Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 27 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 26

Embora os velhos coches, com suas alegres almofadas e a trompa do guarda, os caprichos da carroçaria e as vicissitudes da estrada, de há muito (matéria que eram) se tivessem convertido em pó, sobrevivendo apenas nas páginas impressas dos romancistas naquilo em que participavam do espírito, a viagem para Londres por trem expressopode ser ainda uma aventura muito agradável e romântica.Cassandra Otway, aos vinte e dois anos, podia conceberpoucas coisas mais aprazíveis. Satisfeita como estava com meses de verdes prados, as primeiras fileiras de casas deartesãos nos arredores de Londres pareceram-lhe algo sério, que positivamente aumentou a importância de cadapessoa no vagão ferroviário e, até, para a sua mente impressionável, aumentou a velocidade do trem e deu umanota de severa autoridade ao apito da locomotiva. Iam para Londres; deviam ter precedência sobre todo o tráfegoque não tinha o mesmo destino. Fazia-se necessária umaatitude diferente logo que a gente descia na plataforma deLiverpool Street e se tornava um daqueles cidadãos preocupados e apressados, a cujo serviço esperavam inumeráveis táxis, ônibus e trens de metrô. Ela fez o melhor quepôde para parecer digna e preocupada também, mas quando o táxi levou-a logo embora, com uma determinaçãoque a deixou um pouco alarmada, tornou-se mais e maisesquecida da sua condição de cidadã de Londres, e ficou avirar a cabeça de uma janela para outra, absorvendo ansiosamente um edifício aqui e uma cena de rua ali, alimentando sua intensa curiosidade.Todavia,enquanto a viagemdurou, ninguém era real, nada era comum; as multidões,os edifícios do Governo, o fluxo de homens e mulheres quebrando-se contra a base das grandes vitrines de vidro,eram todos generalizados e afetavam-na como se os vissenum palco. Todos esses sentimentos eram sustentados eparcialmente inspirados pelo fato de que sua viagem aconduzia diretamente ao centro do seu mundo mais romântico. Mil vezes em meio à sua paisagem pastoril, seuspensamentos tomavam essa mesma rua, eram admitidos àcasa em Chelsea, e iam diretamente, escada acima, até o quarto de Katharine, onde, invisíveis, tinham melhoroportunidade de banquetear-se na privacidade da dona – adorável e misteriosa – dos aposentos. Cassandra gostavaimensamente de Katharine; esse amor poderia ter sidotolo, mas foi salvo desse excesso, e ganhou encanto e atrativo pela natureza volátil do temperamento de Cassandra.Adorara muitas coisas e pessoas no curso de seus vinte e dois anos; fora, alternadamente, o orgulho e o desesperode seus professores. Adorara arquitetura e música, histórianatural e humanidades, literatura e arte, mas sempre noauge do seu entusiasmo, que era acompanhado por umbrilhante grau de realização, mudava de idéia e comprava,subrepticiamente, outra gramática. Os terríveis resultadosque as governantas haviam predito de tal dissipação mental, eram, certamente, visíveis agora que Cassandra tinhavinte e dois anos de idade; jamais passara num exame emostrava-se dia a dia menos capaz de passar em algum.Uma outra predição mais séria, a de que jamais seria capazde ganhar a vida, também se cumpriu. Mas com todosesses curtos fragmentos de realizações variadas,Cassandrateceu para si mesma uma atitude, um feitio mental, que,embora inútil, tinha para certas pessoas as virtudes nadadesprezíveis do frescor e da vivacidade. Katharine, porexemplo, achava-a companhia das mais encantadoras. Asduas primas pareciam reunir, entre si, uma considerávelgama de qualidades, das que nunca são vistas juntas num só indivíduo e raramente em meia dúzia de pessoas. OndeKatharine era simples, Cassandra era complexa; ondeKatharine era substancial e direta, Cassandra era vaga eevasiva. Em suma, representavam muito bem o lado masculino e o lado feminino da natureza da mulher e tinham por base a profunda unidade do sangue comum. Se Cassandra adorava Katharine, era incapaz de adorar qualquer pessoa sem refrescar seu espírito com freqüenteshaustos de troça e de crítica, e Katharine apreciava essafaceta do temperamento de Cassandra, pelo menos tanto quanto Cassandra a apreciava.

Esse respeito por Katharine era predominante em Cassandra no momento. O noivado da prima falara à suaimaginação, da forma como o primeiro noivado num círculo de contemporâneas costuma falar à imaginação dasoutras; era belo, solene e misterioso; dava às duas partes oar importante dos que foram iniciados em algum rito ainda oculto aos outros membros do grupo. Por causa deKatharine, Cassandra achava William um tipo dos maisdistintos e inteligentes, e recebeu primeiro a sua conversação e, em seguida, o seu manuscrito como provas de umaamizade que ela ficava lisonjeada e encantada de inspirar.

Katharine ainda não voltara quando ela chegou a Cheyne Walk. Depois de cumprimentar o tio e a tia e de receber, como de hábito, de tio Trevor o presente de dois soberanos para “condução de intemperanças” (ela era a sobrinha favorita de Mr. Hilbery), Cassandra foi mudar de roupa e acabou no quarto de Katharine, à espera dela.Que imenso espelho tinha – pensou –, e como era adulto o arranjo dos objetos no toucador, em comparação com o seu, em casa. Olhando em roda, achou as contas enfiadas num espeto, posto sobre o console da ladeira como ornamento, tão surpreendentes quanto a própria Katharine.Não havia qualquer fotografia de William à vista, em nenhum lugar. O quarto, com sua combinação de luxo e despojamento, seus peignoirs de seda, as chinelas carmesins, o tapete usado, as paredes nuas, tinha um forte ar de Katharine; ela ficou no meio do aposento e gozou a sensação; e, então, com o desejo de pôr a mão no que a prima tinha o hábito de pegar, Cassandra começou a tirar os livros arranjados numa prateleira acima da cama. Na maioria das casas, essa prateleira é o ressalto em que se acolhem as últimas relíquias da crença religiosa, como se,tarde da noite, no seio da privacidade, gente, céptica durante o dia, encontrasse consolação em sorver um gole da velha poção mágica para as tristezas e perplexidades que só esperavam a hora de sair sorrateiramente dos seus esconderijos, no escuro. Pelas suas capas surradas e conteúdo enigmático, Cassandra imaginou serem velhos livros didáticos de tio Trevor, devotamente, se bem que excentricamente, preservados pela filha. A imprevisibilidade de Katharine – pensou – não tinha, mesmo, limites.Ela própria já fora apaixonada por geometria e, enrodilhando-se no acolchoado da cama, ficou logo absorvida a ver até onde esquecera o que um dia soubera. Katharine,que entrou pouco depois, encontrou-a mergulhada nessa característica ocupação.

