Noite e Dia

Virginia Woolf · Capítulo 32 de 35

Páginas do PDF

Noite e Dia

Capítulo 31

A bandeja que levou a xícara de chá para Katharine, na manhã seguinte, levou-lhe também um bilhete de sua mãe, anunciando que tinha a intenção de pegar um trem matinal para Stratford-on-Avon no mesmo dia.

“Descubra, por favor, a melhor maneira de ir lá”, dizia

o bilhete, “e telegrafe ao caro Sir John Burdett, para que me espere, com meu afeto. Estive sonhando a noite toda com você e Shakespeare, querida Katharine.”

Não se tratava de um impulso momentâneo.Mrs.Hilberysonhava com Shakespeare todo tempo há seis meses, entretendo a idéia de uma excursão ao lugar que considerava ocoração do mundo civilizado. Estar seis pés acima dos ossosde Shakespeare, ver as mesmas pedras gastas pelos seus pés,refletir que a mais velha das mães do mais velho dos homensde Stratford teria, com toda a probabilidade, conhecido a filha de Shakespeare, tais pensamentos despertavam nelauma emoção que expressava nos mais impróprios momentose com uma paixão que não estaria deslocada num peregrinoque demandasse um santuário. A única estranheza era que queria ir sozinha. Mas, como era natural, Mrs. Hilbery estava bem provida de amigos que viviam nas vizinhanças dotúmulo de Shakespeare e que ficariam encantados em recebê-la; assim, partiu, mais tarde, para pegar o seu trem, na melhor das disposições. Era um dia magnífico. Teria de lembrar-se de mandar a Mr. Hilbery o primeiro narciso quevisse.E,ao voltar correndo ao hall para dizer isso a Katharine,sentiu, como sentira sempre, que a ordem de Shakespeare deque seus ossos fossem deixados em paz, aplicava-se apenas adetectáveis mercadores de curiosidades – não ao querido SirJohn ou a ela. Deixando a filha a ponderar a teoria dos sonetos de Anne Hathaway, e dos manuscritos enterrados, aí referidos, com a implícita ameaça ao próprio coração da civilização, ela bateu vivamente a porta de seu táxi e foi levada naprimeira etapa de sua peregrinação.

A casa ficou estranhamente diferente, sem ela. Katharine descobriu que as empregadas já se tinham apoderado doquarto de Mrs. Hilbery, que pretendiam limpar completamente em sua ausência. Pareceu a Katharine que tinham removido mais ou menos sessenta anos com o primeiro golpedos seus panos úmidos.Pareceu-lhe que o trabalho que tentara fazer naquele quarto estava sendo reduzido a um insignificante montículo de pó. As pastoras de porcelana brilhavam,depois de um banho em água quente. A secretária poderiapertencer a um profissional, homem, de hábitos metódicos.

Juntando uns poucos papéis, com que pretendia trabalhar, Katharine foi para seu próprio quarto na intenção de examiná-las, talvez, durante a manhã. Encontrou-se na escada com Cassandra, que subiu com ela, mas com tais intervalos entre um degrau e outro que Katharine começou a ver sua própria intenção minguar antes de alcançarem a porta. Cassandra debruçou-se no corrimão e olhou o tapete persa que cobria o chão do hall.

– Não acha que tudo parece esquisito esta manhã? – perguntou. – Será que você vai mesmo gastar o tempo todo com essas aborrecidas cartas velhas? Porque se for...

As aborrecidas cartas velhas, que virariam a cabeça do mais sóbrio dos colecionadores, foram postas em cima de uma mesa, e depois de um momento, Cassandra, subitamente grave, perguntou a Katharine onde poderia encontrar a História da Inglaterra, de Lord Macauley. Estava embaixo, no escritório de Mr. Hilbery. As primas desceram juntas para procurá-la. Acabaram entrando na sala de visitas, pela simples razão de que a porta estava aberta. O retrato de Richard Alardyce atraiu-lhes a atenção:

– Fico a pensar como seria ele? – Era a pergunta que Katharine se vinha fazendo freqüentemente nos últimos tempos.

– Oh, uma fraude, como todos os outros; pelo menos é o que Henry diz – respondeu Cassandra. – Embora eu não acredite em nada do que Henry diz – acrescentou, um pouco na defensiva.Desceram, então, para o escritório de Mr. Hilbery,onde começaram a procurar entre os seus livros. Tão dessultória foi a busca que depois de quinze minutos não tinham achado o livro que procuravam.

– Você tem de ler a História de Macauley, Cassandra? perguntou Katharine; espreguiçando-se.

– Tenho, sim – respondeu a outra, sumariamente.

– Bem, vou ter de deixá-la procurando o livro sozinha.

– Oh, não, Katharine. Por favor fique e me ajude. Você entende, eu, eu disse a William que leria um pouquinho todo dia. Quero dizer-lhe que comecei, quando vier.

– E quando vem William? – perguntou Katharine, voltando às estantes.

– Para o chá, se isso lhe convém.

– Se me convém sair, você quer dizer?

– Oh, você é terrível... Por que não poderia...

– Sim?

– Por que não poderia ser feliz também?

– Sou perfeitamente feliz.

– Quero dizer feliz como eu sou, Katharine – falou impulsivamente.

– Vamos casar no mesmo dia. – Com o mesmo homem?

– Oh, não. Mas por que você não poderia se casar com outra pessoa?

– Aqui está o seu Macauley – disse Katharine,voltando-se para ela com o livro na mão. – Sugiro que comece a ler imediatamente, se quer estar educada para a hora do chá.

– Para o diabo com Lord Macauley! – exclamou Cassandra, batendo com o livro na mesa. – Você não prefere conversar?

– Já conversamos bastante – respondeu Katharine, evasivamente.

– Sinto que não vou me concentrar em Macauley – disse Cassandra, olhando compungida para a capa vermelha, sem brilho, do volume prescrito. Devia ter alguma propriedade mágica, uma vez que William o admirava. Ele lhe aconselhara um pouco de leitura séria todamanhã.

– Você já leu Macauley?

– Não. William jamais tentou educar-me. – Ao dizer isso, viu a luz desaparecer do rosto de Cassandra, como se ela tivesse implicado uma outra relação, mais misteriosa.Sentiu uma pontada de compunção. Pasmava-se com sua audácia em influenciar a vida de outra pessoa, como influenciara a de Cassandra.

– Não levávamos as coisas a sério – deu-se pressa em dizer.

