Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 25 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 24

Os primeiros sinais da primavera, mesmo os que se fazem visíveis em meados de fevereiro, não só produzem pequenas flores brancas e roxas nos mais abrigados recantos de florestas e jardins, mas geram nas mentes de homens e mulheres pensamentos e desejos comparáveis a pétalas de cor desmaiada e delicado perfume. Vidas enregeladas pelos anos – no que diz respeito ao presente – e reduzidas a uma superfície dura que não reflete nem cede,tornam-se moles e fluidas nessa estação, espelhando as formas e cores do presente tão bem quanto as formas e cores do passado. No caso de Mrs. Hilbery, esses primeiros dias de primavera eram, sobretudo, perturbadores,uma vez que aceleravam, de maneira geral, as suas faculdades emocionais, as quais, no que dizia respeito ao passado, nunca sofriam diminuição sensível. Mas, na primavera, seu desejo de expressão invariavelmente aumentava.Perseguiam-na fantasmas de frases soltas.Dava-se,então,ao sensual deleite da combinação de palavras. Procuravaas nas páginas dos seus autores favoritos. Compunha-as ela mesma, em pedaços de papel, e rolava-as na língua quando surgia ocasião para tal eloqüência. Era sustentada nessas excursões pela convicção de que nenhuma língua era capaz de sobrepujar o esplendor da memória de seu pai. E, embora seus próprios esforços não tivessem como resultado acelerar a conclusão da biografia dele, ficava sob a impressão de viver mais à sombra dele em tempos como esses do que em outros. Ninguém escapa ao império da linguagem, muito menos os de sangue inglês, criados desde a infância, tal como Mrs. Hilbery o fora, para entreterse ora na simplicidade saxônica, ora no esplendor latino da língua, e abastecidos das memórias, tal como Mrs. Hilbery o era, de velhos poetas exuberantes, em sua infinidade de vocábulos. Mesmo Katharine deixava-se afetar, ligeiramente, e contra seu melhor juízo, pelo entusiasmo da mãe. Não que seu bom senso pudesse aquiescer inteiramente à necessidade de um estudo dos sonetos de Shakespeare como prolegômeno ao quinto capítulo da biografia de seu avô. Começando com uma brincadeira inteiramente frívola, Mrs. Hilbery desenvolvera a teoria de que Anne Hathaway, entre outras coisas, escrevera os sonetos de Shakespeare. A idéia, sugerida a fim de animar uma reunião para professores, os quais se deram pressa em enviar-lhe, nos dias subseqüentes, grande número de manuais impressos em edições particulares, para sua instrução, tivera como resultado submergi-la num oceano de literatura elisabetana. Chegara a acreditar na sua própria pilhéria, que era, conforme disse, pelo menos tão boa quanto os chamados ‘fatos’ das outras pessoas. E toda a sua fantasia cristalizou-se, por algum tempo, em torno de Stratford-on-Avon. Pretendia, como comunicou a Katharine, quando esta entrou na sala na manhã seguinte ao seu passeio ao longo do rio, visitar o túmulo de Shakespeare. Qualquer fato relacionado com o poeta tor-nara-se, momentaneamente, de maior importância para ela que o presente imediato, e a certeza de que existia na Inglaterra um solo que Shakespeare indiscutivelmente pisara, e um sítio onde seus ossos jaziam diretamente sob os pés da gente, era tão absorvente para ela nessa ocasião,que saudou a filha com uma exclamação.

– Você acha que ele passou alguma vez por esta casa?

A pergunta pareceu, no momento, a Katharine, ter relação com Ralph Denham.

– A caminho de Blackfriars, quero dizer – explicouMrs. Hilbery –, porque, você sabe, a última descoberta é que ele teve uma casa lá.Katharine ainda olhava em torno com ar perplexo, e Mrs. Hilbery acrescentou:

– O que prova que ele não era tão pobre quanto dizem.Gostaria de imaginar que ele tinha o bastante. Embora não deseje absolutamente sabê-lo rico.Então, percebendo a expressão de perplexidade da filha, Mrs. Hilbery explodiu numa gargalhada.

– Minha querida, não falo do seu William, embora isso seja mais uma razão para gostar dele. Falo, penso, sonho com o meu William – William Shakespeare, naturalmente. Não é curioso – especulou, de pé à janela, a tamborilar delicadamente na vidraça – que tanto quanto se possa ver,aquela boa criatura, de chapéu azul, que atravessa a rua de cesta no braço, nunca tenha ouvido falar em tal pessoa? E,no entanto, tudo continua: advogados correndo para o trabalho, motoristas disputando fregueses, meninos rodando arcos, meninas dando pão às gaivotas, como se jamais tivesse havido um Shakespeare no mundo! Gostaria de ficar de pé naquele cruzamento o dia inteiro dizendo:“Gente, leiam Shakespeare!”

Katharine sentou-se à mesa e abriu um longo envelope empoeirado. Como Shelley era mencionado numa carta como ainda vivo, o documento tinha naturalmente considerável valor. Sua tarefa imediata era decidir se a carta toda devia ser reproduzida ou apenas o parágrafo relativo a Shelley. Pegou, então, de uma pena e segurou-a no ar pronta a fazer justiça à folha.Quase subrepticiamente,escorregou uma folha em branco para a sua frente e a mão, descendo, pôs-se a desenhar caixas divididas ao meio ou aos quartos por linhas retas, e depois círculos, que passavam pelo mesmo processo de dissecção.

– Katharine! Acabo de ter uma idéia brilhante! – exclamou Mrs. Hilbery. – Empregar, vamos dizer, cemlibras ou coisa assim em exemplares de Shakespeare, edistribuí-los a operários. Alguns dos seus brilhantes amigos, Katharine, que falam em comícios, poderão ajudarnos. Isso talvez nos leve a um teatro, em que todos poderemos representar papéis. Você seria Rosalind, emborahaja também uma pitada da velha aia em você. Seu pai éHamlet, chegado, com os anos, à circunspecção. E eu... eu tenho um pouco deles todos. Tenho uma boa dose dobobo, mas os bobos de Shakespeare dizem todas as falasbrilhantes. Agora, quem William será? Um herói? Hotspur? Henrique V? Não, William tem um grão deHamlet nele, também. Creio que William fala consigomesmo quando sozinho. Ah, Katharine, vocês devem dizer coisas lindíssimas quando estão juntos! – acrescentou,um tanto ansiosamente, com um olhar de relance à filha, que não lhe contara nada do jantar da noite passada.

