O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 2 de 23

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O Campeonato

Capítulo 2

 

“Por quê?”, o Gordo me perguntou, quando ainda estávamos ao telefone.

“Por quê? Porra, Gordo, qual a única coisa que eu sei fazer na vida?”

“Não tenho a mínima ideia.”

“Ler história policial, claro. Posso não saber nada de engenharia, medicina, direito, nem fazer conta de cabeça acho que eu sei mas você pode me perguntar qualquer coisa sobre sequestro, suborno, assassinato, sobre qualquer crime insolúvel que te dou as dicas na hora, os golpes, os macetes, as pistas falsas, sei disso tudo, li tudo nos livros.”

Ele fez uma pausa.

“Não vai dar certo.”

“Claro que vai.”

“Claro que não. Está na cara que não vai dar certo.”

Eu não estava muito a fim de discutir. Contei pra ele que tinha feito o curso, já estava com certificado e carteira.

“Você fez um curso de detetive por correspondência?Quando?”

“Mês passado.”

“E não me contou nada? A gente bebeu várias vezes no mês passado e você não me contou nada?”

“Você não é minha namorada, Gordo. Aliás, nem pra Raquel eu contei, mas não interessa, você vai me ajudar ou não?”

Marcamos de nos encontrar no Bar Brasil, centro da cidade, às seis e meia. O Gordo entendia tudo de romance policial, e era mais disciplinado, tinha método, estudava o assunto. Se quisesse, já teria escrito um livro sobre o tema, mas fazia apenas por prazer, lia e pesquisava pelo mais puro prazer. E tinha uma qualidade que me faltava: disciplina. No fundo, sempre invejei o fato de ele trabalhar numa livraria oito horas por dia, de segunda a sexta, e não ler nunca, absolutamente nunca, em serviço. Admirável.

Éramos amigos antigos, desde os tempos da faculdade de Direito, que comecei e larguei. Ele continuou, concluiu o curso, colou grau, mas nunca exerceu a profissão.

Cheguei mais cedo, escolhi uma mesa de canto, no fundo do bar, pedi um chope. Alguns minutos depois o Gordo chegou.

“Já tenho a solução para o seu problema”, ele foi logo dizendo, ainda em pé.

Meia hora antes o cara tinha me dito que meu plano não ia dar certo, agora chegava na minha frente dizendo que já tinha solucionado o problema. Sentou, deixou sobre a mesa uma pasta de plástico, pediu um chope.

“Anúncio nos jornais”, ele disse, matando metade do chope.

O Gordo estava cada vez mais gordo, devia estar beirando os cem quilos. Era meio barrigudo nos tempos da faculdade, mas virou gordo mesmo, de corpo inteiro. Continuou:

“É por aí que você deve começar. Você lê os classificados?”

Ele devia estar ficando velho, memória fraca, essas coisas.

“Tinha esquecido, você não lê jornal. Primeiro erro: não lê jornal. Erro gravíssimo, diga-se de passagem.”

Eu sabia o que ele iria dizer em seguida: o conto de Poe.

“Mire-se no exemplo de Poe, meu amigo. O que acontece no conto de Poe, Os crimes da Rua Morgue? Dupin desvenda o crime lendo os jornais. Estou certo?”

“Em parte. Ele também visita o local do crime, recolhe pistas.”

“Correto, mas é lendo as notícias sobre o crime publicadas na imprensa, comparando as versões de cada jornal, que ele chega ao criminoso. E digo mais, o responsável pelo crime vai até Dupin, vai até a casa do próprio Dupin e confessa tudo, e como é que Dupin consegue essa proeza? Simples: colocando um anúncio no jornal. De acordo?”

“Tudo bem, Gordo, e o meu caso?”

Eu não tinha muito tempo pela frente.

“Sim, vou chegar lá, calma. Primeiro as necessidades da carne. Garçom!”

Pediu mais um chope, outro pra mim.

“E kassler com salada de batata”, completou.

“Por que você não diz costeleta defumada com salada de batata? Por que tem que dizer kassler?”

“Porque é o nome do prato.”

“Você não é alemão.”

“Tudo bem, quando for ao McDonald’s você vai pedir sanduíche de carne moída prensada em forma de bife com queijo derretido, e não um cheeseburger.”

“É diferente.”

“Por que é diferente?”

“Porque sim, é outra coisa, é diferente.”

“Não vamos discutir.”

O Gordo abriu a pasta.

“Dá uma olhada nisso aqui, André.”

