Nova Castro: tragedia
Scena X.[NT1]
Oh furias! Oh vingança! Acompanhai-me,
Meus passos dirigi; guiai meu braço.(69)
(68) Na mesma furiosa desesperação. (69) Parte furioso arrebatadamente da Scena.
Emb. Ah Principe, suspende! Mas quem póde
Conter as furias, que lhe lutão n'alma!(70)
(70) Segue a D. Pedro.
Nun. Que espantoso tropel de horriveis males!..
Oh de cégas paixões funesto exemplo!..
Misero Esposo!.. Malfadada Castro!..
De quanta compaixão são dignos ambos!..
Muito se amavão, desgraçados forão,
Chore-os o Mundo, e de imita-los trema.(71)
(71) Finda a Tragedia quando não ha coroação.
S X.[NT1]
D. Nuno, e D. Sancho.(72)
(72) Impaciente.
Nun. Onde corres?..
Sanc. ............ Oh Ceos!
Nun. ..................... Novos desastres
Acaso sobre nós envia o Fado?
Sanc. O nosso Excelso Rei, o invicto Affonso,
Com força de pezar succumbe aos males,
E violenta paixão lhe arranca a vida.
Nun. Em que montão d'horrores nos abisma
O destino fatal!
Sanc. ......... Oh desventura!
O Principe me ordena que vos chame:
Vinde prestes, D. Nuno; elle turbado
Sente a falta d'hum Pai, da Esposa a perda.(73)
(73) Parte
Nun. Morreo em fim?.. Morreo! No centro d'alma
Soffro as ancias crueis, a dôr mais ímpia!
Acto da Coroação para se representar no fim da Tragedia==Nova
Castro==de João Baptista Gomes.
A lembrança de que muitas pessoas desejão vêr no fim daquella optima Tragedia huma Coroação, fez com que se imprimisse esta, apezar da falta de unidade que ha, o que forma hum erro Dramatico, que o seu Auctor não desculparia se existisse.--Nota do Editor.
Mutação.
Magnifica Sala com Docel, e Cadeira de espaldar no meio do Theatro, em a qual está D. Ignez assentada, e em lugar competente, e magnifico huma Coroa riquissima.
Sahem D. Pedro, D. Sancho, D. Nuno, Elvira, os dous Meninos,
Grandes, e Guardas Reaes.
D. Nun. Esta he a pompa, Senhor, que a brevidade
Me permittio do tempo.
D. Ped. ............. Que impiedade!
He possivel, Ignez, oh dura sorte!..
Quem vida me dêo te désse a morte?!
A sacrilega mão, barbara, e fera,
Que o teu sangue verteo no duro effeito
Não cahio com o ferro? Oh quem podéra
Soldar a pura neve de teu peito!..
Quem podéra animar-te a luz perdida,
Repartindo comtigo a minha vida?!
Quaes serão os castigos acertados
Que excogite a lembrança desta scena
Contra estes deshumanos inimigos,
Sem lei, sem compaixão, e sem respeito?
Farei abrir com golpes mui profundos,
As espadoas a hum, a outro o peito;
E a seus mesmos olhos moribundos,
Que vírão este Sangue, desejára
Mostrar os corações, que os animára
A tão cruel, e aspera fereza,
Como abortos crueis da natureza
Para monstros indomitos gerados:
Choro, meu bem, a tua adversidade,
E vivo para minha saudade!..
D. Sanc. Aqui te outorgo a Corôa...
D. Ped. ....................... De outra sorte
Coroar-te intentei, fiel Consorte;
Mas preferio á gloria a tyrannia!..
E vós, meus caros, meus fieis Vassallos,
Reverentes beijai esta mão fria,
Que beijar deverieis n'outro estado,
Se tão impio não fosse o nosso fado.
D. Sanc. O primeiro sou eu, que esta mão bella
Reconheço da minha Soberana,
Com o respeito que devo a vós, e a ella. Beija-lha.
D. Nun. Com minha gratidão, e o meu respeito,
Qual Vassallo fiel, cumpro o preceito. O mesmo.
Os Grandes beijão-lhe a mão ao som de Musica, e no fim diz:
D. Ped. Esse Corpo gentil desanimado,
Mais na morte que em vida respeitado,
Depressa cobrir faze, Condestavel.
D. Sancho corre as cortinas.
A incumbencia do enterro vos entrego:
Com majestoso fausto veneravel
A levai a Alcobaça, e as estradas
De tochas estarão illuminadas;
E o mesmo esplendor fazer quizera
Se, como dezesete legoas são,
Dezesete mil fossem; pois venera
Tanto minha alma a essa cinza amada,
Que desejo exceder no magestoso
Aquella maravilha celebrada,
Que Artimizia erigio a seu esposo.
E vós, que ainda apezar do esquecimento
Recommendais com pranto merecido
Os amores de Ignez ao sentimento,
E seu nome ao respeito que he devido,
Com verso humilde aqui vos represento
O tragico infortunio desabrido,
Que aconteceo á misera mesquinha,
Que inda depois de morta foi Rainha.