Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 34 de 35

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Noite e Dia

Capítulo 33

Considerando que Mr. Hilbery vivia numa casa numerada na devida ordem, como as casas vizinhas; que preenchiaformulários,pagava aluguel e tinha ainda sete anos de contra-to por vencer, há que desculpá-lo por deitar regras de conduta para os moradores da dita casa, e essa desculpa, emboraprofundamente inadequada,pareceu-lhe útil durante o interregno de civilização com que se via, agora, confrontado. Emobediência a essas leis, Rodney desapareceu de circulação;Cassandra foi despachada para pegar o trem de sete e trinta,na manhã de segunda-feira; Denham não foi mais visto; demodo que só restou Katharine, habitante legítima das esferassuperiores, e Mr. Hilbery julgou-se competente para cuidarque ela não fizesse mais nada que a comprometesse.

Ao dar-lhe bom dia na manhã seguinte, estava ciente de não saber nada do que ela pensava; mas, como refletiu com alguma amargura, mesmo isso era um progresso sobre a total ignorância das manhãs precedentes. Foi para o escritório, escreveu, rasgou, e reescreveu uma carta para sua mulher, pedindo-lhe que voltasse em vista de dificuldades domésticas que especificou, de começo, mas que,numa segunda versão,deixou discretamente vagas.Mesmo que partisse imediatamente depois de recebê-la refletiu – não poderia estar em casa antes de terça-feira à noite; assim, contou lugubremente o número de horas que ainda tinha de passar numa posição de detestável autoridade,sozinho com a filha.

O que estaria fazendo? – pensou, enquanto endereçava o envelope à mulher. Não podia controlar o telefone. Não podia bancar o espião. Ela estava livre de fazer os arranjos que bem entendesse. Mas esse pensamento não o perturbava tanto quanto a atmosfera estranha, antipática, ilícita,da cena toda com os quatro jovens na noite anterior. Seu sentimento de desconforto era quase físico.

Mal sabia que Katharine estava de todo retirada, física e espiritualmente, do telefone. Sentada em seu quarto,com os dicionários abrindo as largas páginas na mesa à sua frente, e todas as páginas que eles tinham escondido por tantos anos arranjadas em pilha. Trabalhava com a firme concentração produzida pelo esforço bem-sucedido de afastar um pensamento inoportuno por meio de outro pensamento. Tendo absorvido o pensamento inoportuno,sua mente foi adiante, e com novo vigor, derivado da vitória; numa página, linhas de algarismos e símbolos freqüente e firmemente escritos marcavam os diversos estádios do seu progresso. E, todavia, já era dia claro; havia batidas e sons de varreduras, prova de que havia gente viva em atividade do outro lado da porta; e que a porta,que podia ser escancarada a qualquer momento, era sua única proteção contra o mundo. Mas alçara-se, de algum modo, à posição de senhora do seu próprio reino; assumindo sua soberania inconscientemente.

Passos se aproximaram sem que os ouvisse. É verdade que eram passos hesitantes, que divagavam, que subiam com a deliberação natural de uma pessoa de mais de sessenta anos, cujos braços, além disso, estão cheios de folhas e de botões de flores; mas avançavam sem interrupção e logo o choque de ramos de louro contra a porta fez parar o lápis de Katharine quando tocava uma página. Ela não se moveu, no entanto, e ficou sentada e sem expressão, a esperar que a interrupção cessasse. Ao invés disso, a porta se escancarou. De começo, não deu atenção à massa movente de verde que parecia entrar no quarto independentemente de qualquer interferência humana. Depois, reconheceu partes do rosto e da pessoa de sua mãe, atrás das flores amarelas e do veludo macio dos brotos de palma.

– Do túmulo de Shakespeare! – exclamou Mrs.Hilbery,deixando cair a massa toda no chão, com um gesto que era como um ato de consagração. Então abriu os braços largamente e estreitou a filha.

– Graças a Deus, Katharine! – exclamou. – Graças a Deus! – repetiu.

– A senhora voltou! – disse Katharine, um tanto vagamente, levantando-se para receber o abraço.

Embora tomasse conhecimento da presença de sua mãe, estava longe de participar da cena; e, todavia, sentia o quão extraordinariamente apropriado era que ela estivesse lá, rendendo graças a Deus por desconhecidos favores, e juncando o chão de flores e folhas do túmulo de Shakespeare.

– Nada mais importa no mundo! – continuou Mrs. Hilbery. – Nomes não são tudo; o que a gente sente é que é tudo. Não precisei de cartas tolas, bem intencionadas,metediças. Não precisei de seu pai para contar-me. Sabia de tudo, desde o princípio. E rezei para que fosse assim.

– A senhora sabia? – Katharine repetiu as palavras de sua mãe num tom macio e incerto, olhando como que através de Mrs. Hilbery. – Como sabia? – começou, como uma criança, a palpar com o dedo uma borla que pendia da capa que ela usava.

– Na primeira noite, você me contou, Katharine. Oh, e milhares de vezes: jantares, conversa sobre livros, a maneira como ele entrava na sala, sua voz quando falava nele. Katharine pareceu considerar cada uma dessas provas separadamente. Depois disse, gravemente:

– Eu não vou casar com William.E,depois,há Cassandra...

– Sim, há Cassandra – disse Mrs. Hilbery. – Concedo que fui um pouco relutante a princípio; mas, afinal de contas, ela toca piano tão maravilhosamente. Diga-me,Katharine – perguntou impulsivamente –, onde você foi naquela noite em que ela tocou Mozart para nós e você pensou que eu dormia?

Katharine lembrou-se com dificuldade. – A casa de Mary Datchet – disse.

– Ah! – disse Mrs. Hilbery, com uma pequena nota de desapontamento na voz. – Eu teci o meu romance, minha pequena especulação. – Olhou a filha. Katharine vacilou sob esse olhar inocente e penetrante; corou, virou-se, depois levantou os olhos, que estavam muito brilhantes.

