Noite e Dia
Capítulo 18
Mas outros passageiros acercavam-se também de Lincoln, a pé, por um caminho diverso. Uma sede de município atrai os habitantes de todos os vicariatos, fazendas,casas de campo e cottages de beira de estrada num raio de dez milhas pelo menos,uma vez ou duas por semana.Entreeles, nessa ocasião, estavam Ralph Denham e MaryDatchet. Desprezaram as estradas e se foram através docampo aberto; pela sua aparência, não parecia que dessem grande importância ao caminho por onde iam, a não serque este os fizesse tropeçar. Ao deixarem o vicariato, começaram uma discussão que fez com que andassem ritmicamente e de passo certo de tal modo, que cobriram a distância a mais de quatro milhas por hora e nada viram da sucessão de sebes, das pastagens ondulantes ou do céu de um doce azul desmaiado. O que viram foram as Casas do Parlamento e os Escritórios do Governo, em Whitehall. Ambos pertenciam à classe dos que têm consciência dehaver perdido seus direitos inatos nessas grandes estruturas, e procuram construir outra espécie de abrigo para assuas próprias noções de lei e de governo. Talvez de propósito, Mary discordava de Ralph; gostava de sentir a suamente em conflito com a dele, e queria estar segura de queele não poupava ao seu raciocínio de mulher nem um grama da sua muscularidade masculina. Mas parecia discutircom ela tão ferozmente como se fora seu irmão.Coincidiam, todavia, na crença de que lhes cabia a tarefa de reparar ereconstruir o arcabouço da Inglaterra. Concordavam emque a natureza não fora generosa ao dotar o país de conselheiros. Concordavam, inconscientemente, num mudo amor pelo campo lamacento em que pisavam, de olhosapertados na concentração das suas mentes. Por fim, para-ram para tomar fôlego, deixaram que a discussão se refugiasse no limbo de outras boas discussões passadas e, debruçando-se numa porteira, abriram os olhos, pela primeira vez, para ver em derredor. Seus pés formigavam de sangue quente e seu hálito subia como um vapor em tornodeles. O exercício físico tornara ambos mais diretos e me-nos tolhidos do que de hábito, e Mary, na verdade, deixarase tomar de uma espécie de exultação. Para ela, pouco importava o que viesse a acontecer. Importava tão pouco, quese sentiu a ponto de dizer a Ralph:
– Eu o amo; nunca vou amar ninguém mais. Case comigo ou deixe-me; pense o que quiser de mim. Não me importo.
De momento, porém, discurso ou silêncio pareciam irrelevantes, e apenas bateu as mãos uma na outra e olhou as florestas distantes, com o toque de ferrugem na folhagem escura, e a paisagem verde-azul, através do seu próprio bafo. Parecia apenas uma questão de cara ou coroa dizer “eu o amo” ou “amo as faias” ou, simplesmente, “eu amo, amo”.
– Sabe, Mary – disse Ralph, de súbito, interrompendoa, –, tomei uma decisão. A indiferença dela devia ser superficial, pois desapareceu de imediato. Na verdade, perdeu de vista as árvores, e viu só a própria mão na travessa superior da porteira com uma nitidez extrema, enquanto ele prosseguia:
– Decidi abandonar meu trabalho e vir morar aqui.Quero que me fale desse cottage que mencionou outro dia.Suponho que não haverá dificuldade de arranjar um? Ou haverá? – Falou em tom casual, como se esperasse que o dissuadisse. Ela esperou um pouco mais,a ver se continuava.Estava convencida de que, por um rodeio embora, ele chegaria ao assunto do casamento deles.
– Já não suporto o escritório – prosseguiu. – Não sei o que dirá minha família; mas estou certo de que tenho razão. Você não acha? – Viver aqui sozinho?
– Alguma velha cuidará de mim, penso. Estou farto detudo – continuou, e abriu a porteira com um repelão.Começaram, então, a cruzar o campo seguinte, lado a lado.
– Eu lhe digo, Mary, é pura destruição, trabalhar sem trégua, dia após dia, em coisas que não importam nada para ninguém. Agüentei oito anos, não vou agüentar mais.Suponho que para você tudo pareça loucura.
Mary, a essa altura, já recobrara seu autodomínio.
– Não. Eu sabia que você não estava feliz.
– Como sabia? – perguntou ele, com alguma surpresa.
– Você não se lembra daquela manhã, em Lincoln’s Inn Fields?
– Sim – disse Ralph, diminuindo o passo e pensando em Katharine e no noivado dela, nas folhas cor de púrpura esmagadas contra o chão, no papel branco, radiante à luz do poste, e na inanidade que a tudo parecia cercar.
– Você tem razão, Mary – disse com algum esforço –,embora eu não saiba como adivinhou. Ela permaneceu calada, esperando que ele falasse do motivo da sua infelicidade, uma vez que suas desculpas não a haviam enganado.
– Eu estava infeliz, muito infeliz – repetiu. Seis semanas já o separavam daquela tarde em que estivera sentado no Embankment vendo suas fantasias dissiparem-se na névoa, enquanto as águas passavam por ele, e a lembrança da sua desolação dava-lhe, ainda, arrepios. Não se recuperara daquela depressão, longe disso. E aí estava uma oportunidade de enfrentá-la, como sentia que devia fazer;porque, sem dúvida, a esse tempo, já não passaria de um simples fantasma sentimental, que melhor seria exorcizar pela exposição impiedosa a um olhar como o de Mary, do que deixar que ficasse assim, oculto mas subjacente a todos os seus atos e pensamentos, como acontecia desde que vira Katharine Hilbery servir chá. Tinha de começar,por mencionar seu nome, coisa que ainda julgava acima de suas forças. Persuadiu-se de que poderia fazer uma declaração honesta sem mencionar o nome dela; persuadiuse de que o que sentia pouco tinha a ver com ela.
– A infelicidade é um estado de espírito – começou – e com isso quero dizer que não é a resultante necessária de uma causa específica. – Essa introdução artificial não lhe agradou, e ficou mais óbvio para ele que, dissesse o que dissesse, sua infelicidade fora causada diretamente por Katharine.
Comecei a achar minha vida insatisfatória – começou de novo. – Parecia-me sem sentido. – Fez outra pausa,mas sentiu que isso, pelo menos, era verdade, e que poderia continuar nesse tom:
Todo esse fazer dinheiro e trabalhar dez horas por dia num escritório, e para quê? Quando a gente é um menino, veja você, tem a cabeça tão cheia de sonhos que não importa o que faça. E se a gente é ambiciosa, está certa.Há que ter um motivo para fazer as coisas. Agora: os meus deixaram de satisfazer-me. Talvez nunca tivesse nenhum motivo. O que é muito possível, agora que penso nisso.(Que motivo existe, afinal, para qualquer coisa?) Todavia,é impossível, depois de certa idade, enganar-se a si próprio satisfatoriamente. Sei hoje o que me levou avante – uma boa razão lhe tinha agora ocorrido –, queria ser o salvador da minha família, e toda essa espécie de coisa.Queria que meus irmãos vencessem na vida. (Isso era mentira, naturalmente, e uma espécie de autoglorificação também.) Como muita gente, acho, vivi quase inteiramente de ilusões, e agora estou na fase embaraçosa de descobrir que foi assim mesmo. Quero outra ilusão para poder continuar. E é nisso que consiste a minha infelicidade, Mary.
