O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 12 de 23

Páginas do PDF

O Campeonato

Capítulo 12

 

 

Acordei cedo. Eram sete da manhã quando abri os olhos e percebi que lá fora fazia sol. As cortinas do meu quarto são claras e transparentes. Ideia da Raquel, que achava mais chique cortinas assim, por mim colocava logo um blackout, odeio a luminosidade da manhã me acordando. Trocar a porcaria da cortina, pensei, meio zonzo.

Fiquei olhando Lívia dormir. Tinha afastado os lençóis e dormia de lado. A claridade me permitia ver seu corpo delicado, a pele rosada. Percebi as marcas da minha boca no seu pescoço, duas pequenas manchas avermelhadas.

Os cabelos finos, castanhos, cobriam parte do seu rosto, dando-lhe um certo ar de inocência que a noite passada desmentia. Fiquei admirando seu corpo, e pensando: nunca tinha transado com uma virgem antes. Lívia não era mais virgem, claro, depois da experiência do campeonato, mas para mim era como se fosse.

Sentei no chão, as costas apoiadas no armário, e fiquei assim um tempo, recordando cada detalhe daquela noite. Era uma sensação de puro poder. Eu ali, acordado, vendo uma adolescente dormir na sua nudez. No meio das lembranças veio a pergunta que lhe fiz de madrugada: pra que servia o tal comprimido, e em seguida a resposta: é um afrodisíaco, entre outras coisas.

Tomei coragem e me levantei. Vesti minhas roupas, peguei a carteira e desci. Fui até a padaria, comprei um monte de coisas, inclusive umas rosquinhas lamego que eu adorava. O português dono da padaria, velho amigo do meu pai, estranhou. Nunca tinha feito uma compra tão grande, nem tão cedo, ele só via minha cara na padaria depois das onze.

Subi. Enfiei a chave na porta e vi que não estava trancada. Entrei, caminhei até o quarto. Ninguém, minha pequena ninfa tinha evaporado.

“Merda!”, gritei.

Fui até a cozinha, fiz café. Nem me lembrava mais da última vez que eu tinha feito café, era Raquel que sempre fazia, mas ficou razoável. Comi feito um animal, estava morrendo de fome.

O telefone tocou, deixei cair na secretária. Augusto.

“André, você está aí?” Pausa. Devorei o último pedaço de pão com presunto. “Eu sei que você está, atende.” Comi mais uma rosquinha lamego. “Atende, André!”, voz de quem está puto. Outra rosquinha, um gole de café. “Que diabos você foi fazer na festa do Murilo Chaves, André? O que você anda aprontando? Me liga!” Aquilo não era um pedido, era uma ordem. Desligou.

Terminei o café, peguei o telefone.

“Tenho novidades”, o Gordo disse, do outro lado da linha.

“Eu também, das boas.”

“Ótimo. Mas não vamos poder almoçar juntos, preciso checar uma informação na hora do almoço.”

“Te encontro no lanche.”

“Não, lá não vai dar tempo de conversar direito. Passa aqui às seis horas.”

“Ok.”

Liguei para a Raquel. Não sei por que fiz isso mas fiz.

A mãe dela atendeu.

“A Raquel não está, meu filho. Viajou.”

“Viajou? Pra onde?”

“Estados Unidos.”

“Sozinha?”

“Olha, André, eu sinto muito, vocês...”

“Tudo bem, já entendi.”

“Vem almoçar aqui hoje, meu filho, gostamos muito de você, você sabe disso.”

Eu sabia.

“Passo aí amanhã, pode deixar.”

Mentira.

Desliguei. Não precisava de droga de consolo nenhum. Passado, falei comigo mesmo em voz alta, Raquel é passado. Precisava me convencer disso.

O telefone tocou assim que o coloquei no gancho.

“Sou eu, Montenegro.”

“Que bom que o senhor ligou.”

“Por quê? Algum fato novo?”

“Sim.”

“Muito bem. Ao meio-dia, no calçadão, posto três.”

Desligou. Eu estava com muito sono. Eram dez horas. Coloquei o despertador para onze e quarenta e cinco, desabei na cama. O travesseiro ainda guardava o perfume do corpo de Lívia. Dormi como um anjo.

 

***

 

“Por que não me ligou, André?”

Era o Augusto, na portaria do prédio. Tinha acabado de chegar, justo na hora em que eu estava saindo para me encontrar com meu cliente.”

“Você me ligou?”, perguntei, cara de inocente.

“Não seja cínico. Preciso ter uma conversa com você.”

“Sinto muito, Augusto, não vai dar. Estou atrasadíssimo.”

