Noite e Dia
Capítulo 2
O rapaz fechou a porta com uma violência maior do que a usada por qualquer das visitas naquela tarde, e saiu pelarua a largas passadas, cortando o ar com a sua bengala.Estava alegre por sentir-se fora daquele salão, respirando oúmido nevoeiro e em contato com gente inculta que nadamais queria que a parte do passeio a que tinham direito.Ocorreu-lhe que, se tivesse Mr. ou Mrs. Hilbery ali fora,faria de algum modo que sentissem a sua superioridade,pois pesava-lhe a memória de sentenças hesitantes, desastradas que não tinham dado nem mesmo à moça de olhostristes, mas interiormente irônicos, uma noção da sua força. Tentou recordar as palavras exatas da sua pequena explosão,mas suplementou-as inconscientemente de tantas palavrasde maior expressividade que a irritação do fracasso ficou, atécerto ponto, aliviada. Súbitas pontadas da impiedosa verdade assaltavam-no de vez em quando, porque não era de natureza a ter uma visão cor-de-rosa da sua própria conduta,mas com o som dos seus passos na calçada e os vislumbresque as cortinas entreabertas lhe davam de cozinhas, salasde-visita e de jantar, ilustrando com mudo vigor diferentescenas de diferentes vidas, sua própria experiência foi perdendo as arestas agudas. E passou por uma alteração curiosa. Sua velocidade diminuiu, sua cabeça pendeu um poucopara o peito, e a luz dos postes passou a brilhar outra vez, deespaço em espaço, num rosto de novo estranhamente pacificado. Seus pensamentos eram tão absorventes que quandolhe foi necessário verificar o nome de uma rua, teve de olhar a placa por algum tempo antes que conseguisse ler qualquercoisa; chegando a um cruzamento, pareceu sentir necessidade de se restituir a confiança com duas ou três pancadas nomeio fio, dessas que os cegos dão. E, ao atingir a estação dometrô, piscou no círculo claro das luzes, olhando o relógio e decidindo que se permitiria um pouco mais de escuridão – efoi em frente.
No entanto, o pensamento que o ocupava era o mesmo com que começara. Pensava ainda nas pessoas da casa queacabava de deixar; mas, ao invés de reconstituir, com a exatidão possível, a aparência delas e o que tinham dito, abandonara conscientemente a verdade literal. Uma esquina, umquarto aceso, algo de monumental no préstito dos postes,quem poderá dizer que acidente de luz ou de forma mudou,subitamente, seu trem de pensamento e o fez murmurar emvoz alta:
– Ela serve... Sim, Katharine Hilbery serve muito bem...Fico com Katharine Hilbery.
Mal disse isso, seu passo perdeu a força, sua cabeça tombou, seus olhos ficaram fixos. O desejo de justificar-se, que,havia pouco, fora tão imperioso, deixou de atormentá-lo e,como que libertadas de uma opressão, como se funcionassem agora sem fricção ou comando, suas faculdades deramum salto à frente e se fixaram,com a maior naturalidade,na forma de Katharine Hilbery. Era maravilhoso o ter encontrado nela tanta coisa para alimentá-las, considerando-se anatureza destrutiva da sua crítica quando em presença dela.O encanto, que ele tentara negar, quando sob o efeito dele,a beleza, o caráter, o alheamento a que desejara ser insensível, agora o possuíam de todo; e quando, como acontecepela própria natureza das coisas, esgotou suas lembranças,prosseguiu nas asas da imaginação. Estava consciente do que fazia, pois que, demorando assim nos atributos de MissHilbery, mostrava uma espécie de método, como se precisasse dessa visão dela para um fim determinado. Aumentoua altura dela,escureceu-lhe os cabelos;mas,fisicamente,não havia tanto a mudar. Sua mais audaciosa licença tomou-a com a mente da moça, a qual, por motivos lá dele, quis quefora exaltada e infalível e de tamanha independência que sóno caso de Ralph Denham desviava-se do seu vôo alto eveloz; mas naquilo que lhe dizia respeito, a ele, Denham,embora fastidiosa de começo, ela descia, por fim, da eminência em que pairava para coroá-la com sua aprovação.Esses deliciosos detalhes, todavia, tinham de ser ainda elaborados em todas as suas ramificações, a seu bel-prazer. Oponto essencial era que Katharine Hilbery servia. Serviriapor semanas a fio, talvez meses. Ficando com ela, ele se oferecia algo cuja falta o deixara, por muito tempo, com um vazio no espírito. Deu um suspiro de satisfação; voltou-lhea consciência de achar-se, no momento, em algum lugar dasvizinhanças de Knightsbridge, e logo estava a caminho, de trem, rumo a Highgate.