– Mas estou terrivelmente séria – disse Cassandra, com um pequeno estremecimento; e o seu olhar mostrava que dizia a verdade. Virou-se para encarar Katharine, que não a olhara uma vez sequer. Havia temor em seu olhar,que dardejou na direção da outra e, depois, baixou, com ar de culpa. Oh, Katharine tinha tudo: beleza, inteligência,caráter. Jamais poderia competir com Katharine; jamais poderia sentir-se segura enquanto Katharine se preocupasse com ela, ou a dominasse, ou dispusesse dela.Chamou-a de fria, cega, inescrupulosa, mas o único sinal externo que emitiu foi curioso – estendeu a mão e tomou o volume de história. Nesse momento, o telefone tocou e Katharine foi atender. Cassandra, livre de observação, soltou o volume e torceu as mãos.Sofrera tortura mais feroz nesses poucos minutos do que em toda a sua vida; aprendera mais sobre sua capacidade de sentir. Mas, quando Katharine reapareceu, já estava calma e ganhara um ar de dignidade que era novo nela.

– Era ele? – perguntou.

– Era Ralph Denham.

– Eu quis dizer Ralph Denham.

– Por que quis dizer Ralph Denham? O que lhe contou William sobre Ralph Denham? – A acusação de que Katharine era calma, insensível e indiferentenão se podia sustentar face à vivacidade dessa reação.Nem deu a Cassandra tempo de formular uma resposta. – Agora, quando você e William pretendem casar? – perguntou.

Cassandra não respondeu por alguns momentos. Essa era, na verdade, uma pergunta difícil de responder. Em conversa, na noite anterior, William deixara perceber que,na sua opinião, Katharine estava ficando noiva de Ralph Denham na sala de jantar. Cassandra, na aura rósea de sua própria ventura, dispusera-se a pensar que o assunto estava resolvido. Mas uma carta que recebera essa manhã de William, embora ardente nas expressões de afeto, comunicava-lhe obliquamente que ele preferia que o anúncio do seu noivado coincidisse com o do noivado de Katharine. Cassandra produziu, então, esse documento e leu, com consideráveis cortes e muita hesitação:

– “...lamento infinitamente... na verdade, causaremos um bocado de complicações. Se, por outro lado, e se acontecer o que eu tenho razões para acreditar que aconteça,dentro de um prazo razoável – e a presente posição não é de maneira alguma ofensiva a você –, a demora, na minha opinião, consultará melhor aos nossos interesses do que uma prematura explicação, que pode causar mais surpresa do que seria desejável...”

– Tipicamente William – exclamou Katharine, tendo apanhado no ar o sentido dessas observações com uma velocidade que, por si só, desconcertou Cassandra.

– Posso entender perfeitamente os sentimentos dele – respondeu Cassandra. – Concordo com ele. Penso que seria muito melhor, se você tem a intenção de casar com Mr. Denham, que esperemos, como William diz.

– Mas e se eu não caso com ele por meses e meses, ou talvez nunca? Cassandra ficou calada. A possibilidade aterrava-a.Katharine estivera a telefonar para Ralph Denham; ela tinha um ar esquisito, também; ou estava noiva ou ia ficar noiva dele. Mas se Cassandra tivesse podido escutar a conversa telefônica, não estaria tão certa assim de que tudo caminhava nessa direção. Fora do seguinte teor:

– Aqui Ralph Denham falando. Estou com a cabeça no lugar agora.

– Quanto tempo esperou, fora de casa?

– Fui embora e escrevi uma carta. Rasguei-a.

– Vou rasgar tudo, também.

– Eu vou aí.

– Sim. Venha hoje.

– Preciso explicar-lhe...

– Sim. Temos de explicar...

Seguiu-se uma longa pausa. Ralph começou uma sentença que cancelou com a palavra “nada”. Subitamente,juntos, ao mesmo tempo, despediram-se. E, todavia, se o telefone fosse miraculosamente ligado com alguma atmosfera mais elevada, rescendendo ao tímio e com sabor de sal, dificilmente Katharine poderia sentir, ao respirar,maior satisfação. Desceu as escadas na crista desse regozijo. Pasmava-se ao ver-se comprometida, por artes de William e Cassandra, a casar com o dono da voz entrecortada que vinha de escutar ao telefone. Seu espírito parecia-lhe tender numa direção inteiramente diversa, ser de natureza inteiramente diversa. Tinha apenas de olhar para Cassandra para ver o que significa um amor que resulta em noivado e casamento. Refletiu por um momento,e então disse:

– Se não quiserem anunciar às pessoas vocês mesmos,eu o farei em seu nome. Sei que as idéias de William sobre esses assuntos tornam muito difícil para ele tomar uma atitude qualquer.

– Ele é muito sensível ao que os outros pensam – disse Cassandra.– A idéia de que poderá perturbar Tia Maggie ou Tio Trevor é capaz de deixá-lo doente durante semanas.

Essa interpretação do que ela, Katharine, costumava chamar o “convencionalismo” de William era novidade. E no entanto, sentiu que era verdadeira.

– Sim, você tem razão – disse.

– Acresce que ele venera a beleza. Deseja que a vida seja bela em todos os seus detalhes. Já observou como ele se requinta nos acabamentos? Olhe o endereço naquele envelope. Cada letra é perfeita.

Se isso se aplicava também aos sentimentos expressos na carta, Katharine não estava tão certa; mas quando a solicitude de William era empregada com Cassandra, não só isso não a irritava do modo como havia irritado quando ela mesma era o objeto da solicitude dele, mas parecia,como Cassandra havia dito fruto do seu amor à beleza.

– Sim – disse ela –, ele ama a beleza.

– Espero que tenhamos muitos, muitos filhos – disse Cassandra. – Ele adora crianças.

Esse reparo fez Katharine compreender a profundeza da intimidade entre eles mais do que quaisquer outras palavras o poderiam fazer; ficou com ciúmes por um momento, mas no seguinte sentiu-se humilhada. Conhecera William anos a fio, e jamais percebera que gostava de crianças. Via o curioso brilho de exaltação nos olhos de Cassandra, através do qual ela contemplava o verdadeiro espírito de um ser humano, e desejou que continuasse a falar assim de William para sempre. Cassandra não pare-cia refratária em satisfazê-la .Falou,falou,e a manhã pas-sou despercebida. Katharine pouco mudou de posição, na ponta da secretária de seu pai, e Cassandra não chegou sequer a abrir a História da Inglaterra.

