O Campeonato
Capítulo 11
“Um leitor muito maluco, convenhamos, um doente!”
“Preciso ligar pro Gordo”, falei, caminhando na direção do telefone.
“Depois, André. Primeiro deixa eu terminar minha história. Não podemos perder tempo.”
“Tem razão, vamos continuar”, eu disse, e fiquei murmurando, como se ainda não tivesse passado o impacto da descoberta: o campeonato, o campeonato.
“Dá pra guardar o livro?”
Fui até a estante, coloquei o Rubem Fonseca no lugar.
“Ainda não contei da fase preparatória.”
“Como?”
“Teve uma fase de preparação, é lógico, ou você pensa que me empacotaram na Europa e depois me lançaram de paraquedas numa cama com um garoto no Brasil?”
“Sou todo ouvidos, vamos lá”, eu disse, me recostando na poltrona.
“Você não tem vinho?”
“Quer que eu desça pra comprar?”
“Não, se não tem, deixa, é que me deu vontade de tomar vinho.”
“Serve um copo d’água gelada?”
Ela aceitou. Tomamos mais comprimidos verdes. Cada comprimido daqueles me levava às nuvens. Olhei para Lívia e não consegui evitar: pensei nela nua, seu corpo tenro, adolescentes têm o corpo tenro, imaginei o contorno exato, sinuoso, debaixo do vestido. Ela não percebeu a intensidade do meu olhar, ou fingiu que não, as mulheres sempre percebem quando um homem olha desse jeito para elas.
“Chegamos ao lugar vinte dias antes do tal campeonato.”
Deixei de pensar na nudez de Lívia. Perguntei:
“Chegaram como?”
“Um carro foi nos buscar, a mim e ao Santo, no casarão de Santa Teresa. Ao lado do motorista tinha um senhor de terno. Ele pediu que tomássemos uns comprimidos. Eu não queria tomar mas o Santo me disse pra obedecer. Tomamos os comprimidos. O carro começou a andar, pouco depois me bateu um sono irresistível. Dormi na hora. Quando acordei, já estava nesse lugar, Aldebaran.”
“É mesmo um hotel?”
“Talvez, ou a casa de algum milionário, não tinha certeza. Só sei que durante vinte dias não vi ninguém, quer dizer, nenhum outro ‘hóspede’. Nem o Santo me deixaram ver, apesar de eu implorar várias vezes. Mas não estava sozinha. Era acompanhada de perto todas as horas do dia por uma equipe: um médico, uma nutricionista, uma sexóloga, um personal trainer, que se revezavam no meu treinamento.”
“Não dava pra ter nem ideia de onde você estava? Em qual estado do país, pelo menos?”
“Eu não sabia direito, tinha a impressão de ser em algum ponto da região serrana, perto de Petrópolis. E estava certa.”
“Como pode ter certeza?”
“O motivo você vai saber depois, quando eu acabar de contar.”
Deixei que ela continuasse:
“A casa era antiga, espaçosa, com lareira. Em volta só montanhas. Tinha também uma piscina maravilhosa, um bosque, lago e cavalos.”
“Uma fazenda, ou um hotel-fazenda.”
“Eu perguntava pelos outros. O Santo havia dito que haveria outros casais. Apesar de simpáticos, nenhum dos meus acompanhantes me respondia. Numa conversa a sexóloga deixou escapar, não sei se de propósito, que os outros competidores estavam naquela mesma propriedade. Havia outras casas além daquela. Eu só não entendia por que nem o meu parceiro eu poderia conhecer.”
“Você perguntou pra ela?”
“Perguntei mas ela não quis me responder.”
“Que tipo de coisas você fez esse tempo todo?”
“Fazia caminhadas, nadava, enfrentava séries intermináveis de abdominais.”
“Odeio abdominais.”
“Fazia exercícios de respiração também. E conversava muito com a sexóloga.”
“Daria tudo pra ouvir essas conversas.”
“Duvido.”
“O que ela dizia pra você?”
“Não interessa, coisas de mulher.”
