Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 16 de 35

Páginas do PDF

Noite e Dia

Capítulo 15

A aldeia de Disham jaz em algum lugar da extensão ondulada de terreno cultivado nas imediações de Lincoln, não tão longe no interior que não se ouça o mar, nas noites de verão, ou quando as tempestades de inverno lançam as ondas contra a praia comprida. Tão grande é a igreja e,em particular, a sua torre, em comparação com a pequena rua de chalés que compõem a aldeia, que o viajante fica propenso a voltar sua imaginação para a Idade Média,como a única época em que tanta piedade podia ser conservada tão viva. Essa desmedida confiança na Igreja certamente não é coisa dos nossos dias, e o forasteiro vai mais longe e conjectura que cada um dos habitantes do lugar atingiu o extremo limite da vida humana.Tais são as reflexões do estranho de mente superficial, e a vista da população, representada por dois ou três homens a arar um campo de tulipas, por uma criança que carrega um jarro, ou uma jovem que sacode um tapete fora da porta de casa, não lhe mostrará nada em grande desacordo com a Idade Média na aldeia de Disham tal como é hoje em dia. Essas pessoas, embora ainda bastante jovens, parecem tão angulosas e toscas que lembrarão as pequenas iluminuras pintadas por monges nas maiúsculas dos seus manuscritos. Ele apenas entenderá a meio o que dizem, e falará muito alto e explicado como se, na verdade, sua voz tivesse de atravessar uns cem anos ou mais para alcançálos. Ser-lhe-ia muito mais fácil entender algum habitante de Paris ou Roma, Berlim ou Madri, do que esses seus conterrâneos, que viveram os últimos dois mil anos a não mais de duzentas milhas da cidade de Londres.

A reitoria fica a cerca de meia milha de distância da aldeia. É uma casa grande, e tem crescido sistematicamente há alguns séculos em torno da vasta cozinha, comseus estreitos ladrilhos vermelhos, que o pároco apontaaos seus hóspedes na noite da chegada, carregando umcastiçal de latão, e dizendo-lhes que ponham tento nosdegraus, ao subirem ou descerem, que observem a imensa espessura das paredes, os velhos barrotes do teto, aescadaria íngreme como uma escada-de-mão, e as mansardas, com seus forros afunilados, em forma de tenda, nos quais procriavam andorinhas e, até, uma vez, umacoruja branca. Mas nada de muito interessante ou demuito bonito resultou dos diversos acréscimos feitos pelos sucessivos reitores.

