Nova Castro: tragedia

João Baptista Gomes Júnior · Capítulo 35 de 36

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Nova Castro: tragedia

Scena X.[NT1]

Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me,

Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)

(68) Na mesma furiosa desesperação. (69) Parte furioso arrebatadamente da Scena.

 

Emb. Ah Principe, suspende! Mas quem póde

Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)

(70) Segue a D. Pedro.

 

Nun. Que espantoso tropel de horriveis males!..

Oh de cégas paixões funesto exemplo!..

Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..

De quanta compaixão são dignos ambos!..

Muito se amavão, desgraçados forão,

Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)

(71) Finda a Tragedia quando não ha coroação.

 

S X.[NT1]

D. Nuno, e D. Sancho.(72)

(72) Impaciente.

 

Nun. Onde corres?..

Sanc. ............ Oh Ceos!

Nun. ..................... Novos desastres

Acaso sobre nós envia o Fado?

Sanc. O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso,

Com força de pezar succumbe aos males,

E violenta paixão lhe arranca a vida.

Nun. Em que montão d'horrores nos abisma

O destino fatal!

Sanc. ......... Oh desventura!

O Principe me ordena que vos chame:

Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado

Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)

(73) Parte

 

Nun. Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma

Soffro as ancias crueis, a dôr mais ímpia!

 

Acto da Coroação para se representar no fim da Tragedia==Nova

Castro==de João Baptista Gomes.

 

A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não desculparia se existisse.--Nota do Editor.

 

Mutação.

Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma Coroa riquissima.

Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos,

Grandes, e Guardas Reaes.

D. Nun. Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade

Me permittio do tempo.

D. Ped. ............. Que impiedade!

He possivel, Ignez, oh dura sorte!..

Quem vida me dêo te désse a morte?!

A sacrilega mão, barbara, e fera,

Que o teu sangue verteo no duro effeito

Não cahio com o ferro? Oh quem podéra

Soldar a pura neve de teu peito!..

Quem podéra animar-te a luz perdida,

Repartindo comtigo a minha vida?!

Quaes serão os castigos acertados

Que excogite a lembrança desta scena

Contra estes deshumanos inimigos,

Sem lei, sem compaixão, e sem respeito?

Farei abrir com golpes mui profundos,

As espadoas a hum, a outro o peito;

E a seus mesmos olhos moribundos,

Que vírão este Sangue, desejára

Mostrar os corações, que os animára

A tão cruel, e aspera fereza,

Como abortos crueis da natureza

Para monstros indomitos gerados:

Choro, meu bem, a tua adversidade,

E vivo para minha saudade!..

D. Sanc. Aqui te outorgo a Corôa...

D. Ped. ....................... De outra sorte

Coroar-te intentei, fiel Consorte;

Mas preferio á gloria a tyrannia!..

E vós, meus caros, meus fieis Vassallos,

Reverentes beijai esta mão fria,

Que beijar deverieis n'outro estado,

Se tão impio não fosse o nosso fado.

D. Sanc. O primeiro sou eu, que esta mão bella

Reconheço da minha Soberana,

Com o respeito que devo a vós, e a ella. Beija-lha.

D. Nun. Com minha gratidão, e o meu respeito,

Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. O mesmo.

Os Grandes beijão-lhe a mão ao som de Musica, e no fim diz:

D. Ped. Esse Corpo gentil desanimado,

Mais na morte que em vida respeitado,

Depressa cobrir faze, Condestavel.

D. Sancho corre as cortinas.

A incumbencia do enterro vos entrego:

Com majestoso fausto veneravel

A levai a Alcobaça, e as estradas

De tochas estarão illuminadas;

E o mesmo esplendor fazer quizera

Se, como dezesete legoas são,

Dezesete mil fossem; pois venera

Tanto minha alma a essa cinza amada,

Que desejo exceder no magestoso

Aquella maravilha celebrada,

Que Artimizia erigio a seu esposo.

E vós, que ainda apezar do esquecimento

Recommendais com pranto merecido

Os amores de Ignez ao sentimento,

E seu nome ao respeito que he devido,

Com verso humilde aqui vos represento

O tragico infortunio desabrido,

Que aconteceo á misera mesquinha,

Que inda depois de morta foi Rainha.