Eram vários recortes de jornal.

“Tem anúncio do Dia, do Globo, JB, Balcão. Foi o que deu pra providenciar”, ele disse.

Dei uma olhada nos recortes.

“Que tal?”

“Como tem detetive especializado em casos de adultério, Gordo, é impressionante.”

“E você queria o quê? As pessoas traem, meu caro, homem, mulher, todo mundo trai, não salva ninguém. Você, por exemplo, nunca traiu a Raquel?”

“Não, nunca traí.”

Não estava mentindo, eu jamais tinha traído minha namorada.

“Porque não teve oportunidade.”

 

***

DETETIVE ANDRÉ

Infidelidade. Localização.

Investigações gerais.

Sigilo e eficiência.

 

E, logo abaixo, meu telefone e endereço. O Gordo ficou olhando o papel, pensativo. Tínhamos levado horas discutindo até chegar àquele mísero anúncio.

“Ainda falta alguma coisa.”

“Falta o quê?”, eu disse, já perdendo a paciência.

“Não sei. Algo que dê um toque diferente. Seu anúncio não pode ser igual ao dos outros. Vejamos, o que você tem de diferente de um detetive comum?”

Era uma pergunta absurda.

“Você está me gozando?”

“Não, senhor. Responde.”

“O que eu tenho de diferente? Tudo! Inexperiente,preguiçoso, medroso, odeio me meter na vida dos outros.”

“Além de inseguro.”

“Justamente.”

O Gordo não desanimou:

“Mas você gosta de ler, é um intelectual. Duvido que qualquer detetive desses anúncios seja um intelectual. Você é uma espécie de Philo Vance.”

Eu não gostava do Philo Vance, o detetive das histórias do Van Dine, era um personagem esnobe, metido a besta, insuportável. O Gordo gostava.

“Eu não tenho nada a ver com aquele idiota.”

“Tudo bem, o que estou querendo dizer é que você só tem uma coisa que esses caras aí dos jornais não têm: você gosta de ler, e entende o que lê. Aliás, foi justamente por causa das suas leituras que você decidiu ser detetive, correto?”

“E daí? Você por acaso vai colocar no anúncio: detetive André, leitor de romances policiais?”

“Quase isso. Vou pensar numa frase, uma citação que deixe clara esta sua, digamos, qualidade diferencial.”

“Não vai funcionar. Lemos dezenas de anúncios nesses jornais todos, você viu algum com citação?”

Ele ignorou a pergunta.

“Já descobri a citação. Perfeito!”

“Qual é?”

“Uma frase do nosso amigo Dupin: ‘Meu objetivo final é apenas a verdade.’ Pode colocar aí, depois dê um espaço e acrescente: Edgar Allan Poe.”

Com um anúncio daqueles eu estava era ferrado. Ainda assim, anotei no papel a frase de Poe. O Gordo continuou no seu delírio:

“Nada mais pertinente você estrear como detetive usando uma frase do primeiro detetive.”

“Ele não foi o primeiro.”

“Pra mim foi, e pra muita gente também. Esse negócio de dizer que o Zadig, de Voltaire, foi o primeiro detetive é balela, conversa-fiada. O primeiro detetive é Dupin, e pede mais um chope que estou morrendo de sede.”

Pedi dois.

Já tínhamos terminado o nosso trabalho daquela noite. Bem ou mal ali estava o anúncio, pronto para ser enviado aos jornais no dia seguinte. Se daria certo ou não, só vendo. Mas o Gordo estava inspirado. Na falta do que fazer, começou a devanear:

“Como você acha que seria um anúncio nos classificados escrito pelo Sherlock Holmes?”

“Nem imagino.”

“E pelo Poirot?”

“Nem Holmes nem Poirot precisaram colocar anúncios nos jornais.”

“Concordo, você tem razão, eles tinham outros recursos. Mas pensemos nos americanos, então: Spade, Mike Hammer, Marlowe, Ellery Queen, Nero Wolfe.”

“Nero Wolfe diria: se você precisa de um detetive que saia de casa, enfrente o trânsito, suba em telhados... não conte comigo.”

“Perfeito”, ele disse, batendo com força na mesa e rindo alto.

Continuou:

“E os padres, André, como seria um anúncio de um detetive padre? O padre Brown, de Chesterton, por exemplo, ou o David Small, de Kemelman?”

“David Small era rabino.”

“Rabino, padre, é tudo a mesma coisa”, sentenciou o Gordo, secando o copo.