Duas razões mantiveram Mary inteiramente silenciosa durante todo esse discurso, e riscaram vincos curiosamente retos no seu rosto. Em primeiro lugar, Ralph não mencionou casamento; em segundo, não dizia a verdade.
– Não é difícil encontrar um cottage – disse, ignorando o relato. – Você tem algum dinheiro, não? Sim – concluiu –,não vejo por que não seria um excelente plano.Atravessaram o campo em completo silêncio. Ralph ficara surpreso com a observação dela, e um pouco magoado, mas, de modo geral, bastante satisfeito. Convencerase de que seria impossível expor seu caso honestamente a Mary e, secretamente, sentia alívio por não lhe ter confiado seu sonho. Ela era, afinal, como sempre a considerara,uma amiga sensata e leal, a mulher com quem contava,com quem podia contar, desde que se mantivesse dentro de certos limites. Não lhe desagradava verificar que esses limites estavam claramente marcados. Quando passaram a sebe seguinte, ela lhe disse:
– Sim, Ralph, é tempo de parar, mudar. Cheguei à mesma conclusão. Só que para mim não será um cottage no campo, mas a América. A América! – exclamou –, esse é o lugar para mim! Lá me ensinarão alguma coisa sobre a organização de um movimento e voltarei e mostrarei como se faz.
Se quisera, consciente ou inconscientemente, reduzir a importância da reclusão e segurança representadas por um cottage no campo, não o conseguiu, porque a determinação de Ralph era genuína; conseguiu, porém, que ele a visse no seu papel; e a tal ponto, que Ralph olhou surpreso para ela, que avançava agora um pouco à sua frente,pelo campo arado; pela primeira vez nessa manhã, via-a independentemente dele mesmo, ou da sua obsessão por Katharine.Pareceu vê-la marchar à frente,uma figura um pouco desajeitada mas forte e autônoma; e a coragem dela impunha-lhe respeito.
– Não vá embora, Mary! – exclamou, e deteve-se.
Foi o que você já disse uma vez, Ralph – respondeu,sem se voltar. – Você quer ir embora e não quer que eu vá.Não é muito razoável, ou é?
Mary! – gritou, tomando consciência, com um choque, da maneira exigente e ditatorial com que a tratava –,que bruto tenho sido com você!
Ela precisou de todo o seu controle para conter as lágrimas e para não responder que estava disposta a perdoálo até o Dia do Juízo, se assim ele quisesse. Foi impedidade fazê-lo por uma espécie de teimoso respeito por si mesma, que jazia na raiz da sua natureza, e que lhe proibiarender-se, mesmo em momentos de avassaladora paixão.Agora, quando tudo era tempestade e ondas agitadas, sabia de uma terra onde o sol ainda brilhava sobre pilhas de gramáticas da língua italiana e pastas de papéis arquivados. Não obstante, do palor de esqueleto dessa terra e dasrochas que pontilhavam a sua superfície, sabia que sua vidapor lá seria dura e solitária, a ponto, quase, de não podersuportá-la. Marchou firme, um pouco à frente dele, pelocampo lavrado. Seu caminho levou-os a bordejar uma floresta de árvores esguias, à margem de uma dobra profundado terreno. Olhando por entre os troncos das árvores,Ralph viu no prado, inteiramente plano e de verdura admirável, que ocupava o fundo do vale, uma pequena casasenhorial, que tinha à frente espelhos d’água, terraços, ecercas vivas aparadas. Do lado, havia um edifício qualquerde fazenda e, atrás, uma cortina de abetos, tudo perfeitamente bem abrigado e auto-suficiente. Atrás da casa, acolina continuava a subir, e as árvores do topo erguiam-sehirtas contra o céu, que pareciam de um azul mais intenso entre os seus troncos. Seu pensamento encheu-se imediatamente da presença real de Katharine; a casa gris e o intenso azul do céu deram-lhe a impressão nítida de que elase encontrava nas proximidades. Encostou-se a uma árvore e, num sopro, articulou seu nome:
– Katharine, Katharine – disse, em voz alta; e, então, voltando-se, viu Mary, que se afastava lentamente, arrancando de passagem um longo ramo de hera que pendia dasárvores. Parecia tão diversa da visão que abrigava na mente,que retornou a esta, com um gesto de impaciência.
– Katharine, Katharine – repetiu, e sentiu que estava com ela. Perdeu, então, a consciência de tudo o que o rodeava; todas as coisas substanciais, a hora do dia, o que fizera e estava em vias de fazer, a presença de outras pessoas e a tranqüilidade que a gente sente ao ver a crença delas numa realidade comum. Tudo isso lhe fugiu. Assim deveria sentir-se se a terra tivesse sumido debaixo dos seus pés, e o vazio azul o envolvesse por todos os lados, e se o ar se tivesse saturado inteiramente da presença de uma mulher. Acordou-o o chilreio de um tordo no galho,acima de sua cabeça, e esse despertar foi acompanhado de um suspiro. Aí estava de volta o mundo em que tinha de viver; aí estavam o campo amanhado, a estrada real distante, e Mary arrancando hera das árvores. Ao alcançá-la,passou o braço pelo seu e disse:
– Então, Mary, que história é essa de América?
Havia uma solicitude fraternal na sua voz, que a ela pareceu até magnânima, quando refletiu que abreviara as explicações dele e mostrara pouco interesse na sua mudança de planos. Disse-lhe então das razões que tinha para achar que poderia tirar proveito da viagem, omitindo apenas a razão que pusera todas as outras em movimento.Ele ouviu atentamente e não fez qualquer tentativa de dissuadi-la. Na verdade, sentia-se curiosamente empenhado em assegurar-se do bom senso dela, e recebia cada nova prova disso com satisfação, como se isso o ajudasse de certo modo a formar opinião sobre outra coisa.Mary esqueceu a mágoa que ele causara e, em vez dela,tomou consciência de um bem-estar profundo que começava a fluir em si e que se harmonizava admiravelmente com a batida surda dos pés deles dois na estrada seca, e com o apoio do braço de Ralph. O conforto que sentia era ainda mais vivo por parecer o prêmio da sua determinação de comportar-se com simplicidade para com ele, sem ten-tar ser pessoa diferente do que era. Ao invés de fingir interesse pelos poetas, evitava-os instintivamente, e insistia na natureza prática dos seus próprios predicados.
Pediu-lhe detalhes do cottage que mal tinha ainda em mente e corrigiu, pragmática, a imprecisão dele:
– Você tem de assegurar-se da existência de água – insistiu, exagerando o interesse. Evitava perguntar-lhe o que pretendia fazer no dito cottage; por fim, esmiuçados tanto quanto possível todos os pormenores, ele a recompensou com uma declaração mais pessoal:
– Um dos quartos tem de ser meu estúdio. Porque, você sabe, Mary, pretendo escrever um livro – aqui tirou o braçodo braço dela, acendeu o cachimbo, e prosseguiram, numaforma de camaradagem inteligente, a mais completa quehaviam alcançado em todo o tempo da sua amizade.
