Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 2 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 1

Era uma tarde de domingo em outubro e, como muitas jovens damas da sua classe, Katharine Hilbery servia o chá.Talvez uma quinta parte da sua mente estivesse ocupada nisso; o restante saltava por cima da frágil barreira de dia que seinterpunha entre a manhã de segunda-feira e esse amenomomento, e brincava com as coisas que a gente faz espontânea e normalmente no curso do dia. Embora calada, via-se evidentemente senhora da situação, que lhe era familiar, einclinava-se a deixar que seguisse seu curso (pela centésimavez?) sem ter de engajar por isso qualquer das suas faculdadesociosas. Um simples olhar bastaria para mostrar que Mrs.Hilbery era tão rica dos dons que fazem o sucesso dos chás degente importante de certa idade, que a rigor podia dispensar o auxílio da filha,desde que alguém se encarregasse por ela doaborrecido trabalho das xícaras e do pão com manteiga.

Considerando que o pequeno grupo estava assentado em torno da mesa há menos de vinte minutos, a animação estampada nos seus rostos e a bulha que produziam coletivamente faziam honra à anfitriã. De repente deu na cabeçade Katharine que, se alguém abrisse a porta naquele momento,poderia pensar que estivessem a divertir-se.Pensaria:“Que casa encantadora!” – e, instintivamente, riu, dizendo qualquer coisa

presumivelmente para aumentar o burburinho, em benefício do bom nome da casa – uma vez que elaprópria não sentia qualquer animação. Nesse momento exato, e para grande divertimento dela, a porta se escancarou, ede fato um rapaz entrou na sala. Katharine perguntou mentalmente ao saudá-lo: “Vamos, acha que estamos nos divertindo a valer?”

– Mr. Denham, mamãe – disse em voz alta, pois viu quea mãe esquecera o nome dele.

O fato foi percebido pelo próprio Mr. Denham, e agravou o constrangimento que cerca inevitavelmente a entrada de um estranho numa sala cheia de gente inteiramenteà vontade, e todos embarcaram em frases simultâneas. Ao mesmo tempo, pareceu a Mr. Denham como se mil portasacolchoadas se tivessem fechado entre ele e a rua. Uma garoa fina, espécie de essência diáfana do nevoeiro, era visívelacima do vasto e quase vazio espaço da sala-de-estar, todode prata, onde as velas se agrupavam na mesa de chá, avermelhada à luz do fogo. Com os ônibus e os táxis correndolhe ainda pela cabeça, com o corpo ainda trepidante da rápida caminhada a pé pela rua, a desviar-se do tráfego e dospedestres, o salão lhe parecia deveras remoto e estático. Eos rostos dos velhos e velhas ganhavam suavidade, a uma certa distância uns dos outros, e irradiavam um viço próprio, devido talvez ao fato de que o ar ali estava pesado dosgrãos azuis da névoa. Mr. Denham entrara no momentoem que Mr. Fortescue, o eminente romancista, chegava aomeio de uma interminável sentença. Ele a manteve em suspenso até que o recém-chegado se acomodasse, e Mrs.Hilbery juntou habilmente as duas pontas cortadas, inclinando-se para ele e dizendo:

– Bom, o que faria o senhor se fosse casado com um engenheiro e tivesse de viver em Manchester, Mr. Denham?

– Certamente ela poderia estudar persa – interrompeu um gentleman velho e magro. – Não haverá algum professoraposentado ou homem de letras em Manchester com quemela pudesse estudar persa?

– Uma das nossas primas casou-se e foi viver em Manchester – explicou Katharine. Mr. Denham murmurou qualquer coisa entre os dentes, que era, aliás, tudo que seesperava dele, e o romancista continuou do ponto em que parara. Mr. Denham recriminou-se severamente por havertrocado a liberdade da rua por esse salão sofisticado em que,entre outras coisas desagradáveis, certamente não poderiafazer figura. Olhou em torno e viu que, a não ser Katharine,todos os presentes contavam mais de quarenta anos. O único consolo era ser Mr. Fortescue uma celebridade de certo peso, de maneira que, para o futuro, seria agradável tê-laconhecido.

– Você já esteve alguma vez em Manchester? – perguntou a Katharine.

