O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 19 de 23

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O Campeonato

Capítulo 19

 

O Gordo ficou esperando uma reação.

“Continuo não entendendo.”

“Rapaz, seu problema é mais sério do que eu pensava. Definitivamente, a cerveja anda afetando sua memória”, ele disse, tirando do bolso o livrinho que Lívia trouxera de sua rápida passagem pelo campeonato e o colocando à minha frente.

“Sabe o que é isso? Ainda se lembra?”

“Claro, é o livro com o regulamento do campeonato.”

“Graças a Deus, nem tudo está perdido.”

O Gordo deixou o livrinho diante de mim, aberto na página que contém a epígrafe. Foi bater os olhos naquelas palavras e entender tudo. Como foi que demorei tanto a perceber? Na página que o Gordo indicara estava escrito:

 

Aonde foi o teu amado, Coro

ó mais bela das mulheres?

Para onde se dirigiu o teu amado?

Iremos contigo à sua procura.

 

O meu amado desceu ao seu jardim, Ela aos canteiros de bálsamo,

para apascentar seu rebanho entre jardins

e colher lírios.

Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu.

Ele é pastor de rebanhos entre lírios.

Cântico dos cânticos (6, 1-3)

 

“Lembrou agora?”, o Gordo perguntou.

Me levantei da cadeira, com o jornal na mão.

“Que cara de pau! O sujeito nem disfarça, deixa o livro à vista de todo mundo, é um cínico!”

“Na verdade, quase ninguém sabe que o livro tem a ver com o campeonato. E você mesmo levou um tempo até relacionar uma coisa com a outra.”

“É um cínico assim mesmo, fica brincando com o perigo, o canalha.”

Lívia veio até onde estávamos. Sentou na beirada da mesa, cruzou as pernas. Dois pares de olhos se voltaram instantaneamente para aquelas pernas cruzadas.

“Se eu entendi direito, vocês estão dizendo que o Epifânio é um dos líderes porque tem esse livro aí na casa dele. Será que não dá pra perceber que essa conclusão é completamente idiota?”

O Gordo contraiu as sobrancelhas, sinal de que estava começando a se irritar.

Lívia continuou:

“Aposto que nessa biblioteca, exatamente aqui onde estamos, também tem uma edição do Cântico dos cânticos e nem por isso vocês vão dizer que Mariana está envolvida com a máfia do campeonato. Ou vão?”

“Minha bela ninfeta de olhos azuis”, o Gordo disse, se aproximando de Lívia, “uma coisa é você ter em casa um livro desses, outra é ele estar na biblioteca de um suspeito. O contexto, minha cara, o contexto é o que importa. Não se deve ler nada fora do contexto.”

Lívia fez uma reverência:

“Obrigada, mestre, não sei como pude viver até hoje sem essa informação.”

Resolvi intervir:

“Concluindo, o que temos então é o seguinte: o Senhor Preto é, ou era, o Murilo Chaves, como a própria Rosália nos contou. Certo?”

Eles concordaram.

“E o Epifânio, pelo que tudo indica, é o Senhor Branco.”

“É o que as pistas estão dizendo”, o Gordo completou.

“Resta saber então um último detalhe: quem é o Senhor Cinza.”

Olhei para Lívia, ela não disse nada. O Gordo tinha um risinho debochado no rosto.

“Quem você acha que é, Gordo?”

“Precisa responder?”

“Se não for muito incômodo...”

Ele fez um pouco de suspense, arranjou os livros sobre a mesa, guardou o jornal. Eu e Lívia esperando. Ele finalmente falou:

“Não há dúvida. O Senhor Cinza é o Montenegro.”

Eu também tinha essa opinião, embora sem muita certeza.

“Pelo nome dele, combinaria mais se o Montenegro fosse o Senhor Preto”, eu disse.

“Você ainda não percebeu que esses caras adoram uma confusão? Parece que fazem de propósito, é impressionante! Aposto que Montenegro é um nome falso. Não duvido nada que o palhaço tenha inventado esse nome só pra dar um nó na cabeça da gente.”

