Noticias de Portugal
T
Sà, Sampayos, Sequeira, Serpa, Serveira, Sylva, Sylveira, Souto-Mayor, Sousa.
T
Tavares, Tavora, Teixeira.
V
Valente, Vasconcellos, Vieira.
Por baixo ao longo da aba do forro deste tecto estaõ escritos estes quatro versos nos quatro lados das paredes da Casa com letras palmares de ouro.
Pois com esforço, e leaes
Serviços foraõ ganhados
Com estes, e outros taes
Devem de ser conservados.
Desta casa faz mençaõ Damiaõ de Goes na Chronica delRey D. Manoel, quarta parte cap. 86. fol. 112. com estas palavras: Mandou ver todalas sepulturas do Regno, para dellas se notarem as armas, e insignias, e letreiros, que nellas havia, das quaes armas mandou no Paço de Sintra pintar todolos Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa Salla, que para isso mandou fazer: àlem do que mandou fazer hum livro muito bem luminado, em que estaõ pintados os mesmos Escudos da linhagem da Nobreza destes Regnos, &c.
Succederaõ estes Reys de Armas modernos aos Antigos Feciales
Romanos,[135] que eraõ os que publicavaõ as pazes, e guerras nos Exercitos, de que faz mençaõ muitas vezes Livio, e outros Autores Latinos. Este cargo tinhaõ entre os Gregos os Caduceatores, e entre Carthagineses os Trombetas, e outros em outras Provincias, segundo o uso de cada Naçaõ. Diogo do Monte citado por D.
Sebastiaõ de Covarruvias [136] affirma, que Julio Cesar instituhio certas dignidades, que se davaõ a doze Cavalleiros antigos depois de jubilados na Milicia; os quaes levavaõ nas vestiduras as insignias do Principe, e nenhumas armas offensivas; porque estes naõ pelejavaõ, mas advertiaõ, e notavaõ sómente os feitos valerosos dos Soldados; para que depois se desse o premio aos benemeritos, e esforçados, e lhes deu nome de Heroes, e diz que Carlos Magno renovou estes cargos com as mais cousas do Imperio Latino; e do nome Heroes se disseraõ Heraldos, e Heraos, como os chamaõ em França. E assim tiveraõ antigamente grande authoridade, e delles usaraõ os Principes de Alemanha, Inglaterra, Castella, e Portugal.
Ha tres especies delles, os primeiros, e menores saõ chamados Passavantes, os quaes tem o nome da principal Villa da sua Provincia. Estes antigamente tinhaõ por officio andar por varias Provincias vendo os usos, e costumes dellas. Os segundos se chamaõ Arautos, e eraõ ordinariamente os interpretes dos Reys, e os que levavaõ seus recados na guerra, de que ha assaz de exemplos na historia delRey D. Afonso V. e na de D. Carlos V. Emperador, e Rey de Castella: para o que quasi de todas as gentes tiveraõ salvo conduto. Tomaraõ o nome da principal Cidade do Reyno. Ultimamẽnte saõ os Reys de Armas, que se intitulaõ do nome da Provincia.
Neste Reyno ha tres Officiaes de cada Provincia, cada hum de sua especie. Os nomes de que usaõ, saõ Rey de Armas Portugal, Arauto, Lisboa, Passavante, Santarèm, Rey de Armas Algarve, Arauto Sylves, Passavante Lagos, Rey de Armas India, Arauto Goa, Passavante Cochim. Os Reys de Armas tem obrigaçaõ neste Reyno, segundo o Regimento, que lhes deu ElRey D. Manoel, de cada hum em sua Provincia fazer hum livro, em que se escrevaõ todas as Familias dos Nobres, e Fidalgos, que nella vivem, apontando os casamentos, e filhos, que cada hum ha; e fazendo disso arvores certas, e distintas com seus nomes; e por este trabalho manda ElRey lhe dem os Fidalgos suas gajas. Tem mais obrigaçaõ de fazer, que cada hum traga as armas, que lhe pertencem de direito, e de visitar cada qual sua Provincia de dous em dous annos. Manda-lhes assim mesmo ElRey se appliquem ao estudo da Armaria, de maneira que entendaõ as causas, porque se deraõ as armas a cada Familia; e as possaõ explicar, quando lhe pedirem as declaraçoens, assentando tudo em seus livros. Obrigados a por em lembrança todos os feitos de armas, que em suas Provincias passarem; e assim mesmo as mesagens, recados, torneos, justos, retos, e desafios, especificando os actos de cada cousa, como na verdade passaraõ. Manda que elles sós possaõ passar as Cartas de Armas, que se pedirem de novo, appresentando as petiçoens aos Desembargadores do Paço; hum dos quaes farà exame de testemunhas, porque conste, que o que pede a Carta de armas, he daquella linhagem, e lhe pertence, e que só o Rey de Armas as assinarà.
