbery, secretamente, regozijava-se com isso. Seu alívio em dispor de uma justificativa para não escrever, manifestou-se numa série de significativos olhares de soslaio emdireção à filha, e essa espécie de moratória deixou-a na melhor das disposições. Permitir-lhe-iam ficar para conversar,sem mais? Pelo menos, era infinitamente mais agradávelestar sentada numa sala cheia de objetos interessantes, quenão via há um ano, do que verificar uma data, que contradizia outra, num alfarrábio qualquer.

Todas nós tivemos maridos perfeitos – concluiu, perdoando em bloco os pecados de Sir Francis. – Não que eu ache que um gênio ruim seja de fato um defeito num homem – corrigiu-se, com um olhar obviamente em direção a Sir Francis. – Deveria ter dito gênio impaciente, ou vivaz. A maior parte dos grandes homens, ou melhor, todos os grandes homens tiveram gênio forte, exceto seu avô,Katharine – e a isso suspirou e sugeriu que, talvez, devesse descer mesmo para a biblioteca.

Mas, num casamento comum, é realmente necessário ceder ao marido? – perguntou Katharine, ignorando a sugestão da mãe, cega até à depressão que agora se apossara dela, ao pensamento da sua própria morte inevitável.

Eu diria que sim, certamente – disse Mrs. Otway, com uma convicção pouco usual nela.

– Então, cumpriria tomar de fato uma decisão firme antes de casar – ponderou Katharine, parecendo falar consigo mesma.

Mrs. Hilbery não estava muito interessada nesses reparos, que pareciam tender para o melancólico. E a fim de recuperar sua própria animação, recorreu a um remédio infalível – olhou pela janela.

– Vejam que lindo passarinho azul! – exclamou, e seu olhar vagueou com extremo prazer pelo céu doce, pelas árvores, pelos campos verdes, visíveis através das árvores,e os galhos sem folhas que cercavam o corpo da pequena cotovia azul. Seu amor pela natureza era apurado.

– Muitas mulheres sabem, por instinto, quando devem ceder e quando não devem – insinuou Lady Otway, rapidamente, e em voz um tanto baixa, como se quisesse dizerisso enquanto a atenção de sua cunhada se ocupava alhures.

– Quando não sabem, meu conselho é que não se casem.

– Ah, mas o casamento é a mais feliz das existências para uma mulher – disse Mrs. Hilbery, ouvindo a palavra ‘casamento’, ao voltar os olhos para o interior. Depois,concentrou a mente no que disse.

– É a mais interessante das existências – corrigiu.– Olhava a filha com uma expressão de vago alarme. Era a espécie deescrutínio maternal que dá a impressão de que, ao ver a filha, a mãe está, na verdade, vendo-se a si mesma. Não ficou de todo satisfeita. Mas, propositadamente, não fez qualquer tentativa para quebrar uma reserva que, a rigor, admirava particularmente na filha,e com a qual contava.Quando,porém, sua mãe disse que o casamento era a mais interessante das vidas, Katharine sentiu, tal como era apta a sentirsubitamente as coisas sem uma razão definida, que elas se entendiam muito bem uma à outra, a despeito de diferiremde todas as formas possíveis. E, todavia, a sabedoria do velho tende a aplicar-se mais aos sentimentos que se tem emcomum com a raça humana do que aos sentimentos particulares de cada um, como indivíduo, e Katharine sabia que só alguém da sua própria idade poderia acompanhar seuraciocínio. Ambas essas mulheres mais velhas pareciam-lhecontentes com tão pouca felicidade, e no momento ela nãotinha forças suficientes para sentir que a versão delas sobre o casamento era a errada. Em Londres, certamente, essa atitude moderada em face do próprio casamento parecialhe justa. Por que, então, mudara? Por que isso agora a deprimia? Nunca lhe ocorrera antes que sua própria condutapudesse constituir uma charada para sua mãe, ou que aspessoas mais velhas fossem tão afetadas pelos jovens quanto os jovens por elas. E, todavia, era verdade que o amor, apaixão,ou qualquer outro nome que se lhe desse,tivera parte muito menor na vida de Mrs. Hilbery do que seria deesperar, a julgar pelo seu temperamento entusiasta e imaginativo. Ela sempre se interessara mais por outras coisas.Lady Otway, por estranho que parecesse, adivinhava maisacuradamente o estado de espírito de Katharine do que suaprópria mãe.