“Mas se o Montenegro é um dos líderes do campeonato, por que teria me contratado pra resgatar o filho dele? Ele mesmo poderia ter feito isso.”

“Tenho uma hipótese.”

“Mais uma.”

“Você já ouviu falar em elemento surpresa?”

“Prossiga.”

“O Montenegro poderia, claro, colocar todo o seu exército contra o Murilo Chaves, mas talvez não fosse essa a saída mais inteligente, pelo contrário, é provável que o próprio Murilo já contasse com uma reação assim. Por que, então, não fazer a coisa de outro jeito? Por que não trabalhar em silêncio, pegar o adversário onde ele menos espera? Quem poderia imaginar que o Montenegro estivesse planejando usar um apostador, ou um falso apostador, pra trazer o filho de volta?”

“É, faz sentido.”

“Imagina: o Murilo Chaves sequestra o filho do Montenegro e o coloca como competidor no campeonato. O Montenegro não reage, fica na dele. O Murilo deve ter pensado: que diabos o Montenegro está tramando? Vocês entenderam a sutileza do plano? Como preparar uma defesa se você não sabe de onde vem o ataque?”

“O ataque sou eu.”

“Justamente, meu amigo, você é o elemento surpresa. Você é que nem aqueles beques que saem da defesa e chegam de repente na área adversária. Os caras do outro time estão marcando os atacantes e os homens de meio-campo, cada um com o seu, e de repente surge um zagueirão lá de trás, feito um foguete, ninguém sabe como foi que o puto apareceu, ele chega com tudo e dá uma porrada na bola, de bico, de cabeça, de canela, do jeito que for, e o outro time só percebe o que aconteceu quando a bola já está no fundo da rede. Entendeu, camarada?”

“Mas você não acha que é um plano meio rocambolesco demais esse do Montenegro? Será que precisava de tanto?”

“Isso eu não sei, André. O que se passou na cabeça desse crápula eu não posso adivinhar, o máximo que podemos fazer é formular uma hipótese provável, a partir dos elementos que temos. E tudo leva a crer que o plano do Montenegro foi usar você pra pegar o filho de volta.”

“Bom, nesse ponto ele não mentiu. Desde o início ele disse que queria que eu trouxesse o Pedro de volta. A sacanagem foi não ter me contado a verdade inteira.”

“Ele não é burro. Se tivesse te contado tudo, você não toparia fazer o serviço nem que te pagassem um milhão de dólares. Ele foi te seduzindo aos poucos, com dinheiro, com pequenas chantagens emocionais, apelando pro seu coração de bom moço e tal. E agora, com o perdão da palavra, você está irremediavelmente fodido.”

Então tinha sido esse o plano do Montenegro. Desde o começo, desde o primeiro telefonema, os encontros no carro dele, as fotos, as informações sobre o filho, os envelopes com os dólares, a referência a meus pais, só agora percebia como tudo estava articulado. As coisas começavam a fazer sentido, finalmente chegávamos à solução do enigma, à resposta para o fato de um cara rico e poderoso como o Montenegro ter procurado um detetive inexperiente como eu.

Infelizmente, saber disso não diminuía em nada a enrascada em que havíamos nos metido, eu e o Gordo. A única diferença era que, a partir daquele momento, nós sabíamos por que e por quem estávamos sendo usados.

“Resumindo, Gordo, o que você está me dizendo é que o meu cliente é um falso cliente.”

“Assim como você é um falso detetive.”

“E, por consequência, você é um falso assistente.”

Aquelas eram verdades difíceis.

Permanecemos em silêncio durante um tempo, meditando.

 

***

 

Lívia tinha ouvido quieta a nossa conversa. Quando paramos de falar, ela esperou um pouco e então disse:

“Eu também tenho uma hipótese.”

Ficamos aguardando que ela continuasse mas ela simplesmente desceu da mesa e ficou em pé, à nossa frente, cabeça baixa, olhando para as unhas das mãos. Ficou ali, brincando com o esmalte das unhas. Aquilo me irritou.

“Mas será que todo mundo nessa casa tem que fazer suspense antes de dizer alguma coisa?”

O Gordo pegou no meu braço, me pedindo calma.