“Ah sim, atrasadíssimo, o vadio está atrasadíssimo.”

Eu não gostava que me chamassem de vadio. Augusto sabia disso, estava querendo me agredir.

“Estou indo pra editora, Augusto, trabalhar, vê se não me enche o saco.”

“Editora, que editora?”

“O Gordo me arranjou esse emprego, ele conheceu um dono de editora na livraria e indicou meu nome. Tem mais a ver comigo do que a gravadora de pagode.”

“O Guimarães te tratou mal?”

“Não, mas prefiro trabalhar numa editora, só isso.”

“Eu te levo lá.”

“Não precisa, vou de ônibus.”

“Já disse que eu te levo.”

“Já disse que não quero, porra!”

O porteiro ficou observando nós dois. Meu irmão não suportava escândalo. Pegou no meu braço, me puxou de lado. Ficamos encostados na parede do prédio. Falou baixinho mas com raiva, entre dentes:

“Olha aqui, moleque, eu não sei o que você anda aprontando, mas coisa boa não é. Deixa eu te dizer uma coisa...”

“Larga meu braço”, eu disse, tentando me soltar.

Ele segurou com mais força.

“Escuta, não sei como você foi parar na festa do Murilo Chaves, nem me interessa saber, mas presta atenção: se eu pegar você metido com essa gente, te encho de porrada, entendeu?”

Augusto jamais falava um palavrão. Se estava falando agora é porque a coisa era séria mesmo.

“Tomo o apartamento, nunca mais te dou dinheiro e ainda te encho de porrada, fui claro?”

Claríssimo. Meu braço doía.

“Me solta, Augusto.”

Ele aliviou um pouco, mas continuou me segurando.

“Não gastei dinheiro com você pra te ver envolvido com gente safada, trambiqueiro, puta, viado.”

“Mas tinha um amigo seu na festa”, eu disse, com medo da reação do Augusto.

Ele me olhou sério, bem dentro dos olhos:

“Aquele safado não era meu amigo.”

Foi minha vez de não entender nada:

“Não?”

“Não, pelo contrário, quer mais é a minha caveira, entre outras coisas.”

“Mas ele não trabalha com você no banco?”

“E quem disse que todo mundo que trabalha comigo no banco é meu amigo, seu estúpido?”

Deduzi o óbvio: eu tinha pisado na bola. O fulano de rabo de cavalo era um canalha, queria foder meu irmão, ficar com o lugar dele no Banco do Brasil. O Augusto não queria ver alguém da família envolvido com o Murilo Chaves, pegava mal, ainda mais agora que o Murilo estava nas manchetes dos jornais, acusado de sonegação de imposto de renda, além de ter sido flagrado com um garoto de programa etc. Só pode ser isso, pensei comigo.

“O cara quis queimar seu filme”, falei.

“Graças a você, claro.”

“Mas ele também não estava lá, caramba?”

“Isso não interessa, não interessa o que ele faz da vida dele, eu é que não quero ver meu nome ligado a esse pessoal,entendeu?”

“Tudo bem, Augusto, só fui lá porque minha namorada ganhou dois convites, só isso, não tenho nada a ver com aquelas pessoas, não precisa se preocupar, eu juro.”

Ele soltou meu braço.

“A Raquel ganhou convites? De quem?”

“Não estou mais com a Raquel. Terminamos. Estou de namorada nova.”

Ele balançou a cabeça, contrariado.

“Você não tem remédio, André, não leva nada a sério. Vai morrer nessa vidinha medíocre: sem emprego decente, sem mulher, sem filhos. Você, André, você é... é um...”

Me lembrei da Raquel, ela também tinha essa mania: ficar procurando um adjetivo que me definisse.

“Sei lá o que você é.”

“Agora deixa eu ir”, falei, já saindo.

“Vai, vai embora, palerma”, ele disse, me dando um tapa na cabeça, o que significava que eu estava momentaneamente liberado.

Mas ainda arrematou, numa voz grave:

“Você entendeu o que eu disse, não entendeu?”

Fiz que sim com a cabeça. Saí.

Não virei para trás, caminhei reto, mas tinha certeza de que ele ficara me observando até eu virar a esquina, com seu olhar pensativo, preocupado, de pai. Eu não queria um pai, mas Augusto insistia. Até quando?, perguntei a mim mesmo, enquanto caminhava apressado, quase correndo.

Fiquei esperando em frente ao posto três. O carro chegou. Antes de entrar, conferi: era um terceiro motorista. O sujeito trocava de motorista como quem troca de camisa.

“Boa-tarde, doutor.”

Montenegro não respondeu, tinha cara de poucos amigos.

