Nova Castro: tragedia
Scena II.
Assento d'afflicções, e de amarguras;
Desgraçados aquelles que te occupão!
S II.
D. Affonso, e D. Sancho.
Sanc. Ah Senhor! Se teu filho inda te he caro,
Se não queres privar os Lusitanos
Do herdeiro Augusto de teu Throno, e gloria;
Não percas tempo, evita, remedeia
A desesperação que o assassina.
Eu conter já não posso os seus transportes,
Nem ver as afflicções que o despedação:
Humas vezes convulso, delirante,
Scintilando furor, acceso em raiva,
Morde, intenta romper os duros ferros
Da prizão, que o retem; blasfema, e brama:
Consternado outras vezes, abatido,
Em profundo lethargo, entre agonias,
Os olhos razos d'agua, o peito anciado,
Succumbe á sua dor, cahe, desfallece.
Eis que subito agora por mim chama:
"Vai, amigo, (me diz) corre apressado,
Saber da minha Esposa, e de meus filhos.
Certamente os perversos Conselheiros
Ousárão conspirar contra os seus dias:
Ah, procura meu Pai, por mim lhe falla;
Por mim de Ignez o indulto lhe supplica;
O estado em que me vês lhe representa;
E se elle persistir inexoravel,
Protesta-lhe por mim..." Ah! nem me atrevo
A referir-te...
Af. .......... Basta: não augmentes
A minha confusão: oh Deos!
Sanc. ................... Perdoa:
Tu silencio me impões; mas eu não posso,
Não posso obedecer-te; o grande risco,
Em que os dias do Principe contemplo,
O amor que lhe consagro, não permittem
Que eu cesse de clamar-te que perdoes
Á miseranda Ignez, de cuja vida
A vida de teu filho está pendente.
Ignez já agora he de D. Pedro Esposa...
É até digna de o ser. Não acredites
Damnados corações; que seus contrarios,
D'inveja, d'ambição, de rancor cheios,
Intentão denegrir o seu caracter.
Vê, meu Rei, que te illudem: crer-mo deves
Por meus labios fallou sempre a verdade.
Ignez huma alma tem singella, e nobre,
Sensivel de sobeja, a amar propensa;
Não pôde resistir a amar teu filho:
Seu delicto he só este, não tem outros;
D'outros não he capaz, e hum tal delicto,
Quando tantas virtudes o acompanhão,
He digno de perdão, he desculpavel.(48)
Perdoa-lhe, meu Rei, não diga o Mundo,
Que inflexivel, severo em demasia,
Nem de teu filho á Esposa perdoaste.
(48) Prostra se aos pés de D. Affonso.
Af.(49) Não, não ha de dizer.(50) Oh lá, D. Nuno!(51)
Deixar eu de ser Pai por ser Monarcha?..
Ah! Não.