“Minha hipótese é a seguinte: o Senhor Cinza é o baixinho.”

“Hem?!”, eu e o Gordo dissemos ao mesmo tempo.

“O baixinho da festa do Alto, aquele que recebeu um envelope do Murilo Chaves. Desde que você me contou essa história que desconfio dele.”

Eu e o Gordo estávamos boquiabertos. O baixinho tinha sido riscado sumariamente da nossa lista de suspeitos.

“E será que a nossa digníssima aprendiz de detetive”, o Gordo falou, “poderia nos dizer por que acha isso?”

“Intuição feminina.”

Olhei para o Gordo. Ele estava sério. Esperou um pouco e depois disse:

“Não pense que vou discordar de você, Lívia. Se você tivesse apresentado uma argumentação lógica eu certamente iria analisá-la e, provavelmente, não estaríamos de acordo. Mas intuição feminina já é outro departamento.”

“Como é que é?”, perguntei.

“Jamais duvido da intuição de alguém, sobretudo de uma mulher.”

Putz, onde é que eu fui me meter?, pensei comigo mesmo.

Me aproximei de Lívia, encarei-a:

“Sobre a sua... suspeita...”

Dei uma pausa. Depois completei, olhos nos olhos:

“É pra valer?”

“Claro que sim.”

“Você não está brincando comigo?”

“Você sempre acha que eu estou de brincadeira, não é?”

“Quer dizer que você acredita mesmo que o baixinho é um dos líderes do campeonato.”

“O Senhor Cinza, pra ser mais exato.”

“E isso é pura intuição.”

“Puríssima.”

Fiquei analisando seu rosto por um tempo.

“Você sabia que essa sua intuição bagunça tudo que eu e o Gordo descobrimos até agora?”

“Sinto muito, essas coisas a gente não pode escolher.”

Olhei na direção do Gordo.

“E então?”, perguntei.

“Não se preocupe, André, já sabemos a identidade de dois dos três líderes. O terceiro pode ser o Montenegro, como pensamos, ou o baixinho, se Lívia estiver certa. De qualquer forma, já descobrimos bastante coisa, se compararmos o que temos agora com o que tínhamos no início das investigações.”

“Mas é que o baixinho não tem nada a ver com o Murilo e o Epifânio. Não leva o mínimo jeito pra líder de coisa nenhuma, a não ser líder dos bebuns.”

“Não há como saber agora, meu amigo, precisamos ter um pouco de paciência. Fica tranquilo, estamos trabalhando bem.”

“Espero que sim.”

 

***

 

Na sexta-feira Mariana chegou com o equipamento: uma caixa de papelão que eu e o Gordo recebemos na portaria. Com excessivo cuidado, como se carregássemos dinamite, levamos a caixa até o elevador, subimos. Lívia abriu a porta do apartamento, deixamos a caixa sobre o tapete da sala. Ficamos os três de pé, em volta daquele cubo de papelão, mantendo um respeitoso silêncio.

“Relaxem, não tem nenhuma bomba aí dentro”, Mariana disse, antes de abrir a caixa com um estilete.

Havia várias peças, de tamanhos diversos, envolvidas em tiras de espuma.

“Tudo isso vai ser montado ainda.”

“Não me parece nada discreto”, eu disse.

“Nem precisa ser. Essas peças são para a mesa de operação que vou instalar na nossa base. O que vai com você, na sua roupa, está aqui”, ela mostrou uma pequena caixinha de madeira, dentro da caixa maior.

“E onde será o nosso valoroso QG ?”, o Gordo perguntou.

Mariana acendeu um cigarro. Ela raramente fumava.

“Não sabemos ainda onde exatamente vai ser realizada a final”, ela começou dizendo, “mas acredito que eles repitam o mesmo lugar da primeira vez.”

“Não seria a atitude mais inteligente”, o Gordo cortou.

“Sim, mas talvez eles não tenham tido outra escolha. Se fossem montar toda a estrutura em outro local levariam muito tempo e isso sim poderia significar um alto risco, sobretudo sabendo que uma das competidoras, Lívia, está por aí, podendo botar a boca no mundo e acabar impedindo a realização da final. Eles têm que agir com rapidez e o risco menor seria manter o lugar já montado, até porque, como vimos, nem mesmo os apostadores sabem exatamente onde fica.”

