O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 8 de 23

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O Campeonato

Capítulo 8

 

“Toma cuidado”, o Gordo me disse ao telefone.

“Gordo, lembra quando a gente jogava bola no Aterro, há uns quinhentos anos?”

“Lembro, te dei uma bola debaixo das pernas memorável.”

“E depois chutou pra fora. Errou um gol feito.”

“O que vale é a arte.”

Silêncio.

“André, você não vai ser esfaqueado, não vai levar um tiro nem nada. Só falei pra ter cuidado.”

“Eu sei.”

“Amanhã a gente se fala. Quero saber como foi a festa do sacripanta.”

Desliguei. Esqueci de perguntar onde ele estava quando liguei para a livraria. Também não contei da foto do Murilo Chaves que a Kate recebera. Minha cabeça não andava nada bem.

Fui pela rua carregando o terno que o Valdo Gomes tinha me arrumado. Parei noutro orelhão e liguei para Raquel.

“Quem é Mariana?”, ela foi logo perguntando.

“Hem?”

“Perguntei quem é essa piranha chamada Mariana.”

Tentei pensar em alguma coisa. Tinha lido num romance que nessas horas você deve negar, negar sempre.

“Ficou maluca, Raquel? Sei lá quem é Mariana.”

“Tinha um recado dela na sua secretária.”

“Hoje?”

Raquel bateu o telefone na minha cara.

Liguei de novo.

“Não quero falar com você.”

“Raquel, me escuta, por favor.”

“Vou te trair, está me ouvindo? Vou te trair, André.”

Desligou.

Eu tinha apagado os recados antes de sair de casa. Isso queria dizer que o recado que Raquel ouviu não tinha sido o do dia anterior. Mariana ligou hoje à tarde, depois que saí com Kate,Raquel passou lá em casa justamente nesse intervalo, acionou a secretária, ouviu o recado, foi o que deduzi.

Mariana poderia ter sido mais discreta, não precisava ter deixado o nome, pensei. Por outro lado, ela não sabia da existência de outra mulher na minha vida, eu tinha dito que não havia ninguém. Mentiras, eu estava ficando cansado de mentiras.

Liguei para Mariana. Ela mesma atendeu.

“Você me ligou?”, perguntei.

“Duas vezes.”

“Alguma coisa importante?”

“Saudade de você é uma coisa importante?”

Que voz. Se tem uma coisa que me atrai numa mulher é a voz, às vezes mais do que as pernas, a bunda, os seios, a pele, os olhos, o cabelo, a cintura, os pés, o sorriso, os lábios, a curva das panturrilhas. Sou maluco por vozes roucas, como a de Mariana. Já estava excitado só de ouvi-la ao telefone. Essa mulher ainda vai acabar comigo, pensei.

“Temos um compromisso hoje à noite”, eu disse.

“É mesmo?”

“Passo na sua casa às dez.”

“E aonde vamos, se não for segredo?”

“A uma festa no Alto. Uma festa de apoio ao Murilo Chaves.”

Pausa.

“Esperava um convite mais romântico.”

“Não era exatamente esse o programa que eu queria sugerir.”

“E é claro que você não vai me explicar por telefone.”

“Te conto tudo no caminho. Passo aí às dez.”

“Certo, mas com uma condição.”

“Qual?”

Nova pausa. Voz rouca:

“Não marque nenhum compromisso amanhã de manhã.”

Desligou. Ainda fiquei alguns segundos com o telefone na mão.

Continuei pela calçada. Estava cansado, suava. Devia ser chato usar um terno mas era muito pior carregá-lo pela rua num cabide.

Cheguei à portaria. O porteiro ficou olhando o terno na minha mão.

“O que foi? Nunca viu?”

Ele abaixou a cabeça. Iria contar tudo a Raquel, o vendido. Ela iria ficar sabendo que saí de terno, nunca usei terno antes, ela sabia, e aquilo só teria um significado na cabeça dela: mulher nova no pedaço, uma grã-fina com certeza.

Mas eu não tinha muito tempo para me preocupar com Raquel. Pretendia dormir um pouco antes de sair de casa novamente.

 

***

 

Fiquei me olhando no espelho. A barba feita, cabelo penteado, terno, gravata, até que não estava mal. Me lembrei das palavras do Montenegro: eu nunca iria querer usar outra coisa. No fundo ele tinha alguma razão. Tirando a gravata, que me incomodava um pouco, era confortável aquela roupa. Dava uma sensação de bem-estar, os sapatos macios, o tecido fino da calça, da camisa, o colete ajustando o corpo, e aquele paletó aconchegante arrematando o conjunto.

