Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 154 de 177

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Panegyrico à Muy Alta, e Esclarecida Princesa Infanta D. Maria Nossa Senhora.

PANEGYRICO

 

À MUY ALTA,

E ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA

 

D. MARIA

NOSSA SENHORA.

 

POR

JOAÕ DE BARROS

1 Commum sentença dos Filosofos he visto por experiencia (Illustrissima Princesa nossa Senhora) o demasiado prazer causar nos coraçoens dos homens muy grandes alteraçoens, que naõ podendo o espirito suster em si o alvoroso, que dentro concebe, parece que abafaria, senaõ o communicasse, manifestando a todos a novidade do que em si sente. De que vem algumas vezes, que os homens esquecidos de si mesmos, sahem fóra dos limites, que a gravidade de seus officios poz em suas pessoas, como lemos delRey David, vencido do prazer, que tinha de levar a Arca do Testamento para sua casa, hia diante della dançando, e fazendo taõ desordenados movimentos com o corpo, que sua mulher Michol teve paixaõ, parecendo-lhe, que naõ guardava o decoro, que se devia à Dignidade Real com aquelles saltos, que via fazer a seu marido, de huma parte para outra.

2 E naõ sómente vemos causar o prazer estas operaçoens nos actos corporaes, mas ainda nas fazendas, taõ estimadas dos homens, que por ellas perdem as vidas, e aventuraõ as almas. Cà huns em alvisaras, outros em festas, que cada hum faz como pòde, gastaõ muitas vezes em hum dia o que ganhaõ em muitos. Alguns em vez de rir, choraõ com prazer, e de muitos lemos, a que o sobejo, causou morte subita, naõ podendo com a força delle suster a vida.

3 De todos estes movimentos, que asima disse (muito alta, e excellente Princesa) mayor foy o meu, que com o prazer, que ao presente tenho, ou temos todos seus Vassallos em ElRey nos dar a vòs por Senhora, fiquey como quem de grave enfermidade se levanta com grande detrimento, taõ ignorante, ou taõ ousado, que me pareceo poder louvar a V. Alteza, que he o mayor aballo, que no coraçaõ de hum homem muito contente se podia fazer. Que gastar minha fazenda em celebrar cousa taõ grande, manifesto he, que fora pouco, e muito menos morrer, pois a morte de huma pessoa taõ baixa naõ podia manifestar prazer taõ alto.

4 Mas querer encher de papeis de seus louvores, he dar a entender, que em alguns se podiaõ elles comprehender. Cà certo considerando a grandeza de seu estado, e a baixa qualidade de minha pessoa, o alto cume da suas virtudes, e a fraqueza de meu engenho, a gloria de sua fama, e a pouca noticia da minha, naõ he outra cousa querer louvar a V. Alteza, senaõ cuidar, que sómente com estender as mãos aos que estaõ da outra banda de taõ largo rio o posso passar a meu salvo como pelos penitentes das ribeiras stygias dizia o Poeta Virgilio:

Tendebantque manus ripæ ulterioris amore.

Que estes enganos, e falsas imaginaçoens, às vezes causa, ou o grande desejo de haver huma causa, ou o gosto de a ter alcançada, que faz estimar as outras pouco. Donde vem que as grandes victorias, que alguns Capitaens houveraõ, foraõ causa de sua destruiçaõ, esquecidos com o vencimento presente, do futuro provimento, e forças de seus inimigos. Assim eu transportado no alvoroso deste prazer, e esquecido de taõ alta impreza, como he a que tomey, naõ se deve haver por muito ficar vencido della; como aquelle, que com falsas azas de cera se meteo no fogo de suas penas, e querendo tomar o Ceo com a mão, cahio no mar de sua ignorancia.

5 Mas jà que nisto heide satisfazer ao desejo, jà posto de huma parte, fique vencido meu engenho, ao menos da outra enganarey por hum breve espaço a vontade, atè que a experiencia me mostre, o que ensina aos enfermos, que tanto trabalhaõ por apagar com agoa o ardor da febre, tanto mais aumenta as chamas do fogo, que os queima, e parecendo-lhe que satisfazem a seus desejos, com isto os acrescentaõ mais. E pelo mesmo modo, querendo eu mostrar a razaõ, que todos seus vassallos temos de ser o dia de hoje muito contentes, quanto mais quizer subir ao cume de seus merecimentos, tanto me acharey mais afastado de os poder entender. E desta mingoa hum louvor me fica em naõ dizer os de V. Alteza, que naõ serey avido por lisongeiro dos que virem que minhas palavras naõ chegaõ ao verdadeiro louvor de suas cousas. Nem recearey o que dizia Horacio a Marco Agrippa nestes versos.

Imbellisque Lyræ Musa potens vetat

Laudes egregii Cæsaris, & tuas

Culpa deterrere ingenii.

Dando-lhe a entender, que louvando mais a elle, e a Cesar seu sogro desfazia em seus louvores com falta de seu engenho. Porque a pureza, e a claridade dos de V. Alteza, he taõ excellente, que se lhe não pòde pegar a ferrugem de minhas palavras, mas estaraõ tão limpos entre ellas, como a luz do Sol, anda livre, e izenta dos pestiferos, e baixos vapores, que a claridade desfaz, sem deste ajuntamento ficar mascavada sua perfeição. Ou como o ouro, que lançado nos corruptos humores da terra fica taõ puro em seus quilates, que nenhum perde de quantos tinha.

6. Álèm disto alguma ousadia me dà ser o genero desta causa de sua natureza tal, que poderey escusar, o que costumavaõ os antigos, aquelles que floreceraõ na Arte da Eloquencia, que exercitavaõ o estillo em louvor de cousas, que naturalmente careciaõ delle. Ao modo do bom Lavrador, que a terra, a quem os beneficios da natureza fizeraõ escaça, faz elle com os da agricultura, tirando com seu industrioso artificio da esterilidade, proveito, e fruito, donde o naõ avia.

7 Nem tenho necessidade dos aguilhoens, que Pericles Atheniense deixava pregados nos coraçoens dos ouvintes, com que forçosamente os levava ao desejado fim de suas palavras. Nem tanta efficacia nas minhas, quanta tinha Thimoteo na musica, que com as cordas de sua viola levantava a colera ao grande Alexandre, ou lha abaixava, produzindo em seu coração tão diversos movimentos, como saõ paz, e guerra.

8 E assim posso escusar neste exordio o captar benevolencia, e outras insinuaçoens do artificioso Orador das cousas asperas, as orelhas dos ouvintes, como era o louvor dos Tirannos, e o da febre, e da mosca, e da calva, que alguns antigos louvarão, e em nossos dias, o da Sandice. As quaes cousas sendo em si muy estreitas, para nellas hum Orador se poder esprayar com suas palavras, com ellas lhe fizeraõ aquelles doutos Baroens, taõ largos campos, que sem nenhum impedimento se puderaõ com louvores por elles estender, porque a verdade naõ ha mister pincel de Apelles, para acrescentar em sua fermosura, cà nua sem mais outro algum trajo està ella no verdadeiro primor de sua bondade. E como dizia hum sabedor a ElRey Dario: todas as cousas vence a verdade. A qual sem os sylogismos de Fabio, e sem as palavras empoladas de Demosthenes, ou Tullio estende suas raizes nos frios coraçoens da gentilidade. Assim que dado que me faltem as flores da Eloquencia, ellas duraõ tam pouco, que por derradeiro ficaõ pizadas, quando se colhe o fruito da verdade.

