O Campeonato
Capítulo 6
A verdade é que eu não tinha muitas opções, pensei, enquanto me enxugava com a toalha depois de um banho demorado. Entrara no jogo, agora não poderia mais sair, a não ser que quisesse enfrentar o Montenegro, e eu não queria. Só me restava continuar e trabalhar bem, tentando encerrar o caso o mais rápido possível. No fim estaria livre de tudo aquilo – pelo menos era o que eu pensava naquele momento – e com dinheiro suficiente para calar a boca de todo mundo que vivia me enchendo o saco, a começar pelo meu irmão.
E no fundo estava experimentando uma sensação diferente. Sempre fui considerado um vagabundo, não era vagabundo mas tinha todos os requisitos de um e as pessoas não querem saber se você é ou se apenas parece ser um vagabundo, se você parece você é. Para sair disso eu precisava fazer alguma coisa realmente grandiosa.
Oportunidades de fazer coisas grandiosas não aparecem todo dia, convenhamos, a não ser que você seja o Clark Kent, e eu estava longe de ser o Clark Kent, então deveria aproveitar aquela chance: salvar a vida de um garoto de quinze anos. Aquilo sim era um ato capaz de redimir qualquer vagabundo.
Antes de sair de casa, consegui dar um jeito na secretária e no telefone. Limpei tudo com álcool, joguei o que sobrou do livro num saco plástico, despachei na lixeira. Precisava ser muito homem para jogar aquele livro no lixo sem verter uma lágrima sequer.
Ouvi os recados. Várias chamadas de Raquel, da noite anterior. Daquele dia mesmo, apenas o Gordo, querendo saber da máquina fotográfica. Liguei pra ele, combinei de deixar a máquina na portaria do meu prédio. Ele me disse que tentaria conseguir as fotos aquela noite, se o Murilo Chaves cooperasse.
Desci, deixei a máquina com o porteiro. Da portaria liguei para a cooperativa de táxi, pedi um carro novo, confortável, com ar-condicionado. Eu queria sossego, queria terminar de ler o meu Rex Stout em paz.
Da minha casa até o local do encontro com Montenegro o carro levaria uns quarenta minutos. Dei o endereço ao motorista e ordenei que desse uma volta pela cidade, só pegando as ruas movimentadas quando fosse absolutamente necessário, tínhamos uma hora e trinta minutos e não queria chegar antes em Vila Isabel, e também não queria ficar ouvindo barulho de buzina.
O motorista ficou me olhando, ressabiado. Ignorei. Se eu tinha alguma compensação pelo inferno que estava vivendo era poder pegar um táxi confortável e pedir para o cara rodar pela cidade enquanto terminava de ler um livro. E não iria abrir mão disso.
Dei uma última ordem: que não descesse exatamente na esquina da 28 de Setembro com a Gonzaga Bastos, seguisse um pouco adiante, me deixasse no Petisco da Vila. Eu voltaria a pé, era mais seguro.
Ele engatou a primeira, fomos embora. Por uma hora e meia me esqueci completamente do mundo.
Terminei a última linha do romance a tempo de ver o letreiro do Petisco da Vila se aproximando. O motorista estacionou o carro. Pela primeira vez nos últimos anos uma coisa tinha saído exatamente como eu havia planejado.
Desci e fui caminhando. Montenegro ainda não chegara. Conferi as horas, ele estava dois minutos atrasado. Chegou logo em seguida. Entrei no carro, meio envergonhado, confesso, tinha alguns amigos em Vila Isabel, já bebera muitas vezes no Petisco, até fechar, voltava para casa de ônibus, às vezes nem voltava, dormia na casa de um ou de outro. Nunca ninguém tinha me visto entrar num carrão daqueles.
“Será que não teria um jeito mais prático de nos encontrarmos?”, perguntei.
Montenegro não gostou e deixou isso claro.
“Olha, rapaz, quem dá as cartas aqui sou eu, bem entendido? Se eu disser pra você me esperar no meio da ponte Rio–Niterói à meia-noite você vai estar lá me esperando, entendeu?”
