Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 5 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 4

Por volta das nove horas da noite, toda segunda quartafeira, Miss Mary Datchet tomava a mesma resolução: a denunca mais ceder seu apartamento, fosse qual fosse o motivo invocado. Sendo, como era, de bom tamanho e convenientemente situado numa rua quase que só de escritórios,a um passo do Strand, gente que queria fazer uma reunião,para fins de divertimento, ou para discutir arte ou a reformado Estado, tinha o hábito de pedir a Mary que lhe emprestasse a sala. Ela sempre recebia o pedido com a mesma rugade aborrecimento simulado, que logo se dissolvia numa espécie de dar de ombros, meio bem-humorado meio agastado, como um cachorro grande que, atormentado por crianças,sacode as orelhas.Acabava emprestando a sala,mas comuma condição: a de que todos os arranjos fossem feitos porela. A reunião quinzenal de uma sociedade dedicada à livre discussão de tudo implicava muita arrumação, muito móvelmudado de lugar e empurrado contra a parede, e na retiradadas coisas frágeis e preciosas para lugar seguro.Miss Datchetera perfeitamente capaz de carregar uma mesa de cozinhaàs costas, pois que, embora bem proporcionada e bem vestida, aparentava força invulgar e determinação.

Contava, talvez, vinte e cinco anos de idade, mas pareciamais velha,porque ganhava,ou tentava ganhar,a própria vida,e já trocara o ar de espectadora irresponsável pelo do soldadoraso de um exército de trabalhadores.Seus gestos pareciam tersempre um objetivo qualquer;os músculos em torno dos olhose dos lábios eram firmes, como se os sentidos tivessem sido disciplinados e estivessem prontos para atender a um chamado.Adquirira,no processo,duas tênues rugas entre as sobrancelhas, não por inquietar-se, mas por pensar; era evidente quetodos os instintos femininos de cativar, consolar e encantar cruzavam-se com outros de modo algum peculiares a seu sexo.No resto, tinha olhos castanhos, era um pouco desajeitada demovimentos, e sugeria origens camponesas, ancestrais respeitáveis e trabalhadores, mais provavelmente homens de fé e deintegridade do que de dúvida e fanatismo.

Ao cabo de um dia de trabalho bastante duro, era de certo modo um esforço limpar o próprio quarto, tirar o colchãoda própria cama, para deitá-lo no chão, encher um bule comcafé frio e passar um pano na mesa comprida deixando-apreparada para receber pratos e xícaras e pires, com pirâmides de pequenos biscoitos cor-de-rosa nos intervalos; mas,efetuadas essas alterações, Mary sentiu-se possuída de tal leveza de espírito que era como se tivesse tirado dos ombrostodo o peso das suas horas de labuta e envergado alguma fina veste de seda brilhante. Ajoelhou-se em frente ao fogo econtemplou o quarto. A luz, embora doce, tinha uma clararadiância, coada por abajures de papel amarelo e azul, e oquarto, mobiliado com dois grandes sofás informes que maissemelhavam molhos de feno, parecia extraordinariamenteamplo e tranqüilo. Mary foi levada a pensar nas alturas de uma colina de Sussex e no saliente círculo verde de algumcampo fortificado de guerreiros antigos. O luar cairia por látão calmamente a essa hora, e ela imaginava a rude esteira deprata riscando a velha pele enrugada do mar.

– E aqui estamos nós – disse, em voz alta, meio satiricamente, mas com evidente orgulho – a falar de arte.

Puxou uma cesta com novelos de lã e diversas cores e um par de meias que precisava cerzir, e pôs os dedos em movimento, mas a mente, refletindo a lassidão do corpo, continuou, obstinada, a conjurar visões de solidão e quietude. Epôs de lado o tricô e caminhou pela colina, a ouvir nadamais nada menos que os carneiros que cortavam a relva bemrente às raízes, enquanto que as sombras das arvorezinhasbaixas moviam-se de leve, para cá, para lá, ao luar, quando abrisa as tocava. Mas estava perfeitamente cônscia da suapresente situação, e tirava até algum prazer da reflexão deque era capaz de se alegrar tão bem na solidão quanto napresença das muitas pessoas que, a essa hora, convergiampor variados caminhos, através de Londres, para o exato lugar onde se achava sentada.

