Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 21 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 20

Felizmente para ela, Mary Datchet soube, ao voltar ao escritório, que por uma obscura manobra parlamentar o voto outra vez escapara ao alcance das mulheres. Mrs. Sealachava-se num estado vizinho à loucura. A duplicidade dosministros, a traição da humanidade, o insulto ao sexo feminino, o recuo da civilização, a ruína da obra de sua vida, os sentimentos da filha de seu pai – todos esses tópicos foramdiscutidos alternadamente, e o escritório ficou juncado derecortes de jornais assinalados com as marcas azuis, se bemque ambíguas, da sua indignação. Confessava-se enganadaem sua avaliação da natureza humana.

– Atos simples, elementares de justiça – disse, gesticulando com a mão em direção à janela e indicando os passantes, os ônibus que desciam do outro lado de Russell Square – estão tão longe desses homens quanto sempre estiveram. Podemos contar apenas com as nossas próprias forças, Mary, como pioneiras num lugar selvagem. Podemos apenas opor-lhes a verdade, pacientemente.Não são eles – continuou, ganhando coragem com a visão do tráfego –; são os líderes deles. São aqueles gentlemen que têm assento no Parlamento e ganham quatrocentas libras por ano do dinheiro do povo. Se pudéssemos ir ao povo expor o nosso caso, logo se haveria de ver que nos fariam justiça. Eu sempre confiei no povo, e ainda confio.Mas... – sacudiu a cabeça, significando que lhes daria uma última oportunidade, e se não a aproveitassem, não responderia pelas conseqüências.

A atitude de Mr. Clacton era mais filosófica e mais bem corroborada pelas estatísticas. Entrando na sala depois da explosão de Mrs. Seal, mostrou, com exemplos históricos, que tais reveses tinham acontecido em todas as campanhas políticas de alguma importância. Quando nada, seu ânimo saíra revigorado do desastre. O inimigo – disse – tomara a ofensiva; cabia, agora, à sociedade passar-lhe a perna. Deu a entender a Mary que já havia avaliado a astúcia do adversário e se dedicado à tarefa de superá-la nesse particular, o que, segundo Mary entendeu,dependia apenas dele. Dependia, como foi levada a crer um pouco depois, quando convidada para uma conferência particular na sala dele, de uma revisão sistemática do fichário, da distribuição de certos folhetos novos, cor de limão, nos quais os fatos eram apresentados de maneira impressionante, e de um grande mapa da Inglaterra pintalgado de pequenos alfinetes enfeitados com minúsculas plumas de diferentes cores segundo sua posição geográfica. Cada distrito, de acordo com o novo sistema, tinha sua bandeira, seu tinteiro, seu maço de documentos tabulados e arquivados, para referência, numa gaveta, de modo que olhando em M ou S, conforme o caso, obtinham-se na ponta dos dedos todos os dados relativos às organizações sufragistas naquela determinada região. Isso requereria,naturalmente, muito trabalho.

– Nós nos devemos considerar como uma espécie de central telefônica, uma central de idéias, Miss Datchet – disse ele, e gostando da imagem, continuou: – Nós nos devemos considerar o centro de uma enorme rede de fios, que nos ligam a cada distrito do país. Temos de manter o dedo no pulsar da comunidade; queremos saber o que o povo, em toda a Inglaterra, está pensando; queremos fazer que pensem corretamente. – O sistema todo já estava grosseiramente esboçado; na verdade, fora rascunhado durante os feriados do Natal.

– Mas o senhor devia estar descansando, Mr. Clacton disse Mary, por obrigação; seu tom era neutro e fatigado.

– A gente aprende a passar sem feriados – disse Mr. Clacton, com um lampejo de satisfação nos olhos.Desejava principalmente ter a opinião dela sobre o panfleto cor de limão. Sendo o plano, seria distribuído em quantidades imensas, imediatamente, a fim de gerar e estimular, dizia ele:

– Gerar e estimular pensamentos corretos no país antes da sessão do Parlamento.Temos de apanhar o inimigo de surpresa. Eles não deixam a batata assar. Viu o discurso de Bingham aos seus constituintes? Dá uma boa idéia da espécie de coisa que devemos esperar, Miss Datchet.

