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Manoel Severim de Faria · Capítulo 152 de 177 · parte 1/5

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AO MUITO ALTO, E MUITO PODEROSO Rey de Portugal D. JOAÕ III. DESTE NOME PANEGYRICO DE JOAÕ DE BARROS

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

AO MUITO ALTO,

E MUITO PODEROSO

Rey de Portugal

 

D. JOAÕ III.

DESTE NOME

PANEGYRICO

DE

JOAÕ DE BARROS

 

Anno de 1533.

Naõ sem causa (muito alto, e muito poderoso Rey, e Senhor) costumavaõ nos tempos antigos, louvar os excellentes homens em sua prezença, porque dando louvor justo, e manifesto ao grande merecimento das pessoas; assim os presentes, como os que viessem depois, tomassem exemplo, e fizessem taes obras, com que merecessem o mesmo louvor, e para os nomes dos taes ser mais celebrados sohiaõ nas mòres festas, e ajuntamentos do povo publicar os taes louvores, que por esta razaõ chamaraõ Panegyrico, que quer dizer ajuntamento. Com este fundamento às mezas dos Principes, e grandes Senhores se cantavaõ antigamente em metro os feitos notaveis dos grandes homens, donde primeiro nasceo a poezia heroyca, e segundo eu tenho ouvido, ainda neste tempo os Turcos em suas cantigas louvaõ os feitos darmas, e cavallarias de seus Capitaens, o que se fosse uzado em Espanha, e em toda a Europa (se me eu naõ engano) mais proveito da tal Musica nasceria, do que nasce de saudosas cantigas, e trovas namoradas; mas se o principal fundamento dos que compoem chronicas, e escrevem as cousas passadas, he fallar verdade, sem duvida a invençaõ do Panegyrico he de mòr authoridade, que outra maneira de historias; por quãto o Panegyrico faz sempre fé do que ve, e o representa aos olhos; a historia pela mòr parte trata do que ouve, e isto encomenda à memoria; por esta causa, segundo o exemplo dos antigos, direy neste alguma parte das grandes, e Reaes virtudes de V. Alteza, (empreza por certo digna de muy grande, e alto estillo;) Mas se eu naõ puder chegar taõ alto, e as palavras àquem do dezejo, espero que me valerà adiante delle, ser minha vontade tal, que quiz antes porse ao perigo, que leyxar de fazer o que podia. Hum só trabalho sinto nesta obra serem tantos os seus notaveis feitos, e virtudes, que querendo eu dizer tudo, seria mais compor Chronica, que Panegyrico; e naõ leixando parte, naõ satisfaria a meu dezejo.

Mas em fim destes dous contrarios hey por mais seguro leyxar muita parte para outro tempo, buscando brevidade na copia por naõ exceder o modo, pelo qual naõ me deterey aqui em contar as grandes virtudes, que logo mostrou do começo de sua mocidade atè o principio de seu Reynado; leyxarey de escrever com quanta prudencia, com quanto esforço, depois do falecimento do muy victoriozo, e de bemaventurada memoria ElRey D. Manoel seu Pay levou àvante a Conquista, e Navegaçaõ da India, descobrindo novos mares, novas terras, novas estrellas, dando materias de cousas taõ notaveis aos livros dos Cosmografos, passando àlem da memoria de todas as historias, e fabulas, estendendo suas bandeiras na mais derradeira parte do Oriente, saõ certo estas cousas dignas de immortal memoria, e lembrança para sempre; mas a tençaõ da obra prezente naõ poderà com tanto pezo; tempo virà (se me o dezejo naõ engana) em que possa dizer tudo (segundo requere taõ alta empreza, e meu engenho), quanto elle for a isto só està offerecido em latim, em lingoagem, em proza, e metro louvar sempre as grandes victorias destes Reynos, os quaes neste tempo saõ mais bemaventurados, que nunca foraõ; e porque nesta esperança vivo, e ella me sostem, em quanto se me naõ offerece mòr occasiaõ, ao menos enganarey meu appetito com estes começos, e representarey neste Panegyrico alguma parte da virtudes de V. Alteza, por onde facilmente se possa ver, quantas, e quam grandes o saõ as outras, que nelle hà.

Antre as virtudes de que os Principes, e Governadores das Reespublicas tem mòr necessidade, para descanso, e conservaçaõ de seus Estados, sempre o primeiro lugar foy dado à Justiça; e isto com muita razaõ, porque sendo Deos perfeita Justiça, os Reys que por elle saõ ordenados, e cujo poder representaõ, a elle soo em tudo devem seguir, e delle (como excellente pintura) tomar o debuxo, que cumpre a perfeiçaõ de seu ensino; pois se bem olharmos quam justamente estes Reynos saõ governados por V. Alteza, e quanto do principio do seu Reynado trabalhou sempre por apurar cada dia mais esta parte, certo saõ que com grande trabalho poderiamos achar algum Principe, que com elle neste tempo se podesse comparar: he virtude por si muy grande fazer, como faz, a todos justiça igual sem affeiçaõ de pessoas, determinar tantos negocios, e dar grandes sentenças sem escandalo de ninguem, mas olhando de quam pequena idade isto começou, que muitos Principes no cabo de sua vida naõ puderaõ alcançar; vem isto a ser tanto mòr virtude, que naõ hà louvor tamanho, que com muita razaõ lhe naõ possa, e deva ser dado; outros Principes, ou sendo velhos, ou depois de longa experiencia acabaraõ de saber governar, V. Alteza no começo do seu Reynado, sendo pouco mais de dezanove annos em tanta justiça governou, e procurou o bem, e descanso de seu povo, como se longa pratica, e costume de muitos annos o tiveraõ já ensinado.