Enquanto enfiava a agulha na lã e tirava-a outra vez,pensava nas várias fases da sua vida que faziam dessa atualposição como que o resultado de sucessivos milagres.Pensouno pai clérigo, no seu presbitério da roça, na morte de sua mãe, na sua própria determinação de educar-se, e na suavida de colégio, que se misturara, não havia muito, no maravilhoso labirinto de Londres, que ainda lhe parecia, a despeito da sua sensatez congênita, um imenso farol irradiando luz para miríades de homens e mulheres amontoados em volta. E aqui estava ela, Mary, no centro de tudo, esse centroque ocupava sem cessar as mentes de pessoas nas remotasflorestas do Canadá ou nas planuras da Índia, quando seuspensamentos se voltavam para a Inglaterra. As nove batidasmusicais, pelas quais ficou sabendo a hora, eram uma mensagem do grande relógio de Westminster. Quando a últimase dissolveu no ar, houve uma firme pancada na sua própriaporta, levantou-se e abriu. Quando voltou à sala, tinha nosolhos uma expressão de decidido prazer e falava com RalphDenham, que a seguia.

– Só? – perguntou ele, como se estivesse agradavelmentesurpreso com o fato.

– Fico só, às vezes – respondeu ela.

– Mas espera muita gente – continuou ele, olhando em volta. – É como um salão num palco. Que vai ser, esta noite?

– William Rodney, sobre o uso elisabetano da metáfora.Espero um trabalho bom, consistente, repleto de citaçõesdos clássicos. Ralph aqueceu as mãos ao fogo, que flamejava, intrépido,na lareira, enquanto Mary retomava sua meia.

– Acho que você é a única mulher em Londres que cirze as próprias meias – disse.

– Na verdade, sou apenas uma dentre muitos milhares respondeu ela –, embora deva admitir que estava a me julgarbastante notável quando você chegou. Agora que está aqui, não me acho mais notável. Que malvadeza a sua! Mas tenho de reconhecer que você é muito mais notável do que eu.Já fez muito mais do que eu fiz.

– Se esse é o seu cânon para medir as coisas, então não tem nada de que se orgulhar a meu respeito – disse Ralphcom ar sombrio.

– Bem, tenho de observar, com Emerson, que é ser e não fazer o que importa – continuou ela.

– Emerson? – exclamou Ralph com derrisão. – Você não me vai dizer que lê Emerson?

– Talvez não tenha sido Emerson. Mas por que razão não deveria eu ler Emerson? – perguntou ela com um grão de ansiedade.

– Nenhuma razão que seja do meu conhecimento.Apenas,a combinação é insólita: livros e meias. A combinação é deveras insólita. Mas parecia, ao contrário, impressioná-lo. Mary soltouuma pequena risada, sinal de felicidade, e os pontos que davaagora no trabalho pareciam-lhe de singular competência egraça. Pegou da meia e examinou-a de perto, com aprovação.

– Você sempre diz isso. Pois asseguro-lhe que a ‘combinação’, como diz você, é comum nas casas do clero. A única coisa insólita comigo é que eu gosto de ambos: de Emerson e da meia.

Ouviu-se uma batida e Ralph exclamou:

– Para o diabo com essa gente! Quisera que não viessem!

– É apenas Mr. Turner, do andar de baixo – disse Mary.E sentiu-se grata a Mr. Turner por haver alarmado Ralph epor ter sido um falso alarme.

– Serão muitos? – Ralph perguntou depois de uma pausa.

– Haverá os Morrises e os Crashaws, e Dick Osborne, e Septimus, todo esse pessoal. Katharine Hilbery virá também diga-se de passagem.Ou pelo menos foi o que WilliamRodney me disse.

– Katharine Hilbery! – exclamou Ralph.

– Você a conhece? – perguntou Mary com alguma surpresa.

– Fui a um chá em casa dela.

Mary insistiu com ele para que contasse tudo a respeito,e Ralph não se fez de rogado em exibir provas da extensãodo seu conhecimento. Descreveu a cena com alguns acréscimos e exageros que interessaram muitíssimo a Mary.