Passou-lhe um grande maço de recortes de jornais e,instando com ela para que opinasse sobre o folheto corde limão antes do almoço, voltou com alacridade para assuas diferentes folhas de papel e para os seus diferentestinteiros.

Mary fechou a porta, pôs os papéis em cima da mesa, e mergulhou a cabeça nas mãos. Seu cérebro estava curiosamente vazio de qualquer pensamento.Apenas ouvia – comose com isso pudesse integrar-se de novo na atmosfera doescritório. Da sala contígua vinham os rápidos, espasmódicos sons da datilografia errática de Mrs. Seal; sem dúvida, ela já estaria atarefada em botar o povo da Inglaterra,como dizia Mr. Clacton, a pensar corretamente. “Gerar eestimular” haviam sido as palavras dele. Mrs. Seal aplicavaum golpe contra o inimigo, sem dúvida, o inimigo que nãodeixava a batata assar. As palavras de Mr. Clacton voltavam acuradamente a seu cérebro. Empurrou os papéis,com um gesto de lassidão, para o fim da mesa. Mas nãoadiantava; alguma coisa acontecera na sua cabeça, umamudança de foco, de modo que as coisas próximas se tornavam indistintas outra vez. A mesma coisa lhe acontecera, depois de encontrar-se com Ralph em Lincoln’s Inn Fields; passara toda uma reunião de comitê a pensar empardais e em cores até que, já perto do fim da sessão, suasvelhas convicções lhe haviam voltado. Mas só haviam voltado, pensou com desdém pela própria fraqueza, porqueprecisava delas para lutar contra Ralph. Não eram, a rigor,convicções. Não podia ver o mundo dividido em compartimentos de gente boa e gente má; tampouco podia crertão implicitamente na justeza do seu próprio pensamento, que desejasse a adesão a ele da população das Ilhas Britânicas. Olhou o folheto cor de limão, e pensou, quasecom inveja, na fé que encontrava conforto na produção detais documentos. Quanto a ela, contentar-se-ia em ficar quieta para sempre se uma cota de felicidade pessoal lhefosse concedida. Leu o relatório de Mr. Clacton com sua faculdade de apreciação curiosamente dividida, notandopor um lado a fraqueza da argumentação e a pomposaverbosidade e, por outro, sentindo que a fé, numa faláciatalvez, mas pelo menos até em alguma coisa, era o maisinvejável dos dons. Tratava-se de uma falácia, sem dúvidanenhuma. Com estranheza olhou em torno, para a mobília do escritório, a maquinaria de que tanto se orgulhara,cheia de espanto ao pensar que um dia as copiadoras, oarquivo de fichas, as pastas de documentos, tudo isso estivera encoberto, embrulhado numa névoa que lhe conferiaunidade e uma espécie de dignidade e sentido geral, quenão dependiam do seu significado isolado. A feiúra damobília pesada, impressionou-a. Sua atitude era frouxa edesanimada quando a máquina de escrever parou de baterna sala ao lado. Mary imediatamente aproximou-se maisda mesa, agarrou um envelope fechado e assumiu uma expressão que escondesse de Mrs. Seal seu estado de espírito. Algum instinto de decoro exigia que não permitisse aMrs. Seal ver-lhe o rosto. Sombreando, então, os olhos com a mão, viu quando Mrs. Seal abriu gaveta depois degaveta em busca de algum envelope ou volante. Ficou tentada a tirar a mão e dizer:

– Sente-se aí, Sally, e diga-me como é que consegue. Istoé, como consegue correr de um lado para outro com perfeita confiança na necessidade das suas atividades, que paramim são tão fúteis como o zumbir de uma varejeira retardatária. – Não disse nada disso, todavia, e a aparência de trabalho, que preservou enquanto Mrs. Seal ficou na sala, ajudoua pôr seu cérebro em movimento, de modo que conseguiudespachar a tarefa matinal quase tão bem quanto de hábito.A uma hora da tarde surpreendeu-se ao constatar com queeficiência dera conta da manhã. Ao vestir o chapéu, resolveualmoçar no Strand, a fim de pôr essa outra peça do mecanismo, seu corpo, em ação. Com cérebro e corpo funcionando, poderia sincronizar-se com a multidão, sem que ninguém percebesse que ela não passava de um mecanismooco, carente da peça essencial, como tinha convicção de ser.