Arrisquei:

“Estamos chegando perto. Acho que sei onde seu filho pode estar.”

A expressão do seu rosto mudou da água pro vinho.

“Sério?”

“Sim, mas veja, é apenas uma suposição.”

“Diga logo, por favor.”

“Antes, uma pergunta. É absolutamente necessário que o senhor responda com toda a franqueza.”

“Pode perguntar.”

“Seu filho é virgem?”

Ele ficou constrangido.

“Essa pergunta é completamente fora de propósito.”

“Sim ou não?”

“Como posso saber?”

“Sei lá, o senhor me disse que conversava muito com seu filho, ele nunca lhe contou sobre uma primeira vez?”

Montenegro pensou um pouco, depois disse:

“Não sei aonde você pretende chegar mas vou responder sinceramente: não tenho certeza. Acredito que sim, por ele nunca ter me contado nada. Também não perguntei, mas ele teria me contado.”

“Hoje em dia a garotada começa cedo”, eu disse, me sentindo um velho, “ainda mais tendo grana, e morando numa cidade como o Rio de Janeiro.”

“Já lhe disse que meu filho não é um garoto comum. Pedro é especial.”

Meu pai também devia me achar especial, pelo menos enquanto eu era criança.

“Não duvido disso.”

“Acredito que ele fosse virgem pelo fato de nunca ter me dito nada sobre ter mantido relações sexuais. Mas pode ter acontecido com Kate e ele não ter tido oportunidade de me contar. Confesso que nos dois últimos anos viajei muito, tivemos poucas chances de ficar a sós, eu e Pedro.”

Ele não tinha me dito aquilo, que nos dois últimos anos estivera afastado do filho. Anotei mentalmente.

“O senhor estranhou, e com razão, a minha pergunta. Vai entender por que lhe perguntei isso quando ouvir o que tenho a dizer.”

“Pois não, estou ouvindo” , ele disse, se ajeitando no banco do carro.

Pensei ter detectado algum traço de ironia nas suas últimas palavras. Não, devia ser impressão minha.

Narrei toda a história que ouvi de Lívia, trocando seu nome e o do Santo, para preservá-los. Não exatamente por ele, o falso santo, mas por Lívia.

Montenegro bebia uma a uma minhas palavras, surpreso, emocionado, escandalizado. Interrompia às vezes, pedia detalhes, fazia perguntas que eu não podia responder simplesmente porque não sabia as respostas.

Quando falei que os concorrentes do campeonato eram virgens, ele entendeu a pergunta que eu fizera sobre a virgindade do Pedro. Levou as duas mãos ao rosto e disse, a voz trêmula:

“Meu Deus!”

Foi nossa conversa mais longa. Omiti apenas uma coisa: que os perdedores eram eliminados no final. Não poderia dizer isso ao Montenegro sem saber com certeza se Pedro tinha realmente participado do jogo.

Era nisso que estava apostando minhas fichas: o garoto era um dos competidores de uma outra disputa, paralela. E se Lívia tinha conseguido escapar, existia a possibilidade, ainda que remota, de Pedro ter fugido também. Precisava encontrá-lo primeiro, vivo ou morto, e só depois comunicar a notícia ao pai dele.

Ele não esperou muito para fazer a pergunta:

“Você acha que meu filho está lá, com os mafiosos?”

Tentei ser objetivo.

“Minha hipótese é bastante simples, elementar mesmo. Vejamos os fatos. Seu filho desapareceu, provavelmente foi sequestrado, já que não tinha motivo nenhum pra fugir por vontade própria e não há indícios de ter sido assaltado e morto em seguida por algum ladrão comum, que teria dado fim no cadáver. Essa seria uma possibilidade pra explicar seu desaparecimento, mas podemos descartar essa hipótese por absoluta falta de evidências, depois de tantas investigações. Também não se trata de um sequestro comum, já que até o momento nenhum pedido de resgate foi feito, nenhum contato. E já tem um mês que o Pedro sumiu!”

Ele concordou.

“Segundo ponto. O senhor tem um inimigo, Murilo Chaves. Murilo Chaves teria um sério motivo pra sequestrar seu filho. Não é por dinheiro, já que se trata de um milionário, embora também haja milionários sequestradores, ainda que em menor número que os sequestradores comuns. E não é por dinheiro também pelo fato de não ter sido solicitado resgate. O motivo é óbvio: vingança. Sequestrar seu filho e não lhe dar notícias é uma vingança perfeita. Não há sofrimento maior, para um pai, do que o de não saber onde e como está seu filho, sobretudo supondo que pode estar nas mãos do inimigo.”

“Sem dúvida.”