“Está parecendo uma debutante”, teria dito Sam Spade com um sorriso debochado nos lábios, se me visse ali diante do espelho por tanto tempo.

Chamei o táxi. Pedi um carro de luxo, não iria encontrar Mariana de terno e gravata no interior de uma lata velha caindo aos pedaços.

“Leblon”, disse ao motorista, já dentro do táxi.

“Sim, doutor.”

Era a primeira vez na vida que alguém me chamava de doutor. O motorista usava terno azul-marinho e um daqueles bonés de motorista de bacana. Igual ao motorista do Montenegro, pensei comigo. Eu estava me sentindo muito bem naquele carro.

No caminho fiquei pensando: até o momento tinha investido todo o meu tempo nesse tal de Murilo Chaves, mas se ele não tivesse nada a ver com o sequestro do Pedro? Aliás, eu nem poderia ter certeza de que tinha havido um sequestro, ninguém fizera contato pedindo resgate. Me dei conta de que investira todo o meu esforço numa única pista, que poderia ser falsa.

Infelizmente, pensei, não há outra. É seguir essa pista mesmo, até o fim, torcendo para não dar com os burros n’água no final da história. Além disso, a foto que a Kate me mostrou incriminava o sujeito. Ou não? Algum inimigo poderia ter enviado a foto só para complicar ainda mais a vida do cara, alguém que soubesse do desaparecimento do filho do meu cliente. Talvez.

“Contorne o canal, por favor”, indiquei ao motorista.

Precisávamos seguir pelo canal do Leblon, retornar mais adiante, pegar a outra pista, entrar numa ladeira à direita. Um dia eu talvez perguntasse como ela conseguia ter um apartamento luxuoso numa rua como aquela com seus honorários de detetive particular.

O táxi parou. Desci. Mariana me esperava na portaria.

“Espero que não se incomode de sair com uma mulher pontual”, ela disse.

Usava um vestido curto, preto. Decote discreto.

“Não dá pra saber, nunca saí com uma antes”, respondi.

Ela riu. Andamos até o carro. Deixei que seguisse um pouco à frente de mim. Coloquei a mão na sua cintura, por trás. Seu vestido tinha uma abertura que deixava ver parte das suas costas, fiquei imaginando meu corpo grudado ali, naquela pele. Entramos no carro.

Ela ajeitou minha gravata. Senti seu perfume. Ela encostava seus lábios no meu rosto, e em volta da minha boca, sem me beijar, roçando os lábios no meu pescoço, devagar.

O motorista nos olhava pelo retrovisor.

“Estrada do Alto”, eu disse, me recompondo.

“Posso subir o vidro, doutor?”

Não entendi a pergunta. Que vidro seria, se todos estavam fechados por causa do ar-condicionado?

“Sim, pode subir”, Mariana respondeu por mim.

O motorista apertou um botão qualquer no painel. Saindo do encosto do banco, subiu um vidro fumê até o teto do carro, isolando a parte de trás, onde estávamos eu e Mariana, da parte da frente. Me lembrei do carro do Montenegro.

“Nossa”, eu disse.

“Fiz mal?”, ela perguntou.

“Claro que não. Esse vidro também isola barulho?”

“Só há um jeito de saber.”

Falei alto com o motorista, mandei dar meia-volta. Ele continuou direto.

“Não me ouviu.”

“Ótimo. Pode começar o relatório, detetive.”

Contei tudo. Comecei com o envelope que Kate tinha recebido, com a foto do Murilo Chaves e a frase incriminadora no verso. Ela quis saber detalhes da minha conversa com Kate, no meu apartamento. Ciúmes, pensei no início, depois vi que não, Mariana tinha outra coisa em mente.

“Temos no mínimo duas hipóteses, André. Primeira: a frase é verdadeira, e quem escreveu tem certeza de que o Murilo Chaves está envolvido no desaparecimento do garoto. Segunda: a frase é falsa. Alguém se aproveitou da enrascada em que o Murilo se meteu e resolveu colocar a culpa nele.”

“Quem?”

“Alguém que gostaria de vê-lo mais prejudicado ainda, algum outro empresário, um concorrente. Essa é uma hipótese. Mas há outra.”

Completei seu pensamento:

“Alguém que esteja envolvido no sequestro e queira desviar a atenção das investigações colocando a culpa num inocente, quer dizer, inocente neste caso.”

“Exato. Agora me responde: se você tivesse que fazer uma lista de suspeitos, quem você eliminaria de imediato, além, é claro, do Montenegro?”

Refleti um pouco.

“Kate.”

“Por quê?”