– Eu não amo Ralph Denham – disse

– Pois não case a não ser que esteja amando! – disse Mrs. Hilbery vivamente. – Mas – acrescentou, lançando um rápido olhar de soslaio à filha –, não há diferentes maneiras, Katharine? Diferentes?

– Eu e ele nos encontraremos tão freqüentemente quanto quisermos, mas pretendemos ser livres – respondeu Katharine.

– Encontrar-se-ão aqui, encontrar-se-ão nesta casa, encontrar-se-ão na rua. – Mrs. Hilbery repassou essas frases,como se estivesse experimentando cordas que não satisfizessem de todo os seus ouvidos. Era claro que tinha suas fontesde informação; na verdade, sua bolsa estava recheada com o que chamava “gentis cartas” da pena de sua cunhada.

– Sim. Ou ficar fora da cidade.

Mrs. Hilbery fez uma pausa, pareceu infeliz, e foi procurar inspiração na janela.

Quão confortador ele foi, naquela loja, quando me encontrou e descobriu as ruínas imediatamente, como me senti segura com ele...

Segura? Oh, não, ele é terrivelmente precipitado, está sempre a correr riscos! Quer abandonar a profissão e viver num pequeno cottage, e escrever livros, embora não tenha um níquel a que possa chamar seu, e um sem-número de irmãos e irmãs que dependem dele.

– Ah, ele tem mãe? – perguntou Mrs. Hilbery.

– Sim. Uma senhora bem parecida, de cabelos brancos.

Katharine pôs-se a descrever a sua visita, e logo Mrs.Hilbery extraiu da narrativa os fatos de que não só a casa era de revoltante feiúra, a que Ralph suportava sem queixar-se, mas que era evidente que todos dependiam dele, e que tinha um quarto no alto com uma bela vista de Londres e uma gralha.

Uma pobre ave num canto, já meio depenada – disse,com uma ternura na voz que parecia comiserar os sofrimentos da humanidade ao mesmo tempo que conservava a fé na capacidade de Ralph Denham para aliviá-los. Mrs.Hilbery não pôde deixar de exclamar:

Mas, Katharine, você está apaixonada! – E a isso Katharine ruborizou-se, pareceu espantada, como se tivesse dito alguma coisa que não devera dizer, e sacudiu a cabeça.

Mrs. Hilbery deu-se pressa em pedir mais detalhes dessa casa extraordinária, e interpôs umas poucas especulaçõessobre o encontro entre Keats e Coleridge numa alameda, o que aliviou o desconforto do momento, e conduziu Katharine a maiores descrições e indiscrições. Na verdade, sentia um esquisito prazer em falar, assim, livremente, com alguém que era ao mesmo tempo sábia e benévola, a mãeda sua primeira infância, cujo silêncio parecia responder aperguntas que não eram formuladas nunca. Mrs. Hilberyouviu sem fazer qualquer reparo por um longo tempo.Parecia tirar suas conclusões mais por olhar a filha do quepor ouvi-la; se a interrogassem a respeito, daria uma versãoaltamente inacurada da vida de Ralph Denham, exceto pelos fatos de ser pobre, órfão de pai e morador de Highgate – coisas todas muito a seu favor. Mas por meio de olharesfurtivos assegurara-se de que Katharine se encontrava numestado que lhe dava; alternadamente, o mais refinado prazer e o mais profundo alarme.Não pôde furtar-se a dizer, ao fim:

– Tudo se faz hoje em cinco minutos num cartório, se é que você acha o serviço religioso florido demais, e é mesmo, embora haja coisas muito nobres nele.

– Mas não queremos casar – replicou Katharine, enfaticamente; e acrescentou: – Afinal de contas, não é perfeitamente possível viver juntos sem ser casados? De novo Mrs. Hilbery pareceu perturbada e, na sua aflição, tomou as folhas de papel espalhadas na mesa e ficou a revirá-las para um lado e para outro, dizendo entre dentes à medida que lia de relance:

– A mais B menos C igual a x y z.É tudo tão horrorosamente feio, Katharine. É a impressão que me dá: horrorosamente feio.

Katharine tomou os papéis das mãos de sua mãe e começou a botá-las em ordem, distraidamente, pois seu olhar fixo mostrava que tinha o pensamento em outra coisa qualquer.

– Bem, não vejo feiúra nenhuma – disse, finalmente.

– Mas ele não lhe pede que case? – exclamou Mrs.Hilbery.

– Esse rapaz que eu conheço, de calmos olhos castanhos?

– Ele não pede nada. Nenhum de nós pede nada.

– Se eu pudesse ajudá-la, Katharine, com a memória do que eu mesma sentia...

– Sim. Diga-me o que sentia.

Mrs. Hilbery, com os olhos de súbito velados, espiou o corredor enormemente longo ao fundo do qual as figurinhas dela própria e do seu marido apareciam fantasticamente vestidas, de mãos dadas, num banco banhado em luar, com rosas a balouçar na sombra.

– Uma noite – começou – estávamos num pequeno bote a caminho do navio. O sol se tinha posto e a lua já se levantava sobre nossas cabeças. Havia adoráveis reflexos de prata nas ondas, e três luzes verdes, no vapor, em meio da baía. A cabeça de seu pai parecia tão bela contra o mastro! Era a vida, era a morte. O mar imenso em redor de nós. Era a viagem para todo o sempre.O antigo conto de fadas foi música para os ouvidos de Katharine. Sim, lá estava o enorme espaço do mar; lá estavam as três luzes verdes do vapor; as figuras embuçadas subiram ao deque. E, assim, vogando sobre as águas verdes e púrpura, deixando para trás penhascos e lagoas encravadas na areia, através de águas paradas juncadas de mastros de navios e de flechas de campanários – lá estavam eles. Parecia que o rio os trouxera e os depositara naquele ponto exato. Olhou admirativamente para sua mãe, a antiga viajante.

