Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 28 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 27

Londres, nos primeiros dias de primavera, tem botões que se abrem e flores que, de súbito, sacodem no ar suas pétalas brancas, púrpura ou carmesim – em competição com a grande mostra dos canteiros dos jardins; essas flores citadinas, porém, são apenas outras tantas portas escancaradas em Bond Street e adjacências, num convite ao transeunte para que olhe um quadro, ouça uma sinfonia,ou apenas se amontoe lá dentro, esmagado entre toda uma variedade de seres humanos, altamente articulados, excitados e todos brilhantemente coloridos. Assim mesmo, não deixam de ser rivais respeitáveis do processo mais tranqüilo da florescência vegetal. Quer haja, quer não haja um motivo generoso na raiz, um desejo de partilhar e comunicar; quer se trate de uma animação de insensato antagonismo ou fervor, o efeito, enquanto dura, certamente encoraja aqueles que são jovens e os que são ignorantes a ver no mundo um gigantesco bazar, com estandartes flutuando e divãs abarrotados (para o seu deleite) dos despojos dos quatro cantos do globo.

Enquanto Cassandra Otway percorria Londres, provida de xelins que faziam girar borboletas,ou,mais freqüentemente, com grandes cartões brancos, que ignoravam asborboletas, a cidade lhe parecia a mais opulenta e hospitaleira das anfitriãs. Depois de visitar a National Gallery, ouHertford House, de ouvir Brahms ou Beethoven, no Bechstein Hall, voltava para encontrar uma outra pessoa àsua espera, em cuja alma estavam engastados alguns grãosda inapreciável substância a que ainda chamava realidade, eque ainda acreditava ser possível encontrar. Os Hilbery,como se diz, ‘conheciam todo mundo’, e a arrogante pretensão era, sem dúvida, confirmada pelo número de casasque, dentro de certa área, acendiam suas lâmpadas à noite,abriam as portas depois de três da tarde, e admitiam osHilbery às suas salas de jantar, digamos, uma vez por mês.Uma indefinível liberdade e autoridade de maneiras, compartillhada pela maior parte das pessoas que viviam nessascasas, parecia indicar que, fosse questão de arte, música ougoverno, todos se achavam confortavelmente do lado certodos portões, e podiam sorrir com indulgência da vasta massa de humanidade obrigada a esperar e lutar e pagar entrada, com moeda corrente, à porta. Tais portões abriam-seinstantaneamente para receber Cassandra. Ela era naturalmente crítica do que ocorria lá dentro, e dada a citar o que Henry teria dito; mas, muita vez, contrariava Henry, in absentia, e invariavelmente fazia ao seu parceiro no jantar ouà velha senhora bondosa que lembrava sua avó o cumprimento de acreditar que aquilo que diziam fazia sentido.Pela luz que brilhava em seus olhos atentos, muita rudezade expressão e muito desmazelo de aparência lhe eram perdoados. Toda gente sentia que, com um ano ou dois deexperiência, apresentada a alguns bons costureiros e preservada de más influências, ela poderia tornar-se um trunfo.Essas velhas senhoras, que se sentam na fímbria dos salõesde baile, palpando o estofo da humanidade entre indicadore polegar, e respirando tão macio que os colares, que se alçam e abatem nos seus colos, parecem representar uma força elementar, como a das ondas do oceano da humanidade, concluíam; com a ponta de um sorriso, que ela ‘serviria’. Queriam dizer que, com toda probabilidade, casaria com algum moço cuja mãe elas respeitavam.

William Rodney era fértil em sugestões. Conhecia pequenas galerias, e concertos seletos, e performances privadas, e de algum modo conseguia arranjar tempo para encontrar Katharine e Cassandra, levá-las a tomar chá ou a jantar e cear em seus aposentos, depois. Cada um dos catorze dias de que ela dispunha prometia, assim, algum brilho em seu sóbrio contexto. Mas o domingo se aproximava. O dia é de regra dedicado à natureza. O tempo,quase agradável, prestava-se a uma excursão. Mas Cassandra rejeitou Hampton Court, Greenwich, Richmond e Kew em favor do Jardim Zoológico. Já se divertira, certa vez, com a psicologia dos animais, e ainda sabia alguma coisa sobre caracteres inatos. Na tarde de domingo, assim, Katharine, Cassandra e William Rodney foram de carro até o Zoo. Quando o táxi se aproximava da entrada, Katharine inclinou-se para diante e acenou a um rapaz que andava rapidamente na mesma direção.

– Aí está Ralph Denham! – exclamou. – Disse-lhe que nos encontrasse aqui. – Tinha ido, até, com uma entrada para ele. A objeção de William de que ele não seria admitido foi silenciada imediatamente. Mas o modo pelo qual os dois homens se cumprimentaram era significativo do que iria acontecer. Logo que admiraram os pássaros no grande viveiro, William e Cassandra deixaram-se ficar para trás,e Ralph e Katharine apertaram o passo,à frente.Era um arranjo em que William tinha sua parte, e que lhe convinha, mas que mesmo assim o aborrecia. Achava que Katharine devia tê-lo avisado que convidara Denham.