Concordei, mas continuava achando aquilo um absurdo. Ele poderia ter me pegado em casa. Se não soubesse que se tratava de um empresário respeitado, poderia jurar que meu cliente não era bom da ideia.
“Novidades?”, ele perguntou, enquanto me oferecia um uísque.
Recusei, perguntei se tinha cerveja. Ele disse que não. Pedi água, ele abriu uma garrafinha, colocou gelo num copo. Bebi.Levantou a divisória de aço mas antes pude perceber que o motorista não era o mesmo da primeira vez.
“Antes de mais nada”, ataquei, “qual a sua relação com o Murilo Chaves?”
Montenegro contraiu as sobrancelhas. A simples menção ao nome do outro o deixou de cara amarrada.
“A pior possível. Já fomos amigos, num passado remoto, até eu descobrir que se tratava de um impostor.”
“Como assim?”
“Ele conseguiu me convencer de que era uma pessoa confiável, ficamos amigos, frequentava a minha casa, chegou a levar o Pedro a um jogo do Flamengo na tribuna de honra do Maracanã. Arquitetou mil gentilezas, e no final...”
“E no final...”
“Acabou se utilizando de algumas informações confidenciais que lhe passei pra me dar um golpe.”
“Que tipo de golpe?”
“Ações. Bolsa de Valores, você compreende.”
Eu não compreendia bulhufas da Bolsa de Valores, mas deu para sentir a gravidade do caso. O Murilo Chaves tinha passado a perna no meu cliente e lucrado uma bolada com o golpe. Meu cliente o odiava por isso, com toda a razão.
“O senhor sabia que o Murilo Chaves é gay?”
“Todo mundo sabe.”
Aquelas três palavras caíram sobre a minha cabeça como um balde d’água fria. Fria não, gelada.
“Então acho que não vai dar certo.”
“O que não vai dar certo?”
Contei tudo, começando pela narrativa do que aconteceu aquela noite na boate, o relato do Gordo, o plano de dar o flagrante. Contei também que havia um outro detetive, que eu conhecera acidentalmente, investigando o Murilo Chaves. Não quis dizer que se tratava de uma mulher e que, se eu sabia sobre o seu cliente, ela também sabia do meu. Disse apenas que o tal detetive estava a serviço da esposa de Murilo. O rosto de Montenegro iluminou-se.
“Por que você não me disse logo?”
“Mas o senhor não acabou de dizer que todo mundo sabe?”
“Força de expressão, meu jovem, apenas isso. Todo mundo quer dizer a meia dúzia de executivos e gente da alta roda que lida com o Murilo. Agora, sair no jornal é outra coisa, muito diferente. Você vai arruinar a imagem do safado!”
“E por que o senhor mesmo já não providenciou isso?”
“Você deve saber que tenho mais o que fazer na vida do que ficar maquinando pequenas vinganças. Mas ouvindo agora, de você, parece uma ideia excelente! Porque a iniciativa, no final das contas, não terá partido de mim, o que poderia parecer apenas intriga no meio empresarial, mas da própria esposa. Já pensou?”
Ele esfregou as mãos, excitado.
“Muito bom, detetive, muito bom. Quero esse flagrante o mais rápido possível.”
“O senhor terá o flagrante. Até domingo que vem vai estar tudo nos jornais.”
“Até domingo?”
“Algum problema? Pensei que fosse gostar.”
“É que domingo, veja bem, meu filho, domingo...”
“Hã.”
“Tem Flamengo e Vasco.”
Tinha esquecido que o puto era flamenguista.
Pela janela do carro percebi que estávamos seguindo a linha do trem e a estação do Méier já tinha passado fazia tempo. Eu estava longe pra cacete da minha casa e não estava a fim de jogar conversa fora com meu cliente.
“E então, doutor, como ficamos?”