– Quem sabe – exclamou Mrs. Hilbery, prosseguindonos seus devaneios –, quem sabe para onde vamos, ou porque, ou quem nos enviou, ou o que encontraremos? Quemsabe alguma coisa, exceto que o amor é a nossa fé? Amor – cantarolou; e o som, macio, repercutindo através das palavras em surdina, foi ouvido pela sua filha como o quebrarsolene e ordeiro das vagas na desmesurada praia que elacontemplava. Teria desejado que sua mãe ficasse a repetir essa palavra quase indefinidamente, uma palavra tranqüilizadora quando pronunciada por outrem, que recompunhaos fragmentos do mundo estilhaçado. Mas Mrs. Hilbery,em vez de repetir a palavra amor, disse, aliciante:

– E você não vai mais pensar esses pensamentos feios, Katharine? – ao que o navio que Katharine estivera a observar pareceu acostar e encerrar sua viagem marítima.No entanto, ela precisava terrivelmente, se não de simpatia, pelo menos de alguma forma de conselho, ou de uma oportunidade de expor seus problemas perante uma terceira pessoa, de modo a renová-los a seus próprios olhos.

– Então – disse, ignorando o difícil problema da feiúra dos pensamentos –, a senhora sabia que nos amávamos;mas somos diferentes. Parece – continuou, franzindo um pouco a testa, como se tentasse fixar um pensamento difícil –, parece repetiu – que alguma coisa chegou ao fim,de súbito, soltou-se, perdeu a cor, uma ilusão, assim como as que a gente inventa quando crê que ama; a gente imagina, então, o que de fato não existe. É por isso que é impossível que casemos um dia! Sempre a achar o outro uma ilusão, e indo embora, e esquecendo-o, nunca estando seguros de jamais ter gostado mesmo, ou de não ter ele gostado todo o tempo de outra pessoa que não era a gente, o horror de mudar de um estado para outro, de ser feliz num momento e miserável no seguinte, essas as razões pelas quais não podemos casar nunca. Ao mesmo tempo continuou –, não podemos viver um sem o outro porque Mrs. Hilbery esperou pacientemente que a frase fosse completada, mas Katharine calou-se e ficou a tocar com os dedos a sua folha de números.

– Há que ter fé nas próprias visões – continuou Mrs.Hilbery, olhando de relance os números, que a afligiam vagamente, e que tinham na sua mente alguma conexão com a contabilidade doméstica –, do contrário, como você diz... – E lançou um olhar de relâmpago nas profundezas de desilusão que talvez não fossem de todo desconhecidas para ela.

– Creia-me, Katharine, é a mesma coisa para cada um de nós, para mim também, para seu pai – disse, veemente,e suspirou. Olharam ambas para o fundo do abismo e,como a mais velha das duas, ela se recuperou primeiro e perguntou:

– Mas onde está Ralph? Por que não está aqui para ver-me? A expressão de Katharine mudou instantaneamente:

– Por que não lhe é permitido vir aqui – respondeu, amargamente.Mrs. Hilbery pôs isso de lado:

– Haverá tempo de mandar chamá-lo para o almoço? perguntou. Katharine olhou para a mãe como se ela fora,na verdade, uma feiticeira. Uma vez mais sentiu que, em vez de uma mulher adulta, acostumada a dar conselhos e a comandar, estava apenas um pé ou dois acima da erva alta e das florezinhas, e inteiramente dependente dessa figura de tamanho indefinido, cuja cabeça chegava até o céu e cuja mão estava na sua, para guiá-la.

– Não sou feliz sem ele – disse simplesmente.

Mrs. Hilbery assentiu de cabeça, de uma maneira que indicava total compreensão, e a imediata concepção de certos planos para o futuro. Reuniu as suas flores, respirou na doçura delas, e trauteando uma pequena canção sobre a filha de um moleiro, deixou a sala.

O caso que ocupava Ralph Denham nessa tarde não recebia, aparentemente, sua inteira atenção; e, todavia, os negócios do falecido John Leake, de Dublin, eram suficientemente confusos para exigirem todo o cuidado que um advogado lhes pudesse dar; só assim a viúva Leake e os cinco filhos Leakes, todos de tenra idade, poderiam receber pelo menos uma ninharia qualquer. Mas o apelo à humanidade de Ralph tinha poucas probabilidades de ser ouvido nesse dia; já não era um modelo de concentração.A divisão, tão cuidadosamente erigida, entre as diferentes seções da sua vida tinha vindo abaixo, com o resultado de que, embora seus olhos estivessem fixos no testamento,via através da página um certo salão em Cheyne Walk.

Experimentou todos os recursos que lhe tinham servido no passado para manter erectas as divisórias da sua mente, até a hora em que pudesse ir decentemente para casa; mas, um pouco para seu alarme, viu-se assaltado tão persistentemente por Katharine, que era como se o ataque viesse de fora; e lançou-se desesperadamente numa entrevista imaginária com ela. Katharine obliterava toda uma estante carregada de relatórios, e os cantos e linhas da sala sofreram um curioso adoçamento de contornos, como o que faz parecer estranho àquele que acorda o seu próprio quarto de dormir. Pouco a pouco, um pulsar de tensão começou a bater-lhe a intervalos regulares na cabeça, levantando os seus pensamentos em vagas às quais as palavras em seguida se ajustavam; e sem muita consciência do que fazia, pôs-se a escrever numa folha de papel de rascunho o que tinha a aparência de um poema a que faltassem várias palavras em cada linha. Nem muitas linhas foram lançadas no papel antes que atirasse para longe a pena, e rasgasse a folha em mil pedaços. Isso era sinal de que Katharine fizera valer seus direitos e apresentara uma asserção impossível de contestar poeticamente. O que ela dissera era inteiramente destrutivo de toda poesia,pois pretendia que a poesia nada tinha a ver com ela; todos os seus amigos passavam a vida a fazer frases, disse;todos os sentimentos dele eram uma ilusão; e, no momento seguinte, como que a zombar da sua impotência,mergulhara num daqueles seus estados sonhadores em que não fazia caso da existência dele. Os seus próprios apaixonados esforços para atrair a atenção de Katharine despertaram-no para o fato de estar em meio ao seu minúsculo escritório de Lincoln’s Inn Fields, a uma distância considerável de Chelsea. E essa distância física aumentava o desespero. Começou a andar em círculos até que isso o deixou desgostoso; tomou então uma nova folha de papel para compor uma carta que, jurou antes de começála, seria enviada nessa mesma noite.

