Noite e Dia
Capítulo 14
Mr. Clacton estava em toda a sua glória. A maquinaria que tinha montado e governado achava-se em vias de produzir o seu produto bimensal, uma reunião de comitê.E seu orgulho pela perfeita estrutura dessas assembléias era grande. Amava o jargão de salas de comitê; amava a maneira pela qual a porta ficava a abrir-se, quando o relógio soava as horas, em obediência a umas poucas penadas de sua mão numa folha de papel; e quando tinha aberto suficientes vezes, ele amava sair da sua sala, nos fundos do escritório, com documentos nas mãos, visivelmente importante, com um ar preocupado que iria bem no rosto de um primeiro-ministro avançando ao encontro do gabinete. Por ordem sua, a mesa fora decorada previamente com seis folhas de mata-borrão, seis penas, seis tinteiros, copos e jarra dágua, uma campainha e, em deferência ao gosto das senhoras membros do comitê, um vaso de crisântemos resistentes. Ele já havia, sub-repticiamente, endireitado as folhas de mata-borrão em relação aos tinteiros, e agora postou-se em frente ao fogo,ocupado em conversar com Miss Markham. Mas de olho na porta. E, quando Mary e Mrs. Seal entraram, ele deu um risinho e observou para o grupo espalhado em torno da sala:
– Creio, senhoras e senhores, que estamos prontos para começar.
Assim dizendo, tomou seu lugar à cabeceira da mesa,arranjou uma pilha de papéis à direita e outra à esquerda,e pediu a Miss Datchet que lesse a ata da reunião anterior.Mary obedeceu. Um observador arguto se teria indagado por que era necessário à secretária franzir a tal ponto os sobrolhos em face do texto toleravelmente neutro à sua frente. Poderia haver qualquer dúvida na sua mente de que fora resolvido fazer circular pelas províncias o folheto nº 3 ou distribuir um quadro estatístico mostrando a proporção de mulheres casadas e solteiras na Nova Zelândia;ou que os lucros líquidos do bazar de Mrs. Hipsley atingira um total de cinco libras, oito xelins e dois pence?
Poderia perturbá-la alguma dúvida sobre o perfeito senso e propriedade dessas afirmações? Ninguém teriaadivinhado, a julgar pelo seu aspecto, que estivesse perturbada. Nenhuma mulher mais agradável ou mais sensata do que Mary Datchet jamais pisou numa sala decomitê. Ela parecia uma combinação de folhas de outonoe sol de inverno; falando menos poeticamente, mostravaao mesmo tempo cortesia e firmeza, uma indefinível promessa de macia maternidade mesclada à sua evidente capacidade para o trabalho honesto. Não obstante, tinhagrande dificuldade em fazer que a razão lhe obedecesse;e à sua leitura faltava convicção; como se – e era esse justamente o caso – tivesse perdido o poder de visualizar o que lia. E logo que completou a lista, sua mente vooupara Lincoln’s Inn Fields e para as asas em alvoroço deinumeráveis pardais. Estaria Ralph ocupado ainda emfazer com que o calvo pardal-macho lhe pousasse namão? Teria tido sucesso? Teria jamais sucesso? Pensaraperguntar-lhe por que os pardais de Lincoln’s Inn Fieldseram mais mansos que os pardais de Hyde Park. Talvezpor serem os passantes mais raros, eles chegam a reconhecer os seus benfeitores. Durante a primeira meia horada reunião do comitê, Mary teve, assim, de dar batalha àpresença céptica de Ralph Denham, que ameaçava fazer o que bem entendia. Mary tentou meia dúzia de métodospara expulsá-lo. Elevou a voz, articulou distintamente,olhou firme para a cabeça careca de Mr. Clacton, começou a escrever uma nota. Para sua consternação, o lápisdesenhou no mata-borrão uma figurinha redonda que,não podia negar, era, indiscutivelmente, um pardal-macho de cabeça pelada. Olhou de novo para Mr. Clacton;sim, ele era calvo, como o são os pardais-machos. Nuncafoi uma secretária tão atormentada por tantas sugestõesinconvenientes, e todas vinham, ai! acompanhadas de alguma coisa ridiculamente grotesca, capaz de provocá-la,de um momento para outro, a uma leviandade tal quechocaria os seus colegas para sempre. O pensamento doque poderia dizer fazia-a morder os lábios, como se osseus lábios pudessem protegê-la.