Oh, dizemos uma porção de tolices – fala Katharine,escondendo seu pedaço de papel quando a mãe se aproximou, e abrindo a velha carta a respeito de Shelley à suafrente.

Em dez anos, nada disso lhe parecerá tolice – disse Mrs. Hilbery. – Creia-me, Katharine, você recordará com saudade esses dias. Você se lembrará de todas as tolices que disse. E verá que sua vida foi construída em cima delas. O melhor da vida é erigido sobre o que a gente diz quando ama. Não é tolice, Katharine – insistiu –, é a verdade, a única verdade.

Katharine estava a ponto de interromper sua mãe e,depois, a ponto de confiar-lhe tudo. Ficavam muito próximas uma da outra, às vezes. Mas, enquanto temporizava, procurando palavras que não fossem por demais diretas, sua mãe apelava para Shakespeare, e virava página após página em busca de alguma citação apropriada, que dissesse tudo isso sobre o amor muito, muito melhor do que ela jamais o conseguiria. Em conseqüência, Katharine limitou-se a desenhar um dos seus círculos em preto,muito forte, mas em meio ao processo o telefone tocou, e ela deixou a sala para atendê-lo.

Quando voltou, Mrs. Hilbery tinha encontrado, não a passagem que procurava, mas outra, de requintada beleza,como observou com justiça, levantando apenas a cabeça por um segundo a fim de perguntar quem chamara.

– Mary Datchet – respondeu Katharine, sumariamente.

– Ah! Quase quis chamar você de Mary, mas não teria combinado com Hilbery, e não combinaria com Rodney.Agora, esta é a passagem que eu queria (não acho nunca o que procuro). Mas é a primavera; são os narcisos; são os verdes prados; são os passarinhos.

Outra imperativa campainha de telefone cortou a sua citação. Mais uma vez Katharine deixou a sala.

– Minha querida filha, como são odiosos os triunfos daciência! – exclamou Mrs. Hilbery, à sua volta. – Logo estaremos em comunicação com a lua. – Quem era dessa vez?

– William – respondeu Katharine,ainda mais sumariamente.

– Eu perdôo tudo a William, porque estou segura de quenão haverá Williams na lua. Espero que venha almoçar?

– Vem tomar chá.

– Bom, é melhor que nada. E prometo deixá-los sozinhos.

– Não há necessidade disso – disse Katharine.

Passou a mão sobre a desbotada carta e achegou-se à mesa decididamente, como se não quisesse mais perder tempo. O gesto não passou despercebido a Mrs. Hilbery.Indicava a existência de alguma coisa de severo e inacessível no caráter da filha, que lhe dava calafrios; assim como lhe dava calafrios a vista da miséria,da embriaguez ou da lógica com que Mr. Hilbery julgava bom, às vezes, demolir sua convicção de que o Milênio estava às portas.Voltou à sua mesa e, pondo os óculos, com uma curiosa expressão de quieta humildade, entregou-se, pela primeira vez nessa manhã, à tarefa que a esperava. O choque contra um mundo pouco compassivo assentou-lhe o juízo.Por uma vez,sua indústria superou a da filha.Katharine não podia reduzir o mundo àquela perspectiva particular em que Harriet Martineau, por exemplo, era uma figura de peso, e tinha uma relação genuína com tal figura ou tal data. Curiosamente, o agudo som da campainha do telefone ainda ressoava em seu ouvido, e seu corpo e sua mente permaneciam em estado de tensão como se, a cada passo, pudesse ouvir outro chamado de maior interesse para ela do que o século XIX inteiro. Não imaginava claramente como seria tal chamado; mas, quando os ouvidos se acostumam a escutar, escutam involuntariamente, e assim Katharine passou a maior parte da manhã a prestar atenção a uma variedade de sons nas ruas secundárias de Chelsea. Pela primeira vez na sua vida, talvez, desejou que Mrs. Hilbery não se aplicasse tanto ao trabalho. Uma citação de Shakespeare não seria fora de propósito. De vez em quando percebia um suspiro provindo da mesa de sua mãe, mas era a única prova que tinha de sua existência.Katharine não associou tais suspiros à sua própria posição decidida à mesa, ou teria lançado a pena longe e contado à mãe a razão da sua impaciência. O único trabalho que conseguiu fazer nessa manhã foi uma carta a sua prima Cassandra Otway – uma carta ao mesmo desconexa, longa, afetuosa, brincalhona, e imperativa. Insistia com Cassandra para que entregasse seus bichos a um criado e viesse passar com eles uma semana ou duas. Poderiam sair juntas e ouvir música. A aversão de Cassandra à sociedade – disse – era uma afetação que começava a se endurecer num preconceito, que, a longo prazo, poderia isolá-la de todas as pessoas e coisas interessantes. Terminava a página quando o som, que não parara de antecipar, de fato soou-lhe aos ouvidos. Saltou, rápida, e bateu a porta com tanta força, que Mrs. Hilbery assustou-se. Aonde teria ido Katharine? Na sua absorção, não ouvira o telefone. A alcova da escada, em que ficava o aparelho, era isolada por uma cortina de veludo púrpura. Era como um saco de objetos supérfluos, desses que existem em muitas casas que armazenam os restos de naufrágio de três gerações. Gravuras de velhos tios, famosos por suas proezas no Oriente, pendiam da parede, acima de bules de chá chineses, cujos lados eram rebitados com pontos de ouro,e os preciosos bules, por sua vez, estavam em cima de estantes que continham as obras completas de William Cowper e Sir Walter Scott. O fio de som que saía do telefone era sempre colorido pelo ambiente que o recebia – ou sempre parecera assim a Katharine. Que voz, agora,se combinaria a ele ou marcaria uma dissonância?

– Que voz? – perguntou ela a si mesma, ouvindo um homem pedir, com grande firmeza, o número. A voz desconhecida pedia agora para falar com Miss Hilbery.De todo o tumulto de vozes que se juntam na outra ponta da linha telefônica, do imenso leque de possibilidades,que voz, que possibilidade era essa?