Embora assim sustentado pela sua certeza de possuir doravante um bem de considerável valor não estava de todo imune aos pensamentos familiares que lhe sugeriam as ruas suburbanas e os arbustos molhados dos jardinzinhos diante das casas,e nos portões os nomes absurdos pintados à tinta branca.
Sua rua era uma ladeira; enquanto subia pensava na casaem que ia entrar e onde encontraria seis ou sete irmãos eirmãs, a mãe viúva e, provavelmente, alguma tia ou algum tio, sentados, a comer uma desagradável refeição sob umalâmpada excessivamente brilhante. Deveria acaso executar aameaça que, duas semanas antes, uma reunião desse tipo lhearrancara – a terrível ameaça de jantar sozinho no quarto aos domingos se houvesse visitas? Um olhar na direção de Miss Hilbery decidira-o a assumir uma atitude nessa noitemesmo. Assim, depois de entrar, e de verificar a presença deTio Joseph por um chapéu coco e um enorme guarda-chuva, deu ordens à empregada e subiu para o quarto.
Subiu muitíssimos lances de escada e observou, coisa que muito poucas vezes lhe acontecera antes, como a passadeira ia ficando a cada lanço mais coçada, até que acabavade todo. E como as paredes haviam ficado desbotadas, àsvezes por cascatas de mofo,às vezes pelas marcas de quadroshá muito retirados, como o papel balançava, solto, nos cantos, e como um grande fragmento de estuque caíra do teto.Seu próprio quarto era um lugar melancólico para onde voltar a essa hora ingrata. Um sofá achatado faria as vezes de cama, mais tarde, quando a noite fosse avançada; uma dasmesas escondia a aparelhagem de toalete; suas roupas e sapatos misturavam-se desagradavelmente com livros, quetraziam brasões dourados de colégios; e, como decoração,havia, dependuradas nas paredes, fotografias de pontes e catedrais, além de grandes (e pouco sedutores) grupos de rapazes sumariamente vestidos, sentados em filas umas acimadas outras em degraus de pedra. Um ar de pobreza e mesquinhez exalava-se da mobília, das cortinas. E em lugar al-gum o menor sinal de luxo, ou mesmo de bom gosto, a nãoser que os clássicos, em edições baratas, fossem, nas estantes,sinal de um esforço nesse sentido. O único objeto que lançava alguma luz sobre o caráter do dono do quarto era um grande poleiro, posto junto à janela para apanhar ar e sol, eno qual uma gralha, domesticada e aparentemente decrépita, saltitava, ressequida, de um lado para outro. O pássaro,encorajadopor uma frestinha atrás da orelha,instalou-seno ombro de Denham. Ele acendeu seu fogo a gás e sentou-se,com sombria paciência, para esperar o jantar. Depois de estar assim por alguns minutos, uma menina enfiou a cabeçana porta para dizer:
– A mãe pergunta se você não vai descer, Ralph? Tio Joseph...
– Vão trazer meu jantar – disse Ralph, peremptório.
Sem mais ela desapareceu, deixando a porta escancaradana pressa de ir embora. Depois que Denham esperou maisalguns minutos, no curso dos quais nem ele nem a gralhatiraram os olhos do fogo,soltou uma praga entre dentes,desceu correndo as escadas, interceptou a empregada, e serviuse de uma fatia de pão e outra de carne fria. Fazia isso quando a porta da sala-de-jantar se abriu e uma voz gritou:“Ralph!”, mas Ralph não lhe deu atenção, fugindo escadaacima com seu prato. Depositou-o numa cadeira em frente à sua, e começou com uma fúria que era fruto em parte daraiva, em parte da fome. Sua mãe, então, estava decidida anão respeitar seus desejos; ele era pessoa de nenhuma importância para a própria família; dispunha dele, tratavam-no como criança. Com crescente sentimento de quem é lesado,ficou a refletir que quase todos os seus atos, desde a aberturada porta do quarto, haviam sido arrancados às garras do sistema familiar. De direito, devia estar sentado embaixo, na sala de estar, contando suas aventuras da tarde ou ouvindo as aventuras da tarde de outras pessoas; o próprio quarto,o fogo a gás, a poltrona – tudo – tiveram de ser conquistados com luta; o miserável pássaro, aleijado de uma perna e com metade das penas arrancadas por um gato, fora salvo sob protesto,mas o que mais ofendia a família era seu desejo de privacidade. Comer sozinho, ou ficar sentado sozinho depois do jantar, significava rebelião aberta, que cumpria enfrentar comtoda espécie de arma, de dissimulação sorrateira ou de apeloaberto e franco. O que detestaria mais: o embuste ou as lágrimas? Mas, afinal de contas, não lhe podiam roubar ospensamentos; não podiam fazê-lo contar onde estivera ouquem vira. Isso era da sua própria conta; isso, na verdade, eraum passo inteiramente na direção certa e, acendendo o cachimbo, e picando o resto da comida para a gralha, Ralphacalmou sua exagerada irritação, instalando-se na cadeirapara refletir sobre suas chances.
