Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 54 de 177

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§. XVIII.

 

Dos Officiaes que os Reys de Portugal crearaõ para conservaçaõ

das insignias dos Nobres, e da Casa das Armas de Cintra.

Na conservaçaõ das Armas da Nobreza poseraõ os Reys muito

cuidado, [133] entendendo, que foraõ ganhadas pelo valor dos Fidalgos deste Reyno, na recuperaçaõ delle. E como a grandeza, e segurança de seus Estados consistia no valor dos Nobres, por galardaõ, e agradecimento de tantos serviços, procuraraõ conservar as Armas de cada Familia. Foy este intento taõ antigo nos Reys de Portugal, que se conta na Chronica delRey D. Fernando cap. 30. que mandou fazer hum rico paramento todo bordado de aljofares com as Armas dos Fidalgos de Portugal, de modo, que naõ tiveraõ menos cuidado da conservaçaõ dos seus brazoens, que dos Appellidos; querendo, que só aquelles, a quem de direito tocavaõ, fossem honrados com ellas. Para isto ordenaraõ os Reys de Armas, em cujos livros mandaraõ pintar as insignias de todas as Linhagens do Reyno.

Começaraõ estes Officios em tempo delRey D. Joaõ I. porque atè entaõ, pelas poucas mudanças, que houve em Portugal, eraõ todos os Nobres conhecidos; e pacificamente possuhia cada hum as heranças, e honras, que de seus passados alcançàra. Porèm como por morte delRey D. Fernando se seguiraõ taõ largas, e continuadas guerras sobre a successaõ desta Coroa, sustentando huns as partes da Rainha Dona Brites filha do morto Rey D. Fernando, e mulher delRey D. Joaõ de Castella, e outros, as do Mestre de Aviz, e Rey D. Joaõ I. de Portugal, foy tanta a variedade, e alteraçaõ das

cousas, que com razaõ diz o Chronista,[134] que começou entaõ neste Reyno, em certo modo, a setima idade do mundo; porque graõ parte das Familias Nobres, que seguiraõ a opiniaõ de Castella, ficaraõ extinctas, e acabadas de todo, e algumas, que sustentaraõ as partes delRey D. Joaõ I. foraõ de novo levantadas a grande lugar. Estes, como naõ eraõ dantes conhecidos, para se acreditarem com o povo, tomaraõ em muitas partes os Appellidos, e Armas de outras Familias antigas, que lhes naõ pertenciaõ. E assim diz o mesmo Author, que no dia da batalha de Aljubarrota estavaõ as Bandeiras dos Aventureiros cheyas de varias Armas, e insignias, que a muitos naõ competiaõ. Pelo que considerando ElRey D. Joaõ I. depois de ter o Reyno pacifico, como a confusaõ desta materia era de graõ prejuizo à Nobreza, movido do exemplo dos Reys de Inglaterra, com quem estava aparentado, introdusio o Officio dos Reys de Armas: e de entaõ para cà os hà em Portugal. Prova-se isto, porque Fernaõ Lopes na 2. p. cap. 39. da Chronica deste Rey dà a entender claramente, que atè o tempo da batalha de Aljubarrota os naõ houve; e o mesmo parece das historias dos outros Reys atè entaõ, nas quaes senaõ acha feita mençaõ alguma de Reys de Armas; e com tudo de entaõ para cà se trata delles nas Chronicas dos Reys ordinariamente nos lugares, que lhes cabe. Pelo que he evidente; que ElRey D. Joaõ foy o primeiro, que os mandou vir a Portugal. Porém vendo ElRey D. Manoel, como ainda esta materia naõ estava em sua perfeiçaõ, mandou Antonio Rodrigues seu Rey de Armas às Cortes dos mais dos Principes Christaõs a saber em particular as obrigaçoens, e usos, que os Officiaes da Nobreza tinhaõ: e depois que assentou a ordem, que se havia de guardar, poz o nome, ou (como se diz nos livros de Armaria) bautizou de novo fallando equivocamente, com grande solennidade nos Paços da Ribeira tres Reys de Armas com seus Arautos, e Passavantes; e mandou ver as Sepulturas do Reyno para dellas se notarem as armas, e insignias dos Fidalgos; de muitas das quaes fez pintar os Escudos com suas cores, e Timbres em huma fermosa sala, que para isso mandou edificar nos Paços de Cintra; e deu comprido Regimento aos Officiaes da Armaria para a conservaçaõ da Nobreza, e armas das Familias, de modo que naõ houvesse mais a confusaõ antiga.