– Estive verificando o horário dos trens. Cedo, na tar-de de sábado, é o que mais me convém... Sou Ralph

Denham... Mas darei tudo por escrito...

Com mais do que a sensação habitual de estar sendo obrigada a fazer algo a ponta de baioneta, Katharine respondeu:

– Acho que poderei ir.Vou verificar meus compromissos.Fique na linha.Deixou cair o fone, e olhou fixamente para o retrato do tio avô que não cessara de encarar, com um ar de benévolaautoridade, um mundo em que não havia ainda sintomasda Revolta dos Cipaios. Todavia, balançando levementecontra a parede, dentro do tubo negro, havia uma voz, quepouco se importava com tio James, bules de porcelana, oucortinas de veludo vermelho. Ela observava a oscilação do tubo e ao mesmo tempo tomava consciência da individualidade da casa em que estava; ouvia os discretos ruídos domésticos de uma existência regular, nas escadas, no andaracima de sua cabeça, e movimentos atrás da parede da casaao lado. Não tinha uma visão muito clara de Denham, quando levou de novo o telefone aos lábios e respondeuque achava sábado bom para ela. Esperava que não se despedisse imediatamente, embora não sentisse qualquer interesse especial em ouvir o que ele estava dizendo e tivesse,até, começado, enquanto ele falava, a pensar no seu próprioquarto, em cima, com seus livros, seus papéis prensados entre folhas de dicionários, e a mesa que podia ser esvaziadapara trabalhar. Pôs de novo o fone no gancho, com expressão pensativa; sua inquietação amainara; conseguiu acabara carta para Cassandra sem dificuldade, endereçou o envelope e pregou o selo com a decisão e presteza habituais.

Um ramo de anêmonas chamou a atenção de Mrs. Hilbery quando acabavam de almoçar. O azul, o púrpura e o branco do vaso, posto num centro de luzes variadas,sobre um lustroso aparador chippendale junto à janela da sala de estar, fizeram-na estacar de chofre, com uma exclamação de prazer:

– Quem está de cama, Katharine? – perguntou. – Qualdos nossos amigos precisa ser reanimado? Quem se acharáabandonado e esquecido? Quem estará devendo a conta daágua, ou terá perdido a cozinheira que saiu numa explosãode raiva e nem esperou pelo salário? Eu sabia de alguém... concluiu. Mas, de momento, o nome dessa conhecida lhe escapou. A melhor representante desse grupo desamparado, cujo dia seria alegrado por aquele ramalhete de anêmonas, era, na opinião de Katharine, a viúva de um generalque vivia em Cromwell Road. Na falta de alguém realmente desprovido de tudo e faminto, como teria preferido, Mrs.Hilbery foi forçada a reconhecer os títulos da generala,pois, embora vivendo confortavelmente, era pessoa aborrecida, sem encantos, ligada de algum modo oblíquo à literatura e que, em certa ocasião, ficara emocionada a pontode chorar por causa de um telefonema.

Acontece que Mrs. Hilbery tinha um encontro em alguma parte, e a tarefa de levar as flores até Cromwell Road coube a Katharine. Levou também a carta para Cassandra, na intenção de depositá-la na primeira caixa de correio que encontrasse. Quando, todavia, se viu fora de casa, convidada a todo momento por agências e caixas externas a despejar o envelope nas suas goelas vermelhas,Katharine não o fez. Inventou desculpas absurdas: não queria atravessar a rua, ou estava certa de passar por outra agência em lugar mais central, adiante. Quanto mais tempo ficava com a carta na mão, mais questões a atormentavam, como que provindas de vozes no ar. Esses seres invisíveis perguntavam-lhe se estava noiva de William Rodney, ou se o compromisso fora rompido. Era certo – perguntavam – convidar Cassandra para uma visita; estava William Rodney apaixonado por ela, ou em vias de apaixonar-se? Então, os inquisidores paravam por um momento e recomeçavam, como se tomassem conhecimento de outro aspecto do problema: o que quisera dizer Ralph Denham na outra noite? Você acha que ele a ama? É certo concordar num passeio a sós com ele, e que conselho vai dar-lhe quanto ao futuro dele? William Rodney tem motivos para sentir ciúmes? E que pretende fazer você com relação a Mary Datchet? O que você vai fazer? O que a honra exige que faça? – repetiam.

– Céus! – exclamou Katharine, depois de prestar ouvidosa todos esses reparos. – Suponho que tenho de me decidir.

Mas o debate era uma verdadeira refrega, uma diversão para ganhar tempo. Como todas as pessoas criadas segundo uma tradição, Katharine era capaz, dentro de dez minutos, de reduzir qualquer dificuldade moral às proporções tradicionais e resolvê-la segundo as normas tradicionais. O livro da sabedoria jazia aberto, se não no regaço de sua mãe, pelo menos nos joelhos de muitos tios e tias. – Bastava consultá-los, e imediatamente iriam à página certa, para ler a resposta apropriada a alguém na sua situação. As regras que devem governar o comportamento de uma mulher solteira estão escritas com tinta vermelha e gravadas em mármore se, por qualquer aberração da natureza,não estiverem escritas no coração dela.Katharine estava pronta a acreditar que algumas pessoas consideram uma honra lançar, aceitar, entregar suas vidas a um aceno da autoridade tradicional; poderia até invejá-las; no seu caso, porém, as questões se tornavam fantasmas logo que tentava seriamente encontrar uma resposta, prova de que a resposta tradicional não lhe serviria, individualmente. E,no entanto, servira a tanta gente – pensava olhando as filas de casas de um lado e de outro, onde viviam famílias cujas rendas deviam oscilar entre mil e quinze mil por ano; famílias que tinham, talvez, três empregados; cujas janelas eram ornadas de cortinas, quase sempre espessas e invariavelmente sujas; e que deviam pensou –, uma vez que só se conseguia ver um espelho brilhando por cima de um etagere, em cujo tampo havia uma fruteira com maçãs,deviam manter a sala muito escura. Mas voltou o rosto, observando de si para consigo que essa não era a maneira de considerar o problema.

