Nova Castro: tragedia
Scena II.
Do que ser por meus émulos calcado,
Contemplados Irmãos d'huma Rainha.
Pach. Sentimentos iguaes me fervem n'alma;
Eia, tudo se arrisque; prosigamos:
Descarregue-se o golpe derradeiro,
Inda que, errando-o, sobre nós desfeche.
Eu parto a congregar os Conselheiros,
Segurar inda mais todos os votos;
E tu no emtanto ao Rei procura, e move;
Sua colera atiça; que eu não tardo,
Juntos os do Conselho, a vir chama-lo.
Coel. Bem: não poupes promessas, nem t'esqueça
Desculpar ante o Rei sempre a D. Pedro,
Fazendo recahir de seus arrojos
Sobre Ignez tão somente a culpa toda.
Affonso para aqui dirige os passos...
Não percas tempo, vai.
S II.
D. Affonso,(36) e Coelho.
(36) D. Affonso entra na Scena pensativo.
Af. ................. Crueis remorsos!
Horroroso castigo de meus crimes!..
Que torpel de afflicções, que acerbos males
Vem funestar o resto de meus dias!..
Infeliz Pai!.. Monarcha desgraçado!
Coel. Releva-me, Senhor, que ouse, pungido
Da dor, em que o meu Rei vejo abysmado,
Recordar-te que deves mitiga-la.
Tua vida, Senhor, não he só tua.
Do teu Povo he tambem: ah não, não queiras
Á força de afflicções abbreviar-lha.
Sei quanto custa a hum Rei ouvir blasfemias
De hum filho, que feroz o não respeita:
Mas deves ponderar que hum tal arrojo
Tão desculpavel he, quanto he violenta
A funesta paixão, de que instigado
Teu filho, a teu pezar, o perpetrára;
Delicto involuntario...
Af. .................. O seu delicto
Não he só filho da paixão que o céga:
Força maior o arrasta aos sacrilegios:
Mais que o seu ímpio arrojo, o que me afflige,
He ver que assaz mereço hum tal castigo,
Das maldições celestes justo effeito.
Oh remorsos crueis!.. Era forçoso
Que hum filho de tal Pai fosse rebelde.
Mais do que elle rebelde, filho ingrato
Eu fui, eu fui tambem... Ardendo em furia
Atrevi-me, que horror! a tomar armas
Contra Diniz meu Pai; movi-lhe a guerra,
Sublevei-lhe os Vassallos, assolei-os;
Cavei-lhe assim feroz a sepultura;
Todas as leis calquei da Natureza,
A Natureza agora quer vingar-se.
De hum Pai, que contra o Pai se revoltára,
És, sim, filho rebelde, és digno filho!
Mais me soffreo Diniz do que eu te soffro;
Mas tu has de igualar meus attentados,
Inda os has de exceder; talvez já tardas!
Nem vós podeis, ó Ceos, jámais impunes
Sacrilegios deixar tão execrandos.
Dos Avós implacaveis vingadores
São, por justo castigo, quasi sempre
Máos filhos os do Pai, que foi máo filho.
Diniz! Grande Diniz! Sombra iracunda!
Terrivel sombra, que ante mim voltêas!
Sobre a minha cabeça criminosa,
Por mão do ousado neto, descarrega
O já tardio, merecido golpe...
Ah! Sim... bem vejo... ameaçador me apontas
O tremendo futuro, que m'espera...
Que flagello! Que horror! Que mar de sangue!..
Tristes vassallos meus! Ah filho! Filho!
Suspende...
Coel. .... Que delirio te arrebata?..
Teu grande coração sentir não deve
Remorsos, que aos malvados só competem:
Passadas, leves faltas não recordes;
Males não temas, que atalhar bem podes.
Af. Porque não vens, ó morte, alliviar-me
Do pezo da existencia, e de meus crimes!
Coel. Que seria de nós, se os Ceos te ouvissem!
Em desordens submerso, dessolado,
Comtigo Portugal acabaria.
Os clamores escuta do teu Povo,
Conserva-lhe o seu Rei; tão necessario
A teus tristes Vassallos jámais foste:
De mil calamidades ameaçados,
Só lhes póde valer tua justiça.
Af. E como? De que modo evitar posso
Desordens, que a mim mesmo me soçobrão?
Coel. Do mal a causa extincta, o mal expira;
Extingue a causa pois de tantos males:
Em quanto existir Castro, que os fomenta,
Debalde intentarás dar-lhe o remedio.
Af. Que dizes? Condemnar Ignez á morte?
Tão graves são seus crimes, que mereção...
Coel. Os seus crimes, Senhor... Ah! por desgraça,
Nunca o Mundo vio crimes que brotassem
Tão funestas, horriveis consequencias:
Desnecessario julgo referi-las;
Tu bem as sabes, pois assaz te affligem.
Do Principe ardilosa seductora,
Se teu filho he rebelde, se he blasfemo,
Quem, senão ella, o fórça aos sacrilegios!
Não vacilles, Senhor; o seu supplicio
Chega a ser, mais que justo, indispensavel.
Mas não basta o que eu digo a condemna-la:
Tens melhores, mais sabios Conselheiros,
Que juntar já mandaste; ouve os seus votos:
Que se elles zelo igual ao que me inflamma,
Por ti, pelo bem público, tiverem,
Hão de todos unanimes rogar-te
Que o supplicio de Ignez logo decretes;
Pintar-te co'as mais negras, proprias côres
De Portugal a ruina, se o dilatas;
As dissensões crueis, a horrivel guerra,
Que a vingativa Hespanha vai mover-nos,
E de que os teus Vassallos, fatigados
Das recentes batalhas, já murmurão,
A Viuva, que o Esposo perdeo nellas,
Não quer perder agora o caro filho,
Nem o filho, que em lucto inda o Pai chora,
Desamparando a Mãi, expôr-se á morte.
Finalmente, Senhor, tudo te brada
Que sacrifiques huma a tantas vidas;
Que deixes ao futuro eterno exemplo,
Para que ninguem mais seduzir ouse,
Á imitação de Ignez, corações Regios.