“Faça o serviço, claro. Ganhamos do Vasco um outro dia, não é mesmo?”, ele disse, num sorriso de camaradagem que eu estava dispensando.
Continuou:
“Escuta uma coisa, André, é claro que é bom ver um impostor como o Murilo arruinado, se possível atrás das grades, como eu gostaria de ver isso! Mas você sabe que não é o mais importante, não sabe?”
“Claro, doutor Montenegro. Não pense que me esqueci do Pedro. Só pensei no flagrante porque isso pode, de alguma forma, nos ajudar a encontrar seu filho, apenas por isso.”
“Eu sei. De qualquer forma, não perca de vista o principal, está me ouvindo, não vá se distrair com ninharias.”
Toquei no assunto da gravadora.
“Quintal Records? Que diabo de gravadora é essa?”
“Está começando agora, ninguém conhece, grava pagode.”
“Você gosta de pagode?”
Não respondi.
“Meu irmão está me obrigando.”
“Não, não quero você envolvido com nenhuma outra atividade a não ser a investigação. Vamos dar um jeito nisso. Você vai dizer ao seu irmão que um amigo seu te arrumou emprego numa editora. Você não gosta de ler? Então pronto, vai dizer ao seu irmão que é melhor trabalhar numa editora que numa gravadora de pagode.”
“Qual editora?”
“Uma das minhas empresas. Pequena, abri faz um ano, só me dá prejuízo. Agora pelo menos vai ser útil. Você não precisa aparecer lá, é claro, vou providenciar contrato, contracheque, tudo que for necessário pra você convencer seu irmão a te deixar em paz.”
“E se o Augusto resolve aparecer pra conferir?”
“Deixo uma ordem: se perguntarem pelo André, está em serviço externo.”
“Serviço externo.”
“Vou contratá-lo como promotor de vendas. Se alguém perguntar por você, está visitando alguma escola. Publicamos livros infantis, precisamos de um promotor de vendas nas escolas.”
“Isso é verdade ou mentira?”
“Isso o quê?”
“Que a sua editora publica livros infantis.”
“Verdade. Publica outras coisas também, mas não vem ao caso. Mais algum problema?”
Já ia me esquecendo da ninfeta loura. Contei da minha conversa com ela.
“Kate não sabe de nada, eu mesmo já conversei muito com aquela menina. É uma garotinha mimada, não passa disso.”
Eu também achava, mas não pensava em descartá-la, pelo menos por enquanto.
“Ainda tem algum dinheiro?”
“Pouco.”
Tirou do bolso um pequeno envelope pardo e me deu.Guardei.
“Você pode descer aqui”, ele disse, mandando o motorista parar em frente a um ponto de táxi.
Sacanagem, pensei, o filho da puta me deixar nesse fim de mundo, mas não quis dar o braço a torcer, afinal eu era um detetive.
“Quando vamos nos ver de novo?”
“Eu ligo.”
“Como quiser”, eu disse, descendo do carro dignamente.
Estava num lugar completamente desconhecido. Entrei no táxi, banco de trás.
Peguei na bolsa minha lanterna. Eu sempre carregava comigo a minha pequena lanterna, comprada num camelô, para ler quando houvesse pouca luz, como era o caso. Quando procurei dentro da bolsa um livro qualquer, percebi a dimensão da tragédia: eu não tinha nada para ler durante a viagem de volta.
***
Cheguei em casa às onze da noite, exausto. Meu único desejo era entrar debaixo do chuveiro e depois cair na cama. Dormir,dormir doze horas seguidas, era tudo o que eu queria naquela noite.
Quando abri a porta, vi Raquel sentada no sofá, folheando uma revista. Usava um vestido curto, deixando ver as pernas bronzeadas. Ia à praia todos os dias. Estava deslumbrante, e não parecia zangada.
Ao me ver, veio correndo na minha direção, me abraçou. Permaneci estático.
“Desculpa, eu vi as flores, tão lindas, desculpa, fui muito má com você”, ela disse, imitando voz de criança, “você gostava tanto daquele livro, meu amor, eu sou...”