A única verdade que podia descobrir era a verdade do que ela mesma sentia – um frágil raio de luz se comparado à ampla iluminação derramada pelos olhos de todos os que concordam em ver juntos. Tendo rejeitado as vozes visionárias, não tinha escolha senão fazer dessa luz seu farol através das massas escuras que a confrontavam. Tentou seguir esse raio de luz, com uma expressão no rosto que teria feito qualquer transeunte julgá-la alheia à cena circundante, de maneira condenável e, até, ridícula. Podia-se temer que essa jovem de aspecto impressionante fizesse alguma coisa excêntrica. Contudo, sua beleza a salvava do pior fado que pode sobrevir a um pedestre: a gente a olhava mas não ria. Procurar um sentimento verdadeiro por entre o caos das insensibilidades ou meias insensibilidades da vida; reconhecê-lo como tal, quando encontrado, e aceitar as conseqüências da descoberta, é coisa que marca com rugas de fronte mais serena,ao mesmo tempo que aviva o lume do olhar. É missão que atordoa, degrada e enobrece. E, como Katharine logo percebeu, suas descobertas davam-lhe razão para surpresa, vergonha e intensa ansiedade. Quase tudo dependia, como de regra, da interpretação da palavra amor, palavra que vinha à baila cada vez que considerava Rodney, Denham,Mary Datchet ou ela própria; e que, em cada caso, parecia ter sentido diverso, sem deixar de ser algo inconfundível e impossível de ignorar. Pois, quanto mais olhava a confusão dessas vidas que, em vez de correrem paralelas, se tinham entrecruzado de repente, mais se convencia de que não havia outra luz nelas senão essa estranha iluminação, e nenhum outro caminho, salvo aquele sobre o qual ela deitava seus raios. Sua cegueira no caso de Rodney, sua tentativa de igualar o verdadeiro sentimento dele com o seu sentimento falso constituíam um malogro que jamais poderia condenar suficientemente. Na verdade, podia apenas pagar-lhe o tributo de deixar plantado um marco negro e nu e a descoberto, sem qualquer tentativa de sepultá-lo no esquecimento ou no perdão.

Embora isso fosse humilhante, muito havia a exaltar. Reviu três cenas diversas: Mary, direita na cadeira, a dizer“Estou apaixonada, estou apaixonada”; Rodney, perdendosuas inibições por entre as folhas secas, e falando com oabandono de uma criança; Denham, debruçado no parapeito de pedra, discursando para o céu distante a ponto de tê-lo considerado louco. Passando de Mary a Denham, deWilliam a Cassandra, e de Denham a ela própria – se éque (coisa de que duvidava) o estado de espírito deDenham estava associado a ela –, sua mente parecia traçaras linhas de um desenho geométrico, de um arranjo devida que investia, se não a ela mesma, pelo menos aos outros, não só com interesse, mas com uma espécie de trágicabeleza. Tinha uma fantástica visão de todos eles, sustentando esplêndidos palácios em seus dorsos curvados. Eram os porta-lanternas cujas luzes, espalhadas por entre a multidão, formavam um desenho, combinando-se, dissolvendo-se e juntando-se outra vez. Formulando concepções como essas enquanto andava rapidamente pelas ruas melancólicas de South Kensington, decidiu que, por obscuro que fosse o resto, isto era claro: cumpria favorecer osdesígnios de Mary, Denham, William e Cassandra. Como – não parecia evidente. Nenhum curso de ação lhe pareciaindubitavelmente correto. Tudo o que conseguiu da suaatividade mental foi a convicção de que, em tal causa, nenhum risco era grande demais; e que, longe de ditar quaisquer regras para si mesma ou para os outros, deixaria queas dificuldades por resolver se acumulassem, como situações de fauces abertas, insaciadas, enquanto manteria umaposição de absoluta e destemida independência. Só assimpoderia servir bem àqueles que amava.

Lidas à luz dessa exaltação, havia um novo sentido nas palavras que sua mãe escrevera a lápis no cartão que juntara ao buquê das anêmonas. A porta da casa de Cromwell Road abriu-se. Vistas sombrias de um corredor e uma escada apresentaram-se. A pouca luz que havia parecia concentrada numa salva de prata para cartões de visita, cujas bordas tarjadas sugeriam que os amigos da viúva tinham todos sofrido perdas semelhantes.Não era de esperar que a empregada penetrasse o sentido do tom grave com que a jovem senhora lhe estendeu as flores, com o afeto de Mrs. Hilbery; e a porta se fechou sobre a oferenda.

A visão de um rosto, a batida de uma porta são coisas destrutivas de uma exaltação abstrata. Voltando a pé para Chelsea, Katharine tinha dúvidas quanto ao resultado das suas resoluções. Se não é possível, porém, estar segura das pessoas, cumpre aferrar-se aos números e, de um modo ou de outro, concentrou o pensamento em problemas que estava acostumada a considerar harmoniosos com a sua maneira de ver as vidas dos seus amigos. Chegou em casa bastante atrasada para o chá.

Sobre a antiga cômoda holandesa do hall viu dois ou três chapéus, casacos e bengalas; chegou-lhe então o som de vozes através da porta da sala, onde se deteve um momento. Sua mãe deu um pequeno grito quando ela entrou; esse grito comunicava a Katharine que estava atrasada, que as xícaras e leiteiras andavam a conspirar, desobedientes, e que devia tomar imediatamente o seu lugar à cabeceira da mesa e servir o chá para as visitas. Augustus Pelham, o diarista, gostava de uma atmosfera calma para contar as suas histórias; gostava de atenção; gostava de extrair pequenos fatos, pequenas histórias sobre o passado e os grandes mortos, de distintas figuras como Mrs. Hilbery, para alimentar seu diário; por isso freqüentava chás como esse e comia por ano enorme quantidade de torradas com manteiga. Assim, acolheu Katharine com alívio, e ela teve apenas que cumprimentar Rodney e saudar a senhora americana, que viera ver as relíquias, antes que a conversa retomasse seu curso, nas linhas gerais de reminiscências e discussão que lhe eram familiares.