Com muita razaõ digo isto, pois por minha boa sorte saõ hum daquelles que se lograõ deste tamanho bem, e se cumpre, o Rey foy verdadeiramente julgado pelo povo, e o povo pelo Rey; porque assim como os que pintaõ as terras pelo natural para contemplarem o sitio dos lugares altos se poem no baixo; e polo contrario para olharem os baixos se poem no alto, assim para conhecer bem a natureza dos povos convem ser Principe, e para conhecer a dos Principes convem ser do povo; nem hey medo, que me chame ninguem lizongeiro, sendo a verdade, e consentimento da minha banda, e aproveitando-se todos do bem, que digo; isto quanto he mais raro, e menos jà se usa, tanto mais se devem chamar ditosos os subditos de V. Alteza. Que direy da continua vigia, que usa nas cousas de justiça, com quanto conselho, com quanta prudencia sem cançar nunca, peza tudo em balança igual, hora as cousas mais pequenas, mandando julgar a seus Letrados, hora as mayores, determinando em sua presença, às vezes inventando novas, e muy proveitosas Leys à sua Repupublica, outra hora emendando, e corregendo as não boas, chamando Letrados com grandes premios, ordenando Officiaes novos para mais comprimento de justiça, e os mores carregos dando aos melhores, sem duvida este he o verdadeiro officio de Rey, e pay geral de todos.

Isto he o que Deos, e nossa Santa Fè encomenda aos Principes, como verdadeiramente dizem os Filosofos. Reynado he officio de muita vigia, e trabalho, nem deve nunca o bom Rey estar ocioso, mas assim como o Sol por dar claridade ao mundo nunca està quieto, assim o Principe por fazer justiça ao povo sempre deve ser occupado, lese do Emperador Cesar Octaviano, que com muito cuidado de noite, e de dia despachava as cousas de justiça, e do Emperador Trajano se conta o mesmo, tanto que parecia, que cada dia hum delles descançava com este trabalho. E tinha ElRey Ciro, que o bom Principe naõ havia levar ventagem a seus Vassallos em boa vida, se naõ em muito trabalho para comprimento de justiça: com o mesmo respeito sóhia dizer Alexandre Magno, que o bom Rey devia sempre ter huma orelha aberta para quem quizesse accusar, e outra guardada para quem era accusado, e assim dizia que o melhor verso de quantos Homero (Poeta Grego) fizera, era hum em que ElRey Agamenon era gabado de bom Cavaleiro, e justiçoso.

Aquelle Principe com muita razaõ deve ser chamado excellente, que dà o seu a cada hum (que este he o principal officio da justiça) e que ouve, e despacha bem as partes, e que vive segundo as Leys, que elle mesmo ordena, e hà por boas, nem pode dar muita authoridade ao direito quem em si o naõ quer cumprir inteiramente; por isso quer Plataõ, que o Principe obedeça em tudo às suas Leys; e diz que onde a Ley he sugeita ao Rey, e naõ o Rey a ley, se deve recear, que aquelle Reyno se perca muy azinha; porque quando governa a ley, governa Deos (o que naõ pode ser se tudo manda pelos apetitos de hum homem) mas quanto desviado V. Alteza seja deste mal, notorio he a todo o mundo, o qual sómente governa os seus Reynos, com tanto cuidado de justiça, como se todas fossem sua propria Casa, mas ainda se mostra taõ justo, e obediente às suas leys, que naõ menos nos aproveita com o virtuoso exemplo, que de si nos dà, que com a execuçaõ dellas, e faz isto assim por sua inclinaçaõ ser em tudo santa, e muy chegada a Deos, como por saber certo, que quem ha de governar a muitos, e como diz Homero: quem ha de ser Pastoral de seu povo, cumprelhe ser limpo, e afastado de todo o vicio, e assim como nenhuma cousa mais aproveita ao povo, que o bom exemplo do Principe; assim naõ hà cousa mais prejudicial ao Vassallo, que o mào costume, ou deffeito do Senhor; porque este tanto mais asinha se aprende, que o bem, quanto os homens saõ mais inclinados ao mal, e finalmente sempre se vio assi como as ondas do mar seguem o vento assi o povo seguir as manhas do Principe.

Os costumes de quem manda (sendo a pessoa illustre) quer bons, quer màos, mal se podem esconder; antes faraõ todos os Reys conta, que estaõ postos em hum lugar alto, como a atalaya donde vem, e saõ vistos de todo o povo, e se me dessem a escolher, tomaria antes no Principe màs leys com bom exemplo, que naõ mào exemplo com santas ordenaçoens; e naõ fora taõ louvado Cataõ Uticense de bom Cavalleiro, se a isto naõ ajuntara grande perfeiçaõ de vida, a qual em tudo foy heroyca. Contaõ delle, que em todalas cousas guardou singular temperança, e seguio a natureza, e teve sua vida offerecida ao bem da patria, nem lhe parecia, que nascera saõ para si, senaõ para todo o mundo, foy Conservador de toda a justiça, e honestidade; pois se Cataõ Cidadaõ de Roma por dar bom exemplo de si, conservando a justiça, e leys de sua Cidade mereceo louvor immortal, que gloria deve ser a de V. Alteza, governando taõ santa, e justamente tantos povos, e desvairadas Provincias, aproveitando com seu exemplo a tantas gentes, que delle (como de seu natural Rey, e Senhor) o folgaõ de tomar: sem duvida tanto mais louvor merece, quanto sempre foy mòr a fama de bom Principe, que da pessoa particular. Era Cataõ justo, porèm aspero em toda a administraçaõ da Reepublica, por onde era mais louvado, que bem quisto, V. Alteza sempre temperou sua Real gravidade com muita humanidade, e clemencia, de tal maneira soube ajuntar cousas em si taõ differentes, que nem por ser muito brando leyxa de ser temido, nem por ser muito grave leyxa de ser amado.

Naõ se deve louvar no Principe condiçaõ aspera, nem he digno de louvor o que Cambyses Rey de Persia fez, o qual achando que hum seu Juiz dera huma sentença contra direito, o mandou esfollar, e da pelle fez cubrir a séde, em que estando assentado dera a tal sentença, e nella mandou sentar hum filho do mesmo Juiz, dando-lhe a vara, e officio de seu Pay. Foy pola ventura a tençaõ delRey Cambyses boa, mas por o exemplo ser taõ aspero, pareceo o que fizera ser mais injuria, que justiça.