E sobre que será o livro? – perguntou ela, tão francamente como se jamais tivesse brigado com Ralph ao discutirem livros. Ele lhe contou, sem rebuços, que pretendia escrever uma história da aldeia inglesa desde o tempo dossaxões até o presente. Tal plano estava assentado na suacabeça há muitos anos. E agora que se dispunha a executála, decidira, num átimo, deixar o emprego, e a semente se desenvolvera no espaço de vinte minutos, tornando-seplanta alta e viçosa. Surpreendia-se, ele mesmo, com a maneira decidida como falava. Ocorria o mesmo com a questão do cottage. Isso também viera à luz do modo menos romântico – uma casa quadrada, branca, um pouco fora daestrada, com um vizinho que engordava porco e tinha umadúzia de crianças gritadeiras. Pois, no seu pensamento, esses planos estavam livres de todo ranço de romantismo; e oprazer que tirava de pensar neles era contido tão logo ultrapassava determinados limites. Assim, um homem razoávelque houvesse perdido sua oportunidade de ganhar umabela herança, pisaria os estreitos limites da sua presente morada, repetindo com os seus botões que a vida é suportável dentro dos próprios domínios, desde que se cultivemrepolhos e rabanetes, e não melões e romãs. Certamente,Ralph sentia certo orgulho dos recursos da sua inteligência,e a confiança que Mary lhe tinha ajudava-o a aprumar-se,embora imperceptivelmente. Ela enrolou o galho de heraem volta do seu bastão de freixo e, pela primeira vez em muitos dias, quando a sós com Ralph, não pôs sentinelasaos próprios motivos, ditos e sentimentos: entregou-se auma plenitude de felicidade.
Assim, conversando, com pausas naturais de silêncio, e algumas outras pausas, para apreciar a vista por cima dassebes e decidir sobre a espécie de um pássaro pequeno,cinza-acastanhado, que se esgueirava entre galhos secos,entraram em Lincoln, e depois de percorrerem para cima e para baixo a rua principal, escolheram uma estalagemcujo janelão abaulado prometia um menu substancial. Enão se enganaram. Havia mais de cento e cinqüenta anosque pernis, batatas, legumes e pudins de maçã eram servidos ali a gerações de senhores rurais; e agora, sentados nareentrância do janelão, Ralph e Mary partilhavam dessafesta perene. A meio da refeição, olhando por cima do per-nil que tinham encomendado, Mary ficou a imaginar sejamais Ralph se pareceria às outras pessoas do salão. Seriaabsorvido nesse mar de caras redondas, cor-de-rosa, espetadas por pequenas cerdas brancas das barbas por fazer, aspanturrilhas apertadas em couro lustroso, e os ternos dexadrezinho preto e branco, caras salpicadas, aqui e ali, no recinto, com eles? Queria crer que sim, pensava que eraapenas na mentalidade que Ralph diferia deles. Não lhedesejava que fosse diferente dos outros. A caminhada emprestara-lhe uma tez tirante a vermelho, e seus olhosbrilhavam de uma luz honesta, firme, que não faria o maissimples fazendeiro sentir-se constrangido, nem sugeririaao mais devoto dos clérigos uma disposição de zombar dasua fé. Ela gostava do aclive escarpado da fronte dele, ecomparava-o ao cenho de um jovem cavaleiro grego, que sofreia a montaria com tal força, que ela parece a meioempinada nas patas traseiras. Ralph sempre lhe pareceraum cavaleiro numa montaria árdega. E havia uma certaexaltação em estar com ele, pelo risco permanente de que não soubesse manter o passo correto entre as outras pessoas. Sentada à sua frente, a essa pequena mesa da janela,voltou a sentir aquele estado de descuidos a excitação quea tomara no caminho, junto à porteira, mas que era agoraacompanhado de uma sensação de segurança e de sanidade, pois sentia que partilhavam um sentimento comumque mal precisava ser posto em palavras. Como ele eracalado! Com a fronte apoiada na mão, de tempos em tempos, ou a olhar de novo, grave e atento, as costas de doishomens na mesa próxima, com tão pouca consciência de simesmo que ela poderia, quase, acompanhar o trabalho dasua mente a colocar um pensamento solidamente em cimade outro; pensava que podia senti-la pensar, através dacortina dos dedos, e antecipar o exato momento em queterminaria um pensamento, voltar-se-ia um pouco na cadeira e diria: “Bem, Mary”, convidando-a a retomar o fiodo pensamento onde o tinham interrompido.
Nesse exato momento, ele se virou e disse:
– Bem, Mary – com aquela curiosa nota de hesitação que tanto amava nele.
Ela riu, desculpando o riso, impulso do momento, com pessoas que passavam embaixo, na rua. Havia um automóvel com uma velha senhora toda envolta em véus azuis, e uma acompanhante no assento fronteira, que segurava um spaniel, um King Charles spaniel; havia uma camponesa, que empurrava um carrinho de bebê, cheio de gravetos pelo meio da rua. Havia um meirinho de polainas a discutir o estado do mercado de gado com um ministro dissidente – ou assim ela os definiu.
Desfiou essa lista sem o menor receio de que seu companheiro a julgasse trivial. Na verdade, fosse pelo calor da sala e pelo bom rosbife, fosse porque Ralph chegara ao fim do processo que é chamado de tomada de decisão, certamente deixara de testar o bom senso, a independência de caráter ou a inteligência que as observações dela revelavam. Ele estivera a erigir uma daquelas pilhas de pensamentos, tão frágeis e fantásticas como um pagode chinês, em parte com palavras soltas que os homens de botinas de elástico haviam deixado cair, em parte com fragmentos desordenados da sua própria mente, sobre caça aos patos e história do direito, sobre a ocupação romana de Lincoln e as relações dos senhores rurais com suas mulheres. E eis que em meio a toda essa divagação incoerente tomou corpo no seu cérebro a idéia de pedir a mão de Mary. A idéia era tão espontânea, que pareceu tomar forma por si mesma diante dos seus olhos. Foi então que ele se virou e fez uso da velha, instintiva, frase:
– Bem, Mary...
A idéia, tal como se lhe apresentou, assim, de primeira mão, tinha tal frescor e era tão interessante que se sentiu inclinado a propô-la, sem mais, à própria Mary. Prevaleceu, todavia, o seu natural instinto de dividir os pensamentos cuidadosamente em duas categorias diversas antes de expressá-los. Mas, ao vê-la a olhar pela janela, a descrever a velha senhora, a mulher do carrinho, o meirinho e o ministro dissidente, seus olhos se encheram, involuntariamente, de lágrimas. Teria querido descansar a cabeça no ombro de Mary e soluçar, enquanto ela ficaria a partir seus cabelos com os dedos e o consolaria, dizendo:
– Vamos, vamos, não chore! Diga-me por que está chorando...– E então eles se abraçariam apertado,e os braços dela o prenderiam como os de sua mãe. Sentiu que era terrivelmente só e que tinha medo das outras pessoas na sala.
Como é abominável tudo isso! – exclamou abruptamente.
– De que está falando? – perguntou ela, um tanto vagamente, e ainda a olhar pela janela.
Ele se ressentiu dessa atenção dividida, mais talvez do que se deu conta. E pensou que Mary estaria em breve a caminho dos Estados Unidos.
– Mary – disse –, quero falar com você. Já não terminamos? Por que não removem esses pratos? Mary sentiu o nervosismo dele sem mesmo encará-lo;estava certa de saber o que ele queria dizer-lhe.
– Os garçons virão oportunamente – disse; e sentiu que era preciso demonstrar a sua perfeita calma, o que fez levantando um saleiro e varrendo um pequeno amontoado de migalhas de pão.
– Quero pedir-lhe desculpas – continuou Ralph, sem saber muito bem o que ia dizer, mas sentindo que um estranho instinto o impelia a engajar-se irrevogavelmente, anão deixar que esse momento de intimidade passasse.
