Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 41 de 177

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§. IV.

costume alludio o Poeta, [94] quando disse de Heleno.

Ense levis nudo, parmaque in glorius alba, &c.

E o Satyrico significa pelo mesmo termo ter sahido da idade

juvenil, dizendo: [95]

Permisit sparsisse oculos jam candidus umbo.

Estas pinturas dos escudos eraõ varias, e naõ ficavaõ depois a filhos; posto que algumas vezes, quando o predecessor era muy insigne, usavaõ seus descendentes da tal figura, como empreza,

segundo se vè de Virgílio,[96] fallando de Aventino filho de Hercules.

Clypeoque insigne paternum

Centum angues, cinctamque gerit serpentibus hydram.

Entre os Romanos usava a Familia dos Torcatos do collar de ouro, e os Cincinnatos da cabelleira, porèm naõ como armas, porque como consta de toda a historia latina, as armas das Familias Romanas foraõ as imagens, e estatuas de seus mayores, que tinhaõ nos pateos à entrada das casas.

 

§. IV.

 

Da origem dos Leoens, e Aguias, e outros animaes, que se trazem

nos escudos.

Depois que entrou o governo dos Cesares, e foy necessario accrescentarem-se os Exercitos, e havellos sempre nos confins do Imperio, multiplicando-se as Legioens, foy necessario dar-lhes tambem novos nomes, e insignias. E como os Romanos estavaõ ja mais polidos, naõ escolheraõ estes nomes, e sinaes a caso, mas com muita consideraçaõ, denotando em cada hum delles algum bom pensamento. E porque cada Soldado fosse conhecido de que Cohorte era, mandavaõ, que logo nas officinas de armas, quando se faziaõ os escudos, lhe pintassem, ou esculpissem no meyo a mesma imagem da mesma Cohorte, e pela parte de dentro escreviaõ o nome do Soldado, e a Cohorte, e Centuria, de que era.

Tudo isto diz claramente Vigecio nestas palavras:[97] Ne milites aliunde in prælii tumultu à suis contubernalibus aberrarent, diversis cohortibus diversa in scuto signa pingebant, quæ ipsi nominant pegmata; sicut etiam mori est fieri. Præaterea in averso uniuscujusque militis erat nomen adscriptum, addito, ex qua essent

cohorte, & ex qua centuria. [98] E Claudiano allude ao mesmo, dizendo da Legiaõ invicta.

———Nomenque probantes

Invicti, clypeoque animosi teste leonis.

Deste costume diz Guido Pancirolo[99] se introduziraõ as armas, que agora temos. Porque vindo depois a professarem a Milicia os filhos, e netos dos mesmos Capitaens, e Soldados, usavaõ sempre das proprias insignias, e depois que se perdeo o Imperio Romano, se ficou continuando o mesmo uso, pondo segundo aquella imitaçaõ cada hum no Escudo o animal, ou figura que melhor lhe parecia, denotando sempre com estes hieroglylphicos alguma cousa de valor, constancia, ou virtude, por onde se alcança a honra militar. E assim daqui nasceraõ os Leoens, as Aguias, os Touros, Serpentes, que trazem as Familias de Europa, e particularmente as deste Reyno. As que usaõ de Leoẽs nos Escudos, saõ as seguintes.

Achiolis illustres Florentinos, que vieraõ povoar a Ilha da Madeira, e dahi passaraõ a este Reyno, Alvos, Arnaos, ou Ernaos, Barrosos, Betancor, Britos, Cayados, Campos, Castelobranco, Cerqueira, Chanoca, Conestagio, Esmeraldos, Frótas, Galhardos, Gamboa, Giraldes, Gondim, Gramaxo, Gravas, Groymis, Morel, Neto, Ossem, Pains, Pò, Ribeira, Rolaõ, Salvagos, Santarèm, Serraõ, Simoens, Toscanos, Valladares, Valentes, Unhas, Vogados.

As que trazem aguias saõ: Abul, Abreu, Azevedos, Botados, Bovadilha, Carregueiro, Serrabodes, Coroneis, Correaõ, Dagraã, Guivar, Jacome, Lemes (Marletas sem pès) Maciel, Medeiros, Montarroyos, Ourem, Penha, Proença, Rodrigues, Sampayo, Tinoco, Villanova.