– Nunca – respondeu ela.

– Por que objeta assim tão vivamente?

Katharine mexeu seu chá, e pareceu especular, foi o que Denham pensou,sobre o dever de encher a xícara de alguém;na realidade, ocupava-se em pensar como manter esse estranho rapaz em harmonia com o resto.Observou que ele apertava a xícara,a tal ponto que a fina porcelana corria o risco deceder. Era visível que estava nervoso, tanto quanto era de esperar que um moço ossudo com o rosto levemente avermelhado pelo vento, e o cabelo ligeiramente revolto, ficassenervoso numa reunião desse tipo. Além disso, era provávelque ele não gostasse dessa espécie de coisa, e tivesse vindopor pura curiosidade ou porque seu pai o tivesse convidado de qualquer maneira, não combinava bem com o resto.

Imaginaria que não há ninguém com quem falar em Manchester – replicou ela, a esmo. Mr. Fortescue observava-a havia um minuto ou dois, como os romancistas costumam fazer, e a esse reparo sorriu, fazendo disso o tema de uma pequena especulação mais a fundo:

– A despeito de uma ligeira tendência para o exagero,Katharine decididamente acertou em cheio – disse. Recostando-se na sua cadeira, com os olhos opacos, contemplativos, postos no teto e as pontas dos dedos apertadasumas contra as outras, descreveu primeiro os horrores dasruas de Manchester, depois as desertas, imensas charnecasdos arredores da cidade, por fim a insignificante casinholaem que a moça teria que viver, e os professores, e os miseráveis estudantes, devotados às mais cansativas obras dos nossos dramaturgos mais jovens que iriam visitá-la, e como suaaparência mudaria aos poucos, e como teria ela de voar devolta a Londres, e como Katharine teria de conduzi-la de um lado para outro, como a gente conduz um cão mais azougado numa corrente, a desfilar diante das vitrines dosaçougueiros, pobre queridinha.

– Oh, Mr. Fortescue – exclamou Mrs. Hilbery quando ele terminou. – Escrevi-lhe ainda hoje dizendo como ainvejava! Pensava nos grandes jardins e nas boas senhoras demitenes, que só lêem o Spectator, e no rapé e nas velas. Seráque tudo isso desapareceu? Disse-lhe que encontraria lá todas as coisas boas de Londres sem as horríveis ruas que tan-to deprimem a gente.

– Não esquecendo a universidade – disse o velho senhormagro, que insistira antes na existência de gente fluente empersa. – Eu sei que há charnecas por lá porque li sobre issonum livro, um dia desses – disse Katharine.

– Fico horrorizado e pasmo também com a ignorânciada minha família – observou Mr.Hilbery.Tratava-se de umsenhor de idade, com um par de olhos ovais, cor de avelã,excessivamente brilhantes para um velho, e que aliviavam um pouco os pesados traços do rosto. Brincava incessantemente com uma pequena pedra verde que levava presa àcorrente do relógio, exibindo assim dedos longos e muitosensíveis, e tinha o hábito de mover a cabeça para um lado epara outro muito depressa sem alterar por isso a posição docorpo, bem fornido e avantajado, de modo que dava a impressão de estar a alimentar-se continuamente com matérias de divertimento e reflexão com o mínimo dispêndiopossível de energia. A gente imaginaria que ele passara daidade em que as ambições são pessoais, ou que as tivesse satisfeito tanto quanto seria capaz de fazer, e agora empregava sua considerável perspicácia mais em observar e refletirdo que em atingir um resultado qualquer.