– Penso que tratei você muito mal. Isto é, que lhe disse mentiras. Você percebeu que lhe mentia? Uma vez em Lincoln’s Inn Fields e outra vez hoje, durante nosso passeio. Sou um mentiroso, Mary. Sabia disso? Você acha que me conhece?
– Acho que sim.Nesse momento, o garçom chegou para mudar os pratos.
– É verdade que não quero que você vá para a Américadisse ele, olhando fixamente a toalha de mesa. – Na verdade, meus sentimentos com relação a você parecemcompleta e totalmente ruins – disse com energia, embora procurasse manter a voz baixa. – Se eu não fora um animal egoísta lhe diria que se afastasse de mim.Todavia,Mary, a despeito do fato de crer no que estou dizendo,também creio que é bom que nos conheçamos, sendo omundo o que é, você vê – e com um gesto de cabeça mostrou os outros ocupantes da sala –, porque, naturalmente, num estado de coisas ideal, numa comunidade decente, até, não há dúvida de que você não deviater nada a ver com uma pessoa como eu, seriamente,quero dizer.
– Você se esquece de que também não sou um caráter ideal – disse Mary, no mesmo tom velado e fervoroso que,embora quase inaudível, envolvia a mesa numa atmosfera de concentração quase perceptível para os outros comensais, que os olhavam de quando em quando, com um misto de simpatia, caçoada e curiosidade.Continuou:
– Sou muito mais egoísta do que deixo perceber,Ralph;um pouco materialista também, mais do que você pensa,pelo menos. Gosto de governar as coisas, talvez seja esse o meu maior defeito. Não tenho nada da sua paixão pela... hesitou e olhou para ele como que a verificar qual o alvo dessa paixão... pela verdade – concluiu, como se tivesse encontrado a palavra que queria, sem discussão possível.
– Eu já lhe disse que não passo de um mentiroso – repetiu Ralph, obstinadamente.
– Oh, em pequenas coisas talvez – disse ela, impaciente. – Mas não nas coisas reais, e é isso o que importa. Talvez eu seja muito mais verídica do que você naspequenas coisas. Mas eu nunca amaria – estava surpresa de se ver a proferir tal palavra e teve de fazer umesforço para que saísse –, eu nunca amaria uma pessoamentirosa. Amo a verdade até certo ponto, embora nãoda maneira como você a ama. – A voz dela sumiu, tomou-se inaudível, tremeu, como se mal pudesse conteras lágrimas.
– Céus! – exclamou Ralph, consigo mesmo. – Ela me ama! Como foi que nunca percebi? Ela vai chorar; não;mas não pode falar.
A certeza o cumulou de tal modo que mal sabia o que estava fazendo; o sangue subiu-lhe às faces, e embora estivesse praticamente decidido a pedir a Mary que casasse com ele, a descoberta de que ela o amava pareceu mudar a situação tão completamente, que não pôde mais fazê-lo.Não ousou sequer olhar para ela. Se chorasse mesmo, ele não saberia o que fazer. Parecia-lhe que algo de natureza terrível, devastadora, acontecera. O garçom trocou-lhes os pratos uma vez mais.
Na sua agitação, Ralph levantou-se, voltou as costas a Mary e olhou pela janela. As pessoas na rua pareceramlhe apenas um desenho formado de partículas negras que se combinavam e dissolviam; e que, no momento, representavam muito bem a involuntária seqüência de sentimentos e pensamentos que se formavam e dissolviam em rápida sucessão na própria cabeça. Em um momento exultava no pensamento de que Mary o amava; no seguinte, parecia-lhe não sentir nada por ela; o amor que ela lhe tinha, era-lhe repulsivo. Agora, queria urgentemente casar com ela; e logo vinha o desejo de desaparecer e nunca mais vê-la. A fim de controlar essa corrida desordenada de pensamentos, forçou-se a ler o nome do farmacêutico diretamente à sua frente; depois, a examinar os objetos nas vitrines das lojas, e então a focalizar os olhos exatamente num pequeno grupo de mulheres que olhavam as largas vitrines de uma grande loja de fazendas.Tendo obtido com essa disciplina pelo menos um domínio superficial de si mesmo, estava prestes a virar-se para pedir a conta ao garçom quando seu olho foi atraído por uma figura alta que caminhava rapidamente pela calçada oposta – uma figura direita, morena e sobranceira, inteiramente destacada do ambiente em torno. Carregava as luvas na mão esquerda, que estava nua. Tudo isso Ralph notou e enumerou e reconheceu antes que pudesse pôr um nome ao conjunto – Katharine Hilbery. Parecia procurar por alguém. Seus olhos, na verdade, esquadrinhavam os dois lados da rua e, por um segundo, ergueram-se diretamente para a janela em que Ralph se encontrava; mas ela olhou imediatamente para outro lado, sem qualquer mostra de havê-lo visto. Essa súbita aparição surtiu efeito extraordinário sobre ele. Não era como se a tivesse visto, em carne e osso, andando na rua; mas como se, à força de pensar nela, sua mente tivesse projetado a sua imagem. E, embora não estivesse absolutamente a pensar nela, a impressão fora tão vívida que não poderia ignorá-la, nem também saber se a vira efetivamente, ou apenas imaginara vê-la.Sentou-se imediatamente e disse, de maneira breve e estranha, mais para si mesmo do que para Mary:
– Era Katharine Hilbery.
– Katharine Hilbery! – pensou Mary, num instante de cegante revelação. – Eu sempre soube que era Katharine Hilbery! – Ela sabia tudo agora.
– Katharine Hilbery. Mas já se foi.
– Katharine Hilbery? O que quer dizer? – perguntou ela.
Depois de um momento de estupor, levantou os olhos,olhou firmemente para Ralph, e captou seu olhar fixo e sonhador, dirigido para um ponto além de tudo o que os circundava, para um ponto que ela nunca alcançara em todo o tempo que o conhecia. Observou os lábios, apenas entreabertos, os dedos molemente fechados, toda a atitude de extasiada contemplação, que caía como um véu entre os dois; houvera outros sinais da sua completa alienação, e ela os teria descoberto também, pois sentia que só pela superposição de uma verdade por cima da outra poderia conservar-se sentada ali, direita na sua cadeira. A própria verdade parecia sustentá-la. Impressionou-a que,mesmo ao olhar o rosto dele, a luz da verdade brilhava muito longe e para além dele; a luz da verdade, e ela pare-cia formular as palavras enquanto se levantava para sair; a luz da verdade brilha num mundo que os nossos desastres pessoais não conseguem abalar.
Ralph passou-lhe o casaco e a bengala. Ela os tomou,ajustou o casaco com segurança, apertou a bengala firme na mão. O galho de hera ainda estava enrolado no cabo;esse sacrifício, pensou, ela poderia fazê-lo à sentimentalidade e à personalidade, e apanhando duas folhas de hera guardou-as no bolso, antes de livrar a bengala do resto da trepadeira. Segurou-a, então, pelo meio, arranjou o gorro de pele bem justo na cabeça, como se tivesse pela frente uma caminhada longa e tempestuosa. Em seguida, de pé no meio da rua, puxou uma tira de papel da bolsa e leu alto uma lista de encomendas que lhe tinham feito; frutas, manteiga, barbante etc. E todo o tempo, não se dirigiu a Ralph nem olhou para ele.