Era assunto difícil para botar em palavras; versos talvez lhe fizessem justiça, mas cumpria abster-se de poesia.Num número infinito de rabiscos meio apagados, tentou transmitir a ela a possibilidade de que, embora seres humanos sejam desgraçadamente mal adaptados à comunicação, tal comunhão é ainda, apesar de tudo, o melhor que conhecemos; ademais, faculta a cada um o acesso a outro mundo independente de assuntos pessoais, um mundo de lei, de filosofia, ou, mais estranhamente ainda, um mundo tal como esse de que ele tivera um vislumbre na outra noite, quando, juntos, pareceram partilhar alguma coisa,criar alguma coisa,um ideal,uma visão projetada à frente das atuais circunstâncias. Se essa orla de ouro for eliminada, se a vida não tiver mais um debrum de ilusão (mas seria ilusão, afinal de contas?), então seria um negócio melancólico demais para ser levado ao fim; assim escreveu ele, com um súbito ímpeto de convicção, que iluminou o caminho pelo espaço de um minuto e deixou pelo menos uma sentença intacta e completa. Tomando em consideração todos os outros desejos, essa conclusão pareceu-lhe,em conjunto, justificar a relação que tinham. Mas a conclusão era mística; mergulhou-o em pensamento. A dificuldade com que mesmo esse pouco fora escrito, a insuficiência intrínseca das palavras, a necessidade de escrever por baixo delas e por cima delas outras palavras que, afinal, não serviam melhor que as primitivas, fizeram-no abandonar a empresa, antes que se pudesse dar por satisfeito com a sua produção e se sentisse incapaz de resistir à convicção de que divagação tão incoerente não serviria nunca para os olhos de Katharine. Percebeu-se mais separado dela do que nunca. Inativo, e porque nada mais podia fazer com palavras, pôs-se a desenhar figurinhas nos espaços em branco, cabeças que tentavam parecer-se à cabeça dela, borrões franjados de chamas, destinados a representar... talvez o universo inteiro. Dessa ocupação tirou-o a mensagem de que uma senhora desejava falar-lhe.Teve apenas tempo de passar as mãos pelo cabelo, a fim de parecer um advogado tanto quanto possível, e enfiar os seus papéis no bolso, já coberto de vergonha de que algum olho estranho os pudesse ver, quando descobriu que os preparativos eram inúteis. A senhora era Mrs. Hilbery.

– Espero que não esteja a dispor da sorte de alguém apressadamente – observou ela, olhando os documentos espalhados em cima da mesa –, ou cortando algum vínculo sucessório de um golpe, porque desejo pedir-lhe que me faça um favor. E Anderson não vai deixar que seu cavalo espere (Anderson é um perfeito tirano, mas foi quem conduziu meu querido pai à Abadia, no dia em que o enterraram). Aventurei-me a procurá-lo, Mr. Denham, não exatamente em busca de assistência legal (embora não saiba a quem procuraria, se estivesse numa dificuldade dessas), mas a fim de pedir seu auxt1io para resolver al-guns pequenos problemas domésticos que surgiram na minha ausência. Estive em Stratford-on-Avon (preciso contar-lhe tudo a respeito, um dia desses), e lá recebi uma carta de minha cunhada, uma pobre pateta que gosta de se meter com a vida dos filhos dos outros por não ter os seus (tivemos grande medo que ela fosse perder a vista de um dos olhos, e sempre achei que as nossas desordens físicas tendem a transformar-se em desordens mentais. Penso que Matthew Arnold diz alguma coisa desse tipo sobre Lord Byron). Mas isso já foge ao assunto.

O efeito desses parênteses, quer fossem introduzidos para esse fim, quer representassem um instinto natural de parte de Mrs. Hilbery para embelezar a aridez do discurso, deram a Ralph tempo de perceber que ela estava senhora de todos os fatos da situação deles e tinha vindo, de algum modo, no papel de embaixadora.

– Não vim cá para falar de Lord Byron – continuou Mrs. Hilbery, com um risinho, embora saiba que você e Katharine, ao contrário de outros jovens da sua geração,ainda o julgam digno de ser lido. – Fez uma pausa. – Fico tão contente, Mr. Denham, que tenha feito Katharine ler poesia! – exclamou – e sentir poeticamente, e ficar com um ar poético! Ela ainda não é capaz de botar isso em palavras, mas vai ser! Ah, sim, vai ser!

Ralph, cuja mão estava cerrada e cuja língua se recusava quase a articular, conseguiu, de algum modo, dizer que,em certos momentos, sentia-se incapaz, absolutamente incapaz, embora não desse razões para uma tal declaração de sua parte.

– Mas você gosta dela? – perguntou Mrs. Hilbery.

– Deus meu! – exclamou ele, com uma veemência que não admitia dúvida.

– Então vocês objetam é ao serviço da Igreja da Inglaterra? – perguntou Mrs. Hilbery, inocentemente.

– Eu não me importo uma figa que espécie de serviço seja – Ralph replicou.

– Você seria capaz de casar-se com ela em Westminster Abbey, na pior das hipóteses?

– Eu casaria com ela na St. Paul’s Cathedral! – respondeu Ralph. Suas dúvidas sobre esse ponto, que eram sempre levantadas pela presença de Katharine, desapareceram completamente, e seu mais forte desejo no mundo era estar com ela imediatamente, desde que, a cada segundo que ficava longe dela, imaginava-a afastando-se mais e mais dele, para um daqueles estados da mente em que ele não tinha participação. Queria dominá-la, possuí-la.