– Por que não vivemos todos no campo? – exclamouMrs. Hilbery, olhando mais uma vez pela janela. – Estoucerta de que poderíamos pensar coisas lindas se morássemos no campo. Nada de casebres miseráveis para nosdeprimir, nada de bondes e carros. E todo mundo de arnédio e satisfeito. Não haverá algum pequeno cottageperto de vocês, Charlotte, que nos pudesse servir, com um quarto de sobra, talvez, para o caso de querermosconvidar um amigo? Faríamos tal economia, que seriapossível até viajar...

– Sim, você acharia tudo ótimo por uma semana ou duas, sem dúvida – disse Lady Otway. – Mas a que horas você quer o coche, esta manhã? – perguntou, tocando a campainha.

– Katharine decidirá – disse Mrs. Hilbery, sentindo-se incapaz de preferir uma hora a outra. – E, estava para contar a você, Katharine, como, ao acordar esta manhã, tudo parecia tão claro na minha cabeça, que se tivesse um lápis à mão teria escrito um longo capítulo. Quando sairmos para o nosso passeio, vou escolher uma casa para nós.Umas poucas árvores em volta e um jardinzinho, um tan-que com um marreco-mandarim, um estúdio para seu pai,outro para mim, e uma sala-de-estar para Katharine, que será agora uma senhora casada.

A essas palavras, Katharine sentiu um arrepio, achegou-se ao fogo e aqueceu as mãos, estendendo-as por cima do pico mais alto dos carvões. Queria dirigir de novo a conversa para o tema do casamento, a fim de ouvir as opiniões de Tia Charlotte, mas não sabia como fazê-lo.

– Deixe-me ver seu anel de noivado, Tia Charlotte – disse, notando o seu próprio.Tomou o conjunto de pedras verdes, virando-o e revirando-o nos dedos, sem saber o que dizer em seguida.

– Esse pobre anel foi um grande desapontamento para mim, quando o recebi – disse Lady Otway. – Queria um anel de diamante, mas nunca disse a Frank, naturalmente. Ele comprou este em Simla.

Katharine virou o anel na mão mais uma vez, e deu-o de volta à tia,sem nada falar.E,enquanto brincara com ele,seuslábios se fecharam apertados, e pareceu-lhe que era capaz desatisfazer William tal como essas mulheres a seu homens; pretenderia que gostava de esmeraldas quando de fato preferia diamantes. Tendo posto de novo o anel no dedo, LadyOtway observou que o tempo esfriara, embora não mais doque seria de esperar nessa época do ano.Na verdade,cumpriadar graças a Deus por poder ver o sol; aconselhava as duas ase agasalharem para o passeio. O estoque de lugares-comunsda sua tia, suspeitava Katharine, fora acumulado de propósito para preencher silêncios, e tinha pouco a ver com os seuspensamentos íntimos. Mas no momento pareciam terrivelmente de acordo com as suas próprias conclusões, de modoque ela retomou o seu tricô e pôs-se de novo a ouvir, a fim sobretudo de confirmar sua própria convicção de que estarprometida a alguém a quem não se ama é um passo inevitável num mundo em que a existência de paixões é uma história de viajantes, trazida do fundo das florestas e tão raramente contada, que pessoas sensatas duvidam da sua veracidade.Fez o possível para prestar atenção à sua mãe, que pedia notícias de John,e a sua tia,que respondia com a história autêntica do noivado de Hilda com um oficial do Exército Indiano; seu pensamento, porém, voltava-se alternadamentepara veredas de florestas estreladas de flores e para páginascheias de signos matemáticos caprichosamente copiados.Quando seu pensamento tomava tais rumos, o casamento não lhe parecia mais que uma arcada sob a qual era necessário passar para que se realizassem seus desejos. Nessas ocasiões, a corrente da sua natureza mugia no seu estreito canal com grande força e com uma assustadora falta de consideração para com os sentimentos alheios.Tão logo as duas velhassenhoras terminaram sua revista do panorama da família, eLady Otway já previa,nervosamente,por parte de sua cunhada, uma formulação geral sobre a vida e a morte, Cassandrairrompeu na sala com a notícia de que a carruagem se achavaà porta.

