O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 1 de 23

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O Campeonato

Capítulo 1

 

Quando o diretor mandou me chamar, eu já sabia qual era o assunto.

Pode entrar, ele disse, eu com meio corpo dentro da sala, a porta entreaberta. Entrei de vez e fiquei esperando, em pé. Ele apontou a cadeira com um movimento quase imperceptível da cabeça, sem tirar os olhos do papel, no qual escrevia alguma coisa. Esperei.

Ficar sentado sem fazer nada, mesmo por pouco tempo, me dava aflição, sobretudo porque sabia que dentro da minha bolsa inseparável tinha um livro, justamente o livro que estava lendo sossegado no meu canto antes de a secretária me avisar que o diretor queria falar comigo. Odeio que interrompam minha leitura, mas afinal era o dr. Camargo me chamando, tive que ir.

Eu estava ali mas minha cabeça estava no romance que tinha parado de ler, um policial. Enfiei a mão na bolsa e fiquei segurando o pequeno volume. Olhei para o relógio na parede: quatro minutos, já estava sentado naquela cadeira por longos quatro minutos.

Isso é uma tortura, pensei, ele quer me torturar. Quando comecei a trabalhar na Biblioteca, a primeira coisa que o diretor me disse, antes mesmo de dizer bom-dia, aliás ele nem me deu bom-dia, foi: não é permitido ler durante o expediente. Claro, dr. Camargo, eu falei, mas fiquei chateado, trabalhar numa biblioteca e não poder ler? Sacanagem.

Pensei nas consequências de tirar o livro da bolsa e ler ali mesmo, na frente do diretor. Ele pode me espinafrar, pensei, mas isso ele vai fazer de qualquer jeito, ou mandar descontar do meu último salário, ou ligar pro meu irmão, coitado, que tinha me arranjado aquele emprego, era amigo do dr. Camargo, e dizer: grande débil mental você foi me arrumar. A última coisa que eu queria na vida era incomodar meu irmão.

Arrastei um pouco a cadeira, fazendo barulho. O dr. Camargo era um cara insuportável. Gostava de ser chamado assim, com o doutor antes do nome, tinha conseguido terminar a faculdade aos trancos e barrancos, nunca mais estudou na vida, foi se ajeitando, puxando saco dos outros, fazendo política, e agora era doutor. Grande merda. Conferi no relógio: cinco minutos.

Ele não gostou de eu ter feito barulho, ergueu os olhos ligeiramente, sem mover a cabeça, olhando por sobre os óculos pequenos, desses com correntinha presa ao pescoço. Continuou escrevendo.

Tinha deixado a bolsa no meu colo e sem que me desse conta minhas mãos já haviam ajeitado o livro numa posição que me permitia ler sem precisar tirá-lo da bolsa, bastava deixá-lo onde estava, aberto na página interrompida, e baixar um pouco os olhos, mirando na direção dos meus joelhos.

Se o diretor demorasse mais trinta segundos eu já sabia o que iria acontecer. Estava perdendo o controle da situação, sentia que a qualquer momento o livro saltaria da bolsa como se fosse um peixe. Precisava fazer alguma coisa, então mandei:

“Doutor Camargo, eu sei que o senhor...”

“Sabe o quê?”, ele falou, me olhando de frente e tirando os óculos do rosto num gesto brusco.

“Nada.”

“Senhor André”, era a primeira vez que me chamava de senhor, minhas pernas tremeram, “me diga uma coisa: o senhor tem diploma de bibliotecário?”

Cheguei a ensaiar uma resposta mas ele mesmo respondeu:

“Não, não tem. Tem alguma experiência, já fez estágio ou qualquer coisa assim? Não, nenhuma experiência. O senhor pelo menos já tinha entrado numa biblioteca pública antes? Nunca. Mas então como foi que o senhor veio parar aqui? Como, senhor André? Não sabe, então vou lhe responder: sorte, pura sorte. O senhor teve a sorte de ter um irmão que é amigo do diretor de uma biblioteca como esta, que pode lhe oferecer um bom salário mesmo o senhor sendo quem é, ou seja, ninguém!”

