Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 4 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 3

Denham havia acusado Katharine Hilbery de pertencer auma das mais ilustres famílias da Inglaterra; se qualquer pessoa se der ao trabalho de consultar O Gênio Hereditário, de Mr. Galton, verá que a asserção não ficara longe da verdade.Os Alardyces, os Hilberys, os Millingtons e os Otways pareciam provar que o intelecto é um bem que pode ser lançadode um membro para outro dentro de um certo grupo, e issoquase indefinidamente, e com a aparente garantia de que obrilhante dom será agarrado com segurança e conservadopor nove dentre dez representantes da raça privilegiada.

Houvera conspícuos juízes e almirantes, advogados e servidores públicos por alguns anos antes que da riqueza dosolo brotasse essa culminância, essa flor raríssima, a mais rara de que uma família se possa gabar: um grande escritor,um poeta eminente entre os poetas ingleses, um Richard Alardyce; e tendo-o produzido, provaram uma vez mais asespantosas virtudes da sua raça, prosseguindo sem desfalecimento em sua habitual tarefa de gerar grandes homens.Navegaram até o Pólo Norte com Sir John Franklin, galoparam em socorro de Lucknow com Havelock. E quandonão eram faróis, firmemente fundados na rocha para guiar asua geração, eram prestimosas velas, a iluminar os aposentosordinários da vida diária. Era pôr o dedo sobre uma profissão qualquer,e lá estava um Warburton ou um Alardyce,umMillington ou um Hilbery, sempre em posição de autoridade e proeminência.

Pode ser dito, na verdade, que, sendo a sociedade inglesa o que é, não se exige nenhum grande mérito, uma vez que setenha um grande nome, para ocupar uma posição onde, demaneira geral, é mais fácil ser eminente que obscuro. E seisso é verdade com referência aos filhos, até mesmo as filhas, inclusive no século XIX, têm oportunidade de tornar-sepessoas de nomeada, filantropas e educadoras se são solteironas, esposas de homens eminentes, quando casam. É verdade que houve umas poucas lamentáveis exceções a essaregra no clã dos Alardyces, o que parece indicar que os filhos mais moços de tais estirpes degeneram mais rapidamente que os filhos de pais e mães comuns, como se issofora uma espécie de alívio para essas casas. De modo geral,contudo, nos primeiros anos do século XX, os Alardyces eseus parentes mantinham as cabeças confortavelmente forad’água. Podem ser encontrados no cume das profissões, comabreviaturas honoríficas depois dos seus nomes: pontificamcom secretárias particulares em luxuosos escritórios públicos; escrevem sólidos volumes de encadernação escura, publicados pelas editoras das duas grandes universidades; equando um deles morre, há uma boa chance de que outro dafamília lhe escreva a biografia.

Agora: a fonte dessa nobreza toda era, naturalmente, o poeta, e seus descendentes imediatos; em conseqüência,investiam-se de maior lustre que os ramos colaterais. Mrs.Hilbery, em virtude da sua posição como filha única do poeta, era espiritualmente a cabeça da família. E Katharine,sua filha, tinha graduação de certo modo superior entre todos os primos e afins, e mais ainda por também ser filhaúnica. Os Alardyces se haviam casado uns com os outros e entrelaçado a tal ponto que a sua descendência era, de regra,copiosa, e tinham o hábito de reunir-se regularmente em uma das casas da família para refeições e celebrações familiais, que, com o tempo, assumiram um caráter meio sacral,passando a ser religiosamente observadas como o são osdias santos de guarda ou de jejum na Igreja.