Como se ela já fosse bastante adulta.
“E o que mais?”
“Andava a cavalo, via filmes no vídeo, lia.”
“Lia? Você gosta de ler?”
“Gosto.”
Eu ia perguntar o que ela gostava de ler mas nunca pergunto isso a ninguém. É uma pergunta muito pessoal.
“Não vai perguntar o que eu lia?”
“Não. Quero saber outra coisa: você não me falou de seguranças.”
“Ah, sim, tinha seguranças, dois. Armados. Um ficava rondando a casa, de vez em quando sumia. O outro estava sempre perto de mim, uma situação insuportável. Era discreto, não falava comigo, evitava troca de olhares, mas era insuportável assim mesmo, até quando ia ao banheiro o cara ia atrás, ficava do lado de fora, vigiando.”
“Você disse que via filmes no vídeo. Deixavam você ver a programação normal da televisão? Te deixavam ler os jornais?”
“Não, eu não sabia nada do que estava acontecendo fora dali. Era uma prisão. Confortável, luxuosa, mas uma prisão.”
Não conseguia entender como funcionava essa tal preparação. Alimentavam bem os competidores, bolavam exercícios, conversas etc., mas e a tensão, o isolamento, a incerteza? Eu ficaria maluco.
Talvez a intenção fosse colocar o corpo em forma e ao mesmo tempo criar no competidor uma certa angústia, uma irritação que pudesse ser convertida em energia sexual. Pensei no meu próprio exemplo: quando estava com raiva, transava melhor com a Raquel. Nem precisava ser raiva dela, bastava estar com ódio de uma outra pessoa, ou incomodado com alguma adversidade qualquer que me tirasse do sério.
Não entendia bulhufas dessas coisas, mas pensei também numa outra explicação, complementar: aquele período de isolamento poderia provocar no competidor o tédio, e a consequente vontade de ver alguém da sua idade. Assim o encontro com o jovem parceiro seria mais produtivo do que se tivessem estado juntos todos os dias. Além disso, era alguém que teria sofrido o mesmo que ela, e essa pequena cumplicidade serviria como um ponto de atração entre eles.
Podia ser, ou podia não ser. Eu conjeturava apenas.
“E as apostas? Como funcionavam as apostas?”
“Não sei.”
“O Santo não te contou nada?”
“Não, nem eu quis saber.”
“Bom, quando acabou a preparação, levaram você pra onde?”
“Repetiram o mesmo processo do início. Me fizeram tomar uma droga qualquer. Quando acordei, estava num quarto, outro quarto, não o mesmo onde eu tinha dormido esses vinte dias. A sexóloga estava ao meu lado, esperando que eu acordasse. Me levou pra uma banheira, tirou minha roupa, me fez entrar. Eu estava meio zonza, mas aos poucos fui sentindo uma coisa boa, um relaxamento, a água tinha um perfume delicioso, suave. Devo ter ficado ali no mínimo meia hora, já nem queria mais sair. Então ela pediu que eu saísse, me envolveu numa toalha e me fez tomar uma ducha. Gelada.”
“Que tortura.”
“Também achei, mas só por alguns minutos. Depois que ela me enxugou eu era outra, sentia um bem-estar indescritível, uma vitalidade, cheguei até a rir. Ela pegou minhas mãos e me disse: muito bem, é isso mesmo, agora você está pronta, e eu perguntei pronta pra quê? Pra ganhar quinhentos mil dólares, minha querida, ela respondeu.”
Fiquei pensando se Lívia tinha a exata noção do que significava ter meio milhão de dólares. Eu mesmo não conseguia me ver com tanto dinheiro. Para qualquer dos canalhas daquela máfia essa grana era uma ninharia.
“E isso te animou?”, perguntei.
Ela se sentiu ofendida.
“Você acha que eu tinha cabeça pra pensar em dinheiro?”
“Todo mundo tem cabeça pra pensar em dinheiro.”
“Então eu não sou todo mundo.”
“Não precisa ficar nervosa. Foi só um comentário.”
