Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 156 de 177

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Elogio de Evora.

ELOGIO

DE EVORA.

 

No meyo da Provincia de Alentejo està situada a Cidade de

Evora[255] em hum posto taõ eminente, que fica senhoreando os campos, que a cercaõ por toda a parte atè pararem em quatro serras, com que a natureza em larga distancia a cercou, quasi como com muro. Da parte do Oriente a serra de Ossa; de Meyo dia a de Portel, e Viana, do Norte a de Arrayolos, e do Occidente a de Montemuro. He este sitio taõ agradavel à vista, que aos de Italia lhes pareceo que era Roma; e aos de Castella, o seu Madrid, e Toledo. Esta he aquella Cidade, que sendo fundada por Elysa primeiro Povoador de Espanha, tem sustentado por tantos seculos o mesmo nome, e lugar, quando das Metropolis das mayores Monarchias naõ se sabem já os vestigios donde foraõ. A fama deste sitio trouxe a si da Gallia os Celtas, a quem admitindo os Eborenses por Cidadaõs, os dividiraõ depois por as Provincias vizinhas, reconhecendo-se sempre por colonias suas todos os Celtiberos de Espanha. Esta he a Cidade, a cuja vista Viriato levantou os primeiros tropheos dos desbaratados exercitos Romanos, e Sertorio edificou os muros, aqueductos, e fabricas Corynthias dos despojos daquelle povo, que foy vencedor do mundo,acquiridos com os soldados Eborenses; e que ainda hoje permanecem por testemunhos de tamanha gloria. Este o lugar, em cujo nome quiz o primeiro Emperador de Roma, que ficasse eternizada a memoria de sua liberalidade. Esta foy a Cidade, que primeiro ouvio as alegres novas do Evangelho, e della, como de Sede propria, as recebeo por S. Mancio toda Lusitania. Esta foy o propugnaculo dos Reys Godos contra o Imperio. E naquella grande ruina ultima de Espanha, posto que se sometteo ao poder dos Arabes, inda depois de rendida se temeraõ tanto della, que levaraõ a principal parte de seus moradores a Marrocos, cabeça de sua Monarquia, onde os Eborenses fundaraõ outro lugar, com o nome da mesma patria, em que conservaraõ a Fè, e a liberdade por muitos seculos, atè que no tempo delRey D. Joaõ I. se tornaraõ a Espanha. Nenhuma força pode recuperar esta inexpugnavel fortaleza; e assim foy só restituida pela industria intrepida de Giraldo Illustre Cavalleiro, que com ella deu aos Reys Portugueses a mayor parte da Lusitania. Esta foy a primeira em defender a liberdade de Espanha, naquella milagrosa batalha do Triumpho da Cruz, onde seus moradores se ouveraõ com tanto valor, que a mesma Cruz lhe ficou por premio em perpetua memoria de taõ glorioso Triumpho. Na conservaçaõ da liberdade Porruguesa foy ella a primeira, que servio a ElRey D. Joaõ I. depois que intentou a defensaõ do Reyno. Aqui foy a praça de armas do Condestable, com cujos moradores alcançou tantas victorias. Aqui permanece a primeira Igreja de Espanha, illustrada com tantos Santos, e gravissimos Prelados. Esta foy a patria de tantos Varoens insignes em letras, onde florecem todas as sciencias divinas, e humanas. Esta he aquella, que produzio a Real planta da Senhora Infanta Dona Catharina; donde refloreceo com mayor felicidade a nossa Monarquia. Esta foy a primeira, que teve valor para desprezar o poder da Monarquia Castelhana, a cujo exemplo deve Catalunha a conservaçaõ de seus foros, e Portugal sua honrosa, e amada liberdade. E finalmente Evora he a que com a restauraçaõ de seu Rey, e natural Senhor tem descuberto outro novo mundo a todas as Provincias de Europa.