Mantive minha frieza. Iceberg.
“Você não é nada. Não fez nada, pronto.”
“Como não fiz nada? Acabei com o seu Hammet!”
“Aquela edição não valia droga nenhuma.”
“Não valia? A sua edição americana de O falcão maltês?”
“O livro que você rasgou não era o que você estava pensando. Era uma edição parecida, que coloquei na estante pra disfarçar, um livro vagabundo. Não ia deixar meu Hammet assim na frente de todo mundo, dando sopa.”
“E onde está o original, o verdadeiro?”
“Em lugar seguro.”
Era uma mentira deslavada, a maior mentira do mundo a que eu acabara de inventar, Raquel tinha dado fim ao meu livro, sim, jamais existiu essa outra edição, parecida, que eu supostamente teria colocado na estante como disfarce. Raquel tinha arrasado comigo, me estraçalhado, mas não daria a ela o gostinho de saber disso.
A estratégia deu certo, ela ficou vermelha, transtornada.
“Mas então quer dizer que o livro... que você...”
De repente explodiu em cima de mim. Seu babaca filho da puta foi a única frase que ela conseguiu articular antes de jogar o cinzeiro na minha cabeça. Errou. Partiu para o corpo a corpo: unhas, dentes, gritos. A vizinhança já estava acostumada. Raquel não falava coisa com coisa, só batia, batia, batia. Eu achava engraçado, ria, ela se irritava mais, eu ria.
Evitava os golpes, depois consegui virá-la de costas, agarrei-a por trás, pela cintura. Senti seu corpo quente, suado, ela tentava puxar meus cabelos, segurei-a firme, senti seu corpo no meu,fiquei excitado, senti sua bunda roçando nas minhas coxas, senti meus braços nos seios dela, ela continuava se debatendo, eu a apertava mais ainda, carreguei-a assim para o quarto e a joguei sobre a cama. Ela caiu de bruços, o vestido levantado, deixando ver as pernas, a ponta da calcinha. Me joguei em cima dela, Raquel ainda tentou reagir, mordi sua nuca, ela gemeu e se entregou de vez, enquanto ouvíamos sem pedir a música tocando alto na casa do vizinho: “sem vergonha, somos um casal sem vergonha”. Nem reparei que era um pagode.
***
Estava escuro quando ouvi o telefone tocando. Tateei buscando o interruptor. Acendi a luz. Não havia ninguém ao meu lado, na cama. Raquel madrugou, foi o que pensei.
Levantei e caminhei até o telefone. Acendi a luz da sala e vi o relógio: nove horas. Não entendi, nove horas e aquele breu?
“Alô.”
“Porra, André, onde foi que você andou o dia todo, cara?”
Era o Gordo.
“Como assim o dia todo?”
“Você sabe que horas são?”
“Nove.”
“Vinte e uma, pra ser mais exato.”
Droga! Eram nove da noite.
“Tive um dia cheio”, eu disse.
“Imagino, cheio de sono.”
“Quero dizer ontem, Gordo, ontem tive um dia cheio. Por isso estou acordando agora, deu pra entender?”
“Preciso falar com você.”
“Onde você está?”
Ele estava no Amarelinho, na Cinelândia. Eu não gostava de lá, achava decadente, tinha perdido o charme. O Gordo gostava, dizia que era como ficar vendo uma vitrine: travestis, prostitutas, velhos, casais, homens engravatados, pivetes, era uma vitrine.
Tomei uma ducha rápida. Liguei a secretária, nenhum recado. Me olhei no espelho: marcas roxas no pescoço, no peito, um corte nos lábios. Raquel não sabia se controlar. Fiquei pensando em Mariana me vendo assim, como eu me via naquele instante. Não é hora de pensar em mulheres, detetive André, ao trabalho!, falei comigo mesmo, como se fosse Sam Spade.
O táxi me deixou na Cinelândia. Caminhei até o Amarelinho.
“Trouxe as fotos”, o Gordo disse.