– Querida – exclamou Cassandra, brandindo o livro diante da sua prima –, minha vida inteira vai mudar a partir deste momento! Tenho de escrever o nome do homem imediatamente, ou me esquecerei...Nome de quem, que livro, vida de quem seria mudada,Katharine tratou de descobrir em seguida. Começou a pôr de lado as suas roupas, pois estava muito atrasada.

– Posso ficar aqui observando você? – perguntou Cassandra, fechando o livro. Eu me aprontei antes, de propósito.

– Oh, você está pronta? – disse Katharine, voltando-se em meio às suas tarefas, e olhando para Cassandra, sentada, com os braços rodeando os joelhos, na beira da cama.

– Vem gente jantar hoje – disse, e passou a ver o efeito de Cassandra desse novo ponto de vista. Depois de um intervalo, a distinção, o encanto irregular do rosto pequeno,com seu nariz afilado e os brilhantes olhos ovais, eram notáveis. O cabelo se elevava da testa um tanto abrupto e,uma vez tratado cuidadosamente por cabeleireiros e costureiros, a figura levemente angulosa poderia lembrar a de uma dama francesa da aristocracia no século XVIII.

– Quem vem jantar? – perguntou Cassandra, antecipando novas possibilidades de enlevo.

– William e, acho, tia Eleanor e tio Aubrey.

– Fico tão contente que William venha. Ele lhe contou que me remeteu seu manuscrito? Acho que é maravilhoso, acho que ele é quase digno de você, Katharine.

– Você ficará sentada ao lado dele e poderá dizer-lhe o que pensa a seu respeito.

– Jamais ousaria.

– Por que não? Você não tem medo dele?

– Um pouco. Porque ele está ligado a você.Katharine sorriu.

– Mas então, com sua reconhecida fidelidade, e considerando que estará aqui pelo menos por uma quinzena, você não terá mais nenhuma ilusão a meu respeito quando se for. Eu lhe dou uma semana, Cassandra. Verei a minha força desvanecer-se dia a dia. Agora, está no seu clímax; mas amanhã já começará a empalidecer. O que devo usar? Ache-me um vestido azul, Cassandra, ali naquele guarda-roupa comprido.

Falava de maneira desconexa, ocupada com escova e pente, puxando as pequenas gavetas da penteadeira e deixando-as abertas. Cassandra, sentada na cama, por detrásdela, via o reflexo do rosto da prima no espelho. A face no espelho era séria e atenta, aparentemente ocupada com outras coisas além da retitude do repartido – que, aliás, começava a ser traçado, direito como uma via romana. através do cabelo escuro. Cassandra impressionou-se outra vez com amaturidade de Katharine; e, enquanto ela se envolvia novestido azul, que enchia quase todo o longo espelho de luzazuleotransformavanamoldurada umatela,enquadrando não só a efígie levemente móvel da bela mulher mas sombras e cores de objetos refletidos do fundo, Cassandra pen-sou que nada do que vira fora jamais tão romântico. Tudoestava de acordo com o quarto e a casa e a cidade em tornodeles; pois seus ouvidos ainda não haviam deixado de notar o rumor das rodas longínquas.

Desceram muito tarde, a despeito de extrema rapidez de Katharine em vestir-se. Aos ouvidos de Cassandra, o burburinho de vozes no interior do salão era como a afinação de instrumentos de uma orquestra. Parecia-lhe haver grande número de pessoas lá dentro, todas estranhas,todas bonitas, vestidas com a maior distinção, embora fossem, na realidade, seus parentes e a distinção dos trajes,aos olhos de um observador imparcial, estivesse limitada ao colete branco que Rodney usava. Todos se levantaram simultaneamente, o que já era magnífico, e todos soltaram exclamações e apertaram-lhe a mão, e ela foi apresentada a Mr. Peyton, e a porta se escancarou, e o jantar foi anunciado, e eles entraram em fila, William Rodney dando-lhe o braço negro, ligeiramente dobrado, como, secretamente,ela desejara que o fizesse. Em suma, se a cena fosse vista apenas através dos seus olhos, poderia ser descrita como de mágico esplendor. O desenho dos pratos de sopa, as dobras engomadas dos guardanapos, que se elevavam ao lado de cada prato em forma de copos-de-leite, as longas bengalas do pão, atadas com fita rosa, as travessas de prata e as taças de champanha verde-mar, com flocos de ouro aprisionados nos pés – todos esses pormenores, juntos a um curioso, difuso cheiro de luvas de pelica, contribuíam para sua euforia, que tinha de ser contida, porém, pois ela já era adulta, e o mundo nada mais continha capaz de maravilhá-la.