A casa, todavia, era cercada por um jardim do qual o pároco tinha muito orgulho. O gramado, que confrontava as janelas do salão, era de um verde rico e uniforme, sem amancha de uma só margarida. E do outro lado, duas alamedas retas conduziam, entre canteiros de flores altas, a um encantador caminho relvoso, onde o reverendo Wyndham Datchet andava de um lado para o outro, àmesma hora, toda manhã, marcando o tempo por um relógio de sol. Invariavelmente, tinha um livro na mão, noqual lançava um olhar de relance, para depois fechá-lo e repetir o resto da ode, em voz alta, de memória. Sabia decor a maior parte de Horácio, e tinha o hábito de relacionar esse passeio matinal com certas odes que repetia pontualmente, notando, ao mesmo tempo, a condição das suasflores, e detendo-se aqui e ali para arrancar as secas e asque se abriram demais. Em dias de chuva, era tal o poderdo hábito, que levantava da sua cadeira à mesma hora, eandava pelo escritório o mesmo período de tempo, parando de espaço a espaço para endireitar algum livro na estante ou alterar a posição dos dois crucifixos douradosque, em pedestais de pedra serpentina, ornamentavam oconsole da lareira. Seus filhos tinham grande respeito porele, atribuíam-lhe muito mais ciência do que na realidadepossuía, e cuidavam que seus hábitos não fossem – se possível – perturbados. Como a maior parte das pessoas quefazem as coisas metodicamente, o pároco tinha mais determinação e poder de auto-imolação do que intelecto ouoriginalidade. Em noites frias, de vento, saía sem umaqueixa a visitar os doentes que poderiam precisar dele; eem virtude de fazer coisas aborrecidas pontualmente, viviaa braços com comitês e conselhos locais. E nessa fase da sua vida (tinha sessenta e oito anos) começava a ser alvo da comiseração de velhas senhoras pela extrema magrezada sua pessoa que, diziam elas, gastava-se pelas estradas ao invés de ficar descansando diante de um fogo confortável.Sua filha mais velha, Elizabeth, vivia com ele e dirigia acasa, e já se parecia muito com ele na sinceridade seca e nos metódicos hábitos mentais. Dos dois filhos, um, Richard, era agente imobiliário, e o outro, Christopher,estudava direito. No Natal, naturalmente, todos se reuniam; no último mês a preparação da semana natalinaocupara o pensamento de senhor e empregada, que se orgulhavam mais a cada ano da excelência do seu equipamento. A falecida Mrs. Datchet deixara um magníficoarmário de roupa de cama e toalhas,cujo encargo Elizabethrecebeu com a idade de dezenove anos, quando sua mãemorreu. E a responsabilidade da família repousava nosombros da filha mais velha. Ela mantinha um bonito ban-do de galinhas amarelas, desenhava um pouco, e certasroseiras do jardim estavam especialmente a seu cargo.Assim, com o cuidado da casa, o cuidado das galinhas e odos pobres, ela não sabia o que era dispor de um minuto desocupado. Uma extrema retidão de pensamento, maisdo que qualquer dom, dava-lhe influência na família. Quando Mary escreveu dizendo que convidara RalphDenham para ficar com eles, acrescentara, por deferênciaao caráter de Elizabeth, que era simpático embora excêntrico, e que estivera a trabalhar demais, em Londres. Semdúvida, Elizabeth concluiria que Ralph estava apaixonadopela irmã, mas também não havia dúvida de que nem umapalavra seria trocada entre elas sobre o assunto, a não serque alguma catástrofe fizesse a menção do fato inevitável.

Mary foi para Disham sem saber se Ralph tinha a intenção de ir também; mas dois ou três dias antes do Natal, recebeu um telegrama dele pedindo que lhe reservasse um quarto na aldeia. Seguiu-se ao telegrama uma carta,em que dizia esperar tomar suas refeições com eles; mas que a tranqüilidade, essencial ao seu trabalho, fazia necessário que dormisse fora.

Mary passeava pelo jardim com Elizabeth e inspecionava as rosas quando a carta chegou.

– Mas isso é absurdo – disse Elizabeth, decididamente, quando o plano lhe foi explicado. – Há cinco quartos vagos, mesmo quando os meninos estão em casa. Além disso, não vai conseguir um quarto na aldeia. Também não devia trabalhar, se já está sobrecarregado de trabalho.

“Mas talvez ele não queira muito ver gente”, pensou Mary consigo mesma, embora exteriormente assentisse; e sentiu-se grata a Elizabeth por apoiá-la no que era, naturalmente, o seu desejo. Estavam cortando rosas na ocasião, e colocando-as, uma a uma, numa cesta rasa.

“Se Ralph estivesse aqui, acharia isto muito maçante”,pensou Mary, com um pequeno arrepio de irritação, o que a fez pôr sua rosa ao contrário na cesta. Tinham chegado ao fim do caminho, e enquanto Elizabeth endireitava algumas flores nos pés, fazendo-as ficar verticais atrás da sua guarda de barbante, Mary olhou o pai, que passeava para cima e para baixo, com as mãos atrás das costas e a cabeça baixa, em meditação. Obedecendo a um impulso que procedia, talvez, do desejo de interromper essa marcha metódica, Mary entrou na alameda relvosa e pôs a mão no seu braço.