“Que fotos?”
“Da Madonna de pijama. Que fotos podem ser?”
Peguei o pacote. Antes de abrir, chamei o garçom:
“Um queijo quente, suco de laranja e café, por favor.”
O Gordo me olhou com os olhos arregalados.
“Meu café da manhã. Você sabe que não passo sem café da manhã.”
“Às dez da noite?”
“Imagina que estamos no Japão.”
“Queria um emprego assim.”
“Coloca um anúncio no jornal.”
Abri o pacote. Várias fotos do Murilo Chaves: na porta da boate, no carro com um garotão, dançando de rosto colado com um louro de rabo de cavalo.
“Mas essa aqui é dentro da boate, como foi que você conseguiu?”
“Trabalhando, meu caro, não passei a noite na orgia, feito você.”
Estavam ótimas as fotos. Qualquer uma delas, a mais inocente, seria capaz de provocar um escândalo se caísse nas mãos certas.
“Você já enviou pra alguém?”, perguntei, enquanto o garçom colocava na mesa o meu pedido.
“Só pra meia dúzia de jornalistas sedentos de sangue.”
“Bom trabalho, Gordo, muito bom.”
“O cara está queimado, o puto flamenguista. Se ele tiver alguma coisa a ver com o sequestro do moleque vão descobrir, pode ter certeza disso, os sanguessugas não vão deixar o safado em paz.”
Continuei a observar as fotos. O Gordo comia provolone à milanesa e tomava caipirinha. Só de olhar me dava enjoo, eu estava no meio do meu café da manhã.
Devolvi o pacote ao Gordo. Ele ficou me olhando, com um risinho enigmático.
“O que foi?”, perguntei.
“Não reparou nada, nenhuma foto em especial?”
Peguei de novo o pacote. Revi as fotos, com cuidado.
“Fala de uma vez, o que é?”
Ele retirou as fotos da minha mão e separou uma: o Murilo Chaves dançando com um cara, dentro da boate. O presidente do Flamengo usava um paletó escuro, o garoto, um louro, estava de camiseta vermelha, justa, sem mangas. Dançavam de rosto colado. O Gordo os fotografou da cintura pra cima.
“Não perceberam o flash?”
“A máquina da sua amiga não é uma máquina qualquer, fique sabendo. Além disso, nem se eu soltasse fogos de artifício lá dentro alguém ia reparar, é luz estourando em tudo que é canto.”
“E o que essa foto tem de diferente?”
“Repara bem. Você é pago pra isso.”
O Gordo me passou uma lupa.
“Lupa? Você agora usa lupa? Quem você pensa que é? Sherlock Holmes?”
“Use a lupa, vai precisar.”
Comecei a rastrear a foto com a lupa. Parei no bolso do paletó do Murilo Chaves. Levantei os olhos, olhei para o Gordo. Ele sorriu.
“É um envelope? Tem um envelope no bolso dele?”
“Eureca!”
O Gordo era o único cara do mundo que falava eureca em pleno século XXI. Dizia que era uma homenagem a Poe.
Fixei a lupa no envelope. Só dava para ver a ponta. Parecia um envelope comum, branco, de carta, talvez desses longos, retangulares, sobrando no bolso do paletó.
“Não tem nada escrito mas parece, não sei bem, parece que tem um selo aqui.”
“Não é um selo.”
“Como você sabe?”
“Simplesmente porque mandei ampliar a foto.”
O Gordo tirou da bolsa um envelope, me entregou.
Abri: uma foto ampliada, aquela pontinha do envelope agora ocupava quase todo o espaço da foto. O que eu pensei que fosse selo era um desenho impresso:
©
“O que é isso?”
“Não reconhece, André? Você está cansado de ver esse desenho.”
Eu devia estar meio zonzo ainda.
“Quando você abre um livro, vem a folha de rosto, correto? No verso da folha de rosto vem a ficha técnica: endereço da editora etc. No alto dessa página...”