E, todavia, cumpre confessar que houve vastos lapsos na atenção que Katharine consagrou à prima. A atmosfera era admiravelmente propícia a devaneios por conta própria. Perdeu-se, então, por vezes num cismar tão profundo, que Cassandra, interrompendo o que dizia, podia observá-la por alguns momentos sem ser percebida . Em que pensaria Katharine, senão em Ralph Denham? Sabia,por algumas respostas desconexas, que Katharine se alheara um pouco do assunto das perfeições de William. Mas Katharine não dava qualquer sinal disso. Sempre terminava essas pausas dizendo algo de tão natural que Cassandra se iludia e aduzia novos exemplos a seu absorvente tema. Então, almoçaram; e o único sintoma que Katharine deu de abstração foi esquecer-se de servir o pudim. Parecia-se tanto a sua mãe, abancada no seu canto e deslembrada da tapioca, que Cassandra espantada, exclamou:

– Como você se parece com Tia Maggie!

– Bobagem – disse Katharine, com mais irritação do que a observação merecia.

Na verdade, agora que sua mãe estava ausente,Katharine sentia-se menos suscetível que de hábito, mas, como dizia asi própria, havia muito menos motivo de suscetibilidade.Secretamente, estava um tanto abalada pela evidência quea manhã lhe dera da sua imensa capacidade de – como poderia chamar? – divagar, de repassar uma infinidade deassuntos tolos demais para serem mencionados. Por exemplo: vira-se a caminhar por uma estrada de Northumbeland,num pôr-de-sol de agosto; na estalagem, deixara seu companheiro, que era Ralph Denham, e fora transportada, nãotanto pelos seus próprios pés, mas por meios invisíveis, aotopo de uma elevada colina. Aí os perfumes, os ruídos porentre as raízes das urzes, as folhas de relva apertadas contraa palma da mão, eram tão perceptíveis que podia sentiruma por uma, separadamente. Em seguida, sua mente errou pela escuridão do ar, ou deteve-se na superfície do mar,que era visível lá do alto; ou, com igual desvario, retomouao seu leito de folhas debaixo das estrelas da meia-noite, e visitou os vales nevados da lua. Essas fantasias de modo algum eram insólitas, uma vez que as paredes de toda mente estão recamadas de tais filigranas; mas viu-se, de súbito,a perseguir esses pensamentos com um ardor extremo, queem breve se transformou num desejo agudo de mudar suaatual condição por outra, que se coadunasse com a do sonho. Aí sobressaltou-se; e acordou também para o fato deque Cassandra a fitava com espanto.

Cassandra teria desejado estar segura de que, quando Katharine não lhe respondia, ou quando respondia alguma coisa completamente disparatada, ocupava-se em decidir se casava ou não casava imediatamente; mas era difícil apurar se era assim, em vista de algumas observações que Katharine deixou escapar sobre o futuro. Aludiu várias vezes ao verão, como se tivesse a firme intenção de passá-lo em solitárias andanças. Parecia ter um plano definido em mente, que exigia consulta a Bradshaws e a listas de hospedarias.

Finalmente, Cassandra foi levada, por sua própria inquietação, a vestir-se e sair pelas ruas de Chelsea, a pretexto de comprar alguma coisa. Ignorando, porém, o caminho, tomou-se de pânico à idéia de atrasar-se, e tão logo encontrou a loja que procurava, voou de volta, a fim de estar em casa quando William chegasse. Ele chegou,na verdade, cinco minutos depois que ela se sentara à mesa do chá; e teve a felicidade de recebê-lo sozinha. A maneira como ele a saudou dissipou as dúvidas que pudesse ter quanto à sua afeição, mas a primeira pergunta que fez foi:

– Katharine falou com você?

– Sim. Mas diz que não está noiva. E acha que jamais ficará noiva. William franziu a testa e pareceu agastado:

– Eles se telefonaram esta manhã, e ela se porta de maneira muito esquisita. Esquece, por exemplo, de servir o pudim – acrescentou Cassandra, para alegrá-lo.

– Minha querida criança, depois do que vi e ouvi a noite passada, não é uma questão de adivinhar ou de suspeitar. Ou ela está noiva dele, ou...

Deixou a sentença inacabada, porque nesse ponto Katharine em pessoa apareceu. Com sua lembrança da noite anterior, ele estava por demais constrangido para olhar para ela, e só depois que Katharine lhe contou da visita de Mrs. Hilbery a Stratford-on-Avon foi que ergueu os olhos. Era claro que estava grandemente aliviado.Olhou em redor, agora, como se se sentisse à vontade, e Cassandra exclamou:

– Você não acha que tudo parece inteiramente diferente?

– Vocês mudaram o sofá de lugar? – perguntou.

– Não. Nada foi tocado – disse Katharine. – Tudo está exatamente o mesmo. – Mas ao dizer isso, com uma firmeza que parecia implicar que muito mais coisa que o sofácontinuava inalterada, ela lhe estendeu uma xícara na qualse esquecera de pôr chá. O esquecimento foi mencionado.Ela franziu o cenho,aborrecida,e disse que Cassandra procurava desmoralizá-la. O olhar que lançou, então, aos dois,e o modo resoluto com que os obrigou a falar, fê-los sentirse como crianças abelhudas. Acompanharam-na docilmente, procurando conversar. Qualquer pessoa que entrasse pensaria que eram conhecidos recentes, que se tinhamvisto não mais do que três vezes. E sendo esse o caso, concluiriam que a anfitriã se lembrara de súbito de um outrocompromisso urgente. Primeiro, Katharine consultou o relógio, depois pediu a William que lhe dissesse a hora certa.Quando ouviu que faltava dez para as cinco, levantou-seimediatamente e disse:

– Então, receio ter de ir embora.

E deixou a sala, segurando ainda na mão seu pão com manteiga. William olhou para Cassandra.

– Bem, ela está esquisita! – disse Cassandra.

William pareceu perturbado.Sabia mais de Katharine doque Cassandra, mas até ele não era capaz de dizer... Numsegundo, Katharine estava de volta, vestida para sair, e aindacom o pedaço de pão com manteiga na mão sem luva.

– Se me atrasar, não esperem, por mim – disse. – Terei jantado. – E sem mais, deixou-os.

– Mas ela não pode...– exclamou William,quando a portabateu. – Não sem luvas e com pão com manteiga na mão! Correram à janela e viram-na andando rapidamente pela rua em direção à City. Logo desapareceu.

– Deve ter ido encontrar Mr. Denham! – exclamou Cassandra.

– Só Deus sabe! – disse William.