Ralph ouviu-a dar ordens a homens atentos, corados,de aventais brancos; e a despeito da sua própria preocupação, disse alguma coisa sobre a firmeza com que ela tornava seus desejos conhecidos. Uma vez mais se pôs a fazer um levantamento das suas características. Assim de pé,superficialmente atento, mexendo meditativamente na serragem do chão com a ponta da bota, foi despertado por uma voz musical e familiar por detrás dele, acompanhada por um leve toque no seu ombro:
– Não estarei enganada? Certamente Mr. Denham? Vide relance um sobretudo pela janela, e fiquei certa de que era o senhor. Terá visto Katharine ou William? Estou andando sem muita direção por Lincoln a fim de ver as ruínas.
Era Mrs. Hilbery. Sua entrada criou algum tumulto na loja; muitas pessoas voltaram-se para vê-la.
– Em primeiro lugar, diga-me onde estou – pediu ela.Mas percebendo o atencioso dono do estabelecimento,apelou para ele. – As ruínas, meu grupo me espera nas ruínas.As ruínas romanas.Ou serão gregas,Mr.Denham? A cidade tem muitas coisas belas, mas desejaria que não tivesse tantas ruínas. Nunca vi potezinhos de mel mais encantadores na minha vida, são feitos pelas próprias abelhas? Por favor, dê-me um desses potezinhos, e diga-me como encontrar o caminho das ruínas.
– E agora – disse, depois de receber a informação e o mel, de ser apresentada a Mary, e de insistir em que eles a acompanhassem às ruínas, uma vez que numa cidade com tantas voltas, tantos panoramas, tão adoráveis meninos seminus brincando nos tanques, tantos canais de Veneza,tão velha porcelana azul nos antiquários, era impossível a uma pessoa sozinha achar o caminho das ruínas. – Agora exclamou – por favor diga-me o que está fazendo aqui,Mr. Denham. Porque o senhor é Mr. Denham, pois não? inquiriu, fixando-o com uma súbita suspeita da própria acuidade. – O brilhante jovem que escreve para Review, quero dizer? Ainda ontem, meu marido me dizia que o senhor é um dos jovens mais inteligentes que ele conhece. Certamente que para mim o senhor foi um enviado da Providência, pois se não o tivesse encontrado, jamais encontraria o caminho das ruínas.
Tinham chegado ao arco romano quando Mrs.Hilbery avistou os do seu próprio grupo, postados como sentinelas a olhar para cima e para baixo da estrada com a intenção de interceptá-la , se, como imaginavam, ela se tivesse enfiado em alguma loja.
– Encontrei algo muito melhor que ruínas! – exclamou ela. – Encontrei dois amigos que me disseram como achá-la s, coisa que eu nunca teria sido capaz de fazer sem eles. Têm de vir conosco tomar chá. Que pena que almoçamos há pouco! Não lhes seria possível, de algum modo,revogar essa refeição? Katharine, que se adiantara de alguns passos, sozinha,estrada abaixo e que investigava a vitrine de um negociante de ferragens, como se sua mãe pudesse estar escondida entre máquinas de cortar grama e tesouras de jardinagem, voltou-se abruptamente ao ouvir-lhe a voz, e veio em direção a eles. Estava grandemente surpresa de ver Denham e Mary Datchet. E quer a cordialidade com que os saudou tenha sido a cordialidade natural a um encontro inesperado no campo, quer estivesse realmente alegre em vê-los, o certo é que exclamou com um prazer incomum,ao apertar-lhe as mãos:
– Não sabia que você vivia aqui. Por que não me disse,para que nos pudéssemos encontrar? E você, está hospedado com Mary? – continuou, voltando-se para Ralph. – Que pena que não nos vimos antes.
Assim confrontado,a uma distância de poucos passos,pelo corpo real da mulher com que sonhara milhões de sonhos, Ralph gaguejou; apelou para o seu autodomínio;a cor lhe vinha às faces ou as deixava, não sabia bem o quê; mas estava decidido a enfrentá-la e descobrir, à crua luz do dia, qualquer vestígio de verdade que pudesse haver nas suas persistentes fantasias. Não conseguiu dizer uma só palavra. Foi Mary quem falou pelos dois. Ele ficara mudo ao descobrir que Katharine era muito diferente,e de muitas maneiras estranhas, da sua memória dela; e a tal ponto, que teve de rejeitar a antiga imagem a fim de aceitar a nova. O vento batia contra o rosto dela o lenço de pescoço carmesim, e já lhe soltara quase o cabelo; uma mecha cobria, em bandó, o canto de um dos grandes olhos escuros que (costumava ele pensar) pareciam sempre tristes; pois brilhavam agora, como brilha o mar tocado por um raio de sol; tudo em torno dela parecia veloz, fragmentário, tocado de uma rapidez de corrida. Lembrou-se de que nunca a vira à luz do dia.
Entrementes, decidira-se que era tarde demais para sair em busca de ruínas, como haviam pretendido. E todo o grupo começou a caminhar na direção dos estábulos,onde fora deixada a carruagem.
– Sabe? – disse Katharine, conservando-se ligeiramente à frente dos outros, com Ralph. – Pensei havê-lo visto esta manhã, de pé a uma janela. Mas decidi que não poderia ser você. E deve ter sido você o tempo todo.
– Sim, também pensei havê-la visto. Mas não era você.Essa observação, e a nota rouca de tensão na voz dele, trouxeram à memória de Katharine tantos discursos difíceis e encontros abordados, que ela se viu transportada violentamente de volta ao salão de Londres, às relíquias de família, e à mesa do chá; ao mesmo tempo, recordou alguma observação inacabada ou interrompida, que quisera ouvir dele ou fazer-lhe – já não sabia mais o quê.
– Deve ter sido eu – disse. – Procurava minha mãe. Acontece sempre que a gente vem a Lincoln. Na verdade,nunca houve família mais incapaz de tomar conta de si mesma do que a nossa. Não que isso tenha muita importância, porque sempre aparece alguém no momento crítico para nos ajudar a sair das nossas enrascadas. Uma vez deixaram-me numa campina com um touro, quando eu era um bebê; mas onde teremos posto o coche? Naquela rua ou na próxima? Na próxima, acho. – Ela olhou para trás e viu que os outros os acompanhavam, obedientes,escutando as histórias de Lincoln que Mrs. Hilbery se pusera a contar.
– Mas que está fazendo aqui? – perguntou.
– Estou comprando um cottage. Vou viver aqui, logo que consiga a casa. Mary diz que não haverá dificuldade.
– Mas – exclamou ela – você deixará a advocacia, então? – Passou-lhe pela mente, num relâmpago, que ele estaria noivo de Mary.
– O escritório de advocacia? Sim. Estou deixando isso.
– Mas por quê? – perguntou ela, e respondeu a si mesma, imediatamente, com uma curiosa mudança de tom; o rápido discurso tomou um acento quase melancólico:
– Penso que faz muito bem. Será muito mais feliz.Nesse exato momento, quando as palavras dela pareciam abrir um caminho para ele no futuro, entraram no pátio da hospedaria, e lá estava o coche dos Otways, ao qual um luzidio cavalo já fora atrelado, enquanto um segundo saía pela porta do estábulo puxado pelo cavalariço.
