Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 14 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 13

A hora do almoço no escritório apenas em parte era gasta por Denham no consumo de alimento. Com bom tempo ou chuvoso, passava a maior porção dela caminhando pelas alamedas de cascalho de Lincoln’s Inn Fields. As crianças se familiarizaram com sua figura, e os pardais esperavam a distribuição diária de migalhas de pão. Sem dúvida, se dava muitas vezes um níquel e quase sempre uma mancheia de pão, não era tão cego para o que o cercava, como ele mesmo achava.

Parecia-lhe que esses dias de inverno se passavam em longas horas face a papéis brancos, radiantes à luz elétrica,e em curtas travessias de ruas que o nevoeiro tomava indistintas. Quando voltava ao trabalho, depois do almoço,levava na cabeça uma imagem do Strand, pontilhada de ônibus, e das marcas cor de púrpura das folhas achatadas contra o cascalho, como se os seus olhos sempre estivessem postos no chão. Seu cérebro trabalhava incessantemente, mas seu pensamento era acompanhado de tão pouca alegria que não o recordava de bom grado; ia em frente, ora nesta direção, ora naquela; e voltava para casa,carregado de livros retirados da biblioteca.

Mary Datchet, vindo do Strand na hora do almoço,viu-o um dia fazendo a sua volta, de sobretudo abotoado até o pescoço, e tão perdido em cismas que era como se estivera sentado no seu quarto.

Foi tomada de algo muito próximo do temor, ao vê-lo.Depois, sentiu-se inclinada a rir, embora seu pulso bates-se mais depressa. Passou por ele, e ele não a viu. Ela retrocedeu, então, e tocou-lhe o ombro.

– Meu Deus, Mary! – exclamou ele. – Como você me assustou!

– Sim. Você parecia um sonâmbulo – disse ela. – Está às voltas com algum terrível caso de amor? Ou terá de reconciliar algum casal desesperado?

– Não pensava no trabalho – respondeu Ralph, um tanto precipitadamente. – Ademais, essa espécie de coisa não está na minha linha – acrescentou, amargo.

Era uma bonita manhã, e eles dispunham ainda de al-guns minutos. Não se encontravam há duas ou três semanas, e Mary tinha muito que dizer a Ralph. Mas não estava certa de uma coisa: até que ponto ele desejava a sua companhia. Todavia, depois de uma volta ou duas, nas quais uns poucos fatos foram transmitidos, ele sugeriu que se sentassem, e ela tomou o lugar a seu lado. Os par-dais vieram voejar em torno, e Ralph tirou do bolso metade de um pãozinho que guardara do almoço. Atirou um pouco de miolo no meio deles.

– Nunca vi pardais tão mansos – falou Mary, só para dizer alguma coisa.

– É verdade – disse Ralph. – Os pardais de Hyde Park não são tão mansos assim. Se eu ficar perfeitamente imóvel, consigo que um deles pouse no meu braço.Mary sentiu que podia passar sem essa demonstração do temperamento animal, mas vendo que Ralph, por alguma curiosa razão, orgulhava-se dos pardais, apostou seis níqueis com ele como não era capaz de fazê-lo.

– Fechado – disse ele. E seu olhar, que estivera sombrio, mostrou uma centelha de luz. Sua conversação dirigia-se, agora, inteiramente a um pardal-macho, calvo, que parecia mais audacioso do que os outros; e Mary aproveitou a oportunidade para examiná-lo. Não ficou satisfeita; o rosto dele estava abatido, a expressão dura. Uma criança veio rodando um arco em meio à multidão dos pássaros, e Ralph lançou as últimas migalhas de pão entre os arbustos, com um resfolego de impaciência.

– É o que sempre acontece, e logo quando eu já o tinha quase conquistado – disse. – Aqui estão seus seis níqueis,Mary. Mas você os ganhou apenas graças àquele estúpido garoto. Não deviam permitir que meninos rodassem arcos, aqui.

– Não deviam permitir arcos! Meu caro Ralph, que despropósito!

– Você sempre diz isso – queixou-se ele –, e não é despropósito nenhum. De que serve um jardim se a gente não pode observar os pássaros? A rua é bastante para os arcos. E se não é possível deixar que crianças andem na rua, as mães deviam guardá-las em casa.

Mary não respondeu a essa observação, mas franziu a testa. Recostou-se, depois, no banco, e olhou em torno as grandes casas que quebravam com suas chaminés a doçura do céu azul-cinza.

– Ah, bem – disse. – Londres é um belo lugar ondeviver. Acho que poderia ficar assim, sentada, vendopassar as pessoas, o dia inteiro. Eu gosto dos meus semelhantes... Ralph suspirou, impaciente.

– Sim, creio que são estimáveis, quando a gente chega a conhecê-los – acrescentou ela, como se a discordância de Ralph tivesse sido expressa.

– Pois é justamente quando não os suporto – replicou ele. – E, todavia, não sei por que você não poderá alimentar essa ilusão, se lhe dá prazer. – Falou sem muita veemência, de acordo ou desacordo. Parecia frio.