– Um dos amigos de Katharine – disse, rispidamente.

Era claro que estava irritado, e Cassandra percebeu seu aborrecimento. Estavam junto ao cercado de algum porco selvagem do Oriente, e ela provocava o bruto, gentilmente, com a ponta da sombrinha, quando mil pequenas observações pareceram, de repente, congregar-se num centro. O centro era de intensa, curiosa, emoção. Seriam eles felizes? Rejeitou logo a questão, mal a formulou, censurando-se por aplicar medidas tão simples às raras e esplêndidas emoções de um par tão excepcional. Não obstante,sua maneira sofreu imediata alteração, como se pela primeira vez se sentisse conscientemente feminina, e como se William pudesse desejar mais tarde fazer-lhe confidências. Esqueceu tudo sobre a psicologia dos animais, e sobre a freqüência recorrente de olhos azuis e castanhos,e instantaneamente voltada para os seus próprios sentimentos como mulher, tornou-se capaz de dispensar consolação, e esperava que Katharine se mantivesse à frente com Mr. Denham, tal como uma criança que brinca de gente-grande espera que a mãe não chegue e estrague o jogo. Ou seria, ao contrário, que ela deixava de fingir-se adulta e tomava consciência de ser de fato alarmantemente amadurecida, e de não estar brincando?

O silêncio ainda não fora quebrado entre Katharine e Ralph Denham, mas os ocupantes das diversas gaiolas faziam as vezes do diálogo.

– O que andou fazendo, desde que nos vimos? – perguntou Ralph por fim.

– Fazendo? – ponderou ela. – Entrando nas casas dos outros, saindo da casa dos outros. Pergunto-me se esses animais serão felizes? – especulou, detendo-se diante de um urso escuro, que brincava filosoficamente com uma borla que talvez tivesse feito parte, um dia, de um guardachuva de mulher.

– Receio que Rodney não tenha gostado da minha vinda – observou Ralph.

– Não gostou. Mas isso passa logo – replicou ela. A indiferença de sua voz intrigou Ralph, e ele teria apreciado uma explicação mais completa. Mas não lhe pediria explicações. Cada momento prometia ser, ao que via,completo em si mesmo, nada devendo da sua felicidade a explicações, nada pedindo ao futuro: nem tons brilhantes nem sombrios.

– Os ursos parecem contentes – observou. – Mas devemos comprar-lhes um saco de alguma coisa. Ali está o lugar onde vendem pãezinhos doces. Vamos comprarlhes alguns. – Caminharam até o balcão em que se empilhavam sacos de papel, e cada um deles estendeu um xelim à moça, que não sabia se atendia à senhora ou ao cavalheiro, decidindo, porém, em obediência a razões convencionais, que cabia ao cavalheiro pagar.

– Quero pagar – disse Ralph peremptoriamente, recusando a moeda que Katharine lhe estendia. – Tenho uma razão para isso – acrescentou, ao ver que ela sorria com o tom da decisão.

– Acredito que tenha uma razão para tudo o que faz concordou ela, partindo o pão em pedaços e lançando-os nas goelas dos ursos –, mas não posso imaginar que dessa vez seja uma boa razão. Qual é?

Não quis dizer-lhe. Não podia explicar que consagrava conscientemente toda a sua felicidade a ela, e desejava,por absurdo que isso pudesse ser, colocar tudo o que tinha na pira ardente, mesmo a sua prata e o seu ouro. Queria conservar a distância entre eles – a distância que separa,no santuário, o devoto da imagem.

As circunstâncias conspiravam para fazer isso mais fácil ali do que o seria, por exemplo, num salão, onde estariam separados por uma bandeja de chá. Via-a contra um fundo de pálidas grotas e suaves colinas; camelos voltavam para ela os olhos oblíquos, girafas observavam-na,fastidiosas, do alto de suas eminências melancólicas, e as trombas dos elefantes, forradas de seda cor-de-rosa, extraíam pãezinhos doces, com o maior cuidado, das suas duas mãos estendidas. E havia os pavilhões aquecidos.Ralph viu-a curvada sobre pítons enrodilhadas na areia,ou observando a rocha escura que quebrava a água estagnada do tanque dos crocodilos, ou explorando alguma seção minúscula de floresta tropical em busca do olho dourado de um lagarto ou do convulsivo movimento dos sapos para dentro de seus flancos verdes. Sobretudo, viu-a recortada contra o verdor das águas profundas, em que esquadrões de peixes de prata moviam-se incessantemente, ou devoravam-na por um momento com os olhos arregalados, apertando suas bocas distorcidas contra o vidro,e fazendo tremer atrás deles as caudas retas, exatas. Havia também o pavilhão dos insetos, onde ela levantou as vendas das pequenas gaiolas e maravilhou-se com os riscos cor de púrpura estampados nas ricas asas de tussor de alguma borboleta há pouco emergida e ainda semiconsciente, ou com as lagartas imóveis, semelhantes a gravetos nodosos de uma árvore de descorada casca, ou com as esguias, verdosas serpentes, que golpeavam seguidamente a parede de vidro com suas ágeis línguas bífidas. O calor do ambiente e o esplendor de pesadas flores que boiavam na água ou erguiam-se, rígidas, de grandes jarrões vermelhos, combinados com o espetáculo de curiosos padrões e formas fantásticas, produziam uma atmosfera em que se-res humanos pareciam pálidos e tendiam a perder a voz.

