Nova Castro: tragedia
Scena X.
A agonia da morte... Filhos... Filhos...
Quanto a sua presença me consterna!..
Ah, levem-mos daqui... mas para onde?..
Não; chegai, filhos meus... em vossos labios
Quero entornar minha alma... nelles quero
Deixar a vosso Pai depositados
Meus ultimos suspiros... Ah! são estes...
São estes... Que anciedade! A luz me foge...
Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)
(58) Cahe, e espira nos braços das Damas.
Emb. Que doloroso trance!
S X.
Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho.
Ped.(59) ............... Amada Esposa,
Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços,
Vem completa fazer minha alegria.(60)
Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)
(59) D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver de Ignez.
(60) Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do cadaver de Ignez.
(61) Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr a ella, recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de D. Sancho, e do Embaixador.
Sanc. Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!
Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)
(62) Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos, acompanhadas de D. Sancho.
Ped.(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.
(63) Em delirio.
Nun. Ah! Senhor!..
Ped. ............ Não tardeis, ide chamar-ma.
Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)
(64) Convulso, quer caminhar, e não póde.
Emb. A extrema dôr o priva dos sentidos.
Nun. A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.
Ped. He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65)
Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..
E tornarão a abrir-se inda os meus olhos?
Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)
Espera, espera Ignez, eu te acompanho,
Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro
He preciso vingar a sua morte.
Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,
Esse tyranno, que meu Pai se chama?
(65) Olhando para o lugar onde víra Ignez morta. (66) Em acção de desembainhar a espada. (67) D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe, e este reflectindo hum pouco, diz:
Nun. Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava,
Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão,
Que...
Ped. Basta: nada mais.(68) Impios são todos,
E eu de todos o sangue beber quero.
Treme, barbaro Rei; cruenta guerra
Eu protesto fazer-te: sim, eu juro
Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios
Bradando por vingança alli diviso,
Juro, cruel, do Throno derrubar-te,
E em teu lugar, c'roada alçar a elle
A Esposa que me roubas. A meu lado,
Mesmo depois de morta, a bella Castro
Será Rainha, reinará comigo:
Que importa que o seu corpo não respire,
Se a sua alma inda existe unida á minha!
Hão de todos beijar-lhe a mão já fria,
Tributar-lhe as devidas homenagens:
Do seu throno degráos por mim calcados
Os tyrannos serão que a assassinárão:
Seus corações malvados, das entranhas
Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.
Ás minhas iras escapar não podem:
Inda que nos infernos vão sumir-se,
Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.
Será tal meu furor, minha vingança,
Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome:
Por toda a parte se hão de ouvir sómente
Pranto, desolação, e horrores... tantos
Os estragos serão, as mortes tantas,
Que ha de em sangue nadar Portugal todo:
Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo
Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares;
E os proprios mares arrojar bramindo
Ondas de sangue ás mais longinquas praias.
Eu vou já começar a derrama-lo.