“E eu só quero contar minha história, não quero ser interrogada.”
“Acontece que esse é o meu trabalho, pelo menos por enquanto.”
Ela não gostou. Eu também não, mas precisava ser forte se quisesse sair daquela enrascada.
“Me fala do seu parceiro.”
“Era alto, magro, bonito, muito bonito... e delicado.”
Senti o golpe. Tentei ignorar.
“Quando foi que vocês se conheceram? Ele entrou no quarto?”
“Não. Logo depois da ducha um homem abriu a porta. Está na hora, ele disse. Fui levada pra uma espécie de salão, escuro. A única luz vinha do teto, e iluminava uma cama, no meio do salão. Aquilo parecia um cenário, a imagem que me veio na hora era a de uma peça de teatro, era como um palco escuro, com uma cama no meio, iluminada por um foco de luz.”
Fiquei imaginando a cena.
“Era colorida a luz?”
“Branca.”
“E depois?”
“Vi o homem que tinha me apanhado no quarto se aproximar de mim, com um garoto.”
“Não estava escuro?”
“A luz no centro do salão era forte. Eu estava na penumbra mas deu pra ver quando ele chegou perto, era o mesmo cara que me trouxera do quarto.”
“E foi então que ele te apresentou seu parceiro.”
“Não, ele não disse nada, simplesmente pegou minha mão e a do garoto e juntou as duas. Depois disse: fiquem assim, até chamarem vocês. Um outro homem, de fraque, apareceu no outro lado do salão, um foco de luz sobre ele. Caminhou até o centro, ficou de pé, ao lado da cama. Uma voz anunciou: Mister Green, o árbitro desta noite. O homem de fraque falou algumas coisas, repetiu as regras e finalmente nos chamou. Um outro foco de luz desceu do teto sobre nós. Hesitei, meu parceiro também, o árbitro insistiu, repetiu nossos nomes, caminhamos até ele, o foco de luz acompanhando nossos passos.”
“E vocês estavam nus.”
“Estávamos. Caminhamos até o árbitro. Ele nos cumprimentou. Fique aqui, meu anjo, ele me disse, me colocando à sua direita. Meu parceiro ficou à sua esquerda.”
“Qual era o nome do seu parceiro?”, perguntei, torcendo para que fosse Pedro.
“Gabriel.”
Droga.
“Então o árbitro começou a me descrever. Lívia, quinze anos, um metro e sessenta e seis, pele branca, olhos azuis etc.”
“O que era o etc.?”
“Minhas medidas: seios, quadris, coxas, coisas assim. Depois descreveu o Gabriel. Quando terminou a apresentação, pediu que ficássemos num canto e chamou o segundo casal. Repetiu o mesmo ritual. Finalmente o terceiro casal de competidores foi apresentado. O árbitro então pediu, olhando na direção dos janelões, que todos fizessem suas apostas.”
“Janelões?”
“Depois o Santo me contou: em volta do salão há suítes, luxuosas, com uma grande janela de vidro dando para o centro do salão. O vidro é desses que só permitem ver de dentro. Quem está dentro vê quem está fora, mas quem está fora só vê um vidro escuro. Estávamos sendo observados, eles estavam nas suítes, à nossa volta, mas só víamos a escuridão. Estavam atrás dos vidros, os apostadores.”
“O árbitro pediu que os canalhas fizessem suas apostas. E daí?”
“Daí ele pediu aos casais dois e três que voltassem aos seus quartos. Ficamos eu e Gabriel. O árbitro falou que teríamos vinte minutos até o início da contagem do tempo. Pra se conhecerem melhor, ele disse, o sacana. Repetiu as regras. E então saiu, levando os outros casais.”
“E vocês?”
“Nada.”
“Nem uma palavra?”
“Ele me falou que estava com medo, eu respondi que também estava, só isso.”
“Ficaram vinte minutos calados, esperando?”
Lívia começou a chorar. Sentei ao lado dela no sofá, abracei-a. Queria dizer alguma coisa mas não tinha a mínima ideia do que pudesse dizer numa hora dessas.