Abrindo a porta de um pavilhão que retinia com a risadagalhofeira e profundamente infeliz dos macacos, descobriram William e Cassandra. William tentava fazer que umpequeno animal relutante descesse do seu alto poleiro paraganhar um pedaço de maçã.Cassandra lia,em tons estridentes, uma informação sobre a disposição reclusa e os hábitosnoturnos da dita criatura. Viu Katharine e exclamou:

Aí está você! Impeça William de torturar esse pobre ai-ai.

Pensávamos que tínhamos perdido vocês – disse William. Olhava de um para o outro, e parecia inventariar a aparência descuidosa de Denham. Parecia procurar al-gum pretexto de malevolência, mas falto de um, permaneceu em silêncio. O olhar, o leve tremor do lábio superior, não passaram despercebidos a Katharine.

– William não é gentil com animais – observou. – Não sabe do que gostam e do que não gostam.

– Entendo que é versado na matéria, Denham – disse Rodney, retirando a mão com a maçã.

– É principalmente uma questão de saber como afagálos – disse Denham.

– Qual o caminho para o Pavilhão dos Répteis? – perguntou-lhe Cassandra, não movida pelo desejo de visitar os répteis mas em obediência à sua nova sensibilidade feminina, que a impelia a encantar e conciliar o outro sexo.Denham começou a dar-lhe indicações; Katharine e William caminharam juntos.

– Espero que tenha tido uma tarde agradável – observou William.

– Gosto de Ralph Denham – ela respondeu.

– Ça se voit – replicou William, com superficial urbanidade.

Muitas réplicas seriam óbvias, mas desejando, em geral, ter paz, Katharine limitou-se a inquirir:

– Você volta conosco para o chá?

Cassandra e eu tínhamos pensado em tomar chá numa confeitariazinha de Portland Place – respondeu ele.

Não sei se você e Denham gostariam de vir conosco.

Perguntarei a ele – respondeu, voltando a cabeça para procurá-lo. Mas Ralph e Cassandra estavam de novo absorvidos no macaco ai-ai.

William e Katharine observaram-nos por um momento, e cada um olhou com curiosidade para o objeto da preferência do outro. Mas demorando o olho em Cassandra, a cuja elegância natural os costureiros tinham,agora, feito justiça, William disse asperamente:

– Se você vier, espero que não procure fazer tudo para que eu pareça ridículo.

– Se é isso que teme, então certamente não irei – replicou Katharine. Estavam aparentemente a contemplar a enorme jaulacentral dos macacos, e ela, seriamente aborrecida com William, comparou-o a um miserável animal misantropoque do alto de um mastro, embrulhado num pedaço de xalevelho, lançava olhares malévolos e desconfiados aos seus companheiros. Sua tolerância começava a abandoná-la; osacontecimentos da última semana tinham-na gastado até omais tenro fio. Sentia-se num estado de espírito, conhecidotalvez dos dois sexos, em que as diferenças de um e de outro distinguem-se claramente, de modo que a necessidadede associação parece degradante, e o laço, que em tais momentos é extremamente estreito, pende como um braço emvolta do pescoço. As exigências por demais estritas de William e os seus ciúmes haviam-na arrastado até um baixo e horrível charco da sua natureza, onde ainda tinha cur-so a luta primeva entre o homem e a mulher.

– Parece que você tem prazer em magoar-me – persistiu William. – Por que disse aquilo, há pouco, sobre o meu comportamento com animais? – E assim falando, passava a bengala, com estrépito, pelas barras de uma jaula, o que dava às suas palavras um acompanhamento particularmente exasperante para os nervos de Katharine.

– Porque é a verdade – disse ela. – Você não pensa em ninguém, só em você mesmo.

– Não é verdade! – disse William. Pela barulheira que fazia de propósito, reunia agora a buliçosa atenção de meia dúzia de macacos. Para propiciá-los, ou para mostrar consideração pelos seus sentimentos, ofereceu-lhes a maçã que tinha na mão.

A cena, desgraçadamente, era tão cômica e ilustrava de maneira tão apta o que lhe ia na mente, que Katharine foi tomada de um frouxo de riso. Pôs-se a rir de maneira incontrolável. William ficou rubro. Nenhuma demonstração de fúria o teria ferido mais profundamente. Não era só que ela ria dele: a indiferença do som era horrível.

