Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 17 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 16

Na mesma noite escura, quase que na mesma faixa de céu estrelado, Katharine Hilbery examinava o tempo, embora não para ver se o dia seguinte seria propício para a caça aos patos. Andava de um lado para outro num caminho de cascalho no jardim de Stogdon Rouse, e sua vista do firmamento era parcialmente interceptada pelos leves arcos, agora sem folha, de uma pérgula. Um pequeno galho de clematite escondia completamente Cassiopéia ou apagava, com seu negro desenho, miríades de milhas de Via Láctea. Ao fim da pérgula, porém, havia um banco de pedra, de onde o céu podia ser visto completamente limpo de qualquer interrupção terrena, salvo à direita, onde um renque de elmos era lindamente pintalgado de estrelas, e o edifício acaçapado de um estábulo mostrava um cacho inteiro de prata tremeluzente pendurado da boca da chaminé. Era noite sem lua, mas a luz das estrelas bastava para revelar os contornos da moça e a forma do seu rosto voltado grave, quase severamente, para o céu. Ela saíra para a noite de inverno, bastante agradável, aliás, não tanto para botar olhos científicos no firmamento, mas para livrar-se de alguns contratempos terráqueos. Assim como nas mesmas circunstâncias uma pessoa dada à literatura começaria, distraidamente, a tirar volume após volume da estante, saiu para o jardim a fim de ter as estrelas ao alcance da mão, embora não as olhasse. O não estar feliz, quando devera estar mais feliz do que jamais o poderia ser outra vez era, tanto quanto podia ver, a origem dessa insatisfação, que começara logo que chegara, há dois dias, e parecia agora tão intolerável que deixara a festa de família e viera até ali para pensar. Não era ela que se considerava infeliz, mas seus primos, que assim o pensavam por ela. A casa estava cheia de primos, na maior parte da sua idade ou, até, mais jovens, e tinham todos, uns pelos outros, olhos muito vivos. Viviam como que a procurar alguma coisa entre ela e Rodney, que esperavam achar e, no entanto, não achavam. E enquanto procuravam,Katharine tomava consciência de desejar o que não apercebera desejar em Londres, sozinha com William e seus pais. Ou, se não o desejava, pelo menos fazia-lhe falta. E esse estado de espírito deixava-a deprimida, porque se acostumara a se dar inteira satisfação, e sua auto-estima estava agora um tanto amarfanhada. Gostaria de quebrar a sua reserva habitual, a fim de justificar o seu noivado para alguém cuja opinião respeitasse. Ninguém dissera uma palavra de crítica, mas deixavam-na a sós com William; não que isso importasse, se não o fizessem com tamanha polidez; e talvez isso mesmo não importasse se não parecessem tão estranhamente quietos, quase respeitosos, na sua presença, o que cedia lugar a críticas, tão logo saía – pelo menos era assim que sentia.

Olhando de tempos em tempos para o céu, passou em revista os nomes dos seus primos: Eleanor, Humphrey,Marmaduke, Silvia, Henry, Cassandra, Gilbert, e Mostyn;Henry, o primo que ensinava as senhoras de Bungay a tocar violino, era o único em quem podia confiar, e andando de um lado para outro sob os arcos da pérgula, ela começou um pequeno discurso dirigido a ele e que rezava mais ou menos assim:

– Para começo de conversa,gosto muito de William,e isso você não pode negar. Conheço-o talvez melhor do que qualquer outra pessoa. Mas caso com ele, em parte, admito (e estou sendo muito honesta com você, e você não deve repetirisso a ninguém), em parte porque quero casar. Quero ter umacasa minha. Para você Henry, tudo está certo. Você é senhordo seu nariz e vai aonde quer. Eu tenho de estar sempre emcasa. Além disso, você sabe como é a nossa casa. Você não poderia ser feliz, também, se não fizesse alguma coisa. Não éque eu não tenha tempo, em casa. É a atmosfera de lá.