Em tempos idos, Mrs. Hilbery conhecera todos os poetas, todos os romancistas, todas as belas mulheres e todos os homens notáveis do seu tempo. Estando todos mortos ourecolhidos a uma glória repleta de achaques, ela fez da própria casa o ponto de encontro dos parentes, com os quaislamentava que tivessem passado os grandes dias do séculoXIX, quando cada um dos departamentos das letras e dasartes se fazia representar na Inglaterra por dois ou três nomes ilustres. Por onde andam hoje os seus sucessores? – perguntava ela, e a ausência de qualquer poeta ou pintor ouromancista de calibre respeitável no presente era um temasobre o qual ela gostava de ruminar, num clima crepuscularde afável reminiscência, difícil de interromper se a necessidade o exigisse. Mas ela estava longe de fazer ver à novageração a sua inferioridade. Ela recebia calorosamente osjovens em sua casa, contava-lhes suas histórias, dava-lhessoberanos de ouro e sorvetes e bons conselhos, e tecia em torno deles romances que as mais das vezes não tinhamqualquer fundamento.

A qualidade do seu alto nascimento permeou a consciência de Katharine, provinda de uma dúzia de fontes diferentes tão logo foi capaz de perceber alguma coisa. Acimada lareira do seu quarto de menina havia uma fotografia dotúmulo do seu avô no Canto dos Poetas, e foi-lhe dito, num desses momentos de confidência dos mais velhos, que sãotremendamente impressionantes para a mente de uma criança, que ele estava enterrado ali por ser “um grande homem”. Mais tarde, por ocasião de um aniversário, ela foiconduzida pela mãe, através do nevoeiro, até um belo fiacre,e foi-lhe dado um generoso buquê de vívidas e perfumadasflores, para depor na sua tumba. As velas da igreja, os cânticos, a música de órgão, tudo era, a seu ver, em honra dele.Muitas e muitas vezes foi levada até o salão para receber abênção de algum horrendo velhote famoso, que, mesmo aseus olhos de criança, parecia uma figura à parte, todo encolhido e segurando uma bengala, diferente, e refestelado, porcima de tudo, ao contrário de uma visita comum, na própriapoltrona de seu pai presente, diferente de si mesmo também, um tanto excitado e cheio de mesuras. Essas formidáveis criaturas, esses velhos costumavam pegá-la nos braços,olhar intensamente dentro dos seus olhos antes de abençoála, e dizer-lhe que fizesse atenção e fosse uma boa menina,procurando descobrir em seu rosto alguma coisa de Richard quando pequeno. Isso atraía para ela um beijo fervoroso damãe, e aí era mandada de volta para o quarto, toda orgulhosa, e com o misterioso sentimento de um estado de coisas importante e inexplicado, cujo segredo só o tempo gradualmente desvendou.

Havia sempre visitas,tios e tias e primos da lndia,a seremreverenciados simplesmente pelo parentesco, e outros dasolitária e formidável classe que seus pais lhe mandavam “recordar pela vida inteira”. Por esses processos, e pelo fato deouvir falar constantemente de grandes homens e de suasobras, suas mais antigas concepções do mundo incluíam umaugusto círculo de seres aos quais ela dava os nomes deShakespeare, Milton, Wordsworth, Shelley, e assim pordiante, que eram, por alguma razão, muito mais próximosdos Hilberys que dos outros. Formavam uma espécie de di-visa à sua visão de vida, e desempenhavam importante papelna determinação do que era bom ou mau em seus própriospequenos negócios. O fato de descender de um desses deuses não era surpresa para ela, mas motivo de satisfação, até que, com os anos, os privilégios da sua classe passaram a seraceitos como naturais, e certas desvantagens fizeram-se manifestas.Talvez seja meio deprimente herdar,não terras,masum exemplo de virtude espiritual e intelectual; talvez o quehá de conclusivo num ancestral famoso seja um pouco desencorajador para os outros, que correm o risco de lhe serem comparados. Parecia que, tendo florido tão esplendidamente,nada fosse possível agora para a cepa senão uma uniformeprodução de bom talo verde e boa folha. Por essas razões, epor outras, Katharine tinha seus momentos de depressão. Oglorioso passado, no qual homens e mulheres adquiriam proporções acima das comuns, intrometia-se por demais nopresente, diminuindo-o pela comparação, e isso com umaconstância que só podia ser desanimadora para quem tinhade tentar viver com a idade de ouro morta e enterrada.