9 Diz Marco Tullio, que os brutos naõ se movem, senaõ para as cousas, que diante lhe saõ presentes, sentindo pouco as passadas, e futuras, e que os homens, como participem da razaõ, entendendo os effeitos, que de outros se seguem, e vendo os principios, e causas, comparaõ as semelhanças das cousas, cotejando as passadas com as presentes, com que facilmente alcançaõ o custo de toda a vida. Pois vendo o que V. Alteza atèaqui tem feito na sua, quasi vou entendendo, o que della pòde ser ao diante. E porque este discurso que tenho feito, me vay descubrindo grandes cousas, cresceme cada vez tanto a admiraçaõ dellas, que naõ pude deixar de a pòr em tinta, e papel, pois com torvaçaõ, e alvoroço, o naõ posso fazer com a lingoa. Porque naõ he de crer, dando-lhe a Divina Providencia, tantos, e taõ excellentes dotes, que fosse para lhe negar o summo, e mayor de todos.

10 He certo que nos bens da fortuna que os Filosofos chamaõ exteriores commummente, V. Alteza, os tem taõ perfeitos, que alguns de que os antigos se espantaraõ, diante dos seus perdem toda sua admiraçaõ. Là Plinio entre os milagres da Bemaventurança humana, conta de huma Rainha, que foy filha, mulher, e mãy de Rey, avendo por muito estas qualidades juntas em huma pessoa. A qual bem creyo, que de seus avoengos não tivesse a nobreza, e real limpeza de sangue, que V. Alteza tem de todas as partes, de taõ altos, e tão esclarecidos Reys, de que a Christianissima Rainha de França vossa mãy, vem descendendo. Em a qual, e em outras muitas Rainhas de vossa genealogia resplandece melhor esta gloria de bemaventurança, que Plinio achou na outra, de que faz mençaõ. Que naõ somente he filha de hum tão glorioso Principe, como foy ElRey D. Filippe vosso Avò, e mulher de outro, tão poderoso, e Christianissimo, como ao presente he ElRey de França, mas para melhor remate a fez Deos mãy de Vossa Alteza.

11 Pois vindo a ElRey de gloriosa memoria vosso Pay, de quem tendes o sangue dos poderosos, e Catholicos Reys de Portugal, taõ antigos, que olhando para traz, nos cansaria a memoria, naõ achando termo, onde descansasse, de cujos louvores, e vitorias taõ cheyo he o Mundo; acharemos que do principio, e fundamento destes Reynos, sempre tendes Reys vossos Avòs; e ainda nestes naõ tem nascimento seu sangue, que para chegarmos a esta fonte, avemos de revolver a antiguidade, e nobreza dos Reys de Ungria, de Castella, e de Aragaõ, de Leaõ, e de Navarra, e os triumfos da guerreira gente dos Godos, juntamente com os Reynos de Inglaterra, Boemia, França, e do sacro Imperio de Alemanha, em que de todos tendes parte; e naõ passarey por o que dizia o Emperador Maximiliano vosso Vizavò, que muitas vezes se louvava ter mais limpo sangue, que todos os outros Principes. Porque naõ o tendo de menos valia que elles, tinha mais hum quilate, que fora criado aos peitos da Emperatris Dona Leanor vossa Tresavò.

12 Pois quem foy ElRey vosso Pay? Por ventura hum Phalaris, ou Dionysio Siracusano? Certo naõ, mas aquelle em cujo coração ferveo sempre tal zelo da Fè, que com muito gasto de sua fazenda, mortes de seus naturaes, trabalhos de sua vida, e cuidados de seu espirito, fez adorar o precioso Sangue de Christo, onde o dos brutos animaes se sacrificava. E isto taõ longe de seus Reynos, e Senhorios, quam perto elle estava da gloria, que por isso mereceo. Despregando bandeiras, tomando Cidades, sugeitando Reynos, onde nunca o vitorioso Alexandre, e grande Hercules, de cujas façanhas se espantaraõ os antigos, puderaõ chegar. Achando novas Estrellas, navegando mares naõ conhecidos, descubrindo a ignorancia dos Filosofos antigos, que o Mundo tinha por mestres de verdades occultas.

13 Cà depois de seus pilotos abriraõ o mar Atlhantico, por tantas centenas de annos cerrado, todos aquelles que na Filosofia natural tinhaõ gastado seu tempo, elle lhe gastou seu louvor. Pois dos Geografos, cuidavaõ ter o Mundo assoalhado com suas pinturas, aos olhos dos que naõ andavaõ por elle, que posso dizer? Senão o que se vè, que rusticos pilotos sem mais letras especulativas, que huma só doutrina praticada no convez de hum Navio endireitaõ as derrotas, diminuem, ou acrescentaõ os gràos, emendaõ as alturas, de tal maneira reprovaõ as taboas do Ptolomeo, como se estudaraõ em alguma illustre Universidade, e elle naõ em Athenas, onde gastou seus dias?

14 Naõ fallo nas vitorias de Africa, cujo temor fez fugir os Mouros das faldras, e da fertilidade dos mares Gaditano, Atlhantico, e meteo por dentro das secas areas do Sertaõ da Mauritania, nem o que fez em Guiné, e toda a Costa de Ethiopia, pois he notorio, que os negros que viviaõ fóra de toda a policîa, habitando as cavernas da terra, sem ley, sem justiça, sem direito humano, ou Divino, vivendo ao modo de brutos animaes, agora deixadas as trevas, e tornados à luz com a prègação delRey vosso Pay, que para elles foy novo Apostolo, levantaraõ Templos a Christo, e à Santissima Virgem sua Madre, e nelles pulpitos em que publicaõ, e exalçaõ seu nome, e Altares, em que offerecem seu Corpo Santissimo, e Sangue precioso, com que parece (Illustrissima Princesa) ser comprida a profecia do Psalmo, que diz, que os Estrangeiros e Tyro, e o Povo dos Ethiopes conheceriaõ a Deos: e pòdese dizer que seu nome lhe foy posto por Divino Mysterio, como lemos de alguns Santos Varoens, cujas futuras obras conhecidas por Deos, lhe deraõ nome, confórme o que elles aviaõ de obrar. S. Joaõ Bautista pelos Prophetas foy chamado, e por seu pay Zacharias: Joanne, nomes que convinhaõ a suas obras. E o Messias prometido na ley, jà tinha seu nome escrito nos livros de Isaias, que disse Manoel se chamarà, que em nossa lingua quer dizer: Deos he com nosco, pela vinda, que fez a este mundo, onde tomou carne humana, por nos remir do peccado de nosso primeiro Pay Adão. Pois assim mesmo eu diria, que este Christianissimo Rey Emanoel levou à India, e Ehiopia sua Fè, com que os infieis com muita razaõ là pòdem dizer: Deos he com nosco.

15 Passo pelas victorias dos Rumes, pelos tributos que poderosos Reys da India lhe pagaraõ, de que a Coroa deste Reyno naõ tem pequenos proveitos. Que tudo isto celebrado he por Poetas, e Oradores, que em Roma, e outras partes publicaraõ taõ excellentes victorias. Testemunha he do que digo Camillo Porcio, que em huma magnifica oraçaõ, que fez ao Papa Leão X celebrou a tomada de Malaca, cujo treslado veyo a estes Reynos por industria do Doutor João de Faria, que naquelle tempo servia de Embaixador em Roma. Testemunhas saõ Policiano, Fillipe Beroaldo, Blosio, Paladio, Pierio, Casalio, e outros, que em metro, e prosa espalharaõ pelo mundo estes triumphos delRey vosso Padre, em cujo tempo se fora o grande Homero, que tanto caso fez de huma taõ pequena navegaçaõ, como he do Helesponto atè Sicilia, que pòde comprehender pouco mais de trezentas legoas, em que misturou tantas fabulas, e acontecimentos, quam pouca conta fizera dos errores de Ulysses, se vira tantas mil legoas de mar, e costa senhoreadas de hum só Rey, nas quaes se contem as Indias, a quem, e àlem do Gange, e grande parte de Ethiopia, Arabia, e Persia, cujas forças asaltaraõ os Mouros, e Turcos, e os lançaraõ atè os fins do estreito Arabico, onde tem seus Navios varados em a pobre Villa de Suès, sem usarem de levantar suas vellas, que a força Portuguesa tantas vezes amainou.