Mas todas essas sugestões não passavam de destroços,trazidos à superfície por uma convulsão mais profunda, a qual, impedida de subir à sua consideração, manifestava sua existência por esses grotescos sinais e chamados.Teria de considerá-la , uma vez terminada a reunião. Enquanto isso, comportava-se escandalosamente; olhava pela janela,pensando na cor do céu e nas decorações do Imperial Hotel, quando deveria estar pastoreando os seus colegas,forçando-os a ater-se às matérias em pauta. Não conseguia atribuir maior importância a um projeto que a outro.Ralph dissera – não podia deter-se para pensar no que ele dissera, mas o fato era que ele despira os presentes procedimentos de toda realidade. E então, sem esforço consciente, por algum artifício do cérebro, descobriu-se interessada num esquema para organização de uma campanha jornalística. Determinados artigos tinham de ser escritos; determinados editores sondados. Que linha seria aconselhável tomar? Viu-se a desaprovar vigorosamente o que Mr. Clacton dizia. Alinhou-se com a opinião de que era o momento de atacar de rijo. Logo que disse isso, sentiu que se lançava contra o fantasma de Ralph; tornou-se logo mais e mais insistente, ansiosa para persuadir os outros. Uma vez mais, sabia exatamente e indiscutivelmente o que era certo e errado. Como se emergissem de uma névoa, os velhos inimigos do bem público levantavam a cabeça à sua frente: capitalistas, donos de jornais, antisufragistas e mais perniciosas, de certo modo, que todos eles, as massas, que não se interessam nem de uma forma nem de outra, e em cujo seio, provisoriamente, distinguia as feições de Ralph Denham. Na verdade, quando Miss Markham pediu-lhe que sugerisse os nomes de alguns amigos seus, expressou-se com um amargor incomum:
– Meus amigos todos pensam que essa espécie de coisanão serve para nada – e sentiu que dizia isso para Ralph.
– Oh, são desse gênero, são? – disse Miss Markham com uma risadinha.
Ao entrar na sala de reuniões do comitê, o estado de espírito de Mary se achava em seu ponto mais baixo.Agora, porém, melhorara bastante. Ela conhecia esse mundo, era lugar ordeiro, bem-organizado. Estava segura do certo e do errado. E a sensação de que era capaz de desferir um pesado golpe contra os seus inimigos alegrava o seu coração e punha-lhe brilho nos olhos. Em um desses vôos de fantasia, pouco característicos dela, mas enfadonhamente freqüentes nessa tarde, viu-se bombardeada de ovos podres em cima de um palanque de onde Ralph insistia para que descesse.
“Que importa a minha pessoa em comparação com a causa?”, respondia; e outras coisas assim. Diga-se em seu favor que, apesar de importunada por essas fantasias,mantinha a superfície do seu cérebro moderada e vigilante; e mais de uma vez soube conter, com muito jeito, a esbravejante Mrs. Seal, quando pedia: “Ação! Por toda parte! Imediatamente!” – como seria de esperar da filha de seu pai.
Os outros membros do comitê, todos eles gente mais velha, ficaram impressionados com Mary, e inclinados a tomar o seu partido, mesmo ficando uns contra os outros;talvez, em parte, pela juventude dela. O sentimento que a todos dominava deu a Mary uma sensação de poder; e ela sentiu que nenhum trabalho equivale em importância ou é tão excitante quanto o de fazer que outras pessoas façam o que a gente quer que façam. Na verdade, vitorioso o seu ponto de vista, sentiu certo desprezo pelas pessoas que se haviam submetido a ela.
O comitê encerrou a sessão, os membros juntaram seuspapéis, sacudiram-nos para que ficassem em ordem, guardaram-nos em suas pastas, bem fechadas e seguras, e se foram,tendo, na maior parte, de pegar trens a fim de cumprir outroscompromissos com outros comitês. Eram todos pessoas ocupadas. Mary, Mrs. Seal e Mr. Clacton ficaram sós. A sala estava quente e desarrumada, pedaços de mata-borrão juncavam a mesa, nos ângulos mais diversos, um copo tinha águapelo meio, que alguém despejara e se esquecera de beber.