– Mas, a respeito do que você diz, tenho admiração porela – disse. – Só a vi uma vez ou duas, mas me parece ser oque se chama uma “personalidade”.

– Não quis falar mal dela. Apenas senti que não simpatizara muito comigo.

– Dizem que ela vai casar-se com o esquisitão do Rodney.

– Casar com Rodney? Então deve ser muito mais confusa do que pensei.

– Agora é a minha porta! – exclamou Mary, guardando suas lãs com cuidado, enquanto uma sucessão de pancadasreverberava inutilmente, acompanhada pelo estrépito de gente que batia os pés e ria. Um momento depois, a salaestava cheia de rapazes e moças que entraram com umcurioso olhar de expectativa, exclamaram: “Oh!” ao daremcom Denham, e depois ficaram imóveis, boquiabertos e aratoleimado.

Em breve a sala continha entre vinte e trinta pessoas, quena maior parte só encontraram lugar para sentar-se no chão, ocupando os colchões e encolhendo-se em formas triangulares. Eram todos jovens e alguns pareciam fazer um protesto com seus cabelos e roupas, e também com alguma coisade carregado e truculento na expressão, em contraste com otipo mais normal, que teria passado despercebido num ônibus ou num vagão de metrô. A conversa, curiosamente,confinou-se em grupos e foi, de começo, inteiramente espasmódica, conduzida em voz baixa, como se os interlocutores suspeitassem dos vizinhos.

Katharine Hilbery chegou bastante tarde, e instalou-se no soalho, com as costas apoiadas numa parede. Olhou depressa em redor, reconheceu uma meia dúzia de pessoas,que cumprimentou de cabeça, mas não viu Ralph ou, se oviu, já se esquecera de ligar qualquer nome à sua pessoa.Mas num segundo todos esses elementos heterogêneos foram unidos pela voz de Mr. Rodney que, de súbito, marchoupara mesa e começou, rapidamente, em tons estrídulos:

– Ao incumbir-me de falar sobre o uso elisabetano da metáfora em poesia...

Todas as cabeças balançaram de leve ou se endireitaram numa posição de que pudessem ver diretamente o orador. Ea mesma expressão, quase solene, pôde ser lida em todos osrostos. Mas, ao mesmo tempo, até as faces mais expostas àvista e, portanto, mais rigidamente sob controle, deixavam perceber um súbito e impulsivo tremor que, incontido, se teria transformado em frouxo de riso. A primeira visão de Mr. Rodney era irresistivelmente ridícula. Muito vermelhona cara, em conseqüência da noite fria de novembro ou donervosismo, cada um dos seus movimentos, desde a maneira como torcia as mãos ao jeito que tinha de sacudir bruscamente a cabeça para a direita e para a esquerda, como se alguma coisa que via o atraísse ora para a porta ora para a janela, denunciava a terrível aflição de sentir-se sob a mira de tantos olhos. Vestira-se meticulosamente bem, e uma pérolaposta no centro da gravata conferia-lhe um toque suplementar de aristocrática opulência. Mas os olhos por demaisproeminentes e a maneira compulsivamente gaguejante – que parecia indicar uma torrente de idéias, sempre a pedirpassagem e sempre represadas por uma convulsão nervosa – não eram de molde a inspirar piedade (como teria acontecido com um personagem mais imponente); davam, ao contrário, vontade de rir – sem maldade, embora. Mr. Rodney,por sua vez,estava tão evidentemente cônscio da sua aparência insólita, a vermelhidão do rosto e os repelões do corpodavam tal prova de embaraço, que havia algo de comoventenuma susceptibilidade assim ridícula. Mas é de crer que amaioria das pessoas fizesse eco àquele aparte de Denham:

– Imagine-se, casar com uma criatura dessas!