Katharine, decidiu Denham, enquanto Mr. Fortescue construía outro monumento bem torneado de palavras, tinhatraços da mãe e do pai,e esses elementos se combinavam nelade maneira um tanto singular. Mostrava os movimentos impulsivos,rápidos,de sua mãe,os lábios que não raro se abriampara falar, depois fechavam-se outra vez; e os olhos escuros,ovalados,do pai,cheios até as bordas de luz,embora sobre umfundo de tristeza. E como era ainda jovem demais para teradquirido um ponto de vista pessimista, poder-se ia dizer queesse fundo não era tanto tristeza quanto um espírito dado àcontemplação e ao autocontrole.A julgar pelo cabelo,pela tez,pelo contorno dos traços, era de chamar a atenção, se não mesmo bela.Firmeza e serenidade marcavam-lhe a expressão,e essa combinação de qualidades resultava num caráter bastante definido, mas desses que não são feitos para deixar àvontade um homem jovem, que mal a conhece. Quanto ao mais, era alta; usava um vestido de cor neutra, uma velha renda amarelada por único ornamento, e no qual o reflexo deuma jóia antiga punha uma nota vermelha. Denham observou que, embora calada, tinha suficiente domínio da situaçãopara reagir imediatamente se a mãe apelasse de súbito paraela; no entanto,parecia-lhe óbvio que apenas prestava atençãocom a casca mais exterior da sua mente. Chamou-lhe a atenção que a posição da moça na mesa de chá, em meio a tantagente mais velha, não deixava de ter suas dificuldades, e procurou refrear sua tendência a achá-la, ou à sua atitude, geralmente antipática. O debate passara sobre Manchester, depoisde tratar a cidade generosamente.

– Será a Batalha de Trafalgar ou a Invencível Armada,Katharine? – perguntava a mãe. – Trafalgar, mamãe.

– Claro, Trafalgar! Que distração a minha! Outra xícarade chá, com uma rodela fina de limão e, depois, caro Mr.Fortescue, queira explicar minha absurda charada. A gente não pode deixar de confiar em gentlemen com narizes romanos, mesmo se os conheceu em ônibus.

Nesse ponto, Mr. Hilbery atalhou, naquilo que dizia respeito a Denham, e falou longamente e com muito sensosobre a profissão do advogado e as mudanças que vira emsua vida. Na verdade, isso era da sina de Denham, pois foraum artigo seu, sobre um assunto qualquer de direito, publicado por Mr. Hilbery na sua Revista, que aproximara osdois. E quando, um momento mais tarde, anunciou-se Mrs.Sutton Bailey, ele voltou-se para ela, e Mr. Denham viu-sesozinho e quieto, engolindo coisas por dizer, ao lado deKatharine, também silenciosa. Tendo ambos aproximadamente a mesma idade, e estando ambos abaixo dos trinta anos, era-lhes interdito o uso dessas frases de conveniência que servem para conduzir a conversação para águas tranqüilas. Silenciava-os ainda mais a maliciosa determinação de Katharine de não ajudar esse rapaz – em cuja postura altivae resoluta percebia alguma coisa de hostil ao meio dela – com nenhuma das habituais civilidades femininas. Em conseqüência, ficaram em silêncio, Denham controlando seudesejo de dizer algo de abrupto e explosivo, capaz de chocála e despertá-la. Mrs. Hilbery sentia instintivamente e imediatamente qualquer silêncio no seu salão como uma notamuda numa escala sonora; debruçando-se sobre a mesa, observou, com a maneira curiosamente hesitante e desinteressada que sempre conferia às suas frases uma leveza de borboletas que esvoaçam de um a outro ponto ensolarado:

– Sabe, Mr. Denham, o senhor me lembra muito o querido Mr. Ruskin... Será a gravata dele, Katharine, ou o cabelo, ou será a maneira que tem de sentar-se na cadeira? Diga-me, Mr. Denham, o senhor é admirador de Ruskin? Outro dia, alguém me disse: “Oh, não, nós não lemos Ruskin, Mrs. Hilbery.” O que lêem, então, me pergunto? Porque não podem passar a vida a subir em aeroplanos ou a se enfiarem nas entranhas da terra. Olhou com benevolência para Denham, que não disse nada de articulado, e depois para Katharine, que sorriu, mastambém não disse nada, e logo em seguida Mrs. Hilberypareceu possuída por uma idéia brilhante e exclamou:

– Estou certa de que Mr. Denham gostará de ver as nossas coisas, Katharine. Estou certa de que ele não é comoaquele horrível rapaz, Mr. Ponting, que me disse considerarnossa obrigação o viver só no presente. Afinal de contas, oque é o presente? Metade dele é o passado, e a melhor metade, diria eu – acrescentou, voltando-se para Mr. Fortescue.

