Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 21 de 36

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Nova Castro: tragedia

Acto IV.

 

 

S I.

Coelho, e Pacheco.

 

Coel. Vão decidir-se em fim nossos destinos:

Este o dia arriscado, em que a Fortuna

Segura mão nos dá, ou nos despenha:

Ou morre Ignez de Castro, ou nos perdemos.

Resolutos a tudo, he necessario

Os p'rigos affrontar; deve hum Valído,

No cume da grandeza vigilante,

Aos Adversarios seus tramando a ruina,

Primeiro que o derrubem, derruba-los;

O futuro prever, prever a itriga,

E destro em conhece-la, e maneja-la,

A vida antes perder que o valimento.

Nosso plano atéqui tem produzido

O desejado effeito. Affonso irado,

O Principe em prizão, tudo parece

Prometter-nos hum exito ditoso.

Tens tu já prevenido, alliciado

Os poucos Conselheiros, que nos restão?

Constantes votarão de Ignez a morte?

Pach. Apenas lho propuz, m'o assegurárão;

Dependentes de nós em gráo mais baixo,

A hum leve aceno autómatos flexiveis,

Eccos da nossa voz, a nosso grado

Amoldando-se a tudo, a tudo prestes,

Servir nossos caprichos tem por gloria.

Entre todos D. Sancho unicamente

Velho estoico, singelo em demasia,

Que as honras, e os empregos menoscaba,

Poderá combater nossos designios;

Mas Alvaro Gonçalves, que se int'ressa

Igualmente que nós d'Ignez na morte,

Se incumbio de sonda-lo, e persuadi-lo.

Coel. Desnecessario he, que, encarregado

Da guarda de D. Pedro, elle não pode

Ao Conselho assistir. Nada mais resta

Do que azedar a cólera de Affonso,

Dar-lhe a beber na taça da Justiça

Adoçado veneno, que o perturbe,

E a voz da compaixão d'alma lhe affaste.

Convém não perder tempo: aproveitemos

Propicia occasião, que fugir pode:

Vamos...

 

Pach.(35) Espera...

(35) Pensativo.

 

Coel. ............ Que! tu desfalleces!

Pach. Confesso que algum tanto perturbado

O coração não sei que me annuncia...

Calculemos melhor sobre o futuro.

Inda mesmo suppondo inevitavel,

Suscitada por nós, de Castro a morte,

He de temer que o Principe ferido

Na parte mais sensivel da sua alma,

Raivando inexoravel, desesp'rado,

Sobre nós descarregue atroz vingança.

Quem poderá suster?..

Coel. .............. Tarde receias:

Nas bordas já do aberto precipicio,

He preciso transpo-lo, ou cahir nelle:

Retroceder o passo não podemos.

Assaz já sabe o Principe quaes sejão

As nossas intenções, nossos conselhos;

Seu odio contra nós he já sobejo.

Que lucraremos pois, se ora cobardes

Da começada empreza desistirmos?..

Apressar nossa ruina, exacerba-la?

Se foi razão bastante a conspirar-nos

Contra a vida de Ignez, justo receio

De ver hum dia alçada sobre o Throno

A Irmã de nossos feros inimigos,

Que em nosso damno então fartar podessem

A perpetua aversão que nos jurárão;

Se a nossa ruina assim era infallivel;

Quanto mais o será tendo attrahido

Do Principe o rancor!.. Proseguir firmes

He somente o recurso que nos resta.

Morta Ignez, com o tempo talvez possa

O Principe, esquecendo-a, sujeitar-se

Ao Consorcio, que Affonso lhe prescreve,

E, apagada a paixão, ver-nos sem odio.

Ou victima talvez d'amor infausto,

De saudades mirrado, não podendo

Sobreviver a Ignez idolatrada,

D'Ignez á sepultura a dor o arraste.

Affonso ha de entretanto defender-nos,

E se acaso abortarem finalmente

Nossos designios todos, então mesmo

Não me hei de arrepender de os ter forjado:

Antes quero morrer, inda o repito,