Seu texto fora preparado cuidadosamente, mas a despeito dessa precaução, Mr. Rodney conseguiu virar duas páginas em vez de uma, escolher a sentença errada quando duashaviam sido escritas juntas, e descobrir que a própria caligrafia ficara, de repente, ilegível. Quando encontrava umapassagem coerente, brandia-a para a audiência, quase agressivamente; depois remexia em seus papéis em busca de outra. Ao fim de uma agitação frenética, nova descoberta erafeita e produzida como a anterior e assim sucessivamente,até que, por meio de repetidos ataques, a platéia foi levada auma animação raras vezes vista em reuniões desse tipo. Se oque os instigava era o entusiasmo pela poesia ou pelas contorções a que um ser humano se sujeitasse por amor deles,seria difícil dizer. Por fim, Mr. Rodney sentou-se impulsivamente em meio a uma sentença e, depois de uma pausa deespanto, a assistência expressou seu alívio por poder rir alto numa decidida explosão de aplausos.

Mr. Rodney respondeu correndo em torno um olhardesvairado; e, ao invés de esperar por perguntas, atirou-se por cima dos corpos sentados para o canto em que Katharineestava, dizendo audivelmente:

– Bem, Katharine, imagino ter feito um papel de palhaço até para você. Foi terrível! Terrível, terrível!

– Calma! Você terá de responder às perguntas deles cochichou-lhe Katharine, desejando, acima de tudo, mantêlo quieto.Curiosamente,agora que o orador não estava maisdiante deles, parecia haver mais coisas sugestivas no que ha-via dito. De qualquer maneira, um moço pálido de olhostristes já se achava de pé, e fazia um discurso muito bem armado e com perfeita compostura. William Rodney ouviucom um curioso esgar, embora o rosto ainda lhe tremesselevemente de emoção.

– Idiota! – murmurou. – Ele não entendeu nada do que eu disse! Bem, responda-lhe, então – murmurou de volta Katharine.

– Não, não posso fazer isso. Vão rir de mim. Por que deixei que você me persuadisse de que essa espécie de gentese interessa por literatura? – continuou.

Havia muito que dizer em favor e contra a tese de Mr.Rodney. Estava recheada de asserções de que tais e tais passagens,tiradas literalmente do inglês,do francês e do italiano, eram as supremas pérolas da literatura. Ademais, elegostava de usar metáforas que, compostas no gabinete, soavam forçadas ou fora de contexto quando oferecidas, assim,fragmentariamente. – A literatura – disse – era uma frescagrinalda de flores primaveris, na qual as frutinhas do teixo ea erva-moura vermelha mesclavam-se aos variados matizes da anêmona. E, de uma maneira ou de outra, essa grinaldaornava frontes de mármore. Lera muito mal algumas citações esplêndidas. Mas através da maneira canhestra e daconfusão de linguagem emergia alguma paixão que, quandoele falava, formava na maioria da audiência uma pequenaimagem ou uma idéia a que cada um estava ansioso agorapara dar expressão. Muitos dos presentes propunham-se apassar a vida a escrever ou a pintar, e só de olhá-los erapossível saber que, à medida que ouviam, primeiro Mr.Purvis, depois Mr. Greenhalgh, percebiam que esses senhores estavam a fazer algo com uma coisa que acreditavam atéentão propriedade sua. As pessoas se levantavam, uma depois da outra, e, como se tivessem um machado mal-equilibrado nas mãos, cada uma tentava esculpir mais nitidamente a sua própria idéia de arte e sentava-se com a sensação deque, por alguma razão que não se podia entender, seus golpes tinham caído mal. E, ao se sentarem, viravam-se quaseinvariavelmente para quem estava mais próximo, tentandoretificar e explicar o que acabavam de dizer de público. Nãolevou muito tempo para que os grupos nos colchões e osgrupos nas cadeiras ficassem todos em comunicação unscom os outros,e Mary Datchet,que começara a cerzir meiasoutra vez, curvou-se um pouco e observou a Ralph:

– Isso é o que eu chamo um ensaio de primeira ordem.

E ambos, instintivamente, olharam na direção do au-tor. Mr. Rodney estava recostado contra a parede, com os olhos aparentemente fechados e o queixo enfiado no colarinho. Katharine folheava as páginas do manuscrito,como se procurasse alguma passagem que a tivesse impressionado particularmente, e sentisse dificuldade em encontrá-la.