“Por quê? Porque era a namorada do Pedro, ora essa.”

“Já houve sequestro assim antes, concorda? Vários. Temos dezenas de casos de sequestro em que o sequestrador é alguém da família, um parente, o marido, a esposa.”

“É verdade. Mas se ela tivesse culpa no cartório, por que teria se arriscado tanto, entregando ao próprio pai do sequestrado um bilhete falso?”

“E quem disse que ela entregou?”

“Ela tentou, pelo menos.”

“Você confirmou isso com alguém? A secretária do Montenegro, por exemplo, você confirmou com ela que a Kate tentou falar com ele?”

“Não, não confirmei. De qualquer forma, ela entregou a foto pra mim, que estou a serviço do Montenegro.”

“Não. Entregou pra você, que confia nela.”

Silêncio.

“E como ela pode saber que confio nela?”

“Não é muito difícil, André. Um dos seus encantos é não saber mentir.”

Pensei em Raquel.

Mariana cruzou as pernas e pude ouvir o barulhinho das meias roçando uma na outra. Aquilo me desconcentrou. Ela deve ter percebido, aproximou seu corpo do meu. Enfiei a mão na abertura de trás do seu vestido e apertei sua cintura, sentindo com o toque o contorno exato da calcinha.

Ela me afastou um pouco, delicadamente.

“Desconfio dessa garota”, ela disse, os lábios quase colados nos meus.

“Que garota?”, perguntei, fingindo que tinha esquecido, enquanto tentava trazê-la pra mais perto de mim.

Ela me empurrou.

“Agora não, me escuta.”

Escutei.

“O fato de Kate estar numa situação confortável, acima de qualquer suspeita, não quer dizer que ela seja inocente. Pelo contrário, é mais um motivo pra se desconfiar dela, parece tudo muito certinho, certinho demais.”

Me lembrei das palavras do Gordo: desconfiar de Kate pelo simples fato de ela ser uma mulher gostosa. Mas nesse caso também deveria desconfiar de Mariana. Aliás, desconfiar muito.

“Essa Kate”, ela continuou, “essa Kate me parece, como dizer...”

“Frívola.”

“Não, nada disso. Sonsa, é isso o que ela é, uma sonsa. Se finge de burrinha, mas no fundo é muito esperta.”

“Será? Acho que não.”

“Sua opinião é suspeita. Você está vidrado nela desde que a viu no bar.”

“Na Kate? Eu vidrado naquela garotinha? Entende uma coisa, Mariana, só consigo pensar em você, em mais ninguém.”

Ela ficou me olhando.

“Não há mesmo outra mulher na sua vida? Só eu?”

Olhos nos olhos.

“Só.”

“Não acredito.”

Tentei dizer alguma coisa mas ela tapou minha boca. O perfume da sua mão penetrou meu corpo inteiro.

“Não acredito numa palavra do que você diz, André.”

Aproximou sua boca da minha, me beijou.

Depois completou, num sussurro, seu rosto colado no meu ouvido:

“Mas isso não tem a mínima importância.”

 

***

 

Paramos na entrada da casa. O motorista perguntou se queria que ele esperasse. Respondi que não, se precisasse ligaria mais tarde.

Entreguei o convite à moça da recepção. Ela conferiu a lista dos convidados, entramos. Caminhamos por uma pequena aleia de palmeiras até chegarmos a um salão enorme, de paredes envidraçadas. Um senhor de fraque nos recebeu. Todo aquele rapapé já estava me cansando um pouco.

Através do vidro viam-se lá embaixo os jardins da casa, a piscina, as mesas dispostas na grama. Um garçom nos serviu champanhe.

“Cadê o cara?”, perguntei a Mariana.

“Calma. Mal chegamos.”

“Ele devia estar aqui pra receber os convidados.”

“Não são convidados dele. Ele é o homenageado, esqueceu?”

Atravessamos o salão. Uma escadaria levava até os jardins. Desci de braços dados com Mariana. Um cara passou por nós, subindo. Comia Mariana com os olhos mas não disse tesão, gostosa etc. Fiquei puto do mesmo jeito. Deve ser um merda como eu, pensei, se estivesse na rua tinha mexido com minha mulher, aqui só fica olhando.

“Tem uma mesa ali”, eu disse.

Assim que nos sentamos, vi uma coroa se aproximando.

“Linda noite, não acham?”, ela disse, em pé, perto da nossa mesa.

Mariana se levantou, cumprimentaram-se com beijinhos. De onde Mariana conhecia aquela perua? Sentou-se conosco.

“Estão gostando?”, ela perguntou.

“Muito, está muito agradável”, respondi.