Contudo, mesmo com esse véu espesso entre os dois,não podia deixar de olhar para Rodney, como se pudesse descobrir o que acontecera com ele desde a última vez que se encontraram. Em vão. Suas roupas, inclusive o colete branco, a pérola na gravata, pareciam interceptar esse olhar furtivo e proclamar a futilidade de tais averiguações junto a um cavalheiro de tal urbanidade, ocupado em equilibrar sua chávena de chá e em pousar sua fatia de pão com manteiga na beirada do pires. Seu olhar não encontrava o dele, coisa que podia ser explicada pela atividade dele, ajudando a servir, e a polida alacridade com que respondia às perguntas da visitante americana.

Era um espetáculo desencorajador para alguém que entra com a cabeça repleta de teorias sobre o amor. As vozes dos interrogadores invisíveis eram reforçadas pela cena em volta da mesa, e soavam com tremenda confiança, como se tivessem por detrás delas o bom senso de vinte gerações, acrescido da aprovação imediata de Mr. Augustus Pelham, de Mrs. Vermont Bankes, William Rodney e, possivelmente, da própria Mrs. Hilbery. Katharine cerrou os dentes, não inteiramente em sentido metafórico, porque sua mão, obedecendo ao impulso que lhe comandava a ação explícita, depôs sobre a mesa, junto a si, um envelope que vinha segurando todo esse tempo no mais completo esquecimento. O endereço estava virado para cima.Um momento depois viu o olhar de William pousar sobre ele, quando se levantou para cumprir alguma obrigação com um prato. Sua expressão mudou instantaneamente. Fez o que estava a ponto de fazer e depois olhou para Katharine com um olhar que revelava tanto da confusão que o possuía, que ficou patente que sua aparência não o representava todo. Num minuto ou dois, perdeu o fio do que ia dizer a Mrs. Vermont Bankes, e Mrs.Hilbery, percebendo o silêncio com sua habitual sagacidade, sugeriu que talvez fosse tempo de mostrar “nossas coisas” a Mrs. Bankes.

Katharine, então, levantou-se e indicou o caminho da pequena saleta interior, com os quadros e os livros. Mrs.Bankes e Rodney acompanharam-na.

Acendeu as luzes e começou imediatamente, com sua voz baixa e agradável: – Esta é a mesa de trabalho de meu avô. Muitos dos últimos poemas foram escritos nela. E esta é a sua pena – a última pena que usou.

Tomou-a na mão e fez uma pausa de alguns segundos.Aqui – continuou – está o manuscrito original Ode ao lnverno. Os manuscritos mais antigos são muito menos emendados do que os últimos, como podem ver...

– Oh, pegue-o na sua mão – acrescentou, quando Mrs.Bankes pediu, com voz estrangulada, por esse privilégio e começou a desabotoar previamente suas luvas de pelica branca.

– A senhora é maravilhosamente semelhante ao seu avô, Miss Hilbery – observou a dama americana, olhando de Katharine para o retrato –, especialmente em volta dosolhos. Vamos, diga-me, imagino que ela também faça versos, não? – perguntou, num tom jocoso, dirigindo-se aWilliam. – A figura ideal de um poeta, não, Mr. Rodney?Não sei dizer o quanto me comove o privilégio de estaraqui, com a neta do poeta. A senhora precisa saber que temos grande respeito por seu avô na América, Miss Hilbery.Temos sociedades para a leitura dele em voz alta. O quê? Os seus próprios chinelos! – Deixando de lado o manuscrito, apanhou rapidamente os velhos sapatos e permaneceupor um momento muda na contemplação deles.

Enquanto Katharine prosseguia com toda a seriedade seus deveres de guia de museu, Rodney examinava atentamente uma frisa de pequenos desenhos que já conhecia de cor. Sua perturbação mental impunha-lhe aproveitar esses curtos intervalos. Era como se, exposto a uma grande ventania, tivesse de arranjar as roupas no primeiro abrigo alcançado. Sua calma era apenas aparente, como o sabia muito bem; não descia além da superfície da gravata, do colete, da camisa branca.

Ao levantar-se da cama, nessa manhã, dispusera-se firmemente a ignorar tudo o que fora dito na noite anterior; convencera-se, à vista de Denham, que seu amor por Katharine era apaixonado; ao falar com ela pelo telefone,esperara transmitir, com o tom ao mesmo tempo desanuviado e autoritário, a idéia de que, depois de uma noite de insônia, continuavam tão noivos quanto antes. Mas, ao chegar ao escritório, tiveram início os tormentos. Encontrara à sua espera uma carta de Cassandra. Ela ha-via lido a peça dele e aproveitara a primeira oportunidade para escrever e dizer-lhe o que pensava. Sabia – escreveu – que seu louvor nada significava; ainda assim, ficara acordada a noite toda; pensara isto e aquilo; mostrava-se tomada de um entusiasmo um pouco elaborado em algumas passagens, embora houvesse em linguagem simples o bastante para lisonjear amplamente a vaidade de William.Ela era assaz inteligente para dizer as coisas certas ou,com maior graça ainda, para sugeri-las. Sob outros aspectos também, era uma carta encantadora. Falava da sua música e de uma reunião sufragista a que Henry a levara;dizia, com meia seriedade, que aprendera o alfabeto grego e o achara ‘fascinante’. A palavra aparecia grifada. Teria rido ao fazer esse grifo? Seria jamais séria? E não mostrava essa carta a mais cativante mistura de entusiasmo, espírito e extravagância, tudo convergindo para uma chama de capricho feminino que dançou, pelo resto da manhã,como um fogo-fátuo, pela vista de Rodney? Não pôde resistir ao desejo de compor uma resposta ali mesmo.Achou particularmente delicioso formular sua carta num estilo que expressasse as mesuras e reverências, os avanços e recuos característicos de milhões de pares de homens e mulheres. Katharine nunca marchara nesse compasso, não pôde impedir-se de pensar. Katharine-Cassandra. Cassandra-Katharine – as duas alternaram no seu consciente o dia inteiro. Era muito fácil vestir-se com apuro,compor a própria face e sair pontualmente às quatro e meia para um chá em Cheyne Walk, mas só os Céus sabiam o que adviria disso tudo. Assim, quando Katharine,depois de estar sentada, calada e imóvel como era de seu costume, tirou do bolso uma carta endereçada a Cassandra e bateu com ela na mesa, debaixo dos seus próprios olhos, sua compostura abandonou-o. O que queria dizer com tal comportamento?