O incidente deixou-lhes a impressão de conter alguma coisa singular e agourenta, fora de qualquer proporção com a estranheza aparente.

– É a maneira de comportar-se de Tia Maggie – disse Cassandra à guisa de explicação.William sacudiu a cabeça, e ficou a andar pelo quarto deum lado para o outro com ar extremamente perturbado.

– Era o que eu vinha prevendo – explodiu. – Uma vez postas de lado as convenções... Graças a Deus Mrs. Hilbery está ausente. Mas há Mr. Hilbery. Como vamos explicar isso a ele? Tenho de deixar você.

– Mas tio Trevor não estará de volta por várias horas ainda, William! – implorou Cassandra.

– Nunca se sabe. Pode até estar a caminho. Ou suponhaque Mrs. Milvain, sua tia Celia, ou Mrs. Cosham, ou qualquer outra das suas tias ou tios,aparece e nos encontra juntosa sós. Você sabe o que já andam dizendo a nosso respeito.Cassandra estava tão chocada com a visível agitação de William quanto com a perspectiva da sua deserção.

– Podemos esconder-nos – exclamou, irrefletidamente, lançando um olhar para a cortina que separava a sala dá saleta das relíquias.

– Recuso-me absolutamente a meter-me debaixo da mesa – disse William com sarcasmo.

Ela viu que ele começava a perder a paciência com asdificuldades da situação. Seu instinto advertiu-a de que umapelo à sua afeição, nesse momento, seria de muito mal alvitre. Controlou-se, então, sentou-se, e serviu-se de uma nova xícara de chá, que tomou tranqüilamente. Esse gestonatural, mostrando completo autodomínio e exibindo-anuma das atitudes femininas que William achava adoráveis, fez mais do que qualquer arrazoado para acalmar aagitação dele. Apelava para o seu cavalheirismo. Aceitouuma xícara também. Depois, ela pediu uma fatia de bolo.Comido o bolo e bebido o chá, o problema pessoal foraesquecido e os dois se puseram a discutir poesia.Insensivelmente, passaram da questão da poesia dramáticaem geral para o exemplo particular que William tinha nobolso, e quando a empregada entrou para retirar as coisasdo chá, William pediu permissão para ler uma curta passagem em voz alta, “a não ser que lhe pareça maçante.”

Cassandra baixou a cabeça em silêncio, mas mostrou nos olhos um pouco do que sentia, e, assim fortificado,William sentiu que seria preciso mais que Mrs. Milvain em pessoa para expulsá-lo da sua posição. Leu alto.

Enquanto isso, Katharine caminhava rapidamente ao longo da rua. Se lhe fossem pedidas explicações da sua ação impulsiva, deixando a mesa do chá, não poderia apelar para causa melhor que o fato de ter William olhado para Cassandra, e Cassandra para William. Pois que, pelo fato de se terem olhado, sua própria posição ficou impossível. Bastava esquecer de servir uma xícara de chá e concluíam apressadamente que estava noiva de Ralph Denham. Sabia que em meia hora, mais ou menos, a porta se abriria e Ralph Denham apareceria. Não podia ficar sentada lá e imaginá-lo com eles,sob os olhos de Cassandra e de William, aferindo seu exato grau de intimidade de modo a poderem fixar o dia do próprio casamento. Decidiu, prontamente, que se encontraria com Ralph na rua; tinha tempo ainda de alcançar Lincoln’s Inn Fields antes que ele deixasse o escritório. Chamou um táxi, e pediu que a deixasse numa loja de mapas, de que se lembrava, em Great Queen Street, uma vez que não gostaria de desembarcar à sua porta. Chegando lá, comprou um mapa em grande escala de NorfoIk e assim provida correu para Lincoln’s Inn Fields, assegurando-se da posição dos escritórios Hooper and Grateley. Os grandes lustres a gás podiam ser vistos através das vitrines. Imaginou-o abancado a uma enorme mesa, coberta de papéis, e debaixo de um dos lustres, na sala da frente, a que tinha três altas janelas. Tendo decidido a posição dele lá dentro,pôs-se a caminhar de um lado para o outro na calçada.Ninguém da estatura dele apareceu. Escrutinou cada figura masculina à medida que se aproximava dela e passava. Cada figura masculina tinha, no entanto, alguma coisa dele, devido, talvez, à roupa profissional, à passada rápida,ao olhar vivo que lançavam sobre ela ao se apressarem rumo a casa depois de um dia de trabalho. A própria praça, com seus imensos edifícios, todos inteiramente ocupados e de aspecto severo, a atmosfera de trabalho e poder,como se até os pardais e as crianças ganhassem o seu pão de cada dia; como se o próprio céu, com suas nuvens cinza e escarlate, refletisse a seriedade de intenções da cidade abaixo delas; e como se tudo isso falasse dele. Aqui era o lugar ideal para encontrá-lo; aqui era o lugar ideal para caminhar pensando nele. Não podia deixar de comparálo à duas caseiras de Chelsea. Com essa comparação em mente, estendeu seu raio de ação um pouco, e virou para a ma principal. A grande corrente de caminhões e carroças descia Kingsway; pedestres desfilavam, em duas correntes ao longo dos passeios. Deteve-se, fascinada, na esquina. O burburinho enchia-lhe os ouvidos; esse tumulto incessante tinha o fascínio inexprimível da vida multifária, que jorrava sem trégua, com um tal propósito que, ao considerá-lo, parecia-lhe o fim normal para o qual a vida fora ordenada; sua completa indiferença pelos indivíduos,que devorava e rolava para diante, enchia Katharine de uma temporária exaltação. A combinação de luz do dia e de luz de gás fazia dela uma espectadora invisível, ao mesmo tempo que conferia às pessoas que passavam por ela uma qualidade de transparência, deixando-lhe os rostos como pálidos ovais de marfim, em que só os olhos eram escudos. Elas participavam da enorme investida da maré humana, o grande fluxo, a profunda e insaciável correnteza. Direita, despercebida, absorta, ali ficou ela, gloriandose abertamente no êxtase que correra, subterrâneo, o dia inteiro. De súbito, sentiu-se presa, contra a vontade, pela lembrança do seu objetivo inicial. Fora até lá para encontrar Ralph Denham. Voltou, depressa, para Lincoln’s Inn Fields, e procurou em vão. As faces de todas as casas dissolviam-se, agora, na mesma escuridão geral; e ela encontrou dificuldade em identificar o que procurava. As três janelas de Ralph devolviam-lhe apenas, nos seus altos painéis fantasmagóricos de vidro, o reflexo do céu cinzento e verde. Tocou a campainha, peremptoriamente, debaixo do nome pintado da firma. Depois de alguma espera, atendeu uma zeladora, cujo balde e escova bastariam para dizer-lhe que o expediente estava encerrado e os funcionários se tinham ido. Não restava ninguém, salvo talvez Mr. Grateley em pessoa assegurou-lhe a mulher.Todos se tinham ido há dez minutos.