Eu estava aprendendo a mentir com uma rapidez impressionante, estava virando um especialista. Senti um certo mal-estar.

“Meu namorado”, Mariana apresentou.

Olhei para ela, constrangido. Não imaginei que fôssemos namorados.

“Ah, que bom, formam um belo par”, a intrusa falou.

Acendeu um cigarro, tragou, depois disse para Mariana, sem disfarçar a ironia:

“Tão raro hoje em dia, um casal de verdade.”

“Com licença”, eu disse, me levantando.

A voz daquela mulher me dava ânsias de vômito. Caminhei pelo jardim até a bandeja de um garçom, eu não via o garçom, só via a bandeja. Peguei um copo de uísque, matei metade num gole. Não entendia porra nenhuma de uísque mas aquele devia ser bom, me senti bem melhor.

De longe fiquei vigiando as duas. A perua se levantou logo em seguida. Voltei ao meu lugar.

“Não seja tão impaciente”, Mariana me disse, já na mesa, “estamos aqui a trabalho.”

“Não fiz nada de errado, fiz?”

“Por enquanto não, mas tente se controlar.”

“Quem é a donzela?”

“Esposa do Murilo Chaves.”

Por pouco não me engasguei com o uísque.

“A esposa do cara está aqui?”

“Está, claro, por que não?”

“Por que não? Você ainda pergunta?”

“Fala baixo, André.”

Deixei o copo sobre a mesa. Respirei fundo.

“Tudo bem, então me explica”, eu disse.

“Rosália sabe de tudo...”

“Ela se chama Rosália.”

“Sim.”

“Rosália não é nome de gente rica.”

“Isso não é um romance, André, não dá pra escolher nome de personagem.”

Tudo bem, pensei comigo, mas Rosália também não era nome de mulher de gângster, definitivamente, não era.

“Ela sabe de tudo, como quase todo mundo aqui. Sabe que o Murilo Chaves sai com garotos de programa, mas não é o momento certo de fazer escândalo.”

“Com essas fotos ela consegue o divórcio, não consegue? Não é isso que ela quer, a grana do sujeito?”

“Não é bem assim. Iria parecer oportunismo.”

“Oportunismo? O marido é flagrado com um garotão numa boate gay, ela pede o divórcio e é oportunista?”

“Se você me deixar falar, eu explico.”

Passou um garçom. Peguei outro uísque. Logo depois outro garçom, com uma bandeja com garrafinhas de Perrier. Mariana aceitou uma.

“É pra você”, ela disse, enchendo um copo.

“Não quero tomar água mineral.”

“Acho melhor tomar.”

Tomei um gole.

“Oficialmente, quem organizou essa festa foi ela, Rosália.”

Segurei o riso. Rosália, que coisa.

“Pra todos os efeitos, ela está ao lado dele, dando apoio. Diz a todo mundo que não acredita nos jornais, que é um complô contra o marido. Na verdade, é uma estratégia.”

“Ela se faz de companheira do crápula, de esposa dedicada.”

“Sim.”

“Por quê?”

“Porque sabe esperar.”

“Esperar? Até quando?”

“Por enquanto ainda tem gente importante do lado dele.Basta ver por essa festa. E ninguém do lado dela, a não ser um bando de feministas que não vão lhe render um centavo. Se ela pedir o divórcio agora, o Murilo Chaves arrasa com ela, entendeu?”

Eu começava a entender.

“Agora, se ela tiver paciência, se aguardar o tempo certo, o Murilo vai se arrastar pro fundo do poço.”

“E ela então vai se bandear pro outro lado.”

“Lógico, ela e quase todo mundo que você está vendo aqui. Estão todos esperando o momento exato.”

“E se ele conseguir sair dessa? Se continuar por cima?”

“Nesse caso, Rosália continuará sendo a mulher dele. Uma dama respeitável, uma senhora de bem, uma companheira, como você mesmo disse.”

“E rica”, completei.

“Isso mesmo. Muito rica.”

Quando mandaram parar a música, eu dançava com Mariana no meio do salão.

Rosália pegou o microfone. Finalmente pude ver o Murilo Chaves. Estava ao lado dela. Rosália fez um breve discurso: fidelidade, amor, injustiça etc. Chorou no final. Deu um abraço apertado no marido. As pessoas bateram palmas. Depois passou a palavra a um senhor. Amizade, honra, serviços prestados etc. Outro abraço apertado. Palmas. Finalmente o Murilo Chaves: obrigado etc. Palmas. O DJ colocou o hino do Flamengo. Todos de pé, alguns com a mão no peito, como se fosse o hino nacional.