Levantou os olhos vivamente da série de pinturinhas.Katharine descartava-se da americana de maneira demasiado arbitrária. Certamente a própria vítima estaria a verquão tolo seu entusiasmo parecia aos olhos da neta do poeta. Katharine jamais fazia o menor esforço para poupar ossentimentos dos outros – refletiu. E sendo ele próprio extremamente sensível a todas as nuanças do bem-estar e do constrangimento, cortou pelo meio o catálogo de leiloeiro,que Katharine recitava cada vez mais distraidamente, e tomou Mrs. Vermont Bankes, com uma curiosa sensação de companheirismo na dor, sob sua proteção pessoal.

Em poucos minutos, a dama americana completou sua inspeção e, fazendo um pequeno sinal de cabeça em reverente despedida ao poeta e a seus chinelos, foi escoltada escada abaixo por Rodney. Katharine ficou só na pequena sala. A cerimônia de veneração dos antepassados fora mais opressiva para ela que de hábito. Ademais, o aposento estava ficando mais atravancado do que permitia a boa ordem. Ainda essa manhã, protegida por oneroso seguro,chegara-lhes uma prova enviada da Austrália por um colecionador. Registrava uma mudança de idéia do poeta com referência a uma linha muito famosa e,em conseqüência, fazia jus a vidro e moldura. Mas havia lugar para ela? Poderia ser pendurada na escada, ou outra relíquia qualquer lhe cederia lugar. Sentindo-se incapaz de decidir,Katharine olhou para o retrato do avô como que a pedirlhe opinião. O artista que o pintara estava agora fora de moda e, à força de mostrá-lo a visitantes, Katharine via nele agora pouco mais que um brilho de rosa e de marrom, vagamente agradáveis, fechados numa cercadura de folhas de louro em dourado. O jovem que era seu avô olhava vagamente por cima da cabeça dela. Os lábios sensuais, levemente entreabertos, davam ao rosto uma expressão de assistir a algo de adorável ou de miraculoso que acaba de desaparecer ou de apontar na linha do horizonte. A expressão repetia-se curiosamente no rosto de Katharine ao olhar o do avô. Eram da mesma idade, ou quase. Ficou a imaginar o que ele estaria procurando: haveria vagas batendo para ele também contra uma praia? Ou heróis a galopar por florestas luxuriantes? Pela primeira vez na vida, pensou nele como um homem, jovem,infeliz, tempestuoso, cheio de desejos e defeitos; pela primeira vez, concebeu-o por si mesma e não através da memória de sua mãe. Poderia ter sido seu irmão, pensou.Sentia que eram afins, com o misterioso parentesco de sangue que faz parecer possível interpretar as visões que os olhos dos mortos contemplam tão atentamente, ou mesmo acreditar que olham conosco as nossa presentes alegrias e tristezas. Ele teria compreendido, pensou, subitamente; e ao invés de depor flores fanadas sobre o seu santuário, trazia-lhe suas próprias perplexidades – talvez uma oferenda de maior valor, se é que os mortos têm consciência de oferendas, do que flores, incenso e adoração. Dúvidas, indagações, desalentos que ela sentia, ao olhar com respeito, seriam mais bem-vindos para ele que homenagem, e ele os consideraria apenas um pequeníssimo fardo se ela lhe oferecesse também alguma parte no que sofrera e alcançara. A extensão do seu próprio orgulho e do seu amor não eram mais aparentes para ela do que o sentimento de que os mortos não pediam flores nem saudades, mas participação na vida que tinham dado a ela, na vida que tinham vivido.

Rodney encontrou-a um momento depois, sentada debaixo do retrato de seu avô. Ela pousou amavelmente a palma da mão no assento da cadeira ao lado, e disse:

Venha e sente-se,William.Fiquei contente que você estivesse aqui! Sentia-me a cada momento mais e mais rude.

Você não sabe disfarçar seus sentimentos – respondeu ele, friamente.

– Oh, não ralhe comigo, tive uma tarde horrível.

Contou-lhe, então, de como levara as flores para Mrs.McCormick, e de como South Kensington a impressionara, parecendo reserva de viúvas de oficiais. Descreveu como a porta se abrira, e que sombrias alamedas de bustos e palmeirinhas se lhe tinham revelado. Falou em tom ligeiro e conseguiu que ele ficasse à vontade. Ficou, aliás,rapidamente, tão à vontade, que não pôde persistir numa condição de jovial neutralidade. Sentiu que a compostura escorregava dele. Katharine fazia parecer natural que lhe pedisse ajuda ou que ela própria lhe desse conselhos; era fácil dizer diretamente tudo o que tinha na cabeça. A carta de Cassandra pesava-lhe no bolso. Havia também a carta para Cassandra, jazendo sobre a mesa da outra sala.A atmosfera parecia carregada de Cassandra. Mas, a não ser que Katharine provocasse o assunto espontaneamente, ele não poderia sequer aludir – ele teria de ignorar a história toda; era papel do gentleman preservar uma postura que fosse, até onde podia ver, a de um amoroso confiante. Suspirava profundamente de vez em quando.

Falava muito mais depressa do que de hábito sobre a possibilidade de que algumas das óperas de Mozart viessem a ser levadas no verão. Recebera uma informação – disse – e imediatamente produziu um cademinho atulhado de papéis, que começou a folhear, em busca. Segurava um grosso envelope entre o polegar e o indicador, como se o aviso da companhia de ópera tivesse ficado, de algum modo, inseparavelmente grudado a ele.

– Uma carta de Cassandra? – disse Katharine, com a voz mais natural do mundo, olhando por cima do ombro dele. Acabo de escrever-lhe convidando-a a vir; apenas me esqueci de pôr a carta no correio.Ele passou-lhe o envelope em silêncio. Katharine tomou-o, extraiu as folhas, e leu a carta do princípio ao fim.A leitura pareceu a Rodney levar um tempo intoleravelmente longo.

– Sim – observou ela, finalmente. – Uma carta encantadora. O rosto de Rodney estava voltado para o outro lado, como que por confusão. A vista que ela podia ter do seu perfil quase a levou ao riso. Percorreu as páginas com os olhos mais uma vez.

– Não vejo mal – revelou William –, não vejo mal em ajudá-la; com o grego, por exemplo, se ela realmente se interessa por essa espécie de coisas.