– Não sei do que se ri – disse e, voltando-se, viu que os outros se tinham reunido a eles. Como se o fato tivesse sido combinado antes, os dois pares se separaramimediatamente, Katharine e Denham saindo do pavilhão sem mais que um olhar perfunctório em redor deles. Apressando-se dessa forma, Denham obedecia aoque parecia ser o desejo de Katharine: alguma mudançase processara nela. Associava-a ao riso e às poucas palavras que trocara, em particular, com Rodney; sentia queela se tornara quase hostil; falava-lhe, mas seus reparoseram indiferentes, e a atenção dela parecia divagar. Essaalteração foi-lhe, de começo, bastante desagradável;logo, porém, achou-a salutar. A pálida atmosfera do dia,garoento, afetava-o também. O encanto, a mágica insidiosa em que se tinha luxuriado, se fora, subitamente; oque sentia agora, não passava de um respeito afetuoso; epara grande prazer seu, descobriu-se a pensar espontaneamente no prazer que teria em ver-se sozinho, essanoite, no quarto. Surpreso ante o inopinado da mudançae a extensão da sua liberdade, concebeu um plano audacioso pelo qual o fantasma de Katharine seria ainda maiseficientemente exorcizado do que pela simples abstinência. Pedir-lhe-ia que viesse a sua casa tomar chá.

Obrigá-la-ia a passar pela prova da família; ficaria exposta a uma luz impiedosa e reveladora. Sua família nãoencontraria nada para admirar em Katharine, e ela, tinhacerteza, os desprezaria a todos, e isso também o ajudaria.Sentia que ficava cada vez mais cruel com relação a ela.Com essas corajosas medidas, qualquer um, achava ele,poderia liquidar as absurdas paixões que eram causa detanto infortúnio e tantas perdas. Podia antever um tempo em que as suas experiências, a sua descoberta e o seutriunfo seriam postos à disposição dos irmãos mais jovens que se encontrassem nas mesmas aperturas.Consultou o relógio e observou que os jardins em breveseriam fechados.

– De qualquer maneira – disse –, penso que o que vimos é bastante para uma tarde. Aonde foram os outros?

– Olhou por cima do ombro e, não vendo traço deles,disse imediatamente: – Será melhor ficarmos independentes deles. O melhor plano seria você vir comigo e to-mar chá lá em casa.

– Por que não viria você comigo?

– Porque estamos a um passo de Highgate, aqui – replicou prontamente.

Ela assentiu, não tendo nenhuma noção se Highgate era mesmo junto de Regent’s Park ou não. Alegrava-se apenas com esse adiamento de uma hora ou duas da volta à mesa da família, em Chelsea. Foram-se, então, com todo o afinco, pelas alamedas sinuosas de Regent’s Park e pelas ruas da vizinhança, que o ar de domingo fazia irreconhecíveis. Não sabendo o caminho, entregava-se inteiramente a ele, e via em seu silêncio uma boa coberta sob a qual podia continuar a cultivar sua raiva de Rodney.

Quando desceram do trem, em Highgate, ainda mais cinzento e mais sombrio, ela se perguntou, pela primeira vez, aonde Ralph a estaria levando. Teria uma família ou viveria sozinho, em quartos alugados? De modo geral,inclinava-se a crer que era o filho único de uma velha mãe, possivelmente inválida. Projetou, de leve, contra a paisagem neutra que atravessavam, a pequena casa branca e a trêmula senhora levantando-se atrás da mesa de chá para recebê-la com hesitantes palavras sobre “os amigos de meu filho”; e estava a ponto de perguntar a Ralph o que a esperava, quando ele abriu de chofre uma das infinitas portas iguais de madeira, e levou-a por um passeio calçado até um pórtico no estilo conhecido como alpino.Enquanto ouviam a campainha tocar no porão, ela não conseguiu conjurar uma visão qualquer que substituísse a outra, tão rudemente destruída.

Devo preveni-la de que será provavelmente uma festa de família – disse Ralph. – Em geral, a maior parte deles está em casa aos domingos. Podemos ir para o meu quarto depois.

Você tem muitos irmãos e irmãs? – perguntou ela, sem esconder a consternação.

Seis ou sete – respondeu duro. Mas a porta já se abria. Enquanto Ralph tirava o sobretudo, ela teve tempo de notar as samambaias, as fotografias e as cortinas, ede ouvir uma zoada, ou melhor, um burburinho de vozes que procuravam fazer calar umas às outras, pelo som quetinham. A rigidez do extremo acanhamento tomou conta dela. Ficou tão atrás de Denham quando pôde, e entrou, hirta, no encalço dele, numa sala resplandescentede luzes sem abajur; sobre um grande número de pesso-as, de diferentes idades, sentadas em volta de uma vasta mesa de jantar redonda, desordenadamente coberta deiguarias e impiedosamente revelada pelo gás incandescente. Ralph marchou direto para a ponta mais afastadada mesa.

– Mãe, esta é Miss Hilbery – disse.

Uma alentada senhora, curvada sobre um precário fogareiro, levantou os olhos com um pequeno franzir de sobrolhos:

– Desculpe. Pensei que fosse uma das minhas próprias meninas; Dorothy – continuou, no mesmo fôlego, para alcançar a empregada antes que saísse da sala –, vamos precisar de mais álcool, a não ser que o fogareiro esteja estragado. Se um de vocês pudesse inventar um bom fogareiro a álcool... – suspirou, olhando em geral para toda a mesa; depois pôs-se a procurar entre a porcelana à sua frente duas xícaras limpas para os recém-chegados.

