Nova Castro: tragedia
Scena VI.
Meus filhos onde estão?.. Quero inda vê-los...
Crueis, não m'os roubeis... Antes que morra,
Ao menos huma vez quero abraça-los...
Quem se atreve a arranca-los de meu peito?..
Ah barbaros!.. Meu sangue... Esposo? Esposo?..
Onde estás, que não vens em meu soccorro!..
Mas em vão... Já he tarde... a sepultura...
S VI.
Ignez, seus filhos, e Elvira.
Elv. Que vejo, oh Deos!(45)
(45) Corre para Ignez.
Ign. ................. Abertos os abysmos...(46)
(46) Delirante ainda.
Elv. Ignez... (que magoa!) Ignez...
Ign. .... Que!.. Quem me chama?..
És tu, Constança, És tu, que vens ainda
Da habitação da morte perseguir-me?
Elv. Torna, Senhora, em ti... Já não conheces,
Não vês a triste Elvira?..
Ign. .................... Quem!.. Elvira...
És tu? Aonde estou?.. Ah, que me queres?
Elv. Mitigar tua dor, chamar-te á vida.
Os alentos recobra, as esperanças:
Serás inda feliz, verás em breve
Trocados em prazer os teus pezares.
Ign. Prazeres para mim!.. ah!..
Elv. ....................... Que! Não viste
As lagrimas do Rei, que o teu indulto
No enternecido aspecto promettia?
Ign. Qual quimerico indulto!.. Nada esperes:
Que importão suas lagrimas, que importa
Que perdoar-me queira, sé o rodêão
Vís Cortezão, escandalo do Throno,
Algozes da innocencia, féros monstros,
Sedentos do meu sangue, que ardilosos
Seu coração benigno senhorêão?
Elvira, a minha morte he infallivel;
Pouco pode tardar: antes que chegue,
Toma, toma estes orphãos innocentes,
Conduze-os á prizão ao meu Esposo;
Entrega ao triste Pai os tristes filhos,
E dize-lhe que Ignez... Mas ah, que faço?..
Retalhar quero do consorte o peito?
(Co'a noticia fatal da minha morte
O mortifero golpe antecipar-lhe?..
Ah, não; bem basta que de dor expire.
Quando entrar nesta lugubre morada,
Onde, chamando em vão a extincta Esposa,
Tristes eccos somente lhe respondão;
E tintas as paredes do meu sangue,
Luctuosos vestigios da consorte
A cada passo espavorido encontre.
Então, Elvira, então he que eu te rogo
Lhe digas...(47) Ah, parece que ouço passos...
Serão talvez meus barbaros verdugos...
Que cheios de furor, ardendo em raiva
Venhão cevar-se no meu sangue?.. Ai triste!..
Ei-los que chegão... não m'engano... Elvira!
Vamos na minha Camara encerrar-nos:
Já melhor poderei recommendar-te
O que exijo de ti; sim, vamos, filhos,
Quero morrer ao menos junto ao leito,
Que tem sido até agora testemunha
D'envenenados, rapidos prazeres,
Dos continuos remorsos do meu crime,
Das minhas afflicções, e do meu pranto.
(47) Olhando atemorizada em volta da Scena.