– Nada impede que se interesse – disse Katharine, consultando as folhas uma vez mais. – Na verdade, ah, aqui está: “O alfabeto grego é absolutamente fascinante.” É óbvio que ela se interessa.

– Bem, grego pode ser tarefa acima das suas forças. Eu pensava sobretudo em inglês. As críticas que ela faz da minha peça, embora muito generosas, evidentemente imaturas (ela não pode ter mais de vinte e dois anos, suponho?), mostram a espécie de coisa que se deseja: sentimento autêntico pela poesia, compreensão, não formada ainda, é claro, mas é isso que está na raiz de tudo, afinal de contas. Não haverá mal em emprestar-lhe livros?

– Não. Claro que não.

– Mas, e isso, hum... conduzir a uma correspondência? Quero dizer Katharine, entendo que, sem entrar em assuntos que me parecem um tanto mórbidos, quero dizer – ele se atrapalhava – no seu ponto de vista, você não vê qualquer coisa de desagradável para você nessa idéia? Se vê, fale, e não pensarei mais nisso.Ela ficou surpresa com a violência do seu próprio desejo de que ele não pensasse mais nisso. Por um instante,pareceu-lhe impossível permitir uma intimidade, que poderia não ser a do amor, mas que certamente era a intimidade da amizade verdadeira, a qualquer mulher do mundo. Cassandra nunca o compreenderia – não estava à altura dele. A carta parecia-lhe uma carta de lisonja – uma carta dirigida ao ponto fraco dele –, e Katharine enfurecia-se com sabê-lo conhecido de outra. Porque ele não era fraco; tinha a força, muito rara, de fazer o que prometia – bastaria falar-lhe, e ele nunca mais pensaria em Cassandra.

Ela vacilou. Rodney adivinhou a razão. Estava estupefato.

“Ela me ama”, pensou. A mulher que ele admirava

mais do que qualquer pessoa no mundo o amava, quando ele já perdera a esperança de que jamais viesse a amá-lo. E agora que, pela primeira vez, estava seguro do seu amor, isso o exasperava. Via-o como um grilhão, um estorvo,alguma coisa que os fazia, a ambos, mas a ele em particular, ridículos. Achava-se completamente nas mãos dela,mas seus olhos estavam abertos, e ele já não era seu escravo, não era um tolo. Seria senhor dela, no futuro. O instante se alongou, enquanto Katharine tomava consciência do desejo de dizer as palavras que conservariam William para sempre, e da baixeza da tentação que a assaltava para fazer o gesto ou proferir a palavra pelos quais tantas vezes ele implorara, e que ela estava agora bastante próxima de sentir. Tinha a carta na mão. Ficou sentada, em silêncio.

Houve, então, um burburinho na outra sala; ouviu-se a voz de Mrs. Hilbery a falar de provas tipográficas recuperadas providencialmente, miraculosamente, de livros-razão de açougueiros da Austrália; a cortina que separava uma sala da outra foi corrida, e Mrs. Hilbery e Mr.Augustus Pelham assomaram à entrada. Mrs. Hilbery deteve-se imediatamente. Olhou a filha e o homem com quem a filha devia casar, com seu sorriso peculiar, que parecia sempre tremer à beira da sátira.

– O melhor dos meus tesouros, Mr. Pelham! – exclamou.

– Não se mova Katharine. Fique onde está, William.Mr. Pelham virá outro dia.

Mr. Pelham olhou, sorriu, curvou-se, e, como sua anfitriã já se afastava, seguiu-a sem uma palavra. A cortina foi, de novo, fechada, por ele ou por Mrs. Hilbery.

Mas sua mãe, de algum modo, resolvera a questão.Katharine já não estava em dúvida.

– Como lhe disse na noite passada – começou –, penso que é seu dever, se existe uma possibilidade de que ame Cassandra, de descobrir agora a natureza do sentimento que tem por ela. É seu dever para com ela tanto quanto para comigo. Mas temos de dizer a minha mãe. Não podemos continuar fingindo.

– Isso fica inteiramente em suas mãos, naturalmente disse Rodney, com um retorno imediato às maneiras de um homem formal e digno.

– Muito bem – disse Katharine.

Logo que ele saísse, iria ter com a mãe e explicar que o noivado chegara ao fim, ou seria melhor se fossem juntos?

– Mas Katharine – começou Rodney, procurando nervosamente meter as folhas da carta de Cassandra de volta no envelope –, se Cassandra viesse, se ela vier – você convidou Cassandra para ficar com você.

– Sim. Não, não pus a carta no correio.

Ele cruzou as pernas, num silêncio embaraçado. Segundo todos os seus códigos, era impossível pedir à mulher com a qual acabava de romper o seu noivado que o ajudasse a conhecer outra mulher com vista a apaixonar-se por ela. Uma vez anunciado o rompimento do seu compromisso, seguir-se-ia, inevitavelmente, uma longa e completa separação; nessas circunstâncias, cartas e presentes seriam devolvidos; depois de anos de distância, o par separado se encontrava, talvez num sarau, cumprimentando-se constrangedoramente com uma ou duas palavras indiferentes. Ele seria completamente afastado;teria de contar com os próprios recursos. Nunca mais poderia mencionar Cassandra a Katharine; por meses e, sem dúvida, anos, não veria Katharine de novo; e tudo poderia acontecer a ela na sua ausência.

Katharine estava quase tão a par das perplexidades de Rodney quanto ele próprio. Sabia em que direção apontava a generosidade completa; mas o orgulho – pois permanecer comprometida com Rodney e cobrir os experimentos dele feriam nela o que era mais nobre do que simples vaidade – lutava para salvar a vida.

“Terei de renunciar à minha liberdade por um tempo indefinido”, pensou, “a fim de que William possa ver Cassandra, aqui, à vontade. Ele não poderá sair-se bem nem terá a coragem necessária sem minha ajuda – e não tem coragem de me dizer abertamente o que quer. Ele tem horror a um rompimento público. Gostaria de nos conservar a ambas”.