16 Que fizeraõ os Poetas Orpheo, e Apollonio, quam pouco estimaraõ a conquista do vellocino douro, e daquelle primeiro Navio Argos, que tanta admiração naquelle tempo fez ao mundo, navegando o espaço, que hà de Thesalia, atè Colchos, que ao mais podem ser trezentas, e cincoenta legoas. Em o qual, mar por ser muito povoado podiaõ tomar muitos refrescos, e fazer muitas agoadas, com que teriaõ mais passatempo neste caminho, que trabalhos dignos de cansar nelles os Poetas seu engenho? Vendo seis mil legoas de mar, taõ hermo, e deshabitado, navegadas, e senhoreadas por a gente Portuguesa, que em suas tormentas nenhuma esperança tem nos portos, e nas Ilhas, de que as agoas estaõ desocupadas, a que possaõ fugir da braveza de taõ altas ondas, como nelle se levantaõ? Certamente, que olhando bem isto, se pòde dizer, que estas, e outras cousas, que os antigos contavaõ, como por excessos da natureza, quanto a nòs pelas que foraõ acabadas por industria delRey vosso Pay, podem ser havidas por historias de patranhas.

17 Naõ fallo nas colunnas de Hercules, postas na Ilha de Cales entre o fogo de nossas casas, que assentou como no fim de toda a terra, que neste tempo saõ riscadas da memoria dos homens, e postas em todo o silencio, e esquecimento, com outras mais altas, que por vosso sangue foraõ assentadas na derradeiras partes orientaes do mundo, mais proveitosas a elle por serem as em que Christo poz suas espadoas, do que foraõ as de Hercules, com que se perderaõ tantas almas.

18 Muito havia a cerca disto que dizer, mas basta mostrar o caminho, para que vejaõ o que tinha por passar, se disso quizera escrever. Mas deixaloey para dizer que de taes dous troncos como estes, naõ podia nascer senaõ V. Alteza, em que claramente se vè ser filha de tal pay, por quem Deos taes cousas obrou, e irmãa de tal irmão, conservador, e augmentador dellas; e sobre tudo criada na doutrina familiar, e exemplos da Rainha Nossa Senhora vossa Tia, em que tanto florecem as virtudes, que parece acharem nella descansado aposento. Em cuja Casa, que podemos chamar Escola de santa doutrina, V. Alteza foy ensinada nos preceitos da nossa Santa Fè, que inda isto deveis à Divina Clemencia, que alèm de vos fazer filha da Rainha Christianissima, Bisneta delRey D. Fernando, que por excellente Christaõ, mereceo o nome de Catholico, filha de outro Rey, que dos infieis (como pouco hà disse) foy novo Apostolo, e irmaõ delRey Nosso Senhor, maravilhoso reformador da Religiaõ Christãa, isto, como digo, deveis a Deos, que vos deu taõ santa criação, com que pudesses conservar esta inclinaçaõ, herdada de vossos progenitores.

19 O que bem claro se mostra em V. Alteza, pois que seu modo de vida fóra de Religiaõ, pòde ser aos Religiosos espelho, e doutrina de bem viver. É certo eu naõ sey, que mais virtuosos costumes, santas mulheres possaõ ter na Clausura dos Mosteiros, e vida solitaria do hermo, que V. Alteza nos Paços Reaes tem, onde vive em Corte, e ajuntamento de gente. Pois que a continuaçaõ de suas oraçoens, a muita participaçaõ dos Sacramentos da Confissaõ, e Eucharistia, de que tantas vezes por graça Divina se faz participante, manifestaõ ter dentro em seu coraçaõ grandissimo fervor da Fè de Christo. Cousa muito de estimar nos Principes, que como sejaõ huma fonte publica de que seus Vassallos haõ de tirar agoa de bons costumes, e saã dotrina, como a Religiaõ seja aquella, em que consiste toda a nossa bemaventurança, nenhuma virtude parece dar taõ grande ser à pessoa do Principe, como he o zelo, e amor de Deos, em cuja maõ estaõ os estados da terra. O qual no dar da ley, e mandamentos que deu, naõ sómente deste preceito, que avia de ser fundamento de todas vossas obras começou, mas ainda quiz que o homem se entregasse todo a elle, dizendo: Amaràs a Deos de todo teu coraçaõ, de toda tua alma, e de todas tuas forças, como sapientissimo edificador, que para levantar o edificio de nossa alma, em seu amor, mandou que todas as achegas de nossas potencias, e sentidos trouxessemos para sua fortaleza. Porque derribado este principal baluarte, pelas maquinas com que o demonio nos combate, que aproveitaria ter justiça, prudencia, fortaleza, e temperança, ou como efles se poderiaõ chamar virtudes, faltando a do amor de Deos, cunho com que nossa Moeda hade correr diante delle?

20 O que vendo o Bemaventurado S. Joaõ, e considerando a grandeza desta virtude da Caridade, quanto precedia às outras suas companheiras, naõ achou com quem a comparasse, senaõ com Deos, dizendo: Deos he caridade. Porque assim como elle he infinito, assim esta virtude tendo as outras seus termos, hade permanecer com nossa alma sem fim, que a fé, e esperança seus termos, e tempos tem, em que se haõ de acabar, sò a caridade vive, e reina na gloria dos Santos, dando a cada hum os quilates, que com elle mereceo, e sendo esta virtude a todos necessaria, mais o he aos Principes, que tem governança de povo, como nosso Redemptor significou perguntando tres vezes a S. Pedro se o amava, como quem se queria affirmar, no que fingio querer saber para doutrina nossa, cà Deos como penetra o intrinsico de nossos coraçoens, bem sabia que o amava S. Pedro, mas preguntando-lhe a derradeira vez: Pedro amas-me mais que todos? E respondendo o Discipulo: Senhor tu sabes bem que te amo, dando a elle mesmo por testemunha de seu amor: entaõ lhe encomendou a governança de seu povo, dizendo pasta minhas ovelhas; assim o Principe que naõ amar a Deos, mal pòde governar as ovelhas, que delle recebeo para o regimento das quaes se requere Divina sabedoria, cujo principio, como diz o Profeta, he temor de Deos, porque assim como o Pay de familias, que encomendou ao servo a governança de sua fazenda, e familia, pela boa conta que della lhe deu, conheceo o amor que lhe tinha: assim no cuidado, que o Principe tem de seu povo, vè Deos se o ama, e lhe dà o galardaõ, ou pena, conforme ao que merece.

21 Donde vemos estados de Principes desfeitos por se apartarem de Deos, e outros levantados por chegarem a elle. Exemplo pòde ser ElRey Saul, que perdeo seu estado, e vida; e o çurraõ, e cajado de David, levantado em Ceptro Real, o qual dizia: Mihi autem adhærere Deo bonum esi. Lemos Constantino ser exalçado por exalçar a Fè, e Juliano por della apostatar, morrer morte desestrada, e deshonrado. Vimos derribada a soberba de Maximo por Theodosio, e a elle por obedecer aos mandados de Ambrosio seu pastor, dar-lhe Deos o espirito profetico de Joanne Anachorita, como oraculo, porque se regesse em seus trabalhos, e fortunas: O os ventos acudirem ao som de suas trombetas, empuxando as batalhas dos inimigos, e peleijarem de sua banda, de que o Poeta Claudiano fez mençaõ nestes versos, e Augustinho tanto celebra.

Omnium dilecte Deo cui fundit ab antro

Aeolus armatas hyemes, cui militat æther, Et conjurati veniunt ad classica venti.