Tambem se deve guardar o Principe, que naõ seja taõ brando, e de boa condiçaõ, que se perca o acatamento devido à Magestade Real, de que nascem ao Reyno grandes males: tal foy o Emperador Nerva na Cidade de Roma, que sendo demasiadamente brando, veyo a cahir em despreso da mòr parte do povo, e se naõ perfilhara a Trajano, perdera-se; o mesmo caminho levou neste Reyno ElRey D. Sancho, o que chamaraõ o Capello, mas porque a todos he notorio quantos males de sua muita brandura nasceraõ, he escusado dizelos eu; porisso quem no Regimento da justiça tomar o meyo, e fugir dos extremos, como V. Alteza muy prudentemente faz, este sem duvida serà julgado por excellente.

Eu naõ digo, que naõ temaõ os subditos seu Principe, mas isto seja de maneira que da muita rigoridade naõ possa nascer algum escandalo, e deste inconveniente por nenhuma via mais facilmente o bom Rey se pode desviar, que tirando as occasioens dos males, e querendo antes ter maneira com que naõ errem seus Vassallos, que ser diligente em os castigos, depois que erraõ. Naõ ha de haver no Principe affeiçaõ, nem respeito particular de pessoas, quanto à justiça, e fazendo-o assim Cesar Octaviano foy adorado em sua vida, e mereceo, que dissessem delle depois da sua morte aquellas palavras taõ nomeadas; provera a Deos, Octaviano, que nunca nasceras, ou nunca morreras? Escreve-se do mesmo, que foy taõ justo, que huma só filha, que tinha por nome Julia, desterrou por ser deshonesta, e muitas cousas de mào exemplo emendou, só olhando ao bem commum, teve muitos privados grandes Senhores, mas de tal maneira foraõ seus privados, que sempre viveraõ sogeitos, e obedientes às leys, e ordenaçoens da Reepublica Romana.

Bem se deve cuidar, quamanho contentamento serà o destes Reynos, vendo que V. Alteza nosso natural Rey, e Senhor, com tanta razaõ pòde ser comparado com taõ excellentes Principes, mas não ha louvor, que não mereça, quem traz todos seus pensamentos em Deos. Este he a verdadeira ley, e deste nasce a verdadeira justiça, a qual então se pòde chamar perfeita, quando toma por seu fundamento nossa Santa Fè, daqui vem que as leys de Moysès foraõ muy Santas, porque o seu fim era em Deos, e pelo contrario entre as leys dos Gentios muitas se achaõ injustas, e pouco honestas, porque carecendo os que as ordenavaõ do verdadeiro conhecimento de Deos, se moviaõ por huma cega opiniaõ, e eraõ guiados de hum falso proveito, e vangloria deste Mundo; muitos Principes seguindo algum seu particular interesse enganaraõ o povo, fingindo que eraõ justos. Elle naõ quer outro premio, nem gallardaõ da virtude, que a ella mesma, e sendo seu natural taõ justo, como he, naõ póde caber nelle fingimento algum de o ser. Como este Santo zelo tira as occasioens das falsas, e longas demandas, que pela mòr parte, saõ causa de odios, e escandalos, e trabalha por apurar todas as partes da justiça, sendo ella de tanto merecimento, que naõ sómente ajuda Deos aos Principes Catholicos (se a bem guardaõ) mas ainda se acha, que ajudou a muitos Reys generosos, que delle naõ tiveraõ conhecimento.

Notorio he a quem lè pola Sagrada Escriptura, quam justo foy ElRey David, quam aceito a Deos por esta parte, e quantas victorias ouve, e assim Jozaphat Rey de Judà foy Principe justo, e semelhante a David; este ordenando, e pondo de novo Juizes em todas as Cidades do seu Reyno lhes encomendou, que em nenhuma cousa entendessem, salvo em fazer a todos igual justiça, sem ter respeito algum, nem á riqueza, nem à Fidalguia, lembrando-lhes q́ a Deos naõ podiaõ esconder nada do que fizessem. Elegeo Juizes em Jerusalem dos Sacerdotes, e Levitas, e principaes do povo, e lhes mandou, que se as outras Cidades lhes pedissem conselho, lhes respondessem com muito zelo o que vissem ser justiça; por quanto era muita rezaõ, que o parecer dos Juizes fosse justo naquella Cidade, onde o Templo de Deos estava; por esta causa, e pelo grande amor, que tinha a Deos mereceo vencer os Moabitas, alevantando-se entre elles no seu arrayal hum tamanho alvoroço, que huns com outros sem nenhuma causa evidente se matavaõ, entaõ os Sacerdotes dos Judeos tocaraõ as Trombetas, e os Levitas cantando davaõ graças a Deos, os Moabitas com grande espanto fugiaõ, e lhes parecia, que toda a gente do Mundo hia em seu alcance com muito arruido d’armas, vozes desvayradas, multidaõ de carros, e som de Trombetas, e assim os Judeos sem nenhum trabalho ouveraõ gloriosa victoria contra tamanho, e taõ poderoso Exercito. Por certo grandes merces faz Deos aos Principes que inteiramente guardaõ justiça, e da maneira que aos taes favorece muito, assim sóe dar grandes castigos aos que vaõ contra ella.