Foi difícil mas consegui ler quase um parágrafo inteiro enquanto o dr. Camargo me dava aquele esporro. Mantinha os olhos baixos, como se estivesse envergonhado do que fizera. Minhas mãos estavam dentro da bolsa e eu não olhava para os meus pés, como o dr. Camargo talvez pensasse, mas para a página aberta no ponto em que a leitura do romance fora interrompida. Se ele continuasse falando por mais um tempo quem sabe conseguisse chegar ao final da página.

“O que foi que eu lhe disse quando o senhor chegou aqui?”

Fiquei calado, esperando, e lendo. Felizmente ele fez uma pausa enorme, devia estar saboreando minha humilhação, o safado, uma pausa suficiente para que eu terminasse o parágrafo.Levantei os olhos levemente: seria possível virar a página? Dei azar porque, quando viu meus olhos, o dr. Camargo parece que ganhou mais energia e aumentou o tom de voz de tal maneira que me assustei e não tive como virar página nenhuma. Mas deixei o livro aberto.

Ele já não falava, rosnava em cima de mim:

“O senhor sabe. Pois bem, essa é a terceira vez, repare, não é a primeira nem a segunda, é a terceira vez que pego o senhor lendo durante o expediente. Estou errado?”

Permaneci em silêncio, tinha decidido não dizer mais uma palavra sequer.

“Chego no balcão e o que é que eu vejo? Um usuário esperando pra ser atendido, os outros funcionários ocupados e o senhor simplesmente lendo.”

Definitivamente, trabalhar numa biblioteca não tinha sido uma boa ideia.

O diretor parou um pouco. Respirou fundo, o rosto ainda vermelho, afogueado. Mais calmo, disse, numa voz de quase indiferença:

“O senhor está despedido.”

Fechei a bolsa e fui me levantando, sem dizer nada. Virei as costas, caminhei na direção da porta.

“Pode passar no DP e acertar suas contas”, ele falou quando eu já estava com a mão na maçaneta. Fingi que não tinha ouvido, ainda me restavam algumas migalhas de dignidade.

No Departamento de Pessoal uma velhota me entregou um cheque.

“Que sorte”, ela disse, consultando o relógio, “três e meia, ainda dá tempo de descontar hoje.”

Era a segunda pessoa naquele dia que me falava que eu tinha sorte. Não gostei. Desci as escadas correndo. Peguei o ônibus, saltei em frente ao banco, entrei, descontei o cheque. Fazia um calor terrível e eu só pensava numa coisa: cerveja.

Parei no primeiro bar, um boteco vagabundo no centro da cidade, duas mesas na parte de dentro, três na calçada, gente passando, ônibus, fumaça, barulho, não queria nem saber. Só tinha uma mesa vaga, como se bebe nesta cidade, meu Deus, quatro horas da tarde e aquele pé-sujo só tinha uma mesa vaga.

Sentei, pedi uma gelada, tirei o livro da bolsa. Aquele não era o melhor lugar para se ler um livro mas eu não escolhia lugar. Ajeitei o corpo na cadeira, enchi o copo, tomei um gole generoso e, antes de abrir meu romance, ainda falei bem alto, quase gritando: foda-se o dr. Camargo!

Ninguém entendeu nada.

 

***

 

“Sabe qual é o nome disso, você sabe qual é o nome disso?”, Raquel estava furiosa, quando ficava repetindo as coisas assim é porque estava furiosa, eu já sabia.

“Obsessão, conhece essa palavra: obsessão? Você é um obsessivo, André.”