22 E naõ somente vimos o pezo da maõ do Senhor sobre aquelles, que immediatamente foraõ contra a sua honra, e o desconheceraõ por Senhor universal, negando-lhe a adoraçaõ de latria, que como a Deos lhe pertence, dando-a ao demonio, como o fizeraõ os que adoraraõ o bezerro no Deserto em tempo do graõ Profeta Moysès, e os que encurvaraõ seus joelhos diante de Baal, no tempo do Santo Elias, e outros de que faz mençaõ a Escritura, mas ainda aquelles, que com pouca reverencia trataraõ o Culto Divino, ou com descuido, e negligencia se ouveraõ a cerca delle, naõ escaparem de sua ira, como lemos de Oza, que indevidamente tocou a Arca do Testamento; de Nabab, e de Abiud, que ofereceraõ fogo alheyo; de Dataõ, e Abiraõ, que rebelaraõ contra Moysès; e do outro, que apanhou a lenha no dia do Sabbado; de Ananias, e Saphira sua mulher, que defraudaraõ do preço do agro, mentindo ao Espirito Santo, e de outros muitos, assim Principes, como pessoas particulares, de que està cheya a Escritura Divina. Em fim o cativeiro de Babilonia, e desterro universal de todo o judaismo, com a destruiçaõ do Templo, e daquella Cidade Real, senhora das gentes, que foy senaõ castigo do apartamento de Deos, e da morte de seu filho, que vindo para as ovelhas perdidas da casa de Israel o puzeraõ na Cruz em galardaõ de suas obras?

23 E naõ somente entre os Judeos, a quem se Deos naquelle tempo quiz communicar com preceitos familiares, do modo com que o aviaõ de servir, mas ainda entre os Gentios, como Egypcios, Asirios, Medos, Persas, Gregos, e Romanos, e entre todos aquelles, que tiveraõ Monarquias, em todas suas historias, quasi naõ lemos outra cousa, senaõ em quanta estima era entre elles tida a Religiaõ, de que Valerio Maximo escreve tantos exemplos. E aquelles, que mais a guardaraõ, e veneraraõ, posto que fosse sem a fè, que ao presente temos, foraõ por isso, e por suas virtudes, com que ajudaraõ a Patria, mais favorecidos no estado, e fortuna do Mundo. Como Alexandre, que entrando em Hierusalem adorou o nome de Deos, que o Sacerdote mayor trazia na testa; e como diz Agostinho: Receperunt mercedem suam, por ainda a sombra da virtude naõ ficar sem galardaõ. Por onde podemos crer que a Religiaõ, que entre estes se guardava, ainda que era contra seu louvor, pois louvavaõ a criatura, naõ conhecendo ao criador, fosse exemplo a nòs da estima, em que devemos ter a nossa, porque quando nos falecesse caridade, e amor de Deos, tivesse exemplo de gente condennada, com que nos castigasse da muita negligencia, e observancia da Religiaõ, como elle dizia aos Judeos: conheceo o boy seu dono, e as bestas a casa de seu senhor, e Israel naõ me conheceo.

24 Pois graças ao Eterno, e Omnipotente Deos, que taõ boas raizes como he este fundamento de seu amor, e observancia da Religiaõ criou em Vossa Alteza, que naõ pòdem deixar de produzir, senaõ ramos maravilhosos, de santos exercicios, e virtuosos costumes, como se vem, que o tempo que lhe sobeja dos Divinos Officios, e Oraçoens, gasta no estudo das letras, a que tanto se dà, naõ avendo respeito à sua criaçaõ, que por nascer de taõ alto lugar foy mais apartada dos trabalhos corporaes, e das necessidades, e mingoas com que a outra gente se cria, decorando aquelles primeiros, e emfadonhos rudimentos da Gramatica, que a força da palmatoria aos outros engenhos ensina, com que alcançou inteiro conhecimento da lingua latina, para daqui chegar ao fim de sua tençaõ, que he o estudo da Sagrada Escritura. Seguindo a doutrina do bemaventurado S. Hieronymo, que dizia a Paula, e outras mulheres santas, que lessem muitas vezes a Divina Escritura, e nunca soltassem da maõ os volumes sagrados. Movida taõ sòmente por huma inclinaçaõ virtuosa, afastada dos particulares interesses com que muitos usaõ das letras ao modo de jornaleiros, como de qualquer rustico instrumento, com que semeaõ o paõ, e cavaõ a terra, estudando para comer, e naõ para saber, e como o fim seja este, taes saõ os principios, como os quaes se contentaõ em qualquer sciencia, que aprendaõ.

25 E quanto mais cobiçosas saõ letras deste tempo, tanto mayor louvor he o de V. Alteza, pois a causa final de as querer entender naõ he falta de honra, nem de outra cousa, senaõ hum santo desejo de saber. De que todos seus vassallos devemos dar muitas graças à Divina Bondade, que por sua misericordia nos chegou a tempo, que tivessemos tal Princesa por Senhora, qual o divino Plataõ desejava, que dizia, bemaventurada serà a Republica, em que os Principes filosofassem, ou os Filosofos governassem.

26 No que se conhece claramente quam alto engenho, quam altos, e verdadeiramente reaes espiritos saõ os de Vossa alteza, que quer preceder às outras mulheres naquella parte em que os homens precedem aos outros. Naõ se contentando de lhe fazer tanta ventagem nos bens, que teve de seu alto nascimento, cà nasceo Princesa, nasceo filha de Rey, e levantada em estado, e pureza de sangue sobre muitas. Mas como isto se deve à natureza, quiz Vossa Alteza, que lhe devessem a sabedoria, ganhada por sua industria, e trabalho, que he a melhor cousa, que nesta vida os humanos pòdem ter, com a qual muitos ganharaõ estado, e outros por falta della os perderaõ, como poderiamos ver por exemplos, senaõ fosse contar historias, de que Vossa Alteza tanto conhecimento tem, e sòmente bastarà dizer como muitos Cesares ganharaõ, o que Sardanopalos, Tarquinios, e Dionysios perderaõ.

27 Fazenda he a sabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, a qual, como diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo. E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ, e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual, que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual, como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.

28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia, que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes, ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: Justis non est lex posita. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos, e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico, querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos, assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida, e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres, casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres, e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos, discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros, adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos, e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo, de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro, que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite, e aos criados nella paõ com codea.

29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto? Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados, quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos, os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia das leys?

30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras, fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ, carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ, usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina; andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.

31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer (naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.

32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso. Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum, se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a obrigaçaõ.

33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: Jam redit & virgo, redeunt saturnia regna. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento dellas.

34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey, mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras, que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica, o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.

35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio, como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria, o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.

36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras, senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho De Civitates Dei, achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores, soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo, quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas, como saõ da presença de Deos: De Liber arbitrio, de Trinitate, de Incarnatione Verbi Dei, de Sacramento Eucharistiæ. E dizia, que naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.

37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes, parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos tragaõ em pratica: Que farà aqui Plinio, graça que hum homem disse em huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar com graças, quando lhe faltassem boas razoens.

38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio, de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em lingoa Portuguesa.

39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros, que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz, e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado, tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça, e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar? Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ, e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres, que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido, que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.

40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò, cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a senhorear, depois que deixar de servir.

41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do Poeta Horacio, que diz:

Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit.

42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente, assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males, principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes, que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer, e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros, condenaõ a si mesmos.

43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos, em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir, por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas. Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria, e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.

44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ, e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve, ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ estendida, por Reynos, e Provincias.