Considerou o seu caso enquanto andava em direção a Charing Cross Road. Propôs-se, mesmo, uma série de questões. Importar-se-ia, por exemplo, se as rodas daquele ônibus passassem por cima dela e a esmagassem? Não,de maneira alguma, ou uma aventura com aquele homem de aspecto desagradável que fazia hora junto à entrada do metrô? Não. Sentia-se incapaz de conceber temor ou excitação. O sofrimento, sob qualquer de suas formas, a apavorava? Não; sofrer não era nem mau nem bom. E essa tal coisa fundamental? Nos olhos de cada pessoa podia ver uma chama; era como se uma centelha no cérebro se inflamasse espontaneamente em contato com as coisas que se lhe deparavam ou com aquelas que o moviam. As moças, espiando as vitrines das lojas de chapéus, tinham esse brilho no olhar; e homens mais velhos, folheando livros nos sebos, ansiosamente à espera de saber-lhes o preço – o mais baixo possível –, tinham-no também. Dos livros, fugia, pois tinham relação muito estreita com Ralph.Ficou firme em seu caminho, resoluta em meio ao mar das pessoas, entre as quais se sentia tão estranha, a ver que cediam e abriam caminho diante dela.

Os mais extravagantes pensamentos ocorrem na travessia de ruas transbordantes de gente, quando aquele que passa não tem destino certo. É assim também que a mente compõe toda sorte de configurações, soluções e imagens, quando se ouve música atentamente. Da aguda consciência de si mesma enquanto indivíduo, Mary pas-sou a uma concepção sobre a ordem das coisas em que,como ser humano, cabia-lhe, por direito, a sua cota. Teve,a meio, uma visão; a visão formou-se, depois minguou.Quisera ter um lápis e um pedaço de papel para dar forma a essa concepção que se propusera espontaneamente enquanto caminhava por Charing Cross Road abaixo. Mas,se falasse a qualquer pessoa, a concepção poderia fugirlhe. A visão parecia conter as linhas-mestras da sua vida até a morte, de uma maneira satisfatória para o seu senso de harmonia. Necessitava apenas de um persistente esforço de pensamento, estimulado curiosamente pela multidão e pelo barulho, para subir até o pináculo da existência e ver tudo lá do alto, disposto e armado de uma vez por todas. Seu sofrimento, enquanto indivíduo, ficara para trás. Desse processo, para ela repleto de esforço, com transições infinitamente rápidas e drásticas de pensamento, a levar de uma crista a outra, e formando, assim, a sua concepção da vida neste mundo, desse processo umas poucas palavras articuladas lhe escaparam, murmuradas entredentes: “Não é a felicidade, não é a felicidade”.

Sentou-se num banco oposto à estátua de um dos heróis de Londres, no Embankment, e proferiu essas mesmas palavras em voz alta. Para ela, representavam a rara flor ou o fragmento de rocha trazido por um alpinista como prova de que estivera por um momento, pelo me-nos, no cimo da montanha. Também ela estivera lá, e vira o mundo estendido até o horizonte. Agora, fazia-se necessário alterar seu curso, até certo ponto, segundo sua nova resolução. Seu posto seria numa das estações expostas e desoladas, que são refugadas naturalmente pelas pessoas felizes. Arranjou os detalhes do novo plano na cabeça, não sem uma amarga satisfação.

– Agora – disse consigo mesma, levantando-se –, pensarei em Ralph.Que lugar lhe caberia nessa nova vida? A exaltação que sentia, parecia-lhe tornar seguro o trato da questão.Mas logo ficou consternada ao verificar que, tão logo adotara essa linha de reflexão, suas paixões haviam levantado a cabeça. Ora ela se identificava com ele e repensava os pensamentos dele com completa renúncia; ora, com uma súbita divisão do espírito, voltava-se contra ele e denunciava sua crueldade.