“Não acredito que estou sendo obrigado a ouvir isso”, cochichei no ouvido de Mariana.

“Quer que eu peça pra tocar o do Botafogo?”

“Não, essa gente estúpida não ia entender a letra.”

“Você sabia que foi o Lamartine Babo que compôs o hino do Flamengo?”

“Do Botafogo também, e do Fluminense, e do Vasco, e do América, que é o mais bonito de todos.”

“É verdade, André? Disso eu não sabia.”

“Você ainda tem muito o que aprender.”

Depois do hino, mais palmas. O Murilo Chaves arrematou: divirtam-se, a festa é de vocês, e depois se misturou aos convidados.

“Me espera aqui”, eu disse a Mariana, “vou atrás dele.”

O cara levou um tempão recebendo cumprimentos, beijos, abraços, tapinhas nas costas. Reconheci o Epifânio de Morais Netto. Claro, o safado não iria perder essa, deu um abraço de horas no boiola.

Quando conseguiu se desvencilhar, o Murilo Chaves caminhou até um outro salão. Fui atrás. Pouco depois um sujeito se aproximou dele, um baixinho, gordo. Ficaram poucos minutos ali, o suficiente para uma rápida troca de palavras e para que Murilo Chaves entregasse alguma coisa ao baixinho. Tive a impressão de ser um envelope. Logo depois o Murilo passou por mim.

Tentei disfarçar. Ele ficou me encarando durante alguns segundos, depois perguntou:

“Voce está aí há muito tempo?”

“Como, senhor?”

Ele me olhou sério, as sobrancelhas arqueadas:

“Nada”, ele disse, e saiu.

Respirei aliviado. Logo depois o outro cara passou à minha frente, mas sem falar comigo. Segui o fulano. Ele suava muito. Deu uma parada no meio do salão, tirou um lenço do bolso do paletó, enxugou o suor da careca, do rosto, do pescoço. Guardou o lenço, continuou caminhando por entre os convidados. Tive tempo de reparar bem no rosto dele, na sua figura desagradável. Era um baixinho asqueroso. Voltou ao jardim, sentou ao lado de uma senhora.

Fiz um sinal para Mariana, ela veio ao meu encontro.

“Aquele gordo acaba de receber um envelope do Murilo Chaves.”

“Sério?”

“O que vamos fazer?”

“Nada.”

“Nada?”

“Agora é por minha conta, vai dar uma volta.”

Não gostei. Ela percebeu. Falou no meu ouvido, voz rouca:

“Quando sairmos daqui você vai ter sua recompensa,detetive.”

Fui atrás de uma bandeja. Peguei um uísque, não tinha cerveja na festa. Rico não gosta de cerveja, pensei.

Fiquei observando, perto dali. A mulher do gordo se levantou e foi cumprimentar outra perua. Mariana caminhou até a mesa do cara, por trás, esbarrou nas suas costas, ele derrubou o copo.

Mil perdões, ela deve ter dito, ou coisa parecida. Estava se desculpando, quis limpar a mesa. Flagrei seu olhar guloso nos seios de Mariana quando ela se abaixou, tentando limpar o uísque derramado.

Conversavam. Ele ficou de pé. Não devia ter senso de ridículo, se permanecesse sentado talvez disfarçasse a pouca estatura, em pé ele batia nos ombros de Mariana. Falou alguma coisa no ouvido dela, Mariana riu. Ele repetiu, ela riu mais ainda. Percebi que já estava meio tonto, de vez em quando perdia o equilíbrio, o corpo ficava balançando.

Era preciso ter sangue de barata para ficar presenciando aquilo sem meter um murro nos cornos do sujeito. Saíram. Fui atrás. Entraram na casa. Um garçom parou à frente deles, Mariana pegou uma taça de vinho. Deu ao barrigudo. Ele virou a taça de uma vez só. Logo, logo estaria bêbado, pensei, antevendo os planos de Mariana. Se ela desse um beijo naquele desgraçado eu ia desandar com a festa, enchia o baixinho de porrada.

Caminharam por um corredor. Segui os dois. Mariana se virou e fez sinal para que eu parasse. Parei. Eles entraram num cômodo, fechando a porta.

Fui até lá, tentei abrir. Trancada.

“Deseja alguma coisa?”, Rosália falou, logo atrás de mim.

Levei um susto mas disfarcei bem.

“Não, nada, estava só admirando sua casa. Muito bonita.”

“Obrigada, mas não é nossa. É de um amigo.”

Queria ter um amigo assim.

“Você certamente já ouviu falar dele. Doutor Epifânio de Morais Netto.”

Meu sangue ferveu. Eu estava na casa daquele puto.