“Terceiro ponto. Murilo Chaves, nosso suspeito número um, está envolvido num grupo secreto, cujo símbolo é o mesmo do copyright. Este grupo realiza um campeonato de performance sexual, com apostas de altíssimo valor, utilizando garotos e garotas virgens, com idade entre doze e quinze anos, justamente na faixa etária em que se encontra Pedro, seu filho, que, ainda não temos certeza, deve ser virgem.”

“Continue.”

“Ora, a hipótese mais provável, nessas circunstâncias, é que Murilo Chaves sequestrou seu filho e o obrigou a participar do campeonato. Deu uma cartada certeira. Num único gesto se vingou de seu maior inimigo e conseguiu um belo trunfo na jogatina com seus amigos mafiosos.”

“Então você acredita mesmo que ele esteja lá.”

“Acredito. A adolescente, a que participou do concurso e me contou toda a história, disse que tudo aconteceu há mais ou menos um mês. Acho muita coincidência, seu filho desapareceu há um mês. Tudo se encaixa.”

“Supondo que tenha razão, o que pretende fazer?”

“O bilhete que conseguimos, na festa do Murilo Chaves, diz que no próximo sábado será a final. Tenho certeza de que se trata da final do campeonato.”

“Por que tem certeza?”

“Não foi por acaso que separaram os casais. Num carro colocaram os perdedores, no outro iriam colocar os ganhadores. Não tenho dúvidas: os ganhadores estavam sendo preservados justamente para a final.”

“E os perdedores?”

Tentei ficar tranquilo.

“Provavelmente iriam descansar e passar por um novo período de preparação. Acredito que sejam reaproveitados noutra disputa.”

“Mas aí já não seriam mais virgens.”

“Doutor, não sabemos ainda como funciona a coisa. Pode ser que haja outras rodadas do campeonato, aproveitando os competidores que perderam.”

“E pode ser que os perdedores sejam simplesmente assassinados”, ele disse, me olhando nos olhos.

“Não creio. Seria ilógico eles terem o trabalho de sequestrar garotos e garotas virgens, correndo tantos riscos, para aproveitá-los uma única vez.”

Ele não disse nada.

Completei meu raciocínio:

“A final foi adiada justamente em função da fuga dessa adolescente. O escândalo nos jornais foi uma pista falsa, é isso que estou querendo dizer. O que adiou a final foi nada mais nada menos que a fuga de um dos finalistas.”

Ele ficou me observando com um olhar estranho. Parecia desconfiado.

“E onde está essa garota, André? Você não a deixou escapar, suponho.”

Eu não tinha nem ideia de onde Lívia pudesse estar.

“Fique tranquilo, está em lugar seguro.”

“Espero que sim”, ele comentou, seco.

“Estarei lá, doutor Montenegro, não sei como, mas vou estar na final desse campeonato absurdo.”

Que loucura, pensei comigo, tinha acabado de afirmar que estaria na final de um campeonato de sexo, cercado de mafiosos assassinos. Eu não devia estar no meu estado normal.

Ele virou o rosto na direção da janela e permaneceu assim, pensativo. Ficamos os dois olhando a paisagem. O motorista tinha evitado a praia naquele dia, estávamos rodando por umas ruazinhas na Gávea, cheias de árvores e casarões. Fiquei pensando que os bacanas que moravam naquelas mansões podiam passar o verão inteiro no Rio sem sentir calor, bastava não sair de casa.

Depois de alguns minutos ele interrompeu o silêncio. Tinha a voz fraca, como se cada palavra emitida exigisse um esforço supremo.

“André, vou lhe dizer uma coisa: não tenho esperanças de que meu filho ainda esteja vivo.”

“Não diga isso, doutor.”

“Todos os dados de que dispomos levam a crer que Pedro está morto. Mas, além disso, há um outro fator.”

“Qual?”

“A intuição. Eu e minha mulher temos conversado muito nos últimos dias e sentimos, ambos sentimos que Pedro não está mais entre nós. Você nunca vai entender isso, André.”

Seus olhos estavam úmidos mas Montenegro se mantinha firme. Já devia ter refletido muito, com a esposa, sobre o que acabara de me dizer.

Continuou:

“Mas olha, André, ainda assim quero saber o que foi feito com o Pedro. Onde está seu corpo, se estiver mesmo morto, o que fizeram com ele.”

Seus olhos brilhavam. Aquilo era ódio.

“Não vou descansar, nem eu nem você, compreendeu, não vamos descansar enquanto não descobrirmos o paradeiro do meu filho.”

Era um homem forte, o Montenegro.