– Uma flor para a sua botoeira,pai – disse,apresentando -lhe uma rosa.

– Eh, querida? – disse Mr. Datchet, pegando a flor e segurando-a num ângulo conveniente à sua vista fraca,mas sem interromper a caminhada.

– De onde veio esta, mocinha? Uma das rosas de Elizabeth. Espero que você lhe tenha pedido permissão.Elizabeth não gosta que se apanhem as suas rosas sem licença, com muita razão, aliás. Ele tinha o mau hábito, observou Mary, e nunca o notara tão claramente antes, de deixar que suas frases se prolongassem num murmúrio contínuo, de onde passava a um estado de abstração, profundo demais, presumiam os filhos, para ser posto em palavras.

– O quê? – disse Mary, interrompendo, pela primeira vez na vida, quando o murmúrio cessou. Ele não deuresposta. Ela sabia muito bem que ele queria ser deixado em paz, mas grudou-se a seu lado como se teriagrudado a um sonâmbulo que julgasse imperativo acordar. Não pôde pensar em coisa alguma para despertálo, exceto:

– O jardim está muito bonito, pai.

– Sim, sim, sim – disse Mr. Datchet, pronunciando as palavras juntas, da mesma maneira abstrata, e afundando a cabeça ainda mais no peito. E, de súbito, ao volverem sobre seus passos, para retomar o caminho, ele lançou:

– O tráfego aumentou muito, sabe? Mais material rodante já se faz necessário. Quarenta caminhões passaram ontem no trem das 12h15. Eu os contei pessoalmente.Eles suprimiram o das 9h30 e nos deram o das 8h30 em seu lugar – é conveniente para os homens de negócio,sabe? Você veio pelos das 3h10, ontem, suponho?

Ela disse “sim”, pois ele parecia esperar uma resposta;então olhou o relógio e saiu pelo caminho em direção àcasa, segurando a rosa no mesmo ângulo à sua frente.Elizabeth fizera a volta, pelo outro lado, de modo queMary se achou sozinha, com a carta de Ralph na mão.Sentia-se inquieta. Adiara o tempo de considerar as coisas com tanto sucesso; e agora que Ralph vinha mesmo,no dia seguinte, mal podia imaginar como considerariaa sua família. Achava provável que seu pai discutisse oserviço de trens com ele; Elizabeth se mostraria animada e sensível e ficaria a sair da sala para dar instruçõesaos empregados. Seus irmãos já tinham dito que organizariam um dia de caçada para ele. Agradava-lhe deixarobscuro o problema das relações de Ralph com os rapazes, contando que descobrissem algum terreno comumde concordância masculina. Mas que pensaria dela?Veria que era diferente do resto da família? Arquitetouum plano para atraí-lo à sua sala-de-estar e dirigir aconversa com habilidade para os poetas ingleses, queagora ocupavam lugar proeminente em sua pequena estante. Ademais, poderia fazê-lo entender, privadamente,que ela também achava a sua família excêntrica – excêntrica, sim, mas não enfadonha. Essa era a rocha em tor-no da qual decidira-se conduzi-lo. Pensou em comochamar sua atenção para a paixão de Edward porJorrocks, e para o entusiasmo que levava Christopher acolecionar bruxas e borboletas, embora já estivesse comvinte e dois anos. Talvez a silhueta de Elizabeth, se as frutas ficassem de fora, pudessem dar cor ao efeito geral,que ela queria produzir, de uma família repleta de peculiaridades e, quem sabe, limitada, mas não sem graça.Edward, via, passava o rolo na grama, para fazer exercício. E ao vê-lo assim, com as mãos rosadas, os pequenosolhos castanhos e a semelhança geral com um desajeitado cavalo de carroça marrom-empoeirado em pelagemde inverno, Mary sentiu-se envergonhada do seu ambicioso plano. Amava o irmão exatamente como ele era;amava-os a todos; e ao acompanhar os movimentos deEdward, para lá e para cá, para cá e para lá, seu robusto senso moral administrou uma boa correção ao elemento frívolo e romântico que despertara nela ao simples pensamento de Ralph. Sentiu-se segura de ser, fosse issobom ou mau, bastante parecida com o resto da família.