Ela era levada a considerar tais assuntos mais do que seria natural, em primeiro lugar por causa da absorção dasua mãe neles e em segundo porque grande parte do seutempo era empregada em imaginação, na companhia dosmortos, desde que ajudava a mãe a compor a vida do grandepoeta. Quando tinha a idade de dezessete ou dezoito, querdizer, há dez anos, sua mãe anunciara, entusiasticamente, que agora, com Katharine para ajudá-la, a biografia serialogo publicada. A notícia filtrou para os jornais literários e,por algum tempo, Katharine trabalhou com um sentimentode grande orgulho e auto-realização.

Mais tarde, no entanto, pareceu-lhe que não faziam nenhum progresso, o que era estranho, considerando que ninguém com uma sombra de temperamento literário tinhadúvidas de que as duas dispunham em casa de elementospara comporem uma das maiores biografias jamais escritas.Prateleiras e caixas estavam abarrotadas do precioso material. As vidas particulares das pessoas mais interessantes jaziam enroladas em molhos amarelados de manuscritos em escrita cerrada. Além disso, Mrs. Hilbery conservava na cabeça uma visão tão clara daquele tempo como talvez ninguém mais dentre os remanescentes, e sabia comunicar àspalavras aquelas centelhas e aquele frêmito de vida capazesde dar-lhes quase a substância da carne. Ela não mostravadificuldade em escrever, e enchia uma página toda manhã,tão instintivamente quanto um tordo canta. E, no entanto, com tudo isso para mover e inspirar, e a mais devota intenção de completar o trabalho, o livro ainda permanecia inescrito. Os papéis se acumulavam, sem que a tarefa avançassegrande coisa, e em momentos de depressão Katharine duvidava que algum dia conseguissem produzir algo digno de apresentar ao público. Em que jazia a dificuldade? Não nomaterial de que dispunham, hélas! –, não nas suas pretensões, mas em algo mais profundo, na sua própria inaptidãoe, acima de tudo, no temperamento de sua mãe. Katharinecalculava que nunca a vira escrever mais que dez minutosseguidos. As idéias lhe vinham principalmente quando estava em movimento. Ela apreciava, então, perambular pelasala com um pano de limpeza na mão, e se detinha parapolir as lombadas de livros já lustrosos, refletindo e romantizando enquanto assim fazia. De súbito, a frase justa ou oponto crucial lhe ocorriam, ela largava sua flanela e escrevia,extática prendendo o fôlego, por uns poucos momentos.Mas então esse humor passava, ela procurava o pano outravez, e limpava de novo os velhos livros. Esses surtos de inspiração nunca ardiam de maneira sustentada, mas tremeluziam sobre a gigantesca massa do assunto tão caprichosamente quanto um fogo-fátuo, acendendo ora num ora emoutro ponto.O máximo que Katharine podia fazer era manter em ordem as páginas do manuscrito de sua mãe; arranjálas, porém, de modo a que o décimo sexto ano da vida de Richard Alardyce sucedesse ao décimo quinto, estava acimadas suas forças. E, todavia, eram tão brilhantes os parágrafos, vazados num fraseado tão nobre, tão vívidos naquilo que iluminavam, que os mortos pareciam encher o quarto.Lidos em seqüência, produziam uma espécie de vertigem e obrigavam-na a pensar com desespero no que poderia fazercom eles. Sua mãe recusava-se também a enfrentar decisões radicais sobre o que deveria ficar no texto, por exemplo, e o que teria de ser eliminado. Não conseguia decidir-se atéonde o público devia conhecer a verdade sobre a separaçãodo poeta de sua mulher. Escreveu passagens que serviam para cada caso, depois gostou tanto delas que não pôde determinar a rejeição de nenhuma.