– Mas recuso-me, recuso-me a odiar qualquer pessoa disse, em voz alta. Escolheu esse momento para atravessar a rua, com circunspeção; dez minutos depois almoçava no Strand, cortando sua carne com mão firme em pequenos pedaços, mas não dando aos vizinhos qualquer outra razão para julgá-la excêntrica. Seu solilóquio cristalizou-se em pequenas frases fragmentárias, que emergiam de súbito da turbulência do seu pensamento, particularmente quando tinha de fazer um esforço, mover-se, contar dinheiro, ou optar por uma direção na rua. Saber a verdade,aceitar sem amargura – essas foram, talvez, as mais articuladas das suas declarações, pois não tinha pé nem cabeça a algaravia que recitou, em voz baixa, junto à estátua de Francis, Duque de Bedford, salvo que o nome de Ralph ocorria com freqüência,sempre no mais estranho contexto, como se, uma vez pronunciado, tivesse de ser supersticiosamente cancelado pelo acréscimo de outra palavra que tirasse à sentença que o continha qualquer sentido.

Os campeões da causa das mulheres, Mr. Clacton e Mrs. Seal, não perceberam nada de estranho no comportamento de Mary, exceto que ela voltou ao escritório com quase uma hora de atraso. Felizmente, suas próprias ocupações mantiveram-nos absorvidos, e ela ficou livre de inspeção. Se a tivessem surpreendido, tê-la-iam encontrado aparentemente perdida, na contemplação do grande hotel do outro lado da praça, porque, depois de escrever umas poucas palavras, sua pena descansava no papel, e sua mente prosseguia sua própria jornada por entre as janelas brasonadas de sol e as colunas de fumo avermelhado que constituíam toda a sua vista. Na verdade, esse fundo de quadro não deixava de ser apropriado aos seus pensamentos. Ela pôde atender aos remotos espaços por detrás da luta no primeiro plano, habilitada que estava agora a encará-los, desde que renunciara às próprias exigências, privilegiada por ter uma visão mais ampla, por partilhar dos vastos desejos e sofrimentos da massa da humanidade.Tarde demais e por demais brutalmente fora dominada pelos fatos, para encontrar prazer fácil no alívio da renúncia; a pouca satisfação que sentia provinha apenas da descoberta de que, tendo renunciado a tudo aquilo que torna a vida feliz, fácil, esplêndida, individual, restava uma realidade dura, intocada pela aventura pessoal de cada um,remota e inextinguível como as estrelas.

Enquanto Mary Datchet passava por essa curiosa transformação, do particular para o universal, Mrs. Seal não esquecia as próprias obrigações para com a chaleira e

o fogo de gás. Ficou um tanto surpresa ao ver que Mary puxara sua cadeira para a janela e, tendo aceso o gás, endireitou-se e olhou para ela. A mais óbvia razão para tal atitude numa secretária seria alguma espécie de indisposição física. Mas Mary, reagindo com esforço, negou que se sentisse mal:

– Estou é com uma preguiça incrível esta tarde – disse,com um olhar para a mesa. – Você realmente precisa de outra secretária, Sally.

As palavras foram ditas de brincadeira, mas alguma coisa no seu tom despertou um cioso temor que dormia sempre no seio de Mrs. Seal. Sentia um medo terrível de que, um dia, Mary, a moça que tipificava tantas idéias sentimentais e entusiásticas, que encarnava uma espécie de existência visionária, de branco com um ramo de lírios na mão, anunciasse garbosamente que estava para casar.

– Você não pensa em deixar-nos? – disse ela.

– Ainda não resolvi nada sobre coisa nenhuma – disse Mary, num reparo que podia ser tido como uma generalização.

Mrs. Seal tirou as xícaras do armário e botou-as na mesa. – Você não está pensando em casar-se. Ou está? – perguntou ela, desferindo as palavras com velocidade nervosa.

– Por que você não pára de fazer perguntas absurdas,Sally? – perguntou Mary, com voz não muito firme. – Todo mundo tem de casar-se? Mrs. Seal soltou um cacarejo dos mais peculiares.Parecia, ao mesmo tempo, reconhecer o lado terrível da vida, que diz respeito às emoções, à vida particular de cada um, ao sexo, e fugir disso tudo com a rapidez possível,escondendo-se nas sombras da sua própria tiritante virgindade. Ficara tão constrangida pela direção que a con-versa tomara, que enfiou a cabeça no armário fingindo extrair alguma obscura peça de porcelana.