O mundo nada mais continha capaz de maravilhá-la, é verdade; mas continha outras pessoas, e cada pessoa possuía, aos olhos de Cassandra, algum fragmento daquilo a que, privadamente, chamava “realidade”. Era um dom, que lhe ofereciam se lhes fosse pedido; e, assim, como poderia ser um jantar aborrecido,o pequenino Mr.Peyton,à sua direita, e William Rodney, à esquerda, eram dotados, na mesma medida, com a qualidade que lhe parecia a tal ponto inconfundível e preciosa, que a maneira como as pessoas negligenciavam exigi-la era para ela uma permanente fonte de espanto. Mal Podia perceber, na verdade,se estava a falar com Mr. Peyton ou com William Rodney.Mas a alguém que assumiu, paulatinamente, a forma de um velho de bigode, ela contou de como chegara a Londres naquela mesma tarde e de como tomara um táxi e fora conduzida pelas ruas. Mr. Peyton, editor, de cinqüenta anos, curvou repetidas vezes a cabeça calva, com aparente compreensão. Pelo menos ele entendia que ela era muito jovem e bonita, e via que estava excitada, embora não pudesse de momento descobrir, nas palavras dela ou na sua própria experiência, que motivos haveria de excitação. Já havia brotos nas árvores? – perguntou. – Por que estrada viajara?

Ela cortou logo essas polidas indagações, na ânsia de saber se ele era dos que lêem no trem ou dos que olham a paisagem pela janela? Mr. Peyton não estava muito seguro do que fazia de preferência. Talvez fizesse as duas coisas. Ouviu, então, que isso era uma confissão perigosa;que ela poderia deduzir desse simples fato a sua história toda. Ele a desafiou a prosseguir; e ela o proclamou um membro liberal do Parlamento.

William, envolvido nominalmente numa dessultória conversação com tia Eleanor, não perdeu uma palavra, e aproveitando-se do fato de que velhas senhoras têm pouca continuidade na conversação, pelo menos com aqueles que estimam pela sua juventude e pelo seu sexo, fez-se lembrado com um riso nervoso.

Cassandra virou-se para ele na mesma hora. Ficava encantada de ver como, instantaneamente e com tal facilidade, outro desses seres fascinantes oferecia riquezas incalculáveis para sua extração.

– Não há dúvida sobre o que você, William, faria num vagão de estrada de ferro – disse ela, empregando seu primeiro nome, tal o prazer que sentia. – Você não olharia nunca pela janela; você leria o tempo todo.

– E que fatos você deduz isso? – perguntou Mr. Peyton.

– Que ele é um poeta, naturalmente – disse Cassandra –. Mas devo confessar que eu sabia disso antes, demodo que não é justo. Eu trouxe seu manuscrito – continuou, abandonando Mr. Peyton de maneira vergonhosa. – Há milhões de coisas que desejo perguntar-lhe arespeito dele.

William inclinou a cabeça e procurou esconder a alegria que essa observação lhe causava. Mas o prazer não era sem mistura. Por susceptível que fosse à lisonja,William não a toleraria nunca de gente que revelasse um gosto grosseiro ou emocional em literatura,e se Cassandra errasse, mesmo ligeiramente, naquilo que ele considerava essencial a esse respeito, expressaria seu desagrado gesticulando rapidamente com as mãos e franzindo a testa;não teria prazer com os elogios dela, afinal de contas.

– Antes de mais nada – prosseguiu Cassandra –, quero saber por que resolveu escrever uma peça?

– Ah! Você quer dizer que não é dramática?

– Quero dizer que não vejo o que o texto ganharia em ser representado. Mas, afinal, Shakespeare ganha? Henry e eu estamos sempre a discutir Shakespeare. Estou segura de que ele está enganado, mas não posso prová-lo, porque só vi Shakespeare no teatro uma vez, em Lincoln. Mas estou certa – insistiu – de que Shakespeare escreveu para o palco.

– Você tem inteira razão – exclamou Rodney. – Eu estava justamente a desejar que fosse desse partido. Henry está enganado, inteiramente enganado. Naturalmente, fracassei,como todos os modernos fracassam.Meu Deus, quisera ter consultado você antes.

A partir desse ponto repassaram, tanto quanto a memória de ambos permitiu, os diferentes aspectos do drama de Rodney. Ela nada disse que o chocasse, e sua audácia espontânea teve o poder de espicaçar a tal ponto a experiência dele, que os outros viram Rodney muita vez de garfo no ar, enquanto debatia os primeiros princípios da arte. Mrs. Hilbery pensou consigo que nunca o vira tão bem; sim, estava, de certo modo, transfigurado; lembravalhe alguém já morto, alguém da maior distinção – quepena que tivesse esquecido o nome!

A voz de Cassandra elevou-se, na sua excitação:

– Você não leu O Idiota! – exclamou.

– Li Guerra e Paz – replicou William, um tanto acidamente.

– Confesso que não entendo os russos.

– Aperta a mão! Aperta a mão! – disse tio Aubrey, do outro lado da mesa. – Tampouco eu os entendo. E arrisco a opinião de que os próprios russos não se entendem.

O velho gentleman governara uma vasta seção do Império Indiano, mas tinha o hábito de dizer que muitopreferiria ser o autor das obras de Dickens. A mesa agora apossara-se de um assunto da sua predileção. TiaEleanor deu sinais premonitórios de que ia opinar.Embora tivesse embotado o gosto por vinte e cinco anosnuma forma qualquer de filantropia, era capaz de farejarcom verdadeiro instinto natural um principiante ou um pretendente, e sabia com aproximação infinitesimal oque a literatura devia ser e o que não devia ser. Nascerapara o conhecimento, e nunca lhe ocorrera que isso fosse motivo de orgulho.

– A insânia não é assunto apropriado para a ficção – anunciou, positiva.

– Há o notório caso de Hamlet – interpôs Mr. Hilbery,no seu tom descansado, meio humorístico.

– Ah,mas poesia é diferente,Trevor – disse tia Eleanor,como se tivesse procuração de Shakespeare para falar assim. Inteiramente diferente. Aliás, sempre tive para mim que Hamlet não era tão louco como pretendem. Qual é a sua opinião, Mr. Peyton? – Como estava presente um ministro da literatura na pessoa do editor de uma conceituada revista, ela acatava sua autoridade. Mr. Peyton recostou-se um pouco na cadeira e pondo a cabeça um pouco de lado, observou que se tratava de uma questão que nunca resolvera inteiramente a contento. Havia muito a ser dito dos dois lados; mas, enquanto pesava de que lado deveria pronunciar-se, Mrs. Hilbery interrompeu sua judiciosa meditação.