Essa notícia acordou Katharine de todo. A aflição tomou conta dela. Apressou-se de volta para Kingsway,olhando as pessoas que tinham, miraculosamente, recuperado a consistência. Correu até a estação do metrô, ultrapassando escrevente depois de escrevente, advogado depoisde advogado. Nenhum deles nem de longe se parecia aRalph Denham. Mais e mais claramente ela o via; e mais e mais ele lhe parecia diferente de todo mundo. À porta daestação, deteve-se e tentou reunir os pensamentos. Ele foraà casa dela. Tomando um táxi, poderia chegar antes, talvez.Mas imaginou-se a abrir a porta da sala, William e Cassandra a levantar os olhos, a entrada de Ralph um momento mais tarde, e os olhares, as insinuações. Não; não poderiaenfrentar isso. Escrever-lhe-ia uma carta, que levaria imediatamente à casa dele. Comprou papel e lápis na banca delivros, e entrou numa confeitaria A. B. C., onde pelo fato depedir uma xícara de chá, garantiu-se uma mesa vazia, e começou imediatamente a redigir:

“Vim buscá-lo e nos desencontramos. Não podia ficarcom William e Cassandra. Eles querem – aqui fez umapausa. Ele insistem em que estamos noivos – escreveu, em substituição –, e não poderíamos conversar um com o outro, ou explicar qualquer coisa. Quero – o que queria eratão vasto, agora que estava em comunicação com Ralph,que o lápis era absolutamente inadequado para transpô-lo ao papel; parecia que toda a corrente de Kingsway precipitava-se pelo seu lápis adentro. Olhou com a maior atençãopara um aviso na parede fronteira, toda incrustrada deouro: “quero dizer toda espécie de coisas”, acrescentou, desenhando laboriosamente cada palavra como o faria umacriança. Mas, quando ergueu os olhos outra vez para meditar na sentença seguinte, notou uma garçonete cuja expressão indicava que era hora de fechar e, olhando em redor,viu que era uma das últimas pessoas na confeitaria. Pegoua carta, pagou a conta e viu-se outra vez na rua. Tomariaagora um táxi para Highgate. Mas nesse momento ocorreu-lhe que não se lembrava do endereço. Pareceu, comesse obstáculo, que uma barreira caíra cortando a forte corrente do desejo. Em vão esquadrinhou a memória com desespero, procurando o nome, lembrando-se primeiro doaspecto da casa, e tentando depois ler as palavras que escrevera, pelo menos uma vez, num envelope. Quanto mais seesforçava, mais as palavras lhe fugiam. Seria a casa emOrchard-alguma-coisa, ou seria a rua uma Hill? Desistiu.Nunca, desde criança, sentira coisa igual a esse vazio e desolação. Convergiram para ela, em tumulto, como se acordasse de um sonho, todas as conseqüências da sua inexplicável negligência. Imaginou a cara de Ralph ao ter voltadoda porta sem uma palavra de explicação, recebendo a suadespedida como um sinal de que ela não queria vê-lo.Acompanhou-o quando deixou a porta; mas era infinitamente mais fácil vê-lo a caminhar, apressado, para longe,em qualquer direção, por qualquer período de tempo, do que conceber que voltaria sobre seus passos para Highgate.Talvez tentasse de novo vê-la em Cheyne Walk. Que ela setivesse posto a caminho logo que essa última possibilidade lhe ocorreu, era prova da clareza com o que o via; quaselevantou a mão para chamar um táxi. Não; ele era orgulhoso demais para voltar; ele rejeitaria o desejo, e se poria emmarcha; ia andar e andar e andar. Se pelo menos ela fossecapaz de ler os nomes dessas ruas imaginárias pelas quaisele passava! Mas sua imaginação traía-a nesse ponto, ouzombava dela com uma sugestão da estranheza, escuridãoe distância das ruas. Na verdade, ao invés de ajudá-la a to-mar uma decisão qualquer, apenas enchia-lhe a mente coma vasta extensão de Londres e com a impossibilidade deencontrar uma figura solitária que errasse, assim, para cá,para lá, virando à direita, virando à esquerda, escolhendotalvez aquela ruazinha pequena e estreita em que as crianças brincavam, e assim... Ela se fez despertar com impaciência. Caminhou rapidamente ao longo de Holbom. Logovirou a esquina e continuou, sempre apressadamente, nadireção oposta. Essa indecisão não era apenas detestável;tinha algo de alarmante, e ela já se alarmara duas ou trêsvezes nesse dia; sentia-se incapaz de enfrentar a força dospróprios desejos. Para uma pessoa regida pelo hábito, haviahumilhação, tanto quanto susto, nessa libertação súbita doque parecia ser uma força tão poderosa quanto irracional.Uma dor nos músculos da mão direita revelou-lhe queapertava as luvas e o mapa de Norfolk com uma força capaz de rachar o mais sólido objeto. Relaxou a pressão;olhou ansiosamente para os rostos dos passantes, a ver seseus olhos se demoravam nela um pouco mais do que serianatural, ou com alguma curiosidade. Mas, tendo alisado asluvas e feito o que podia para parecer natural, esqueceu osespectadores e se deixou dominar outra vez pelo desesperado desejo de encontrar Ralph Denham. Era um desejo agora selvagem, exorbitante, inexplicável, como algumacoisa sentida na infância. Uma vez mais culpou-se amargamente pela própria incúria. Mas achando-se em face daestação do metrô, reanimou-se e tomou uma decisão rápida, como costumava fazer em outros tempos. Pediria aMary Datchet o endereço de Ralph. A resolução era umalívio, não só porque lhe dava um objetivo, mas porque lhedava também uma desculpa racional para os seus atos. Certamente lhe dava um objetivo, mas o fato de ter um objetivo levou-a a fixar-se exclusivamente na sua obsessão; assim, quando tocou a campainha do apartamento de Mary, nempor um momento se demorou a pensar no efeito que teriaem Mary o seu pedido. Para sua extrema irritação, Marynão estava em casa; uma empregada abriu a porta. Tudo oque Katharine pôde fazer foi aceitar um convite para esperar. Esperou talvez uns quinze minutos, que levou a medira sala, andando de um lado para o outro, sem interrupção.Quando ouviu a chave de Mary na porta,parou em frenteà lareira, e Mary encontrou-a ali, direita, ao mesmo tempoexpectante e determinada, como uma pessoa que veio emmissão de tal importância que tem de ser abordada sempreâmbulo.