Escreve-se de Sedechias, Rey do Tribu de Judà, que quiz mal à justiça, foy soberbo, e amigo de màos homens, por onde vindo muitas vezes a elle o Profeta Jeremias, o amoestava, que se lembrasse de Deos, e naõ se governasse por màos homens, nem leyxasse enganar por informaçoens de falsos Profetas, e ElRey em quanto isto ouvia, conhecia a verdade, e consentia nella, mas partido o Profeta tornava a ser o que era de antes. Naõ muito depois veyo Nabucodonosor com grão poder sobre elle, e o venceo, e levou prezo a Babilonia, onde morreo deshonradamente; tambem os Reys de Samaria, por fazerem pouca justiça, e desprezarem o verdadeiro Deos, os maes delles reynavaõ, e haviaõ no cabo mào fim, atè que succedeo ElRey Joza em tempo de Eliseo Profeta, que por ser Principe justo, e temente a Deos mereceo aver vitoria contra os Syrios; taõ aceita he a Deos esta virtude, que por mais culpas, que precedaõ, se esquece dos erros passados; e sem respeito ao merecimento presente. Naõ tinha todas as boas partes de bom Principe ElRey Herodes, filho de Antipatro, com tudo porque favoreceo a justiça, foraõ suas cousas avante, e viveo prosperamente longos dias; fez huma Ordenaçaõ, que os ladroens que se achassem, fossem vendidos por escravos, e dizem que andava de noite desconhecido, escuitando o que se fallava delle, e de seu Reynado.

Da mesma opiniaõ era Hircano Principe dos Sacerdotes, filho de Simaõ Macabeo, e sendo discipulo dos Fariseos, que naquelle tempo tinhaõ grande authoridade, lhes dizia que elles sabiaõ bem que sua tençaõ era fazer justiça com que servindo a Deos, a elles tambem contentasse, por tanto lhes rogava, e encomendava muito, que se em alguma cousa o vissem errar, o quizessem emmendar, e tornar a bom caminho, e naõ sómente esta virtude he muy aceita a Deos, mas foy sempre taõ estimada entre os Principes Gentios que por serem justos foraõ avidos por Deozes, como se escreve de Adezer, e Azael Reys de Damasco, os quaes por este respeito foraõ adorados em toda a Suria, e ainda em tempo de Jozefo historiador, que foy depois de mil annos, em todalas festas que se faziaõ em Damasco, as imagens destes se mostravaõ ao povo com muita veneraçaõ: por certo muito merece esta virtude; porque alem de se representar nella o poder de Deos, quem a tirar dentre os homens, tirarà todo o descanço, toda a paz, todo o sossego; e sendo esta a principal cousa de que as Reespublicas tiveraõ necessidade, huns antigamente sem fazerem leys, se governavaõ por bons costumes, que antre si com muita diligencia guardavaõ, outros faziaõ leys por onde viviaõ.

Com tudo acho eu, que os costumes foraõ mais antigos, que as leys: em tempo do Poeta Homero, ainda entre os Gregos naõ avia leys, nem se acha tal nome em todalas as obras que fez, sómente se governava o povo pelas determinaçoens, e vontades dos Principes, que se applicavaõ aos esquecimentos, sem outra maneira de escritura. Os Lacedemonios, e Cretenses por costumes se governavaõ. Os Athenienses, e outros Gregos se aproveitaraõ mais das leys, pelo qual Moysès dador da Santissima ley do Testamento Velho, vendo que leys, e bons costumes eraõ necessarios para a conservaçaõ da boa Reepublica, a estas cousas ambas teve respeito, e se aproveitou dessas com grande seu louvor.

Dizem alguns, que Roma foy huma Cidade de tanta confusaõ, que se a ventura a naõ favorecera, ella por si fora fraca, e ficàra abayxo doutras muitas Reespublicas. Eu naõ posso negar, que ventura, e cavallaria, naõ fossem muita causa do Imperio Romaõ, mas pareceme, que aonde se trataõ bem as cousas da Guerra, cumpre que haja boa ordem, e que onde ha boa ordem naõ pòde deixar de haver justiça, e porque os Filosofos tem que a boa Reepublica he partida em tres Estados, que saõ principaes, nobres, e povo; quem bem olhar acharà que a Cidade de Roma, antes de ser tiranizada, era fundada nestas tres partes, porque aos principaes respondem os Consules, aos nobres os Senadores, e ao povo os Tribunos; naõ podèra crescer tamanho Imperio, nem conservarse tantos annos sem perfeita administraçaõ da Justiça, e ella só foy causa de tantos bons exemplos, quantos muitos Romaõs deraõ de si, e sempre se vio os bons exemplos nascerem da boa criança, a boa criança das boas leys, finalmente as boas leys dos bons Principes.

Se o Imperio do Oriente, que durava em Constantinopla, perseveràra em fazer justiça, e no amor de Deos, naõ creo eu que Deos permitira (se licito porèm me he julgar das cousas divinas) ser vencido, e tantos annos ha sogigado polo Turco, e se pelo contrario alguma cousa hoje conserva a potencia dos Turcos, sendo infieis, e havendo entre elles tantos vicios, he o grande cuidado, que tem de muitas partes da justiça. Em tempo de Miguel primeiro da Caza Paleologa Emperador de Constantinopla, avendo quatro Senhores Turcos em Anatolia, e querendo com medo dos Christãos fazerem-se mais fortes, elegeraõ por Senhor geral de todos a Othomano; este foy Principe justo entre elles, e fez muitas leys, que hoje se guardaõ na Turquia, por onde ainda nestes tempos, quando elegem graõ Turco, lhe dizem: Queira Deos, que em bondade sejas igual a Othomano. Faz-se na Turquia muita justiça, a gente pobre que se agrava faz petiçaõ que elles chamaõ Roca, a qual posta sobre huma cana se offerece ao Grão Turco, quando passa: elle a toma, e mete no seu turbante, que assim chamaõ os Turcos à fita, ou touca, que trazem na Cabeça, e como se recolhe à sua Camara a despacha logo.