– Adorável, adorável Ophelia! – exclamou. – Que força maravilhosa ela tem, poesia! Acordo pela manhã aos pedaços; há uma névoa amarela do lado de fora; a pequenina Emily acende a luz quando me traz o chá e diz: “Oh,madame, a água gelou na cisterna, e a cozinheira cortou o dedo até o osso.” E, aí abro um livrinho verde, e a passarada está cantando, as estrelas brilham, as flores balançam nos galhos – ela olhou em redor, como se essas presenças que invocara se tivessem de súbito materializado à volta da sua mesa de jantar.

– A cozinheira cortou o dedo seriamente? – Tia Eleanor perguntou, dirigindo-se naturalmente a Katharine.

– Oh, o dedo da cozinheira é apenas a minha maneira de dizer as coisas – observou Mrs. Hilbery –, mas mesmo se ela tivesse cortado o braço fora, Katharine teria sabido como cosê-lo outra vez no lugar – e lançou um olhar afetuoso à filha, que parecia, pensou, um pouco triste. – Mas que horríveis, horríveis pensamentos – concluiu, pousando o guardanapo e empurrando sua cadeira para trás. – Venham, vamos encontrar alguma coisa mais alegre para discutir no andar de cima.

 

* * *

 

Na sala de estar do andar de cima, Cassandra encontrou novos motivos de prazer, primeiro na elegante e expectanteatmosfera do aposento, e, depois, na oportunidade de exercitar sua varinha mágica num novo grupo de seres humanos. Mas as vozes baixas das mulheres, seus silêncios reflexivos, a beleza que, pelo menos para ela, luzia mesmo docetim preto e dos medalhões de âmbar que ornavam idosospescoços, transformaram seu desejo de conversar num desejo mais modesto de apenas observar e cochichar. Entravacom deleite numa atmosfera em que assuntos particulareseram debatidos livremente, quase que em monossílabos,por mulheres mais velhas que agora a aceitavam como umadelas. Sua expressão tornou-se muito gentil e simpáticacomo se também estivesse cheia de solicitude pelo mundoque tia Maggie e tia Eleanor, com desaprovação embora,curavam e que gostavam de governar. Depois de algum tempo, percebeu que Katharine estava fora da comunidade,de algum modo, e subitamente, lançando às urtigas prudência, gentileza e consideração, pôs-se a rir.

– De que está rindo? – perguntou Katharine.

Uma pilhéria tão tola e pouco filial não merecia ser explicada.

– Não era nada, era ridículo, do pior gosto, mas assim mesmo, se você fechasse os olhos e olhasse...

Katharine fechou os olhos e olhou, mas olhou na direção errada, e Cassandra riu mais do que nunca, e ainda estava rindo e fazendo o melhor que podia para explicar,num sussurro, que tia Eleanor, vista com as pálpebras cerradas, era como o papagaio de Stogdon Rouse, quando os cavalheiros entraram, e Rodney marchou direito para elas e quis saber do que estavam rindo.

– Recuso absolutamente contar-lhe! – replicou Cassandra, encarando-o de pé, muito direita, com as mãos apertadas à frente do corpo. A zombaria dela parecia-lhe deliciosa. Nem por um segundo temera que pudesse estar rindo às expensas dele. Ria porque sua vida era adorável,fascinante.

– Ah, mas você é cruel de me fazer sentir a barbaria do meu sexo – replicou, juntando os pés e apertando os dedos na aba de uma cartola imaginária ou no castão de uma bengala de malaca. – Estivemos discutindo toda uma gama de maçadas, e agora nunca irei saber o que desejo saber mais do que qualquer coisa no mundo.

– Você não nos engana nem por um minuto! – ela gritou. – Nem por um segundo. Nós duas sabemos que você se divertiu imensamente. Não se divertiu mesmo, Katharine?

– Não – respondeu ela. – Acho que ele diz a verdade.Ele não faz muito caso de política.

Suas palavras, embora ditas com simplicidade, produziram uma curiosa alteração na atmosfera leve, esfuziante. William perdeu imediatamente o seu ar de animação e disse com gravidade:

– Detesto política.

– Não penso que um homem tenha o direito de dizer isso – falou Cassandra, quase severamente. – Concordo. Quero dizer que detesto políticos. – Rodney se deu pressa em corrigir.

– Você vê? Penso que Cassandra é o que eles chamam uma feminista – continuou Katharine. – Ou melhor, era uma feminista seis meses atrás, mas não adianta supor que seja hoje o que foi então. Esse é um dos seus maiores encantos, aos meus olhos. Ninguém sabe nunca – disse e sorriu para a outra, como uma irmã mais velha poderia sorrir. – Katharine, você me faz sentir tão insignificante! – exclamou Cassandra.

– Não, não, não é essa a intenção dela – interpôs Rodney. – Concordo inteiramente em que as mulheres têm uma imensa vantagem sobre nós nesse particular.Perde-se muito tentando saber tudo profundamente.

– Ele sabe grego profundamente – disse Katharine. – Mas também sabe muito sobre pintura, e alguma coisa sobre música. Ele é muito culto, talvez seja a pessoa mais culta que conheço.

– E poesia – Cassandra acrescentou.

– Sim,eu estava esquecendo a peça – observou Katharine e, virando a cabeça como se visse alguma coisa que exigiasua atenção num canto remoto da sala, deixou-os. Por um momento ficaram calados, depois do que parecia uma deliberada introdução de um ao outro, e Cassandra seguiu Katharine com os olhos.

– Henry – disse, em seguida – diria que um palco não deveria ser maior que esta sala de estar. Ele deseja ver também canto e dança além da ação, só que tudo oposto a Wagner. Você entende?

Sentaram-se, e Katharine, voltando-se quando alcançou a janela, viu William com a mão erguida em gesticulação e a boca aberta, como que pronto a falar logo que Cassandra terminasse.