Surpresa, Mary soltou uma exclamação.

– Sim, sim – disse Katharine, afastando o que a outra dizia como se impedisse o caminho.

– Oh, sim – disse, pensando que tinha efetivamente tomado chá, há centenas de anos, num lugar qualquer.Mary fez uma pausa, tirou as luvas e, tendo encontrado fósforo, pôs-se a acender o fogo.

Katharine interrompeu-a com um movimento impaciente e disse:

– Por mim, não acenda o fogo... Quero apenas saber o endereço de Ralph Denham.Segurava um lápis na mão e preparava-se para anotar num envelope. Esperava com uma expressão imperiosa. – Apple Orchard, Mount Ararat Road, Highgate – disse Mary, falando devagar, com voz estranha.

– Oh! Agora me lembro – exclamou Katharine, irritada com a própria estupidez. – Imagino que não levará vinte minutos, de táxi, daqui? Apanhou a bolsa e as luvas e pareceu pronta para sair.

– Mas você não o encontrará – disse Mary, com um fósforo em riste. Katharine, que já se tinha virado para a porta, parou e olhou-a.

– Por quê? Onde está ele?

– Ainda estará no escritório.

– Mas ele já saiu do escritório – respondeu. – A única questão é: terá chegado em casa? Ele foi ver-me, em Chelsea; tentei encontrá-lo mas não consegui. Não deixei qualquer bilhete,qualquer explicação.Tenho de achá-lo,o mais cedo possível.

Mary tomava conhecimento da situação a seu modo,com calma.

– Por que não telefona? – disse.

Katharine imediatamente soltou tudo o que segurava; suaexpressão tensa relaxou e exclamando – Naturalmente! Comofoi que não pensei nisso! – pegou do aparelho e deu o número.Mary encarou-a e deixou a sala. Por fim, Katharine ouviu,através de todo o peso sobreposto de Londres, o misteriososom de pés na sua própria casa, que subiam até a saleta, ondequase podia ver os quadros e os livros; escutou, com extremaaplicação as vibrações preparatórias, e depois identificou-se.

– Mr. Denham esteve aí?

– Sim, Miss.

– Perguntou por mim?

– Sim, miss. Disse que a senhora saíra.

– Deixou algum recado?

– Não. Foi embora. Há cerca de vinte minutos, Miss. Katharine desligou. Passeou pela sala com tal desapontamento que não percebeu, de começo, a ausência de Mary.Depois chamou, num tom ríspido e peremptório:

– Mary.

Mary estava no quarto, tirando suas roupas de sair.Ouviu que Katharine a chamava.

– Sim – disse. – Não me demoro um momento. – Mas o momento se prolongou, como se, por algum motivo,Mary tivesse prazer em fazer-se não só correta mas bem vestida e ataviada. Cumprira-se, nos últimos meses, um estádio da sua vida, que deixara para sempre traços na sua postura. Juventude e a flor da juventude haviam recuado,deixando ver a determinação do seu rosto nas faces mais encovadas um pouco, nos lábios um pouco mais firmes,nos olhos que não mais observavam as coisas com espontaneidade e ao acaso, mas estreitavam-se na contemplação de um fim que não parecia próximo. Essa mulher era,agora, um ser humano prestativo, senhor de seu próprio destino e assim, por alguma obscura associação de idéias,próprio para ser adornado com a dignidade de correntes de prata e broches cintilantes. Entrou descansadamente e perguntou:

– Bem, atenderam?

– Ele já saiu de Chelsea.

– Não terá chegado em casa – disse Mary.

Katharine viu-se outra vez forçada, irresistivelmente, a olhar um mapa imaginário de Londres e seguir nele os desvios e voltas de ruas sem nome.

– Vou telefonar à casa dele e perguntar quando estará de volta. Mary foi até o telefone e, depois de uma série de breves frases, anunciou:

– Não. A irmã informa que ainda não voltou. Ah! – Mary aplicou o ouvido uma vez mais. – Eles receberam um recado. Ele não vai jantar em casa. O que vai fazer, então?

Muito pálida, com seus grandes olhos fixos, não tanto em Mary como em vistas de uma desolação inimaginável,Katharine se dirigiu também não tanto a Mary, mas ao espírito implacável que agora parecia zombar dela, de todos os ângulos que examinava.

Depois de esperar um pouco, Mary observou desinteressadamente:

– Eu de fato não sei. – Negligentemente recostada na sua poltrona, observava as pequeninas chamas que começavam a apontar, aqui e ali, entre os carvões, como se elas também fossem muito distantes e indiferentes. Katharine olhou para ela, indignada, e levantou-se:

– É possível que ele venha para cá – continuou Mary,sem alterar o tom abstrato da voz. – Valeria a pena esperar, se quiser vê-lo esta noite.

Curvou-se, depois, e tocou a madeira, de modo que as chamas penetraram os interstícios dos carvões.Katharine refletiu:

– Esperarei meia hora.

Mary ergueu-se, foi até a mesa, espalhou seus papéis debaixo da lâmpada de abajur verde, com um gesto que já se tornava um hábito, e ficou a torcer e torcer um anel de cabelo nos dedos. Olhou uma vez, sem ser percebida, para sua visita, que não se movia, sentada tão imóvel, com os olhos tão atentos, que seria possível jurar que observava alguma coisa, algum rosto, que jamais levantava os olhos para ela. Mary viu-se incapaz de continuar a escrever.Olhou para outro lado, mas apenas para sentir a presença daquilo que Katharine contemplava. Havia fantasmas na sala, e um deles, estranha, tristemente era o fantasma de si mesma. Os minutos passavam.

– Que horas serão? – disse Katharine, por fim. A meia hora ainda não se esgotara.

– Vou aprontar o jantar – disse Mary, levantando-se da mesa.

– Então, vou embora.

– Por que não fica? Aonde vai?

Katharine olhou em volta do aposento, revelando sua incerteza com esse olhar.

– Talvez eu o encontre.

– Mas que importância tem? Você o verá outro dia. – Mary falou, e tinha a intenção de falar, bastante impiedosamente.

– Foi um erro vir aqui – respondeu Katharine.

