Nova Castro: tragedia
Scena III.
D. Affonso só.
He possivel, oh Ceos, que assim meu filho
Temerario resista aos meus preceitos!..
Que cegueira! Que arrojo! He necessario
Desarraigar-lhe d'alma por violencia
A funesta paixão que o traz de rojo:
Mas de que modo?.. Cumpre medita-lo...
Seja em fim como for, desempenhado
Meu Tratado ha de ser: o ingrato filho,
Em vez de hum Pai benigno, hum Rei severo
Ha de encontrar em mim. Oh lá, D. Nuno.(13)
(13) Chamando.
S III.
D. Affonso, e D. Nuno.
Nun. Que me ordenas, Senhor?
Af. ....................... Os Conselheiros
Vai chamar... mas espera, ahi vem Pacheco.
S IV.
D. Affonso, Pacheco, e D. Nuno.
Af.(14) Quem tal dissera, Amigo! Eu me envergonho
Sómente de o pensar: o iroso aspecto
De hum Monarcha, de hum Pai, razões, ameaços
Nada bastante foi: ousa o rebelde
Ás nupcias recusar-se, aos meus preceitos;
Mas ha de obedecer-me, aos Ceos o juro.
Os meios estudemos, que efficazes
A sua contumacia vencer possão:
Se necessario for, inexoravel,
Rigoroso serei.
(14) D. Affonso se dirige a Pacheco, e D. Nuno se afasta para o fundo da Scena.
Pach. ......... Dever funesto
He, Senhor, na verdade, o de hum Vassallo,
Que fiel ao seu Rei, bem que sensivel,
Na precisão se vê de supplicar-lhe,
Que suffoque a piedade, e que castigue...
Mas o int'resse do Estado, e mais que tudo
O decoro do Throno assim o exigem.
De incorrupta lealdade claras provas
Eu protesto dar sempre ao Rei, e á Patria.
Longe de desculpar, porque he teu filho,
Do Principe a Paixão, funesta origem
Da sua contumacia; com franqueza
Direi meus sentimentos, sem que possa
Tolher-me as expressões o temor justo
De perder o favor, de ser odiado
De hum Principe que adoro, e que respeito.
Se queres que teu filho te obedeça,
Corta a indigna prizão que maniatado
O coração lhe traz, e que o estorva
De entrar em seus deveres: pune, extingue
Esse objecto fallaz que a alma lhe encanta:
De contrario, Senhor, serão baldados
Outros meios quaesquer que projectares.
Af. Seja punida, sim, seja punida
Mulher que tantos males origina;
Que impera mais do que eu, e que se atreve
A usurpar-me do filho a obediencia.
Seu crime... Mas que digo!.. por ventura
Não he meu filho mais culpado qu'ella!
Serei eu parcial punindo Castro,
Sem que seja igualmente castigado
Quem deve mais do que ella ser punido?
Pach. O Principe he teu filho, tanto basta
Para ser absolvido, e desculpado:
A condição d'Ignez he mui diversa.
Af. Não puno condições, puno delictos.
Antes de tudo interroga-la devo.
D. Nuno, chama Ignez.(15) Ouvi-la quero,
Sondar seu coração; depois veremos
Se he digna de castigo.
(15) Parte D. Nuno.
Pach. ................ Ah! Se attenderes
Suas vozes, Senhor, suas escusas,
Por seu astuto pranto subornado,
Deixarás por piedoso de ser justo.
Quem foi capaz de fascinar o Filho,
Pode o Pai fascinar. Arte impostora
A peitos feminís Amor suggere:
Quando as abraza criminosa chamma,
Negão as expressões o que a alma sente,
E c'o auxilio das lagrimas convencem.
Attende, attende só ao bem do Estado,
Ao exemplo que deves ao teu Povo,
Que, murmurando já, talvez se azede
Se vir que em nova guerra o precipita
Do Principe a paixão escandalosa.
Não soffrerá Castella a grave affronta
De ser, do seu Tratado em menoscabo,
Por teu Filho Beatriz repudiada:
E o consorcio D. Pedro não celebra,
Sem que até da lembrança Ignez lhe affastes.
Atalha em quanto podes tantos males:
Muitas vezes punir he ser piedoso.
Af. Tu me fazes entrar nos meus deveres.
Para me resolver a castiga-la
Basta o bem do meu Povo que me lembras.
No coração de hum Rei digno do Throno,
Se os int'resses do Estado a voz levantão,
Compaixão, amizade, natureza,
Tudo, tudo immudece. Exterminada,
Em remota clausura Ignez reclusa,
Da presença do Principe se affaste:
Não torne a ver meu filho essa que o céga,
Em quanto, da razão accêso o facho,
As tochas de Hymenêo arder não faça;
E se isto não bastar, mão lançaremos
De outro mais efficaz, duro remedio.
Pach. Não bastará talvez; por mais que seja
Recatado, e remoto qualquer sitio,
Que para o seu desterro escolher possas,
Lá mesmo irá teu Filho arrebata-la.
Eu calo o mais que sinto, e só te lembro
Que a quereres com ella ser piedoso,
Poupando-lhe hum maior, justo castigo,
De Portugal ao menos a desterres.
Occasião, Senhor, tens opportuna
De envia-la ao Monarcha de Castella,
Que zeloso da filha no decoro,
Guardará providente em segurança
A rival que se atreve a disputar-lhe
O coração do Principe. Este arbitrio
Segue pois, se te apraz, bem que inda o julgo
Para tão grande mal remedio fraco.