Saímos do Bar Brasil por volta de nove e meia. Fomos caminhando até a Riachuelo, onde o Gordo morava. Nos despedimos e segui andando, na direção da Lapa. Eu gostava de caminhar pelas ruas do centro à noite, depois das dez, onze horas. Sabia do perigo, mas me arriscava.

Gostava de observar os travestis, ficava pensando como aguentavam ficar quase pelados na rua quando fazia frio. Precisavam mostrar as pernas, a bunda, os peitos, não podiam se dar ao luxo de ficar na rua cheios de roupa. “Nas noites de frio eles passam óleo nas pernas, dizem que esquenta”, o Gordo me falou uma vez, mas o Gordo não entende droga nenhuma de travesti.

Fui andando até o ponto de ônibus, no Passeio. Já tinha ido para casa a pé, era longe à beça mas por duas vezes fui andando do Passeio até Copacabana. Precisava fazer isso de novo qualquer hora dessas. Naquela noite não ia dar, queria pegar logo o ônibus, chegar cedo em casa, na manhã seguinte precisava colocar o anúncio nos jornais.

 

***

 

Eram duas horas da tarde, tinha acabado de almoçar e decidira ler um pouco na minha sala, agora escritório. O Gordo sugeriu que eu alugasse uma sala comercial, mas logo depois ele mesmo viu que não seria uma boa ideia, duro como eu estava. E, além disso, se Nero Wolf atendia em sua própria casa, por que eu não poderia?

Fora obrigado a fazer algumas modificações no ambiente, poucas, não queria dar muito na vista. Arrumei na estante um monte de livros de Direito que o Augusto não usava mais e estavam entupindo o meu quarto. Bati um prego na parede. Meu certificado do curso de detetive, devidamente emoldurado, ficava guardado na gaveta da escrivaninha, não queria que Raquel nem Augusto vissem aquilo, mas assim que aparecesse o primeiro cliente o certificado estaria pendurado naquele prego.

Dei uma arrumada na sala, que agora, sob esforço supremo de minha parte, permanecia sempre em ordem, decente. Também coloquei no canto um pequeno armário de aço, meio velho, que o Gordo me arranjou e que não tinha nada dentro, puro cenário. “Você já viu um escritório de detetive particular sem um velho armário de aço cheio de gavetas?”, ele perguntou, desembarcando com o trambolho na portaria do meu prédio.

Fazia exatamente uma semana que eu colocara o anúncio e até então ninguém se dignara a me procurar. Tinha mandado fazer cartões com meu nome, endereço, telefone. O pacote com os cartões repousava intacto na gaveta.

Era uma tarde quente. O ventilador de teto ficava ligado no máximo e nas primeiras páginas do romance cochilei, até dormir de vez, sentado à mesa, o corpo curvado, a cabeça recostada no livro aberto.

Começava muito monótona minha vida de detetive, nada daquilo que sempre lia nos livros: ação, morte, sexo, aventura. Passava as tardes assim, dormindo em cima de um romance, babando nas páginas. Era patético.

Mas naquele dia, logo depois do almoço, o telefone tocou, interrompendo meu sono profundo. Atendi meio zonzo:

“Gostaria de falar com o detetive André, por gentileza.”

Voz de homem.

“É ele.”

“Estou precisando dos seus serviços. Podemos conversar ainda hoje?”

Deu vontade de rir.

“Creio que sim.”

“A que horas?”

“Que tal agora?”

Silêncio. Eu devia aprender a me valorizar um pouco mais.

“Perfeito.”

“O senhor sabe o endereço do escritório?”

“Não, no escritório não, é muito arriscado.”

“Arriscado?”

Combinamos que ele me pegaria no calçadão de Copacabana, altura do Posto 4, em trinta minutos.

“Como vou reconhecê-lo?”, perguntei.

“Você vai saber na hora, não vai ter dúvida.”

“Bom, eu vou estar de calça jeans e...”

“Não precisa me dizer como vai estar, eu sei quem você é.”

Aquilo podia ser um trote, devia ser um trote, mas eu não estava em condições de recusar trabalho.

“Tudo bem.”

Ele ainda fez uma pausa antes de concluir, numa voz dramática:

“Preciso muito da sua ajuda.”

E desligou.