– Por que Andrew não me anunciou isso pessoalmente? disse Lady Otway, com impertinência, censurando nos empregados a incapacidade de corresponder aos seus ideais.

Quando Mrs. Hilbery e Katharine chegaram ao hall,vestidas para o passeio, observaram que prosseguia a discussão habitual sobre os planos do resto da família. Porcausa disso, grande número de portas abriam e fechavam,duas ou três pessoas estavam paradas, irresolutas, no meioda escadaria, ora subindo alguns degraus, ora descendo outros tantos, e o próprio Sir Francis saíra do seu estúdio com o Times debaixo do braço e uma reclamação sobre barulho e correntes de ar da porta aberta; o que, pelo menos, surtiu o efeito de reunir as pessoas que queriam tomar o carro edespachar de volta para os quartos as que queriam ficar. Foidecidido que Mrs. Hilbery, Katharine, Rodney e Henryiriam a Lincoln de carruagem; os demais que quisessem irtambém, os seguiriam de bicicleta ou na aranha puxadapelo pânei.Todos os hóspedes da casa tinham de fazer essaexpedição a Lincoln em obediência à concepção de LadyOtway sobre como divertir suas visitas; absorvera essasidéias lendo nos jornais da moda as descrições das celebrações de Natal em propriedades ducais. Os cavalos da carruagem eram não só gordos como velhos, mas formavam uma boa parelha. A carruagem sacudia com extremo desconforto, embora mostrasse nas portinholas o brasão dosOtways. Lady Otway ficou no degrau mais alto, embuçadanum xale branco, e acenou com a mão quase mecanicamente até que eles desapareceram na curva dos loureiros;então, retirou-se, com a sensação de ter desempenhado seupapel, e com um suspiro, ao pensamento de que nenhumdos seus filhos julgava necessário desempenhar o seu.

A carruagem rodava,macia,pela estrada de curvas suaves.Mrs. Hilbery caiu num agradável estado de desligamento,em que apenas se dava conta das linhas verdes das sebes emdisparada,das pastagens ondulantes,do céu de um azul muito leve; tudo isso lhe serviu, passados cinco minutos, de cenário pastoril para o drama da vida humana. Pôs-se a pensarnum jardim de cottage, com a súbita mancha dos narcisos amarelos contra a água azul; e assim, com a composição dessas diferentes paisagens e com a formulação de duas ou trêsbelas frases, não percebeu que os jovens na carruagem estavam quase mudos. Henry, na verdade, fora incluído no passeio a contragosto, e vingava-se observando Katharine eRodney com olhos cépticos, ao passo que Katharine ia num estado de espírito sombrio, de tamanha auto-repressão, queresultava em completa apatia. Quando Rodney se dirigia aela, respondia com ‘hum’ ou assentia de cabeça, e tão negligentemente, que da outra vez ele se dirigia a Mrs.Hilbery. A deferência de Rodney lhe era agradável, suas maneiras exemplares; e quando as torres das igrejas e as chaminés das fábricas da cidade surgiram à vista, Mrs. Hilbery sereanimou e relembrou o belo verão de 1853, que se harmonizava admiravelmente com o que sonhava para o futuro.