45 Pois notorio he a todos, como jà disse, quanto V. Alteza frequenta este acto de humildade, descendo tantas vezes de seu estrado aos pès de seu Confessor, esquecida donde vem, muito lembrada para onde vay. Passando sua vida com tanta temperança, que se algum exercicio fóra destes aceita, naõ he senaõ fundado em louvor de Deos, ou donde possaõ nascer occasioens de o servir. Porque deixada a caça, a que muitas Princesas em outros Reynos saõ inclinadas, V. Alteza comprehende os altos mysterios do Sol da justiça, como aquella aguia de mais subida altenaria, que penetrou os rayos do verdadeiro lume, onde nenhuma plumagem de Aves chega, por andar sempre esta garça taõ estrellada, que a naõ filhaõ, senaõ os que tem sua conversaçaõ nos Ceos. Em lugar de caẽs, que desassocegaõ as alimarias, tirando-as de seus agasalhados, penetra com a sagacidade, e ligeireza de seu espirito, os cavàdos das pedras, desencovando aquella fermosa pomba de Salamaõ, que he a graça do Espirito Santo, e os sentidos da Escritura, verdadeiro mantimento da alma, e quando o tempo lhe naõ dá lugar a esta caça, porque em hum ha de semear, e em outro ha de colher, gasta estes intervallos no exercicio da musica, seguindo o Real Propheta David, que com sua viola espantava o espirito mào, que atormentava ElRey Saul, levando no discurso de sua vida tal ordem, e proporçaõ com que o demonio, inimigo della foge para onde naõ hà senaõ desordens, e horrores perpetuos. E tanto fruto tem V. Alteza colhido das letras, que achando nellas quam espiritual cousa he a musica, e quanto levanta os coraçoens para o Ceo, nella se exercita, como fizeraõ muy graves Philosophos, que vendo a ordem dos Ceos disseraõ, que em suas continuas voltas com que rodeaõ o mundo, fazem huma muy suave musica, de que os nossos sentidos saõ incapazes, por exceder sua potencia, atribuindo a cada hum suas vozes agudas, e graves.

46 E os Platonicos disseraõ, que nossa alma era composta de proporçoens de musica, por onde se deleitava tanto com ella. E assim parece que sentindo os Anjos a conveniencia, que nossa alma tem com a ordem da musica, com ella nos deraõ as novas do nacimento do Filho de Deos, de que o mundo estava taõ dezejoso, cantando com suave melodia. Nem sem causa o Espirito Santo ordenou, que cantando se celebrassem os officios Divinos para nossa alma os poder melhor comprehender. Ordenando assim mesmo estromentos, cuja armonia inflamasse nossos sentidos, como saõ orgaõs, que ainda na ordem de suas frautas imitaõ a dos Anjos, que no Ceo Impirio tem suas precedencias ordenadas por Deos. A differença das quaes concerta com aquella ordenada composiçaõ de Isaias, que sem cessar cantaõ diante da Divina Magestade de Deos.

47 E por a musica ser cousa taõ divina como he, nunca se lè que a Igreja de Deos estivesse sem ella, assim no tempo da ley da Escritura passado, como no da graça presente. Testemunha he aquella trombeta, que no dar da Ley retumbava pelas faldras do Monte Sinai, testemunhas saõ os timpanos, e pandeiros de Maria, irmãa de Moyses, com que tanto festejou o naufragio dos Egypcios, e vencimento dos Judeos, e assim as trombetas de Hiericò, com a musica dos quaes os seus muros, como adromecidos, se deixavaõ cahir na terra.

48 Pois vindo ao Tabernaculo, e ao Templo de Salamaõ, sempre nelles houve estromentos de musica, com que os sacrificios se celebravaõ, que David tanto encomendava nos seus Psalmos, o qual levando a Arca do Testamento para Jerusalem, de que no principio fiz mençaõ, diz a Escritura, que elle, e o povo de Israel dançavaõ diante della, cantando, e tangendo violas, psalteiros, trombetas, e outros estromentos. E o mesmo Rey David, quando repartio os officios dos Levitas, lemos, que ordenou quatro mil delles, cujo officio fosse tanger orgaõs.

49 Cheya està a Escritura de muitos exemplos, porque claramente consta deleitarse Deos com a musica, a qual por experiencia se vè tem muito grande força nos coraçoens dos homens, por onde os que della tiveraõ conhecimento, vendo quanto podia em todas as cousas a levaraõ à guerra, ordenando trombetas, e outros estromentos, com que os homens, e ainda os cavallos cobrassem esforço no rompimento das batalhas, e no andar, e proceder dos esquadroens, guardassem a ordem, que ella em si tem.

50 E os que no exercicio da caça se deleitaõ, também entenderaõ, que atè aos brutos animaes chega a doçura, e conhecimento da musica, como diz Strabo dos Elefantes, e Plinio dos Cervos, que huns com cantigas, e timpanos, e outros com frautas pastoris se amançaõ. Cousa notoria he, e muy sabida, o que conta Herodoto, e outros Authores, dos golfinhos, que saõ taõ dados a esta deleitaçaõ, que o grande musico Ariaõ foy livre do naufragio do mar por hum golfinho, que o salvou, conhecendo ser aquelle, cuja voz ouvira em o Navio, que seguia.

51 E naõ se acha gente por barbara, que seja, que naõ tenha sua musica, mà, ou boa, segundo o que cada hum della alcança, como vemos em toda a terra de Ethiopia, cujos naturaes entre nòs saõ testemunhas desta verdade, levando ordem, e compasso em seu tanger, ainda que seja barbaro, e os rusticos do campo, a que naõ faltaõ suas gaitas.

52 Que posso dizer dos passarinhos, cuja melodia tanto deleita as orelhas dos homens, que os tem encarcerados, e prezos para esse fim. Entre os quaes se bem olhamos a differença das vozes, e armonia, que o reixinol faz com sua garganta, que Plinio por outra tanta diversidade de palavras explicou; acharemos, que todas as proporçoens da musica estaõ encerradas no papo de hum taõ pequeno animal, como he este passarinho.

53 Nem as agoas parece, que carecem deste sentido nos rumores, e roucos estropidos, que por entre os sexos, e pedras dos rios vaõ fazendo, que a nossos sentidos causaõ deleitação, e saudade. E assim mesmo nos ventos temperados do Veraõ com os zunidos, que fazem, movendo as folhas das arvores, tambem se acha huma certa semelhança da musica. Donde nasceo (a meu juizo) fingirem os Poetas, que Orpheo levava consigo os homens, e brutos animaes, com as arvores, e rios, dando a entender, quam geral he a força da musica, que em todas estas cousas tem jurisdiçaõ.

54 E vindo aos corpos humanos, que cousa he a saude, senaõ huma concordancia dos quatro humores, da discordia dos quaes, que se segue, senaõ enfirmidades, e màs disposiçoens? Nos tempos do anno naõ he claro, que quando as quatro qualidades primeiras guardaõ entre si boa, e ordenada temperança, que se faz huma excellente musica taõ necessaria à vida dos homens, como saõ boas novidades de mantimentos? E quando saem fóra daquella regra, para que foraõ criados, naõ fazem ellas Sol, quando se dezejava chuva? E chuva, quando he necessario Sol, com que os ares corruptos causaõ pèstes, e outras infirmidades, assim na gente, como nos animaes necessarios? E a cerca dos dòtes corporaes, e graça, que mais he, e fermosura do rosto, que huma conveniente proporçaõ dos membros? Que contem modo, ordem, e figura na ordem dos intervallos das partes, no modo, a quantidade dellas, na figura, as cores, e os traços. Das quaes cousas entre si bem ordenadas, resulta huma certa armonia apartada da materia, a que chamamos fermosura.