***

 

Mal podia acreditar: um cliente. Tinha ainda bastante tempo antes do encontro mas me veio à cabeça uma coisa maluca, a intuição de que o cliente poderia ligar logo em seguida dizendo mudei de ideia, não quero mais os seus serviços, e para evitar a tragédia preferi ligar a secretária e sair logo de casa. Não era uma estratégia muito inteligente mas não estava a fim de pensar. Saí.

Fiquei perambulando por Copacabana, vendo o comércio. No horário combinado lá estava eu, num sol de rachar. Vi o carro se aproximar e reduzir a velocidade até encostar bem à minha frente. O motorista saiu do carro, deu a volta, abriu a porta de trás. Entrei.

“Boa-tarde”, ele me disse, num tom de voz amigável.

Apertei sua mão enquanto nos olhávamos, um analisando o outro.

“Boa-tarde, senhor…”, eu disse, sem saber ainda o nome do meu cliente.

Ele sorriu. Era um homem forte, devia ser alto, o corpo atlético, queimado de sol, os cabelos castanhos, bem cuidados, olhos azuis. Quarenta e cinco anos, chutei, talvez tivesse mais e aparentasse menos, depois de décadas de malhação na academia, boa alimentação, tratamento de pele, essas coisas que fazem os ricos parecerem mais jovens. Lembrava um galã de filme americano, desses coroas que comem todas as mulheres. Bem-vestido, num terno cinza-claro impecável, um perfume suave, o tipo do cara bem-sucedido.

“Montenegro, pode me chamar de Montenegro. Aceita uma bebida?”

Aceitei.

“Gelo?”, ele perguntou, abrindo uma portinha à sua frente e pegando, no bar do carro, uma garrafa de uísque.

“Pode ser”, respondi, tentando olhar nos seus olhos.

Me entregou o copo, preparou outra dose. Bebemos, em silêncio. Pouco depois ele apertou um botão, colocado logo acima da porta do bar, e uma janela de aço subiu até o teto do carro, nos isolando da parte onde estava o motorista.

“Pronto, podemos conversar em paz.”

“Não sem antes saber aonde estamos indo.”

“Não se preocupe, na verdade não vamos a lugar algum. Dei ordem ao motorista para dirigir por aí, sem destino. É mais seguro.”

Era uma situação insólita: um cara me liga, quer me contratar, não pode me encontrar num lugar fixo, não sei nada sobre ele mas ele diz que já me conhece, é cheio da grana e vai procurar um anúncio vagabundo num jornal, entramos no carrão dele e saímos a rodar feito dois namoradinhos apaixonados, bebericando uísque. Alguma coisa não estava certa.

“E então, qual é o problema?”, eu disse, cortando o silêncio.

“Estava reparando... como você é jovem!”

Mau começo, pensei comigo. Não devia ter entrado nessa, eu sabia, não é profissão para iniciantes.

“Exatamente como eu queria”, ele disse.

Não consegui disfarçar minha surpresa.

“É casado?”, perguntou.

Procurei alguma insinuação na voz dele. Só me faltava o cara ser gay.

“Não.”

“Tem namorada.”

“Tenho.”

“E pretende se casar um dia, ter filhos.”

“Ainda não sei, vamos ver.”

Ele se ajeitou no banco, olhou a rua. Olhei para ele. Tinha um olhar distante, triste. Depois de um tempo assim começou a falar, sem tirar os olhos da paisagem que víamos da janela.

“Quando eu e minha esposa nos casamos, nosso sonho era ter muitos filhos, uma família grande, e netos, sempre quis ter uma casa cheia de crianças, depois as crianças crescendo, virando adolescentes. E mais tarde os filhos dos filhos, a casa novamente viva, alegre, cheia, sempre sonhamos com isso, minha mulher e eu. Seus pais são vivos?”

“Não, já morreram, faz dois anos.”

“Sinto muito. É uma perda irreparável, de fato. Eu...”

Ele engasgou, parecia querer chorar. Controlou-se.

“O tempo, meu jovem, o tempo é um deus fascinante, e cruel.”

Aquilo já estava me cansando. Fiz uma cara de impaciência. Ele não notou, acho.

“Não tivemos muitos filhos. Na verdade tivemos um, apenas um. Mas nosso filho substituiu todos os outros, não sei se você me entende.”

Assenti com a cabeça.

“Substituiu os que não tivemos, ficou no lugar deles, e dos netos. Consegue imaginar o que seja isso, detetive, uma pessoa ocupar o lugar de outras pessoas?”

“Não.”