“Você quer um chá?”, ofereci, apesar do calor.
Se fosse preciso, eu mesmo esfriaria.
“Quero.”
Fui até a cozinha, coloquei a água na chaleira. Abri o armário e peguei uma caixinha de chá de cidreira. Minha mãe dizia que se a gente ficar olhando a água ela demora mais a ferver, então desviei o olhar e esperei. Quando estava borbulhando, despejei na xícara, sobre o pacotinho de chá.
Quando voltei à sala, Lívia estava dormindo, deitada no sofá.
***
Deixei a xícara sobre a mesa, esfriando, e fiquei vendo Lívia dormir. Ela se mexia muito, começou a falar alto, palavras desconexas. Pesadelo, pensei. Acordei-a. Ela se enroscou em mim, assustada.
“Seu chá.”
Levantei, trouxe a xícara. Estava morno. Ela bebeu.
“Você acredita mesmo em mim?”
“Acredito, juro.”
Bebeu mais um pouco, me devolveu a xícara.
“Tive um sonho horrível.”
“Imagino. Quer me contar?”
“Não, só quero ficar quieta um pouquinho.”
O prédio estava excepcionalmente calmo. Ela deitou a cabeça no meu colo. Percebi que mantinha os olhos abertos. No que estaria pensando?
“O pior ainda não contei.”
Tinha uma expressão de cansaço.
“Lívia, você não acha melhor parar por enquanto? Vamos sair, comer uma pizza, depois você me conta o resto, que tal?”
“Não, vamos até o fim, eu prefiro.”
Voltei para minha poltrona.
“Nós vencemos aquela fase, eu e o Gabriel. Fizemos oito pontos no total.”
Eu queria saber dos detalhes mas não quis perguntar diretamente.
“Você deve ter sentido muita dor...”
“E ele também.”
Novo silêncio. Ela não diria mais nada sobre isso, concluí. Mudei o rumo da conversa:
“Você ainda se lembra do rosto dele, claro.”
“Como poderia esquecer?”
Senti uma pontinha de ciúme.
“Espera um pouco, Lívia, não saia daqui.”
Frase idiota, pensei comigo, aonde é que ela poderia ir?
Voltei com uma foto do Pedro. O nome que ela me dera, Gabriel, podia ser falso. Era uma hipótese pouco provável, já que na apresentação não inventaram um nome falso para Lívia, mas tentei assim mesmo.
“É esse?”
“Não.”
“E você saberia me dizer se esse garoto da foto é um dos outros rapazes que disputavam o campeonato?”
“Não, não é.”
“Certeza?”
“Absoluta.”
Saco! Guardei as fotos.
“Quando o garoto... quando ele entrava em mim...”, ela falou e se interrompeu, esperando a minha reação.
Permaneci sereno.
“Quando isso acontecia, eu pensava no Santo, no casarão de Santa Teresa, nas virgens, em toda a vida maravilhosa que levaríamos se ganhássemos aquele campeonato. Foi isso que me deu força.”
Peguei a jarra, despejei a água no copo, bebi de uma vez.
“E depois, quando acabaram os noventa minutos?Mandaram vocês de volta pra casa e pronto?”
“Eu e meu parceiro não iríamos pra casa, ficaríamos até afinal.”
“Sim, eu tinha me esquecido da final.”
“Mas os outros também não voltaram.”
“E foram pra onde, então?”
Ela se arrepiou toda com a pergunta.
“Espera, depois te conto. Me levaram de volta pro quarto. A sexóloga estava lá.”
“Essa mulher não tem nome?”
“Verônica. Mas não sei se era um nome falso. Verônica me esperava. Me deu os parabéns, num abraço demorado. Me levou até a banheira. Era tudo o que eu queria: um banho. Quando saí, ela me deu um roupão e disse: agora falta pouco, meu bem. Vesti minha roupa. Saímos do quarto e caminhamos por um corredor que ia dar num jardim indescritível, de cinema. No gramado havia dois carros: um preto, luxuoso...”