– Vamos até ele dizer o quanto gostamos da conferência

disse Mary, sugerindo um curso de ação que Ralph estavaansioso para seguir, embora, sem ela, ele talvez tivesse sidoorgulhoso demais para fazê-lo, pois suspeitava que nutriamais interesse por Katharine do que ela por ele.

Foi um ensaio muito interessante, o seu – começou Mary sem nenhum acanhamento, sentando-se no chão emface de Rodney e Katharine. – Você me emprestará o manuscrito para ler em paz?

Rodney, que abrira os olhos à aproximação deles, fitou-apor um momento num silêncio desconfiado.

– Você diz isso apenas para disfarçar o fato do meu ridículo fracasso? – perguntou.Katharine levantou os olhos da leitura com um sorriso.

– Ele afirma que não lhe importa o que pensemos dele disse. – Ele diz que não liga a mínima para arte de nenhuma espécie.

Eu lhe supliquei que tivesse piedade, e ela fica a zombar de mim! – exclamou Rodney.

Não tenho qualquer intenção de me compadecer do senhor, Mr. Rodney – disse Mary, amável, mas firmementetambém. – Quando uma conferência é um fracasso, ninguém diz nada. Ao passo que agora, ouça-os a todos!

A vozearia que enchia a sala, com sua sofreguidão de sílabas curtas, sua pausas súbitas e seus súbitos ataques,podia ser comparada a algum frenético e inarticulado tumulto animal.

– Você acha que tudo isso é por causa do meu texto? – perguntou Rodney, depois de um momento, com visívelanimação.

– Claro que é – disse Mary. – Foi um ensaio muito estimulante. Voltou-se para Denham, como se lhe pedisse confirmação, e ele corroborou o que ela dissera.

– São os dez minutos que se seguem à leitura de um ensaio que provam se ele foi um sucesso ou não – disse ele. Seeu fosse você, Rodney, estaria muito contente comigo mesmo. Essa observação acabou de consolar Mr. Rodney. E ele se pôs a rememorar todas as passagens do seu escrito quepoderiam ser tidas por “estimulantes”.

– Você concordou de todo, Denham, com o que eu dissesobre o uso tardio da metáfora por Shakespeare? Receio nãohaver esclarecido muito bem esse ponto.

Aí ele se concentrou, e por meio de uma série de convulsões de sapo conseguiu arrastar-se até Denham.

Denham respondeu-lhe com uma brevidade que eraresultado de ter outra frase em mente para dirigir a outrapessoa.Queria dizer a Katharine:você se lembrou de mudar o vidro daquele quadro antes que sua tia fosse jantar? Mas,além de ter de responder a Rodney, não estava seguro de quea observação, com sua nota de intimidade, não fosse parecerimpertinente a Katharine. Ela estava ocupada a ouvir o que um membro de outro grupo dizia. Rodney, entrementes, fa-lava dos dramaturgos elisabetanos .

Era um homem de aspecto curioso. À primeira vista, e especialmente se estivesse falando com animação, parecia,de certo modo, ridículo; já no momento seguinte, em repouso, seu rosto, com o nariz avantajado, as bochechas ma-gras, os lábios expressivos, cheios de sensibilidade, fazialembrar, de algum modo, uma cabeça romana coroada delouros, esculpida em relevo num círculo de alguma pedraavermelhada e translúcida. Tinha dignidade e caráter. Funcionário, por profissão, num escritório qualquer do governo, era um desses espíritos sacrificados para os quais aliteratura constitui, ao mesmo tempo, uma fonte de divinasalegrias e de quase intolerável irritação. Não contentes emdescansar no seu amor por ela, são impelidos a praticá-la,embora pouco dotados em matéria de composição.Condenam, assim, tudo o que produzem. Ademais, é tal aviolência dos seus sentimentos que raras vezes encontram asimpatia adequada; e por se terem tomado extremamentesensíveis devido a sua percepção apurada, julgam-se vítimasde constantes desfeitas, tanto a sua pessoa quanto à coisaque veneram. Mas Rodney tinha sempre de pôr à prova assimpatias de qualquer um que lhe parecesse favoravelmentedisposto, e o elogio de Denham lhe estimulara a vaidade àflor da pele.