“Aqui é a biblioteca. Mas fica sempre trancada quando o Epifânio recebe alguém. Morre de ciúmes dos seus livros. Esses intelectuais são um pouco excêntricos, você sabe.”

Aquela mocreia tinha dito que o Epifânio era um intelectual. Meu Deus.

Eu poderia ter dito a ela que alguns convidados mais íntimos têm a chave da biblioteca mas não disse, é claro. Sangue de barata.

Precisava tirar Rosália da frente da biblioteca e inventei uma desculpa qualquer.

“Aquele quadro”, eu disse, caminhando na direção da parede oposta, “de quem é?”

“Não sei. Provavelmente um desses jovens pintores que o Epifânio gosta de ajudar.”

Ficamos na frente do quadro, com ar de profundos conhecedores. Quanta farsa.

“Lembra Mondrian”, ela comentou.

Silêncio. Nós dois na frente do quadro. Ela continuou:

“Mondrian tinha o traço exato. Cada obra dele era como um refinado romance policial, tudo se encaixando com perfeição.”

Eu não estava acreditando. Rosália gostava de romance policial?

“Também gosto de romances policiais.”

“Eu não disse que gostava. Disse que se parece, apenas isso”, ela rebateu, seca.

“Desculpa, eu pensei...”

“Não gosto de ficções. Prefiro as coisas sinceras, sem fraudes.”

Havia ódio na voz dela.

“Não há fraudes numa boa ficção. Só as histórias ruins são fraudulentas”, retruquei.

Ela não gostou. Saiu de perto de mim sem ao menos pedir licença. Como os ricos sabem ser grosseiros, fiquei pensando comigo mesmo.

 

***

 

Voltei ao jardim. Precisava esquecer que Mariana estava trancada com um baixinho nojento na biblioteca particular do Epifânio de Morais Netto. Não era uma realidade fácil de apagar. Fiquei perambulando pelo gramado, vendo as pessoas e imaginando quantos desdentados da geral do Maracanã tinham sido necessários para promover uma festa como aquela.

Fui até um canto do jardim. A casa era cercada de verde, fiquei olhando as montanhas. Um cara se aproximou:

“Mata Atlântica”, ele disse.

Permaneci calado.

“Vale mais que qualquer obra de arte.”

Continuei mudo.

“Imagina como era esse lugar há cem, duzentos anos.”

Bem melhor do que agora.

“O jovem não é de muita conversa.”

Me virei na direção dele:

“Falou comigo?”

Ele me encarou. Era um coroa não muito alto, estatura mediana, mas forte, boa-pinta, cabelos longos, presos num rabo de cavalo. Vestia um terno escuro, parecia ator de filme policial americano, um daqueles agentes moderninhos do FBI.

“Conheço o seu irmão.”

Saco! Era impressionante como o Augusto conseguia me perseguir mesmo estando ausente. Era uma sombra, uma sombra insuportável.

“Ah é?”, perguntei, tentando parecer normal.

“Conheço o Augusto há muitos anos, desde os tempos da faculdade.”

“O senhor também trabalha no Banco do Brasil?”

Ele não respondeu, ficou olhando a paisagem por um tempo. Depois disse:

“Parece Petrópolis. Você conhece Petrópolis?”

“Sim.”

“Gosta de lá?”

“Não.”

Fiquei admirando a lua, cheia.

“De onde você conhece o Murilo Chaves?”, ele me perguntou.

“Não conheço.”

“Não conhece. Mas está na festa dele.”

“Estou.”

Ele esperou que eu explicasse. Não expliquei.

“Veio acompanhando alguém, é isso?”

“É.”

“Quem?”

“Acho que isso não é da sua conta.”

Ele não retrucou. Ficamos calados por alguns minutos. Eu não tinha ido com a cara daquele sujeito, não mesmo.

“Seu irmão não sabe que você está aqui, sabe?”

Senti um frio na barriga.

“Não. Nem precisa saber.”

“Claro, claro que não.”

Ficou mais um pouco, nós dois vendo a paisagem.

“Vou deixá-lo em paz”, ele disse, “foi um prazer conhecê-lo.”

Merda! Sabia que ele iria contar ao meu irmão que eu estava naquela festa. Muito azar. Procurei outra bandeja. Não era difícil encontrar, havia bandejas ambulantes em todos os lugares da mansão. Se eu bebesse demais não conseguiria transar com Mariana, pensei. Bebi assim mesmo. Quando acabei de entornar o copo de uísque me deu vontade de ligar para Raquel. Felizmente não tinha nenhum orelhão por perto.