Denham levantou-se, meio inclinado a ir-se, e pensandoque já vira tudo o que havia para ver, mas Katharine levantou-se no mesmo momento, dizendo:

– Talvez queira ver os quadros. – E mostrou o caminho,atravessando o salão e passando a uma peça menor contígua.

Essa peça menor era como uma capela numa catedral ouuma grota numa caverna, pois que o surdo rumor do tráfegoa distância sugeria o macio murmúrio de águas, e os espelhos ovais, com sua superfície de prata, semelhavam pequenos tanques profundos tremeluzindo à luz de estrelas. Masa comparação com um templo era a mais apropriada dasduas porque o pequeno salão estava cheio de relíquias.

Quando Katharine tocou em vários pontos, pequenasluzes surgiram aqui e ali, revelando uma massa quadrada delivros vermelhos e dourados, e depois uma longa saia azul ebranca, lustrosa, atrás de um vidro, e depois uma secretáriade mógono, com seu bem ordenado equipamento e, finalmente, uma pintura quadrada, acima da mesa, para a qualse providenciara iluminação especial. Quando Katharinetocou essas últimas luzes, recuou de um passo, como quepara dizer: “Veja!” E Denham se viu contemplado pelosolhos do grande poeta, Richard Alardyce, e levou um pequeno choque, que o teria feito tirar o chapéu se portasseum chapéu na sua cabeça. Os olhos o olhavam em meio aossuaves rosados e amarelos do quadro com uma afabilidadedivina que parecia incluí-lo, mas que passava além paracontemplar o mundo inteiro. As tintas haviam desbotado atal ponto que pouco restava além dos belos olhos, escuroscontra o fundo impreciso.

Katharine esperou, como que para deixá-lo receber todo o impacto, e depois disse:

– Esta é a escrivaninha dele. Ele usou esta pena – e tomouda uma pena de ganso que depois deixou cair de novo. A escrivaninha estava coberta de velhos borrões de tinta, e a penase arrepiara com o uso. Havia também, à mão, os enormesóculos de aro de ouro e, debaixo da mesa, um par de grandeschinelos velhos, um dos quais Katharine pegou, dizendo:

– Penso que meu avô deve ter tido pelo menos o dobro do tamanho dos homens de hoje. Isto – continuou, como sesoubesse de cor o que ia dizer –, isto é o manuscrito originalda Ode ao Inverno. Os primeiros poemas são muito menosemendados que os últimos. Gostaria de examiná-lo?

Enquanto Mr. Denham examinava o manuscrito, ela contemplava o avô e, pela milésima vez, caía num agradável estado de sonho em que parecia ser a companheira desses homens gigantescos, ou pelo menos pertencer à sua linhagem; e o presente momento, insignificante, ficava superado. Certamente, aquela magnífica e fantasmagórica cabeça na tela jamais passou pelas trivialidades de uma tarde de domingo, e não parecia que tivesse importância qualquer coisa que ela e esse jovem se dissessem,pois que eram gente de somenos.

– Este é um exemplar da primeira edição dos poemas continuou Katharine, sem levar em conta que Mr. Denhamestava ainda às voltas com o manuscrito. – Contém vários poemas que não foram reeditados, assim como correções.Fez uma curta pausa e prosseguiu, como se os intervalostivessem sido todos calculados:

– Essa senhora de azul é minha bisavó, por Millington. Eaqui está a bengala de meu tio.Como sabe,ele era Sir Richard Warbuton,e cavalgou com Havelock para socorrer Lucknow.E agora, deixe-me ver, oh, esse é o Alardyce originário, 1697, o fundador da fortuna da família,com a mulher.Alguém nosdeu essa terrina um dia desses, porque tinha o brasão dele eas suas iniciais. Pensamos que devem tê-la ganhado de presente, para celebrar suas bodas de prata.