Eu bem vejo, que a justiça do Turco he tiranica, e acellerada, tanto que segundo dizem, a mòr causa civel he despachada pelo seu Cadij (que he antre elles como Alcayde Mòr) em tres horas, toda via com tal execuçaõ, e meyos, posto que sejaõ asperos os Turcos, conseguem o fim, e proveito della, que he viverem em muita paz, e sossego comum, por serem os Turcos obedientes, e fazerem o que lhes mandaõ, saõ bons Cavalleiros, e sofrem muito o trabalho, posto que neste tempo, pola continuaçaõ da boa vida, naõ saõ taõ valentes, como sohiaõ: cousa natural he as cousas pouco, e pouco hirem minguando atè de todo se acabarem; he certo cousa para notar, castigar Deos a muita sem justiça dos Gregos com a tirania dos Turcos; quem naõ sabe quantos males vieraõ aos Principes, que naõ se lembraraõ de huma cousa taõ necessaria para a vida comum? De maneira que se jà naõ pòde achar mais certo caminho da perdiçaõ de hum Estado. Assi como o principal proveito da justiça he boa paz, assi mais vezes castiga Deos o contrario com guerra, e destruiçaõ, e perda de Cidades, e Reynos; e por isso muitos Principes Gentios, que naõ tiveraõ conhecimento da verdadeira ley, e indo contra esta virtude foraõ gravemente punidos, quanto mais o devem ser os Christaõs, a que particularmente toca esta obrigaçaõ por ser nossa Santa Fè toda fundada em justiça, ou mais verdadeiramente fallando, a mesma justiça; por serem injustos os Assyrios, foraõ vencidos dos Medos, e os Medos dos Persas, e os Persas dos Gregos, e os Gregos dos Romaõs; assi muitos outros Reynos por esta causa se perderaõ; mas se bem queremos olhar, acharemos que muito mores males padeceraõ os Judeos no tempo do Testamento velho; e depois por esta causa os Christaõs, e naõ foy isto sem razaõ, que tanto mais aspera devia ser a pena, quanto mais obrigados eraõ a fazer o que deviaõ polo conhecimento, que tinhaõ de Deos, e da sua Ley.

Quem poderia contar sem muitas lagrymas os açoutes, que Deos mandou à Christandade polos Godos, Ostrogodos, Alanos, e toda outra geraçaõ dos barbaros, os quaes partidos da terra fria, que he debaixo do Norte; como huma grande tormenta allagaraõ quasi todalas provincias da Europa; e por me naõ deter nos outros, direy brevemente dos Hunnos: estes sahindo da Tartaria com tres Capitaens, Cheme, Chadrichia, e Bela, chegaraõ ao Reyno de Ungria, e o tomaraõ, lançando os Longobardos, que o tinhaõ occupado; naõ muito depois fallescendo todos tres, foy alevantado Athyla por Rey dos Hunnos, que foy taõ crù, e fez tanto estrago na Christandade, que com muita rezaõ mereceo ser chamado açoute de Deos; matou as onze mil Virgens, venceo, e destruio Alemanha, França, Italia; pellejou nos Campos Cathalonicos, que saõ em Franca, com Echio nobre Capitaõ Romaõ, e Meroueo, que foy o III. Rey de França, e juntamente com Theodorico Rey dos Godos, na qual batalha foraõ mortos cento, e oitenta mil homens: por onde quer que Athyla passava, tudo era fogo, e sangue, em cada parte eraõ ouvidos choros, prantos, e lamentaçoens, eraõ trespassados com feridas crueis os meninos de mama dentro dos braços das Mãys, os Santos Sacerdotes, e devotos Religiosos recebiaõ martirio diante dos Altares, o Sangue das Virgens e innocentes corria em todo o cabo, naõ havia cousa segura, nem que a tanto mal resistir pudesse; conta-se deste cruel tirano, que entrando por força a Cidade de Aquilea, que està perto de Veneza, huma molher nobre de estremada formosura, se lançou dos muros abaixo em huma ribeira muy alta, por naõ vir às mãos do vencedor; e outros que daqui escaparaõ com medo dos barbaros, que daquella parte sohiaõ a entrar em Italia, leyxando Aquilea, se passaraõ a huma pequena Ilha, onde entaõ foy primeiramente fundada a Cidade de Veneza, e sendo os Christaõs taõ atormentados, como eraõ, todavia cessava a ira de Deos, porque naõ cessava a culpa da sem justiça.

Naõ sey para que buscamos exemplos de fora? Tragamos à memoria a destruiçaõ de Hespanha; e veremos, que a sem justiça delRey Rodrigo derradeiro Rey dos Godos foy causa de tanto mal. Castiga Deos as mais vezes os Christaõs por gentes infieis, e barbaros, ou por Christãos de mà vida, e costumes abominaveis, e torpes. Hereges eraõ os que foraõ chamados Adamitas, viviaõ em Comunidade, andavaõ nùs, moravaõ em Covas, e havia entre elles muito torpes, e deshonestos costumes, com tudo por homens de taõ mào viver permitio Deos, que fosse vencido em batalha campal Sigismundo Emperador de Alemanha, e Rey de Ungria; mas quando da sem justiça se naõ seguissem outros males, devia de bastar verem todos claramente quam vituperada foy sempre a memoria dos que cahiraõ nesta culpa, e queria, que me dissessem, que mòr gloria podia set a do Emperador Trajano, e que mòr mofina, que a de Nero? Que aproveitou a Federico II. deste nome, sendo taõ mào homem, como foy, ser Emperador de Alemanha, ser Rey de Sicilia, e herdar o direito do Reyno de Jerusalem, casando com huma filha de Joaõ de Brenha derradeiro Rey della, donde todolos Reys de Sicilia dahi por diante tomaraõ este titulo? Foraõ estas grandes honras, e as mòres, que entre os Christaõs se podiaõ dar, com tudo por ser Federico taõ mào Emperador, naõ sómente naõ deraõ lustro à memoria, que delle ficou, antes tanto mòr nodoa lhe puzeraõ, quanto os defeitos dos Principes se vem, e sabem melhor, que os dos outros homens; qual homem justo, e de boa razaõ aceitaria o estado deste com sua mà fama, sendo como foy muy contrario, e grande inimigo da Igreja Romana, mandando matar hum seu proprio filho por nome Henrique, por sentir nelle, que era bom, e differente de seus màos costumes; dando começo aos bandos dos Guelfos, e Gibilinos, que hoje em dia duraõ em Italia, e Guelfo, e Gibilino saõ nomes Alemães, que segundo se escreve, foraõ postos na Cidade de Pistoya, e dizem, que andava este Emperador correndo as Cidades de Italia, Villas, e lugares, e os que achava de sua banda contra o Papa, e Venezianos, chamava Gibilinos, e os contrarios Guelfos; emfim naõ se contentando com ser, em quanto viveo, tirano, mas sameando cousas de tanto damno, odio, e differenças para sempre nos povos de Italia.