“Pois o nosso filho conseguiu essa proeza. Durante anos ele foi os filhos e netos que sonhamos pra nós, foi a casa cheia aos domingos. Meu filho era a nossa maior, nossa única verdadeira alegria.”

“Era?”

“Era, não é mais.”

“Desculpe a pergunta mas seu filho morreu?”

“Não sei.”

Esperei uma explicação. O homem parecia ter passado por muitas coisas na vida. Deve ter sofrido o diabo, pensei. Fiquei imaginando as possibilidades: o filho tinha virado um viciado em drogas, ou um traficante, quem sabe um assaltante qualquer, batedor de carteira, ou se prostituíra, ou tinha fugido com o bandido boliviano, como naquela peça do Nelson Rodrigues. Eu delirava, pensando as piores barbaridades que pudessem ter acontecido com o garoto: tinha ficado paraplégico, perdera a memória depois de uma pancada na cabeça, tinha transado com a professora que agora estava grávida e queria casar.

“Meu filho sumiu, desapareceu.”

“Sumiu? Sumiu como?”

Ele não respondeu diretamente.

“Sabe, detetive, algumas pessoas não gostam de mim.”

“Inimigos? O senhor tem inimigos?”

“Não usaria uma palavra tão banal. Diria que são pessoas, uma ou duas pessoas, que preferiam que eu, como direi, não estivesse aqui, nesse carro, conversando com você, mas noutro lugar, quem sabe sete palmos debaixo da terra.”

“E por que essas pessoas não gostam do senhor?”

“Vai você querer entender a alma humana, meu jovem. Há vários motivos pra não se gostar de alguém. Inveja, ciúme, vaidade, tanta coisa.”

O coroa não era fácil. Senti que o meu primeiro caso como detetive particular não seria exatamente uma moleza.

“O senhor acredita que seu filho foi sequestrado, é isso?”

“Acredito.”

“Quando foi que ele sumiu?”

“Há três semanas. A última vez que o vi ele estava saindo de casa pra encontrar alguns amigos no Baixo Gávea. Era uma segunda-feira.”

“Qual a idade dele?”

“Quinze anos.”

“Usava drogas?”

“Não. Gostava de beber seu chope, moderadamente, mas nunca usou drogas.”

“Como pode ter certeza?”

“Conversávamos muito. Éramos amigos. Eu sabia que ele não usava drogas, aliás ninguém da turma dele.”

“Bom, ele saiu pra beber no Baixo Gávea, e daí?”

“Naquela noite não dormiu em casa. Fiquei preocupado, Pedro sempre avisava quando dormia fora de casa. De manhã tive que sair pro trabalho bem cedo, tinha uma reunião importante.”

“O senhor trabalha em quê?”

“Tenho algumas empresas.”

Ele falou isso na maior tranquilidade, como se dissesse: sou bancário, ou balconista.

“Algumas?”

“Sou um homem rico, detetive.”

“Empresas de quê?”

“Não se preocupe com minha vida, apenas me ouça.”

Deixei que ele continuasse. Aquilo tudo era muito estranho.

“Por volta de meio-dia, minha mulher me ligou. Pedro não havia chegado, nem à tarde. À noite percorri hospitais, necrotérios, cheguei em casa já de manhã, depois de correr a cidade toda. Nos dias seguintes continuei procurando meu filho, visitando lugares que ele costumava frequentar. Nada.”

“Foi à polícia?”

“Não.”

“Por quê?”

“Não quero a polícia envolvida nisso, tenho meus motivos. Além do que, seria perda de tempo, somem dezenas de pessoas todos os dias no Rio de Janeiro e a polícia é corrupta, incompetente e mal equipada. Contratei dois detetives particulares, dois profissionais, especialistas nesse tipo de caso, um de São Paulo, outro do Rio, trabalharam juntos.”

“E daí?”

“Competentes demais, profissionais demais, técnicos demais. Você me entende? Me apresentaram um relatório de mais de cem páginas, com números, gráficos, diagnósticos, hipóteses. Bobagens. Não souberam dizer onde estava meu filho.”

Fiquei pensando. Bebi mais um gole.

“Duas perguntas, doutor Montenegro.”

“Pois não.”

“Primeira: como é que pode o filho de um milionário sumir por três semanas e a notícia não sair em jornal nenhum? Os caras da imprensa adoram isso.”

“Eu não quis que saísse. Mandei dizer no colégio que ele tinha viajado. Os empregados da minha casa também acreditam que ele esteja no exterior.”