“Qual era o modelo do carro?”
“Eu não entendo nada disso, só sei que era preto e tinha custado muito dinheiro.”
Por um momento me senti ridículo. Aquela tinha sido uma pergunta que Sam Spade faria, ou algum desses detetives durões, mas não eu. Se ela tivesse dito qual era a marca e o modelo do carro não adiantaria coisíssima nenhuma.
“Um carro era preto, e o outro?”
“Era uma van, branca.”
Van ela conseguia identificar, e eu também.
“Vi quando uns caras levaram os casais perdedores e os colocaram na van. Verônica me entregou a um segurança e disse:agora é com você.”
“E ele te obrigou a entrar junto com os outros.”
“Não. Me levou pro carro preto. Quando estávamos bem perto, percebi que Gabriel estava sentado no banco de trás.”
“Então eles separaram os competidores. Os vencedores no carro preto, os perdedores no branco.”
“Exato.”
“Por quê?”
“Essa é a pior parte.”
Me ajeitei na poltrona.
“Pode dizer, estou ouvindo.”
“Uma regra do jogo eles não contaram. Ao final de cada disputa, os perdedores são...”
“São o quê, Lívia? Não precisa ter medo, fala de uma vez.”
“São mortos.”
***
“Eles matam os perdedores, André. Matam todos eles, quando acaba.”
Abracei Lívia. Seu corpo tremia.
“Agora chega”, eu disse.
Mas ela era forte, queria terminar de vez o relato.
Continuou:
“Quando o Santo soube disso, ficou desesperado. Sabia que não me matariam naquele momento, porque ainda tinha a final, mas depois...”
“Quando foi que ele ficou sabendo?”
“No momento de receber o prêmio. Um dos seguranças contou pra ele. O mesmo segurança que nos ajudou a fugir. Eu estava no quarto e não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Depois do banho Verônica trouxe minhas roupas e me vestiu. Agora vamos dar um passeio, ela disse. Estranhei mas achei que fazia parte do jogo. Ela me levou ao jardim e caminhamos até o carro preto. O motorista abriu a porta de trás e me mandou entrar. Já ia entrando quando ouvi um tiro. Verônica caiu, na minha frente, com uma bala no meio do peito. Só ouvi o Santo gritar: corre, Lívia! Ele repetiu: corre!, e atirou num dos seguranças que vinha me pegar. Acertou na cabeça.”
“Não sabia que o Santo era bom de tiro.”
“Mas era, aprendeu na Europa, teve que aprender, moramos em lugares barra-pesada também. Não pensei duas vezes, saí correndo pelo jardim, o Santo logo atrás. Ouvi mais tiros, e latido de cachorro. Corri, corri muito, desesperada. O portão, o Santo gritou. Corri na direção do portão entreaberto. Alguém tinha deixado assim, pra facilitar nossa fuga. Do lado de fora tinha um outro carro estacionado, sem ninguém no volante. Entramos, o Santo deu a partida e saiu a toda, com mais três carros atrás da gente.”
“Calma, devagar.”
“Sei que parece mentira, parece cena de filme, desses americanos, com perseguição e tudo, mas aconteceu mesmo: os caras atrás da gente, o Santo dirigindo que nem um maluco, eles atirando. Foi aí que tive certeza de que estávamos perto de Petrópolis. Foi uma loucura, o Santo desceu a serra cantando pneu em cada curva, os caras chegando perto. Quando dei por mim estávamos na Avenida Brasil. O Santo foi ousado, no desespero ele entrou na contramão, em plena Avenida Brasil. Os caras não conseguiram fazer o mesmo, ou não tiveram coragem. Desviamos de um carro, que bateu em outros, um acidente horrível, não gosto nem de lembrar. Na primeira saída o Santo enveredou por uma outra estrada e ficamos rodando à toa, sem destino, até que estivéssemos em segurança.”