Nesse ponto ela se deteve por um momento, a imaginarpor que Mr. Denham não dizia nada. Sua impressão de queele lhe era hostil, que se evaporara quando passou a pensarnos objetos da família, voltou, e tão agudamente que elaparou em meio a seu inventário e olhou para ele. Sua mãe,querendo associá-lo honrosamente aos grandes mortos, comparara-o a Mr. Ruskin; e a comparação ficara na mentede Katharine, e levava-a a ser menos indulgente com ele doque seria justo, uma vez que um rapaz que faz uma visita defraque está num elemento inteiramente diverso do que umacabeça capturada no clímax da expressão e que olha imutavelmente por detrás de uma lâmina de vidro – pois que issoera tudo o que restava para ela de Mr. Ruskin. Mr. Denhamtinha um rosto singular, um rosto construído mais para avelocidade e a decisão do que para a contemplação maciça;a fronte ampla, o nariz comprido e formidável, os lábiosraspados e visivelmente teimosos e sensíveis, as faces ma-gras, com uma forte corrente de sangue vermelho a correrpor elas, mas nas profundezas. Seus olhos, em que haviaagora a costumeira expressão masculina, impessoal e autoritária, poderiam revelar emoções mais sutis em circunstâncias propícias. Eram grandes, de cor castanho-clara. Pareciam, de repente, hesitar e especular. Mas Katharineolhava-o apenas para descobrir se o seu rosto não ficariamais próximo do padrão dos heróis mortos se fosse adornado de suíças. No seu porte parcimonioso e nas maçãs ossudas, mas sadias, via sinais de uma alma acerba, cheia de arestas. A voz notou – tinha uma nota vibrante (ou rachada?),quando depôs o manuscrito na mesa e disse:

– A senhora deve ter muito orgulho de sua família, MissHilbery.

– Sim, tenho – respondeu Katharine. – Vê algum mal nisso?

– Mal? E por que haveria mal nisso? Mas deve ser aborrecido mostrar as coisas de vocês às visitas – acrescentou, pensativo.

– Não, se as visitas as apreciam.

– Não será difícil viver à altura dos seus antepassados? – continuou ele.

– O que sei é que eu mesma não ousaria escrever poemas

– respondeu Katharine.

– Não. E é isso que eu detestaria. Não poderia suportarque meu avô me tivesse fechado essa porta ou qualquer porta – continuou Denham, olhando em volta com ar crítico, ou pelo menos foi o que Katharine pensou. – E não é só oseu avô. Você está limitada por todos os lados. Suponho quevocê descenda de uma das mais ilustres famílias da Inglaterra.Dos Warburtons e dos Mannings, e é aparentada com osOtways também, se não me engano? Li sobre isso em alguma revista – disse.

– Os Otways são meus primos – respondeu Katharine.

– Aí está – disse Denham, conclusivamente, como se o argumento tivesse sido demonstrado. – Pois eu não vejo que tenha provado alguma coisa – disse Katharine.

Denham sorriu, de maneira particularmente provocante. Estava divertido e contente de ver que tinha o poder de pelo menos irritar essa anfitriã desatenta e altiva já que não conseguia fazer-lhe impressão. Teria preferido fazer-lhe impressão.

Ficou sentado, calado, segurando nas mãos o precioso livrinho de poemas, que nem abrira, e Katharine o observava, e a expressão contemplativa e melancólica se acentuava em seus olhos à medida que a irritação desmaiava.Parecia considerar muitas coisas ao mesmo tempo. Esquecera seus deveres.

– Muito bem – disse Denham, abrindo de chofre o pequeno livro de versos, como se tivesse dito tudo o quedecentemente podia ou queria dizer. Virou as páginas comgrande determinação, como se estivesse a julgar o livro nasua totalidade, impressão, papel, encadernação, tanto quantoa poesia, e então, aparentemente satisfeito com suas boas oumás qualidades, colocou-o outra vez na secretária e examinou a bengala de cana de malaca com castão de ouro quepertencera ao soldado.

– Mas não é orgulhoso, o senhor, da sua família?

– Não – disse Denham. – Nunca fizemos coisa algumade que nos pudéssemos orgulhar, a não ser que pagar ascontas em dia seja motivo de orgulho.

– Isso parece maçante.

– Você nos acharia terrivelmente maçantes – concordou Denham.

– Sim, talvez eu os achasse maçantes – disse Katharine –, mas não penso que os acharia ridículos – acrescentou, comose Denham tivesse feito tal acusação aos seus.

– Não, porque de modo algum somos ridículos. Somos uma família respeitável, de classe média, que vive em Highgate.