– Acorde, Ralph! Você está meio adormecido – gritou Mary, voltando-se e beliscando-lhe a manga. – O que andou fazendo? Entregando-se à depressão? Trabalhando? Desprezando o mundo, como de hábito?

E como ele se limitasse a sacudir a cabeça, e a encher o cachimbo, continuou:

– É até certo ponto uma atitude, não?

– Não mais do que a maior parte das coisas – disse ele.

– Bem – observou Mary –, tenho muito a lhe dizer ainda, mas preciso ir embora, temos uma reunião do comitê. Levantou-se, mas hesitou, olhando-o com alguma gravidade:

– Você não me parece feliz, Ralph – disse. – É alguma coisa, ou não é nada? Ele não lhe respondeu imediatamente; levantou-se também e acompanhou-a até o portão. Como de costume, não se dirigiu a ela sem pensar antes se o que ia dizer era coisa que se podia dizer a Mary:

– Eu me aborreci – disse, por fim. – Em parte, foi o trabalho. Em parte, assuntos de família. Charles se tem comportado como um tolo. Ele quer ir para o Canadá como agricultor...

– Bem, há alguma coisa a favor disso – disse Mary.Passaram o portão, e foram andando devagar em tornodos Fields outra vez, discutindo dificuldades que, na realidade, eram mais ou menos crônicas na família Denham, e trazidas à baila agora apenas para granjear a simpatiade Mary, a qual, todavia, confortava Ralph mais do queele pensava. Pelo menos, ela o fazia considerar problemasque eram reais, no sentido de serem capazes de solução;e a verdadeira causa da sua melancolia, que não era sensível a esse tratamento, afundou ainda mais nas sombras da sua mente. Mary era atenciosa; era prestativa. Ralph não podia deixar de ser-lhe grato, e mais ainda talvez por não ter revelado a ela a verdade sobre o seu estado; e quando alcançaram o portão outra vez ele desejou fazer alguma objeção afetuosa ao fato de ela o deixar. Mas sua afeição tomou a estranha forma de discutir com ela sobre o seu trabalho:

– Por que entrar para um comitê, Mary? É uma perda de tempo para você.

– Concordo que um passeio pelo campo seria mais útil ao mundo – disse ela. – Olhe aqui – acrescentou subitamente –, por que você não vem passar o Natal conosco? É a melhor parte do ano.

– Passar o Natal em Disham? – repetiu Ralph.

– Sim. Nós não nos meteremos com você. Mas pode decidir mais tarde – disse ela, apressadamente, e partiu na direção de Russell Square. Convidara-o num impulso de momento, quando a imagem do campo apareceu diante dela; e agora, aborrecia-se consigo mesma por tê-lo feito,e aborrecia-se por ficar aborrecida.

– Se não posso enfrentar um passeio no campo sozinha com Ralph – ponderou –, melhor será comprar um gato e ir viver numa pensão em Ealing, como Sally Seal;depois, ele não irá. Ou terá querido dizer que iria?

Sacudiu a cabeça. Ela realmente não sabia o que Ralph quisera dizer. Nunca estava muito certa; mas agora via-se mais desconcertada do que de hábito. Escondia ele alguma coisa dela? Suas maneiras tinham sido estranhas; sua profunda absorção a impressionara; havia alguma coisa nele que ela não aprofundara, e o mistério da sua natureza exercia mais poder sobre ela do que gostaria. Além do mais, não podia impedir-se de fazer agora o que sempre censurara que outras do seu sexo fizessem: atribuir ao amigo uma espécie de fogo celeste, e passar a vida em face dele esperando pela sua aprovação.

Nesse processo, o comitê teve sua importância reduzida; o sufrágio encolheu; jurou que se esforçaria mais paraaprender italiano; teve a idéia de encetar o estudo das aves.Mas esse programa para uma vida perfeita ameaçava tornar-se tão absurdo, que em breve se deu conta de andardesgarrada.E quando os tijolos castanhos de Russell Squaresurgiram à vista, já ensaiava o discurso que faria perante ocomitê. De fato, ela nem os viu. Subiu correndo, como sempre, e acabou de acordar para a realidade com visão deMrs.Seal,no patamar fronteira ao escritório,a induzir umcanzarrão desmesurado a tomar água de um copo.

– Miss Markham já chegou – observou Mrs. Seal, com a devida solenidade ‒; este é o seu cão.

E um belo cão – disse Mary, fazendo-lhe festas na cabeça.

– Sim. Um magnífico sujeito – concordou Mrs. Seal.

‒Uma espécie de São Bemardo, ela me disse. Tão típico de Kit ter um São Bernardo! E você guarda sua dona muito bem, não é, Sailor? Você cuida que homens malvados não entrem na sua dispensa quando ela está fora no trabalho dela, ajudando pobres almas tresmalhadas... Mas estamos atrasadíssimas, temos de começar! – E despejando o resto da água indiscriminadamente no chão, impeliu Mary para a sala do comitê.