– Temos o nosso trabalho – disse, tirando a cabeça do armário e exibindo no rosto maçãs mais vermelhas do que de hábito. Botou, depois, enfaticamente, um pote degeléia em cima da mesa. Mas, no momento, estava incapacitada de embarcar numa daquelas entusiásticas sebem que incoerentes tiradas sobre liberdade, democracia, direitos humanos, e iniqüidades do governo, comque tanto se comprazia. Alguma memória do própriopassado ou do passado do seu sexo lhe ocorrera e a mantinha desconcertada. Olhava furtivamente para Mary,que ainda estava sentada junto à janela, com o braço nopeitoril. Só agora notava o quanto era jovem e cheia de promessas de feminilidade. Essa constatação deixou-atão embaraçada que se pôs a bater nervosamente com asxícaras nos pires.

– Sim, trabalho bastante para uma vida inteira – disse Mary, como conclusão de algum pensamento.

Mrs. Seal animou-se imediatamente. Lamentava sua falta de treinamento científico e sua deficiência nos processos da lógica, mas pôs a mente a funcionar a fim de fazer a causa parecer tão sedutora e relevante quanto podia. Produziu, então, uma arenga, no curso da qual fez inúmeras perguntas retóricas e a todas respondeu, pontuando o discurso com pequenos golpes do punho fechado contra a mão esquerda.

– Para uma vida inteira? Minha querida menina, vai durar todas as nossas vidas. Quando uma cair, outra a substituirá na brecha. Meu pai, um pioneiro, na geração dele; eu, fazendo o que posso, em seu lugar. Que mais,desgraçadamente, se pode fazer? E agora é a vez de vocês,mulheres mais jovens, contamos com vocês, o futuro conta com vocês. Ah, minha cara, se eu tivesse mil vidas, eu as daria todas à nossa causa. A causa das mulheres, diz você. A causa da humanidade, digo eu. E há quem não veja isso! – disse, olhando ferozmente pela janela. – Há quem se satisfaça com a rotina, entra ano sai ano, na mesma recusa de admitir a verdade. E nós, que temos o poder de imaginação – a chaleira está fervendo? Não, não, eu cuido disso; nós sabemos a verdade – continuou, gesticulando com a chaleira e o bule de chá. Devido a esses estorvos, talvez, perdeu o fio da oração e concluiu, de modo um tanto ansioso: – É tão simples! – Referia-se a um tema que era, para ela, uma fonte perpétua de perplexidade: a extraordinária incapacidade da raça humana, num mundo onde o bem e o mal são tão inconfundivelmente separados, de distinguir entre um e outro, e de corporificar o que precisa ser feito nuns poucos singelos Atos do Parlamento, que, em curtíssimo espaço de tempo, mudaria o destino da humanidade.

– Seria de esperar – disse – que homens com formação universitária, como Mr. Asquith, seria de esperar que não ficassem surdos a um apelo à razão. Mas o que é a razão – refletiu – sem a realidade? Honrando a frase, repetiu-a, fazendo-a chegar assim aos ouvidos de Mr. Clacton, que saía da sua sala. E ele a repetiu mais uma vez, dando-lhe, como era seu hábito fazer com as frases de Mrs. Seal, um grave tom humorístico. Mas estava contente da vida, pois observou, lisonjeiro,que gostaria de ver a frase,em caixa alta,na cabeça de um panfleto.

– Mas, Mrs. Seal, temos de visar a uma combinação judiciosa das duas coisas – acrescentou, com sua maneira didática, a fim de contrabalançar o entusiasmo das duas mulheres. – A realidade tem de ser expressa segundo a razão para se fazer sentir. O ponto fraco de todos esses movimentos, Miss Datchet continuou, tomando seu lugar à mesa e dirigindo-se a Mary, como fazia sempre que se preparava para soltar o resultado de alguma profunda elucubração –, o ponto fraco é que esses movimentos não têm suficiente base intelectual. Um erro, a meu ver. O público britânico gosta de um grão de razão no pudim do sentimento – disse,limando a frase até um grau satisfatório de precisão literária.

