Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 10 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena V.

Af. Seguirei teu conselho; porém antes

Já de brandura usando, já de ameaços,

Quero tentar o coração de Castro;

Vêr se a posso mover a que ella mesma

As chammas que accendeo apagar busque...

Mas ella para aqui já se encaminha.

 

S V.

D. Affonso, Ignez, Pacheco, e D. Nuno.(16)

(16) Pacheco afasta-se para o fundo da Scena, logo que Ignez se chega ao Rei, e D. Nuno que a conduz te retira.

 

Ign. Eu desfalleço... Oh Ceos... Excelso Affonso,

Permitte que a teus pés Ignez prostrada...(17)

(17) Prostra-se aos pés do Rei.

 

Af. Levanta-te, ardilosa. Não he digna

De beijar a Mão Regia huma vassalla,

Que a perpetrar se atreve altos delictos.

Ign. Eu perpetrar delictos! Quaes são elles?

Fiel sempre ao meu Rei, vassalla humilde,

Ignoro em que offendesse a Magestade.

Af.(18) Além de criminosa, inda impostora!..

A fallaz artificio em vão recorres.

De sobejo sciente do teu crime.

Tua simulação mais me enfurece:

Ousarás tu negar que amas meu filho?

(18) Contemplando-a iroso.

Ign. Não, Senhor, a nega-lo não me atrevo...

Nem, por mais que eu quizesse, poderia

Deixar de confessar o que os meus olhos,

O rubor de meu rosto assaz te explicão:

Sim, se he delicto amar, e ser amada,

Meu coração, Senhor, he criminoso...

Mas eu não sou culpada.

Af. .................. Que proferes?

Se confessas tu mesma o teu delicto,

Dizes não ser culpada?

Ign. ................ Sou ingenua.

Em chamar-me impostora te enganaste:

Tenho-te dicto assaz... e mais dissera,

Se licito me fosse.

Af. .............. Acaba, dize:

Que cegueira fatal, que louco arrojo,

Vãs, altivas idéas te inspirárão?

Como intentaste ousada ter imperio

No coração d'hum Principe? Não vias

A distancia empinada, inaccessivel,

Que do teu berço vai ao Throno excelso?

Ign. Quando amante paixão nos predomina,

Offuscada a razão, a ninguem lembrão

As distincções fataes do berço, e sangue.

São iguaes ante amor os mortaes todos:

De virtude sómente se enamora

Huma alma virtuosa: só virtudes

Convidárão Ignez a amar teu filho.

Af. E atreves-te a fallar inda em virtude?

Não profanes palavra tão sagrada;

Antes dize que estólida esperança,

Avidez de reinar, te fez culpada.

Talvez da minha já cançada vida

Contando os longos importunos dias,

Te tardava o momento suspirado,

Em que, baixando Affonso á sepultura,

Vazio o Throno, aos teus desejos franco,

Te cingisse o Diadema a indigna fronte.

Ign. Que injustiça!.. Minha alma não conheces,

Não conheces de amor o desint'resse:

Quem ama, só deseja ser amado.

E a par de hum coração como o de Pedro,

Os Diademas que são? Que vale o Mundo?

Quem de seu terno peito o imperio obteve,

Mais imperio não quer: nem se deslumbrão

As almas grandes c'o esplendor do Throno.

Quando a amor succumbi, do Solio estava

Mais longe que o meu berço a minha idéa;

Por isso não medi como devêra

A declive distancia que os separa;

Mas hoje a vejo assaz, e mais deploro

A condição do Principe, que a minha;

Quizera que tivesse antes nascido

Vassallo o meu amante, que eu Princeza:

Longe de o cobiçar, detesto o Throno:

Nelle diviso só barreira odiosa,

Que entre peitos sensiveis sorte adversa

Alçou para que nunca unir-se possão...

Sei que sou infeliz... e o serei sempre.

Af. Podes inda evitar maior desgraça;

Quem logo que o conhece o crime atalha,

A innocencia recobra. Extingue, ó Castro,

As criminosas chammas que sopraste;

Quanto são detestaveis não ignoras,

E bem vês que nutri-las mais não podes.

Antes pois que do Principe te affastes,

(A tão graves delictos leve pena,

Que hum benigno Monarcha te destina)

Teu completo perdão merecer busca.

Tu mesma de seus erros o dissuade,

E o convence a cingir-se aos dignos laços

Do plausivel consorcio que lhe ordeno:

Concorre para o público socego,

Em vez de o perturbar: não exacerbes

Pertinaz em teu crime as minhas iras.

Teme o castigo atroz de que és credora,

Se ao coração do Principe as que urdiste

Prisões abominaveis não desatas.

Ign. Muito exiges de mim!.. Ah! Se eu podesse

As algemas romper que nos vinculão,

Só por te obedecer (crê-me) o fizera:

Mas como n'hum momento arrancar posso

Do peito de teu filho sentimentos,

Que amor, e sympathia originárão?

Para sempre deixar a terna amante,

E subito ir lançar-se em braços de outra!..

Se elle tivesse huma alma tão voluvel,

Por ama-lo increpada eu não seria?

Que proferi?.. Deliro... Oh Ceos... Perdôa...

Perdôa-me, Senhor, talvez o tempo...

Extinguir poderá... Não sei que digo.

Af. Basta: immudece já, mulher soberba.

De sobejo em tua alma tenho entrado.