Sentado no canto de um vagão de terceira classe, na tarde do dia seguinte, Ralph tomou várias informações com um viajante comercial que ocupava o assento fronteiro. Faziam a volta de uma aldeia chamada Lampsher, a menos de três milhas, segundo imaginava, de Lincoln.Havia uma casa grande em Lampsher, perguntou, propriedade de um gentleman de nome Otway?

O viajante não sabia informar, mas rolou o nome de Otway na língua, pensativamente, e esse som alegrou Ralph de maneira surpreendente. Deu-lhe desculpa para tirar do bolso uma carta, a fim de verificar o endereço.

– Stogdon House, Lampsher, Lincoln – leu.

– O senhor encontrará alguém que o ajude,em Lincoln disse o homem. E Ralph teve de confessar que não ia para lá nessa noite.

– Vou ter de ir a pé, de Disham – disse. E no fundo do coração não podia deixar de maravilhar-se com o prazer que lhe dava fazer um vendedor num trem acreditar naquilo em que ele mesmo não acreditava. Pois a carta, assinada pelo pai de Katharine, não continha um convite ou garantia de que a própria Katharine pudesse estar presente; o único fato que comunicava era que, por quinze dias,seria esse o endereço de Mr. Hilbery. Mas, quando olhou pela janela, era em Katharine que pensava; ela também vira esses campos cinzentos e, talvez, estivesse lá onde as árvores subiam num aclive e uma luz amarela brilhava por um momento e apagava de novo, no sopé da colina. A luz brilhava nas janelas de uma velha casa cor de cinza.Recostou-se no seu canto, e esqueceu de todo o viajante.O processo de visualizar Katharine deteve-se no limiar da velha mansão; o instinto preveniu-o de que, se fosse longe demais nesse processo, a realidade logo forçaria a entrada.Não podia deixar de lado, inteiramente, a figura de William Rodney. Desde o dia em que soubera do noivado de Katharine, dos próprios lábios dela, evitara vestir seu sonho com os detalhes da vida real. Mas a luz da tarde que morria, brilhava de um brilho verde atrás das árvores hirtas e tomava-se símbolo de Katharine. A luz parecia expandir-lhe o coração e era como se Katharine considerasse com ele, agora, os campos cinzentos, como se estivesse no trem, pensativa, silente e infinitamente terna. A visão, porém, acossava-o muito de perto, e tinha de ser expulsa, pois o trem já diminuía a marcha. Seus solavancos abruptos acordaram-no de todo, e ele viu Mary Datchet,uma figura forte, arruivada, com alguma coisa de escarlate, quando o vagão deslisou ao longo da plataforma. Um rapaz alto, que a acompanhava, sacudiu-lhe a mão, tomou sua mala, e pôs-se à frente, mostrando o caminho, sem articular uma só palavra.