– Lembra-se do trecho imediatamente anterior à morte da duquesa? – continuou, chegando-se mais para perto de Denham e ajustando seu cotovelo e joelho numa incrívelcombinação angular. Katharine, cortada, por essas mano-bras, de toda comunicação com o mundo exterior, pôs-se de pé e sentou-se no peitoril da janela, onde Mary Datchet sereuniu a ela. As duas mulheres tinham, assim, uma vista geral da sala. Denham olhou na direção delas e fez um movimento convulsivo, como se arrancasse pela raiz mancheiasde grama – do tapete. Mas como isso se ajustava perfeitamente à sua concepção da vida,a de que todos os desejos são fadados à frustração, concentrou-se na literatura e decidiu, filosoficamente, tirar disso o proveito que pudesse.

Katharine estava agradavelmente excitada. Dispunha de uma variedade de caminhos à sua frente. Conhecia ligeiramente muita daquela gente e a qualquer momento umapessoa poderia levantar-se e vir falar com ela.Por outro lado,poderia escolher ela mesma alguém ou entrar na conversade Rodney, a quem dava intermitente atenção. Estava consciente também do corpo de Mary a seu lado, mas, ao mesmo tempo, o fato de serem ambas mulheres fazia desnecessário falar-lhe. Mas Mary, achando, como dissera queKatharine era uma “personalidade”, queria tanto falar comela que logo o fez.

– São exatamentecomo um rebanho de carneiros,não é? – disse, referindo-se ao burburinho dos corpos espalhados a seus pés.Katharine virou-se para ela e sorriu.

– Não sei por que estão a fazer tal barulho – disse.

– Por causa dos elisabetanos, imagino.

– Não, não creio que tenha qualquer coisa a ver com os elisabetanos. Ouviu? Não disseram “Lei de Seguros”?

– Não sei por que os homens estão sempre a falar de política – disse Mary. – Suponho que, se pudéssemos votar,também falaríamos.

– É muito provável que sim. E você passa a vida a tentarconseguir o direito do voto para nós, não é?

– É – respondeu Mary, bravamente. – De dez às seis, todos os dias, luto por isso.Katharine olhou para Ralph Denham, que em companhia de Rodney abria caminho penosamente através dametafísica da metáfora. E lembrou-se da conversa naquelatarde de domingo. Havia qualquer vaga ligação com Mary.

– Imagino que você seja dessas pessoas que pensam que todos devem ter uma profissão – disse, sem muito interesse,e como se apalpasse caminho entre os fantasmas de ummundo desconhecido.

– Oh, não, nada disso – disse Mary imediatamente.

– Bem, eu sou dessas – continuou Katharine com um meio suspiro. – A gente pode sempre dizer que fez algumacoisa, enquanto que, numa multidão como esta, sinto-me um tanto melancólica.

– Numa multidão? Por que numa multidão? – perguntouMary, com as duas linhas verticais a se lhe aprofundarem nocenho, e achegando-se a Katharine, no peitoril da janela.

– Pois não vê por quantas coisas diferentes se interessaessa massa de gente? E eu quero ser melhor que eles, querdizer – corrigiu-se –, quero afirmar-me, e é difícil quandonão se tem uma profissão.

Mary sorriu, pensando que ser melhor que os outros eracoisa que não deveria apresentar a menor dificuldade paraMiss Katharine Hilbery. Conheciam-se tão ligeiramenteque esse começo de intimidade, de que Katharine pareciatomar a iniciativa ao falar de si mesma, guardava algo desolene. E ficaram caladas, as duas, como que a decidir se era o caso de ir ou não adiante. Experimentavam o solo em quepisavam.

– Ah, mas eu quero espezinhar os corpos deles, prostrados no chão! – anunciou Katharine, um momento depois,com uma risada, como se achasse graça do encadeamentode pensamentos que a levara a essa conclusão.

– A gente não passa necessariamente por cima dos outros quando dirige um escritório – disse Mary.

– Não. Pode ser que não – respondeu Katharine.