55 A qual, segundo os Philosophos, denota a bondade das virtudes interiores dalma. E naõ sem causa Salamaõ tanto louvou na Sacratissima Virgem Nossa Senhora a fermosura corporal. Porque olhadas bem as obras de Deos, assim as espirituaes, como as corporaes, todas saõ cheyas de fermosura, que respondem ao Author, e Criador dellas; o que David quiz significar, quando disse que a confissaõ, e fermosura estavaõ diante de Deos. E quanto estas obras se levantaõ da terra, e chegaõ a elle, tanto mais aparece este Divino dom nellas. A quem naõ farà muy grave admiraçaõ a fermosura do Sol, de que nossa vista he incapaz, vendo como estende seus rayos pela redondeza do mundo, fazendo tão fermosa variaçaõ de ervas, flores, e sombras, com que a terra està taõ graciosa, e ufana no Veraõ.

56 Quem senaõ espantarà do resplandor dourado das Estrellas, da claridade da Lua, e de toda a pintura do Ceo? E deleitarse Deos com a fermosura claramente se vè no ornamento, assim do Tabernaculo, como do Templo, que de tantas pinturas, e riquezas de ouro, e prata, mandou emnobrecer. Donde vem, que o homem, por ser criado à imagem, e semelhança de Deos, naturalmente aborrece as cousas feas. Esta natural inclinaçaõ se ve melhor nos meninos, em que inda o uso da razaõ he fraco, a cerca dos cocos, e medos, com que os acalentaõ suas amas, que naõ saõ outra cousa, senaõ hum qualquer vulto sem ordem, e proporçaõ, o qual medo naõ tem dos que lhe mostraõ bem feitos, e proporcionados, e por esta razaõ se defendeo em o Testamento velho, que ainda se guarda em o novo, que os homens manchados em o rosto de alguma deformidade notavel, naõ pudessem uzar de officio de Sacerdotes.

57 E naõ he pouco de estimar (esclarecida Princesa) este dom, e graça natural, que nosso Senhor ouve por bem de taõ particularmente lhe conceder, e de que tanto a quiz dotar, posto que Vossa Alteza della naõ faça conta. Porque como acima disse os sinaes de fóra pela mayor parte arguem a bondade do animo, de que Aristoteles, e Galeno fizeraõ seus pronosticos. O mesmo respeito teve o Espirito Santo nas vestiduras dos Sacerdotes, cuja virtude como avia de ser espelho para os outros, assim trouxessem habito conforme ao que delles se presumisse, como o rochete, que significa a inocencia dos Bispos, a Mitra divisa em duas partes, a sciencia dos dous Testamentos, e o Anel a Cruz, a Coroa, e assim as outras insignias (por me naõ deter nellas) todas tem suas significaçoens, denotadas por estes ornamentos exteriores.

58 A mesma razaõ ensinou aos Pintores fazerem os espiritos màos taõ feos, dando a entender por seu rosto suas obras, de que entre nòs nasceo hum proverbio, que diz: guarde-vos Deos do homem mal assinalado. Tambem parece que as leys a isto tiveraõ respeito, quando ordenaraõ mayores penas nas feridas do rosto, que nas de qualquer outra parte do corpo, carregando mais a maõ nas disformidades delle, por ficar danada aquella parte com que os homens aprazem, ou desaprazem aos olhos dos outros.

59 E descendo aos particulares effeitos da fermosura, acharemos tantos exemplos a cerca dos proveitos, que della resultaraõ, que naõ bastaõ palavras, para os comprehender. Como dos Judeos a fermosa Judit, a qual com nenhumas outras armas livrou sua patria do cruel cutello de Holofernes, senaõ com a que lhe deu a natureza, e o que grandes Esquadroens de gente fazer naõ poderaõ, a graça de huma mulher acabou.

60 A Rainha Ester sendo de baixa linhagem, com sua fermosura naõ subio ao estado Real? Vencendo com ella a crueza delRey Artaxerxes, com que servio o Povo de Israel. Abigail naõ livrou com a sua seu marido Nabal da ira delRey David, merecendo depois o juramento Real, a que foy chamada por matrimonio? Betsabè pelos mesmos degràos naõ subio a esta cadeira, merecendo ser mãy de Salamão, figura de nosso Redemptor Jesu Christo? Quem livrou Italia dos fortes Esquadroens, Exercitos, e grandes crueldades de Anibal, senaõ a fermosura de huma moça de Capua, desbaratando com seu poder aquelle, que as forças de todo o Povo Romano vencer naõ puderaõ.

61 Por estas, e outras razoens era taõ estimado dos antigos este dom, que lhe deo occasiaõ para fingir, que Meduza tornava os homens em pedras, por ter taõ alto grào de fermosura, que transportava, e fazia alheyos de si, os que aviaõ, e tinhaõ por mào agouro topar com cousa fea: como o Emperador Adriano, que disse ser chegada sua fim, por encontrar hum Negro. E naõ calarey a graça de Phylopomenes, singular Capitaõ Grego, que por ter pouca no rosto lhe mandou huma mulher fazer o fogo, parecendo-lhe, que em taõ fraca pessoa, naõ podiaõ jazer tamanhos espiritos. E alguns Filosofos Platonicos disseraõ, que a fermosura era dom de Deos, o que entre nòs em proverbio commummente se diz: A quem Deos quiz bem, no rosto lho vem.

62 Muitas cousas podera dizer acerca desta, mas como V. Alteza della faça taõ pouco fundamento, pelo fazer mayor das que tenho feito mençaõ, e de outras, a que meu entendimento naõ chega, por serem de tal qualidade, que as naõ póde entender, senaõ quem as tem: naõ fallarey mais dellas. Mas porque a opiniaõ que todos geralmente, assim nestes Reynos, como nos estranhos de Vossa Alteza tem concebido, e a esperança, que daõ os sinaes, que nella resplandecem de grandes cousas, lhe naõ impida o contentamento dellas, vendo que he mulher, naõ deixarey de dizer quam habil, e sufficiente sempre foy o engenho das mulheres, para grãdes emprezas, começadas com grande esforço, e ousadia, e acabadas com muita discriçaõ, porque como diz Hieronymo, as virtudes haõ de ser pezadas em o animo, e naõ em a condiçaõ da natureza.

63 E começando das letras, clara cousa he, que naõ sómente se igualaraõ com os homens nesta faculdade, mas ainda lhe levarão muita ventagem, como as dez Sybillas, que os Doutores da Igreja tanto celebraraõ, por muitos annos, antes da Encarnação de Deos, deixarem profetizado este Mysterio, de cujos livros os Romanos fizeraõ tanto fundamento, que os tinhaõ encerrados, como grande thezouro para os cazos duvidosos, e perigos de sua Republica, o que não fizerão dos livros de Platão, Aristoteles, Xenophonte, e de outros Authores, que sem chaves andaõ pelas mãos das gentes, como cousa, que muito naõ relevava sua perda. Neste numero podemos contar Cassandra Troyana, cujas letras, e saber, se fora de seus naturaes conhecida, nunca se perderaõ, nem deraõ tanto que escrever a Homero.

64 Se viermos à magica não nos faltarão Circes, e Medeas, que fizeraõ mais milagres nesta sciencia, que Zoroastes, que a inventou.

65 Se à medicina, acharemos Brella, e Therbisa, irmaãs da Rainha Irbussa, Boemias, huma muy douta no conhecimento das hervas, e outra na sciencia da Astrologia.

66 Se à Filosofia, Theano mulher de Pitagoras, e Dama sua filha, expositoras das escuras sentenças do pay, e marido, e Diotima discipula de Socrates, Mantinea, e Philesia discipulas de Plataõ, Gemina, Amphiclias, e Themistes, tão louvada de Lactancio, e as outras de Plotina.