Nunca vozes são tão belas como numa noite de inverno, quando a escuridão quase encobre o corpo e elas parecemsurdir do nada, com uma nota de intimidade raramente ouvida durante o dia. Havia essa nota na voz de Mary,quando o saudou. E havia nela a névoa das sebes no inverno e o vermelho-vivo das folhas da amoreira em torno dela. Ele se sentiu logo pisando o chão firme de um mundo inteiramente diferente, mas não se deixou tomar imediatamente pelo prazer disso. Disseram que escolhesse entre irpara casa de carro com Edward ou a pé através dos campos com Mary – não seria caminho mais curto, explicaram,mas Mary o achava mais bonito. Decidiu ir com ela, cônscio de que a sua presença dava-lhe uma sensação de bemestar. E qual poderia ser a causa da alegria dela – imaginou,entre irônico e invejoso, enquanto a carreta puxada a pôneise punha a caminho, rapidamente, e o escuro da noite e aforma alta de Edward, de pé na direção, com as rédeas emuma mão e o chicote na outra, dançaram diante dos seus olhos. Gente da aldeia, que fora à feira na cidade, subia nassuas aranhas ou se punha a caminho, a pé, em pequenosgrupos, estrada afora. Muitas saudações foram dirigidas aMary, que respondia, com a adição do nome da pessoa.Mas logo ela se meteu através de um valado e ao longo deuma estradinha ainda mais escura que o vago verde que acircundava. Em frente deles, o céu mostrava-se agora amarelo-avermelhado, como a lâmina de alguma pedra semitranslúcida atrás da qual brilhasse uma lâmpada, enquantouma franja de árvores negras de ramos nítidos se projetavacontra a luz, obscurecida numa direção por uma elevação do terreno; em todas as outras direções, porém, a terra erachata até onde encontrava o céu. Um desses pássaros velozes e silenciosos das noites de inverno parecia segui-losatravés do campo, fazendo círculos uns poucos passos àfrente, desaparecendo e aparecendo outra vez.

Mary fizera esse mesmo caminho centenas de vezes no curso da sua vida, em geral sozinha, e em diferentes fases os fantasmas de velhas maneiras de sentir enchiam sua mente com uma cena inteira ou com uma fieira de pensamento à simples vista de três árvores de um determinado ângulo, ou ao som do faisão cacarejando no escuro. Mas nessa noite, as circunstâncias eram fortes o bastante para expulsar todas as outras cenas; e ela via o campo e as árvores com uma intensidade involuntária, como se não tivessem tais associações para ela.

– Bem, Ralph – disse –, isso é melhor que Lincoln’s Inn Fields, não é? Olha, alí está um pássaro para você! Oh, você trouxe binóculos, não? Edward e Christopher querem convidá-lo para dar tiros. Você sabe atirar? Não posso imaginar...

– Espera, você precisa explicar – disse Ralph. – Quem são esses rapazes? Onde vou ficar?

– Você vai ficar conosco, naturalmente – disse ela, com algum atrevimento. – Claro que vai ficar conosco. Você gostou de ter vindo, não?

– Se não gostasse, não estaria aqui – disse ele, firmemente. Continuaram a caminhar em silêncio; Mary teve o cuidado de não quebrar esse silêncio por algum tempo.Desejava que Ralph sentisse, como estava certa de que sentiria, todos os novos deleites da terra e do ar. Estava certa. Logo ele expressou o seu prazer, para desafogo dela.

– Esta é a espécie de lugar em que sempre pensei que você devia viver, Mary – disse, empurrando o chapéu para trás e olhando em torno. – Campo mesmo. Não uma propriedade de fidalgos.Respirou fundo e sentiu, mais intensamente do que o sentira nas últimas semanas, o prazer de ter um corpo.

– Agora, temos de achar nosso caminho através de uma cerca viva – disse Mary. Ao passar a sebe, Ralph rebentou um arame esticado por algum ladrão de caça por cima de um buraco, para pegar coelhos.

– Eles fazem muito bem de furtar caça – disse Mary,enquanto ele se livrava do arame. – Imagino se terá sido Alfred Duggins ou Sid Rankin. Como esperar que não o façam, com um salário de apenas quinze xelins por semana? Quinze xelins por semana! – repetiu, chegando do outro lado da sebe e passando os dedos pelo cabelo para tirar um pequeno galho que se prendera ali. Eu poderia viver com quinze xelins por semana, facilmente.

– Poderia mesmo? – perguntou Ralph – Não acredito.

– Oh, sim. E eles têm um chalé, além disso, e um jar-dim, onde podem plantar legumes. Não seria tão mau – disse Mary, com uma seriedade que impressionou Ralph.