Mas claro he a todos, quam aceita virtude a Deos, e ao mundo, e quam proveitosa as Reespublicas, he a justiça, e polo contrario, quantos, e quam grandes males nascem da semjustiça; por isso que Panegyrico, que louvor naõ merecerà V. Alteza obrando taõ perfeitamente do começo de seu Reynado, todalas cousas, que tocaõ a taõ estremada virtude? Naõ bastaõ forças humanas a dar igual louvor, ou premio a taõ alto merecimento, posto que o verdadeiro deve esperar de Deos, do qual jà tem conseguido hum dos mores bens, que da justiça nascem; este he ter em muita paz, e tranquilidade os seus Reynos, quanta pola ventura nos outros Reynos Christaõs de muitos annos a esta parte naõ houve. Plinio em hum seu Panegyrico, que fez ao Emperador Trajano diz, que entaõ se poderaõ chamar os Reynos, e Reespublicas bemauenturadas, quando se der galardaõ à virtude, e os bons forem estimados, e os màos naõ forem temidos, mas estes taõ grandes bens, que nascem do Principe, ou da Reepublica justa, melhor se mostraõ nos tempos da paz, que da guerra, porque ainda que se a guerra trate, como deva, com tudo naõ sendo os tempos quietos, mal se podem de todo refrear os appetitos dos homens, e por isso naõ hà tempo em que se assi possa usar toda a virtude, como no da paz: esta para ser firme, e qual cumpre ao verdadeiro estado das Reespublicas, he necessario, que tenha seu fundamento na justiça, sem a qual naõ hà cousa segura, nem que possa durar muito.

Dizem as nossas Chronicas, que ElRey D. Pedro de Portugal vosso IV. Avo, filho delRey D. Afonso, a quem chamaraõ do Salado, foy Principe justo, por onde ainda que sua justiça parecesse hum pouco aspera, teve seu Reyno em tanta paz, e foy tambem quisto do povo, que segundo a voz geral, nunca se viraõ taes dez annos; naõ aconteceo assim no mesmo tempo a ElRey D. Pedro de Castella, o qual por sua semjustiça, e cruesa a poz toda em revolta, e lhe foy necessario sahir do seu Reyno deshonradamente, e passar-se a Inglaterra; mas posto que da justiça venha paz, e da semjustiça nasçaõ odios, e differenças, naõ leixa V. Alteza de ter respeito particular à paz, e de tal maneira se reparte em cada virtude por si, que sendo geral em todas, he perfeito em cada huma. Quem poderà dizer, com quanta prudencia, com quanto zelo, tendo guerra entre si a mòr parte dos Principes Christaõs, elle como verdadeiro Pay de todo o seu povo procurou a paz universal destes Reynos, naõ leixando cousa alguma, por onde vivessemos descançados; favoreceo Deos este seu taõ virtuoso zelo, e quiz que em tempos taõ trabalhosos nos pudessemos lograr de hum taõ proveitoso, e dezejado bem, naõ hà no mundo triunfo, nem victoria, que se possa comparar com os bens da verdadeira paz, por tanto pelejem de huma parte os Reys Christaõs, e tenhaõ guerra huns com os outros, vaõ contra a paz, que N. Senhor tanto encomendou a seus Discipulos, e em seu nome a toda Igreja Catholica, vinguem suas paixoens às custas do sangue de seus Vassallos; façaõ em pedaços a Vestidura de Christo, em que naõ hà costura, nem divisaõ; V. Alteza da outra parte prosiga, como faz, sua muy sancta tençaõ, faça guerra aos Infieis, e Mouros d’Africa; e movido do santissimo zelo converta Ethiopia, e Arabia, Persia, e India à verdadeira Fè de Christo.

Saõ por certo estas tençoens, e obras entre si muy differentes, mas bem claro està quanta razaõ elle tem de se naõ arrepender das suas, nem do que atèqui tem feito. Que descanço, ou que contentamento pode haver no Reyno, ou Reepublica, onde naõ há paz? Por isso assi, como o fim do bom Piloto he fazer prospera viagem, e do Medico dar saude, e do Capitaõ alcançar vitoria; assi do bom Principe he conservar a vida, e descanço de seus Vassallos, a qual cousa em tempo de guerra naõ pode ser; alegre parece a guerra de fóra, mas quem a experimenta, este conhece bem os trabalhos de huma, e os bens da outra, porque assi como na doença se conhece o bem da saude, e na tormenta do mar o bem da terra, assi naõ ha tempo em que melhor se julgue, e entenda o bem da paz, que quando se carece della. Se a hum homem que nunca ouvisse fallar em armas, nem tivesse alguma experiencia dellas, supitamente fosse mostrado o apparato de dous grandes Exercitos, por mar, e por terra, ordenados para se darem batalha, e visse os fermosos penachos, as armas reluzentes, a multidaõ dos Cavallos, a ordenança da gente de pè, toda bem disposta, e prestes para pelejar; as bandeiras, os esquadroens em seu concerto: doutra parte visse no mar muitas Nàos, e Galeoens, com muita gente bem armada cubertas de fermosas bandeiras rodeadas de paveses, e cercada de toda a sorte de artelharia, sem duvida quem quer que isto visse, naõ sabendo mais nada, naõ cuido eu que receasse de se meter entre elles, e lhe pareceria, que via a mais fermosa cousa do mundo; mas se depois de travada, e muy cruamente ferida a batalha, este mesmo sentisse, e visse com seus olhos o grande ruido, e estrondo das armas, a grita da gente, os golpes, e tiros d’artelharia, a multidaõ dos mortos, corpos espedaçados, ays, e gemidos dos feridos, outros serem pizados dos Cavallos, a confusaõ, o medo, e o espanto da morte presente, e assi visse no mar as Nàos, e Galeoens arrombadas de tiros de fogo, humas dellas hirem-se ao fundo, outras arderem em fogo, e chamas de alcatraõ, as ondas vermelhas com sangue, o fumo da polvora, os homens lançarem-se ao mar, e afogarem-se.