Quando chegou a esse ponto, Rodney pôs a carta no bolso e consultou elaboradamente o relógio. Embora soubesse que, com isso, perdia Cassandra, pois conhecia a própria incompetência e não tinha a menor confiança em si, e que perdia também Katharine, por quem seus sentimentos eram profundos embora insatisfatórios, ainda assim parecia-lhe não ter outra coisa a fazer: era forçado a ir-se embora, deixando Katharine livre – tinha-o dito – para contar à mãe que o noivado estava rompido. Mas fazer aquilo que o dever exige de um homem honrado custava um esforço que há um dia ou dois teria sido para ele inconcebível. Que uma relação como a que tinha entrevisto, como antecipação, pudesse ser possível entre ele e Katharine, teria sido o primeiro a negar, dois dias atrás,com indignação. Mas agora sua vida mudara; sua atitude mudara; seus sentimentos eram diferentes, novos objetivos e possibilidades lhe haviam sido mostrados, e exerciam uma fascinação de uma força quase irresistíveis. A disciplina de uma vida de trinta e cinco anos não o deixara sem defesas; era ainda senhor da sua dignidade; levantou-se disposto a um adeus irrevogável.

– Deixo-a, então – disse, de pé, segurando a mão de Katharine, com um esforço que o empalidecia mas que lhe emprestava dignidade –, para dizer a sua mãe que o nosso noivado está desfeito por desejo seu.

Ela tomou a mão dele e segurou-a. – Você não confia em mim?

– Confio totalmente – respondeu ele.

– Não. Você não confia em mim para ajudá-lo... Poderiaeu ajudá-lo?

– Estou perdido sem a sua ajuda! – exclamou apaixonadamente,mas retirou a mão e virou-lhe as costas.Quando ele se voltou, pensou que o via pela primeira vez semdisfarce.

– Seria inútil pretender que não entendo o que você me oferece, Katharine. Admito o que você diz. Para ser perfeitamente franco com você,creio que neste momento eu amo sua prima. Existe a oportunidade de que, com sua ajuda, eu venha a... Mas não – interrompeu-se –, é impossível, é errado. Foi indesculpável de minha parte permitir que tal situação se criasse.

– Sente-se perto de mim. Vamos considerar sensatamente...

– Seu bom senso foi a nossa ruína – gemeu ele.

– Aceito a responsabilidade.

– Ah, mas posso permitir isso, agora? – exclamou ele.

– Significaria, porque temos de encarar isso, Katharine,significaria deixar o nosso noivado de pé, nominalmente, por enquanto; embora, de fato, a sua liberdade sejaabsoluta.

– E a sua também.

– Sim. Seremos ambos livres. Vamos dizer que eu veja Cassandra uma vez, talvez duas, sob essas condições; se, então, como penso que acontecerá certamente, a coisa toda não passar de um sonho, contaremos a sua mãe, imediatamente. Por que não contar-lhe agora, pedindo-lhe reserva?

– Por que não? Porque Londres inteira seria informada em dez minutos; além disso, nem remotamente ela se-ria capaz de entender.

– Seu pai, então? O segredo é detestável – é desonroso.

– Meu pai compreenderia ainda menos que minha mãe.

– Ah! Quem poderia entender tal coisa? – gemeu Rodney. Mas é do seu ponto de vista que temos de ver a situação. Não é só pedir demais a você, é deixá-la numa posição – numa posição em que eu não suportaria ver minha irmã.

– Nós não somos irmão e irmã – disse ela, impacientemente –, e se não pudermos decidir quem decidirá por nós? Não estou dizendo tolices – prosseguiu. – Tenho feito o possível para resolver a questão examinando-a por todos lados, e cheguei à conclusão de que há riscos que têm de ser corridos, embora não negue que magoam horrivelmente.

– Katharine, você se importa? Você se importará demais.

– Não, não me importarei. Isto é, estou preparada para isso. E levarei a cabo a prova, porque você me ajudará.Vocês dois me ajudarão. Na verdade, nós nos ajudaremos uns aos outros. É a doutrina cristã, pois não?

– Para mim, soa mais como paganismo – gemeu Rodney, ao contemplar a situação em que a doutrina cristã de Katharine estava prestes a mergulhar a todos.E, todavia, não podia negar que um imenso alívio o possuía, e que o futuro, ao invés de usar máscara cor de chumbo, floria agora com mil variadas alegrias e excitações. Reveria Cassandra dentro de uma semana, talvez menos, e estava mais ansioso para saber a data da sua chegada do que confessaria, mesmo a si próprio. Parecia baixeza,colher esse fruto da generosidade sem precedente de Katharine e da sua própria vileza. Usava essas palavras automaticamente. A rigor, não tinham sentido. Não se sentia rebaixado aos próprios olhos pelo que fizera; e quanto a louvar Katharine, não eram parceiros, conspiradores, aplicados à mesma tarefa? Louvar a perseguição de um objetivo comum como um ato de generosidade era desprovido de sentido. Tomou a mão dela e apertou-a,não tanto em agradecimento, mas num êxtase de companheirismo.

– Nós nos ajudaremos um ao outro – disse, repetindo as palavras dela, e buscando seus olhos no entusiasmo da amizade.

Os olhos de Katharine estavam graves, escuros de tristeza, ao pousarem nele. “Já se foi”, pensou ela, “já se foi para longe. Já não pensa em mim.” E ocorreu-lhe a noção de que, enquanto estavam sentados assim, lado a lado, de mãos dadas, era possível ouvir a terra que caía de cima para formar uma barreira entre os dois, de modo que, de segundo em segundo, mais separados ficavam por uma parede impenetrável. O processo, que a afetava como se estivesse a ser separada, e separada para sempre, e privada de todo companheirismo com a pessoa de quem mais gostava, terminou, afinal, quando, de comum acordo, desprenderam seus dedos, Rodney tocou os dela com os lábios, e a cortina se abriu. Mrs. Hilbery espiou pela abertura com sua expressão benevolente e sarcástica, e perguntou se Katharine seria capaz de lembrar-se se era terça ou quarta-feira, e se devia jantar em Westminster?

– Caríssimo William – disse, interrompendo-se, como se não pudesse resistir ao prazer de impingir sua pessoa a esse maravilhoso mundo de amor e confiança e romance.

– Caríssimos filhos – acrescentou, desaparecendo com um gesto impulsivo, como se lhe custasse correr o pano sobre uma cena que se recusava a interromper por mais tentada que estivesse a fazê-lo.