“E se pra isso for preciso você se infiltrar nessa máfia de apostadores, então que seja. Quero você nessa final, André, custe o que custar.”

“Já disse que vou estar lá.”

“Ótimo. Mas você vai precisar de dinheiro, aliás, muito dinheiro. Vai entrar no campeonato como apostador, suponho.”

Já esperava que ele tocasse no assunto. Poderia ter falado do dinheiro antes, mas preferi esperar que ele mesmo se oferecesse para resolver esse problema: como ser um apostador numa roda de milionários com pouco dinheiro no bolso.

“De quanto você acha que vai precisar?”

“Não sei ao certo.”

“Deixe comigo, vou providenciar uma boa quantia. A final é no sábado, não é?”

“Tudo indica que sim.”

“Na sexta de manhã eu te ligo.”

“E se eu precisar falar com o senhor antes disso? Essa vai ser uma semana decisiva.”

“Estarei por perto, não se preocupe.”

Me deu o envelope.

“Você está fazendo um bom trabalho, detetive, muito bom trabalho, eu sabia que estava certo quando o contratei.”

Agradeci.

“Só espero que tenha um bom plano. Você não me disse como vai fazer pra entrar no campeonato.”

Não tinha dito por um motivo muito simples: eu nem imaginava como faria isso.

“Deixa comigo.”

“Tem dois mil dólares aí dentro”, ele disse, friamente, referindo-se ao envelope que eu segurava.

Engoli em seco. Estava ficando rico, pensei.

Ele deve ter percebido. Montenegro certamente entendia todos os segredos da alma humana quando se referia a dinheiro, era a sua especialidade. Deve ter lido meu pensamento porque disse em seguida:

“Ainda não, André, você ainda não está rico, mas vai ficar, assim que encerrar o caso.”

Quando ia guardar o envelope na bolsa, ele segurou meu pulso, com firmeza.

“Só mais uma coisa”, ele disse, olhos nos olhos, “você tem uma semana pra descobrir onde está o meu filho. Nem um dia a mais. Acho bom não se esquecer disso.”

Senti um calafrio, devo ter ficado branco.

“Pode deixar”, foi o que consegui gaguejar.

Ele me soltou, mandou o motorista parar, e não disse mais nada.

Também não me despedi, desci logo daquele carro maldito. Estávamos numa pracinha do Horto, atrás do Jardim Botânico. Tinha um táxi parado, esperando o passageiro descer. Corri até ele, entrei quase no mesmo momento em que um cara de terno descia do carro.

“Centro, faz favor”, eu disse, me sentando no banco de trás, e depois completei, para não ter mais que falar com o motorista até o final da corrida: Rua do Lavradio.

Abri a bolsa, tirei um romance policial: Edições perigosas, do John Dunning. Era indicação do Gordo.

Dessa vez eu teria um livro para ler na viagem, se minhas mãos parassem de tremer.

 

***

 

Eram quatro horas da tarde e estava com fome. Lembrei que não tinha almoçado. Desci do táxi, entrei na livraria do Gordo. Pedi que me encontrasse no Amarelinho quando acabasse o expediente.

Fui andando até a Cinelândia. Estava tão atarantado com os últimos acontecimentos que nem liguei para o fato de estar carregando um envelope com dois mil dólares dentro da bolsa. Passei numa loja de câmbio, troquei quinhentos. Fiquei pensando na farra que poderia fazer com todo aquele dinheiro.

Quis ligar para Mariana mas não saberia o que dizer a ela. A imagem de Lívia deitada na cama de manhã, nua, permanecia na minha cabeça e não conseguiria ficar com nenhuma outra mulher naquele dia. Amanhã, talvez, pensei.

Parei numa banca, comprei jornal. Já estava começando a me habituar a ler jornal e não sabia se isso era bom ou ruim. Escolhi uma mesa estratégica no Amarelinho. Gostava de ficar sentado numa mesa que desse de frente para a Biblioteca Nacional mas de onde eu pudesse ver também o Theatro Municipal e um pouco da parte de dentro do bar. Não era pedir muito, sobretudo quando não estava tão cheio, como naquela tarde.

Pedi um sanduíche de queijo de minas com tomate e um chope.

“Vai chover”, o garçom me disse, deixando o chope sobre a mesa.

O tempo estava fechando, logo logo cairia mais uma tempestade de verão. De um modo geral cariocas odeiam chuva, ficam de péssimo humor. Eu adoro, desde que não seja pego de surpresa no meio da rua. Gosto de ver a chuva de um lugar seguro, como aquele onde estava.