A luz cruel revelava mais coisas feias reunidas num só recinto do que Katharine se lembrava de ter visto há muitotempo. Era a fealdade de enormes pregas de material marrom, em alças e festões, de cortinas de pelúcia, das quaispendiam pompons e franjas,e que escondiam parcialmenteestantes arriadas de compêndios escolares de capa preta.Seu olho foi atraído pelas velhas ripas de madeira, cruzadascontra o fundo verde e fosco das paredes; onde quer que houvesse uma saliência chata em cima, havia uma samambaia a balançar dentro de um vaso de louça rachada, ou um cavalo de bronze tão empinado para trás que um toco de árvore tinha que sustentar seus quartos dianteiros. As águasda vida familiar como que subiram em torno dela e fecharam-se sobre sua cabeça; e ela mastigou em silêncio.

Por fim, Mrs. Denham olhou por cima da sua xícara e disse:

– A senhora vê, Miss Hilbery, meus filhos todos chegam em horas diferentes, e querem coisas diferentes (abandeja deve ir lá para cima, se você terminou, Johnnie).Meu filho Charles está de cama com um resfriado. Que mais se podia esperar? A jogar futebol no molhado! Jáexperimentamos tomar chá na sala de visitas, mas nãodeu certo. Um garoto de dezesseis anos, que parecia ser Johnny,grunhiu zombeteiramente à noção de chá na sala de visita e à necessidade de levar uma bandeja para o irmão. Mas foi embora, instado pela mãe a prestar atenção ao que estava fazendo, e fechou a porta atrás de si.

– É muito melhor assim – disse Katharine, aplicando-seconscienciosamente à dissecção do seu bolo; a fatia que lhetinham dado era grande demais. Sentia que Mrs. Denham suspeitava que estivesse a fazer comparações críticas. Sabiaque não ganhava muito terreno com o bolo. Mrs. Denhamolhara para ela tantas vezes que estava claro para Katharineque ela se perguntava quem era essa mulher e por que diabo Ralph a trouxera para tomar chá com eles. Havia umarazão óbvia, que Mrs. Denham talvez tivesse alcançado, aessa altura. Externamente, comportava-se com uma civilidade bastante enferrujada e laboriosa. A conversa era sobreHighgate, seu desenvolvimento e sua situação.

– Quando nos casamos – disse –, Highgate era inteiramente separado de Londres, Miss Hilbery, e esta casa,embora a senhora não acredite, dava para pomares de maçãs. Isso foi antes que os Middletons construíssem a casa deles em frente à nossa.

– Deve ser uma grande vantagem viver assim no alto de uma colina – disse Katharine. – Mrs. Denham concordou efusivamente, como se sua opinião sobre o bom senso de Katharine tivesse aumentado.

– Sim, de fato. Achamos que isso é saudável – disse e continuou, como gente que vive em subúrbios costuma fazer, a provar que Highgate era muito melhor para a saúde, muito mais conveniente e menos estragado do que qualquer outro bairro de Londres. Falava com tal ênfase,que era óbvio que expressava opiniões impopulares, e que os filhos discordavam dela.

– Caiu mais um pedaço do teto da copa – disse Rester,abruptamente. Rester era uma rapariga de dezoito anos.

– A casa toda vai cair um dia desses – resmungou James.

– Tolice – disse Mrs. Denham. – É só um pouco de estuque. Não sei como uma casa poderia resistir ao desgaste combinado de vocês todos.Aí explodiu alguma pilhéria familiar, que Katharine não entendeu. Até Mrs. Denham juntou-se, sem querer,ao riso geral.

– Miss Hilbery vai achar que somos todos muito maleducados – acrescentou reprovadoramente. Miss Hilbery sorriu e sacudiu a cabeça, e sentiu que muitos olhos pousaram nela, por um momento, como se fossem ter grande prazer em discutir a sua pessoa logo que se despedisse.Devido, talvez a esse olhar crítico, Katharine decidiu que a família de Ralph Denham era ordinária, informe, com falta de encanto, e apropriadamente representada pela natureza horrenda da mobília e da decoração da casa. Correu os olhos pela prateleira da estante, atravancada de carros de bronze, vasos de prata e ornamentos de porcelana, e tudo era feio ou excêntrico.

Não aplicou seu julgamento conscientemente a Ralph mas quando, um momento depois, olhou para ele, classificou-o em nível mais baixo do que em qualquer outra ocasião desde que o conhecera.