Mrs. Seal começou a fazer chá, enquanto Mr. Clacton se retirava para a sua sala a fim de arquivar a nova batelada de documentos. Mary estava por demais excitada para ajudar Mrs. Seal com as xícaras e os pires. Levantou com ímpeto a janela e ficou olhando para fora. As lâmpadas da rua já se tinham acendido. E através da bruma da praça podiam-se ver figurinhas apressadas que atravessavam a rua ou seguiam ao longo da calçada, do outro lado. Na sua absurda disposição de pecaminosa arrogância, Mary contemplou as figurinhas e pensou: “Se eu quisesse poderia fazer que você entrasse ali ou parasse dura. Poderia fazer que vocês andassem em fila única ou dupla. Poderia fazer o que bem quisesse com vocês.” Mas a essa altura Mrs.Seal se postou ao seu lado.
– Você não acha que devia pôr alguma coisa nos ombros, Sally? – perguntou Mary, num tom meio condescendente de voz, mas sentindo uma espécie de piedade pela mulherzinha, tão ineficiente, coitada, e tão entusiasta. Mas Mrs. Seal não fez caso da sugestão.
– Então, divertiu-se? – perguntou Mary, com um riso curto. Mrs. Seal respirou fundo, dominou-se, depois explodiu, olhando, ela também, para Russell Square e Southampton Row, e para os transeuntes:
– Ah! Se a gente pudesse botar cada um desses aí nesta sala e fazê-los entender durante cinco minutos! Mas eles terão de ver a verdade, um dia. Se a gente pudesse obrigá-los a vê-la... Mary tinha consciência de ser muito mais esperta queMrs. Seal; e quando Mrs. Seal dizia qualquer coisa, mesmoalguma coisa que Mary também sentia, ela automaticamente pensava em tudo o que poderia ser dito em contradição.Nessa oportunidade, porém, seu atrevimento evaporou-se:
– Vamos tomar nosso chá – disse, virando as costas à janela e puxando o estore. – Foi uma boa reunião, não achou, Sally? – deixou cair, casualmente, quando se sentaram à mesa. Não poderia ter escapado a Mrs. Seal que Mary fora de uma eficácia extraordinária.
– Mas andamos em passo de lesma – disse Sally, sacudindo a cabeça, com impaciência.A essa resposta, Mary rebentou numa risada, e toda a sua arrogância se dissipou.
– Você pode rir – disse Sally, com outro movimento de cabeça –,mas eu não posso.Tenho cinqüenta e cinco anos,e ouso dizer que estarei na cova quando o conseguirmos,se jamais o conseguirmos...
– Oh, não, você não estará na cova – disse Mary, bondosamente.
– Será um grande dia – disse Mrs. Seal, balançando os cachos. – Um grande dia, e não só para nós, para a civilização. E o que eu sinto, você sabe? Sobre essas reuniões.Cada uma delas é um passo adiante na grande marcha – humanidade, sabe? Queremos para os que vierem depois de nós uma vida melhor – e tantos não podem ver isso! Fico a imaginar por que não vêem? Ela estava carreando pratos e xícaras do armário enquanto falava, de modo que suas frases eram mais quebradas do que de hábito. Mary não se pôde furtar a olhar a pequena e estranha sacerdotisa da humanidade com alguma coisa próxima da admiração. Enquanto ela, Mary,estivera a falar de si mesma, Mrs. Seal não pensara em outra coisa que na sua visão.
– Você não deve matar-se, Sally, se quiser ver o grande dia – disse, levantando-se e tentando tirar um prato de biscoitos das mãos de Mrs. Seal.
– Minha querida menina, para que mais serve meuvelho corpo? – exclamou ela, segurando com mais força ainda o seu prato de biscoitos. – Não devo, então, ficar orgulhosa de dar tudo o que tenho para a causa? Porque não sou uma inteligência como você. Há circunstâncias domésticas, gostaria de contar um dia avocê, então eu digo tolices, perco a cabeça, sabe? Você,não. Mr. Clacton também não. É um grande erro, perder a cabeça. Mas meu coração está no lugar. E fiqueitão contente de ver que Kit tem um cão daquele tamanho, não a achei nada bem.
Tomaram o chá e reviram muitos dos pontos discutidos no comitê, e muito mais minuciosamente do que fora possível antes. E todos tiveram a agradável sensação de agir, de certo modo, nos bastidores; de ter as mãos nos cordéis que, uma vez puxados, mudam o espetáculo exibido diariamente àqueles que lêem jornais. Embora suas opiniões diferissem, seu propósito os unia e fazia-os qua-se cordiais na sua maneira de tratar uns aos outros.
