Noticias de Portugal
§. III.
A terceira causa he a malignidade do clyma de muitas daquellas Provincias, que por serem de ares pestilenciaes, em breves dias consome, e mata a mais da gente, que deste Reyno là vay ter, e os que escapaõ, depois de os apalpar a terra, andaõ sempre com cores de homens mortos, atè que pouco a pouco os acaba de matar de todo aquelle Anjo percuciente, porque como diz o nosso Joaõ de
Barros [240] poz alli Deos por seu occulto juizo com huma espada na maõ de mortaes febres, com que nos impede aquella habitaçaõ. Por tanto os mais dos Religiosos, e Bispos, que àquellas partes passaraõ, duraraõ muito pouco tempo, principalmente os que quiseraõ tomar mais trabalho abrazando-se com febres, ou exhalandose-lhes os espiritos pelos poros abertos com a grande inflamaçaõ do calor, de maneira que o Bispo de Cabo Verde D. Joaõ Parvi espirou estando chrismando, afrontado com o trabalho da muita gente; e D. Fr. Sebastiaõ da Assumpçaõ por fazer hum Pontifical, e prègar juntamente, acabou ao outro dia a vida.
Faltando pois aos naturaes a presença dos Bispos, e o exemplo dos Sacerdotes, e escandalizando-os algumas vezes o trato ordinario dos seculares, e matando a terra os Prègadores, que haviaõ de dar soccorro a estes males, naõ he muito que frutificasse taõ pouco esta sementeira, porque como diz o mesmo Senhor no Evangelho: Pouco importa semear, se a semente cae no caminho, e he pisada dos que passaõ, ou comida das aves, sem haver quem a guarde, ou he affogada das espinhas, faltando quem a monde. E S. Paulo confessa, que sua prègaçaõ em Corintho fora sem fruito, se Apollo seu discipulo a naõ regàra: pelo que carecendo esta Sementeira da cultivaçaõ necessaria, naõ he de espantar, se fizesse bravia, e de trigo tenha degenerado em zizania.
§. III.
De como se podem remediar todas estas tres causas havendo
Seminarios destas Naçoens.
Todas estas tres causas acima referidas da falta dos Sacerdotes, escandalo dos tratantes, e enfirmidades da terra, se pòdem remediar facilmente com hum só meyo, o qual he ordenar Sua Magestade, que haja Seminarios nos lugares, que parecer mais convenientes, como Loanda, e Cacheu, que he na terra firme do districto de Cabo-Verde, em que se crie certo numero de moços de cada huma destas Provincias, onde estaõ os nossos governos, os quaes moços aprendaõ, e sejaõ ensinados nos mesmos Seminarios em bons costumes, e virtudes por alguns Religiosos, que só por serviço de Deos se entreguem deste cuidado, e espiritual empreza; de maneira que quando os Seminaristas tornarem para suas patrias, possaõ fazer o officio de Prégadores, e succedendo huns aos outros, continuem na cultivaçaõ espiritual daquellas Provincias, atè as converter de todo. Este remedio he taõ notorio, e a obrigaçaõ taõ precisa, que jà se mandou fazer hum Seminario na Ilha de Santiago do Cabo-Verde, mas como naõ se lhe applicou governo conveniente, ficou quasi como se o naõ houvesse. Por onde se vè que estas cousas fóra da Barra naõ pòdem ter effeito, senaõ forem administradas por huma Religiaõ, que nunca morre, como se vè no Seminario de Goa. Todos os inconvenientes apontados se remedeaõ com estes Seminarios. Primeiramente evitarse haõ com os Sacerdotes deste Seminario as faltas, que dissemos nos nossos Ministros Ecclesiasticos, porque os do Seminario seraõ mais em numero para poderem discorrer por todas os povoaçoens de suas Provincias, e seraõ tambem de bons costumes, pois os levaõ da creaçaõ do recolhimento, e boa doutrina. Poderàõ os do Seminario muito melhor fazer o officio de Pregadores, porque escusaõ interpretes na doutrina, e prègaçaõ, que he hum dos grandes impedimentos, que os nossos Clerigos tem para ensinar; porque gastaõ muito tempo em saber a lingua, e ainda quando a alcançaõ, nunca a pòdem tambem saber como os naturaes. Seràõ os Sacerdotes mayor effeito na prégaçaõ, porque como naturaes da terra, haõ de permanecer sempre nella, e naõ virse logo como fazem os nossos; e com o natural amor, que tem aos de sua naçaõ, se moveràõ com natural zelo aos ensinar, e elles os ouviraõ com muito melhor vontade; por verem que os que lhes prégaõ, e daõ exemplo, saõ de sua mesma patria, e gente, e que naõ hà nelles outro interesse.