Ele não fizera nenhum esforço para conter os desconfortos da sua apresentação, e agora, ocupado numa discussão com o irmão,parecia esquecido de sua presença.Talvezela tivesse contado mais com o apoio dele do que pensava,porque essa indiferença, acentuada, como o era, pela vulgaridade e insignificância do ambiente, despertou-a não sópara essa feiúra, mas para sua própria loucura. Rememorouuma cena após outra em poucos segundos, com aquele calafrio que é quase um rubor. Acreditara nele, quando lhefalara em amizade. Acreditara numa luz espiritual, a brilhar, firme e constante, por trás da desordem errática, daincoerência da vida. A luz se fora agora, de súbito, como seuma esponja a tivesse obliterado. Ficavam a desordem da mesa e a tediosa, mas exigente, conversação de Mrs. Denham: ambas acometiam, na verdade, uma mente desprovida de qualquer defesa, e – agudamente cônscia da degradação que é o resultado da luta, seja vitoriosa ou não – ela pensou lugubremente na própria solidão, na futilidade da vida, na aridez e no prosaico da realidade, em WilliamRodney, em sua mãe, e no livro inacabado.

Suas respostas a Mrs. Denham eram perfunctórias ao ponto de rudeza, e a Ralph, que a observava atentamente,parecia mais longe do que era compatível com sua proximidade física. Lançava-lhe um olhar, remoía novas etapas da sua discussão, decidido a não deixar que nenhuma fantasia restasse ao fim da experiência. Um momento depois,um silêncio repentino e completo desceu sobre todos eles.O silêncio de toda essa gente reunida em torno daquela mesa desleixada era enorme e horrendo; alguma coisa terrível parecia a ponto de acontecer, mas eles o suportaram obstinadamente. Um segundo depois, a porta se abriu e houve um movimento geral de alívio; gritos de “Olá, Joan.Não sobrou nada para você” quebraram a penosa concentração de tantos olhos fixos na toalha, e pôs as águas da vida familiar a saltitar em pequenas ondas outra vez. Era visível que Joan exercia algum poder misterioso e benéfico sobre a família. Ela foi até Katharine, como se tivesse ouvido falar muito dela e estivesse deveras contente de vê-la, afinal, em carne e osso. Explicou que estivera de visita a um tio doente, e que isso a atrasara. Não, não tomara chá, mas uma fatia de pão seria o bastante. Alguém lhe deu um bolo que fora conservado quente no guardafogo; sentou-se ao pé de sua mãe, as aflições de Mrs.Denham pareceram relaxar, todo mundo se pôs a comer e beber, como se o chá tivesse recomeçado. Hester explicou espontaneamente a Katharine que estava estudando para passar num certo exame, porque queria mais do que qualquer outra coisa no mundo ir para Newham.

– Pois quero ver você conjugar amo, amas – pediu Johnnie.

– Não, Johnnie, nada de grego às refeições – disse Joan,ouvindo instantaneamente o que ele dissera. – Ela fica a noite inteira acordada em cima dos livros, Miss Hilbery, e estou certa de que isso não é maneira de passar em exames – continuou, sorrindo para Katharine, com o sorriso brincalhão, mas aflito, da irmã mais velha que tem os irmãos e irmãs menores quase como filhos.

– Joan, você não pensa seriamente que amo é grego? – perguntou Ralph.

– Eu disse grego? Bem, deixa para lá. Nada de línguas mortas à hora do chá. Meu querido menino, não se dê ao trabalho de me fazer uma torrada...

– Ou, se vai fazer uma torrada, o garfo próprio estaráem algum lugar... – disse Mrs. Denham, a cultivar a ilusãode que a faca de pão era ainda susceptível de estragar-se. – Poderia um de vocês tocar e pedir um? – disse, sem qualquer convicção de que seria obedecida. – Mas Ann não vem ficar com Tio Joseph? – continuou. – Se vem, poderiam mandar-nos Amy... – e no misterioso deleite de sabermais detalhes de todos esses arranjos e de sugerir planosmais razoáveis de sua própria invenção, os quais, pela indignação com que falava, ninguém parecia querer adotar,Mrs. Denham esqueceu completamente a presença daquela visita vestida à perfeição, a quem cumpria falar das amenidades de Highgate. Logo que Joan se sentara, uma discussão começara dos dois lados de Katharine: teria o Exército da Salvação o direito de cantar hinos nas esquinasdomingo de manhã, atrapalhando o sono de James e espezinhando os direitos da liberdade individual?

– Você sabe, James gosta de ficar na cama e dormir como um porco – disse Johnnie, dirigindo-se a Katharine, o que pôs James furioso: – Jamais – exclamou, tendo também Katharine como alvo:

– Porque os domingos são a única oportunidade na semana de pôr em dia meu sono atrasado. Johnnie mexe com os mais fedorentos produtos químicos na copa...

Apelavam para ela; ela esqueceu seu bolo e começou a rire a falar e a discutir com súbita animação. A numerosa família parecia-lhe tão calorosa e vária que se esqueceu de cobrardeles seu mau gosto em matéria de louça. Mas a questãopessoal entre Johnnie e James deitava raízes em outra questão maior,aparentemente já debatida,de modo que era comose papéis tivessem sido distribuídos entre a família, e Ralphdesempenhasse o principal; Katharine se viu defendendocontra ele a causa de Johnnie, o qual sempre perdia a cabeçae ficava excitado ao discutir com Ralph.