Deixei que ela falasse. As mulheres precisam falar muito, é como respirar, elas passam mal quando não podem falar demais, é uma coisa orgânica, eu acho. Antes de continuar, Raquel foi até a mesinha de cabeceira, pegou um maço de cigarros, acendeu um, deu apenas um trago e apagou o cigarro no cinzeiro com raiva, num gesto exatamente igual ao da moça do filme que a gente tinha visto na noite anterior. Achei graça.

“Está rindo de quê? Você está rindo de quê, André?”

Raquel tinha entendido, percebi que não devia ter achado graça, fiquei sério de novo.

“Você sabia, André, que tem gente que trabalha a vida inteira sem nunca ser demitido, sabia disso? Você tem vinte e seis anos, André, está trabalhando só há dois anos e essa é a terceira vez que te mandam embora! Tudo bem, na Biblioteca pelo menos você demorou um pouco mais, já é um progresso, mas é normal alguém ser mandado embora de três empregos em dois anos, me responde, é normal?”

Eu não precisava responder.

“Não, não é normal. Se você bebesse em serviço, tudo bem, seria um motivo, foi demitido porque bebe demais, tudo bem, a gente procurava o Alcoólicos Anônimos, você fazia um tratamento. Mas não, não é esse o problema. Drogas? Não. Insônia, alguém que não te conhece poderia dizer: tem insônia durante a noite e dorme no trabalho. Também não. É briguento, mulherengo, desonesto? Nada disso. Então o que é?, perguntaria uma pessoa normal. O problema, meu senhor...”

Adorava quando Raquel fingia que estava falando com alguém e imitava a pessoa respondendo, mudava a voz, a fisionomia, me divertia muito, até esquecia que estava levando uma dura.

“O problema é que este cidadão lê durante o expediente. Isso, apenas isso, é um leitor compulsivo.”

Ela começou a chorar. Raquel era minha namorada, pretendíamos nos casar assim que eu me firmasse em algum emprego, mas estava difícil. Tudo por causa dos livros.

“Você, André, você...”

Ela falava e chorava ao mesmo tempo, era muito triste.

“Não tenho culpa se gosto de ler”, arrisquei.

Ela emendou de primeira:

“Você não gosta de ler. Quem gosta de ler lê em casa, ou na praia, ou no metrô, ou na...” Ela ia dizendo biblioteca. “Quem gosta de ler não deixa de trabalhar por causa disso, o seu problema, André, o seu problema é que você é viciado, entendeu, você é um doente!”

Aquilo doeu. Raquel percebeu que tinha ido um pouco longe demais, chegou perto de mim, sentou do meu lado, enxugou as lágrimas, me fez um carinho no rosto.

“Amanhã, meu amor”, ela me disse, “amanhã, nem adianta reclamar que eu já marquei, amanhã vamos ao doutor Epifânio de Morais Netto.”

Mais um doutor na minha vida, pensei, mas não disse.

 

***

 

A primeira coisa que reparei no consultório foi a limpeza.

Meu apartamento virou um chiqueiro depois que meus pais morreram. Deixava tudo jogado, louças na pia, lixo entupindo as lixeiras da cozinha e do banheiro, roupa suja largada pelos cantos, restos de comida no sofá, na cama, manchas de café e latas de cerveja por todo lugar.

Raquel tomava conta de mim. Não morávamos juntos mas ela dormia lá em casa alguns dias da semana e dava uma arrumação, lavava pratos, dizia sempre que eu precisava contratar uma faxineira, como se eu tivesse dinheiro sobrando.

Ainda assim era possível presenciar uma ou outra cena degradante, como a visão daquele meio copo de iogurte de morango, por exemplo. Raquel tinha viajado, o meio copo de iogurte ficou esquecido sobre a mesa da sala durante duas semanas, provocando o maior acúmulo de fungos e bactérias já registrado numa casa habitada.

Mesmo com toda a boa vontade de Raquel, às vezes eu pensava que tudo andava muito sujo: minha casa, minhas roupas, meu cabelo, minha vida.