Bebi metade do chope de uma vez. De estômago vazio, o efeito foi fenomenal: uma ligeira tontura, agradável, relaxante, sem me tirar a lucidez mas deixando claro para mim mesmo que havia ingerido álcool e não refrigerante.

Pedi mais um. Antes que o garçom chegasse matei o chope que restara na tulipa.

“O sanduíche já está saindo”, o garçom falou.

Só não disse quando volta, falei comigo mesmo, rindo da minha própria bobagem. Era uma tarde agradável, fazia calor mas a promessa de chuva já era o bastante para melhorar um pouco o meu estado de espírito.

Abri o jornal. Foi o suficiente para mandar embora aquela breve sensação de bem-estar. No canto da primeira página, embaixo, uma foto, do Santo, dos tempos em que ainda era notícia. Ao lado da foto um pequeno texto com o título: Guru dos anos 90 é encontrado morto na Prainha.

Li:

 

Santo, como era conhecido o místico que reuniu milhares de seguidores no início dos anos 90, foi encontrado ontem na

Prainha, em Grumari, com uma bala no crânio. A polícia acredita em assalto seguido de morte. (Mais detalhes na pág. 12)

 

“Lívia”, eu disse, em voz alta. Precisava encontrar Lívia, mas como?

Começou a chover forte. As pessoas correndo para o túnel do metrô ou se escondendo onde pudessem, debaixo das marquises, sob a lona dos bares, na entrada da Biblioteca, do Teatro, do prédio da Assembleia, outras cobrindo a cabeça com bolsas, pastas, uma senhora tentando abrir aflita uma velha sombrinha. Aquele movimento todo, mais os dois chopes de barriga vazia, mais a notícia do jornal me deram uma angústia e tive vontade de gritar para! para tudo! vamos começar do início!

Mas não gritei coisa nenhuma. O garçom chegou com o sanduíche. Devorei metade sem me dar conta. Pedi o terceiro chope. Abri o jornal na página 12, li:

 

No começo dos anos 90, um jovem de apenas vinte e cinco anos reunia em torno de si representantes de todas as classes

sociais não só do Rio de Janeiro como de todo o país. Empresários, socialites, jogadores de futebol, desempregados, estudantes,

donas de casa, motoristas de ônibus, garis, funcionários públicos subiam até Santa Teresa à procura de um consolo espiritual.

Antropólogos, sociólogos e cientistas sociais travaram discussões nas colunas dos jornais, nos auditórios de universidades, nos canais

de televisão, buscando uma explicação para o fato.

Enquanto isso, o Santo, como era chamado, atraía cada vez mais seguidores. Não cobrava pelas consultas, segundo afirmou

em diversas oportunidades. “São contribuições espontâneas”, era o que costumava dizer quando o acusavam de impostor e

mercenário. Morava num belo casarão em Santa Teresa, com móveis caros e valiosas obras de arte. Alguns de seus inimigos

afirmaram que tinha contas no exterior, mas nada ficou provado.

Uma de suas excentricidades era manter um séquito de virgens, que lhe serviam gratuitamente, em troca apenas de sua

bênção e de um teto generoso. Talvez tenha começado justamente aí o seu declínio. Embora as meninas lá estivessem com a devida

permissão dos pais – aliás, eram levadas até o Santo como “oferendas” –, grupos organizados da sociedade brasileira começaram

campanhas contra o que chamavam de nova escravidão branca. Organizações não governamentais de outro países, ligadas a

direitos humanos, reforçaram uma verdadeira cruzada contra o “profeta”, que, assim como surgiu, desapareceu – vertiginosamente.

Em 1995, não se falava mais do Santo e ninguém sabia exatamente o seu paradeiro. As meninas voltaram para suas famílias, móveis

e obras de arte do casarão foram leiloados, rapidamente e em sigilo – supõe-se que alguns poucos ex-frequentadores tenham

arrematado os objetos – e o Santo simplesmente saiu de cena, sem deixar rastros.

Hoje ele virou de novo notícia, desta vez por um motivo trágico. Seu corpo foi encontrado por pescadores nesta madrugada,

por volta de uma da manhã. Segundo a autópsia, ele foi baleado na nuca por volta de 23 horas da noite de ontem e depois lançado ao

mar. Perto das pedras, a polícia encontrou uma bolsa de couro com folhetos esotéricos, dois papelotes de cocaína e uma carteira

com os documentos do morto, sem nenhum dinheiro. O delegado encarregado do caso, dr. Almeida Salgueiro, acredita na hipótese

de assalto seguido de morte ou de algum acerto de conta dos traficantes da área.