Mary, todavia, retirou-se bastante cedo, desejando ao mesmo tempo estar só e ouvir música no Queen’s Hall. Pretendia aproveitar totalmente a solidão para pensar no seu relacionamento com Ralph. Embora caminhasse de volta até o Strand com esse objetivo em mente, viu-se com a cabeça inconfortavelmente cheia de pensamentos desordenados. Encetava um, depois outro. Pareciam, até,colorir-se segundo a rua em que acontecia estar no momento. Assim, a visão da humanidade pareceu, de algum modo, ligada a Bloomsbury, e feneceu distintamente quando ela cruzou a artéria principal; então, um organista atrasado, de Holbom, pôs seus pensamentos a dançar de modo incongruente. E ao atravessar a grande e nevoenta praça de Lincoln’s Inn Fields,estava fria e deprimida outra vez, e horrivelmente lúcida. A escuridão removeu o estímulo da companhia humana, e uma lágrima chegou a escorrer-lhe pela face, acompanhando a súbita convicção de que, no fundo, amava Ralph, e ele não a amava. Escuro e deserto era agora o caminho que haviam percorrido de manhã; e silenciosos os pardais, nas árvores desnudas.Mas as luzes do seu próprio edifício logo a reanimaram.Todos esses diferentes estados da alma fícaram submersos na profunda maré de desejos, pensamentos, percepções,antagonismos, que varria perpetuamente a base do seu ser, para alçar-se, proeminente, quando as condições do mundo superior lhe eram favoráveis. Transferiu para o Natal a hora de pensar com clareza, dizendo consigo, enquanto acendia o fogo, que é impossível pensar com seriedade em Londres. Sem dúvida, Ralph não viria para o Natal, e ela faria longos passeios a pé pelo campo, e resolveria essa questão e todas as outras que a confundiam.Entrementes – pensou – levantando os pés para botá-los no guarda-fogo, a vida era cheia de complexidades; a vida era uma coisa que cumpria amar até a última fibra.
Estivera sentada por cinco minutos mais ou menos, e seus pensamentos começavam a ficar amortecidos, quandoa campainha tocou. Seu olho acendeu-se. Sentiu-se imediatamente certa de que Ralph viera visitá-la. Assim, esperouum bom momento antes de abrir a porta. Queria sentir suasmãos firmes nas rédeas de todas essas perturbadoras emoções que a vista de Ralph certamente despertara. Compôsse desnecessariamente, no entanto, pois teve de admitir nãoa Ralph, mas a Katharine e William Rodney. Sua primeiraimpressão foi a de que estavam, ambos, extremamente bem vestidos. Sentiu-se surrada e negligente ao lado deles, e nãosabia como recebê-los, nem a que tinham vindo. Nada ouvira do seu noivado. Mas, depois do primeiro desapontamento, sentiu-se satisfeita, pois percebeu instantaneamenteque Katharine era uma personalidade e, ademais, que nãoprecisava, agora, exercer seu autodomínio.
– Estávamos passando, vimos uma luz na sua janela, e resolvemos subir – explicou Katharine, de pé, parecendo muito alta e distinta e um tanto aérea também.
– Fomos ver uns quadros – disse William. – Meu Deus, esta sala me lembra um dos piores momentos da minha existência, quando fiz aquela palestra, e vocês todos ficaram sentados em volta no chão, zombando de mim. Katharine foi a pior. Podia sentir que se regozijava a cada erro que eu cometia.Miss Datchet foi gentil.Miss Datchet tornou possível para mim ir até o final, lembre-se.
Sentando-se, tirou as finas luvas amarelas, e começou a bater nos joelhos com elas. Sua vitalidade era agradável,pensou Mary, embora ele lhe parecesse cômico. A simples vista de Rodney dava-lhe ganas de rir. Seus olhos saltados passavam de uma para outra, e seus lábios formavam, perpetuamente, palavras que ficavam impronunciadas.
– Fomos ver os grandes mestres na Grafton Gallery – disse Katharine, aparentemente sem dar atenção a William, e aceitando um cigarro que Mary lhe oferecia.Recostou-se na cadeira, e o fumo que flutuava em torno do seu rosto parecia isolá-la ainda mais dos outros.
