Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 34 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena X.

A agonia da morte... Filhos... Filhos...

Quanto a sua presença me consterna!..

Ah, levem-mos daqui... mas para onde?..

Não; chegai, filhos meus... em vossos labios

Quero entornar minha alma... nelles quero

Deixar a vosso Pai depositados

Meus ultimos suspiros... Ah! são estes...

São estes... Que anciedade! A luz me foge...

Adeos, Filhos... adeos, Esposo... Eu morro.(58)

(58) Cahe, e espira nos braços das Damas.

 

Emb. Que doloroso trance!

 

S X.

Os mesmos, D. Pedro, e D. Sancho.

 

Ped.(59) ............... Amada Esposa,

Ignez, querida Ignez, vôa a meus braços,

Vem completa fazer minha alegria.(60)

Porém que!.. vós chorais! que infausto agouro.(61)

(59) D. Pedro entra na Scena cheio de alegria, sem vêr o cadaver de Ignez.

(60) Vendo chorar D. Nuno, e o Embaixador, que estão defronte do cadaver de Ignez.

(61) Olha para traz, dá com os olhos em Ignez morta, quer correr a ella, recúa espavorido, e cahe desfallecido nos braços de D. Sancho, e do Embaixador.

 

Sanc. Oh Principe infeliz!.. Mortal angustia!

Affastai-lhe da vista a extincta Esposa.(62)

(62) Elvira, e as Aias retirão da Scena Ignez, e os Meninos, acompanhadas de D. Sancho.

 

Ped.(63) A Esposa!.. Onde está ella? Ide chamar-ma.

(63) Em delirio.

 

Nun. Ah! Senhor!..

Ped. ............ Não tardeis, ide chamar-ma.

Eu mesmo, eu mesmo vou... Ignez, Esposa!(64)

(64) Convulso, quer caminhar, e não póde.

 

Emb. A extrema dôr o priva dos sentidos.

 

Nun. A tua Esposa... oh Deos!.. já não existe.

Ped. He morta? Injustos Ceos! Clarão terrivel!(65)

Ah! Sim, eu mesmo a vi... horrida imagem!..

E tornarão a abrir-se inda os meus olhos?

Vi morta a cara Esposa, e vivo ainda!(66)

Espera, espera Ignez, eu te acompanho,

Eu já te sigo, sim...(67) Mas não, primeiro

He preciso vingar a sua morte.

Quem a matou?.. Dizei... talvez... foi elle,

Esse tyranno, que meu Pai se chama?

(65) Olhando para o lugar onde víra Ignez morta. (66) Em acção de desembainhar a espada. (67) D. Nuno, e o Embaixador impedem que D. Pedro desembainhe, e este reflectindo hum pouco, diz:

 

Nun. Ah! não, Senhor, teu Pai lhe perdoava,

Mas Coelho, e Pacheco os ímpios forão,

Que...

Ped. Basta: nada mais.(68) Impios são todos,

E eu de todos o sangue beber quero.

Treme, barbaro Rei; cruenta guerra

Eu protesto fazer-te: sim, eu juro

Pelo sangue de Ignez, cujos vestigios

Bradando por vingança alli diviso,

Juro, cruel, do Throno derrubar-te,

E em teu lugar, c'roada alçar a elle

A Esposa que me roubas. A meu lado,

Mesmo depois de morta, a bella Castro

Será Rainha, reinará comigo:

Que importa que o seu corpo não respire,

Se a sua alma inda existe unida á minha!

Hão de todos beijar-lhe a mão já fria,

Tributar-lhe as devidas homenagens:

Do seu throno degráos por mim calcados

Os tyrannos serão que a assassinárão:

Seus corações malvados, das entranhas

Eu mesmo hei de arrancar, hei de trincar-lhos.

Ás minhas iras escapar não podem:

Inda que nos infernos vão sumir-se,

Lá mesmo, ardendo em raiva irei busca-los.

Será tal meu furor, minha vingança,

Que o Mundo tremerá de ouvir meu nome:

Por toda a parte se hão de ouvir sómente

Pranto, desolação, e horrores... tantos

Os estragos serão, as mortes tantas,

Que ha de em sangue nadar Portugal todo:

Sangue o Douro, o Mondego, e sangue o Téjo

Hão de, em vez d'agua, despejar aos mares;

E os proprios mares arrojar bramindo

Ondas de sangue ás mais longinquas praias.

Eu vou já começar a derrama-lo.