Quem isto tudo bem visse, bem creyo eu, que escolhesse antes a paz, que a guerra, e que tomasse antes por partido viver em descançada, e segura paz de bayxo da obediencia de hum Principe justo, que naõ querer arriscar-se a tamanhos perigos por huma mostra falsa, e engano d’lhos, e esperança incerta de vitoria; naõ se devem julgar as cousas polo apetito, senaõ pola razaõ. Quem isto assi fizer, verà quanto mais val o descanço da boa paz, que o sobejo exercicio das armas, porque posto que ellas prometaõ vitorias, ou a guerra em si he de todo injusta, e naõ pertence ao Principe Christaõ, ou tem muitos inconvenientes, que della pòdem nascer, que devem todos ser olhados primeiro que nada se cometa; por quanto os começos da guerra estaõ em nosso poder, e os cabos naõ; eu naõ entendo aqui da que se faz aos infieis, e inimigos de nossa Santa Fè, porque esta sendo justa, he proveitosa, e traz grande louvor ao Rey Christaõ; mas toda a outra sorte della, que agora se usa, mais do necessario, naõ sendo em defensaõ da Patria, se deve muito fogir, e estranhar. Quem naõ sabe quam necessaria foy a guerra que ElRey D. Joaõ I. deste nome teve com Castella pola defensaõ, e liberdade destes Reynos?

Com tudo foy provada a vitoria por tantos males, que os taes tempos soem trazer consigo, e por tanto sangue da gente Portugueza, que segundo ouvi dizer, faltou mais da terceira parte da que sohia d’aver, e eu tenho achado em Escriptura authentica, que naquelle tempo naõ ficarão mais na Villa de Monforte que doze pessoas, avendo dantes duas mil, e em Arronches huma só; pois se as perdas que em guerra taõ justa se sentiraõ, toda via fizeraõ ao Reyno tanta falta, e foraõ causa de tantas lagrymas, e dezamparo, quanto se devem guardar os Principes d’a cometerem nunca, naõ tendo para isso justa causa, e grande necessidade? E naõ sey eu, que conta os Reys darão a Deos da vida de seus vassallos, a que elles por muy leves causas, e somente por seguirem seus appetitos, foraõ causa da morte. Naõ foraõ os Reys ordenados por Deos para homicidas de seu povo; mas para o defenderem, e ampararem, nem devem taõ pouco estimar as vidas dos homens, os que naõ tem poder nas almas depois da morte: naõ ha guerra taõ prospera, nem taõ vitoriosa, em que se viva com tanto descanço, como no tempo da paz. Venceo ElRey D. Joaõ I. deste nome a ElRey de Castella, e foy taõ gloriosa a vitoria, que com ella se restituio a liberdade destes Reynos, com tudo quem bem olhar o pacifico, e quieto estado dos tempos delRey D. Dinis, e delRey D. Pedro, verá quanto melhor he viver em honrada paz, que esperar vitoria ganhada com muito trabalho, e destruiçaõ da gente. Muy bem entendia isto o mesmo Rey D. João, o qual sendo como era taõ esforçado, favoreceo muito a paz, e conta-se delle, que estando esperando a confirmação das pazes perpetuas, que lhe haviaõ de vir de Castella, disse hum dia, que esperava por hum recado do mòr prazer, que nunca ouvera.

Mas naõ basta ao bom Principe arredarse dos inconvenientes da guerra de fora, mas cumpre-lhe tambem guardarse, que naõ se levante alguma dentro no seu Reyno, e Casa. Este mal se escuza quando he bem quisto, e faz muita justiça a seu povo, a todos he notorio, quantas desaventuras, quantas fortunas, vem ao Reyno em que ha differenças antre o Rey, e os vassalos, e esta sem duvida he a mais perigosa, que a de fora, por quanto os males doutra parte pòdem se atalhar, antes que cheguem: os de dentro jà naõ tem este remedio, nem pòde o Principe leyxar d’os ter consigo em sua casa, digo isto naõ por se parecerem estes tempos com os passados, e a virtude de V. Alteza, e assi a lealdade de seus vassalos he tanta, que naõ menos o amaõ, do que os ama a elles; mas porque minha tençaõ he que naõ menos saber, e justiça ha mister o Principe para conservar a paz com os naturaes, que com os Estrangeiros; este respeito tiveraõ alguns Reys de Portugal, naõ sómente em manter estes Reynos em muita concordia, mas em trabalhar muito que a ouvesse nos de fóra. ElRey D. Affonso de Castella Onzeno deste nome, indo com seu Exercito para a frontaria dos Mouros disse em publico que os Cavalleiros da frontaria eraõ taõ bons, como os de Castella, polo qual na batalha d’Ilharcos (que dahi a pouco foy) D. Diogo Lopes de Haro seu Alferes Mòr com todolos Cavalleiros estando assi de concerto fugiraõ, e o leyxaraõ sóo, por onde elle se vio em grande aperto, e foy ferido de duas azagayadas polas pernas, e naõ querendo sahir da batalha por ser muy esforçado Principe, foy necessario aos seus, que o tirassem della. Tanto empèceo huma sòo palavra deste Rey dita contra os Cavalleiros, que de sua condição saõ vingativos; mas quam clemente V. Alteza, e humano seja, e quam afastado de toda a sorte d’aspereza, cousa he a todos muy sabida, o qual sempre uzou, e uza palavras cheas de todo o comedimento, de toda virtude, e bom exemplo, acompanhadas daquella authoridade, que cumpre ao bom acatamento da Magestade Real. O Marquez de Villa Viçoza em huma carta, que escreveo a ElRey D. Affonso V. sobre a ida de Castella, louva muito a paz della com Portugal, e trabalha quanto pòde polo apartar de tal empreza, antes lhe prova por muitas razoens, que elle mesmo se deve meter no meyo, e fazer a paz entre ElRey D. Fernando, e os Cavalleiros, e a este proposito traz hum exemplo delRey D. Joaõ I. o qual sendo, como diz, cometido por ElRey d’Aragaõ para se liarem ambos com os Cavalleiros de Castella a partirem antre si, ElRey depois de tomar o parecer dos Grandes se escusou, dizendo que tinha paz com ella: por isso naõ sem cauza V. Alteza trabalha tanto pola conservaçaõ da boa paz, pois a justiça, o respeito de nossa Santa Fé, o proveito universal, e exemplo, e authoridade de seus antepassados assi o requerem.