“É verdade”, o Gordo disse.

“Pois bem, supondo que o local onde será realizada a final do campeonato seja mantido, e considerando o depoimento de Lívia quando de sua fuga com o Santo, a final será disputada em algum lugar próximo a Petrópolis.”

“Então por que o helicóptero?”, perguntei.

“O helicóptero pode estar sendo usado justamente pra dar a impressão de que o local é longe de Petrópolis. Eles apanham o apostador perto da cidade, na altura do Km 85, como sabemos, e ficam dando voltas com ele por ali mesmo. Como o apostador está vendado, imagina que estão voando pra um lugar bem longe.”

Ela deu uma tragada, soltou a fumaça devagar, formando uma nuvem à sua frente, uma cortina de fumaça. Depois perguntou:

“Concordam comigo?”

“Eu acho que você está certa, até o momento”, Lívia respondeu.

Eu e o Gordo concordamos.

“Supondo que a final vá acontecer em algum ponto da serra, meu plano é o seguinte. Vamos seguir André no meu carro, a uma distância segura. Ele vai entrar na estradinha de terra e então nós seguimos direto pra Petrópolis. Rosália tem casa lá. Vamos pra casa dela.”

“Cúmulo da ironia”, o Gordo disse, “vamos comandar uma operação de espionagem do campeonato de dentro da casa do Murilo Chaves. Estou começando a gostar desse plano.”

“Espionagem e salvamento”, corrigi, “não esqueça que vou trazer o Pedro de volta.”

“Claro, meu amigo, serviço completo.”

“Na casa de Rosália eu monto a mesa de operação, e de lá manteremos contato com você”, Mariana disse.

O Gordo levantou o dedo:

“Só uma perguntinha imbecil: por que não podemos montar essa geringonça aqui mesmo?”

“Por um motivo: estando mais perto de André, posso utilizar um equipamento de contato e de filmagem mais eficiente, se a base fosse no Rio e ele estivesse em Petrópolis ficaria bem mais difícil. Não seria impossível, claro, o problema é que levaria mais tempo e preciso ajeitar tudo até sábado.”

“Ou seja”, o Gordo concluiu, “você preparou um equipamento contando com a possibilidade de a final ser realizada perto de Petrópolis. Nesse caso, se o seu raciocínio estiver errado, se a final for na Conchinchina, estamos ferrados.”

“Eu precisava arriscar.”

O plano de Mariana não era ruim. A única coisa que não estava me agradando era o fato de saber que os seguranças do Montenegro subiriam com eles para Petrópolis. Achava melhor os três ficarem bem longe do Montenegro depois que eu saísse do apartamento de Mariana, mas logo compreendi que isso seria impossível, o canalha não iria deixá-los até ter certeza de que o filho tinha sido salvo. Era a sua garantia de que eu não voltaria atrás no combinado.

“É”, o Gordo disse, “em vista dos fatos, creio que seja um bom plano.”

Mariana olhou para mim. Eu não disse nada.

“Tudo bem, André? Posso seguir adiante?”

Assenti. Ela pegou a caixinha de madeira, abriu. Havia uma caneta-tinteiro, um pequeno objeto prateado, redondo, parecido com um botão, e um brinco, pelo menos parecia um brinco, pequeno, dourado, em forma de esfera.

“Isso”, ela pegou a caneta-tinteiro, “é uma microcâmera. Grava e transmite imagens.”

“Transmite?”, o Gordo perguntou, levantando-se e vindo até onde Mariana estava.

“Sim, a uma distância de até 4.000 metros.”

“Espera um pouco. Você está querendo dizer que se o André estiver a menos de quatro quilômetros do nosso QG poderemos ver, ao vivo, as cenas que ele filmar?”

“Exatamente.”

“Puta que o pariu!”, ele disse, socando a mesa, “então essas coisas existem mesmo!”

“Lógico. E se tivéssemos tempo eu poderia conseguir equipamentos mais sofisticados.”