 

Filhos da puta! Os caras plantaram aquela pista falsa tentando atrapalhar as investigações. Voltei a ler. Havia depoimentos de várias pessoas famosas que tinham consultado o Santo quando ele estava no auge. Todos diziam maravilhas dos seus ensinamentos. Estavam chocados, todos eles, chocados com o triste fim do guru. Cínicos, refleti, eram eles que sustentavam o Santo, devem ter ficado com medo quando o infeliz ficou na berlinda, não quiseram se queimar e aí pararam de dar dinheiro. Os sacanas ajudaram a matar o Santo.

“Então é por isso que está chovendo”, o Gordo disse, instalando seus cem quilos numa cadeira à minha frente, “você lendo jornal.”

Estava com uma capa de chuva enorme, com capuz, e um guarda-chuva debaixo do qual caberíamos eu, ele, o garçom e todos os fregueses do bar juntos. Levantou-se, tirou a capa, colocou-a no encosto de uma cadeira. Fechou o guarda-chuva, ajeitou-o sobre o assento da mesma cadeira. Eu acompanhando toda a delicada operação.

“Onde você pensa que mora, Gordo? Em Londres?”

“Odeio chuva, você sabe disso. De manhã, antes de sair de casa, os jornais diziam que o tempo iria mudar. Uma frente fria vem aí.”

“Não precisa se explicar.”

“E você, o que estava lendo, é sobre o assassinato do Santo?”

Ele já tinha lido, claro. Sentou, sem a parafernália. Pediu uma caipirinha.

“Aqui não diz que foi assassinato.”

“O jornal é comprado, você sabe, publicam o que o Murilo Chaves mandar.”

“E o que dizem os outros jornais?”

“A mesma coisa. O crápula está mancomunado com a polícia, não resta dúvida. Vai ver foi algum policial mesmo que fez o serviço.”

De repente, me dei conta: como é que o Gordo poderia saber que o Murilo Chaves estava atrás do Santo? Eu não havia dito nada a ele.

O Gordo ficou me olhando, calado, bebericando a caipirinha. Esperava que eu dissesse alguma coisa. Resolvi não dizer nada. Permanecemos os dois mudos, bebendo, durante um tempo.

A chuva continuava forte. Ficamos ouvindo o barulho da água caindo com força sobre a cobertura metálica do Amarelinho.

“Tudo bem, André, eu sei de tudo.”

“Ah, é?”

Pausa.

“Não quer saber como fiquei sabendo?”

“Se quiser contar”, eu disse, aparentando desinteresse.

“Eu sei onde Lívia está.”

Aquilo foi uma bomba. O Gordo sabia mesmo jogar. Perdi completamente o controle da situação.

“Onde ela está, Gordo? O que aconteceu?”

“Ela está bem.”

“Onde?”

“Num lugar seguro.”

Me lembrei do que dissera ao meu cliente.

“Merda! Diz logo que porra de lugar é esse, Gordo!”

“Meu apartamento.”

“Seu apartamento? Você levou a Lívia pro seu apartamento?”

“Existe lugar mais seguro?”

O Gordo morava sozinho, num quarto e sala na Rua do Riachuelo, perto da Lapa. Era um prédio velho, caindo aos pedaços, um pardieiro, e a rua um barulho só. Ele teria condições de morar num lugar mais confortável, mas conseguira um apartamento razoável, que tinha mandado reformar, e queria estar perto do trabalho e da boemia do Centro da cidade, então ia ficando por ali.

De fato era um lugar seguro. O Gordo não tinha nenhuma relação de intimidade com seus vizinhos e raramente recebia visitas, eu mesmo não costumava ir muito ao apartamento dele.

“Onde foi que você encontrou a Lívia?”

“Posso pedir o de sempre?”

“Claro.”

Pediu um frango à passarinho.

“Comecemos do início. Ontem, enquanto você vivia sua noite de amor, o que, aliás, tem sido cada vez mais frequente nos últimos dias, o seu amigo aqui trabalhava duro. Você não sabe, mas desde aquela conversa que tivemos com o Santo tenho rondado o casarão de Santa Teresa. Sempre soube que era uma pista quente e que o safado, Deus o tenha, estava mentindo quando disse que não sabia de nada. Fiquei xeretando a rua em que o Santo morava. Não acontecia nada de anormal, a não ser o fato de que jamais saíam de casa e nunca acendiam a luz. Mesmo assim continuei indo lá, todos os dias ficava pelo menos meia hora plantado na frente do casarão.”

“Bom trabalho.”

“Obrigado, vou cobrar. Uma tarde um carro parou na porta do casarão. Era carro de mafioso, estava na cara. Ficaram lá uma meia hora, depois um sujeito desceu. Armado. Subiu até o casarão, deu uma volta na varanda, entrou. Saiu uns quinze minutos depois. Esperaram mais um tempo no carro e depois foram embora.”