O dever de Katharine, fosse puxar uma cortina ou mover uma cadeira, estava esquecido ou já feito; ela continuou junto à janela sem fazer nada. Os mais velhos estavam grupados em volta do fogo. Pareciam uma comunidade independente, de meia idade, ocupada com seus próprios negócios. Contavam histórias muito bem e ouviam as histórias dos outros graciosamente. Mas para ela não havia qualquer ocupação óbvia.

“Se alguém disser alguma coisa, explicarei que estouolhando o rio”, pensou, pois, na sua escravidão às tradições familiares, estava disposta a pagar pela sua transgressão com uma palpável falsidade. Afastou, então, apersiana e olhou de fato o rio. Mas era uma noite escura,e a água mal estava visível. Carros passavam e casais caminhavam devagar ao longo da rua, mantendo-se tãojunto das grades quanto possível, embora as árvores ainda não tivessem folhas para sombrear os seus abraços.Katharíne, retirada como estava, sentiu sua solidão. Fora uma noite penosa, a oferecer-lhe, de minuto em minuto,prova evidente de que as coisas se passariam como elaprevira. Enfrentara entonações, gestos, olhares; sabia,com as costas para eles, que William, mesmo agora, mergulhava cada vez mais no prazer de uma inesperada afinidade com Cassandra. Quase lhe dissera que estava achando as coisas infinitamente melhores do que acreditara. Olhava pela janela, firmemente decidida a esquecerdesventuras particulares, a esquecer de si mesma, a esquecer as vidas individuais. Com os olhos postos no céuescuro, vozes lhe chegavam da sala. Ouvia-as como seoriundas de gente do outro mundo, um mundo antecedente ao seu, um mundo que era o prelúdio, a antecâmara da realidade; como se, morta há pouco, ouvisse falar osvivos. A qualidade de sonho da nossa vida jamais lhe foratão aparente, jamais a vida lhe parecera com mais certezaum negócio de quatro paredes, cujos objetos têm validade apenas dentro do alcance de luzes e de fogos, além dosquais nada existia, ou nada senão trevas. Parecia-lhe haver transposto fisicamente a região onde a luz da ilusãoainda faz desejável possuir, amar, lutar. E, todavia, suamelancolia não lhe oferecia serenidade. Ainda podia ouvir as vozes na sala. Estava ainda atormentada de desejos.Quisera estar dentro do círculo deles. Quisera, incoerentemente, estar também a rodar pelas ruas; estava, até, ansiosa para ver alguém que, depois de um momento debusca incerta, tomou forma definida na pessoa de MaryDatchet. Fechou as cortinas de modo a que se juntassem,em pregas profundas, no meio da janela.

– Ah, lá está ela – disse Mr. Hilbery, de pé, oscilando afavelmente de um lado para o outro, as costas para o fogo. Venha cá, Katharine. Não pude ver onde você estava; nossos filhos – observou entre parêntesis – têm suas utilidades.Quero que você vá até o meu estúdio,Katharine;na terceira prateleira do lado direito da porta, pegue Trelawny’s Recollections of Shelley e traga-o para mim.

Então, Peyton, você terá de admitir ao grupo aqui reunido que se enganou.

“Trelawny’s Recollections of Shelley. Terceira prateleira à direita da porta”, repetiu Katharine. Afinal de contas, não se interrompem crianças que estão brincando nem se arranca o sonhador de seu sonho. Ela passou por Cassandra e William a caminho da porta.

– Pare, Katharine – disse William, falando quase como se tivesse consciência dela contra a sua própriavontade. – Eu vou. – Levantou-se, depois de uma breve hesitação, e ela percebeu que isso lhe custava algum esforço. Pôs um joelho no sofá em que Cassandra estavasentada e olhou do alto o rosto da prima, que ainda eramóvel como o que dizia:

– Você está feliz?

– Oh, minha querida! – exclamou Cassandra, como se outras palavras não fossem necessárias. – Naturalmente, discordamos sobre tudo o que existe debaixo dos céus,mas creio que é o homem mais inteligente que já conheci,e você é a mais bonita das mulheres – acrescentou, olhando para Katharine; e enquanto olhava, seu rosto perdeu a animação e tornou-se quase melancólico, em simpatia com a melancolia de Katharine, que parecia a Cassandra o último refinamento da distinção.

– Ah, mas são apenas dez horas – disse Katharine obscuramente.

– Tão tarde assim! Bem... ? – Ela não entendia.

– Às doze, meus cavalos se transformam em ratos, e eu me vou.A ilusão se desfaz.Mas aceito meu fado.Aproveito enquanto posso.

Cassandra olhou-a com uma expressão intrigada. “Aí está Katharine falando de ratos e fados e toda espécie de coisas esquisitas – disse William, que se reunia a elas. – Você a entende?

Katharine percebeu, do fato de Rodney ter franzido os sobrolhos, que ele não achava o problema a seu gosto no momento. Endireitou-se imediatamente e disse em outro tom:

– Realmente estou de saída. Espero que você lhes explique, William, se alguém disser qualquer coisa. Não me demoro, mas tenho de ver alguém.

– A essa hora da noite? – exclamou Cassandra.

– Quem você tem de ver? – perguntou William.

– Uma amiga! – disse, voltando a meio a cabeça na direção dele. Sabia que ele desejava que ficasse, não, a rigor,com eles, mas nas imediações, em caso de necessidade.

– Katharine tem grande número de amigas – disse William, de maneira pouco convincente. E sentou-se outra vez, enquanto Katharine saía da sala.

Logo rodava, como quisera rodar, pelas ruas iluminadas. Gostava tanto das luzes quanto da velocidade, e do sentimento de estar fora de casa, sozinha, e da certeza de que encontraria Mary no seu alto e solitário quarto, ao fim da corrida. Subiu rapidamente as escadas de pedra,notando o curioso efeito do seu vestido azul e dos seus sapatos azuis sobre o piso, poento das botas daquele dia,sob a luz de um bruxuleante jato ocasional do gás.