“E as imagens são coloridas?”, Lívia perguntou.

“Não, em preto e branco.”

“Ótimo, adoro filmes em preto e branco!”

“Seria sorte demais o André estar assim tão perto, Gordo. A microcâmera vai funcionar mais como registro das imagens. São provas que poderão identificar e incriminar muita gente, é disso que precisamos.”

“Rosália precisa”, Lívia consertou.

“Ela principalmente mas nós também. Ou vocês não querem acabar com essa máfia?”

“Prossiga”, o Gordo pediu, e apontou para o objeto prateado, “esse botão serve pra quê?”

“Não é botão, é um transmissor. Será costurado dentro da lapela do paletó do André. É através dele que o André vai poder falar conosco.”

“E se a gente quiser falar com ele?”, Lívia perguntou.

“Ele vai estar com um receptor”, ela respondeu, pegando o brinco.

“Ele vai precisar furar a orelha?”, Lívia perguntou.

“Não, o brinco é de pressão.”

“Não sei se ele vai ficar bem de brinco.”

Olhei para Lívia, caprichando no olhar de censura.

“Desculpa”, ela disse.

O Gordo quis saber o alcance do transmissor e do receptor.

“Quinze mil metros”, Mariana respondeu.

Resumindo, pensei comigo, tudo daria certo se a premissa estivesse correta: o local da final do campeonato fosse mesmo nas proximidades de Petrópolis. Caso contrário, eu estaria a meio passo do cemitério, e meu amigo e minhas duas mulheres também.

“Mas vejam só, todo esse material é para o caso de o plano do Montenegro falhar, é apenas uma precaução. Se o que ele planejou der certo, nem vamos precisar falar com o André, basta ele gravar as cenas com a microcâmera.”

Mariana continuava otimista mas eu ainda não estava convencido.

“Voltamos ao início”, comentei, “estamos nas mãos do puto do Montenegro.”

“Vai dar certo, André, você vai ver”, Mariana falou, me dando um abraço demorado. Lívia se afastou, de cara amarrada.

“Bom, se não tem outra saída o jeito é confiar, meu irmão”, o Gordo disse, a mão no meu ombro.

 

***

 

Na noite de sexta não dormi quase nada. Tive um sonho muito estranho. Era como se fosse um romance ou um filme, não sei direito. O que sei é que havia um homem e uma mulher, os dois numa casa, numa praia deserta, sentados um de frente para o outro na sala. Ele numa cadeira, ela numa poltrona. Só que ela estava amarrada. Então no sonho a gente ficava sabendo que o homem havia sequestrado a mulher e tinha dito a ela que não fizera aquilo para pedir resgate nem nada, sequestrara a mulher porque precisava lhe contar uma história, só isso.

No sonho o homem falava e a mulher escutava, e ao mesmo tempo que o homem falava as imagens iam aparecendo junto. Eram imagens de mulheres, sempre de mulheres, morenas, loiras, ruivas, brancas, negras, uma chinesa me chamou a atenção, e uma prostituta de olhos tristes, e de repente apareceu um gordo que sabia a língua dos pombos e conversava com eles, depois a imagem era de novo a da sala, só o homem e a mulher amarrada, e ele tornava a contar uma história depois da outra, sem fim.

Acordei assustado. Estava com a roupa empapada de suor. Fui cambaleando até o banheiro, dei uns tapas na minha cara para voltar ao mundo real. Fiz a barba, tomei uma ducha e me vesti.

Era a segunda vez na minha vida que eu usava um terno. Conferi meus documentos, os documentos do carro, minha autorização de entrada, com os selos dos três líderes, a caneta-tinteiro, passei os dedos sobre a lapela do paletó, sentindo de leve o contorno do transmissor.

Coloquei o brinco. Enfiei a mão num dos bolsos do colete: lá estava a pequena carteira de couro, com os três cartões magnéticos e um papelzinho com as senhas anotadas. O Gordo me aconselhou a decorar as senhas mas eu preferi assim, não tinha certeza de como estaria a minha cabeça quando precisasse usar aqueles cartões. Abri a maleta com os dólares que levaria comigo: 250 mil, a grana da aposta.