“E os amigos dele, ele não tem amigos, não tem uma namorada?”

“Meu rapaz, quando eu quero que algum segredo não vaze, ele não vaza. Fui claro?”, ele disse, fincando em mim os olhos azuis. Eu estava pegando pesado, melhor ir devagar.

“Segunda pergunta: por que o senhor resolveu procurar justo a mim?”

Ele me encarou, em silêncio. Depois continuou:

“Andei pesquisando sua vida.”

“Hã?”

“Não se assuste, decidi investigar sua vida assim que li o anúncio no jornal. Também gosto de Edgar Allan Poe.”

Me lembrei do Gordo, era ideia dele.

“Se o senhor já andou investigando a minha vida, por que perguntou se eu era casado? E se meus pais estão vivos?”

“Foi só uma maneira de começar nossa conversa, de introduzir o assunto. Eu sei que seus pais, infelizmente, já faleceram, e sei também que Raquel é apenas sua namorada, por enquanto.”

Ele sabia o nome da minha namorada. Quem é esse cara, onde é que fui me meter?, fiquei me perguntando, em silêncio.

“Intuição, meu jovem. Resolvi investigar você por intuição, e creio que agi corretamente. Sei que é iniciante, sei que precisa de dinheiro, e sei que é um jovem decente.”

Eu não sabia o que dizer.

“No meu ramo de negócios, aprendi logo cedo que a intuição é que faz a diferença. O conhecimento é importante, saber como anda o mercado, quem são os concorrentes, onde encontrar matéria-prima, tudo isso é importante, mas o fundamental, aquilo que diferencia um vencedor de um vencido é o faro, a intuição. Resolvi arriscar. Você não está envolvido com marginais, é um garoto honesto, além de não ter os vícios da profissão. Estou farto de profissionais. Você foi um bom filho, eu sei.”

Eu estava assustado e comovido, sempre me comovia quando falavam dos meus pais. Como aquele cara foi me encontrar? Deixei que falasse. Calado eu talvez me comprometesse menos.

“Decidi apostar todas as minhas fichas em você, André.Espero que não me decepcione.”

“Olha, doutor, confesso que estou um pouco confuso com tudo isso, e com medo também.”

“Não se preocupe, não lhe quero mal. Pelo contrário, já simpatizava com você antes mesmo de conhecê-lo, por isso o escolhi. E posso lhe afirmar que a simpatia se confirmou agora, com nossa conversa. Fique tranquilo, nada de mal vai lhe acontecer. De agora em diante serei responsável pela sua segurança. Enquanto estiver trabalhando pra mim, ninguém tocará um dedo em você.”

“E depois? Quando não estiver mais trabalhando pro senhor?”

“Escuta, meu querido, se você encontrar meu filho, este será seu último caso como detetive. Vai ter tanto dinheiro que nunca mais vai precisar trabalhar.”

Quis perguntar: e se eu não encontrar o garoto? Achei melhor ficar calado.

“E alguém já fez contato? Algum sequestrador?”

Ele sorriu, como se dissesse: bom menino. Eu acabara de aceitar o caso.

“As pessoas de quem desconfio não fariam contato assim tão cedo. Esperariam mais tempo, quem sabe um mês ou dois, para aumentar o meu sofrimento.”

“Bom, e o que o senhor quer de mim, exatamente?”

“O que quero de você? Ora, quero que traga meu filho de volta, é claro.”

Foi uma pergunta imbecil, a minha. Na verdade, queria perguntar era: como é que o senhor acha que vou conseguir trazer seu filho de volta?, o que seria uma pergunta mais imbecil ainda. Quase me esquecia de que era um detetive e detetives existem para essas coisas: investigar, descobrir, trazer os filhos de volta quando são sequestrados por inimigos perigosos. Mas eu ainda podia desistir.

“Tome”, ele disse, me entregando uma pasta de couro, e completou: “não desgrude dessa pasta, entendeu, garoto? E gaste o que for preciso. Ligarei daqui a dois dias.”

Senti um calafrio. Se pudesse, pulava do carro.

“Onde você quer ficar?”

“Aqui mesmo.”

“Não prefere ficar em casa? Estamos bem longe de Copacabana.”

“Não, pode me deixar aqui.”

“Como preferir. Mas tome cuidado!”

Ele apertou um interfone, ordenando ao motorista que parasse. O motorista parou, desceu do carro, abriu a porta. Nem me despedi do meu cliente, queria sair o mais rápido possível daquele carro.