A conversação descambou, e Mary viu que Katharine contemplava a sala com ar macambúzio, os lábios apertados. O desejo de falar sobre si mesma ou de iniciar uma amizade tinham-na aparentemente deixado. Mary ficou impressionada com a capacidade da outra de ficar assim,e, tão sem esforço, sem dizer palavra, ocupar-se com seus próprios pensamentos. Era um hábito que revelava solidão e uma mente acostumada a pensar por si. E, quando Katharine persistiu no silêncio, Mary ficou um pouco desconcertada.

– É, são absolutamente como carneiros – repetiu idiotamente.

– E, no entanto, pelo menos são muito inteligentes acrescentou Katharine. – Suponho que todos leram Webster.

– Mas você vê nisso uma prova de inteligência? Eu li Webster, li Ben Jonson, mas não me julgo inteligente. Nãoexatamente, quer dizer.

– Eu acho que você deve ser muito inteligente – disse Katharine.

– Por quê? Por que dirijo um escritório?

– Não estava pensando nisso. Pensava em como você vive só neste quarto e dá festas.Mary refletiu por um segundo.

– Isso significa, principalmente, a capacidade de ser desagradável com a própria família, acho eu. Tenho isso,talvez. Não quis mais viver em casa, e disse a meu pai. Ele não gostou... Mas afinal, tenho uma irmã, e você não tem,não é?

– Não. Não tenho irmãs.

– Você está escrevendo uma vida de seu avô? – prosseguiu Mary.Katharine viu-se,de repente,confrontada por um pensamento familiar de que desejava escapar. Respondeu:

– Sim, estou ajudando minha mãe – mas de tal maneiraque Mary se sentiu perplexa e posta de volta no exato lugarque ocupava no início da conversa entre elas. Parecia-lheque Katharine dispunha de um curioso poder de se aproximar e recuar, o que lançava emoções alternadas através delamais depressa do que de hábito, mantendo-a em posição dealerta e curiosidade. Desejando classificá-la, Mary pespegou-lhe o termo conveniente de “egoísta”.“É uma egoísta”, disse consigo mesma. E armazenou apalavra, para dizê-la a Ralph um dia, quando (como iriacertamente acontecer) estivessem discutindo Miss Hilbery.

– Meu Deus, que confusão haverá amanhã de manhã! exclamou Katharine. – Espero que não durma neste cômodo, Miss Datchet.

Mary riu.

– De que se ri? – perguntou Katharine.

– Não lhe direi.

– Deixe-me adivinhar. Está rindo porque pensou que eumudei de assunto?

– Não.

– Porque pensa...

– Se quer saber, estava rindo da maneira como você disse“Miss Datchet”.

– Mary, então. Mary, Mary, Mary.

E, ao falar assim, Katharine puxou a cortina para trás,para esconder, talvez, o momentâneo rubor de prazer quecausa o fato de se estar perceptivamente mais próximo de outra pessoa.

– Mary Datchet – disse Mary. – Temo que não seja um nome tão grandioso como Katharine Hilbery.

As duas olharam para fora da janela, primeiro para adura lua de prata, estática em meio à corrida de nuvenzinhas cinza-azuis, depois, mais baixo, por sobre os telhadosde Londres, com as suas chaminés inteiriçadas e, imediatamente abaixo delas, para o piso da rua, vazio e lavado deluar, no qual cada junta de pedra se desenhava nitidamente.Mary viu, então, que Katharine levantava de novo os olhospara a lua, com uma expressão contemplativa, como secomparasse aquela lua com as luas de outras noites, entesouradas na memória. Alguém na sala, por detrás delas, fezuma pilhéria sobre ouvir estrelas, o que lhes tirou o prazerdo que faziam, e elas olharam de novo para dentro da sala.

Ralph que esperava por esse momento, imediatamente produziu sua frase.

– Pergunto-me, Miss Hilbery, se se lembrou de pôr vidro naquele quadro? – sua voz mostrava que a questão fora preparada.

Oh, seu idiota! – exclamou Mary, e quase o fez em voz alta, sentindo que Ralph dissera algo muito estúpido.É assim que, depois de três aulas de latim, a gente corrige um colega cuja ciência não inclui o ablativo de mensa.