Vi Mariana vindo na minha direção. Antes de dizer qualquer coisa me deu um beijo demorado. Abri os olhos, tinha um monte de barrigudo safado olhando o nosso beijo. Aquela inveja toda salvou a minha vida, eu estava com a mulher mais bonita da festa.

“Por que demorou tanto?”, perguntei, Mariana nos meus braços.

“Quer mesmo saber?”

“Não.”

Baixinho filho da puta.

“Só me responde uma coisa: você transou com ele?”

Ela não respondeu na hora.

“Sim ou não?”

“A única peça de roupa que tiramos foi o paletó dele.”

Fiquei mais calmo.

“Conseguiu pegar o envelope?”

“O que você acha?”

“Vamos embora daqui.”

“Não, preciso devolver.”

“Devolver?”

“Lógico. Já fotografei o envelope, e o que tinha dentro.”

“Você trouxe uma máquina?”

“Por que o espanto? Sou uma detetive, esqueceu? E detetives às vezes usam microcâmeras, e outras coisinhas do gênero.”

“Deixa ver.”

“Não, agora preciso colocar de novo o envelope no bolso daquele senhor.”

“Daquele gordo nojento, você quer dizer.”

“Hum, teremos cena de ciúme. Que bom.”

Peguei o envelope das mãos de Mariana.

“Eu mesmo devolvo.”

Caminhei até o baixinho. Ele estava em pé, comendo alguma coisa e bebendo vinho. Deixou o copo sobre a mesa, cruzou os braços, ficou olhando com cara de lobo uma gordona que podia ser minha bisavó. O cara estava bêbado, ficava balançando o corpo, parecia um pêndulo gorducho. Cheguei por trás, coloquei o envelope no bolso do paletó, com cuidado. Quando ia retirando a mão, ele se virou. Joguei-me em cima dele, como se tivesse tropeçado. Caímos sobre a mesa, ele embaixo de mim, empapando a roupa com salgadinhos, pastas, molhos.

“Perdão”, eu disse, saindo de cima do baixinho.

Ele continuou onde estava, meio deitado sobre a mesa.

“Quem é você?”, ele me perguntou, enrolando a língua.

“Bond, James Bond.”

“Quem?”

Deixei o cara lá, deitado naquela sujeira.

 

***

 

Rosália mandou um criado chamar o táxi.

Mariana não quis me mostrar as fotos dentro do carro, pediu que eu esperasse até chegarmos em casa. Mas me adiantou:

“Aquele símbolo está lá, no envelope.”

“O copyright?”

“Sim.”

“Daria tudo pra descobrir o que significa esse maldito símbolo”, eu disse, assim que entramos no táxi.

“Não se preocupe, vamos saber em breve.”

Chegamos ao prédio de Mariana. Subimos. No elevador perguntei, tinha jurado a mim mesmo não perguntar, mas saiu:

“Esse apartamento é seu?”

“É.”

“Você deve cobrar muito bem dos seus clientes.”

Ela não gostou, sua expressão dizia claramente que eu havia avançado o sinal.

“Não fui eu que o comprei.”

“E quem foi?”

“Meu ex-marido.”

Senti a boca seca, não esperava o golpe.

“Você não me contou que já tinha sido casada.”

“Não te contei muitas coisas.”

“Por exemplo.”

Ela desviou o rumo da conversa, era óbvio que o assunto não lhe interessava.

“Não te contei que só durmo nua.”

Fiquei excitado.

“Isso eu já sabia”, eu disse, beijando seu pescoço.

“Mesmo quando vou dormir sozinha. Como essa noite, por exemplo.”

Droga, fiz besteira!

O elevador parou. Abri a porta, saímos. Enquanto Mariana enfiava a chave na fechadura, abracei-a por trás.

“Desculpa.”

“Não precisa se desculpar”, ela disse, virando o corpo. Me beijou, mordeu meus lábios. Doeu pra cacete.

“Doeu?”

Nem respondi.

Ela caprichou na voz:

“Foi só o começo.”

Percebi que já tinha sido perdoado. Abracei-a com força, enfiei a mão pela parte de trás do vestido, acariciei sua bunda, ela sussurrou:

“Adoro isso.”

Eu também adorava aquilo.

“Podemos entrar ou vamos passar a noite nesse corredor?”, ela perguntou, afastando seu corpo do meu.

“Não seria uma má ideia”, falei.

Abriu a porta, entramos.

“Vamos ver o que o ex-presidente do Flamengo tem a dizer”, brinquei, depois que Mariana conectou a câmera ao aparelho de TV.