– Sim, sim, é isso que quero dizer! Ela me compreendeu muito bem – exclamou, depois que Katharine reformulou seu caso, tornando-o mais preciso. O debate foi deixado quase inteiramente em mãos de Katharine e Ralph. Eles se encaravam fixamente nos olhos, como lutadores, para ver qual o movimento seguinte, e enquanto Ralph falava, Katharine mordia o lábio inferior, e estava sempre pronta com seu argumento tão logo ele terminava.Eram adversários muito bem equilibrados e defendiam teses opostas.

Mas no ponto mais excitante do debate, e sem razão que ela pudesse ver, todas as cadeiras foram empurradas para trás e,um após outro,os membros da família Denham se levantaram e saíram pela porta, como se uma campainha os tivesse convocado. Ela não estava acostumada a regulamentos marcados a relógio numa grande família.Hesitou no que estava dizendo, e levantou-se. Mrs. Denham e Joan se tinham isolado, juntas, perto da lareira,levantando ligeiramente as saias acima dos tornozelos e discutindo alguma coisa que parecia muito séria e muito particular. Haviam esquecido sua presença. Ralph segurava a porta para ela.

– Você não quer vir até meu quarto? – disse. E Katharine, com um olhar por cima do ombro, para Joan, quelhe sorriu com ar preocupado, acompanhou Ralph escada acima. Pensava na discussão com ele e quando, depoisda longa subida, ele abriu sua porta, ela recomeçou imediatamente:

– A questão é: até que ponto o indivíduo tem o direito de afirmar sua vontade contra a vontade do Estado. Por algum tempo, continuaram o debate, e então os intervalos entre uma afirmação e outra se tornaram mais e mais longos, e passaram a falar mais especulativamente e menos pugnazmente, até que, por fim, se calaram. Katharine repassou a discussão na cabeça, verificando que, aqui e ali, fora posta conspicuamente no bom caminho por alguma observação oferecida por James ou por Johnnie.

– Seus irmãos são muito inteligentes – disse.– Suponho que vocês têm o hábito de discutir?

– James e Johnnie são capazes de discutir assim horas a fio – replicou Ralph. – E também Hester, se você lhe der corda, em matéria de dramaturgos elisabetanos.

– E a meninazinha de tranças?

– Molly? Essa tem só dez anos. Mas eles todos estão sempre discutindo uns com os outros.Ele estava imensamente feliz com o louvor de Katharine a seus irmãos e irmãs. Teria gostado de continuar falando neles, mas conteve-se.

– Vejo que deve ser difícil deixá-los – continuou Katharine. O profundo orgulho de Ralph pela família era mais evidente para ele do que o fora em qualquer tempo,e a idéia de viver sozinho num cottage era ridícula. Tudo o que irmãos e irmãs significam, e uma criação comum num passado comum, toda a estabilidade, o companheirismo desinteressado, a tácita compreensão da vida de família bem vivida, vieram à sua mente, e ele pensou neles como numa empresa de que fosse o chefe, embarcada numa via-gem difícil, monótona, mas gloriosa também. E fora Katharine quem lhe abrira os olhos para isso – pensou.

Um débil pio, seco, vindo do canto do quarto, chamou a atenção dela.

– É minha gralha de estimação – explicou Ralph,sucintamente. – Um gato comeu-lhe uma das pernas.Katharine viu o pássaro, e seus olhos foram de um objeto a outro.

– Você fica neste quarto e lê? – perguntou, com os olhos nos livros dele. Ralph disse que tinha o hábito de trabalhar até tarde da noite.

– A grande vantagem de Highgate é a vista de Londres.À noite, a vista da minha janela é esplêndida. Estava extremamente ansioso para que ela contemplasse o panorama, e Katharine se levantou a ver o que merecia ser visto.Já estava suficientemente escuro,a bruma turbulenta pare-cia amarela à luz das lâmpadas da rua; procurou identificar osbairros da cidade abaixo dela. O fato de Katharine estar à sua janela deu a Ralph uma satisfação peculiar. Quando, por fim,ela se virou, ainda estava imóvel na cadeira.

– Deve ser tarde – disse ela. – Preciso ir. – Sentou-se, porém irresoluta, no braço da cadeira, pensando que não tinha vontade de ir para casa. William estaria lá, e acharia algum modo de tornar as coisas desagradáveis para ela, e a memória da discussão que tinham tido voltou-lhe. Notara também a frieza de Ralph. Olhou-o, e concluiu do olhar perdido dele que estaria a ruminar alguma teoria, alguma linha de argumentação. Descobrira, talvez, um novo aspecto na sua posição quanto aos limites da liberdade pessoal. Esperou, paciente, pensando na liberdade.

– Você venceu de novo – disse ele, por fim, sem mover-se.

– Venci? – disse ela, pensando no debate.

– Deus sabe que eu quisera não ter convidado você a vir aqui – explodiu.

– O que quer dizer?

– Quando você está aqui, é diferente, sinto-me feliz.Basta que você caminhe até a janela. Basta que fale de liberdade. Quando a vi lá embaixo, no meio deles... – disse, e refreou-se.