O consultório tinha móveis claros, o sofá era coberto por uma manta azul transparente, o ar-refrigerado não fazia o menor barulho, os tapetes, a parede, a roupa da recepcionista, seu penteado em coque, o telefone, o teto, os quadros na parede, tudo irradiava limpeza. Qualquer inseto, qualquer micróbio miserável teria vergonha de estar ali. Eu não sabia o que iria acontecer comigo quando entrasse na sala do dr. Epifânio de Morais Netto mas estar sentado naquele sofá macio era o paraíso, poderia morrer naquele sofá. Morrer vendo os olhos verdes da secretária.

Eram esses olhos que eu fitava quando tocou um interfone sobre a mesa e ela atendeu.

“Sim, doutor. Podem entrar, por gentileza.”

Quando passei por ela tentei fazer um olhar diferente, uma expressão sedutora, o que não era nada fácil porque no fundo estava me sentindo ridículo por estar no consultório acompanhado da minha namorada, como uma criança indo ao médico com a mãe. A secretária devia estar pensando: que banana! Maluco e banana!

O dr. Epifânio de Morais Netto era um completo, perfeito, absoluto canastrão. “Ontem tinha foto dele no jornal”, Raquel havia dito, toda empolgada, quando chegávamos ao endereço do canastrão. Tinha dado entrevista na TV, foi capa de revista, era o terapeuta da moda.

Aquela consulta custara uma fortuna mas meu irmão tinha concordado em bancar o tratamento. Tinha certeza de que não precisava de droga de tratamento nenhum, não era um doente, apenas um cara que não gostava de trabalhar e detestava rotina, nada de anormal. Só estava ali por causa da Raquel. O amor é sacrifício.

Ele nos recebeu na porta, muito sorridente, elegante, perfumado, indicou duas poltronas, ofereceu café, água gelada, suco. Raquel aceitou um café, eu não quis nada. O doutor sentou no seu lugar e foi disparando um monte de perguntas. No começo eu mesmo respondia, expliquei o caso, dei detalhes. Ele ouvia, balançava a cabeça afirmativamente, fazia hã-hã, dava um risinho idiota.

Perguntou que tipo de livros eu costumava ler. Respondi que sempre gostara de ler ficção e vez ou outra alguma poesia. Não era ligado a jornais, revistas e sobretudo odiava livros de autoajuda. Ele já tinha publicado quinze livros de autoajuda e perguntou por que eu não gostava. Respondi que a vida real não me interessava.

“Não é bem assim, doutor”, Raquel interrompeu, explicando que era exagero da minha parte, eu não era tão lunático quanto parecia.

Doutor Epifânio coçou o queixo, pensativo.

De fato, não era bem assim, estava provocando o canastrão, mas havia uma dose de verdade no que havia dito. Lia as páginas de esporte de algum jornal, às vezes, mas meu vício era a literatura. E nos últimos dois anos tinha desenvolvido uma outra mania, uma espécie de mania específica dentro da mania geral: só lia história policial.

“Só história policial? E não enjoa?”

Fiquei olhando a cara gorda dele. Eu tinha me segurado o máximo para não ser grosso com o sujeito, não queria contrariar Raquel, mas dessa vez não foi possível, e eu disse:

“Se enjoasse, eu não estaria aqui.”

O doutor me encarou durante um tempo, sem dizer nada. Ficamos os dois calados, um de frente para o outro. Então ele disse: claro, e anotou qualquer coisa num papel.

Continuou perguntando, eu respondendo. Ele ouvia, balançava a cabeça, dava aquele risinho, como se dissesse: já conheço o tipo. Fui ficando nervoso.

Concluído o interrogatório, o dr. Epifânio passou a comentar, em linhas gerais, como fez questão de frisar, o meu caso. A cada duas palavras soltava um enfim. Se existe uma coisa que odeio nesse mundo é gente que diz enfim. Ele dizia: “Porque você veja, o seu caso, como direi... enfim.” Enfim o quê? Ele não tinha dito nada antes do enfim!