Essa tarde específica constituíra um passo na boa direção,porque era parte do seu plano conhecer gente fora do círculo familiar, assim como era parte do seu plano estudar alemãonesse outono,e fazer a crítica de livros de direito para a Critical Review de Mr.Hilbery.Fazia planos desde menino,a pobreza, o fato de ser o filho mais velho de uma família numerosa, haviam-lhe dado o hábito de pensar na primavera e no verão,no outono e no inverno como outras tantas etapas de umaprolongada campanha. Embora ainda não tivesse trinta anos,esse hábito de tudo calcular de antemão marcara duas linhas semicirculares acima das suas sobrancelhas, que ameaçavam,agora mesmo, afundar ainda mais suas formas conhecidas.Mas, em vez de instalar-se e pensar, levantou-se, tomou deum pedaço de papelão em que escrevera com letras grandes apalavra FORA e pendurou-o na maçaneta da porta. Feitoisso, afiou um lápis, acendeu uma lâmpada de mesa e abriu o livro. Mas hesitava ainda em assumir o lugar. Coçou a gralha,foi até a janela, abriu as cortinas e olhou a cidade que jaziabrilhante abaixo dele. Olhou, através do nevoeiro, na direção de Chelsea. Olhou fixamente por um momento, depois voltou à cadeira. Mas o peso de um grosso tratado de algum sábio jurista sobre agravos não lhe pareceu satisfatório. Atravésdas páginas, viu um salão espaçoso e vazio; ouviu vozes emsurdina, viu a figura de mulheres, podia até sentir o perfumeda acha de cedro que ardia na lareira. Sua mente relaxou e pareceu pronta a soltar tudo aquilo que inconscientementearmazenara. Podia recordar exatamente as palavras de Mr.Fortescue e a ênfase retumbante com que as emitia. Pôs-se arepetir o que Mr. Fortescue dissera, à maneira do próprio Mr.Fortescue,sobre Manchester.Sua mente começou então a vaguear pela casa,e ele se perguntou se não haveria outras peçascomo o salão, e pensou, com irrelevância, em como devia ser bonito o banheiro, e quão agradável e descuidosa era a vidadessa gente, que, sem dúvida nenhuma, estaria ainda sentadanas mesmas cadeiras – teriam apenas mudado de roupa – e o pequeno Mr.Anning estaria lá,e a tia que ficaria chocada com o vidro quebrado do retrato do pai.Miss Hilbery teria trocado o vestido (“embora fosse tão bonito o que estivera usando”,ouviu a mãe dizer). E falava com Mr. Anning que já passavados quarenta, e ainda por cima era calvo, sobre livros.
Como tudo era calmo, espaçoso. E essa paz o possuiu tãocompletamente que seus músculos relaxaram, o livro caiulhe das mãos, e esqueceu que a hora do trabalho escoava,perdida minuto a minuto.
Foi despertado por um estalido na escada.Com um sobressalto de culpa, aprumou-se, franziu a testa e olhou firme paraa página cinqüenta e seis do seu livro. Passos detiveram-se àporta,e ele percebeu que a pessoa,quem quer que fosse,estavaa considerar o aviso e a debater consigo mesma se honraria aordem ou não. Certamente a boa política mandava que elepermanecesse sentado, imóvel, em autocrático silêncio, porque não há costume que se enraíze numa família se cada ramonão é castigado severamente por causa dele nos primeiros seismeses, ou coisa assim. Ralph, porém, estava cônscio de umnítido desejo de ser interrompido, e seu desapontamento eraperceptível, quando ouviu de novo o estalido, mas agora maisabaixo, na escada, como se o visitante tivesse decidido retirarse. Levantou-se, então, abriu a porta com desnecessária aspereza, e postou-se no patamar, à espera. A pessoa parou simultaneamente, a meio do primeiro lanço.