Aqui, provavelmente, ela imaginava que seu primo,que a ouvira com sua inteligente simpatia de sempre, levantaria as sobrancelhas um pouco para perguntar:

– Bem. Mas o que pretende fazer?

Mesmo nesse diálogo imaginário, Katharine achava difícil confiar sua ambição a um interlocutor também imaginário:

– Gostaria – começou. E hesitou muito tempo antes de obrigar-se a dizer, com uma mudança na voz: – de estudar matemática; saber alguma coisa sobre as estrelas.

Henry ficou francamente pasmo. Mas era bondoso demais para expressar todas as suas restrições. Apenas disse algo sobre a dificuldade da matemática, e observou que se sabia muito pouco sobre as estrelas.

Katharine, então, prosseguiu com a apresentação do seu caso:

–Não meimportode vira saberalguma coisa,masquero trabalhar com números, com algo que nada tenha a ver com seres humanos. Não quero gente, principalmente. De certomodo, Henry, sou uma fraude, quero dizer, não sou o que vocês todos pensam de mim. Não sou caseira, nem muitoprática, nem sensível. Se eu pudesse resolver problemas, usarum telescópio, calcular algarismos, saber com aproximaçãofracionária quando estou errada,ficaria perfeitamente feliz,eacho que poderia dar a William tudo o que ele deseja.

Tendo chegado a esse ponto, o instinto lhe disse que ultrapassara a região em que um conselho de Henry teria alguma valia. E limpando da mente sua irritação superficial, sentou-se no banco de pedra, levantou os olhos inconscientemente e pensou, sobre as questões mais profundas que tinha de aclarar,sabia-o,por si mesma.Poderia,na verdade, dar a William tudo o que ele queria? A fim de decidir, repassou na cabeça, rapidamente, a pequena coleção de frases significativas,olhares,gestos,cumprimentos,que haviam marcado o relacionamento deles nos últimos dois dias. Ele se aborrecera porque uma caixa, que continha algumas roupas especialmente escolhidas por ele para que ela usasse, se extraviara e fora levada para outra estação, por negligência dela em matéria de rótulos. A caixa chegara no último momento, e ele observara, quando ela desceu na primeira noite, que nunca a vira mais bonita.Descobrira que ela jamais fazia um movimento feio; dis-se, também, que a forma da sua cabeça permitia-lhe usar o cabelo baixo, ao contrário da maior parte das mulheres.Duas vezes a reprovara por estar calada durante o jantar;e uma vez por não prestar atenção ao que ele dizia.Ficara...surpreso com a excelência do seu sotaque em francês,mas pensava que era egoísmo de sua parte não acompanhar a mãe numa visita aos Middletons, porque se tratava de velhos amigos da família e de gente muito boa. No conjunto, a balança parecia equilibrada; e escrevendo, mentalmente, uma espécie de conclusão, que representava, pelo menos, um total parcial, ela mudou o foco dos seus olhos e viu nada mais nada menos que as estrelas.

Essa noite, pareciam fixas no azul com uma firmeza incomum, e devolviam-lhe aos olhos uma tal onda de luz, que pensou que as estrelas estavam felizes. Sem saber das práticas da Igreja e sem importar-se com elas mais do que a maior parte das pessoas da sua geração, Katharine não podia olhar o firmamento em tempo de Natal sem sentir que, nessa estação, os Céus se debruçam sobre a Terra com benevolência e dão sinal, com imortal fulgor, de que eles também participam da festa. De algum modo parecia-lhe que mesmo agora eles observavam a procissão de reis magos em alguma estrada num recanto distante da Terra. E, no entanto, depois de olhar por mais um segundo, as estrelas exerceram sua habitual ação sobre a mente, congelando o conjunto da nossa curta história humana e reduzindo o corpo humano a uma forma peluda, simiesca,acocorada entre as moitas de um bárbaro montículo de barro. Essa fase foi logo sucedida por outra, em que nada mais havia no universo salvo as estrelas e a luz das estrelas; olhando para o alto, as pupilas dos seus olhos dilataram-se a tal ponto à luz estelar, que todo o seu ser pareceu dissolvido em prata e esparzido sobre as camadas de estrelas; para todo o sempre e indefinidamente, espaço em fora. De algum modo simultâneo, embora incongruente,ela cavalgava com o magnânimo herói pela praia ou por sob as árvores de uma floresta, e poderia continuar assim,não fora a censura forçosamente administrada pelo corpo que, contente com as condições normais de vida, de maneira alguma promove qualquer esforço mental para mu-dá-la . Sentiu frio, sacudiu-se, levantou-se e caminhou de volta para casa.

