Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 26 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena VI.

Meus filhos onde estão?.. Quero inda vê-los...

Crueis, não m'os roubeis... Antes que morra,

Ao menos huma vez quero abraça-los...

Quem se atreve a arranca-los de meu peito?..

Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?..

Onde estás, que não vens em meu soccorro!..

Mas em vão... Já he tarde... a sepultura...

 

S VI.

Ignez, seus filhos, e Elvira.

 

Elv. Que vejo, oh Deos!(45)

(45) Corre para Ignez.

 

Ign. ................. Abertos os abysmos...(46)

(46) Delirante ainda.

 

Elv. Ignez... (que magoa!) Ignez...

Ign. .... Que!.. Quem me chama?..

És tu, Constança, És tu, que vens ainda

Da habitação da morte perseguir-me?

Elv. Torna, Senhora, em ti... Já não conheces,

Não vês a triste Elvira?..

Ign. .................... Quem!.. Elvira...

És tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?

Elv. Mitigar tua dor, chamar-te á vida.

Os alentos recobra, as esperanças:

Serás inda feliz, verás em breve

Trocados em prazer os teus pezares.

Ign. Prazeres para mim!.. ah!..

Elv. ....................... Que! Não viste

As lagrimas do Rei, que o teu indulto

No enternecido aspecto promettia?

Ign. Qual quimerico indulto!.. Nada esperes:

Que importão suas lagrimas, que importa

Que perdoar-me queira, sé o rodêão

Vís Cortezão, escandalo do Throno,

Algozes da innocencia, féros monstros,

Sedentos do meu sangue, que ardilosos

Seu coração benigno senhorêão?

Elvira, a minha morte he infallivel;

Pouco pode tardar: antes que chegue,

Toma, toma estes orphãos innocentes,

Conduze-os á prizão ao meu Esposo;

Entrega ao triste Pai os tristes filhos,

E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que faço?..

Retalhar quero do consorte o peito?

(Co'a noticia fatal da minha morte

O mortifero golpe antecipar-lhe?..

Ah, não; bem basta que de dor expire.

Quando entrar nesta lugubre morada,

Onde, chamando em vão a extincta Esposa,

Tristes eccos somente lhe respondão;

E tintas as paredes do meu sangue,

Luctuosos vestigios da consorte

A cada passo espavorido encontre.

Então, Elvira, então he que eu te rogo

Lhe digas...(47) Ah, parece que ouço passos...

Serão talvez meus barbaros verdugos...

Que cheios de furor, ardendo em raiva

Venhão cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!..

Ei-los que chegão... não m'engano... Elvira!

Vamos na minha Camara encerrar-nos:

Já melhor poderei recommendar-te

O que exijo de ti; sim, vamos, filhos,

Quero morrer ao menos junto ao leito,

Que tem sido até agora testemunha

D'envenenados, rapidos prazeres,

Dos continuos remorsos do meu crime,

Das minhas afflicções, e do meu pranto.

(47) Olhando atemorizada em volta da Scena.