Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 28 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena II.

Assento d'afflicções, e de amarguras;

Desgraçados aquelles que te occupão!

 

S II.

D. Affonso, e D. Sancho.

 

Sanc. Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro,

Se não queres privar os Lusitanos

Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria;

Não percas tempo, evita, remedeia

A desesperação que o assassina.

Eu conter já não posso os seus transportes,

Nem ver as afflicções que o despedação:

Humas vezes convulso, delirante,

Scintilando furor, acceso em raiva,

Morde, intenta romper os duros ferros

Da prizão, que o retem; blasfema, e brama:

Consternado outras vezes, abatido,

Em profundo lethargo, entre agonias,

Os olhos razos d'agua, o peito anciado,

Succumbe á sua dor, cahe, desfallece.

Eis que subito agora por mim chama:

"Vai, amigo, (me diz) corre apressado,

Saber da minha Esposa, e de meus filhos.

Certamente os perversos Conselheiros

Ousárão conspirar contra os seus dias:

Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla;

Por mim de Ignez o indulto lhe supplica;

O estado em que me vês lhe representa;

E se elle persistir inexoravel,

Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo

A referir-te...

Af. .......... Basta: não augmentes

A minha confusão: oh Deos!

Sanc. ................... Perdoa:

Tu silencio me impões; mas eu não posso,

Não posso obedecer-te; o grande risco,

Em que os dias do Principe contemplo,

O amor que lhe consagro, não permittem

Que eu cesse de clamar-te que perdoes

Á miseranda Ignez, de cuja vida

A vida de teu filho está pendente.

Ignez já agora he de D. Pedro Esposa...

É até digna de o ser. Não acredites

Damnados corações; que seus contrarios,

D'inveja, d'ambição, de rancor cheios,

Intentão denegrir o seu caracter.

Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves

Por meus labios fallou sempre a verdade.

Ignez huma alma tem singella, e nobre,

Sensivel de sobeja, a amar propensa;

Não pôde resistir a amar teu filho:

Seu delicto he só este, não tem outros;

D'outros não he capaz, e hum tal delicto,

Quando tantas virtudes o acompanhão,

He digno de perdão, he desculpavel.(48)

Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo,

Que inflexivel, severo em demasia,

Nem de teu filho á Esposa perdoaste.

(48) Prostra se aos pés de D. Affonso.

 

Af.(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51)

Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?..

Ah! Não.