Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 23 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena III.

Af. Se assim o exige o público socego,

O Conselho decida o que for justo,

Que eu afflicto não sei o que obrar deva.

Coel.(37) Que vejo! Ignez!.. He muito! Inda se atreve

A vir apparecer-te?.. Ah, melhor fôra

Retirar-te, Senhor, sem dar-lhe ouvidos.

(37) Avistando Ignez ainda fóra da Scena.

 

Af. Vamos, sim... Porém não, devo escuta-la.

Coel. Talvez os do Conselho já te esperem.

Af. Vai tu juntar-te a elles, que eu não tardo.

 

S III.

D. Affonso, Ignez, Elvira, e os meninos.

 

Ign. Chegai, filhos, chegai, vinde prostrar-vos

Aos pés de vosso Avô; vinde beijar-lhe

Pela primeira vez a Mão Augusta.(38)

Eis, ó Senhor, os filhos de teu filho,

Que vem com tristes lagrimas rogar-te,

Que desta triste Mãi te compadeças.

Chorai, chorai comigo, tristes filhos,

Intercedei por mim com vosso pranto,

Pranto mais expressivo do que as vozes,

Que a vossa tenra infancia não permitte:

Ajudai meus lamentos, minhas preces,

Impetrai meu perdão. Sim, Rei clemente,

Eis a Mãi desgraçada de teus Netos,

Que abraçada com elles te supplica,

Que a misérrima vida lhe conserves.

Sei que vai decretar-se o meu supplicio!

Alvo da intriga, victima da Inveja,

Temerosa, infeliz, desamparada,

A morte já diviso, a injusta morte,

Que raivosos, tyrannos Conselheiros,

Illudindo a piedade de tua alma,

Fulminão contra mim... Que atrocidade!..

Porque enormes delictos sou punida?..

Amar, Senhor, teu filho, ser amada,

Crime acaso será digno de morte?

Imploro, ouso attestar tua justiça.

Ah! Consulta, Senhor, tua clemencia,

Teu coração consulta, que elle mesmo

Te ha de dizer, que a morte nao mereço.

(38) Prostra-se com os meninos aos pés de Affonso, e Elvira se retira.

Af. Levanta-te, infeliz...(39) Oh Natureza!(40)

Oh de hum Monarcha rigidos deveres!..

Levanta-te, infeliz.(41) Funesta origem

Das crueis afflicções que me consternão...

Ao ver-te me enfureço,... e me commovo...

O Pai quer perdoar-te... o Rei não pode.

(39) Enternecido.

(40) Vai abraçar os netos, volta o rosto afflicto e exclama. (41) Levanta Ignez.

 

Ign. Ah Senhor! Perdoar aos desgraçados

He dos Reis o poder mais doce, e augusto:

Sim, do teu coração segue os impulsos;

Triunfe a compaixão, e a natureza,

Não te has de arrepender por ser piedoso;

Antes porém, se á morte me condemnas,

Hão de eternos remorsos flagellar-te,

Incessantes angustias consumir-te:

De Portugal a gloria, as esperanças

Vão sobre a minha campa espedaçar-se.

Verás por ti mandado á sepultura

Comigo, a teu pezar, descer teu filho.

Matando-me, Senhor, ah, vê que o matas!

Os nossos corações, unidos ambos,

Tão ligados estão, que o mesmo golpe

Que retalhar o meu, tràspassa o delle;

Existir hum sem outro não podemos...

Por elle, e não por mim t'imploro a vida.

Sim,(42) de rojo outra vez torno a abraçar-me

Com tuas Regias Plantas. Tem piedade

Da Esposa de teu filho. Ah, se não fossem

Estas doces prizões, que me constrangem

A viver infeliz, e amar a vida,

Longe de instar por ella, sem queixar-me,

Tranquilla recebêra o fatal golpe...