67 E deixando as Gentias, quem deu mais augmento à Igreja de Deos com suas letras, que a Santa Virgem Catharina? Vencendo a doutrina de tantos Filosofos, em actos, e conferencias publicas, sopeando com seu martyrio as forças do demonio, merecendo tão honrada sepultura, fabricada por mãos angelicas, como he a que tem no Monte Sinay, onde Deos deu a Ley Escrita a Moysés, parece que por aquelle Monte ser Monte de sciencia permitio Nosso Senhor, que nelle fosse enterrada esta Santa Virgem, que tanta parte teve em todas, especialmente naquella, que manou do dito lugar sagrado de sua sepultura. Tambem podemos contar quatro filhas de Felippe Evangelista, que nas letras Divinas, e graça de profecia floreceraõ, cujo espirito Deos naõ reprovou, pois fallou pela boca de tantas mulheres, quantas ouve, que merecerão este nome de Profetas, como Maria irmaã de Moysès, de quem jà falley, Debbora, Olda, Anna profetiza, S. Elisabeth, e outras.

68 Na Poesia podemos contar a Mesia, Androgina, Hortensia, Lucera, Valeria, Copiola, Sapho inventora destes versos, Corina, Cornificia Romana, Erimna, Thelia, chamada Epigramatista, Sempronia, de que Salustio conta tantas habilidades, Calphurnia nomeada entre os Jurisconsultos. Quem formou a eloquente lingoa dos Grachos, senaõ Cornelia sua mãy, pela qual razaõ Quintiliano instituio nos seus preceitos, que as amas dos moços criados para Oradores, fossem discretas, e eloquentes porque dellas aprendemos a fallar. E Socrates julgado pelo Oraculo de Apollo, pelo mayor saber dos mortaes, sendo jà velho, nos quaes o saber he mais crecido, naõ aprendeo algumas cousas de Aspacia, e Apollo Theologo de Priscilla? Debbora mulher de Cabidod prudentissima, como lemos nos livros dos Juizes, naõ governou hum tempo o povo de Israel? A qual por lhe Barael desobedecer, sendo eleita por Capitaõ do Exercito, não alcançou vitoria mortos, e vencidos os inimigos? Não lemos, que a Rainha Attalia governou entre os Judeos o Reyno por espaço de sete annos? E Semiramis (de quem jà fiz mençaõ) depois da morte do marido não governou o Reyno quarenta? Edificando huma tão nobre Cidade, e tão soberba, como foy Babilonia de Mesopotania? As Rainhas chamadas Candaces, poderosas, e prudentissimas, não governarão muitos tempos seus Reynos, de que Josepho conta tantas maravilhas, e se faz mençaõ nos Actos dos Apostolos? A Rainha Sabà, de quem jà falley, por taõ longos caminhos não foy ouvir a sabedoria de Salamaõ, a qual hade condenar as doze Tribus de Israel no dia da ira do Senhor? Thecujtes sapientissima femea nas preguntas, que propoz a ElRey David, naõ deu grande sinal de seu saber?

69 Pois nas armas notoria cousa he, quantos Reynos, quantas Provincias, e Cidades conquistaraõ, e edificaraõ mulheres, como as Amazonas, Thomiris, Dido, Valasea, de que jà falley: entre as quaes contaremos Camilla da geraçaõ dos Volscos, e Arthemisia, que senhoreou os Rodeos, tomando-lhes a Ilha, a qual edificou aquelle taõ celebrado Sepulchro Mausoleo, contado por hum dos sete milagres do mundo. E a Poncella de França, de que já fiz mençaõ, em memoria da qual no Ducado d’Orlians naõ està hoje neste dia levantada huma Estatua, em a ponte do Rio Loure?

70 Das Sabinas cousa vulgar he, que naõ temendo as armas dos paes, e maridos, se meteraõ entre os golpes de suas espadas, e os amançaraõ, fazendo perpetua paz, e liança entre huns, e outros. De que excellente Capitaõ, e singular Philosopho, se podem contar mayores cousas, das que conta Trebellio Polio da Rainha Zenobia, de cujo triumpho tanto se prezou o Emperador Aurelio, o qual dizia, que as victorias, que Odenato ouvera dos Persas, naõ se podiaõ attribuir, senaõ ao esforço, e prudencia da dita Rainha sua mulher? Com temor da qual, como conta o mesmo Author, os Arabios, Sarracenos, Armenios, naõ usuraõ a tomar armas. E depois que seu marido morreo, governou o Imperio em nome de seos filhos, por muitos annos, vestindo armas, governando Exercitos, andando a pè longos caminhos por esforçar sua gente, e foy taõ docta na lingoa Grega, que recapitulou a historia Alexandrina, e Oriental, e fez muitas obras, que Nicomato traduzio.

71 E quanto à fama, que homens ouve, que a deixassem de si mòr, que Europa, Asia, e Libia, de cujos nomes estas tres partes do mundo tomaraõ os seus? E as sciencias fingiraõ os antigos, mulheres, e naõ homens. E que saber mais vario, e coraçaõ mais esforçado se poderia achar em homens, que o de Cleopatra Rainha do Egypto? Que constancia mayor, que a de Panthea, que conta Xenophonte, a que a primeira, e grande Monarquia del Rey Cyro naõ pode comover, que quebrantasse a fé matrimonial a seu marido Abradatas? Qual castidade se igualarà com a de Lucrecia, que estimou mais a dor de lhe ser forçosamente roubada, que a morte? Ou com a da Rainha Dido desamada por Virgilio? Naõ faltaraõ a estas animo para se matarem, e constancia, fé, e castidade, que em poucos homens se acha. Entre as quaes se pòde contar na mesma virtude Argia mulher de Policinis Tebano, Julia de Pompeo, Porcia de Catam, Cornelia de Graceso, de que jà falley em outro genero de virtude, Melicina de Sulpicio, Hypsicratia mulher delRey do Ponto, Sulpicia de Lentulo, e a Rainha Libussa, que em quanto tempo per si só governou o Reyno de Boemia, naõ se viraõ as guerras, e dannos, que depois de sua morte se seguiraõ. A justiça, e bom regimento da qual foy causa de lhe fazerem escolher marido, o qual posto que fosse taõ singular, como aquelle Presmilam, que do arado ella escolheo para o Reyno, todavia foy vencido das mesmas mulheres em batalha. A qual Libussa, como diz Æneas Sylvio, era grande sabedora nas sciencias divinas, e humanas.

72 Que façanha mòr em homens esforçados pòde ser da que fez Claudia freira da Ordem Vestal, que sahindo do Mosteiro por socorrer a seu pay, que os Tribunos queriaõ lançar do carro, em que hia triumphando, o tomou nos braços, e o sustentou de tal modo, que como diz Valerio Maximo, o pay com ajuda da filha chegou ao Capitolio com seu triumpho, e ella ao Mosteiro com sua victoria? Que exemplo de piedade mòr, do que conta o mesmo Author de duas moças, huma que dava de mamar a seu pay escondidamente no carcere, onde o Carcereiro por lhe naõ dar a morte, que lhe mandaraõ, movido de piedade determinou de o matar à fome. E da outra, que pelo mesmo modo manteve seu pay Cymon, cuja pintura naquelle tempo era fermosa cousa de ver em Roma hum homem muito velho pendurado do colo de huma moça sua filha, mamando em seus peitos o leite, que gerou. Do qual carcere se fez hum Templo dedicado à Piedade, por razaõ da que tiveraõ estas moças com seus pays, e por experiencia se vè, o que diz Aristoteles nos livros dos animaes, terem as mulheres mais gràos nesta virtude, que os homens.

73 O que Salamaõ confirma, dizendo onde naõ està mulher, geme o enfermo. Porque assim como os homens em sua infancia saõ alimentados com o leite taõ sustancial das mulheres, que os enfermos restaura, e criados com a diligencia de suas mãys, e afagos de suas palavras, apropriadas àquella fraca idade das crianças, assim o enfermo na fraqueza, e debilitaçaõ dos membros, tornando aos primeiros dias de sua criaçaõ, parece que a cura da mulher lhe dà mais descanço, como quem se acha na patria, e natureza onde nasceo.