– Graças a Deus! – exclamou Mrs. Hilbery. Agradecialhe por uma variedade de dons: pela convicção com que esse rapaz falava; e, não em último lugar, pela perspectiva de que no dia do casamento de sua filha, as nobres cadências, os majestosos períodos ressoariam por cima das cabeças de uma ilustre congregação reunida no próprio local em que seu pai jazia imóvel, com os outros poetas de Inglaterra. As lágrimas encheram-lhe os olhos; mas lembrou-se simultaneamente de que sua carruagem esperava,e com olhos ainda cegos caminhou até a porta. Denham desceu com ela. Foi uma viagem estranha. Para Denham, sem dúvida nenhuma, a mais desagradável que jamais fizera. Seu único desejo era chegar o mais depressa possível a Cheyne Walk; mas logo ficou evidente que Mrs. Hilbery ou ignorava esse desejo ou decidira frustrá-lo, pois intercalou várias andanças diversionistas pelo caminho. Fez a carruagem parar em correios, confeitarias, e lojas de inescrutável dignidade, em que decrépitos caixeiros tinham de ser saudados como velhos amigos; e, percebendo o domo de St.Paul acima das agulhas irregulares de Ludgate Hill, puxou a corda impulsivamente, e deu instruções a Anderson para que os levasse até lá. Mas Anderson tinha suas próprias razões para desencorajar devoções na hora do almoço, e manteve o nariz do cavalo obstinadamente na direção oeste. Depois de alguns minutos, Mrs. Hilbery percebeu a situação e aceitou-a de bom humor, pedindo desculpas a Ralph pela decepção.

– Não faz mal – disse –, iremos a St. Paul outro dia, e pode ser, embora eu não o prometa, pode ser que ele passe conosco por Westminster Abbey, o que seria melhor ainda.

Ralph mal percebia o que ela dizia. Sua mente e seu corpo pareciam, ambos, flutuar numa região de nuvens muito rápidas, que passavam umas pelas outras e envolviam tudo na mesma vaporosa indeterminação. Entrementes, mantinha-se cônscio do seu próprio concentrado desejo, da sua impotência para levar a cabo o que quer que desejasse, e da crescente angústia da própria impaciência.

De súbito, Mrs. Hilbery puxou a corda com tal determinação que mesmo Anderson teve de atender à ordem que, debruçada na janela, ela lhe deu. A carruagem estacou em pleno Whitehall, diante de um grande edifício dedicado a uma das repartições do governo. Num segundo, Mrs. Hilbery subia as escadarias, e Ralph foi deixado num estado de tão aguda irritação por essa última demora, que desistiu até de especular sobre a razão que poderia levá-la agora ao Conselho de Educação. Estava disposto a saltar da carruagem, quando Mrs. Hilbery reapareceu, falando animadamente com uma figura que permanecia escondida atrás dela.

Há lugar suficiente para todos nós – dizia. – Muito lugar. Poderíamos arranjar espaço para quatro Williams acrescentou, abrindo a porta; e Ralph viu que Rodney se juntava à companhia. Os dois homens se fitaram de re-lance. Se aflição, vergonha e desalento em sua mais aguda forma foram jamais visíveis num rosto humano, Ralph podia vê-los todos estampados no rosto do seu companheiro, e para além do que a eloqüência das palavras é capaz de comunicar. Mas ou Mrs. Hilbery estava completamente cega, ou decidira portar-se como tal. Falava e falava; parecia aos dois rapazes que falava com um interlocutor externo, com alguém do ar. Falava sobre Shakespeare, apostrofava a raça humana, proclamava as virtudes da divina poesia, começava a recitar versos que ficavam partidos ao meio. A grande vantagem de seu discurso era a auto-suficiência, alimentando-se a si mesma até que Cheyne Walk foi alcançada, depois de meia dúzia de grunhidos e murmúrios.

Havia algo de leve e irônico na sua voz e expressão quando se voltou na soleira e olhou para os dois; isso encheu tanto Rodney quanto Denham com a mesma preocupação de terem confiado suas fortunas a tal embaixadora; e Rodney chegou a hesitar no umbral, sussurrando a Denham:

– Você entra, Denham. Eu...

Ia escapar, mas a abertura da porta e seu ar familiar fizeram valer seus encantos, e ele entrou de um salto atrás dos outros, e a porta se fechou sobre qualquer veleidade de fuga. Mrs. Hilbery mostrou o caminho, escada acima.Conduziu-os ao salão. O fogo ardia, como de hábito, e pequenas mesas tinham sido dispostas com porcelana e prata. Não havia ninguém.

– Ah – disse –, Katharine não está aqui. Deve estar láem cima, em seu quarto. O senhor tem algo a dizer-lhe,eu sei, Mrs. Denham. Poderá encontrar o caminho? – E indicou vagamente o teto, com um gesto da mão. Ficara,de repente, séria e composta, senhora em sua própriacasa. O gesto com que o despediu tinha uma dignidade que Ralph jamais esqueceu. Parecia dar-lhe, com ummeneio de mão, liberdade sobre tudo o que possuía. Eledeixou a sala.

A residência dos Hilbery era alta, tinha muitos andares e passagens com portas fechadas, todas, uma vez passado o andar do salão, desconhecidas de Ralph. Subiu tanto quanto pôde e bateu na primeira porta que se lhe deparou.

– Posso entrar? Uma voz respondeu de dentro:

– Sim.

Viu uma grande janela, inundada de luz, uma vastamesa, e um espelho alto. Katharine se levantara, e estava de pé com alguns papéis na mão, que foram caindo devagar,no chão, ao ver quem era o visitante. A explicação foi breve.Os sons, inarticulados; ninguém poderia entender-lhes osentido, salvo os dois. Como se as forças do mundo estivessem conjuradas para separá-los, sentaram-se de mãos dadas, e apertadas, e perto bastante um do outro para seremtomados pelo próprio olhar malicioso do Tempo como umcasal unido, de uma unidade indivisível.

– Não se mova, não se vá – implorou ela, quando fez menção de recolher os papéis que ela deixara cair. Mas ele os tomou nas mãos e, tendo-lhe dado sua própria e inacabada dissertação, com sua conclusão mística, passou a ler as dela, em silêncio.