Ele falou enfim mais umas duzentas vezes, depois voltou a fazer perguntas. Aquela baboseira começou a me cansar, foi enfileirando um monte de nomes técnicos, alguns comentários pra lá de chavões, coisas decoradas, até um leigo como eu podia perceber que era tudo embromação, então desliguei. Ele perguntava e eu dizia “hem?”. Raquel odiava aquele meu “hem?”, que poderia ser traduzido literalmente por: não ouvi porcaria nenhuma do que você disse.

Raquel tomou a dianteira, passou a responder às perguntas no meu lugar e aí o dr. Epifânio mudou o tom da conversa, o canalha. Raquel era uma mulher bonita, loura, alta, o corpo perfeito, chamava a atenção em qualquer lugar em que entrasse. Sempre dei muito azar com mulher, só arrumava baranga, mas dei uma sorte danada com Raquel.

O dr. Epifânio botou mel na voz e no meio de uma e outra frase lançava aquele olhar asqueroso de velho safado em cima da Raquel. Ela continuou na dela, talvez nem tivesse reparado, ou achasse ridículo, continuou falando de mim, e eu só reparando no crápula, seus trejeitos, sua fala macia. Quando ele chamou Raquel de meu bem, me levantei e disse: por hoje chega.

Ele levou um susto, acho que tinha até esquecido que eu estava ali, e depois disse, cínico: como quiser, já estamos mesmo na hora.

Raquel ficou meio passada mas reagiu rápido, se levantou também, se despediu do doutor, toda gentil. Eu não falei nada, virei as costas, peguei a mão da Raquel e a carreguei para fora do consultório.

A secretária marcou dia e horário da próxima sessão, anotou tudo num papelzinho, Raquel guardou na bolsa. Eu ainda iria voltar outras vezes àquele lugar, ainda veria de novo aquele canalha, mas minha vontade era explodir o prédio inteiro.

Naquele momento tive certeza: tinha gente demais me dizendo o que fazer.

***

 

Estava cansado de receber ordens. Era meu irmão, o dr. Camargo, o dr. Epifânio de Morais Netto, a Raquel, estava de saco cheio!

Precisava de dinheiro, sim, mas não muito. Não pagava aluguel, tinha aquele apartamento, precisava de dinheiro, mas não queria me sujeitar às ordens de ninguém. Não era obrigado a aguentar as manias dos outros, já bastavam as minhas. Raquel eu aturava porque gostava dela, era minha namorada, e gostava do Augusto também, meu irmão, mas patrão nenhum iria mais me torrar a paciência.

Busquei uma saída. Sempre que estava com algum problema sério recorria a um método que eu mesmo inventara. Tratava-se de um questionário. Pegava uma folha e ia anotando perguntas e respostas, tratando a mim mesmo em terceira pessoa, como se fosse uma firma que tivesse sido contratada para resolver o meu caso.

Perguntava, por exemplo, qual é o seu problema?, e respondia, eu mesmo respondia: falta de dinheiro. Continuava com alguma bobagem do tipo: e como você gostaria de ganhar dinheiro? Trabalhando? Batendo carteira no centro da cidade? Assaltando banco? E a resposta: herança, preferia receber uma herança. O nível de idiotice das perguntas e das respostas variava conforme meu estado de espírito. Às vezes dava certo, quase sempre não.

Costumava responder ao questionário na mesa da sala. Antigamente era ali que jantávamos eu, meu pai, minha mãe, Augusto. Depois nós três, sem Augusto. Por fim, só eu. Aliás, nem eu, porque não jantava mais, à noite comia besteiras por aí, na rua, ou no meu quarto, vendo televisão. Estendia a toalha sobre a mesa, alisava bem, trazia o abajur. Quando tudo estava pronto, inclusive o caderno espiral, tamanho pequeno, e o lápis bem apontado, eu abria uma cerveja, tomava o primeiro gole, começava a escrever. Gostava daquele ritual, dava à minha tarefa um ar de seriedade.