À luz das estrelas, Stogdon House parecia pálida e romântica e duas vezes maior que seu tamanho natural.Construída por um almirante reformado nos primeiros anos do século XIX, as janelas salientes e curvas da fachada, cheias agora de uma luz vermelho-amarelada, sugeriam um majestoso navio de três cobertas, velejando por mares onde golfinhos e narvais, desses que decoram as bordas dos mapas antigos, haviam sido distribuídos com mão imparcial. Uma escadaria semicircular de degraus baixos conduzia a uma porta muito larga, que Katharine não trancara. Hesitou, lançou os olhos para a frente da casa, observou que uma luzinha ardia ainda numa pequena janela do andar superior, e empurrou a porta. Por um momento, viu-se no hall quadrado, entre muitas cabeças de animais de chifre, globos amarelados, velhos óleos estalados e corujas empalhadas, aparentando hesitar se de-via ou não abrir a porta à sua direita, através da qual lhe chegava aos ouvidos a agitação da vida. Escutando por um momento, ouviu um som que fê-la decidir não entrar.Seu tio, Sir Francis, jogava sua partida diária de uíste. Era provável que estivesse perdendo.

Subiu pela escadaria circular que representava a únicatentativa de formalidade numa mansão sob outros aspectosjá bastante dilapidada, e seguiu por um corredor estreito até chegar ao quarto cuja luz vira do jardim. Batendo, disseramlhe que entrasse.Um rapaz,Henry Otway,estava lendo,comos pés na guarda da lareira. Tinha uma bela cabeça, umafronte arqueada à maneira elisabetana, embora os olhos doces, honestos brilhassem mais de cepticismo que do vigorelisabetano. Dava a impressão de não ter ainda encontrado causa que combinasse com o seu temperamento.

Virou-se, fechou o livro, e olhou para ela. Reparou em seu aspecto pálido, encharcado de orvalho, olhar de alguém cujo espírito não está bem assente no corpo. Muita vez ele depusera suas dificuldades diante dela, talvez ela agora precisasse dele. Ao mesmo tempo ela vivia sua vida com tanta independência que ele dificilmente esperava que qualquer confidência sua fosse expressa em palavras.

– Então, você também fugiu? – disse, olhando o casaco da prima. Katharine se esquecera de tirar essa prova da sua contemplação das estrelas.

– Fugiu? – perguntou ela. – De quem? Oh, da festa de família. Sim, estava fazendo calor, fui até o jardim.

– E não está com frio? – perguntou Henry, jogando carvão no fogo, puxando uma cadeira para junto da grade e pondo de lado o casaco. A indiferença dela a esses detalhes muitas vezes forçava Henry a fazer o que em geral compete às mulheres em tais casos. Era um dos laços entre os dois.

– Obrigado, Henry – disse ela. – Não atrapalho você?

– Não estou aqui, estou em Bungay – respondeu ele.

– Estou dando uma aula de música a Harold e Julia. Foi por isso que tive que deixar a mesa com as senhoras. Vou passar a noite lá e não estarei de volta senão tarde, na véspera de Natal.

– Como eu gostaria – começou Katharine, mas deteve-se logo. – Penso que essas festas são um equívoco muito grande – disse, com brevidade. E suspirou.

