Nova Castro: tragedia
Acto IV.
S I.
Coelho, e Pacheco.
Coel. Vão decidir-se em fim nossos destinos:
Este o dia arriscado, em que a Fortuna
Segura mão nos dá, ou nos despenha:
Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos.
Resolutos a tudo, he necessario
Os p'rigos affrontar; deve hum Valído,
No cume da grandeza vigilante,
Aos Adversarios seus tramando a ruina,
Primeiro que o derrubem, derruba-los;
O futuro prever, prever a itriga,
E destro em conhece-la, e maneja-la,
A vida antes perder que o valimento.
Nosso plano atéqui tem produzido
O desejado effeito. Affonso irado,
O Principe em prizão, tudo parece
Prometter-nos hum exito ditoso.
Tens tu já prevenido, alliciado
Os poucos Conselheiros, que nos restão?
Constantes votarão de Ignez a morte?
Pach. Apenas lho propuz, m'o assegurárão;
Dependentes de nós em gráo mais baixo,
A hum leve aceno autómatos flexiveis,
Eccos da nossa voz, a nosso grado
Amoldando-se a tudo, a tudo prestes,
Servir nossos caprichos tem por gloria.
Entre todos D. Sancho unicamente
Velho estoico, singelo em demasia,
Que as honras, e os empregos menoscaba,
Poderá combater nossos designios;
Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa
Igualmente que nós d'Ignez na morte,
Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.
Coel. Desnecessario he, que, encarregado
Da guarda de D. Pedro, elle não pode
Ao Conselho assistir. Nada mais resta
Do que azedar a cólera de Affonso,
Dar-lhe a beber na taça da Justiça
Adoçado veneno, que o perturbe,
E a voz da compaixão d'alma lhe affaste.
Convém não perder tempo: aproveitemos
Propicia occasião, que fugir pode:
Vamos...
Pach.(35) Espera...
(35) Pensativo.
Coel. ............ Que! tu desfalleces!
Pach. Confesso que algum tanto perturbado
O coração não sei que me annuncia...
Calculemos melhor sobre o futuro.
Inda mesmo suppondo inevitavel,
Suscitada por nós, de Castro a morte,
He de temer que o Principe ferido
Na parte mais sensivel da sua alma,
Raivando inexoravel, desesp'rado,
Sobre nós descarregue atroz vingança.
Quem poderá suster?..
Coel. .............. Tarde receias:
Nas bordas já do aberto precipicio,
He preciso transpo-lo, ou cahir nelle:
Retroceder o passo não podemos.
Assaz já sabe o Principe quaes sejão
As nossas intenções, nossos conselhos;
Seu odio contra nós he já sobejo.
Que lucraremos pois, se ora cobardes
Da começada empreza desistirmos?..
Apressar nossa ruina, exacerba-la?
Se foi razão bastante a conspirar-nos
Contra a vida de Ignez, justo receio
De ver hum dia alçada sobre o Throno
A Irmã de nossos feros inimigos,
Que em nosso damno então fartar podessem
A perpetua aversão que nos jurárão;
Se a nossa ruina assim era infallivel;
Quanto mais o será tendo attrahido
Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes
He somente o recurso que nos resta.
Morta Ignez, com o tempo talvez possa
O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se
Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve,
E, apagada a paixão, ver-nos sem odio.
Ou victima talvez d'amor infausto,
De saudades mirrado, não podendo
Sobreviver a Ignez idolatrada,
D'Ignez á sepultura a dor o arraste.
Affonso ha de entretanto defender-nos,
E se acaso abortarem finalmente
Nossos designios todos, então mesmo
Não me hei de arrepender de os ter forjado:
Antes quero morrer, inda o repito,