– Ralph? – inquiriu uma voz.
– Joan?
– Eu estava subindo, mas vi o seu aviso.
– Bem, venha, então. – Ele escondeu o desejo com um tom tão ranzinza quanto pôde fazê-lo.
Joan entrou, mas teve o cuidado de deixar claro, ficando de pé, com uma das mãos apoiada no consolo da lareira, queestava ali com um propósito definido e que, uma vez satisfeito esse propósito, iria embora.
Era mais velha que Ralph uns três ou quatro anos.Tinha o rosto redondo, mas gasto, com a expressão de bom humoraflito que é atributo especial das irmãs mais velhas em famílias grandes. Seus simpáticos olhos castanhos pareciam comos de Ralph exceto na expressão, pois que, enquanto eleolhava de frente e intensamente um determinado objeto,elaparecia ter o hábito de considerar tudo segundo não poucosdiferentes pontos de vista. Isso a fazia parecer mais velhapor mais anos do que os que realmente existiam entre osdois. Seu olhar demorou-se por um momento ou dois nagralha. Depois disse, sem qualquer preâmbulo:
– É sobre Charles e a oferta de Tio Joseph... Mamãe falou comigo. Diz ela que não pode pagar a escola dele depoisdeste ano. Diz que já vai ter de fazer um saque a descoberto.
– Isso simplesmente não é verdade – disse Ralph.
– Não. Pensei que não fosse mesmo. Mas ela não se dápor vencida quando lhe digo isso.
Ralph, como se pudesse antecipar a extensão desse debatefamiliar, puxou uma cadeira para a irmã e sentou-se também.
– Não estou interrompendo? – perguntou ela.
Ralph sacudiu a cabeça, que não, e por algum tempo ficaram sem dizer nada. As rugas se curvavam em semicírculos por cima dos olhos deles.
– Ela não entende que é preciso correr riscos – observouele por fim.
– Penso que a mãe correrá riscos,se entender que Charlesé o tipo de garoto que pode lucrar com isso.
– Ele tem boa cabeça, não tem? – disse Ralph. Seu tom assumira uma nota de belicosidade que sugeriu à irmã al-gum agravo pessoal recente. Pensou no que poderia ter sido,mas logo desistiu dessa especulação e concordou:
– Em certas coisas ele é terrivelmente atrasado, comparado a você na mesma idade. E é difícil em casa também. Faz a Molly de escrava.Ralph emitiu um som que significava seu menoscabo por essa espécie de discussão. Era claro para Joan que encontrara pela frente uma das crises de mau humor do irmão,e que ele ficaria na oposição a tudo o que a mãe tivesse dito.O fato de que a chamara de “ela”, era prova certa disso.Suspirou involuntariamente, o suspiro irritou Ralph, e ele exclamou:
– É duro enterrar um menino num escritório aos dezessete!
– Ninguém deseja enterrá-lo num escritório – disse ela.Também começava a ficar exasperada. Passara a tarde inteira a discutir com a mãe detalhes fastidiosos de educação e despesas, e viera ter com o irmão em busca de apoio, encorajada, estupidamente, a esperar auxílio dele pelo fato deque estivera fora, não sabia onde nem pretendia perguntar, o dia todo.
Ralph gostava da irmã, e a irritação dela o fez pensarcomo era injusto que todos esses fardos lhe fossem atiradosaos ombros.
– A verdade é – observou sombriamente – que eu deviater aceitado o oferecimento de Tio Joseph. Já estaria fazendo seiscentas por ano a esta altura.
– Não creio nem por um momento – replicou Joan, depressa, arrependida da própria irritação. – A meu ver, a questão é cortar as nossas despesas de algum jeito.
– Uma casa menor?
– Ou talvez menos empregados.
Nem o irmão nem a irmã falaram com muita convicção. E depois de refletir por algum tempo sobre o que significariam as reformas propostas numa casa já estritamente econômica, Ralph anunciou com firmeza:
– Nem pensar.