A porta foi aberta num segundo pela própria Mary,cujo rosto mostrou não apenas surpresa, mas certo embaraço. Acolheu-a cordialmente, e como não havia tempo para explicações, Katharine entrou diretamente para a sala onde se achou em presença de um rapaz que jazia recostado numa poltrona, segurando uma folha de papel na mão, para a qual olhava, como se pretendesse continuar imediatamente com o que estava dizendo a Mary Datchet. A aparição de uma dama desconhecida em vestido de noite pareceu perturbá-lo. Tirou o cachimbo da boca, levantou-se muito teso, e sentou-se outra vez com um movimento abrupto.

– Você esteve jantando fora? – perguntou Mary.

– Você está ocupada? – perguntou Katharine, ao mesmo tempo.O rapaz abanou a cabeça, como se repudiasse sua parte da pergunta com uma ponta de irritação.

– Bem, não exatamente – disse Mary. – Mr. Basnett veio mostrar-me alguns textos; estamos quase terminando... Fale-nos da sua festa.

Mary parecia despenteada, como se tivesse passado os dedos pelos cabelos no curso da conversação; vestia-semais ou menos como uma camponesa russa. Sentou-sede novo numa cadeira em que parecia ter estado sentadavárias horas; o pires apoiado no braço da cadeira continha as cinzas de muitos cigarros. Mr. Basnett, rapaz muito jovem,com tez muito fresca e uma alta fronte,de ondesaía o cabelo liso, penteado todo para trás, pertenciaàquele grupo de “jovens extremamente capazes” que Mr.Clacton suspeitava – justificadamente, como parecia – exercer influência sobre Mary Datchet. Viera de uma dasuniversidades não fazia muito tempo, e ocupava-se agorada reforma da sociedade. Juntamente com o resto do grupo dos “jovens extremamente capazes”, redigira um planopara a educação dos trabalhadores, para um amálgamaentre a classe média e a classe trabalhadora, em vista de um assalto conjunto das duas corporações, reunidas numaSociedade para a Educação da Democracia, contra oCapital. O esquema atingira, a essa altura, o estádio em que se justificava alugar um escritório e contratar umasecretária, e ele fora encarregado de expor o projeto aMary e oferecer-lhe a secretaria, para a qual, na verdade,e por uma questão de princípio, fora previsto um pequeno salário. Desde as sete horas dessa noite vinha lendo em voz alta o documento, em que se continha a fé dosnovos reformadores; mas a leitura era interrompida comtanta freqüência por discussões e era, com a mesma freqüência, necessário comunicar a Mary, “muito confidencialmente”, a verdadeira natureza e os objetivos malévolos de certos indivíduos e sociedades, que ainda se achavam no meio do manuscrito. Nenhum dos dois percebiaque a entrevista durava há mais de três horas. Na sua absorção, haviam esquecido até de alimentar o fogo; no entanto, Mr. Basnett, na sua exposição, e Mary, no seuinterrogatório, preservavam cuidadosamente uma espéciede formalidade, calculada para conter o pendor que tem amente humana de perder-se na irrelevância. As perguntas de Mary em geral começavam: ‘”Devo entender que”...E as respostas dele invariavelmente representavam asopiniões de alguém designado por “nós”.

A essa altura, Mary estava quase persuadida de incluirse também nesse ‘nós’, e concordava com Mr. Basnett em acreditar que “nossas” opiniões, ‘nossa’ sociedade, ‘nossa’ política representavam alguma coisa nitidamente distinta e segregada do corpo principal da sociedade, num círculo de iluminação superior.

A aparição de Katharine nessa atmosfera era das mais incongruentes, e teve o efeito de relembrar a Mary toda uma série de coisas que se alegrara de ter esquecido.

– Você esteve jantando fora? – perguntou outra vez,olhando, com um pequeno sorriso, para a seda azul e os sapatos bordados de pérolas.

– Não, em casa. Vocês estão começando alguma coisa nova? – arriscou, um pouco hesitante, vendo os papéis.

– Estamos – respondeu Mr. Basnett, e mais não disse.

– Estou pensando em deixar nossos amigos de Russell Square – explicou Mary.

– Percebo. E fará outra coisa.

– Bem, temo que goste de trabalhar – disse Mary.

– Teme... – disse Mr. Basnett, dando a impressão de que, a seu ver, nenhuma pessoa sensata deveria ‘temer’ o fato de gostar de trabalhar.

– Sim... – disse Katharine, como se ele houvesse exprimido tudo isso em voz alta. – Eu mesma gostaria de começar alguma coisa, alguma coisa que me desse na veneta,é disso que eu gostaria.

– Sim, aí é que está a graça – disse Mr. Basnett, olhando para ela com atenção pela primeira vez, e enchendo de novo o cachimbo.

– Mas não se pode limitar o trabalho, é isso que quero dizer – disse Mary. – Há outras espécies de trabalho.Ninguém trabalha mais que uma mulher com filhos pequenos.

– Exatamente – disse Mr. Basnett. – É precisamente a mulher com bebês que nós temos de segurar. – Lançou um olhar ao seu documento, enrolou-o entre os dedos num cilindro e pôsse a contemplar o fogo. Katharine sentiu que nessa companhia tudo o que se dissesse seria julgado puramente pelo seu mérito; cada um tinha de dizer o que pensava, de modo simples, desataviado, terso, com curiosa presunção de que o número de coisas que podiam ser postas em discussão com propriedade era estritamente limitado. E Mr. Basnett era armado apenas na superfície;havia uma inteligência no seu rosto que atraía a inteligência dela.

– E quando o público tomará conhecimento?

O que quer dizer? De nós? – perguntou Mr. Basnett,com um pequeno sorriso.

Isso depende de muitas coisas – disse Mary. Os conspiradores pareciam satisfeitos, como se a pergunta de Katharine, que implicava a crença na existência deles, os tivesse reconfortado.