– Miss Datchet será capaz de acreditar que Katharine não gosta de Ticiano? – continuou William. – Ela não gosta de damascos, ela não gosta de pêssegos, ela não gosta de ervilhas. Ela gosta dos mármores Elgin e de dias cinzentos, sem sol nenhum. Ela é um típico exemplar da fria natureza do setentrião. Quanto a mim, venho do Devonshire...
Estiveram a discutir – pensou Mary –, e teriam por essa razão buscado refúgio no seu apartamento; estariam noivos, ou teria Katharine acabado de recusá-lo? Estava completamente perplexa.
Mas Katharine reapareceu, por detrás do seu véu de fumaça, bateu a cinza do cigarro na lareira, e olhou com umacuriosa expressão de solicitude para o homem irascível.
– Talvez, Mary, você não se importasse de nos dar chá? Tentamos conseguir algum, mas a confeitaria estava tão cheia, e na seguinte havia uma banda tocando. E os quadros, na maior parte, eram sem interesse, malgrado o que você passa dizer, William – falou com uma espécie de gentileza guardada.
Mary, em conseqüência, retirou-se para fazer preparativos. – Que quererão eles? – perguntou ao seu próprio reflexo no pequeno espelho da copa. Não ficaria em dúvida muito tempo. Ao voltar à sala com os apetrechos do chá, Katharine informou-a, aparentemente instruída a fazê-lo por William, do seu noivado.
– William acha que talvez você não saiba: vamos casar.
Mary se deu conta de que apertava a mão de William e dirigia suas felicitações a ele, como se Katharine fora inacessível; tinha, de fato, segurado o bule.
– Deixe-me ver – disse Katharine –, a gente põe água nas xícaras primeiro, não é? Você tem alguma artimanha sua, não tem William, para fazer chá?
Mary ficou meio inclinada a suspeitar que isso foi dito para disfarçar o nervosismo, mas nesse caso o disfarce eraextraordinariamente perfeito. Abandonou-se qualquerconversa de casamento. Katharine poderia estar sentadano seu próprio salão, dominando uma situação que nãoapresentava dificuldades para a sua mente treinada. Parasua surpresa, Mary viu-se conversando com William sobrevelhas pinturas italianas, enquanto Katharine servia chá, cortava bolo, mantinha o prato de William bem suprido,sem tomar parte maior do que a necessária na conversa.Parecia haver tomado posse do apartamento de Mary, elidava com as xícaras como se lhe pertencessem. Mas issoera feito com tanta naturalidade que Mary não se ressentiu; ao contrário, encontrou-se com a mão no joelho deKatharine, afetuosamente, por um momento. Haveria alguma coisa de maternal nesse fato de assumir controle? E,pensando em Katharine como uma mulher que, em breve,estaria casada, esses ares maternais encheram a mente de Mary de uma nova ternura e, até, de respeito. Katharineparecia, de repente, muito mais velha e mais experiente doque ela.
Entrementes, Rodney falava. Se sua aparência era uma desvantagem, surtia o efeito de fazer que seus grandes méritos surgissem como uma surpresa. Ele conservara cadernos de notas; ele sabia muita coisa sobre pintura. Era capaz de comparar diferentes exemplos em diferentes galerias, e suas respostas autorizadas a perguntas inteligentes ganhavam de longe das rápidas pancadinhas que ficava a dar – ao emiti-las – nos blocos de carvão da lareira. Mary ficou impressionada.
– Seu chá, William – disse Katharine, gentilmente.Ele fez uma pausa, engoliu o chá, obedientemente, e continuou.
E então ocorreu a Mary que Katharine, à sombra do seu chapéu de abas largas, e em meio à fumaça, e em meio à obscuridade do seu caráter, talvez estivesse a sorrir para si mesma, e não inteiramente com espírito maternal. O que ela dizia era muito simples, mas suas palavras, mesmo aquele “seu chá, William”, eram postas tão gentilmente,tão cautelosamente, quanto os pés de um gato persa entre ornamentos de porcelana. Pela segunda vez naquele dia,Mary sentiu-se frustrada diante de algo inescrutável no caráter de uma pessoa para qual se sentia fortemente atraída. Pensou que se estivesse, ela, noiva de Katharine, não tardaria também a usar essas perguntas rabugentas com que William, evidentemente, arreliava a noiva.
Não sei como você tem tempo de saber tanto sobre pinturas quanto sobre livros – disse ela.