Não é admissível que ela assumisse ainda mais trabalhosdomésticos. Não, o sacrifício tinha de recair sobre ele, poisele estava decidido a que sua família tivesse, tanto quantooutras famílias, oportunidades de se distinguir. Como osHilbery tinham, por exemplo. Acreditava secretamente, e um tanto audaciosamente também, por se tratar de fato impossível de provar, que havia algo de bastante notável na suafamília.
– Se a mãe não quer correr riscos...
Você não tem o direito de esperar que ela venda tudo outra vez.
Ela deveria ver isso como um investimento. Mas se não quer, temos de encontrar outro meio, só isso.
Havia uma ameaça nessa frase, e Joan sabia, sem ter de perguntar, que ameaça era. No decurso da sua vida profissional, que já se estendia agora por cinco ou seis anos, Ralpheconomizara, talvez, trezentas ou quatrocentas libras.
Considerando os sacrifícios que ele fizera a fim de pôr de lado essa soma, Joan ficava pasma de ver que ele jogava comela, comprando ações e revendendo-as, aumentando o bolode vez em quando, outras diminuindo-o, e arriscando-se sempre a perder até o último níquel no desastre de um sódia. Embora ela tivesse tais dúvidas, não podia impedir-sede amá-lo, mais ainda, até, por essa combinação insólita de autocontrole espartano e o que lhe parecia ser uma loucuraromântica e infantil. Ralph interessava-a mais que qualquercoisa no mundo, e muitas vezes interrompia uma dessas discussões econômicas, a despeito da seriedade delas, para considerar alguns novos aspectos do caráter do irmão.
– Penso que seria ridículo pôr em perigo o seu dinheiro por causa do pobre Charles – disse ela. – Por mais que eugoste dele, não me parece lá muito brilhante... Além disso, por que você se sacrificaria?
– Minha querida Joan – exclamou Ralph,espreguiçandose com um gesto de impaciência. – Pois não vê que temostodos de fazer sacrifícios? De que serviria negá-lo? De queserviria lutar contra isso? Assim tem sido sempre e assimvai ser. Sempre. Não temos dinheiro e nunca teremos.Ficaremos a girar no moinho todos os dias de nossas vidas,até cair mortos, gastos, como acontece com muita gente,aliás, quando se pensa nisso.
Joan olhou-o, entreabriu os lábios como se fosse falar, e fechou-o outra vez. Depois disse, tentativamente:
– Você não está feliz, Ralph?
– Não. E você está? Talvez eu seja tão feliz como a maioria das pessoas. Só Deus sabe se sou feliz ou não. O que vema ser felicidade?
Ele lhe dirigiu um meio sorriso, a despeito do seu humorsombrio, da sua irritação. Ela dava a impressão, como sempre, de estar a pesar as coisas, umas contra as outras, a compará-las antes de decidir-se.
– Felicidade – disse, afinal, enigmaticamente, mais comose estivesse sopesando a palavra, e depois fez uma pausa.Uma longa pausa, como se considerasse a felicidade sob todos os seus aspectos. – Hilda esteve aqui hoje – observou, desúbito,como se jamais a palavra “felicidade”tivesse sido pronunciada. Trouxe Bobbie. Ele está um meninão agora.
Ralph observou, divertido, mas com alguma ironia também, que ela se preparava para escapar rapidamente dessaperigosa tentativa de intimidade deslizando para tópicos deinteresse geral e doméstico. Não obstante, refletiu, ela era aúnica pessoa da família com quem achava possível discutir afelicidade, embora tivesse podido muito bem discutir felicidade com Mrs. Hilbery logo no primeiro encontro. Olhoucriticamente para Joan, e desejou que ela não tivesse esse aspecto tão provinciano ou suburbano, o vestido fechado,verde, de gola alta, o debrum desbotado, sempre tão paciente, quase resignada. Teve vontade de falar-lhe dos Hilberysa fim de insultá-los, porque na batalha em miniatura que tão freqüentemente se trava na vida entre duas impressõessubseqüentes, a vida dos Hilberys começava na sua mente apassar à frente da vida dos Denhans,e ele queria ter certezade que havia alguma qualidade em que Joan suplantasseMiss Hilbery infinitamente. Quisera sentir que sua irmã eramais original e tinha muito mais vitalidade que MissHilbery. Mas sua principal impressão de Katharine agoraera a de uma pessoa de grande vitalidade e compostura. E naquele momento não podia ver que vantagem levaria Joanpor ser a neta de um negociante e por ter de ganhar a própria vida. A infinita sordidez e melancolia da vida de todoseles oprimiam-no, a despeito de sua crença fundamental deque, como família, eram de algum modo notáveis.