Naõ se remediarà menos com estes Sacerdotes do Seminario a segunda causa, que apontamos do mào exemplo de alguns nossos naquellas partes; porque vendo os mesmos Portugueses a virtude que resplandece nestes de novo convertidos; confundirse hão considerando a vantagem, que lhes levaõ nos costumes, sendo os nossos os que lhes ensinaraõ a Fè. E quando todavia succeder algum escandalo, os do Seminario tiraràõ a opiniaõ aos naturaes da terra de serem todos os nossos semelhantes na vida, dizendo-lhes da grande Christandade deste Reyno, e que por huns se naõ haõ de julgar todos os outros.
Finalmente fazendo se os Seminarios, se evitaràõ com isso as doenças, e mortes, que padecem os nossos, que vaõ prègar a Guiné; porque como estes moços sejaõ naturaes da terra, seguramente podem andar, e viver nella. Por estas razoens se fez em Goa o Seminario da Santa Fé, em que se criaõ os sojeitos de todas as naçoens Orientaes. E neste Reyno o vimos por experiencia no mesmo Guiné; porque em se descobrindo o Reyno de Congo; mandou ElRey D.Joaõ II. doutrinar logo alguns moços nobres; porque depois de ensinados na Fè, tornassem a prègar a seus naturaes. E o mesmo fez ElRey D. Manoel aos filhos, netos, e sobrinhos delRey D. Afonso de Congo, e outros moços nobres, os quaes aprenderaõ, naõ sómente as nossas letras, mas ainda as latinas, e sagradas; de maneira que delles sahiraõ muitos Sacerdotes, e prègadores; e dous Bispos, que exercitando seu officio, serviraõ a Deos com grande aproveitamento espiritual daquelle Reyno, como testifica Joaõ de Barros Dec. 1. l. 3. c. 10. Pelo que naõ hà duvida, que aprendendo estes sogeitos, faràõ agora os mesmos effeitos, principalmente se os Governadores, Bispos, ou Religiosos, a quem Sua Magestade cõmetter a escolha dos sojeitos, que haõ de vir para o Seminario, fizerem boa diligencia em escolherem os de engenho mais vivo, e melhor inclinaçaõ: e posto que em alguns naõ haja taõ bom successo (como acontece em todos os Seminarios, e Collegios de qualquer naçaõ que sejaõ) isso não tira, que de ordinario nos mais se acerte, principalmente sendo todos estes povos de Guinè muito differentes do novo mundo, e muy doceis, e capazes para toda a doutrina, como o experimentaraõ jà por vezes os que ensinaraõ os de Congo, e Cabo-Verde, e o confessaõ de todos os Olandeses nas suas navegaçoens Orientaes p. 6. cap. 9. dizendo: Viri omnes habent proprietates, quibus virum cordatum, circunspectum, & prudentem ornatum esse convenit, ingenio sunt, & intellectu optimo, & facilè quod vel semel saltem viderunt, apprehendentes imitari, & æmulari non infeliciter conantur, &c. E de hum delles conta o Author Gorardo que lia, e escrevia na lingua Portuguesa, e q́ foy argumentar com os Olandeses, para lhes confutar suas heresias, allegando muitas authoridades do Evangelho, e livros Apostolicos; como refere p. 6. c. 21. nestas palavras: Quin, & unus inventus est, qui linguam Lusitanicum legere, & scribere perfecte potuit, inque sacris literis adeo versatus fuit, ut de religione cum Batavis conferre, & si quid contrarium proferentis, ipsi refutationem ejus ex Evangelistarum, & Apostolorum scriptis suscipere non dubitaret; unde videre est, ingenium quidem eis non deesse, quo ad veritatis agnitionem pertingerent, modo haberent aliquem à quo in capitibus pietatis, & religionis Christianæ principijs recte erudirentur. Quo magis eiiam optandum, ut talia Deus ipsis media largiatur, quæ ad propagationem verbi sui, & salutem ipsorum facere, & prodesse possint.