– Não sei o que as pessoas querem dizer com ‘felicidade’– disse Ralph sucintamente,e teve de desviar-se de um empregado com um balde. – Por que pensa que eu serei feliz? Não conto com coisa nenhuma dessa espécie.Espero, ao contrário, ser apenas menos infeliz. Escreverei um livro e me enfurecerei com a caseira – se é que a felicidade consiste nisso. O que acha?
Ela não pôde responder porque foram imediatamente cercados pelos outros membros do grupo, Mrs. Hilbery e Mary, Henry Otway e William.
Rodney dirigiu-se imediatamente para Katharine:
– Henry vai com sua mãe para casa, no carro. Sugeri que nos deixem, aos dois, a meio caminho. Faremos o res-to da estrada a pé.Katharine assentiu de cabeça. Olhava-o com uma expressão estranha, furtiva.
– Desgraçadamente, vamos em direções opostas, ou poderíamos dar-lhes condução – continuou, dirigindo-se aDenham.Suas maneiras eram extraordinariamente peremptórias; parecia ansioso por apressar a partida, e Katharineolhava-o de espaço a espaço, como Denham percebeu, comuma expressão ao mesmo tempo de inquirição e de enfado.Ela ajudou a mãe a vestir o abrigo, e disse a Mary:
– Quero vê-la. Você volta logo para Londres? Eu lhe escreverei.
Sorriu a meio para Ralph, mas seu olhar parecia toldado por algo em que estivesse pensando e, em poucos minutos, o coche dos Otways saía do pátio e tomava a estrada real em direção a Lampsher.
A viagem de volta foi quase tão silenciosa quanto tinha sido a daquela manhã; na verdade, Mrs. Hilbery recostou-se, de olhos fechados, no seu canto, e dormiu ou fingiu dormir, como tinha o hábito de fazer nos intervalos entre sessões de ação vigorosa; ou continuou a história que começara a contar a si mesma na ida.
A cerca de duas milhas de Lampsher a estrada passava por um cabeço arredondado, que era o ponto mais alto da charneca; sítio solitário, marcado por um obelisco de granito, que uma grande dama do século XVIII mandara erigir como sinal de gratidão; fora assaltada ali por bandoleiros e salva da morte quando tudo parecia perdido.No verão, era lugar agradável, pois a espessa floresta murmurava de um lado e de outro do monumento, e as urzes, que cresciam, densas, em torno do pedestal, perfumavam docemente a brisa; no inverno, o suspirar das árvores aprofundava-se num som cavo, e a charneca era quase tão solitária quanto o céu varrido de nuvens acima dela.
Rodney fez parar aí o carro e ajudou Katharine a apear.Henry também deu-lhe a mão, e teve a impressão de queela a apertara ligeiramente ao partir, como se lhe transmitisse uma mensagem. A carruagem rolou imediatamente,sem acordar Mrs. Hilbery, e deixou o casal de pé junto aoobelisco. Que Rodney estivesse aborrecido com ela e tivesse criado essa oportunidade de falar-lhe a sós, Katharinenão tinha dúvida; não estava nem alegre nem pesarosa deque a hora tivesse chegado; também não sabia o que esperar e, por isso, permanecia em silêncio. A carruagem tornou-se cada vez menor na estrada poeirenta; assim mesmoRodney não falava. Talvez, pensou ela, esperasse até que o último sinal do coche desaparecesse na curva da estrada efossem deixados inteiramente sós. Para disfarçar o silêncio, Katharine leu a inscrição do obelisco, e para fazê-la teve de dar-lhe a volta completa. Murmurava uma palavra ou duasdo agradecimento da piedosa senhora, quando Rodney sereuniu a ela. Em silêncio, puseram-se a caminho, seguindo o rastro do carro, que costeava as árvores.
Quebrar o silêncio era exatamente o que Rodney que-ria, embora não o pudesse fazer a seu gosto. Em companhia, era infinitamente mais fácil abordar Katharine; só com ela, o seu alheamento e a força da sua personalidade neutralizavam todos os seus habituais métodos de ataque;acreditava que ela se portara muito mal com ele, mas cada instância separada parecia mesquinha demais para ser argüida, agora que se acham sozinhos.
– Não precisamos correr – queixou-se,por fim;imediatamente, ela diminuiu o passo, pondo-se, porém, a caminhar vagarosamente demais, na opinião dele. Em desespero, disse a primeira coisa que lhe passou pela cabeça,com a maior rabugice e sem o grave prelúdio com que pretendera começar:
– Não gostei das minhas férias.
– Não?
– Não. Terei prazer de voltar ao trabalho.
– Sábado, domingo, segunda – contou ela –, faltam só mais três dias.
– Ninguém gosta de ser feito de tolo diante de outras pessoas – deixou escapar, pois sua irritação crescia à medida que falava e superava o temor que tinha dela; acabou inflamando-se com esse temor.
– Isso se refere a fim, imagino – disse ela, calmamente.
– Cada dia que passamos aqui – continuou ele – você fez alguma coisa para que eu parecesse ridículo. Naturalmente, se isso a diverte, faça-o; mas cumpre lembrar que vamos passar nossas vidas juntos. Por exemplo: pedi-lheesta manhã que saísse a dar uma volta comigo no jardim.Esperei dez minutos por você, e você não veio. Todo mundo me viu esperando. Os cavalariços me viram. Fiquei tãoenvergonhado que entrei. Agora, na viagem, você mal faloucomigo. Henry notou. Todo mundo notou... Mas você nãotem dificuldade em falar com Henry.
Ela tomou nota dessas queixas e resolveu filosoficamente não responder a nenhuma, embora a última a irritasse bastante. Quis saber até onde ia o agravo.
– Nenhuma dessas coisas me parece importante – disse.
Muito bem, então. Posso refrear minha língua – replicou ele.
Em si mesmas, essas coisas não têm importância paramim; se o magoaram,é claro que têm importância – corrigiu-se, escrupulosamente. Seu tom de consideração comoveuo, e ele caminhou em silêncio algum tempo.
Poderemos ser tão felizes, Katharine! – exclamou impulsivamente, passando o braço no dela, que o retirou incontinente.
– Enquanto você se sentir assim não poderemos ser felizes – disse ela.
A dureza, que Henry notara, era outra vez indisfarçável.
Encontrara a mesma severidade, acompanhada por algo de indescritivelmente frio e impessoal na sua maneira, nos últimos dias, sempre em companhia de outros.Revidara por alguma ridícula exibição de vaidade que, sabia, punha-o ainda mais à mercê dela. Agora, a sós com Katharine, não havia estímulo de fora que desviasse sua atenção da injúria que ela lhe fazia. Por um esforço considerável de autodomínio, obrigou-se a permanecer calado e a distinguir, consigo mesmo, que porção da sua dor era devida à vaidade e que porção era parte da certeza de que nenhuma mulher verdadeiramente amorosa poderia falar-lhe assim.
“O que sinto com relação a Katharine?” pensou: Era claro que ela possuía uma figura distinta e altamente desejável, que era senhora da sua pequena seção do mundo;mais do que isso, porém, ela lhe parecia, dentre todas as pessoas, o árbitro da vida, a mulher cujo julgamento era naturalmente reto e firme, como o seu jamais fora, com toda a sua cultura. Além disso, não podia vê-la entrar num salão sem uma impressão de vestes flutuantes, de profusão de flores, de ondas roxas do mar, de todas as coisas que são belas e mutáveis na superfície, mas serenas e apaixonadas no íntimo.