Tem tambem obrigaçaõ de assistirem nos levantamentos dos Reys, nos actos das Cortes, nas entradas solennes das Cidades, e nos Exercitos, quando os Principes se achaõ nelles. Acompanhaõ nos actos publicos aos Fidalgos, a quem os Reys daõ novos Titulos, assistem nas mesas ao comer dos Reys, e quando vaõ fóra pela Cidade, e finalmente nos enterros, e exequias. Estas saõ as obrigaçoens dos Reys de Armas, muitas das quaes naõ sey se se cumprem, e se he por descuido, ou pelos poucos premios, que recebem de seu trabalho; porque tirando a assistencia, que fazem aos Principes nos actos publicos, e acompanhamentos, e o passar as cartas ordinarias de Armas, no apontar as geraçoens, naõ vi memoria alguma. Porèm acudiraõ a esta obrigaçaõ alguns particulares, movidos do zelo do bem commum, por naõ se acabar a memoria da Nobreza de todo. E deixando o primeiro, que isto fez em Portugal, que parece foy conhecidamente o Conde D. Pedro, filho delRey D. Diniz (a quem deve a Nobreza de Espanha isso, que se della sabe, como confessaõ os Historiadores Castelhanos.) Depois delle seguio esta empresa no que toca a este Reyno sómente Xisto Tavares Quartanario da Sè de Lisboa continuando algumas Familias, de que tratou o Conde. Porèm ainda que o fez com diligencia, escreveo de poucas. Imitou-o Damiaõ de Goes Chronista Mór, e fez o livro de Geraçoens, que hoje està na Torre do Tombo imperfeito, por lhe naõ dar a vida lugar ao acabar de todo, e assim tratou sómente de poucas Familias. O Cardeal D. Henrique, como Principe taõ zeloso, encommendou esta empreza a Gaspar Barreiros Conego de Evora, na qual elle confessa, que trabalhou muito, porèm naõ lhe deu fim: e por sua morte encarregou o Cardeal o livro ao Bispo Jeronymo Osorio, que o acrescentou de algumas cousas; e por seu fallecimento o recolheo o Bispo Capellaõ Mòr D. Jorge de Ataide. D. Antonio de Lima fez tambem hum Nobiliario collegido dos livros dos Registos dos Reys muy apurado, e bom. Outro livro compoz tambem de Geraçoens Diogo de Mello Pereira Prior de Tentugal, parte do qual chegou a se imprimir; mas por justos respeitos, e defeitos, que tinha na composiçaõ, foy mandado tirar da imprensa. Destes livros, e doutros, que nesta materia fizeraõ muitos Fidalgos, se tem tirado muitas arvores de Geraçoens; as quaes para serem perfeitas, costumaõ os Italianos fazer com os retratos naturaes de cada pessoa dentro no seu circulo, e à roda delle lhe escrevem o nome, e em cima lhe poem a insignia da dignidade, que teve, como o Coronel, sendo Titulado, a Mitra, ou Chapeo, sendo Cardeal, ou Pontifice: aos Santos cercaõ os circulos de resplandores; aos Generaes dos Exercitos poem por insignia o Bastaõ; aos Capitaens da Cavalleria, o Elmo; e aos Cavalleiros das Ordens Militares assentaõ os circulos sobre as mesmas Cruzes; e do tronco da arvore penduraõ o Escudo das Armas da tal Familia.
Na explicaçaõ das Armas fizeraõ os Officiaes da Nobreza pouca mais diligencia; porque usando sómente de certos livrinhos estrangeiros, que trataõ das cores, e metaes dos Escudos, todo seu intento poseraõ em explicar estas cores; dizendo, que o vermelho significa sangue, o branco pureza, e assim outras cousas vulgares, que de cada cor, e metal ordinariamente se dizem, e por aqui explicaõ com regras geraes todos os Brazoens. O mesmo quasi fazem das peças dos Escudos, dizendo que os animaes saõ mais nobres, que as plantas, e estas, que os metaes, e os metaes, que os edificios, e outras cousas semelhantes contra toda a boa razaõ. Porque deste modo ficavaõ sendo mais nobres as Armas de hum particular, que tivesse no Escudo hum Lobo, ou hum Leaõ, que naõ as de hum Rey, que tivesse hum Castello, ou huma Cadeya; como saõ os de Castella, e de Navarra, ou huns Escudos, como os de Portugal. Pelo que com razaõ reprovaõ esta opiniaõ Thomaz
Garsone [137] [138] na sua Praça universal, e Gregor. Lopez Madeira
nas Excellencias da Monarquia de Espanha; os quaes resolvem, que a Nobreza das Armas naõ se hà de regular pelas cores, ou materiaes, de que constaõ; mas pela dignidade de quem as traz, ou pela bondade do acto, em que foraõ ganhadas. Sò na ordem de trazer as Armas poseraõ mayor cuidado, ordenando que sò os Chefes tragaõ as Armas direitas, que he o mesmo, que sem differença; e a todos os outros filhos segundos se lhes poem alguma peça no Escudo para differença. Esta peça se toma ordinariamente das Armas dos Avòs. E sendo muitos irmaõs, o primeiro tem a escolha para tomar a melhor differença, Ve-se isto muy distinctamente na Casa das Armas de Cintra, onde mandou ElRey D. Manoel pòr as suas no meyo, e à roda as de todos os seus filhos; dos quaes hum tomou por differença as de Castella, outro as de Aragaõ, outro as de França, Inglaterra, &c. cada hum por sua precedencia. Quando pintaõ os Escudos, os poem sempre inclinados para a parte direita; posto que os Chefes os trazem hoje direitos com os elmos fronteiros, havendo algum animal no Escudo, ou outra peça, se poem tambem por Timbre: ninguem sendo Chefe pòde trazer as Armas com outra mistura, tirando se o for de muitas geraçoens; porque entaõ as poderà trazer juntas. Os outros podem usar das dos quatro Avòs, quarteadas, ou das de sua mãy sómente. As mulheres trazem as Armas em Escudos quadrados postos com a ponta para cima, partindo o campo em palla, e deixando a parte direita delle para as Armas do marido.