Mas você se cansaria disso – disse.

Pois às vezes penso que é a única coisa de que a gente jamais se cansaria – respondeu ela.A idéia de um chalé onde plantar os próprios legumes e viver com quinze xelins por semana encheu Ralph de um extraordinário sentimento de descanso e satisfação.

– Mas não poderia ser numa estrada principal? Ou vizinho de uma mulher com seis crianças aos berros, que penduraria sua roupa para secar através do seu jardim?

– O chalé em que estava pensando fica isolado, num pequeno pomar.

– E o sufrágio? – perguntou ele, tentando fazer sarcasmo.

– Oh, há outras coisas no mundo além do sufrágio – disse ela, com uma precipitação um tanto misteriosa.

Ralph silenciou. Aborrecia-lhe que ela tivesse planos dos quais ele nada sabia; sentiu, porém, que não tinha o direito de perguntar-lhe mais. Seu pensamento fixou-se na idéia de viver num chalé no campo. Concebivelmente,pois não tinha tempo agora de considerar a matéria, jazia nisso uma tremenda possibilidade, uma solução para muitos problemas. Enterrou sua bengala na terra e procurou distinguir a forma do condado através da penumbra.

– Você conhece os pontos cardeais? – perguntou.

Claro. Por quem me toma, por uma cockney, como você mesmo? – E disse-lhe exatamente onde ficava o norte e onde o sul.

É minha terra, esta aqui. Poderia encontrar meu caminho de olhos vendados, só pelo olfato.

E como que para provar, andou um pouco mais depressa, a tal ponto que Ralph teve dificuldade de acompanhar seu passo. Ao mesmo tempo, sentia-se atraído por ela como nunca se sentira antes; em parte, sem dúvida,porque ela era aqui mais independente dele do que em Londres, e parecia firmemente enraizada num mundo do qual ele não fazia parte. Agora, a escuridão espessara a tal ponto que passou a segui-la implicitamente; teve mesmo de apoiar a mão no ombro dela quando saltaram de uma ribanceira para um atalho estreito. E sentiu-se, curiosamente, tímido diante dela, quando Mary se pôs a gritar com as mãos em concha na direção de um ponto de luz que balouçava acima da cerração, num campo vizinho.Ele gritou também, e a luz se imobilizou.

– É Christopher, que já chegou, e foi dar de comer às suas galinhas – disse ela.

Apresentou-o a Ralph, que pôde ver apenas uma figura alta, de polainas, elevando-se do meio de um círculo alvoroçado de corpos macios, cobertos de penas, sobre os quais a luz caía em trêmulos discos, revelando ora uma vívida mancha amarela, ora uma outra esverdinhada, preta e escarlate. Mary enfiou a mão no balde que ele carregava, e viu-se logo no centro de outro círculo; e enquanto distribuía o farelo, falava alternadamente com as aves e com o irmão, na mesma voz inarticulada, cacarejante, ou pelo menos assim soava a Ralph, que ficara fora das agitadas penas, metido no seu sobretudo negro.

Já não o envergava quando se sentaram em volta da mesa de jantar; apesar disso, parecia estranho no meio dos outros. Uma criação e vida no campo preservara neles todos um ar que Mary hesitava em chamar inocente ou jovem, ao compará-los, sentados agora num espaço oval iluminado docemente pela luz de velas. E, no entanto, ha-via alguma coisa disso, sim, mesmo no caso do pároco;Embora superficialmente vincado por rugas, seu rosto era de um rosa limpo, e seus olhos azuis mostravam expressão sagaz, tranqüila, de olhos que procuram uma curva da estrada ou uma luz distante através da chuva ou da escuridão do inverno. Mary olhou para Ralph. Nunca lhe parecera tão concentrado e cheio de determinação; como se, por detrás da sua fronte, se armazenasse tanta experiência, que ele era capaz de escolher que porção dela exibiria e que porção guardaria para si mesmo. Comparados com esse semblante carregado e sombrio, os rostos dos seus irmãos, abaixados sobre os seus pratos de sopa, eram apenas discos de carne rosada, ainda informe.