Os olhos das duas se concentraram, com antagonismo,e nenhuma os baixou.

– Você tinha todo direito de vir aqui – respondeu Mary.

Uma forte batida na porta interrompeu-as. Mary foi abrir e voltou com alguma mensagem ou pacote. Katharine desviou os olhos, para que Mary não lesse neles seudesapontamento.

– Naturalmente, você tinha direito de vir – repetiu Mary, depositando a mensagem na mesa.

– Não – disse Katharine. – Exceto que, quando a gente está desesperada, adquire uma espécie de direito. Eu estou desesperada. Como sabe você o que estará acontecendo com ele a essa hora? Ele pode fazer qualquer coisa.Pode até andar pelas ruas a noite inteira.Tudo pode acontecer-lhe. Falou com um abandono que Mary jamais vira nela.

– Você sabe que exagera; você está dizendo tolices dis-se, brutalmente.

– Mary, preciso falar. Preciso dizer-lhe...

– Você não precisa me dizer nada – Mary a interrompeu. – Não sou capaz de ver as coisas por mim mesma?

– Não, não – exclamou Kaharine –, não é isso...

Seu olhar, passando para além de Mary, para além dos limites da sala, para além de quaisquer palavras que lhe fossem dirigidas, enlouquecido, apaixonado, convenceu a outra de que ela, em todo caso, não podia acompanhar tal olhar até o fim. Estava desconcertada; procurou imaginarse outra vez no auge do seu amor por Ralph. Apertando as pálpebras com os dedos, murmurou:

– Você se esquece de que também o amei. Pensei conhecê-lo. Conheci-o, mesmo.

E, todavia, o que tinha conhecido? Não se podia maislembrar. Apertou os globos oculares até que encheram suaescuridão de estrelas e sóis. Convenceu-se de que remexiaem cinzas frias.Desistiu.Ficou pasma com essa descoberta.Não mais amava Ralph! Olhou de volta, ofuscada, para asala, e seus olhos pousaram sobre a mesa com os papéisiluminados pela lâmpada. A calma irradiação pareceu por um momento ter sua contrapartida dentro dela; fechou osolhos; abriu os olhos e examinou a lâmpada uma segundavez; outro amor ardia em lugar do antigo, ou pelo menosfoi isso o que descobriu, num momentâneo lampejo de espanto, antes que a revelação acabasse e as velhas coisas familiares fizessem valer seus direitos. Apoiou-se, em silêncio, contra a prateleira da lareira.

– Há diferentes maneiras de amar – murmurou, afinal, quase que para si própria.

Katharine não respondeu, como se não tivesse ouvido essas palavras. Parecia absorta em seus próprios pensamentos.

– Talvez ele espere de novo,na rua,esta noite – exclamou.

Eu me vou agora. Pode ser que consiga encontrá-lo.

É muito mais provável que ele venha aqui – disse Mary.Katharine, depois de considerar um momento, decidiu:

– Esperarei mais meia hora.

Afundou-se de novo na cadeira e retomou a posição que Mary comparara à de uma pessoa que observa uma face que não se vê. Ela observava, de fato, não uma face mas uma procissão, não de pessoas mas da própria vida; o bom e o mau; o sentido; o passado, o presente e o futuro.Tudo isso lhe parecia claro; não se envergonhava da sua extravagância, ao contrário, sentia-se enaltecida por estar num dos pináculos da existência, onde cabia ao mundo render-lhe homenagem. Ninguém senão ela sabia o que significava privar-se de Ralph Denham nessa noite; em torno desse acontecimento menor e inadequado congregavam-se sentimentos que as grandes crises da vida nem sempre suscitam. Ela sentia falta dele, e conhecia a amargura de todos os malogros; desejava-o, e conhecia o tormento de todas as paixões. Não importava de que incidentes triviais tivesse chegado a essa culminação. Nem se importava ela de parecer extravagante; ou de quão abertamente mostrasse os seus sentimentos.

Quando o jantar ficou pronto, Mary lhe disse que viesse, e ela foi, submissa, como se deixasse que Mary dirigisse seus movimentos. Comeram e beberam juntas quase em silêncio, e quando Mary lhe dizia que comesse mais, obedecia; quando mandada beber mais, bebia. Não obstante, por debaixo dessa obediência superficial, Mary sentia que ela continuava a seguir seus próprios pensamentos, sem estorvos. Não era propriamente desatenta,mas remota; parecia ao mesmo tempo cega e concentrada em alguma visão nua, própria; tão concentrada que Mary gradualmente sentiu mais que um desejo de protegê-la;tremia ante a possibilidade de uma colisão entre Katharine e as forças do mundo exterior.Mal terminaram,Katharine anunciou sua intenção de ir embora.

– Mas para onde vai? – perguntou Mary, desejando vagamente impedi-la.

– Oh, vou para casa. Não, talvez para Highgate.

Mary viu que seria inútil tentar detê-la. Tudo que pôdefazer foi insistir em ir com ela, e não encontrou oposição;Katharine parecia indiferente à sua presença. Dentro depoucos minutos desciam o Strand. Andavam tão depressa,que Mary acreditou, erroneamente, que Katharine sabiapara onde ia. Ela própria não prestava qualquer atenção aocaminho. Estava contente com o movimento ao longo dasruas iluminadas, ao ar livre. Palpava, dolorosamente e comtemor, mas também com uma estranha esperança, a descoberta que fizera por acaso essa noite. Estava livre, uma vez mais ao preço de uma oblação, a maior talvez, que podiaoferecer,mas não estava mais,graças a Deus,amando.Ficoutentada a gozar essa primeira fase da sua liberdade em alguma dissipação; na platéia do Coliseum, por exemplo,uma vez que passavam pela porta. Por que não entrar e celebrar sua independência da tirania do amor? Ou, talvez,na imperial de um ônibus, rumo a algum remoto lugar,como Camberwell, ou Sidcup, ou a Welsh Harp. Notavaesses nomes, pintados em pequenas tabuletas, pela primeira vez em semanas. Ou deveria voltar para o seu apartamento e passar a noite burilando os detalhes de um daqueles esquemas brilhantes e engenhosos? De todas aspossibilidades, essa foi a que lhe agradou mais, trazendolhe à memória a lareira, a lâmpada acesa, e o sereno lume interior que parecia ocupar agora o lugar em que uma chama mais apaixonada ardera um dia.