– Seria bom que você falasse à mãe? – perguntou Joan.
– Porque, sabe, a coisa tem de ser resolvida, de uma maneiraou de outra. Charles tem de escrever ao Tio John, se é quevai para lá.Ralph suspirou com impaciência.
– Suponho que não importa muito, de um jeito ou de outro! – exclamou. – Ele está fadado à miséria, no fim de contas. Um ligeiro rubor despontou na face de Joan.
– Você sabe que o que está dizendo é uma tolice – disse ela. – Não faz mal a ninguém ganhar a própria vida. Estoumuito contente de ter de ganhar a minha.Ralph alegrava-se que ela visse as coisas assim, e desejavaque continuasse, mas perversamente acrescentou:
– Não será apenas por ter esquecido como divertir-se? Você nunca teve tempo para qualquer coisa boa...
– Como, por exemplo?
– Bem. Fazer passeios, ouvir música, ler livros, ver gente interessante. Você nunca faz nada que verdadeiramente valha a pena. Como eu também não faço.
– Sempre achei que você poderia tornar este quarto muito mais simpático, se assim quisesse – observou ela.
– E que importa o quarto que eu tenha quando devo passar os melhores anos da minha vida minutando escrituras num cartório?
Você disse dois dias atrás que achava o direito extremamente interessante.
E é mesmo, quando se tem vagares para aprofundá-lo um pouco.
(– Isso é Herbert, indo para a cama agora – interrompeuJoan, ao ouvir uma porta que batia violentamente, no patamar da escada. – E não vai querer levantar-se de manhã.)
Ralph olhou para o teto e apertou os lábios com força.Por que, perguntou-se, não podia Joan, por um só minuto,desviar a mente dos detalhes da vida doméstica? Parecia-lhe que a cada dia ela ficava mais emaranhada neles, capaz apenas de vôos mais infreqüentes e curtos para o mundo exterior. E, todavia, contava tão-somente trinta e três anos.
– Você visita alguém, hoje em dia? – perguntou abruptamente.
Raras vezes tenho tempo. Por que pergunta?
– Pode ser uma boa coisa conhecer gente nova. Só isso.
– Pobre Ralph – disse Joan com um sorriso. – Você pensa que sua irmã está ficando muito velha e muito estúpida.É isso, não é?
– Não penso nada disso – disse ele com vigor.Mas corou.
– A verdade é que você vive uma vida de cachorro, Joan.Quando não trabalha no escritório, ocupa-se do resto denós. E eu não sou lá muito bom para você, acho.
Joan levantou-se e ficou por um momento a aquecer as mãos e, aparentemente, a resolver se devia dizer mais alguma coisa ou não.Um sentimento de grande intimidade uniuirmão e irmã, e as rugas semicirculares por cima dos olhosdeles desapareceram. Não, nada mais havia por dizer, deuma parte ou de outra.
Joan afagou a cabeça do irmão ao passar por ele,murmurou boa noite e deixou o quarto. Por alguns minutos, depoisque ela saiu,Ralph permaneceu inativo,com a cabeça apoiada na mão. Gradualmente, porém, de novo o pensamentobrilhou em seus olhos, a ruga reapareceu-lhe no cenho, aagradável impressão de camaradagem e de velha simpatiaesmaeceu, e ele foi deixado a pensar sozinho.
Após algum tempo, abriu um livro e leu com aplicação,consultando uma ou duas vezes o relógio, como se se tivesseproposto uma tarefa a ser cumprida em prazo certo. De vezem quando, ouvia vozes na casa, e a batida de portas que sefechavam nos quartos de dormir, o que mostrava que o edifício, em cujo topo se achava sentado, era habitado em todasas suas celas. Quando bateu meia-noite, Ralph fechou o livro e, com uma vela na mão, desceu até o térreo para verificar se todas as luzes estavam apagadas e todas as portastrancadas. Era uma casa vivida e gasta que ele examinava,como se os seus habitantes tivessem raspado tudo o quepudesse ser luxo e abundância até os últimos limites da decência; e à noite, carente de vida, os vazios e as velhas nódoas eram desagradavelmente visíveis. Katharine Hilbery – pensou – condená-la-ia de imediato.