– O senhor veio pelo trem de 3h10, Mr. Denham? ‒ perguntou o reverendo Wyndham Datchet, enfiando o guardanapo no colarinho, de modo que quase todo o seu corpo ficou escondido por um largo losango branco. – Eles nos tratam muito bem, de modo geral. Considerando o aumento do tráfego, eles nos tratam de fato muito bem.Eu tenho, às vezes, a curiosidade de contar os caminhões nos trens de carga, e chegam a mais de cinqüenta, bem mais de cinqüenta, nesta estação do ano.

A presença desse jovem atento e bem-informado estimulava agradavelmente o velho, como era evidente pelo modo como acabava as últimas palavras das suas frases e pelo ligeiro exagero no número de caminhões nos trens.Na verdade, a carga principal da conversação recaía sobre ele, e ele a sustentava essa noite de uma maneira que levava os filhos a olharem-no com admiração. Sentiam acanhamento diante de Denham e ficavam contentes de não terem de falar eles mesmos. A massa de informações que Mr. Datchet exibia sobre esse particular recanto do Lincolnshire surpreendia realmente a seu filhos; pois, embora soubessem que existia, haviam esquecido sua extensão,como poderiam ter esquecido a quantidade de prata da família armazenada na arca apropriada, até que alguma rara celebração a trouxesse à luz.

Depois do jantar, negócios da paróquia levaram o vigário ao seu estúdio, e Mary propôs que se sentassem na cozinha.

– Não é realmente uma cozinha – apressou-se a explicar ao seu hóspede –, mas nós a chamamos assim.

– É o aposento mais simpático da casa – disse Edward.

– Tem ainda os velhos suportes de lanças aos lados da lareira, onde os homens penduram hoje as suas carabinas

– disse Elizabeth, mostrando o caminho, com um alto castiçal de metal dourado na mão. – Mostre os degraus a Mr. Denham, Christopher – disse, no corredor que descia. – Quando os comissários eclesiásticos estiveram aqui, dois anos atrás, disseram que esta era a parte mais interessante da casa. Esses tijolos estreitos provam que a construção tem quinhentos anos – quinhentos anos, acho –, talvez tenham dito seiscentos.

– Ela também sentia a tentação de exagerar a idade dos tijolos, como o pai exagerara o número de caminhões.Uma grande lâmpada pendia do centro do teto e, juntamente com um belo fogo de lenha, iluminava uma peça grande e espaçosa, com espigões que iam de parede a parede e uma substancial lareira feita com os mesmos tijolos estreitos que se dizia terem quinhentos anos de idade.Uns poucos tapetes e uma meia dúzia de cadeiras de braços haviam transformado essa velha cozinha numa salade-estar. Elizabeth, depois de mostrar os suportes das armas e os ganchos de defumar presuntos e outras provas de incontestável idade, e de explicar que fora Mary quem tivera a idéia de transformar a cozinha em sala – além disso, era usada para pendurar as mudas de roupas para os homens quando voltavam da caça, considerou haver cumprido seus deveres de anfitriã, e sentou-se numa cadeira diretamente sob a lâmpada, junto a uma longa e estreita mesa de carvalho. Pôs um par de óculos de osso no nariz e puxou uma cesta cheia de agulhas e novelos de lã. Em poucos minutos, um sorriso lhe aflorou ao rosto e ali ficou pelo resto da noite.

– Você quer vir caçar com a gente amanhã? – perguntou Christopher, que, em geral, formara uma impressão favorável do amigo de sua irmã.

– Não vou atirar, mas acompanho vocês – disse Ralph.