Mas o livro precisava ser escrito. Era um dever que tinham para com o mundo, e para Katharine, pelo menos,representava mais que isso, pois se não conseguiam, as duas, completar um livro, então não tinham direito a essa posição de privilégio. Suas vantagens tornaram-se de ano em ano mais gratuitas e imerecidas. Além disso, cumpria estabelecer acima de qualquer dúvida que seu avô fora um grande homem.

Aos vinte e sete anos, tais pensamentos já lhe eram familiares. Abriam caminho no seu espírito quando se sentavadiante da mãe, pela manhã, em face da mesa repleta de pa-cotes de velhas cartas e bem suprida de lápis, tesouras, vidrosde cola, elásticos, grandes envelopes, e outros artigos úteis àmanufatura de livros. Pouco antes da visita de RalphDenham, Katharine resolvera experimentar o efeito de re-gras estritas sobre os hábitos maternos de composição literária. Deveriam sentar-se toda manhã às dez horas nas suas respectivas mesas com um longo período matinal sem outros compromissos diante delas. Deveriam manter os olhosgrudados no papel, e nada as tentaria a falar, salvo a batidada hora, quando, então, por dez minutos, poderiam permitir-se descansar. Se essas regras fossem observadas durante um ano, calculou numa folha de papel, o livro estaria certamente concluído, e depôs esse esquema diante da mãe com o sentimento de que muito da tarefa estava cumprido. Mrs.Hilbery examinou a folha de papel cuidadosamente. Depois, bateu palmas e exclamou com o maior entusiasmo:

– Muito bem, Katharine! Que boa cabeça para negócios você tem! Agora, vou ter isso sempre diante de mim, e tododia farei uma pequena marca no meu caderninho de notase, assim, no último dia, deixe-me pensar, o que faremos paracelebrar o último dia? Se não fosse inverno,eu a levaria a dar uma volta pela Itália. Dizem que a Suíça é adorável na neve,exceto pelo frio. Mas, como diz você, o importante é terminar o livro. Agora, deixe-me ver...

Quando inspecionaram seus manuscritos,que Katharine pusera em ordem, encontraram uma situação capaz de liquidar seu otimismo, se não se tivessem, justamente, decidido pela reforma. Encontraram, em primeiro lugar, grandevariedade de imponentes parágrafos com os quais se abririaa obra; muitos destes, é verdade, estavam inacabados, e pareciam arcos de triunfo apoiados numa perna só; mas, comofez notar Mrs. Hilbery, podiam ser retocados em dez minutos, bastava que ela se concentrasse. Depois, havia um relatosobre a antiga casa dos Alardyces, ou melhor, sobre a primavera em Suffolk, muito bem escrito, embora não essencial à história. Katharine, todavia, arrolara uma série de nomes e datas, de modo que o poeta foi posto no mundo competentemente e seu nono ano atingido sem maiores tropeços.Depois disso, a senhora Hilbery desejava, por razões sentimentais, introduzir as lembranças de uma velha senhora muito fluente, que fora criada na mesma aldeia, mas estas Katharine resolveu que tinham de ser eliminadas. Talvezfosse aconselhável incluir aí um aperçu da poesia contemporânea, contribuição de Mr. Hilbery e, em conseqüência, terso, erudito e em completo descompasso com o resto. MasMrs. Hilbery foi de opinião que esse texto era também pordemais despojado e fazia que as pessoas se sentissem como meninas de colégio numa sala de aula, e isso simplesmente não concordava com seu pai. Foi posto de lado. Veio, então, o período da primeira maturidade, quando várias aventurasamorosas teriam de ser reveladas ou escondidas. Aqui, denovo, Mrs. Hilbery mostrava-se indecisa, e um grosso pacote de manuscritos foi engavetado para consideração futura.