“Se ela fosse insensível todo o tempo, e apenas me tivesse enganado para zombar de mim, não teria sentido o que sinto por ela. Não sou nenhum tolo, afinal de contas.Não me posso ter enganado todos esses anos. E, no entanto, quando ela fala assim comigo! A verdade é que tenho defeitos tão insuportáveis que ninguém pode deixar de falar assim comigo. Katharine tem toda razão. Mas esses não são os meus verdadeiros sentimentos, como ela sabe muito bem. Como posso mudar de natureza? O que faria que ela gostasse de mim?”
Nesse ponto, sentiu-se terrivelmente tentado a quebrar o silêncio, perguntando a Katharine em que sentido deveria mudar para agradar-lhe; ao invés disso, buscou consolação repetindo mentalmente a lista dos seus dotes e aptidões, seu domínio do grego e do latim, seus conhecimentos de arte e literatura, sua perícia no manejo da metrificação, e sua antiga ascendência do oeste do país.Mas o sentimento subjacente a tudo isso, aquele que o deixava perplexo e, agora, mudo, era a convicção de amar Katharine tão sinceramente quanto lhe era possível amar alguém. E, todavia, ela era capaz de lhe falar daquela maneira! Numa espécie de atordoamento, perdeu toda intenção de discutir o assunto, e teria aceito de boa vontade qualquer tópico de conversa proposto por Katharine. Mas ela não propôs nenhum.
Lançou-lhe um olhar, a ver se a sua expressão o ajudaria a compreender-lhe a atitude. Como de hábito, ela apertara o passo, inconscientemente, e caminhava agora um pouco à sua frente; William não conseguia extrair qualquer indicação dos seus olhos, fixos na charneca marrom, ou das severas rugas que lhe sulcavam a fronte.Perder contato, assim, com ela, pois não tinha idéia do que estaria pensando, era-lhe tão desagradável, que começou a enumerar de novo os seus motivos de queixa, sem,todavia, grande convicção na voz.
– Se você não sente nada por mim, não seria mais delicado dizer-me isso em particular?
– Oh, William – exclamou ela, com violência, como se ele tivesse interrompido uma seqüência de pensamento –,lá vem você de novo falar de sentimentos! Não seria melhor não falar tanto, não se preocupar o tempo todo com coisas pequenas sem a menor importância?
– Mas é essa a questão, precisamente – exclamou ele.
– Quero justamente ouvir de você que elas não têm importância. Há ocasiões em que você parece indiferente a tudo. Sou vaidoso, tenho mil defeitos; mas você sabe que eles não são tudo; você sabe que gosto de você.
– E se digo que gosto de você, não acredita?
– Diga, Katharine! Diga com toda a sua intenção! Faça-me sentir que você gosta de mim!
Ela não pôde obrigar-se a falar. A charneca ia sumindo em torno deles, e o horizonte já desaparecia por detrás de uma alva cortina de bruma. Exigir dela paixão era o mesmo que pedir línguas de fogo a essa paisagem encharcada,ou, a esse céu desmaiado, a intensa abóbada azul do mês de junho.
Ele continuou, falando-lhe do seu amor por ela empalavras que traziam o cunho da sinceridade, mesmopara o agudo senso crítico de Katharine; mas nenhumadelas a tocou, até que, chegando a um portão de gonzosenferrujados, ele o abriu com o ombro, sem deixar defalar, e sem dar-se conta do esforço feito. A virilidade dessa proeza impressionou-a; e, todavia, não costumavaemprestar qualquer valor ao poder de abrir portões. Arigor, a força dos músculos nada tinha a ver com a doafeto; não obstante, sentiu pena de que tal poder se perdesse por culpa sua, o que, combinado com o desejo de ser dona daquele atraente poder masculino, conseguiureerguê-la do seu torpor.
Por que não poderia dizer-lhe simplesmente a verdade que o aceitara num estado de espírito indistinto, quando nada tinha as justas proporções? Que isso era, sem dúvida,deplorável, mas que, depois de uma revisão mais lúcida,casamento era coisa fora de questão? Ela não queria casar com ninguém. Queria ir-se, solitária, de preferência para alguma charneca do norte, e aí entregar-se ao estudo da matemática e da astronomia. Vinte palavras bastariam para explicar-lhe toda a situação. Ele parara de falar; tinha-lhe dito mais uma vez o quanto a amava e por quê.Ela reuniu toda a sua coragem, fixou os olhos num freixo que o raio partira e, quase como se lesse um texto pregado àquele tronco, começou:
– Estava errada quando fiquei noiva de você. Nunca o farei feliz. Nunca o amei.
– Katharine! – protestou ele.
– Não, nunca – repetiu ela, obstinadamente. – Não daforma certa. Não vê que eu não sabia o que estava fazendo?
Você ama outro?
– Absolutamente ninguém.
– Henry? – perguntou ele.
– Henry? Eu deveria pensar, William, até você...
– Há alguém – persistiu ele. – Houve uma mudança nas últimas semanas. Você me deve isto; ser honesta comigo, Katharine.
– Seria, se pudesse.
– Por que me disse, então, que casaria comigo?
Por que, na verdade? Um momento de pessimismo,uma convicção súbita do inegável prosaísmo da vida, uma quebra da ilusão que mantém a juventude milagrosamente suspensa entre o céu e a terra, uma desesperada tentativa de reconciliar-se com os fatos? Ela podia apenas recordar um momento, o que fora como o despertar de um sonho, e que agora lhe parecia um momento de rendição.Mas quem poderia invocar razões como essas por ter feito o que ela fizera? Abanou a cabeça tristemente.
– Mas você não é uma criança, você não é uma mulher dada a depressões, a impulsos – persistiu Rodney. – Você não me poderia ter aceito se não me amasse! – gritou.
A íntima convicção de ter agido mal, que conseguira manter a distância pelo simples ardil de exagerar os defeitosde Rodney, envolveu-a então e quase a esmagou. Que eram os defeitos dele em comparação com o fato de que a amava?Num relance, a convicção de que não amar é o maior de todos os pecados estampou-se no mais fundo do seu espírito, eela se sentiu como que marcada a fogo para sempre.
Ele a tomara pelo braço, e tinha a mão dela presa com força na sua. Katharine, porém, não pensava em resistir ao que agora lhe parecia uma enorme superioridade física.Muito bem: submeter-se-ia, como sua mãe, sua tia e a maior parte das mulheres, talvez, se haviam submetido.Contudo, sentia que cada segundo dessa submissão à força dele era um segundo de traição.
– Eu disse que casaria com você, mas estava errada – obrigou-se a falar. E enrijeceu o braço, como que para anular a aparente submissão dessa parte independente do seu corpo. – Porque não o amo, William; você notou, todos notaram; porque devemos continuar fingindo?Quando disse que o amava, estava errada. Disse o que sabia não ser verdade.