Como tenho tempo? – respondeu William, encantado com esse pequeno cumprimento. – Bem, eu sempre viajo com um canhenho. E pergunto o caminho do museu dearte, primeira coisa de manhã. Depois, conheço gente e converso. Existe um homem no meu escritório que sabetudo sobre a Escola Flamenga. Eu estava falando com MissDatchet sobre a Escola Flamenga. Grande parte do quedisse,aprendi com ele – homens têm jeito para isso.Gibbonsé o nome do sujeito. Vocês têm de conhecê-la. Vamos convidá-lo para almoçar. Quanto a isso de não fazer caso dearte, Miss Datchet, é uma das atitudes de Katharine. Você sabia que ela assume atitudes? Pretende nunca haver lido Shakespeare, se ela é Shakespeare. Rosalind, sabe? – e deuum curioso risinho. De algum modo, esse cumprimentopareceu antiquado e quase de mau gosto. Mary, na verdade,sentiu-se corar, como se ele tivesse dito “sexo” ou “as mulheres”. Constrangido, talvez, pelo próprio nervosismo, Rodney continuou, na mesma disposição:
Ela sabe o bastante para qualquer propósito decente.O que querem vocês mulheres com a cultura, quando têm tanta coisa mais? Eu diria, tudo. Deixem algo para nós,hein, Katharine?
– Deixar algo para você? – disse Katharine, voltando aparentemente do mundo da lua. – Eu estava pensando que é hora de irmos...
‒É hoje que Lady Ferrilby janta conosco? Não, não podemos chegar atrasados – disse Rodney, levantando-se. –Conhece os Ferrilby, Miss Datchet? São donos de TrantemAbbey – acrescentou, para esclarecê-la , pois parecia incerta. – E se Katharine se fizer bastante atraente esta noite, talvez nos emprestem a propriedade para a lua-de-mel.
Concordo que é uma razão. Afora isso, trata-se de mulher maçante – disse Katharine. – Pelo menos – acrescentou, como que para minorar sua rudeza –, tenho dificuldade em falar com ela.
Porque você sempre espera que as outras pessoas tenham todo o trabalho. Eu já vi Katharine ficar sentada semdizer uma palavra a noite inteira – disse, dirigindo-se a Mary, como já fizera por várias vezes. – Não acha isso também? Algumas vezes, quando estamos sozinhos, já marqueino relógio – aí tirou do bolso um grande relógio de ouro ebateu no vidro – o tempo entre uma palavra e a seguinte.De uma feita contei dez minutos e vinte segundos e, então,se você me acredita, ela disse simplesmente “hum”!
Lamento muito – desculpou-se Katharine. – Eu sei que é um mau hábito esse, mas, você vê, em casa...
O resto da sua desculpa foi cortado, para Mary, pela batida da porta. Imaginou ouvir ainda William, que descobria novas razões de queixa pelas escadas. Um momento depois, a campainha tocou de novo, e Katharine reapareceu, pois deixara a bolsa numa cadeira. Encontrou-a logo, e disse, detendo-se um momento na porta, e falando de modo diferente, por estarem sós:
– Penso que estar noiva é péssimo para o caráter. – Sacudiu a bolsa nas mãos até que as moedas tinissem, como se aludisse simplesmente a esse exemplo do seu esquecimento. Mas a observação intrigou Mary: parecia referirse a outra coisa, e sua maneira mudara tão curiosamente, agora que William não a podia ouvir, que teve de encarála, à espera de uma explicação. Ela parecia quase severa. E Mary, que tentou sorrir-lhe, apenas conseguiu produzir um olhar fixo, de interrogação.Quando a porta se fechou pela segunda vez, deixou-se cair no chão, perto do fogo, tentando, agora que os corposdeles não estavam mais ali para distraí-la, juntar suas impressões esparsas deles num todo. E, embora se orgulhasse,como todos os outros homens e mulheres, de ter um olho infalível para caráter, não estava segura de entender os motivos que inspiravam Katharine Hilbery na vida. Havia algoque a conduzia, suavemente, para fora do alcance... algo,sim, mas o quê? Algo que lembrava Ralph. Curiosamente,ele dava a Mary essa mesma sensação e, com ele também,ela se sentia frustrada. Curiosamente, concluiu apressada,pois não havia duas pessoas mais diversas uma da outra. E,no entanto, ambas tinham esse impulso secreto, essa força – essa coisa indefinível que eles buscavam e de que não gostavam de falar. Oh, o que seria?