Katharine leu as páginas dele até o fim; Ralph passou osolhos pelos números dela tanto quanto sua matemática lhepermitia. Chegaram ao fim das suas respectivas tarefas no mesmo momento, e ficaram por longo tempo em silêncio.

– Esses foram os papéis que você esqueceu no banco,em Kew – disse Ralph, por fim. – Você os dobrou tão depressa que não pude ver de que tratavam.

Ela corou; mas como não se moveu nem fez qualquer tentativa de esconder o rosto, pareceu uma pessoa desarmada de todas as suas defesas. Ralph comparou-a a um pássaro que se acomoda, com as asas a tremer, no ato de dobrá-las, inerme e ao alcance da sua mão. O momento de exposição fora estranhamente doloroso; a luz que lançara, terrivelmente crua. Ela devia, agora, adaptar-se ao fato de que alguém partilhava da sua solidão. O espanto era meio vergonha e meio prelúdio de um profundo alegrar-se. Não podia ignorar que, na superfície, a coisa toda poderia parecer um absurdo total. Olhou para ver se Ralph sorria, mas descobriu que ele tinha os olhos postos nela com uma tal gravidade que passou a crer que não cometera, afinal, um sacrilégio, mas que se enriquecera,talvez imensuravelmente, talvez eternamente. Não ousava embeber-se dessa bem-aventurança infinita. O olhar dele parecia pedir alguma garantia sobre outro ponto de vital interesse. Implorava-lhe, sem palavras, que lhe dissesse se o que lera naquela confusa página encerrava para ela al-gum sentido ou verdade. Ela curvou a cabeça uma vez mais sobre os papéis que segurava:

– Gosto do seu pequeno ponto com as chamas em volta disse, pensativamente.

Ralph quase arrancou a folha da mão dela, de vergonha e desespero, mas viu que ela de fato contemplava o símbolo idiota dos seus momentos mais confusos e emotivos.

Estava certo de que aquilo não poderia significar nada para outra pessoa, embora representasse para ele de al-gum modo, não só a própria Katharine mas todos os estados de espírito que se grupavam em torno dela desde que a vira pela primeira vez servindo chá numa tarde de domingo. Representava, pelo seu círculo de borrões em tor-no da mancha central, todo esse halo envolvente que, para ele, circundava inexplicavelmente tantos dos objetos da vida, adoçando seus angulosos contornos, de tal modo que ele via certas ruas, certos livros e situações numa auréola quase perceptível ao olho físico. Ela teria rido? Teria posto o papel na mesa com um gesto enfastiado, condenando-o não só por inapropriado, mas por falso? Iria protestar, uma vez mais, que ele apenas amava a visão que tinha dela? Mas não ocorreu a Katharine que aquele diagrama tivesse qualquer coisa a ver com ela. Disse simplesmente e no mesmo tom de reflexão:

– Sim, o mundo me parece com alguma coisa assim,também.

Ele recebeu essa segurança com profunda alegria.Serena e firmemente erguia-se por trás do aspecto todo da vida aquele macio filete de fogo que comunicava seu rubro matiz à atmosfera e enchia o proscênio com sombras tão profundas e escuras que era lícito pensar em aprofundá-las, em ir mais longe, e mais longe ainda, numa exploração indefinida: se havia alguma correspondência entre as duas perspectivas que se abriam, agora, à frente deles, partilhavam a mesma impressão do futuro imediato, vasto, misterioso, infinitamente cheio de formas ainda por definir, que cada um deles revelaria para a inspeção do outro; mas no momento a própria perspectiva do futuro era bastante para saturá-los de uma silenciosa adoração.De qualquer maneira, ulteriores tentativas de comunicação articulada foram interrompidas por uma batida na porta, e pela entrada de uma empregada, que, com o devido senso de mistério, anunciou que uma senhora desejava ver Miss Hilbery, mas recusava declinar seu nome.

Quando Katharine se levantou, com um profundo suspiro,para retomar os seus deveres,Ralph acompanhoua, e nenhum dos dois formulou qualquer conjetura, enquanto desciam as escadas, sobre a identidade dessa anônima senhora. Talvez a fantástica noção de que ela fosse uma pequena anã preta provida de uma faca de aço para mergulhar no coração de Katharine tivesse parecido a Ralph mais provável do que outra, e ele entrou à frente,na sala de jantar, para conjurar o golpe. E logo exclamou:

– Cassandra!

E tão calorosamente o fez, ao ver Cassandra Otway de pé junto à mesa, que ela pôs um dedo nos lábios e pediulhe quê ficasse quieto.

– Ninguém pode saber que estou aqui! – explicou, num cochicho sepulcral. – Perdi o trem...Tenho andado a esmo em Londres o dia inteiro. Não agüento mais. Katharine, o que devo fazer? Katharine avançou uma cadeira. Ralph impetuosamente descobriu vinho e serviu-o para ela. Se não desmaiava, estava perto disso.

– William está lá em cima – disse Ralph, logo que pareceu recuperada. – Vou pedir-lhe que desça para ver você. – A sua própria felicidade dera-lhe a convicção de que todo mundo devia ser feliz também. Mas Cassandra tinha ainda muito vivas na mente as recomendações de seu tio, e a sua ira também, para ousar um desafio desses.Ficou agitada, e disse que tinha de deixar a casa imediatamente. Não estava, porém, em condições de ir, mesmo que soubessem para onde mandá-la. O bom senso de Katharine, que estivera em latência por uma semana ou duas, abandonou-a, e ela pôde apenas perguntar:

– Mas onde está sua bagagem?

Parecia ter a vaga noção de que o fato de alugar quartos dependia inteiramente de uma certa suficiência de bagagem. A resposta de Cassandra, “Perdi a minha bagagem”, de nenhuma maneira ajudou-a a chegar a uma conclusão.