Verdade he o que se diz, que o bom Principe dà luz, e claridade de si, como o Sol a todos, o que tanto mais se deve estimar, quanto muitas vezes por culpa de màos Governadores he peor tratada, e naõ sómente com os vassallos, mas com os filhos, irmaõs, e parentes tiveraõ jà muitos Principes differenças, e guerra civil. Escreve-se de Iezabel Rainha dos dez Tribus, e mulher delRey Acab, que sendo mulher desarrezoada, e forte, e de crua condiçaõ, foy causa em seu Reyno de muitos odios, e revoltas, matou todos os Profetas, que pode haver à maõ, e mandou, que se adorassem os idolos no Reyno de Israel, e de Samaria. A Rainha Athalia depois da morte delRey Ochozias seu filho governou o Reyno de Judà seis annos taõ soberba, e cruamente, que mandou matar todos os que vinhaõ da linhagem do Rey David, e pera mòr escandalo, e descontentamento do povo fez edificar hum Templo em Hierusalem, em que mandou adorar hum idolo, que chamavaõ Baàl, e ella porèm foy morta, e ouve o castigo que suas grandes maldades mereciaõ.

Que direy de quantas differenças, e guerras civis ouve no Reyno de França antre ElRey, e o povo? Le-se de Broncilde Rainha de França, e mãy delRey Childiberto, que excedendo a toda a sorte de crueza, matou seus filhos, netos, e bisnetos delles a ferro, delles com peçonha, sómente por uzar à sua vontade de seus màos appetitos deshonestos: esta foy semelhante a Euridice, Rainha de Macedonia, e filha de Amintas, que foy nòra de Felippe, pay de Alexandre Magno, a qual soltando-lhe a redea a seu mào, e torpe dezejo, fez tambem matar muitos seus filhos. Se nos passarmos às Chronicas do Reyno d’Ungria, tambem acharemos que ouve antre ElRey, e povo muitos bandos, e differenças, e leixando os males prezentes, em que hoje aquelle Reyno està metido, que tem dado a toda a Christandade assaz bem trabalho: o Rey Pedro, filho delRey Estevaõ primeiro Rey de Ungria foy lançado della por usar contra seus vassallos grandes cruezas, a estes succedeo Abbà, o qual em conjuraçaõ feita contra elle, foy morto, e assi Salamaõ Rey d’Ungria foy lançado por Gersa seu Primo com Irmaõ.

Naõ hà muito, que fiz mençaõ delRey D. Pedro de Castella; este reynou taõ cruamente, que sendo lançado della, e querendo vir-se cà, ElRey D. Pedro, sendo naõ pouco seu parente, o naõ quiz acolher, por onde lhe foy necessario passarse a Inglaterra. Ainda he cousa fresca na memoria dos homens, como o Rey de Dinamarca por semelhantes odios, foy lançado de sua terra deshonradamente, e hoje em dia està prezo: que direy no Reyno de Castella, quantas differenças, quantas conjuraçoens houve antre os Reys della, e seus Filhos, e Irmãos, e outros muitos da Casa Real, mas naõ me quero deter em cousa taõ clara; abaste a comparação destes para se ver quamanho louvor he o de V. Alteza; e quanto lhe devem seus Vassallos, vivendo por sua causa taõ afastados de tantos males. Esta bondade, este amor, que mostra, naõ somente aos Infantes seus Irmãos, de que depois direy, mas a todos em geral, e assi o trabalho, que sempre toma para nosso descanço, accrescenta mais o amor, que lhe seus Vassallos tem, o qual he mais firme, e aproveita mais aos Principes; que todas as fortalezas por mais fortes, que sejaõ.

Aos Emperadores de Roma Tito, e Nerva, e Adriano, e Antonio, e Marco por serem bons Principes, naõ eraõ necessarios Soldados, nem gente armada, que os guardasse; os seus costumes, a boa vontade do povo, o amor do Senado os defendia, e polo contrario aos màos Emperadores, como foraõ Nero, Caligula, Vitelio, e outros muitos, naõ abastavaõ os exercitos, que o Imperio Romaõ tinha em todo Levante, e Ponente para se poderem guardar de seus proprios Vassallos, e por sua mà vida, e costumes eraõ os mòres inimigos, que tinhaõ. He cousa muito para notar, que de vinte e seis Emperadores, que foraõ de Julio Cesar atè o Emperador Maximino, os dezaseis foraõ mortos a ferro, e os dez sómente morrerão de sua morte: por isso tomem os outros Reys Christãos exemplo de V. Alteza, e aprendaõ delle a viver em verdadeira paz, e sem duvida tal deve ser o Principe para em fama, e gloria exceder os outros: jà naõ recearey dizer alguma cousa porq́ sey de mim digo verdadeiramente a qual he, que sempre folgára de ser Portuguez, mas agora o folgo de ser mais, que nunca.

Continuar: parte 2 de 5