“Já desconfiavam.”

“Sim, eu é que não sabia de nada, quem eram eles, por que estavam espionando a casa do Santo, que parecia mesmo abandonada. O Santo e a Lívia devem ter visto o cara subindo e se esconderam em algum lugar, atrás da casa. Talvez tenham conseguido enganar o sujeito mas continuava sendo um lugar perigoso. Pois bem, ontem à noite vi o Santo sair do casarão com uma bolsa a tiracolo, uma bolsa grande. Pensei que fosse viajar mas não era bem isso, descobri mais tarde. Resolvi seguir o Santo. Ele desceu a pé até os Arcos. Fui atrás.”

“Coitado”, eu disse, irônico.

Meu assistente não era a pessoa mais indicada para seguir alguém numa longa caminhada.

“Alguém precisa fazer o serviço pesado”, o Gordo rebateu, e continuou: “ele desceu na Lapa, caminhou até a Cinelândia, pegou o metrô. Cheguei à estação no exato momento em que o trem chegava e pude ver quando o Santo entrou nele. Desceu na Central, subiu as escadas, saiu, caminhou até um ponto de ônibus, ali perto. O ônibus chegou, o Santo entrou nele, entrei também. Eu não sabia pra onde estávamos indo mas era na direção da Zona Norte. Felizmente o ônibus não estava cheio e consegui um lugar sentado. No Engenho Novo ele saltou, perto do antigo Jardim Zoológico. Desci atrás. Fui seguindo o cara, aos trancos e barrancos, e vi quando ele entrou numa ladeira à direita, subiu, virou à esquerda. Subi também. Cheguei ao fim da ladeira, parei atrás de um carro estacionado, olhei à esquerda. O Santo estava lá, mais adiante, parado na calçada.”

“Parado?”

“Observava um pequeno prédio. Do outro lado da rua onde eu estava, vi uma barraquinha de cachorro-quente. Aquilo me pareceu um oásis. Fui até lá, pedi uma coca, virei de um gole só, pedi um cachorro-quente, com tudo a que tinha direito.”

“Que ninguém é de ferro.”

“Justamente.”

“Você anotou o nome da rua?”

“Anotei. Quinta do Sol.”

“Poético.”

“Mas de poético o prédio não tinha nada. Estava abandonado, alguns mendigos tinham invadido. O Santo ficou rodando por ali um tempo, depois desceu a rua, apareceu por outra rua, olhou de novo o prédio. Estava conhecendo as redondezas, o clima do lugar.”

“Queria ver se era um bom esconderijo.”

“Exato.”

“Fico pensando, Gordo, incrível como o Santo foi acabar numa situação dessas, precisar dividir com mendigos um prédio abandonado.”

“Estava melhor do que hoje”, ele comentou, sarcástico.

E eu, como estaria nas próximas vinte e quatro horas?, pensei comigo.

“Fiquei na minha, enrolando. Tive que pedir outro cachorro-quente, pro dono da carrocinha não desconfiar.”

“Quanto sacrifício.”

“Pois é. Fiquei quase uma hora na barraquinha, comendo e me entupindo de coca. O dono já tinha me contado a sua vida de trás pra frente, a essa altura éramos amigos íntimos, eu estava terminando o quarto cachorro-quente quando os caras chegaram.”

“Quem?”

“Gente do Murilo, com certeza. Era um carro escuro, azul-marinho ou qualquer coisa assim, a rua tem uma iluminação péssima, só sei que pararam, dois caras desceram, deram um soco na barriga do Santo, enfiaram o coitado lá dentro e saíram. Tudo muito rápido.”

“E depois?”

“Depois? Depois tive uma diarreia danada. Você sabe o que é comer quatro cachorros-quentes com maionese, cebola, milho-verde, bacon e batata palha numa esquina escura do Engenho Novo?”

Paciência, tudo é uma questão de paciência, pensei.

“O que aconteceu depois, Gordo?”

“Você não queria que eu seguisse os bandidos a pé, queria? Não sei o que aconteceu depois, mas sabemos que apagaram o Santo, é lógico. Você mesmo leu nos jornais.”

“Acha que devemos contar pra polícia?”

“Ficou maluco, André? Quem nos garante que os caras que levaram o Santo não são da polícia?”

“Tem razão.”

“Queima de arquivo”, concluiu o Gordo.

A chuva tinha passado. Ficou aquele cheiro de umidade no ar, e toneladas de lixo em todo canto.

“E Lívia? Onde é que entra nessa história?”, perguntei.