Estava sem fome. Mariana insistiu e consegui comer uma torrada com requeijão, tomei café e suco de laranja. O café da manhã transcorreu em absoluto silêncio, ninguém estava a fim de falar nada naquele momento. Descemos todos juntos no elevador. Lá embaixo, na recepção, Rosália nos esperava.

Fui até a garagem, peguei a Mercedes. Mariana, Lívia e o Gordo vieram falar comigo. Odeio despedidas, ainda mais sabendo que não se tratava de uma viagem a passeio, não estava indo passar férias no Caribe, droga.

Saí do carro. Abracei Mariana, que me deu um beijo na boca, de leve, apertei a mão do Gordo, fiquei um pouco mais de tempo com Lívia. Ela não queria se desgrudar de mim, me disse um monte de coisas, me fez prometer que não bancaria o herói. Eu não queria ser herói de nada.

“Quando você voltar, vamos fugir? Eu, você e o Gordo?”, ela perguntou, falando no meu ouvido.

“Vamos, vamos sim. Pode ir escolhendo o lugar.”

“Eu já tenho o lugar.”

“Onde?”

“É segredo, não quero que ninguém fique sabendo, por enquanto.”

“Nem eu?”

“Muito menos você.”

Ela me abraçou novamente, e nos beijamos. Lívia tinha os lábios frescos a qualquer hora do dia. Será que é da idade?, me perguntei, enquanto a beijava e tentava buscar na memória alguma palavra que definisse seus lábios. Orvalhados, foi a palavra que me ocorreu, Lívia tinha lábios orvalhados.

Nos separamos. Lívia, Mariana e o Gordo entraram no carro de Rosália, que esperava sentada ao volante. Atrás deles estacionou outro carro e dele desceram quatro brutamontes de terno. O primeiro brutamontes caminhou até Rosália, falou com ela, os outros três ficaram lá, esperando ao lado do carro, olhando para os lados, vigiando. Um deles, um branquelo de dois metros de altura, não tirava os olhos de mim.

O segurança que falava com Rosália veio até onde eu estava.

“Segue devagar, garotão, e não deixa de olhar no retrovisor de vez em quando”, ele me disse.

“E se eu não vir o carro de vocês? Faço o quê?”

“Você não vai ver o nosso carro.”

“Ah não? E pra que preciso ficar de olho no retrovisor?”

“Pra conferir se seus amigos estão por perto”, e depois, aproximando mais o rosto: “e é bom que estejam.”

Aquilo era completamente absurdo. Se acontecesse alguma coisa comigo, os seguranças estariam lá atrás.

“Algum problema?”, ele perguntou, percebendo a expressão do meu rosto.

“Só um: por que vocês não vão logo atrás de mim, e não do carro de Rosália?”

“Porque não há necessidade. Ninguém deve saber que você está sendo seguido por nós. Há outros dos nossos homens pela estrada, vão estar à sua frente.”

“Então por que...”

“Você está perguntando demais, meu chapa. Não estamos aqui pra proteger você, os outros caras vão fazer isso.”

Quanta ingenuidade! Por um momento esqueci que eles não estavam lá para cuidar da minha segurança, lógico, eles não queriam era perder Lívia, Mariana e o Gordo de vista. A missão dos gorilas não era proteger, era vigiar.

E mais uma coisa: por que o cara havia me pedido para conferir sempre se o carro de Rosália estaria ou não atrás de mim? Deduzi o sentido do recado: o segurança deve ter ameaçado Rosália quando foi falar com ela, deve ter dito que se ela tentasse fugir eles me matariam. Logo, se eu olhasse para trás e não visse o carro de Rosália, a situação não ficaria nada boa para o meu lado.

Rosália não tinha motivo nenhum para fugir mas o Montenegro não queria correr riscos. Fica frio e faz o combinado, era o que o gorila tinha querido dizer, com sutileza. Achei graça da imagem: um gorila sutil.

“Está rindo de quê, rapaz?”, o segurança perguntou.

Fiquei sério.

“Nada, já entendi o recado.”

“Acho bom”, ele disse, abrindo ligeiramente o paletó, o bastante para que eu visse o revólver.