Como nenhuma das suas palavras parecia-lhe adequada para transmitir o que sentia, ficava a repeti-las, e davalhes ênfase, sem pensar no efeito que poderiam exercer sobre um homem que gostava dela. Ficou completamente pasma quando seu braço foi largado de súbito; viu, depois, o rosto dele, estranhamente contorcido; chegou a pensar:estará rindo? Mas percebeu, um minuto após, que ele estava em lágrimas. Na sua total surpresa diante dessa visão,quedou atônita por um instante. E com uma noção desesperada de que cumpria pôr fim a esse horror a todo custo,pôs os braços em volta dele, apoiou a cabeça dele por um momento no seu ombro, e consolou-o murmurando palavras de conforto até que ele soltou um grande suspiro.Continuaram abraçados; as lágrimas dela também lhe rolavam pelas faces;ambos não disseram palavra.Percebendo a dificuldade com que ele andava, e sentindo a mesma extrema lassidão dos seus próprios membros, propôs que descansassem por um momento debaixo de um carvalho,onde havia samambaias secas e enfezadas. Rodney assentiu. Uma vez mais soltou um suspiro fundo e enxugou os olhos com uma inconsciência infantil; começou, depois, a falar sem um traço da cólera anterior.Ocorreu a Katharine a idéia de que eram como as crianças do conto de fadas,perdidas na floresta. Com isso em mente, observou todas as folhas mortas que o vento espalhara em torno e ajuntara aqui e ali, formando montes espessos.
– Quando você começou a sentir isso, Katharine? – perguntou ele. – Porque não é verdade dizer que sempre o sentiu. Admito que não fui razoável na primeira noite, quandodescobri que suas roupas tinham ficado para trás. No entanto, que erro há nisso? Prometi-lhe nunca mais meter-mecom seus vestidos. Admito que me zanguei quando a encontrei com Henry, no andar de cima. Talvez tenha mostradoisso muito abertamente. Mas também não é um absurdo, quando se está noivo. Pergunte a sua mãe. E agora essa coisaterrível...– Interrompeu-se,incapaz de prosseguir.– Essa decisão a que você diz ter chegado, discutiu-a com alguém?Com sua mãe, por exemplo, ou com Henry?
– Não, não, naturalmente que não – disse ela, remexendo nas folhas com a mão. – Mas você não me compreende, William...
– Ajude-me a compreendê-la.
– Você não entende, quero dizer, meus verdadeiros sentimentos; e como poderia entender? Eu mesma só agora os confronto. Mas não tenho essa espécie de sentimento, amor, quero dizer, não sei como você o chama – e olhou vagamente para o horizonte, ainda escondido pela cerração –; de qualquer maneira, sem isso, nosso casamento seria uma farsa...
– Como uma farsa? Essa espécie de análise é desastrosa! – exclamou.
– Eu deveria ter feito isso antes – disse ela, sombriamente.
Você se obriga a pensar coisas que na verdade não pensa – continuou ele, gesticulando, como era de seu feitio.Creia-me, Katharine, antes que viéssemos ter aqui, éramosperfeitamente felizes.Você estava cheia de planos para nossacasa, os forros das poltronas, lembra-se? Como qualquer outra mulher em vias de casar-se. Agora, por motivo nenhum,começa a atormentar-se com os seus próprios sentimentos,com os meus, e o resultado é o de sempre. Asseguro-lhe,Katharine, que eu mesmo passei por tudo isso. Houve umtempo em que me fiz perguntas absurdas, que deram em nada também. O que você deseja, se posso falar assim, é alguma ocupação que a distraia quando essa disposição mórbida se revelar. Não fora a minha poesia, asseguro-lhe, não raro eu estaria também no mesmo estado. Vou confiar-lhe um segredo – continuou, com o seu muxoxo, que a essa altura já soava quase confiante –, freqüentemente fui para casa,depois de ver você, num tal estado de nervos que tinha de obrigar-me a escrever uma página ou duas para tirá-la dacabeça. Pergunte a Denham; ele lhe dirá sobre como me encontrou uma noite; ele lhe dirá em que estado eu estava.
Katharine teve um sobressalto de desprazer à menção do nome de Ralph. A idéia de uma conversa em que a sua conduta servira de tema de discussão com Denham enfureceu-a; mas, como instantaneamente sentiu, não podia exprobrar a William qualquer uso do seu nome, uma vez que agira mal com ele do começo ao fim. E ainda com Denham! Imaginou-o no papel de juiz. Podia vê-lo, severo, a pesar exemplos da leviandade dela na sua corte masculina de inquirição da moralidade feminina; e a rejeitar,a ela e à sua família, com alguma frase meio sarcástica,meio tolerante, que selava a sua desgraça, no que dizia respeito a ele, para todo o sempre. O fato de tê-lo visto havia tão pouco tempo, dava-lhe uma impressão muito forte do seu caráter. Não era pensamento agradável para uma mulher orgulhosa, mas tinha ainda de aprender a arte de adoçar sua expressão. Os olhos fitos no chão, as sobrancelhas juntas, davam a William uma idéia muito clara do ressentimento que ela fazia tanto esforço para dominar. Um certo grau de apreensão, que ocasionalmente culminava numa espécie de medo, fora sempre um componente do amor que sentia por ela, e, para surpresa sua, só aumentara com a intimidade maior do noivado. Por detrás daquela superfície inalterável, modelar, corria um veio de paixão que ora lhe parecia mau, ora completamente irracional, mas que jamais tomava o espontâneo canal de glorificação a ele e ao que fazia. Na verdade, qua-se preferia o firme bom senso, que sempre caracterizara o relacionamento deles, a um elo mais romântico. Mas paixão ela tinha, não seria ele a negar; e em conseqüência procurara dirigi-la, nos seus próprios pensamentos, para a consideração das vidas dos filhos que viriam a ter.
“Ela fará uma mãe perfeita, e mãe de filhos”, pensou.Mas vendo-a ali, sentada, sombria e silente, começou a duvidar.
“Uma farsa,uma farsa”,pensou para si mesmo.“Ela dis-se que nosso casamento seria uma farsa”, e se deu conta, de súbito, da sua situação, sentado no chão, entre folhas mortas, a menos de cinqüenta jardas da estrada principal, deonde era perfeitamente possível que alguém os visse e reconhecesse. Passou as mãos pelo rosto para remover qualquervestígio da sua imprópria exibição de emoção. Mas estavamais perturbado com a aparência de Katharine, por terra,mergulhada em pensamentos. Havia, a seu ver, alguma coisa inadequada na maneira como a noiva se esquecia assimdela mesma. Homem por natureza atento às convençõessociais, era extremamente convencional em tudo que diziarespeito às mulheres, especialmente se as mulheres em causa estivessem de algum modo relacionadas com ele. Notou,com tristeza, a longa madeixa de cabelo escuro que lhe to-cava o ombro, e duas ou três folhas secas de faia que tinhapresas ao vestido; mas fazer que a mente dela se voltasse,naquelas circunstâncias, para tais detalhes, era impossível.Estava sentada, aparentemente inconsciente de tudo. Suspeitava que, no seu silêncio, ela se recriminava. Masqueria que pensasse também nos cabelos e nas folhas mortas de faia, que eram de importância mais imediata para eleque todo o resto. Na verdade, esses detalhes desviavam-lhea atenção, estranhamente, do seu próprio estado mental,ambíguo e incômodo; pois que o alívio, misturado à pena,provocava um curioso tumulto em seu peito, e isso quaseescondia sua primeira e aguda sensação de desolado e acerbo desapontamento.
A fim de atenuar a inquietação e encerrar uma cena constrangedoramente mal conduzida, levantou-se abruptamente e ajudou Katharine a pôr-se de pé. Sorriu do cuidado minucioso com que William a arranjou, e, todavia,quando ele varreu com a mão as folhas secas do seu próprio sobretudo, Katharine teve uma contração, vendo nisso o gesto de um homem solitário.
– William – disse –, casarei com você. Procurarei fazêla feliz.