Quadro? Que quadro? – perguntou Katharine. – Oh,em casa, você quer dizer, aquela tarde de domingo. Foiquando estava Mr. Fortescue? Sim, penso que sim.

Os três ficaram por um momento constrangidos e calados, e então Mary os deixou a fim de vigiar o manuseio do grande bule de café. Apesar de toda a sua boaeducação, guardava a ansiedade dos que são donos deporcelana.

Ralph não achou mais nada para dizer. Mas fora possível arrancar-lhe a máscara de carne, e ficaria patente que toda a sua força de vontade concentrava-se num único objetivo – que Miss Hilbery o obedecesse. Queria apenas que ela ficasse onde estava, até que, por meios ainda não muito claros, conseguisse despertar-lhe o interesse. Esses estados mentais se transmitem, freqüentemente, sem necessidade de linguagem, e era evidente a Katharine que esse rapaz fixava o pensamento nela. Instantaneamente recordou sua primeira impressão dele, e viu-se de novo a exibir-lhe as relíquias da família. Reverteu, então, ao estado de espírito em que se achava quando ele a deixara,naquele domingo. Supunha que a julgara com severidade.Mas se esse era o caso, então cabia-lhe a responsabilidade pela conversação, e não a ela. Mas submeteu-se, a ponto de ficar inteiramente imóvel, com os olhos fixos na parede em frente, os lábios quase fechados, embora o desejo de rir fizesse-os tremer um pouco.

– Você sabe os nomes das estrelas, imagino – disse Denham, e pelo tom da sua voz alguém poderia pensar quecensurava a Katharine o conhecimento que lhe atribuía.

Ela manteve a voz neutra com alguma dificuldade.

– Sei como achar a estrela polar, se me perder.

– Não posso crer que isso lhe aconteça com freqüência.

– Não. Nada de interessante jamais me acontece – dis-se ela.

– Penso que adotou o sistema de dizer coisas desagradáveis, Miss Hilbery – forçou ele, indo mais longe do quedesejava. – Suponho que seja uma das características da suaclasse. Nunca falam a sério com os inferiores. Ou por se encontrarem,essa noite,em terreno neutro,ouporque a naturalidade com que Denham usava um velho casaco cinzento, dando a seu porte uma graça que lhe faltava com a roupa convencional, o certo é que Katharine nãosentia nenhum impulso de considerá-la um estranho aomeio em que ela mesma vivia.

– Em que sentido seria você meu inferior? – perguntou,olhando-o com gravidade, como se honestamente procurasse o sentido do que dissera. Esse olhar deu-lhe grande prazer. Pela primeira vez sentiu-se em perfeitos termos deigualdade com uma mulher que queria que pensasse bemdele, embora fosse incapaz de explicar por que isso lhe importava tanto. Talvez, afinal de contas, apenas quisesse teralguma coisa dela para levar consigo para casa,a fim de pensar a respeito. Mas não teria ocasião de aproveitar-se dessa vantagem.

– Acho que não entendi o que quis dizer – repetiu Katharine, e foi obrigada a interromper-se para atender alguém que queria vender-lhe uma entrada para a ópera com desconto. Na verdade, a atmosfera da reunião era agora pouco propícia a conversas isoladas. A festa ficara mais livre e hilariante, gente que mal se conhecia usava primeiros nomescom aparente cordialidade, e atingiu-se aquele clima de alegre tolerância e confraternização geral que, na Inglaterra, osseres humanos apenas alcançam depois de ficarem sentadosjuntos por três ou mais horas. Após o que, o primeiro ventofrio na rua os congela no isolamento outra vez. Capotes estavam sendo atirados aos ombros, chapéus enfiados rapidamente nas cabeças. E Denham passa pela mortificação dever o ridículo Rodney ajudando Katharine a aprontar-se.Não era costume nestas reuniões dizer adeus nem, necessariamente, cumprimentar de cabeça aqueles com quem seconversara. Mesmo assim, Denham sentiu-se desapontadopela maneira como Katharine se separou dele, sem mesmoprocurar completar o que estava dizendo. Saiu com Rodney.