Ao começar uma sociedade como a que temos em vista (não podemos dizer mais que isso, presentemente) começou Mr. Basnett, com um pequeno movimento abrupto da cabeça –, há que lembrar duas coisas: a imprensa e o público. Outras sociedades, que não vamos nomear, têm naufragado porque atraíam apenas malucos. Se o que a gente deseja não é uma sociedade de admiração mútua, que morre tão logo cada um descobre os defeitos dos outros, há que peitar a imprensa. É indispensável o apelo ao público.

– E é essa a dificuldade – disse Mary.

– É aí que entra ela – disse Mr. Basnett, com um gesto de cabeça em direção de Mary. – Ela é a única de nós que é capitalista. Ela pode trabalhar em tempo integral. Eu estou amarrado a um escritório; posso oferecer apenas meu tempo de folga. Você não estará por acaso procurando emprego? disse a Katharine, com uma curiosa mistura de suspeita e deferência.

– Casamento é o emprego dela no momento – Mary respondeu por ela.

– Oh, entendo – disse Mr. Basnett. – Faria desconto disso; ele e seus amigos tinham enfrentado a questão dosexo, juntamente com as demais questões, e lhe haviam alocado lugar honroso nos seus esquemas de vida. Katharinesentiu isso, por debaixo da rudeza das suas maneiras; e ummundo confiado à guarda de Mary Datchet e Mr. Basnesttparecia-lhe um mundo bom, embora não um lugar romântico ou belo, ou para dizer figurativamente, um lugar ondequalquer linha de névoa azul ligaria árvore com árvore àaltura do horizonte. Por um momento, julgou ver no rostodele, curvado agora para o fogo, o homem original, esse queainda é lembrado de quando em vez, embora só se conheçam o empregado, o advogado, o servidor público, ou o trabalhador – variedades dele. Não que Mr. Basnett, ao darseus dias ao comércio e suas horas de folga à reforma social,fosse carregar consigo por muito tempo mais qualquer traço das suas potencialidades para a inteireza ou a perfeição;no momento, porém, na sua juventude e no seu ardor aindaespeculativo, ainda tolhido, poder-se-ia já imaginá-lo cidadão de um Estado mais nobre que o nosso. Katharine revirou seu pequeno acervo de informações e ficou a imaginar o que a nova sociedade poderia tentar. Então lembrou-se de que estava atrapalhando o negocio deles e levantou-se,ainda a pensar na sociedade, e com isso em mente disse aMr. Basnett:

– Bem, espero que oportunamente me convide a aderir.

Ele fez que sim de cabeça e tirou o cachimbo da boca;mas, incapaz de pensar em alguma coisa para dizer, pôs o cachimbo de volta, embora ficasse satisfeito se ela não se fosse embora.

Contra a vontade de Katharine, Mary insistiu em levála até a rua e, então, como não havia táxi à vista, ficaram juntas na calçada, a olhar em redor.

– Volte – instou Katharine, pensando em Mr. Basnett com seus papéis em riste.

– Você não pode andar pela rua sozinha com essas roupa – disse Mary,embora o desejo de achar um táxi não fosse suaverdadeira razão para ficar com Katharine mais um minutoou dois. Desgraçadamente, para a sua tranqüilidade, Mr.Basnett e seus papéis pareciam-lhe uma diversão incidentaldo propósito sério da vida, comparado ao tremendo fato quelhe parecia manifesto, agora que se achava a sós com Katharine.Talvez fosse a feminilidade comum a ambas.

– Tem visto Ralph? – perguntou, sem preâmbulos.

– Sim – disse Katharine, diretamente, mas não lembrava nem quando nem onde o vira. Levou também um momento ou dois para recordar por que Mary lhe perguntarase vira Ralph.

– Acho que estou com ciúmes – disse Mary.

– Tolice, Mary – disse Katharine, perturbada, tomando-a pelo braço e começando a caminhar pela rua em direção à avenida. – Deixe-me ver; fomos a Kew, e concordamos em ser amigos. Sim, foi isso que aconteceu.Mary ficou calada,na esperança de que Katharine lhe contasse mais alguma coisa. Katharine, porém, não disse nada.

– Não é uma questão de amizade – disse Mary, com afúria a crescer para surpresa sua.– Você sabe que não é.Comopoderia ser? Não tenho direito de interferir... – Deteve-se. –Só não desejaria que Ralph sofresse – concluiu.

– Acho que ele é capaz de tomar conta de si mesmo – observou Katharine. Sem que nenhuma das duas o desejasse, um sentimento de hostilidade erguera-se entre ambas.

– Você acha que vale a pena? – disse Mary, depois de uma pausa.

– Quem poderá dizer?

– Você já gostou de alguém? – Mary perguntou, precipitada, idiotamente.

– Não posso andar por Londres discutindo meus sentimentos. Aí vem um táxi... Não, tem alguém dentro.

– Não queremos discutir – disse Mary.

– Deveria ter dito a Ralph que não queria ser amiga dele? – perguntou Katharine. – Devo dizer-lhe isso? Se devo, que razão alegar?

– É claro que você não pode dizer isso a ele – Mary falou, dominando-se.

– Pois acho que direi.

– Perdi a paciência, Katharine; não devia ter dito o que disse.

– A coisa toda é idiota – disse Katharine peremptoriamente. – É o que digo: não vale a pena. – Falou com desnecessária veemência, mas a veemência não era dirigida contra Mary Datchet. Sua animosidade desaparecera completamente, e sobre a cabeça das duas pairava uma nuvem de dificuldades e apreensões, obscurecendo o futuro, no qual ambas tinham de abrir caminho.