Naquela noite estava inspirado. Já havia preenchido algumas páginas do caderno, pergunta resposta pergunta resposta, estava indo muito bem. De repente, sem pensar, lancei no papel a pergunta: afinal, o que você sabe fazer na vida?

Poderia ter sido a primeira. Uma firma que eu tivesse contratado teria perguntado isso logo de cara, mas no meu jogo a pergunta demorou a chegar e quando chegou foi um arraso.

Aquela pergunta arrebentou comigo. Fiquei horas diante do caderno, sem conseguir escrever mais uma linha, bebendo cerveja e olhando o branco do papel, bebendo e olhando, bebendo e olhando, até dormir com a cara na mesa.

Acordei de manhã, a campainha tocando. Era o porteiro, com a correspondência. Sempre pegava minha correspondência na expectativa de ver uma carta com meu nome escrito à mão no envelope, uma carta de alguém distante, de outra cidade, outro país. Era uma coisa estúpida porque não me correspondia com ninguém. A verdade é que só recebia contas. Daquela vez não foi diferente. Luz, gás, telefone, condomínio. Fiquei de pé, olhando aquilo e me perguntando onde arranjar dinheiro.

Pensava nisso quando um folheto caiu do meio dos papéis. Peguei, abri: curso de detetive por correspondência. Um mês. A cada semana você completava um módulo. Recebia apostilas com noções de Direito Criminal e Penal, além de questões específicas do trabalho de investigação. No final teria que fazer um teste, se tirasse oito estaria aprovado, receberia um certificado e uma carteira de Detetive Particular.

A solução para os meus problemas, pensei comigo, ainda grogue de cerveja e sono.

O curso não era muito caro, poderia pagar com os trocados que recebera da Biblioteca. Preenchi a ficha de inscrição. Depois tomei um banho, vesti uma roupa e fui até o correio. A sorte estava lançada.

O tempo passa rápido quando é bem vivido, minha mãe costumava dizer. Aquele mês demorou séculos, mas passou. Estudei feito um condenado, li apostilas infindáveis, cheias de erro de português. Elas iam chegando ao meu apartamento e eu as engolia feito remédio.

Fiz a tal prova. Oito e meio. No final me mandaram o certificado e uma carteirinha com meu nome e foto. Ficou bonito. Aquilo não me autorizava a entrar em locais de acesso restrito, não me dava direito a nenhuma regalia, mas foi o que consegui em um mês. Mandei emoldurar o certificado, colocaria na parede do apartamento quando aparecesse o primeiro cliente. Não era nada, mas podia impressionar algum incauto.

Além da chatice do curso, tive que aturar também uma sessão por semana com o dr. Epifânio. O gordo nojento era meu álibi, eu sabia que enquanto estivesse em tratamento meu irmão e minha namorada me deixariam em paz.

Na verdade, Augusto devia estar gostando de poder bancar meu tratamento, assim teria assunto na roda de amigos, no uísque de sexta-feira depois do expediente. Eu o imaginava no bar. No momento adequado, ele sempre sabia a hora exata de dizer as coisas, Augusto faria uma expressão de homem arrasado e diria, cabisbaixo, os olhos fixos no copo: estou muito preocupado com meu irmão. Um dos amigos perguntaria, num tom de camaradagem: o que foi dessa vez, Augusto? E ele responderia, grave: o moleque está fazendo tratamento com o doutor Epifânio de Morais Netto. Diria isso e daria mais um gole no uísque, sem olhar para os lados, curtindo a inveja dos outros que não tinham nenhum irmão fazendo tratamento com o doutor Epifânio de Morais Netto.

Ter conseguido diminuir meu ritmo de leitura de romances durante aquelas quatro semanas, em função do tormento de ler as apostilas do curso, provava que eu não era nenhum doente. Gostaria muito que Raquel e Augusto soubessem disso, mas eles não saberiam nunca.