Horrível! – concordou ele. Ambos permaneceram calados.

O suspiro fez que ele a olhasse.Deveria aventurar-se a perguntar por que suspirava? Seria a reticência dela em torno dosseus próprios assuntos tão inviolável quanto sempre parecera(por comodismo?) a esse jovem um tanto egoísta? Desde o noivado de Katharine com Rodney,os sentimentos de Henrypara com ela se haviam tornado muito complexos; divididoigualmente entre um impulso de feri-la e outro impulso de serterno, sofria, todo o tempo, uma curiosa irritação por sentirque a prima se afastava dele para sempre, e por mares desconhecidos.Por parte de Katharine,logo que se viu em presençadele e a impressão das estrelas a deixou, sentiu que o relacionamento das pessoas é extremamente parcial; da massa inteira dos seus sentimentos, só um ou dois podiam ser selecionados para a inspeção de Henry,e por isso suspirara.Mas,então,encarou-o, e com o encontro dos seus olhos muito mais se evidenciou de comum entre eles do que parecera possível. De qualquer maneira, tinham um mesmo avô; de qualquer maneira, havia uma espécie de lealdade entre eles como a que àsvezes se encontra entre parentes que não têm outro motivo para gostarem um do outro, como esses dois tinham.

– Bem, quando é o casamento? – disse Henry, com a disposição maliciosa predominando sobre o resto.

– Creio que num dia qualquer de março – respondeu ela.

– E depois? – perguntou ele.

– Teremos uma casa, em algum lugar de Chelsea, imagino.

– Muito interessante – observou ele, dando-lhe uma outra olhadela.

Katharine estava recostada na sua poltrona, com os pés para cima, contra a guarda da lareira. E à sua frente, provavelmente para proteger-lhe os olhos, segurava um jornal, do qual lia uma sentença ou duas, de vez em quando.Notando isso, Henry disse:

– Talvez o casamento torne você mais humana.

Ao que ela baixou o jornal uma polegada ou duas, mas nada disse. Na verdade, permaneceu silenciosa, ali, sentada, por mais de um minuto.

– Quando a gente considera coisas como as estrelas, os nossos negócios não parecem importar muita coisa, não é? – disse, de súbito.

– Acho que jamais considerei coisas como as estrelas respondeu Henry. – Não estou certo de que seja essa a explicação, apesar de tudo – acrescentou, olhando-a fixamente agora.

– Duvido que haja outra explicação qualquer – respondeu ela, apressadamente, sem entender muito bem o que ele queria dizer.

– O quê? Nenhuma explicação? De coisa nenhuma?

– perguntou ele, com um sorriso.

– Oh,as coisas acontecem.É tudo – deixou cair Katharine, com seu modo tão casual quanto decidido.

“Isso, sem dúvida, explica alguns dos seus atos”, pen-sou Henry consigo mesmo.

– Uma coisa vale tanto quanto outra, e afinal há que fazer algo – disse ele, alto, expressando o que supunha ser a atitude dela e, tanto quanto possível, com a sua voz.Talvez ela percebesse a imitação, pois olhou-o afetuosamente, e disse, com irônica compostura:

– Bem, se você acredita que sua vida deva ser simples,Henry...

Mas eu não acredito – respondeu ele, curto.

Nem eu – disse ela.

– E as estrelas? Devo entender que você rege sua vida pelas estrelas? Ela deixou passar, ou por não lhe dar atenção ou porque o tom de voz dele não lhe agradara.Uma vez mais fez uma pausa, e então perguntou:

– Mas você sempre entende por que faz todas as coisas? Há que entender? Gente como minha mãe entende – refletiu. Agora, acho que devo descer, e ver o que está acontecendo. – O que poderá estar acontecendo? – protestou Henry.