– Nós não vivemos em Highgate, mas somos classe média também, imagino.Denham limitou-se a sorrir e, pondo a bengala de malaca de volta no cabide, tirou uma espada da sua bainha ornamental.

– Essa pertenceu a Clive, ou pelo menos é o que a gente diz aqui – disse Katharine, retomando automaticamente suas obrigações de dona-de-casa.

– E é falso? – inquiriu Denham.

– É uma tradição de família. Não sei se podemosprová-la.

– Veja você, nós não temos tradições na nossa família – disse Denham.

Vocês me parecem muito maçantes – repetiu Katharine.

Apenas classe média – disse Denham.

– Vocês pagam suas contas e vocês dizem a verdade. Nãovejo por que nos devam desprezar.Com todo o cuidado, Mr. Denham enfiou de novo na bainha a espada que os Hilberys diziam haver pertencido aLord Clive.

– Eu não gostaria de ser um de vocês. Foi tudo o que eudisse – replicou Denham, como se tentasse exprimir o maisacuradamente possível o que pensava.

– Não. Mas ninguém quer ser, jamais, outra pessoa qualquer.

– Então, por que não um de nós? – perguntou Katharine.

Denham fitou-a. Sentada na cadeira de braços do seu avô, brincando com a bengala de cana do seu tio-avô, que girava, macia, entre os dedos, tendo por fundo igualmente olustre da pintura azul e branco e o carmesim dos livros, gravados a ouro, a vitalidade e serenidade de sua atitude, como a de um pássaro de viva plumagem pousado e em repousoantes de novas viagens, provocava-o a mostrar-lhe as limitações do seu destino. Tão facilmente, tão rapidamente, se-ria ele esquecido!

– Você nunca saberá coisa nenhuma de primeira mão – começou, quase ferozmente. – Tudo já foi feito para você.Você nunca saberá o prazer de comprar uma coisa depois de ter economizado para isso, ou o de ler um livro pela primeira vez, ou de fazer descobertas.

– Continue – disse Katharine, quando ele fez uma pausa,de súbito, ao ouvir a própria voz proclamar alto e bom somesses fatos, em dúvida sobre se havia neles alguma verdade.

– Naturalmente, não sei como emprega seu tempo – continuou ele, um tanto formal –, mas suponho que tem demostrar a casa às pessoas. Está escrevendo uma biografia doseu avô, não está? E essa espécie de coisa – fez um sinal em direção ao outro cômodo, onde podiam ouvir explosões deriso educado – deve tomar grande parte do seu tempo.Ela o olhou, expectante, como se estivessem a enfeitar,juntos, uma pequena reprodução dela mesma, e o visse he-sitar na colocação de algum laçarote ou faixa.

– O senhor percebeu a coisa muito bem – disse ela –, mas apenas ajudo minha mãe. Eu mesma não escrevo.

– E faz alguma outra coisa você mesma? – perguntou.

– O que quer dizer com isso? – perguntou ela. – Não deixo a casa às dez para voltar às seis.

– Não foi isso que eu quis dizer.

Mr. Denham recobrara seu antocontrole. Falou com uma calma que pôs Katharine aflita. Por que teria de explicar-se? Mas,ao mesmo tempo,queria aborrecê-lo,impeli-losuavemente para longe dela, uma leve aragem de ridículo ousátira, como fazia habitualmente com os intermitentes protegidos de seu pai.

– Ninguém faz, jamais, qualquer coisa que realmente valha a pena, hoje em dia – disse ela. O senhor vê – e bateu namesa com o livro de poemas do avô –, nós nem sabemosimprimir tão bem quanto eles o faziam. E quanto a poetas ou pintores ou romancistas – não há nenhum. Assim, de uma ou de outra forma, não sou um caso excepcional.

– Não, não temos nenhum grande homem – replicouDenham – e fico muito feliz com isso. Detesto grandes homens. O culto da grandeza no século XIX me parece explicar a desvalia dessa geração.