– Você não gosta de caçar? – perguntou Edward, cujas dúvidas ainda não se haviam aplacado.

– Nunca dei um tiro na minha vida – disse Ralph, voltando-se para encará-lo, pois não sabia como a confissão seria recebida.

– De qualquer maneira, você não teria muita oportunidade para isso em Londres,imagino – disse Christopher.

– Mas não vai achar aborrecido apenas olhar a gente?

– Posso observar os pássaros – respondeu Ralph, com um sorriso.

– Se é disso que você gosta, conheço um lugar ideal paraobservar pássaros – disse Edward.– Tem um sujeito que vemde Londres todo ano, nesta estação, só para isso. É um lugarfantástico para gansos selvagens e patos. Já ouvi desse homem que é um dos melhores lugares do país para pássaros.

– É provavelmente, o melhor lugar da Inglaterra – dis-se Ralph. Ficaram todos contentes com esse elogio ao seu condado natal. E Mary teve, então, o prazer de ver que as breves perguntas e respostas perdiam seu laivo de suspeita, no que dizia respeito a seu irmãos, e se transformavam numa genuína conversação sobre os hábitos dos pássaros.Quanto esta derivou para uma discussão dos hábitos dos advogados, achou que já não tinha obrigação de participar. Ficava satisfeita de ver que seus irmãos gostavam de Ralph a ponto de desejarem que formasse boa opinião deles. Se ele gostara deles ou não, era impossível dizer,dada a sua maneira bondosa, mas experiente. De quando em quando ela alimentava o fogo com uma nova acha, e à medida que a cozinha se enchia do calor agradável e seco da madeira a queimar, todos, à exceção de Elizabeth, fora do alcance do fogo, foram ficando menos preocupados com o efeito que faziam e mais inclinados a dormir. Nesse momento, um veemente arranhar foi ouvido na porta.

– Piper! Oh, diabo. Vou ter de me levantar – murmurou Christopher.

– Não é Piper, é Pitch – grunhiu Edward.

– Dá no mesmo, tenho de me levantar – resmungou Christopher. – Deixou o cão entrar, e ficou por um momento à porta, que abria para o jardim, para reanimar-se com uma lufada do negro ar de fora.

– Entre e feche a porta – gritou Mary, voltando-se a meio na cadeira.

– Vamos ter um belo dia amanhã – disse Christopher,com complacência, e sentou-se no chão, aos pés dela,apoiando as costas nos seus joelhos e estirando as pernas de meias compridas para o fogo, sinal de que já não sentia reservas na presença do estranho. Era o mais moço da família, e o favorito de Mary, em parte porque seu caráter se parecia ao dela, como o caráter de Edward se parecia ao de Elizabeth. Ela fez dos joelhos um apoio confortável para a cabeça dele, e passou os dedos pelo seu cabelo.

“Gostaria que Mary acariciasse minha cabeça desse modo”, pensou Ralph, subitamente, e olhou para Christopher quase com afeição, por ter provocado esse afago da irmã. Imediatamente pensou em Katharine, e o pensamento dela veio cercado por espaços de noite e de céu aberto; e Mary, que o observava, viu aprofundarem-se os vincos do seu cenho. Estendeu o braço e pôs um pedaço de lenha no fogo, obrigando-se a ajustá-lo cuidadosamente na fogueira vermelha, e também a confinar seus pensamentos esse ambiente.

Mary deixara de afagar a cabeça do seu irmão; ele bateu com a cabeça, impacientemente, entre os seus joelhos e, como se fosse ainda uma criança, ela passou a repartirlhe os cachos grossos, avermelhados, para um lado e para outro. Mas uma paixão muito mais forte do que qualquer irmão seria capaz de inspirar-lhe, se apossara da sua alma;e vendo a mudança da expressão de Ralph, sua mão continuou quase automaticamente os seus movimentos, enquanto a mente procurava com desespero algum apoio em margens escorregadias.