– Você perdeu sua bagagem! – repetiu. – Seus olhos descansaram em Ralph, com uma expressão que parecia mais apropriada à acompanhar uma profunda ação de graças pela sua existência ou algum voto de eterna devoção, do que uma pergunta sobre malas. Cassandra percebeu o olhar, e viu que era correspondido; seus olhos mare-jaram-se de lágrimas. Vacilou no que estava dizendo.Recomeçou, depois, corajosamente, a discutir a questão de um alojamento, quando Katharine, que parecia ter estabelecido uma silenciosa comunicação com Ralph e obtido o assentimento dele, tirou seu anel de rubi do dedo e deu-o a Cassandra dizendo:

– Acho que lhe servirá sem qualquer alteração.

Essas palavras não teriam sido o bastante para convencer Cassandra do que ela tanto desejaria acreditar se Ralph não tivesse tomado sua mão nua, e perguntado:

– Por que você não nos diz que está contente?

Cassandra estava tão contente que as lágrimas lhe correram pelas faces. A certeza do noivado de Katharine não só a aliviava de mil temores vagos, de mil sentimentos de culpa: estancava também, inteiramente, aquele espírito de crítica que tinha nos últimos tempos empanado sua confiança em Katharine. Voltou-lhe a antiga fé. Pareceu vê-la de novo com aquela curiosa intensidade que parecia haver perdido; como um desses seres que caminham um pouco além da nossa esfera, de modo que a vida em presença deles é um processo que exalta e engrandece e ilumina,não só a nós mas a uma faixa considerável do mundo circundante. No momento seguinte, comparou sua própria situação com a deles, e devolveu o anel.

– Não posso aceitar isso, a não ser que William mesmo o dê – disse. – Guarde-o para mim, Katharine.

– Asseguro-lhe que tudo está muito bem – disse Ralph.

– Espere que eu fale a William...E, malgrado o protesto de Cassandra, estava a alcançar a porta quando Mrs. Hilbery, avisada pela empregada ou cônscia, por sua própria presciência, da necessidade da sua intervenção, abriu a porta e mediu-os com um sorriso:

– Minha querida Cassandra! – exclamou. – Como é maravilhoso vê-la de volta! Que coincidência! – observou, de maneira geral. – Wil1iam está lá em cima. E a chaleira está fervendo. Por onde anda Katharine? Ah, sim. Venho olhar, e encontro Cassandra! – Parecia ter provado alguma coisa a contento, embora ninguém percebesse precisamente o quê:

– Encontro Cassandra – repetiu.

– Ela perdeu o trem – explicou Katharine, vendo que Cassandra estava incapaz de falar.

– A vida – começou Mrs. Hilbery, tirando sua inspiração, ao que parecia, dos retratos na parede –, a vida consiste em perder trens e em encontrar... – Mas deteve-se e observou que a chaleira já devia ter fervido muito mais que o desejado.Para a mente agitada de Katharine, a chaleira pareceu uma chaleira enorme, capaz de inundar a casa em incessantes jatos de vapor, representante que era de todos os deveres domésticos que ela negligenciara. Correu ao salão, e os outros seguiram-na, enquanto Mrs. Hilbery punha o braço em tomo dos ombros de Cassandra e a conduzia ao andar de cima. Encontraram Rodney a observar a chaleira com ar preocupado, mas com tal abstração que a catástrofe prevista por Katharine estava em vias de ocorrer. Enquanto o assunto era resolvido, não se trocaram cumprimentos, mas Rodney e Cassandra escolheram cadeiras tão afastadas quanto possível, e sentaram-se com ar de pessoas que tomam um lugar muito transitório. Ou Mrs. Hilbery era indiferente ao desconforto deles ou preferiu ignorá-lo ou pensou que já era tempo que se mudasse de assunto, pois só falou do túmulo de Shakespeare.

– Tanta terra e tanta água e aquele sublime espírito pairando sobre tudo – refletiu. E continuou, cantando a sua estranha e meio incorpórea canção feita de alvoradas e crepúsculos, de grandes poetas e do imutável espírito de amor e de nobreza que eles ensinaram, de modo que nada,efetivamente, muda, e que uma idade está ligada a outra,e ninguém morre, e todos nos encontramos em espírito, até que pareceu esquecida da presença dos outros na sala.Mas, de súbito, suas observações pareceram reduzir o círculo enormemente vasto em que até então planavam e baixar, levemente, provisoriamente, das alturas sobre assuntos de importância mais imediata:

– Katharine e Ralph – disse, como que a experimentar o som. – William e Cassandra.

– Sinto-me numa posição inteiramente falsa – disse William, desesperadamente, lançando-se nessa brecha das considerações dela. – Não tenho o direito de estar aqui. Mr. Hilbery disse-me ontem que deixasse esta casa.Não tinha intenção de voltar. Procederei agora a... – Eu sinto o mesmo – interrompeu Cassandra. – Depois do que tio Trevor me disse ontem à noite...

– Deixei-a numa posição odiosa – continuou Rodney,levantando-se da cadeira, movimento em que foi imitado por Cassandra. – Até que eu obtenha o consentimento de seu pai não me assiste o direito de falar-lhe, muitomenos nesta casa, onde minha conduta... – olhou paraKatharine, gaguejou e calou-se –, onde minha condutafoi repreensível e indesculpável ao extremo – concluiu com esforço. – Já expliquei tudo a sua mãe. Ela foi gene-rosa a ponto de me fazer acreditar que não procedi mal;você a convenceu de que meu procedimento, egoísta edébil como foi, egoísta e débil – repetiu, como um orador que perdeu suas notas.