74 Vindo às cousas da Fè lemos, que por homens foy nosso Redemptor acusado, por homens vendido, por homens crucificado, por homens negado, e dos homens desamparado, só as mulheres atè a Cruz, atè o Sepulchro o acompanharaõ, tornando a elle de noite, perdido o temor dos que o guardavaõ, com cheiros orientaes para ungirem seu corpo, e a Magdalena, que nesta parte mais mereceo com cousas perseveradas lagrimas, naõ foy a que pedio aos Apostolos alviseras da Resurreiçaõ de Christo, por ser a primeira a que apareceo. E ainda a mulher de Pilatos, sendo Gentia, trabalhava com seu marido por lhe escusar a morte.

75 Depois da qual, quem estendeo mais sua Fè, assim com doctrina, como com martyrio? Padecendo por ella tantos generos de tormentos, quantos a crueldade dos tyrannos inventou para lha fazer negar. Testemunhas saõ os dentes de Santa Apollonia, as tetas de Santa Agueda, os olhos de Santa Lusia, e as agudas navalhas, que cortaraõ a carne da Bemaventurada Virgem Catharina. Quantos membros espadaçados, quantas cabeças cortadas, quantos corpos de mulheres assados celebra cada anno a Santa Madre Igreja, qual esquadraõ de homens taõ unido em caridade, taõ armado de Fè, se ajuntou debaixo de algum Capitaõ, como lemos de Onze mil Virgens, que seguindo a Cruz de Santa Ursula, todas morreraõ por aquelle, que nella por ellas padeceo? Cousa de espanto he, e de muy grande admiração entre tantas mil mulheres naõ se achar huma a que o temor dos tormentos alheyos, presentes a seus olhos, fizesse mudar de seu santo proposito, como se vio em taõ pequeno numero de quarenta Martyres, hum delles negar a Fè, e em outro muito menor hum vender a seu Mestre, outro o desconhecer, e finalmente todos o desampararem, sómente as mulheres, como jà disse, que perseveraraõ com elle atè à morte.

76 E tiveraõ sempre tanta constancia na Fè, em que huma vez creraõ, que nunca se lè, apostatar Helena, ou outra alguma Rainha Christaã, como Juliano Emperador, e outros, nem nascer dellas alguma herezia, como dos homens, de antre os quaes se levantaraõ, e se levantaõ cada dia contra a verdadeira, e Catholica Fè. A qual fallecendo em todas, na morte de Christo, segundo affirmaõ os Theologos, em nenhum homem ficou plantada, sómente em a Sacratissima Virgem Nossa Senhora remate de todo o louvor das mulheres. Pois que Deos Eterno, Immenso, Omnipotente, de cuja grandeza o mundo he incapaz, nenhum lugar lhe foy taõ aceito, quando a elle veyo, como o ventre virginal desta Virgem Sacratissima.

77 Alevantem logo os sentidos todas as mulheres, concebaõ em si huma humildade soberba, huma virtuosa presumpçaõ, e gloria de sua natureza, que Deos fez digna, e merecedora de tanta honra, quanta nunca homem puro teve neste mundo, nem terà no outro. Certamente, que he cousa de tal maravilha, qual ella foy, ver aquelle taõ dezejado do mundo, taõ denunciado dos Prophetas, taõ esperado das gentes, taõ venerado dos Anjos, taõ temido dos demonios, e Senhor universal das naturezas angelica, e humana, chamar a huma mulher mãy, e ella filho ao verdadeiro Deos, que a fez, e naõ sem causa a Igreja em suas oraçoens, rogando pelas mulheres, diz: Intercede por devoto fæmineo sexu, attribuindo-lhes este epiteto de devaçaõ, e amor de Deos, como muy proprio, e natural seu dellas.

78 E se agora quizesse contar as finezas, que em diversos generos de virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, Melesias, e Thebanas, faltarmehia o tempo, e naõ os feitos, que acabaraõ. Cheyos estaõ os livros de todos elles. E depois claramente se vè pelos exemplos, que mais me representou a memoria, do que os busquey, quanto as mulheres floreceraõ em todo o genero de letras, nas armas, administraçaõ de Reynos, fundaçaõ de Cidades, e obras miraculosas, na constancia da Fè, padecimento de martyrios por ella, nas virtudes da castidade, piedade, e misericordia, assim em todas as outras, em que naõ sómente se igualaraõ com os homens, mas em muitas os excederaõ.

79 E como nenhum puro homem pòde ser comparado por mais gràos de graça que tivesse, com a melhor dellas, merecendo sua natureza louvor sobre todos os louvores angelicos, e humanos; que razaõ haverà para ser mais estimado o mando dos homens, que o das mulheres? Mayormente o de V. Alteza, a quem tantas, e tão boas partes, a Clemencia Divina deu, que em muy poucos homens, por consumados que fossem, se poderiaõ achar.

80 Agora se nos representarà (illustrissima Princesa) a todos seus vassallos o tempo da Rainha Sabà, ou Candaces; em V. Alteza se renovarà a memoria das esforçadas, castissimas, e prudentissimas Rainhas Arthemizia, e Dido, e de todas quantas ennobreceraõ seus nomes com suas obras. Nella sò veremos juntas as virtudes, que nestas andavaõ apartadas. A Rainha Santa, cujo precioso Corpo tem Coimbra, e sua alma a gloria de Deos, morta, serà viva em V. Alteza, e para isto ser assim, que menos pode fazer, como disse no principio desta Oraçaõ, filha de tal pay, e de tal Mãy, irmãa de taes irmaõs, neta de taes avòs, sobrinha de taes tios, todos Reys, Rainhas, Emperadores, Principes, Infantes, de que toda a Republica Christã he cheya na jurisdiçaõ secular, e provèsse a Deos, que assim o fosse na Ecclesiastica, que naõ faleceria em vossa linhagem (muy alta Princesa) quem estendesse a Fè pelas partes Setemptrionaes, como fizeraõ pelas Orientaes, Meridionaes, e do Occidente, pois que della nasceo o Serenissimo Principe, e Reverendissimo Senhor Infante D. Henrique vosso irmaõ. Cujos costumes, santa virtude, e purissima limpeza de vida nos representaõ em nossos dias o grande Gregorio, Basilio, ou Agostinho. Naõ averia em nossos tempos Luteranos, obedeceria ao Summo Pontifice Boemia, reduzirsehia Grecia com todas suas misturas de Jacobitas, Georgianos, Arménios, e Abexins, e quantas diversidades de herezias ha pelo Mundo cessariaõ. Tornando ao proposito, este seu povo, e vassallos, posto que em quantidade sejaõ poucos, e naõ enchaõ a medida dos merecimentos de Vossa Alteza, pois que grandes Imperios, e Reynos, demanda sua prudencia, e alto nascimento. Agora com serem seus, serà mayor seu nome, e os serviços, que os mais delles fizeraõ a ElRey vosso pay de gloriosa memoria, e a ElRey vosso irmão nosso Senhor, assim em sua casa na paz, como fóra della na guerra, se por ventura andavaõ apagados, daqui por diante seraõ conhecidos, louvados, e galardoados, assim por ElRey com seu favor, como com merces, e acrescentamentos, que elles, e seus filhos esperaõ receber de Vossa Alteza, cuja liberalidade, e humanidade, que aos estranhos he grande, mayor se espera que seja aos naturaes, e vassallos, os quaes para serem sustentados, e governados com paz, mantidos em justiça, ficaõ rogando à Divina Clemencia, naõ por todos estes bens, mas por a vida de Vossa Alteza, que taõ certos os tem com ella, a qual nosso Senhor conserve, acrescente, prospere por muitos annos. Amen.