Então Katharine estacou, e Mary acordou para a percepção de que, em vez de um alvo, não tinham evidentemente nenhum. Ela se detivera no limite do cruzamento; olhou para um lado e para outro, e finalmente tomou a direção de Harverstock Hill.

– Espere aí, onde pensa que vai? – gritou Mary, pegando-a pela mão. – Devemos tomar aquele táxi e ir para casa. Chamou o táxi e insistiu em que Katharine entrasse,enquanto ela mesma dava instruções ao motorista para que as levasse a Cheyne Walk.Katharine submeteu-se:

– Muito bem – disse. – Tanto podemos ir para lá quanto para qualquer outro lugar.

Parecia que uma grande depressão desabara sobre ela.Encolheu-se em seu canto,silente e aparentemente exausta. Mary, a despeito de suas próprias preocupações, ficou chocada pelo palor de Katharine e por sua melancolia.

Estou certa de que o encontraremos – disse, mais gentilmente do que falara até então.

Pode ser tarde demais – respondeu Katharine. Sem entendê-la, Mary começou a ter pena dela, pelo que sofria.

Tolice – disse, tomando-lhe da mão e esfregando-a.Se não o encontramos lá, nós o encontraremos em algum outro lugar.

– Mas suponha que esteja a andar sem rumo pela rua,

horas a fio? Debruçou-se para a frente, olhando pela janela:

– Pode, até, recusar-se a falar comigo de novo – disse,em voz baixa, quase como se falasse consigo.O exagero era tão grande que Mary não tentou fazerlhe face,salvo com o gesto de prender o pulso de Katharine.Temia, a meio, que Katharine abrisse de repente a portinhola e saltasse. Talvez Katharine percebesse a razão pela qual estava segura pela mão.

– Não tenha medo – disse, com uma pequena risada.Não vou saltar do táxi. Não adiantaria muito, afinal. Ouvindo isso, Mary retirou a mão com um gesto ostensivo.

– Eu deveria pedir desculpas – continuou Katharine,com esforço – por meter você em todo esse negócio; não lhe contei sequer metade, aliás. Não estou mais noiva de William Rodney. Ele vai casar com Cassandra Otway.Tudo está arranjado, tudo perfeitamente bem... E depois que ele tinha esperado horas e horas na rua, William me obrigou a fazê-lo entrar. Ele estava de pé, debaixo do poste, olhando nossas janelas. Estava inteiramente branco quando entrou na sala. William nos deixou a sós, e nós nos sentamos, e conversamos. Foi a noite passada? Estive fora muito tempo? Que horas são?

Saltou para a frente a fim de ver um relógio,como se a hora exata tivesse relação importante com aquilo que contava.

Só oito e meia! – exclamou. – Então ele talvez ainda esteja lá. Debruçou-se na janela e disse ao chofer que andasse mais depressa.

Mas se ele não estiver lá, o que faremos? Onde poderei encontrá-lo? As ruas estão tão cheias.

– Nós o encontraremos – repetiu Mary.

Mary não tinha dúvida de que, de um modo ou de outro, acabariam por encontrá-lo. Mas supondo que não oencontrassem? Começou a pensar em Ralph com uma espécie de estranheza, no seu esforço para entender como seria ele capaz de satisfazer a esse tão extraordinário desejo.Uma vez mais, retomou à sua antiga idéia dele, e pôde, semesforço, rememorar a névoa que lhe envolvia a figura, e asensação de alegria confusa, exaltada, que permeava toda asua vizinhança, de modo que, por meses a fio, nunca ouviraexatamente a sua voz ou vira exatamente o seu rosto ou assim lhe parecia, agora. A dor da sua perda atravessou-a.Nada jamais poderia compensar isso – nem o sucesso, nema felicidade, nem o esquecimento. Mas esse choque foiimediatamente seguido da certeza de que agora, finalmente, conhecia a verdade; quanto a Katharine – pensou, lançando-lhe um olhar de soslaio – Katharine não sabia a verdade; sim, cumpria sentir uma pena imensa de Katharine.

O carro, que fora apanhado na corrente do tráfego,estava livre agora, e descia Sloane Street em grande velocidade. Mary estava cônscia da tensão com queKatharine acompanhava o progresso delas, como se tivesse a mente fixa num ponto em frente, e marcasse, segundo por segundo, a aproximação dele. Não dizia nadae, em silêncio, Mary começou a fixar o pensamento, comsimpatia a princípio, depois esquecendo sua companheira, num ponto à frente, um ponto distante, como umaestrela baixa no horizonte da escuridão. Lá estava, paraela, para elas duas, o alvo em cuja direção marchavam; e o fim para os ardores dos seus espíritos era o mesmo:mas onde estava, ou em que consistia, ou por que ela sesentia convicta de que estavam ambas unidas em buscadele, ao correrem assim pelas ruas de Londres, lado alado, não teria sido capaz de dizer.

Afinal! – suspirou Katharine, quando o carro parou à sua porta. Saltou e percorreu com a vista a rua, de um lado e de outro. Mary, enquanto isso, tocava a campainha. A porta se abriu e Katharine certificou-se de que nenhuma das pessoas à vista tinha qualquer semelhança com Ralph.Ao vê-la , a empregada disse imediatamente.

Mr. Denham voltou, Miss. Está esperando pela senhora há algum tempo.

Katharine desapareceu da vista de Mary. A porta fechou-se entre elas, e Mary caminhou sozinha, devagar,pensativa, pela rua.

Katharine correu à sala de jantar. Com os dedos namaçaneta, hesitou. Talvez tivesse consciência de que esseera um momento que jamais se repetiria. Talvez, por umsegundo, lhe parecesse que nenhuma realidade poderiaigualar a imaginação que se formara. Talvez fosse contidapor algum vago temor ou previsão, que a fazia temer qualquer diálogo, qualquer interrupção. Mas, se as dúvidas etemores dessa bem-aventurança suprema a detiveram foiapenas por um momento. No seguinte, já torcera a maçaneta e, mordendo o lábio para controlar-se, abriu a portasobre Ralph Denham. Uma extraordinária clareza de visãopareceu possuí-la ao vê-lo.Tão pequeno,tão só,tão separado de tudo o mais, era o que parecia, ele que fora a causadessas extremas agitações e aspirações. Ela poderia ter ridoà sua face. Mas, ganhando terreno contra essa limpidez de visão, contra a vontade e para desagrado dela, havia umamaré de confusão, de alívio, de certeza, de humildade, de desejo de não mais lutar e discriminar, cedendo ao qual sedeixou cair nos braços dele, e confessou-lhe o seu amor.