Duas emoções pareciam lutar em Katharine: uma, o desejo de rir do ridículo espetáculo de William a fazerlhe um discurso formal por cima da mesa de chá; outro,um desejo de chorar à vista de algo de infantil e honesto nele que a comovia inexprimivelmente. Para surpresa de todos, levantou-se, estendeu-lhe a mão e disse:

– Você não tem nada de que recriminar-se, você foi sempre... – mas aí a voz morreu, as lágrimas forçaram caminho até os olhos, e correram pelas suas faces abaixo,enquanto William, igualmente emocionado, apanhou a mão dela e levou-a aos lábios. Ninguém percebeu que a porta da sala de estar se abrira o suficiente para admitir pelo menos metade da pessoa de Mr. Hilbery; ninguém o viu olhar a cena em torno da mesa de chá com uma expressão do maior desgosto e queixa. Retirou-se despercebido. Fez uma pausa do lado de fora da porta para recobrar o autocontrole e para decidir que curso sua dignidade exigia que tomasse. Era-lhe evidente que sua mulher confundira completamente o sentido das suas instruções.Mergulhara-os a todos na mais deplorável confusão. Esperou um momento e, depois, abriu a porta uma segunda vez. Todos haviam retomado seus lugares; algum incidente de natureza absurda os pusera a rir e a olhar debaixo da mesa, de modo que sua entrada não foi percebida de imediato. Katharine, com o rosto em brasa, levantou a cabeça e disse:

– Bem, essa é a minha última tentativa de ser dramática. – É espantosa a distância em que essas coisas rolam – disse Ralph, curvando-se para virar a ponta do tapete.

– Não se incomode,não se incomode.Nós o encontraremos... – começou Mrs. Hilbery, e então viu o marido e exclamou: – Oh, Trevor, estamos procurando o anel de noivado de Cassandra!

Mr. Hilbery olhou instintivamente para o tapete. Por extraordinário que pareça, o anel rolara justamente até o ponto onde ele se encontrava. Viu os rubis tocando a ponta da sua botina. Foi tal a força do hábito, que não pôde deixar de abaixar-se, com um pequeno e absurdo tremor de prazer por encontrar o que todos procuravam;e, apanhando o anel, apresentou-o a Cassandra com urna curvatura extremamente cortês. Talvez por ter a reverência libertado automaticamente sentimentos de condescendência e urbanidade, o certo é que Mr. Hilbery verificou que seu ressentimento se evaporara no segundo que levou para baixar-se e endireitar-se outra vez. Cassandra ousou oferecer-lhe o rosto, e recebeu um beijo. Ele saudou de cabeça, com alguma rigidez, a Rodney e a Denham, que se tinham posto de pé, todos dois, ao vê-lo, e que agora,juntos, sentaram-se de novo. Mrs. Hilbery parecia estar à espera da entrada do marido e desse exato momento para fazer-lhe uma pergunta que, pelo ardor com que a enunciou, estivera tentando tomar forma por algum tempo:

– Oh, Trevor, diga-me, qual foi a data da primeira representação de Hamlet?

A fim de responder-lhe, Mr. Hilbery teve de recorrer àerudição de William Rodney; antes de invocar as suas excelentes autoridades para mostrar por que acreditava comoacreditava, Rodney sentiu-se admitido, uma vez mais, nasociedade dos civilizados, e sancionado nada mais nada menos que por Shakespeare em pessoa. O poder da literatura, que temporariamente abandonara Mr. Hilbery, voltou-se, derramando-se como um bálsamo sobre a crua fealdade dos negócios humanos e oferecendo uma forma na qual tais paixões, como aquela que tão profundamente sentira na noite anterior, podiam ser moldadas de modo a sairda língua torneadas em belas frases que a ninguém feriam.Por fim, estava tão seguro do seu domínio da linguagem que olhou para Katharine e, de novo, para Denham. Todaessa conversa sobre Shakespeare agira como um soporífero,ou melhor, como uma encantação sobre Katharine. Ela se recostara na cadeira, à cabeceira da mesa de chá, perfeitamente silenciosa, olhando vagamente para além da companhia, recebendo as impressões mais gerais possíveis de cabeças humanas contra um fundo de quadros, contra paredes tintas de amarelo, contra reposteiros de veludo cor de vinho. Denham, para quem Mr. Hilbery se voltou em seguida, partilhava a imobilidade dela debaixo do seu olhar.Mas sob essa reserva e calma, era possível perceber urnaresolução, uma vontade, firmes, agora, de tenacidade inalterável, que faziam tropos de linguagem como os que Mr.Hilbery tinha a seu comando parecerem curiosamente irrelevantes. De qualquer maneira, o pai nada disse. Respeitava o rapaz; era um moço muito bem dotado; capaz,perfeitamente capaz,de conseguir o que queria. Poderia – pensou olhando a sua cabeça imóvel e tão digna – compreender a preferência de Katharine, e, ao pensar assim, foisurpreendido por uma pontada de agudo ciúme. Ela poderia ter casado com Rodney sem lhe causar a menor ferroada. Mas esse homem, ela o amava. Ou qual seria a situaçãoentre eles? Uma extraordinária confusão de emoções começava a tomar conta dele, quando Mrs. Hilbery, que percebera uma súbita parada na conversação, e olhara intencionalmente para a filha, uma ou duas vezes, observou:

– Não fique se quiser sair, Katharine. Há a saleta, ao lado. Talvez você e Ralph...

– Estamos noivos – disse Katharine, acordando com um sobressalto, e virando-se para seu pai. Ele ficou pasmo com o tom categórico da declamação; e soltou uma exclamação, como se um golpe inesperado o tivesse atingido.Tinha, então, amado a filha para vê-la, assim, levada embora por essa torrente, para tê-la tomada dele por essa força incontrolável, e ser obrigado a ficar à margem, inerme, ignorado? Oh, quanto a amava! Quanto a amava! Fez um sinal muito polido de cabeça em direção a Denham:

– Imaginei alguma coisa dessa espécie a noite passada disse. – Espero que você a mereça. – Mas não olhou para a filha, e saiu arrebatadamente da sala, deixando no espírito da mulher um sentimento em que havia temor, espanto e divertimento, pelo macho extravagante, desatencioso, pouco civilizado, que se sente de algum modo ultrajado e vai lamber as feridas no seu covil com um urro que às vezes reverbera nos mais polidos salões. Então Katharine, levantando os olhos para a porta fechada, baixou-os de novo e escondeu as lágrimas.