– Oh, talvez queiram decidir alguma coisa – replicou ela, vagamente, pondo os pés no chão, apoiando o queixo nas mãos e olhando com seus grandes olhos, contemplativamente, para o fogo.

– Depois, há William – acrescentou, como que numa reflexão tardia. Henry quase riu, mas conteve-se.

– Sabe-se de que são feitos os carvões, Henry? – perguntou, um momento depois.

– De rabos-de-galos, creio eu – arriscou ele.

– Você já desceu numa mina de carvão? – continuou ela.

– Não vamos falar de minas de carvão, Katharine – protestou ele. – Talvez nunca mais nos vejamos outra vez.Quando você casar...

Para tremenda surpresa sua, viu lágrimas aflorarem aos olhos dela:

– Por que vocês todos caçoaram de mim? Não é gentil.

Henry não podia fazer-se de inocente, mas jamais percebera que ela se importava com a troça. Antes, porém,que pudesse responder, já os olhos dela se mostravam de novo límpidos, e a ranhura na superfície recompusera-se quase que inteiramente.

– As coisas não são fáceis, de qualquer maneira – disse ela. Obedecendo a um impulso de genuína afeição, Henry falou:

– Prometa-me, Katharine, que se eu puder, me permitirá ajudá-la.Ela pareceu considerar o pedido, olhando mais uma vez para o rubro do fogo, e decidiu abster-se de qualquer explicação.

– Sim, prometo – disse, finalmente, e Henry se sentiufeliz com a completa sinceridade dela, e começou a explicarlhe as minas de carvão, atendendo ao seu amor por fatos.Desciam, juntos, por uma chaminé num pequeno elevador e podiam ouvir abaixo deles as picaretas dos mineiros, algo que semelhava ratos roendo, quando a porta se escancarou, sem que houvesse batido.

– Bem, aí está você! – exclamou Rodney. Tanto Katharine quanto Henry voltaram-se de súbito e com expressão um tanto culpada. Rodney usava traje de noite.Estava visivelmente zangado.

– Então era aí que você estava esse tempo todo – repetiu, olhando para Katharine.

– Só estou aqui há cerca de dez minutos.

– Minha querida Katharine, você saiu da sala há mais de uma hora. Ela não respondeu.

– E isso importa muito? – perguntou Henry.

Rodney achou difícil ser absurdo na presença de outro homem, e nada respondeu.

– Eles não gostam disso – disse. – Não é correto para com os velhos, deixá-los sós, embora eu não tenha dúvida que seja muito mais divertido estar sentada aqui em cima a conversar com Henry.

– Estávamos falando sobre minas de carvão – disse Henry, urbanamente.

– Sim. Mas conversamos sobre muitas coisas mais interessantes antes disso – disse Katharine. Da maneira como falou, com a aparente determinação de magoá-lo, pareceu a Henry que seria de esperar alguma espécie de explosão por parte de Rodney.

– Não tenho dúvidas quanto a isso – disse Rodney,com seu leve muxoxo, apoiando-se no braço da cadeira e tamborilando de leve na madeira com as pontas dos dedos. Ficaram todos silenciosos, e o silêncio tomou-se agudamente incômodo, para Henry, pelo menos.

– Foi muito aborrecido, William? – perguntouKatharine subitamente, com uma completa mudança de tom e um leve gesto da mão.

– É claro que foi aborrecido – disse William, amuado.

– Bem, você fica aqui, então, e conversa com Henry, e eu desço.

Levantou-se enquanto falava e, ao virar-se para sair, pôsa mão, com um curioso gesto de carícia, no ombro de Rodney. Instantaneamente, Rodney prendeu-lhe a mão nas suas, com um tal impulso de emoção que Henry se sentiu constrangido, e abriu um livro de modo deliberado.

– Eu desço com você – disse William, quando ela retirou a mão e fez menção de passar por ele.

– Oh, não – disse ela precipitadamente –, você fica, e conversa com Henry.