Muitos anos foram, em seguida, omitidos, porque Mrs.Hilbery encontrara alguma coisa nesse período que lhe parecera de mau gosto e preferira confiar em suas próprias memórias de infância. Daí por diante, pareceu a Katharine que

o livro se tornara uma louca dança de fogos-fátuos, informe,sem continuidade e, até, sem coerência, sem qualquer tentativa de redigir uma narrativa seguida. Havia, assim, vinte páginas sobre o gosto de seu avô por chapéus, um ensaio sobrea porcelana contemporânea,um longo relato de uma expedição pelo campo num dia de verão, quando haviam perdido otrem, junto com visões fragmentárias de toda espécie de homens e mulheres famosos, visões em parte imaginárias e em parte autênticas. Havia, ademais, milhares de cartas, e umamassa de memórias fiéis (amareladas a essa altura) oferecidaspor velhos amigos, as quais tinham de ser retiradas dos seusenvelopes, e aproveitadas em algum lugar, ou eles se ofenderiam. Tantos volumes haviam sido escritos sobre o poetadesde a sua morte que lhes cabia igualmente retificar um grande número de inexatidões e desvirtuamentos da verdade, o que implicava minuciosas pesquisas e muita correspondência. Às vezes Katharine ficava a remoer tudo isso, sentindo-se meio esmagada entre seus papéis. Às vezes, sentia queera necessário,para sua própria existência,libertar-se do passado; ou que o passado deslocara completamente o presente,de modo que, ao retomar a vida comum depois de uma manhã inteira entre os mortos, o presente se revelava uma composição rala e inferior.

O pior de tudo é que ela não tinha qualquer aptidão paraa literatura. Detestava frases. Tinha, até, alguma naturalantipatia por aquele processo de auto-exame, por aqueleperpétuo esforço de entender os próprios sentimentos eexpressá-las em palavras, de maneira bela, apropriada, vigorosa, coisa que constituía tão grande porção da existência desua mãe. Ela, ao contrário, inclinava-se a calar; esquivava-sea expressar-se mesmo falando, quanto mais escrevendo.Como tal disposição era das mais convenientes numa família dada à manufatura de frases, e parecia indicar uma correspondente capacidade para a ação, ela fora, desde a infância, encarregada dos negócios da casa. Tinha a reputação,que nada em suas maneiras contradizia, de ser a mas práticadas criaturas. Decidir os menus, dirigir os empregados, pa-gar as contas, conseguir que todos os relógios batessem àmesma hora e que as jarras estivessem sempre cheias de flores frescas eram tidos como predicados naturais dela. Mrs.Hilbery costumava dizer que isso também era poesia, só queàs avessas. Desde tenra idade, tivera ela de funcionar ainda em outra capacidade: aconselhando sua mãe, dando-lheapoio, de maneira geral. Mrs. Hilbery poderia perfeitamente sobreviver sozinha no mundo, fora o mundo o que elenão é. Estava admiravelmente preparada para a vida em outro planeta. Exceto pelo gênio natural que mostrava para osnegócios, não havia outro uso para ela aqui embaixo. Seurelógio, por exemplo, era-lhe inesgotável fonte de surpresas,e aos sessenta e cinco anos ficava ainda pasma com a ascendência que normas e regras desempenhavam nas vidas dasoutras pessoas. Jamais aprendera sua lição, e tinha de serpunida constantemente pela sua ignorância. Mas, como aessa ignorância combinava-se uma admirável intuição inata,que via mais fundo as coisas, quando as via, não era possívelclassificar Mrs. Hilbery entre os estúpidos; pelo contrário,tinha um jeito de parecer a pessoa mais atilada de um salão.No todo, porém, achava indispensável apoiar-se na filha.