Mariana foi até a cozinha. Já tinha tirado os sapatos. Fiquei vendo-a caminhar. Ela andava sem ostentação, sabia que eu estava olhando, qualquer mulher que sai da sala deixando um homem atrás de si sabe que esse homem está olhando para ela, e algumas mulheres nessa hora exageram no requebrado, Mariana não, tinha um andar discreto, macio, quase natural, como se estivesse desfilando sozinha em casa, diante de um espelho, descalça. Fiquei admirando o espetáculo.

Assim que ela entrou na cozinha comecei a ver as fotos na tela da TV. A primeira era do envelope: simples, branco, com o símbolo © no alto. A segunda era uma folha de papel, com as seguintes palavras impressas:

EM VIRTUDE DOS 5 ÚLTIMOS ACONTECIMENTOS, A FINAL FOI ADIADA: SÁBADO 27. HORÁRIO

MANTIDO.

 

E logo abaixo novamente o símbolo ©, no lugar onde estaria normalmente a assinatura de quem enviou o bilhete.

“Também quero ver”, Mariana falou, sentando ao meu lado e me oferecendo uma garrafinha de cerveja.

“Talvez o símbolo do copyright não represente um grupo. Pode ser a assinatura de uma pessoa, do líder, certamente”, ela comentou.

“Foi o que pensei, tem jeito de assinatura.”

“É um bilhete um tanto ou quanto enigmático,convenhamos.”

“Sem dúvida. Precisamos saber que acontecimentos são esses, o que é essa final, qual horário foi mantido.”

“Pelo menos sabemos que será no sábado, vinte e sete.”

“E o mês?”

“É nesse mês, sábado que vem é dia vinte e sete.”

“Daqui a uma semana então.”

“Não temos muito tempo, André.”

Eu sabia que não. Por outro lado, do jeito que as coisas estavam acontecendo depressa na minha vida nos últimos dias, uma semana talvez fosse tempo de sobra.

“Deve ter a ver com futebol”, ela disse.

“Não vai haver nenhuma final de nenhum campeonato no dia vinte e sete, posso te garantir.”

Dei mais um gole na cerveja. Mariana bebericou seu uísque.

“Bom, parece que não progredimos muito. Essas palavras não levam a lugar algum”, ela disse.

“Pelo menos agora podemos ter certeza de que estamos no caminho certo. O Murilo Chaves está envolvido em alguma safadeza, das grossas.”

“Isso não quer dizer que esteja envolvido no desaparecimento do Pedro.”

Era verdade.

“Me diz uma coisa, André. Seja sincero, é muito importante o que eu vou te perguntar.”

“Pergunta.”

“Se descobrirmos que o Murilo Chaves não tem a ver com o caso do seu cliente, você vai desistir de querer saber em que é que ele está realmente envolvido?”

“Não.”

“Jura?”

“Juro. Mas por que isso é tão importante?”

Mariana fez uma pequena pausa. Parecia estar tomando coragem.

“André, mesmo que o Murilo Chaves não tenha culpa do sequestro, se tiver sido um sequestro...”

“Acho que foi.”

“Certo, mas vamos supor que ele não tenha nada a ver com essa história. De qualquer forma está metido em alguma coisa no mínimo estranha.”

“Concordo.”

“E perigosa.”

Ela falava pausadamente, e com gravidade, como se quisesse deixar bem claro que se tratava de um assunto delicado.

“Ainda assim não vou desistir.”

Mariana acariciou meu rosto com as duas mãos.

“Mesmo sabendo do perigo que vai estar correndo?”

Aguentei firme, estava com medo mas não queria que ela percebesse.

“Mesmo assim”, respondi.

Ela voltou os olhos para a janela. A brisa do mar entrava pelo apartamento, balançando as cortinas. Eu gostava muito daquele cheiro de maresia. Depois ela se virou e disse:

“Você é bem melhor que Sam Spade.”

“Isso é uma declaração de amor?”

“Mais ou menos.”

A foto ainda estava na tela da TV. Cheguei mais perto. Ficamos os dois no sofá, olhando aquela foto como se estivéssemos diante de uma esfinge.

“Essa foto ridícula parece estar dizendo: decifra-me ou te devoro”, falei.

O álcool já tinha me deixado no ponto. Coloquei a cerveja sobre uma mesinha, na bandeja que Mariana trouxera.

“Você só pensa em trabalho?”, falei, a mão na sua cintura.

Ela pegou o controle remoto, desligou a TV e sentou no meu colo, de frente pra mim. Tirou o vestido. Ajeitei meu corpo, segurei Mariana com firmeza, me levantei, ela com as pernas cruzadas nas minhas costas, e a deitei no tapete, suavemente.