Katharine entreabriu os lábios e prendeu o fôlego, comose fosse responder com o mesmo vigor. Contudo, uma portaque se fechou na peça ao lado desviou-lhe a atenção,e ambosficaram conscientes de que as vozes, que se vinham alteandoe caindo em torno da mesa de chá, se haviam calado. A própria luz parecia haver baixado. Um momento depois, Mrs.Hilbery apareceu na soleira da ante-sala. Ficou a olhá-loscom um ar de expectativa estampado no rosto como se umacena de algum drama da nova geração estivesse a ser levadapara seu deleite. Era uma mulher de aparência extraordinária, já avançada nos sessenta, mas, graças à leveza de sua ossatura e ao brilho dos olhos, parecia haver flutuado à superfície dos anos sem sofrer, à sua passagem, muitos estragos.Seu rosto era fundo e aquilino, mas qualquer impressão de dureza desmanchavam-na os olhos, ao mesmo tempo sagazes e inocentes, que pareciam ver o mundo com um enormedesejo de que ele se comportasse nobremente e com inteiraconfiança em que o faria, caso se desse a esse trabalho.

Certas linhas em sua ampla fronte e em volta dos lábios podiam, talvez, sugerir que ela conhecera momentos de alguma dificuldade e perplexidade no curso de sua carreira, masisso não lhe destruira a fé, e ela ainda se achava, visivelmente, preparada para dar a qualquer um todas as oportunidades possíveis e ao sistema, na incerteza quanto a sua maldade intrínseca, um julgamento favorável. Aparentava grande semelhança com o pai,e de algum modo sugeria,tal como ele,o frescordo ar e os amplos espaços de um mundo mais jovem.

– Bem – disse ela –, que achou de nossas coisas, Mr. Denham? Mr. Denham levantou-se, abriu a boca, mas não disse nada, coisa que Katharine notou, divertida.

Mrs. Hilbery folheou o livro que ele pusera na mesa.

– Há livros que vivem – observou, como se refletisse. – São jovens quando somos jovens e envelhecem conosco. Osenhor gosta de poesia, Mr. Denham? Mas que perguntaabsurda! A verdade é que o caro Mr. Fortescue deixou-meexausta. Ele é tão eloqüente e tão espirituoso e tão profundoque, depois de uma hora ou coisa assim, sinto-me tentada aapagar a luz. Mas talvez ele seja mais maravilhoso do quenunca no escuro. Que acha você, Katharine? Vamos dar uma festa na mais completa escuridão? Haverá salas bemiluminadas para os cacetes...

A essa altura Mr. Denham despediu-se.

– Mas temos ainda uma infinidade de coisas para mostrar-lhe! – exclamou Mrs. Hilbery, não tomando conhecimento do gesto. – Livros, quadros, porcelana, manuscritos, e a cadeira mesma em que Mary Rainha da Escóciaestava sentada quando soube do assassinato de Damley.Devo repousar um pouquinho, e Katharine deve mudar ovestido (embora o que esteja usando seja muito bonito também), mas se o senhor não se importa de ficar só, o jantarserá servido às oito. Ouso dizer que escreverá um poema desua lavra. Ah, como adoro o lume de uma lareira! Nosso salão não lhe parece encantador?

Ela deu um passo atrás como se os convidasse a contemplar o salão vazio, com suas lâmpadas ricas e irregulares,enquanto as chamas da lareira saltavam e tremulavam.

– Queridas coisas! – exclamou ela. – Queridas cadeiras e mesas! Como se parecem a velhas amigas, fiéis, caladas amigas. O que me faz lembrar, Katharine, que o pequeno Mr.Anning deve vir esta noite,e Tite Street e Cadogan Square...“ Lembre-me para mandar pôr vidro naquele desenho de seu avô. A Tia Millicent fez uma observação a respeito, daúltima vez em que esteve aqui, e sei o quanto me doeria, amim, ver meu pai atrás de um vidro partido.

Dizer adeus e escapar foi como abrir caminho, a custo,por entre um labirinto de teias de aranha cintilantes comogemas, pois a cada movimento Mrs. Hilbery se lembrava dealguma outra coisa sobre as vilanias dos envidraçadores ousobre os deleites da poesia, e em certo momento pareceu aorapaz que acabaria hipnotizado e obrigado a fazer o que elapretendia desejar que fizesse, pois não podia imaginar que desse verdadeiramente importância à sua presença.Katharine, todavia, deu-lhe uma oportunidade de sair, e porisso ficou-lhe grato, como uma pessoa é grata pela compreensão de outra.