– Sim, fique – disse Henry, fechando o livro. O convite era polido, sem ser exatamente cordial. Rodney deu mostras de hesitar quanto ao que fazer, mas vendo Katharine à porta exclamou:

– Não. Quero ir com você.

Ela olhou para trás e disse, num tom de voz impressivo e com uma expressão de autoridade no rosto:

– É inútil que venha. Vou deitar-me em dez minutos.Boa noite.

Fez acenos de cabeça para ambos, e Henry não pôde deixar de notar que o último foi na sua direção. Rodney sentou-se, assaz pesadamente.

Sua mortificação era tão óbvia que só a contragosto Henry poderia abrir a conversa com uma observação de caráter literário. Por outro lado, a não ser que o impedisse,Rodney era capaz de começar a falar dos próprios sentimentos, e as confidências são sempre penosas, pelo menos por antecipação. Adotou, portanto, um curso médio, quer dizer, escreveu uma nota na folha de rosto do seu livro. Rezava: “A situação está ficando extremamente incômoda.”Decorou a frase com as molduras e ornatos que me-dram por si mesmos nessas ocasiões. E enquanto o fazia, pensou consigo mesmo que, fossem quais fossem as dificuldades de Katharine, não justificavam o seu comportamento. Falara com uma espécie de brutalidade que,natural ou presumida, sugeria que as mulheres têm uma cegueira especial para os sentimentos dos homens. A composição dessa nota deu tempo a Rodney para se recompor. Talvez, por ser homem vaidoso, estivesse mais ferido pelo fato de Henry haver assistido à sua rejeição do que pela rejeição em si. Amava Katharine, e a vaidade não é diminuída, mas aumentada pelo amor, especialmente, é possível arriscar, na presença de outra pessoa do mesmo sexo. Rodney, contudo, dispunha da coragem que brota dessa imperfeição risível e adorável, e quando dominou o seu primeiro impulso, que fora o de fazer de certo modo um papel ridículo, tirou inspiração do corte impecável do seu traje a rigor. Pegou um cigarro, bateu com ele nas costas da mão, exibiu seus elegantíssimos escarpins no guarda-fogo da lareira e reuniu todo o seu amor-próprio:

– Vocês têm várias grandes propriedades nos arredores, Otway – começou. – Há boa caça? Deixe-me ver: a que círculo pertence essa gente?

– Sir William Budge, o rei do açúcar, tem a propriedade maior. Ele comprou a do pobre Stanham, que entrou em bancarrota.

– Que Stanham será esse? Vemey ou Alfred?

– Alfred... Eu mesmo, não caço. Mas você é grande caçador, não é verdade? Em todo caso, pelo menos tem grande reputação de cavaleiro – acrescentou, querendo ajudar Rodney a recobrar o sentimento da própria importância.

– Oh, adoro cavalgar – respondeu Rodney. – Poderia conseguir um cavalo por aqui? Que tolice a minha! Esqueci-me de trazer roupas. Não posso, no entanto, fazer idéia de quem lhe disse que eu era um bom cavaleiro.

Henry laborava na mesma dificuldade; não queria trazer à baila o nome de Katharine; respondeu vagamente que sempre ouvira dizer que Rodney montava bem. De fato,ouvira muito pouco a respeito dele, de uma forma ou deoutra, aceitando-o como uma figura a ser encontrada comfreqüência no quadro da casa da tia e com quem inevitavelmente, mas também inexplicavelmente, sua prima ia casar.

Não gosto muito de atirar – disse Rodney –, mas agente tem de fazer isso se não quer ficar de todo à margemdas coisas. Arriscaria dizer que a região é muito bonita.Fiquei uma vez em Bolham Hall. O jovem Cranthorpe foi criado com você, não? Ele casou com a filha do velho Lord Bolham. Gente muito boa, à moda deles.