Fiquei andando pela sala, refletindo sobre tudo aquilo que acabara de ouvir. De vez em quando olhava para Lívia, sentada no sofá, as mãos escondidas entre as pernas, o corpo curvado, como se sentisse frio. Pose de vítima, pensei, desconfiado.
Eu queria confiar nela, mas algo me dizia que poderia estar fazendo papel de trouxa. Resolvi arriscar:
“Essa história está mal contada.”
“Não, André, juro que foi assim.”
“Então me responde: como foi que o Santo conseguiu se livrar dos mafiosos, dentro da casa? E onde conseguiu a arma? Eles não iam deixar que ele entrasse armado.”
“Posso explicar.”
“Estou esperando”, eu disse, puxando uma cadeira.
“Lembra quando eu contei que o cara que foi nos buscar na Espanha parecia ser o líder ou, pelo menos, um dos líderes do grupo?”
“Lembro.”
“Pois então, o esquema funciona da seguinte maneira, ouve com atenção. O grupo tem três, como dizer, três facções, três grupos menores dentro dele, subgrupos. É como na máfia, entende, os chefões disputam o poder entre si. Lá também é assim, são três correntes de apostadores, cada qual com um líder, como eles chamam. Todos os apostadores usam um nome falso, nomes de cores: Senhor Amarelo, Senhor Lilás, Senhor Marrom, Senhor Vermelho etc.”
Parece filme do Tarantino, pensei.
“Os líderes do grupo são três: o Senhor Branco, o Senhor Preto, o Senhor Cinza.”
“Qual deles é o cara que foi te buscar na Europa?”
“O Senhor Branco.”
“Como é que você sabe?”
“Tudo isso foi o Santo que me contou, e acredito nele.”
Quer dizer, pensei comigo, que se o Santo tivesse mentido toda aquela história estaria furada. De qualquer forma eram aquelas as únicas pistas que eu tinha até então e era com elas, verdadeiras ou falsas, que deveria trabalhar.
“Você chegou a ver algum dos outros líderes, além do tal amigo do Santo?”
“Não, não vi ninguém, só sei os nomes, ou melhor, os nomes falsos. Posso continuar?”
“Pode.”
“Quando chegamos a Santa Teresa o Santo me contou tudo. Disse que um dos seguranças lhe deu uma arma e todas as instruções pra sair dali. Mesmo assim foi arriscado. O Santo não sabia pra quem o segurança trabalhava, a princípio pensou que fosse o seu amigo, Senhor Branco, que tivesse facilitado nossa fuga, mas depois pensou bem e deduziu que não.”
“Por que não?”
“Porque não interessava ao Senhor Branco que eu fugisse, pelo contrário. Se eu conseguisse fugir, como consegui, os outros apostadores poderiam tentar invalidar o campeonato, dizendo que o Senhor Branco vacilou na segurança do seu casal. Além disso, sem mim não haveria a final.”
“Teriam que adiar a final. E foi justamente o que aconteceu.”
Me lembrei do bilhete que Mariana arrancara do bolso do paletó daquele baixinho, na festa do Murilo Chaves. Em virtude dos últimos acontecimentos, estava escrito lá. A fuga de Lívia, a confusão toda, estes eram os últimos acontecimentos.
Lívia pareceu não ter me ouvido, estava concentrada, não queria perder a linha de raciocínio.
“Veja bem, André, a quem interessava a minha fuga?”
“Ao Senhor Preto e ao Senhor Cinza.”
“Exatamente. Desse modo, poderiam não apenas invalidar a disputa, que perderam, como também enfraquecer o Senhor Branco, alegando que tinha havido falhas no seu sistema de segurança particular. Cada líder é responsável por um dos casais, o que quer que aconteça com ele é de inteira responsabilidade do líder, como você leu nas regras. Assim, minha fuga iria cair nas costas do Senhor Branco.”
“Então você acha que foi um deles, o Senhor Preto ou o Senhor Cinza, que facilitou a fuga.”
“Ou os dois juntos, quem sabe. Devem ter subornado alguns homens do Senhor Branco. E o resto eu já contei.”