Seus olhos demoraram-se, depois, com vaidade de au-tor, no folheto amarelo que Mary tinha na mão. Ela se levantou, tomou lugar à cabeceira da mesa, serviu chá a seus colegas, e deu sua opinião sobre o folheto. Assim, servira chá; assim criticara os folhetos de Mr. Clacton cem vezes antes; agora, porém, parecia-lhe que o fazia com um novo espírito: alistara-se no exército, já não era uma voluntária, uma amadora. Renunciara a algo, deixara de estar – como dizê-lo? – na “corrida” da vida. Sempre tivera consciência de que Mrs. Seal e Mr. Clacton não estavam na corrida, e por cima do abismo que a separava deles, via-os como sombras, entrando nas fileiras dos vivos ou saindo delas, excêntricos seres humanos, imperfeitamente desenvolvidos, de cuja substância alguma coisa fora subtraída – alguma coisa essencial. Nunca isso lhe chamara a atenção tão vivamente como nessa tarde, quando sentiu que sua sorte se lançara para sempre e para sempre se ligara à deles. Uma visão do mundo mergulhou no escuro, diria um temperamento mais volátil que o seu, depois de uma fase de desespero. Cumpre deixar que o mundo gire e mostre outra, mais esplêndida, talvez. Não,pensou Mary, com inflexível lealdade ao que lhe parecia ser correto; tendo perdido a que era a melhor, não vou agora pretender que qualquer outra possa substituí-la.Aconteça o que acontecer, não vou alimentar ficções na minha vida. Suas próprias palavras tinham uma espécie de nitidez que era como a produzida pela dor física, quando muito intensa. Para júbilo secreto de Mrs. Seal, a nor-ma que proibia tratar de assuntos de serviço à hora do chá foi desrespeitada. Mary e Mr. Clacton discutiram com uma irrefutabilidade e uma ferocidade que deram à mulherzinha a idéia de que algo de muito importante estava em causa – não sabia bem o quê. Ficou, assim, bastante excitada. Um crucifixo se embaraçou no outro, e ela fez um grande buraco na mesa com a ponta do lápis a fim de dar ênfase aos pontos mais notáveis do debate. Como um ministro do gabinete era capaz de resistir a tais razões era coisa acima da sua compreensão.

Chegou até a esquecer-se do seu próprio instrumento de justiça: a máquina de escrever. O telefone tocou e, ao correr para atendê-lo – o fato de alguém chamar sempre lhe parecera uma prova da importância do escritório –,sentiu que era para esse ponto, em toda a superfície do universo, que convergiam todos os fios subterrâneos do pensamento e do progresso. Quando voltou, com um recado da tipografia, viu que Mary punha o chapéu com grande decisão. Havia, mesmo, algo de imperioso e dominador em toda a sua atitude.

Escute, Sally – disse ela –, essas cartas devem ser copiadas. – Estas aqui não vi ainda. Quanto à questão donovo censo, temos de pensar nisso com muito cuidado.Mas vou para casa, agora. Boa noite, Mr. Clacton; boanoite, Sally.

Temos muita sorte com a nossa secretária, Mr. Clacton – disse Mrs. Seal, fazendo uma pausa, com a mão sobre a pilha de papéis, quando a porta se fechou sobre Mary. Mr. Clacton também ficara vagamente impressionado por alguma coisa no comportamento de Mary para com ele. Já antecipava o tempo em que seria necessário dizer-lhe que não poderia haver dois chefes num mesmo escritório, mas ela era, sem dúvida, muito capaz, e estava em contato com um grupo de rapazes muito inteligentes.Sem dúvida eles é que lhe tinham sugerido algumas das suas novas idéias.

Manifestou sua concordância com o comentário de Mrs. Seal, mas observou, com um olhar para o relógio,que mostrava só cinco e meia:

– Se ela leva o serviço a sério, Mrs. Seal, bom, mas isso é justamente o que algumas das suas inteligentes mocinhas não fazem. – E dizendo isso, voltou para a sala dele,e Mrs. Seal, depois de um momento de hesitação, retomou suas ocupações.