Noticias de Portugal

Manoel Severim de Faria · Capítulo 22 de 177

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§. II.

A Milicia, que os nossos Reys antigos procuravaõ ter prestes para defensaõ, e segurança do danno, que podiaõ receber dos outros Principes confinantes, era hum Exercito com todos os Capitaens, Officiaes, e soldados necessarios, com que pudessem acudir em continente a todas as occasioens, que se offerecessem, onde fosse necessario. E porque o fundamento da guerra saõ as forças dos naturaes da Provincia, assim da gente de pè, como de cavallo; e a ordem, com que a Milicia se exercita, me pareceo conveniente apontar o modo, que os nossos Reys tiveraõ assim na defensaõ dos lugares, como nos Exercitos, com que andaraõ em campanha, e o numero de gente, de que nelles usavaõ. Porque ainda que se mudou o estilo da Milicia com as novas armas, e instrumentos de polvora, com tudo as forças, e a ordem, e meyos para alcançallas sempre saõ os mesmos: e por estes principios se ha de dispor o que na nova Milicia se ha de ordenar. Nem se me pòde estranhar este argumento por alheyo da profissaõ Ecclesiastica, por quanto a Milicia he parte da Politica, e como tal trata della Santo Thomaz em muitos lugares de suas obras; por onde a theorica he commua à todos; e assim a estaõ lendo muitos Religiosos nas Escolas publicas, naõ só fóra deste Reyno, mas ainda nelle. Quanto mais, que estando as forças de Portugal na occasiaõ presente todas occupadas neste exercicio, obrigação nos fica tambem a todos de trabalhar nesta materia cada hum no que lhe toca em conservaçaõ do bem publico. Mas porque a guerra se divide em terrestre, e maritima, fallaremos primeiro da terra, como mais principal, discorrendo pelos mayores officios do exercito, dando particular noticia de cada hum, com tudo o que pertence à Milicia antiga, atè o presente, seguindo nesta materia os nossos historiadores, e particularmente o Regimento da guerra, que fez ElRey D. Afonso V. conformando-se com os estilos antigos deste Reyno.

 

§. II.

Do officio, que fazia ElRey no Exercito, e dos Ministros, que serviaõ

à Pessoa Real na guerra, e da dignidade de Condestable.

Os exercitos deste Reyno foraõ sempre governados pelos Reys delle. Porque como os mesmos Principes faziaõ profissaõ de

guerreiros, não queriaõ dar a outrem esta honra.[34] E assim houve poucos Reys, que não se achassem por suas pessoas nas empresas mais importantes, que em seu tempo se fizeraõ, como lemos do primeiro Rey D. Afonso Henriques, e de seu Filho D. Sancho, D. Afonso III. D. Diniz, D. Afonso IV. D. João I. D. Afonso V. D. João II. e D. Sabastiaõ. O officio, que no Exercito faziaõ, era o supremo; e delles recebiaõ as ordens os Condestables. Para o serviço, e guarda de sua pessoa tinha ElRey hum Guarda Mòr, que era dos Fidalgos principaes do Reyno, o qual trazia consigo 20. Cavalleiros Nobres para guarda da Pessoa delRey. Estes na guerra o acompanhavaõ em toda a parte, e na paz assistiaõ no Paço, e

dormiaõ juntos à Camara Real.[35] Porèm depois usaraõ os Reys de Fidalgos em lugar destes Cavalleiros, e tinhaõ as entradas livres, como os Gentis homens da Camara na Casa de Borgonha. Naõ havia delles numero certo, mas em tempo delRey D. Sebastiaõ o foraõ sómente doze. Estes Cavalleiros da guarda no tempo da guerra andavaõ no Exercito com o seu Guarda Mor armados, e a cavallo, seguindo a Pessoa delRey, segurando-o; alèm do qual teve tambem depois o Capitão dos Ginetes parte deste cuidado, como

adiante veremos.[36] Tinhaõ os Reys hum Armador Mòr, cujo principal cargo era guardar as armas da Pessoa Real: tambem

alguns Moços Fidalgos serviaõ de Pagens da lança. [37]

A mayor dignidade do Exercito depois da Pessoa Real, era o Condestable, cuja origem, por ser pouco conhecida, tocaremos

brevemente. [38] Os Emperadores Romanos, e à sua imitaçaõ os antigos Reys de Espanha, e França introduziraõ nos seus Officiaes do Paço o titulo de Comites, ou Condes; aos quaes confórme o ministerio, a que presidiaõ, se lhes dava o nome, com que se differençavaõ huns dos outros, chamando Comes rei privatæ ao Veador da Casa; Comes domesticorum, ao Mordomo Mòr, e assim aos mais. Por esta razaõ chamaraõ ao Estribeiro Mòr Comes stabuli. O mais antigo Author onde se acha este nome, he em S. Gregorio Turonense: e assim se entende, que teve esta dignidade principio em França, e que aquelles Reys foraõ usando destes seus

Estribeiros Mores, ou Condestables nas cousas de guerra.[39] No principio, sendo o Condestable Capitaõ de Cavallos, e depois General da Cavalleria, atè o virem a fazer General da Milicia de todo o Reyno, e proveraõ este cargo nas pessoas mais illustres delle. De França parece que veyo este officio a Italia, e a Inglaterra; a cuja imitaçaõ ElRey D. Fernando de Portugal o creou de novo neste Reyno, quando o Conde de Cambris com os seus Ingleses o veyo a ajudar a fazer guerra a Castella. O primeiro, que este cargo teve em Portugal, foy D. Alvaro Pires de Castro Conde de Arrayolos, e atè entaõ fazia neste Reyno o officio de Condestable o Alferes Mòr; e de entaõ atègora tiveraõ sempre o titulo de Condestables, ou Infantes, ou os mais principaes Senhores do Reyno.

He o Condestable em Portugal o General da Milicia, seu lugar no Exercito he o da vanguarda; e confórme ao seu titulo, que està no Regimento da guerra; a elle dà ElRey as ordens do que se deve fazer no Exercito, e elle as cõmette ao Marichal, para que as execute, e a elle pertence fazer os Coudeis dos Bèsteiros, e dos homens de pè, cada hum com 30. soldados. Assinaõ os Quadrilheiros, que haõ de repartir os despojos das batalhas, e sacos dos lugares. Antes de partir o Exercito, manda os Descobridores do campo, e Almocadens a segurar os caminhos, e dà as guias para a vanguarda, e Capitaens para cavalgadas, Aposentandor para alojar o campo e guardas, e roldas e escutas para de noite, e lhes dà o nome. Por sua ordem se reconhecem os lugares, que se haõ de cercar. Em todos os casos, que succedem no exercito, assim civeis, como crimes, he suprema Justiça, para o que nomea Ouvidor, e Meirinho; e a elle vem por appellaçaõ os feitos do Marichal: em os civeis naõ hà do Condestable appellaçaõ. Estas, e outras cousas dispoem o Regimento antigo, e lhe concede gajes no Exercito de cada mercador, ou regataõ doze reaes brancos cada somana, e dos que servirem a estes, trez reaes: e todas as penas de Direito, ou Condenaçoens, que se no Exercito fizessem, eraõ para elle, e a carceragem dos que fossem presos na prisaõ do seu Ouvidor, das presas das cavalgadas eraõ todas as cavalgaduras, que naõ andassem em bandos.