Eu finalmente identificara o desenho. Era o símbolo de copyright, a marca indicando a quem pertencem os direitos autorais.
“Copyright.”
“Elementar.”
“E daí? O que isso significa?”
“Não sei ainda, mas sinto cheiro de falcatrua no ar.”
“Pode ser o logotipo de alguma empresa, por exemplo.”
“Ou seita.”
“Seita? Seita com envelope timbrado?”
“Por que não? Você pensa que hoje em dia uma seita é um bando de gente de capuz dançando no mato em volta de uma fogueira? Em que mundo você vive, meu caro?”
“Por que não pode ser o logotipo de uma empresa?”
“Porque já investiguei. Não existe nenhum registro de um logotipo como esse. Pelo menos no Brasil.”
“Eles podem não ter registrado o logotipo, ou pode ser uma empresa estrangeira.”
“Poder pode, mas não acredito. Esse canalha está metido em alguma seita macabra.”
“A caipirinha já está fazendo efeito?”
Ele sorriu, meio cínico. Pegou um guardanapo, escreveu alguma coisa.
“Leia isso.”
Li:
Parte do mais profundo conhecimento – talvez todo conhecimento muito profundo – se originou numa imaginação altamente
estimulada. Os grandes intelectos supõem bem.
Devolvi o guardanapo.
“De quem é?”
“Poe, claro. Está no Notas marginais. Você devia ler.”
“Há uma diferença entre supor bem e delirar bem.”
“Conheço a diferença, não precisa me explicar.”
“Tem mais uma coisa: se fosse mesmo de uma seita, por que o Murilo Chaves ia ficar andando com esse envelope por aí, à vista de todo mundo?”
“Em primeiro lugar, não é à vista de todo mundo. Estava no bolso do paletó, guardado, só apareceu um pouco porque ele resolveu dançar e já devia ter tomado umas e outras, relaxou um pouco. Mesmo assim, não estava exatamente à mostra. Segundo lugar: o fato de estar no bolso dele não quer dizer que estava com o envelope quando entrou ali.”
“O que você quer dizer?”
“Quero dizer que, sendo um envelope contendo alguma coisa importante, como acho que é, o fulano não sairia com ele pela madrugada. Isso significa que ele recebeu o envelope dentro da boate.”
“Faz sentido.”
“A pergunta é: quem teria entregue o envelope ao cretino?”
“Alguém que frequenta a boate.”
“Não necessariamente. Mas, com certeza, alguém que sabia que o Murilo Chaves estaria na boate naquela noite.”
“Muita gente poderia saber disso. No mínimo eu e você.”
Tive a impressão de que ele ia dizer alguma coisa mas se interrompeu no meio e disse outra:
“Acontece que não fui eu nem foi você quem entregou o envelope.”
“Voltamos à estaca zero.”
“Nem tanto, nem tanto. Já temos uma pista. Esse círculo com uma letra dentro, é aí que está a resposta, pode confiar em mim.”
Pedi um chope. Aquela conversa toda me deu sede. O Gordo já estava de saída.
“E a máquina fotográfica, está aí com você?”
“Já devolvi.”
“Como devolveu, Gordo? Pra quem?”
“Devolvi à legítima proprietária, evidentemente. Aliás, uma linda mulher. Você é mesmo um cara de sorte.”
“E onde foi que você encontrou Mariana, se não for perguntar demais?”
“Na verdade não fui eu que a encontrei. Ela é que foi ao meu encontro, na boate.”
“Pra quê?”
“Ora pra quê, ela também está interessada nessa história, esqueceu? Quis ter certeza de que receberia a sua parte no trato.”
“Mas eu tinha combinado de entregar cópias das fotos assim que estivessem prontas.”
“Acho que ela não confiou em você”, o Gordo falou, me dando um tapinha nas costas.
Pegou suas coisas e se foi. Pedi mais um chope.
Fiquei olhando as luzes do Theatro Municipal e refletindo sobre a incrível vocação para a infidelidade que as mulheres têm.