Não freqüento essa sociedade – observou Henry,um tanto abruptamente. Mas Rodney, que embarcara agora numa agradável corrente de memórias, não pôde resistir à tentação de ir um pouco mais adiante. Tinha-se na conta de homem capaz de adaptar-se sem esforço à melhor sociedade, e sabia o bastante dos verdadeiros valores da vida para continuar a ser ele mesmo, acima disso.

Pois deveria! – continuou. – Vale a pena hospedar-se lá, de qualquer maneira; pelo menos uma vez ao ano. Eles recebem muito bem, e as mulheres são divinas.

“As mulheres?”, pensou Henry, consigo mesmo, com repulsa. “O que poderia uma mulher qualquer ver em você?” Sua tolerância esgotava-se rapidamente, embora não pudesse deixar de gostar de Rodney, o que lhe parecia sobremodo estranho, pois ele era fastidioso, e tais palavras em outra boca teriam condenado o orador irremediavelmente. Começou, em suma, a perguntar-se que espécie de criatura era esse homem que se casaria com sua prima.Poderia alguém, exceto um caráter singular, permitir-se vaidade tão ridícula?

– Acho que não devo entrar em tal sociedade – replicou.

– Não saberia o que dizer a Lady Rose, por exemplo, se a encontrasse.

– Não tenho nenhuma dificuldade – cacarejou Rodney.

‒Você fala sobre os filhos deles, se é que os têm, ou sobre as suas prendas: pintura, jardinagem, poesia. São maravilhosos. Seriamente, sabe, acho que é sempre valioso ter a opinião de uma mulher sobre a poesia da gente. Não peça as razões. Peça-lhe apenas sentimentos. Katharine, por exemplo...

– Katharine – disse Henry, com ênfase no nome, como se o indignasse o seu uso por Rodney –, Katharine é muito diferente da maioria das mulheres.

– Sem dúvida – concordou Rodney. – Ela é... – parecia prestes a descrevê-la, e hesitou por longo tempo. – Ela está com muito boa aparência – declarou, ou quase inquiriu, num tom de voz muito diferente daquele emque vinha falando. Henry abaixou a cabeça.

– Como família, você são dados a amuos, hein?

– Mas não Katharine – disse Henry, com decisão.

– Não Katharine – repetiu Rodney, como se ponderasse o sentido das palavras. – Não, talvez você tenha razão. Mas o noivado mudou-a. Naturalmente – acrescentou –, seria de esperar que isso acontecesse – aguardou que Henry confirmasse a afirmação, mas Henrypermaneceu calado.

– De certo modo, Katharine tem tido uma vida difícil – continuou ele. – Espero que o casamento lhe faça bem.Ela tem grandes qualidades.

– Grandes – disse Henry, com decisão.

– Sim. Mas, agora, que direção acha você que essas qualidades irão tomar?

Rodney abandonara completamente sua pose de homem do mundo, e parecia pedir a Henry que o ajudasse numa dificuldade.

– Não sei – hesitou Henry, com cautela.

– Você acha que, talvez, filhos, uma casa, essa espécie de coisas, você acha que isso a satisfaria? Lembre-se, estou fora o dia todo.

– Ela será, certamente, da maior competência.

– Oh, sim, ela é maravilhosamente capaz – disse Rodney.

– Só que eu me deixo absorver pela minha poesia. Bem,Katharine não dispõe de uma coisa dessas. Admira a minha poesia, você sabe, mas será isso o bastante para ela?

– Não – disse Henry, e fez uma pausa: – penso que vocêtem razão – acrescentou, como se acabasse de reunir seus pensamentos. – Katharine ainda não se encontrou. A vida ainda não é de todo real para ela. Eu, algumas vezes, penso...

– Sim? – perguntou Rodney, como que ansioso para que Henry prosseguisse. – Era isso que eu. . . – começou.

Henry,porém,ficou mudo,e a sentença não foi concluída. A porta se abriu e foram interrompidos porGilbert, irmão mais moço de Henry, para alívio deste,que já falara mais do que desejava.