Katharine,então,era membro de uma grandíssima profissão, que não tem, ainda, título, e a que quase não se faz justiça. Embora os labores de moinho e fábrica não sejam maispesados nem seus resultados de maior utilidade para o mundo. Ela vivia em casa. Fazia-o muito bem, aliás. Qualquerpessoa que fosse à casa de Cheyne Walk sentia que era umlugar organizado, bem arranjado, bem dirigido – um lugaronde a vida fora treinada para aparecer sob suas melhorescores e, embora composta de elementos díspares, parecerharmoniosa e dotada de caráter próprio. Talvez fosse esse o maior triunfo da arte de Katharine: fazer que o caráter deMrs. Hilbery predominasse. Ela e Mr. Hilbery davam a impressão de serem apenas um rico pano de fundo para as qualidades mais salientes de sua mãe.

Sendo, assim, o silêncio tão natural para ela quanto a elaimposto, a outra única observação que os amigos de sua mãe tinham o costume de fazer era que não se tratava de umsilêncio estúpido ou indiferente. Mas a que qualidade tal silêncio devia o seu, caráter, desde que tinha um caráter de alguma espécie, jamais ninguém se preocupou em indagar.Sabia-se que ela ajudava a mãe a produzir um grande livro.Sabia-se que dirigia a casa. Era, certamente, bela. Isso bastava para classificá-la satisfatoriamente. Mas teria sido umasurpresa, não só para as outras pessoas mas para a própriaKatharine, se algum relógio mágico pudesse marcar os minutos gastos numa ocupação inteiramente diferente das ostensivas. Sentada com velhos papéis diante dos olhos, tomava parte numa série de cenas, tais como o adestramento de pôneis selvagens nas pradarias dos Estados Unidos, o comando de um vasto navio num furacão junto a um negropromontório ou rochedo, ou em outros mais pacíficos, porém marcados pela mesma completa emancipação do ambiente diário e, não seria preciso dizê-lo, por uma extraordinária competência nessa nova vocação. Quando liberta dasaparências de pena e papel, de composição e biografia, elavoltava sua atenção para direção mais legítima, embora,curiosamente, tivesse mil vezes preferido confessar esses desatinados sonhos de furacão ou pradaria do que o fato deentregar-se, sozinha em seu quarto do segundo andar cedopela manhã e às horas mortas da noite, ao estudo... das matemáticas. Nenhuma força na Terra seria capaz de fazê-laconfessar isso. Seus atos, quando assim ocupada, eram furtivos e secretos, como os de um animal de hábitos noturnos. Bastava que soassem passos na escada e ela enfiava o papelentre as páginas de um grande dicionário grego que furtarado quarto do pai justamente para esse fim. Só à noite, na verdade, sentia-se suficientemente segura para concentrar amente ao máximo.

Talvez fosse a qualidade pouco feminina da ciência que a levasse, instintivamente, a esconder seu amor por ela.Contudo, a razão mais profunda era que, no seu entender, amatemática opunha-se diametralmente à literatura. Não seteria importado de confessar o quanto preferia a exatidão, aimpessoalidade estelar dos algarismos à confusão e indefinição da prosa mais requintada. Havia algo um tanto indecoroso nessa oposição à tradição da família. Algo que fazia quese sentisse cabeça-dura e, assim, mais do que nunca disposta a fechar seus desejos à vista alheia e cultivá-los com extraordinário carinho. Muitas e muitas vezes pensava em problemas quando devera estar pensando no avô. Ao acordardesses transes, via que a mãe, também, mergulhara em al-gum devaneio, tão visionário quanto o seu, pois as pessoasque nele tomavam parte de há muito se contavam entre osmortos. Mas vendo seu próprio estado espelhado no rostode Mrs. Hilbery, Katharine se obrigava a acordar com umsentimento de irritação. Por mais que a admirasse, sua mãeera a última pessoa com quem desejaria parecer-se. Seu senso comum se recompunha, então, quase brutalmente, e Mrs.Hilbery, olhando-a com seu estranho olhar de soslaio, meio malicioso meio terno, comparava-a “àquele maroto do seuTio Peter”, o velho juiz, que se ouvia ditando sentenças demorte no banheiro. “Graças a Deus, Katharine, eu não tenho uma gota dele em mim!”