Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 126 de 177

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§. II.

 

Das causas porque em tantos annos se tem feito taõ pouco fruito na

conversaõ dos povos de Guinè.

Do que està dito se tem visto bastantemente o zelo, com que continuaraõ os Reys deste Reyno na conversaõ dos povos de Guiné, e o pouco fruito, que deste trabalho se tem colhido; as razoens, que para isso hà, saõ tres, a primeira nasce dos Ministros Ecclesiasticos, a segunda dos Portugueses, que trataõ naquellas partes, e a terceira da malignidade dos clymas daquella terra.

Os Ecclesiasticos, que alli vaõ ter, ou saõ Bispos, ou Religiosos, ou Clerigos: dos Bispos, ainda que houve alguns zelosos do bem de suas ovelhas; com tudo os mais delles as desampararaõ, vindo-se dos seus Bispados pouco tempo depois de là chegarem: de maneira que os mais delles vieraõ, e morreraõ neste Reyno, e naõ nas suas Igrejas; e ainda houve alguns que depois de as aceitarem, foy necessario usar com elles do rigor de justiça, para os fazerem embarcar para hirem residir nellas (que com taõ pouco animo de residir se aceitaõ às vezes estas Prelazias) a causa disto he por a terra pela mayor parte ser muito doentia, habitada de Negros barbaros, e sem policia alguma, de modo que naõ querem viver nella, senaõ aquelles, que pretendem tirar disso, ou grande interesse para a alma, ou para o corpo. Os Religiosos, que foraõ àquellas partes, eraõ poucos, e como naõ tiveraõ successores (porque as suas Religioens naõ aceitaraõ a empreza) acabaraõ em breve tempo, depois de gastarem a mòr parte delle em aprender a lingua dos naturaes: e assim hà muitos annos, que tirando-os das duas casas de Loanda, senaõ vem naquellas terras Religiosos, senaõ he a caso, e mais a buscar remedio temporal para seu bem proprio, que naõ o espiritual da gente della. Por tanto os Ecclesiasticos, que mais continuaõ nestas Provincias, saõ Clerigos; destes recebem os naturaes pouca doutrina, porque muitos delles saõ degradados deste Reyno; ou quando naõ, saõ os que naõ pòdem ter cà outro remedio de vida. De modo que sendo estes os que lhes haõ de dar exemplo, e doutrina, saõ impedimento para a salvaçaõ dos naturaes; porque alguns delles com seus costumes escandalizaõ aquelles povos, que com sua virtude, e doutrina houveraõ edificar, e converter. E assim, diz destes o Padre

Balthesar Barreira,[238] que só se occupaõ em comprar, e vender, e que nunca dizem Missa, nem fazem officio algum de Sacerdote, tendo o intento principal em se tornarem logo para o Reyno, como se vém ricos, ou como algum remedio para o fazerem.

A segunda causa da conversaõ naõ ir avante he o mào exemplo,

que de ordinario daõ os nossos Portugueses [239] naquellas partes; porque ainda que nellas vivem alguns bons Christãos, e zelosos do serviço de Deos, com tudo os mais dos que nelles moraõ, saõ degradados do Reyno por delitos graves; e os que andaõ no cõmercio, ou saõ tratantes, ou soldados, gente pela mayor parte cativa do interesse, a quem respeitaõ mais que a tudo. E assim muitas vezes estes saõ os que sem temor de Deos fazem naquellas partes grandes enganos, roubos, e extorsoens, por cativarem os naturaes contra justiça, e satisfazerem a sua cobiça. Pelo que naõ he muito que seja este roim exemplo dos Christaõs impedimento para se os naturaes converterem. Assim procedem muitas vezes os nossos misturados entre aquelles Gentios, passando muitos annos sem Missa, sem Sacramentos, sem ouvir a palavra de Deos, e pòde ser que sem se lembrar delle.