– Você percebeu o quanto sou comum.

– Tentei pensar assim. Mas achei que você estava mais maravilhosa do que nunca.Um imenso desafogo e a relutância em gozá-lo lutaram no coração dela. Deixou-se cair na cadeira.

– Pensei que não gostava de mim.

– Deus sabe que tentei – respondeu. – Fiz o possível para vê-la como você é, sem nada dessa baboseira romântica. Foi por isso que a convidei para vir aqui, coisa que só agravou meu desatino. Quando se for, ficarei a olhar daquela janela e a pensar em você. Gastarei a noite toda pensando em você. Gastarei minha vida toda, acho.Falou com tal veemência, que o alívio que ela sentira dissipou-se; seu tom se fez quase de severidade.

– Era o que eu temia. Nada ganharemos, a não ser infelicidade. Olhe para mim, Ralph. – Ele o fez. – Assegurolhe que sou muito mais comum do que aparento. Belezanada significa. Com efeito, as mulheres mais bonitas são, via de regra, as mais estúpidas. Não que eu seja estúpida,mas tenho uma personalidade vulgar, prosaica, assaz ordinária mesmo: decido o que vamos jantar, pago as contas,faço a contabilidade, dou corda no relógio, e jamais ponhoo olho num livro.

– Você se esquece... – começou. Mas ela não o deixou falar.

– Você vem e me vê em meio a flores e quadros, e me julga misteriosa, romântica, e tudo mais. Sendo você muito inexperiente e muito emotivo, volta para casa e inventa toda uma história a meu respeito; agora já não me pode separar da pessoa que pensou que eu fosse. Você chama a isso, imagino, estar apaixonado; a rigor, é estar iludido.Todas as pessoas românticas são assim – acrescentou. – Minha mãe passa a vida tecendo histórias em tomo das pessoas de que gosta. Mas não permitirei que faça isso comigo, se puder impedi-lo.

– Você não pode fazer nada.

– Advirto-o de que aí está a fonte de todo o mal.

– E de todo bem.

– Você descobrirá que não sou como pensa.

– Talvez. Mas tenho mais a ganhar do que a perder.

– Se tal ganho vale a pena.Ficaram calados por algum tempo.

– Talvez seja isso o que me cumpre enfrentar – disse ele.

– Talvez não haja mais que isso. Nada além do que imagino.

– A causa da nossa solidão – refletiu ela, e ficaram de novo calados por algum tempo.

– Quando você se casa? – perguntou ele abruptamente, mudando de tom.

– Não antes de setembro. Foi adiado.

– Não se sentirá solitária, então. O povo diz que casamento é negócio muito esquisito. Dizem que é diferente de tudo o mais. Pode ser verdade. Conheci um ou dois casos em que parecia ser verdade. – Ele esperava que ela desse continuidade ao assunto. Mas não respondeu. Ele fizera o possível para dominar-se, e sua voz era indiferente, mas o silêncio dela o atormentava. Ela nunca lhe falaria de Rodney, por sua própria vontade, e a essa reserva deixava um continente inteiro da sua alma na sombra.

– Pode ser adiado ainda mais do que isso – disse, numa espécie de reflexão tardia. – Alguém está doente no escritório, e William tem de substituí-lo. Vamos ter mesmo de adiar o casamento por algum tempo.

– É duro para ele, não? – perguntou Ralph.

– Ele tem o seu trabalho – replicou –, tem um mundo de coisas que o interessam... Sei que já estive nesse lugar – interrompeu, apontando uma fotografia. – Mas não posso lembrar o que seja. Oh, naturalmente, é Oxford.Agora, como ficou seu cottage?

– Não vou mais alugá-lo.

– Como você muda de idéia! – sorriu ela.

– Não é isso – disse ele, exasperado. – É que quero estar onde possa vê-la.

– Nosso acordo ainda é válido, depois do que disse?

– Para sempre, no que me diz respeito – replicou.

– E você vai continuar a sonhar comigo, a fabricar histórias a meu respeito quando anda pelas ruas, pretender que está cavalgando comigo numa floresta ou desembarcando numa ilha...

– Não, pensarei em você decidindo o jantar, pagando as contas, fazendo a contabilidade, mostrando relíquias a velhinhas...

– Assim é melhor – disse ela. – Você pode pensar em mim amanhã de manhã pesquisando datas no National Dictionnary of Biography.

– E esquecendo a bolsa – acrescentou Ralph.

A isso, ela sorriu, mas um momento depois o sorriso desmaiou, ou em virtude das palavras ou por causa do tom que ele usara.

Ela era capaz de esquecer coisas. Ele via isso. Mas que outras coisas via? Não estaria vendo algo que ela jamais mostrara a qualquer outra pessoa? Algo tão profundo que só a idéia de que ele o visse, era quase um choque para ela? Seu sorriso desmaiou e por um momento esteve a ponto de falar, mas, olhando-o em silêncio, com um olhar que parecia pedir o que não era capaz de pôr em palavras, vi-rou-se e desejou-lhe boa noite.