– Não, não, não vale a pena – repetiu Katharine. – Suponha, como você diz, que essa amizade seja mesmointeiramente descabida; ele se apaixona por mim. Nãoquero isso. E, todavia – acrescentou –, acredito que você exagera; o amor não é tudo; o próprio casamento é apenasuma das muitas coisas... – Haviam chegado ao cruzamento principal e olhavam os ônibus e os passantes, que pareciam ilustrar o que Katharine disse sobre a diversidade dosinteresses humanos. Para ambas a ocasião se tornara um momento de extremo desprendimento, quando parecepara sempre desnecessário pôr de novo nos ombros o fardo da felicidade e da existência agressiva. Os vizinhos queconservassem, com inteira liberdade, os seus tesouros!

– Não imponho regras – disse Mary, recobrando-se primeiro do alheamento ao virarem a esquina, e depois de uma longa pausa. – Tudo o que digo é que você deve saber o que pretende, saber com certeza; mas – acrescentou – acredito que saiba.

Ao mesmo tempo, sentia-se profundamente perplexa,não só em face do que sabia dos preparativos para o casamento de Katharine, mas pela impressão que ela lhe fazia,ali, no seu braço, sombria e inescrutável.

Fizeram de volta todo o caminho, até os degraus que conduziam ao apartamento de Mary. Aí pararam e fizeram uma pausa de um momento, sem nada dizerem.

– Você precisa entrar – disse Katharine, acordando.

– Ele está à espera todo esse tempo para prosseguir a leitura. – Lançou um olhar para a janela acesa, quase no topo,depois ambas ficaram a contemplar a casa, e esperaram mais um instante. Um lance de degraus semicirculares ia até o hall, Mary subiu os primeiros dois ou três, depois parou, olhando para Katharine, embaixo, na rua.

– Penso que você subestima o valor daquela emoção – disse, devagar e um tanto desajeitadamente. Subiu mais um degrau e olhou de novo, para baixo, a figura apenas parcialmente iluminada, de pé na calçada, com um rosto sem cor voltado para cima. E como Mary hesitasse, um táxi passou, Katharine virou a cabeça e chamou-o. Disse ainda, ao abrir a porta:

– Lembre-se de que quero pertencer à sociedade de vocês, lembre-se – acrescentou, tendo de elevar a voz um pouco e fechando a porta sobre o resto das duas palavras.

Mary subiu as escadas degrau por degrau, como se tivesse de arrastar o corpo por um aclive extremamente íngreme. Tivera de arrancar-se à força de Katharine, e cada passo era uma vitória contra seu desejo. Agarrava-se a ele tenazmente, encorajando-se como se estivesse a fazer o grande esforço físico de galgar uma altura. Estava ciente de que Mr. Basnett, sentado no alto da escada com os seus documentos, oferecia-lhe sólido apoio, se jamais fosse capaz de alcançá-lo. Essa convicção despertou-lhe um débil sentimento de exaltação.

Mr. Basnett levantou os olhos quando ela abriu a porta.

– Vou prosseguir de onde tinha parado – disse. – Interrompa-me quando quiser alguma explicação.

Relera o documento e fizera anotações à margem com um lápis, enquanto esperava; e continuou, como se não tivesse havido interrupção. Mary acomodou-se entre os almofadões chatos, acendeu outro cigarro, e escutou com uma carranca na cara.

Katharine, reclinada no fundo do táxi que a levava aChelsea, estava cônscia de uma certa fadiga, e cônscia também da natureza sóbria e satisfatória de uma indústria como a que acabava de ver. Pensar nisso dava-lhe calma e paz.Quando chegou em casa, entrou tão sem ruído quanto pôde,na esperança de que todos já se tivessem acomodado. Massua excursão tomara menos tempo do que pensava, e ouviuruídos inconfundíveis de atividade no andar superior. Umaportaabriu-se,eela seescondeunuma saleta de baixo,caso o som indicasse que Mr. Peyton se despedia. De onde estava,podia ver as escadas, embora ela mesma fosse invisível.Alguém descia, e viu que era William Rodney. Parecia umtanto esquisito,andando como um sonâmbulo;seus lábios semoviam, como se recitasse algum papel para si mesmo.Desceu muito devagar, degrau por degrau, apoiado ao corrimão,para guiar-se.Ela pensou se não estaria em algum estado de espírito de exaltação,que seria constrangedor testemunhar por mais tempo sem ser percebida. Entrou, então, nohall. Ele teve um grande sobressalto ao vê-la e estacou.

– Katharine! – exclamou. – Você esteve fora? – perguntou?

– Sim... Ainda estão de pé?

Ele não respondeu, e passou ao salão do andar térreo pela porta aberta.

– Foi mais maravilhoso do que poderia dizer – falou.Estou incrivelmente feliz...

Era como se não falasse com ela, e ela permaneceu calada.

Por um momento ficaram assim, nas pontas opostas da mesa, sem nada dizerem. Então, ele perguntou, ligeiro:

– Que tal lhe pareceu? Há possibilidade de que ela goste de mim? Diga-me, Katharine! Antes que pudesse responder, uma porta se abriu no patamar,acima,interrompendo-os.William pareceu excessivamente perturbado. Recuou, entrou rapidamente no hall, e disse em voz alta e num tom ostentatoriamente comum:

– Boa noite, Katharine. Vá para a cama, agora. Vê-la-ei logo. Voltarei amanhã, se puder.No momento seguinte, tinha partido. Ela subiu, e encontrou Cassandra no patamar. Tinha dois ou três livros na mão, e curvava-se para examinar outros numa pequena estante. Disse que nunca pudera saber que livro ler na cama, poesia, biografia ou metafísica.

– O que você lê na cama, Katharine? – perguntou,quando subiam juntas, lado a lado.

– Às vezes uma coisa, às vezes outra – disse Katharine, vagamente. Cassandra encarou-a.

– Sabe? Você é extraordinariamente bizarra – disse.– Todo mundo me parece bizarro.Talvez seja o efeito de Londres.

– William pareceu-lhe bizarro também?

– Bom,acho que sim,um pouco – respondeu Cassandra.

– Um pouco estranho. Mas fascinante. Vou ler Milton esta noite. Foi uma das noites mais felizes da minha vida, Katharine – acrescentou, olhando com tímida devoção para o belo rosto de sua prima.