Entrei no carro, bati a porta.

“Bom, lá vai o cortejo”, eu disse a mim mesmo, dando partida e pisando no acelerador. Os outros me seguiram.

Liguei o rádio do carro, sintonizei numa estação só de música clássica. Não prestava atenção na música, minha cabeça vagava por aí, sem destino. Contornei a Lagoa, peguei o túnel Rebouças, desci o viaduto, entrei pela Avenida Brasil e segui direto. Poderia ter pegado a Linha Vermelha, era mais rápido, menos trânsito, mas me deu na telha de pegar a Avenida Brasil, peguei.

Dentro daquele carro não parecia que estava passando por pistas movimentadas, barulhentas, cercadas de favelas, já tinha passado por ali de ônibus e sabia exatamente qual era a sensação de estar no meio do trânsito da Avenida Brasil, dentro de um ônibus lotado, principalmente no calor, o inferno de fumaça,barulho, gente suada, motoristas mal-educados, olhava pela janela e via um mundo feio e hostil, e agora, no entanto, pela janela da Mercedes, podia rever tudo aquilo mas de outro modo, sem ouvir nada, no silêncio de dentro do carro, com o ar ligado. Parecia que estava dentro de um bom cinema numa primeira sessão, o cinema vazio, eu sentado numa poltrona confortável vendo um filme pela janela, um documentário sobre a Avenida Brasil.

Antes de pegar finalmente a Rio–Petrópolis conferi mais uma vez, pelo retrovisor: o carro de Rosália estava lá, um pouco atrás de mim, onde deveria estar.

Fui subindo a estrada. Fazia pouco mais de um ano que tinha ido a Petrópolis, no casamento de uma amiga da Raquel. A lembrança de Raquel me deu uma pontada no peito, uma dor fininha e breve, como uma picada. Estava sentindo saudades da Raquel?

“Não acredito”, falei pro meu rosto no retrovisor do carro, “você está com saudades da Raquel”, e fiz uma cara de deboche, eu estava debochando de mim mesmo, ali sozinho. “Você não presta”, continuei, “você e Raquel são dois sem-vergonhas. Lembra da música, do pagode? Aposto que se ela aparecesse agora, no acostamento dessa estrada aí, se aparecesse agora, na sua frente, pedindo carona, você parava, colocava aquela piranha dentro desse carro de milionário, dava meia-volta cantando pneu e sumia no mundo. Estou certo?” Dei uma pausa. Olhei novamente para o retrovisor e disse: “Você sabe que eu estou certo, você sabe.”

No fundo sabia que aquilo que estava sentindo não era saudade da Raquel, era saudade da época em que estava com ela, do tempo em que era um estudante, ou um desempregado fodido sem um puto no bolso, era disso que tinha saudade, do tempo em que não tinha dinheiro nem pro ônibus e podia beber cerveja no balcão do pé-sujo da Barata Ribeiro, só me preocupando em pensar na desculpa para pendurar de novo a conta.

Agora estava ao volante de um carro importado, vestindo terno e gravata, barbeado, perfumado, e com uma pistola enfiada no cinto da calça. Ouvia música clássica no rádio e via a Mata Atlântica exuberante lá fora, pela janela.

Era uma cena de romance, eu não podia estar vivendo aquilo de verdade. Precisava de uma prova de que estava vivo, na vida real, de que aquilo era a vida real e não mais um dos meus sonhos malucos, então dei um grito, alto. Gostei da sensação, gritei de novo, mais alto, meti a mão na buzina, buzinei forte. Pelo retrovisor (o carro deles estava bem próximo do meu), percebi o olhar de espanto de Rosália e Mariana, que ia no banco do carona. Buzinei mais forte ainda, e seguido, mantive a mão na buzina por um minuto ou mais, fazendo um estardalhaço do cacete, gritava dentro do carro e o carro gritava por mim dentro da estrada, da mata, do mundo, a buzina era uma continuidade do meu grito desvairado, de desabafo, de revolta contra tudo e todos que me fizeram estar numa situação daquelas, gritei e buzinei até me sentir rouco, leve, vazio. Então parei.