“O tiroteio, a perseguição...”
“Isso.”
“E o dinheiro?”
“Que dinheiro?”
“O que vocês ganharam na aposta. Onde foi parar? Ou o Santo não chegou a receber a grana?”
“Recebeu mas teve que dar tudo ao segurança, o que deu a arma pra ele. Foi uma espécie de acordo.”
“Ou seja, o Santo subornou o segurança”, eu disse, com uma ponta de ironia.
“O que você queria que ele fizesse?”, ela perguntou,ofendida.
“Então, além de passar a perna no Senhor Branco, o Senhor Preto, ou o Senhor Cinza, ou os dois, não importa, alguém ainda ficou com a grana toda da aposta.”
“Sim, mas os outros apostadores não sabem disso, pelo menos os que não tramaram o acordo. Pra todos os efeitos, o Santo teria levado o dinheiro com ele. Vê se entende, estão atrás da gente não apenas pra impedir que contemos toda a sujeira à polícia, mas também porque acham que estamos com os dólares. Mas nós sabemos que não, que ficou nas mãos de quem facilitou a nossa fuga.”
“Quer dizer que vocês ficaram sem nada, no zero novamente.”
“Ficamos.”
Ela descansou um pouco. Fiquei aguardando o final da história, se é que já não tinha terminado.
Lívia se levantou, alongou o corpo, os braços cruzados sobre a cabeça. Os seios se desenharam, perfeitos, na malha do vestido.
Reparei nos seus pés descalços. Tinha os pés mais delicados que já vi. Uma mulher com aqueles pés não seria capaz de mentir.
Ela ficou passeando os olhos e os dedos pelos livros, na estante.
Tirou um, leu o título na capa:
“O destino bate à sua porta. É bom?”
Permaneci em silêncio, observando Lívia, e pensando.
Eu adorava aquele romance, do James Cain. Dizem que o Camus se inspirou nele para escrever O estrangeiro. O Gordo comentava que a tradução do título original do romance do James Cain para o português era boba. A tradução literal, ele dizia, seria: O carteiro sempre toca uma segunda vez, que ele achava infinitamente superior. Eu gostava do título em português.
Ela guardou o livro de volta na estante, depois disse:
“Agora você pode entender por que o Santo mentiu naquele dia. O símbolo que vocês mostraram pra ele é do tal grupo, e não podíamos sair por aí contando isso pro primeiro que aparecesse, concorda?”
Não respondi. Deixei meu corpo escorregar pela cadeira e fiquei olhando sem ver uma mancha na parede. Tentava relaxar um pouco, colocar as ideias em ordem. Fechei os olhos. Devo ter ficado alguns minutos assim, digerindo aquela história.
Depois do breve descanso, abri os olhos, voltei à posição normal, esfreguei o rosto com as duas mãos.
“Está cansado?”, Lívia perguntou.
Ela parecia tão frágil, como conseguira enfrentar tudo aquilo que acabara de me contar?
“Estou bem. Vocês não acham perigoso continuar no casarão de Santa Teresa?”
“E aonde podemos ir?”
“Sei lá, eu já tinha dado o fora do Rio, e do país.”
“Com que dinheiro? E ninguém sabe que mora gente no casarão. Foi uma surpresa vocês terem aparecido naquele dia.”
“O Gordo não tinha certeza de que iríamos encontrar o Santo. Tentamos na sorte.”
“Mas você não deixa de ter razão, é perigoso sim. Antes de sair, hoje, o Santo me disse que tinha conseguido um outro esconderijo. Já arrumamos nossas coisas, vamos embora amanhã.”
“E hoje, onde vocês planejaram dormir?”
“O Santo não vai dormir, decidiu passar a noite na rua, vai ficar rondando o novo esconderijo, pra ver se é mesmo seguro. Me deu dinheiro pra dormir num hotel. Mas não quero ir, estou com medo de ficar sozinha.”
“Você pode dormir aqui.”
“Tem um quarto pra mim?”
“Tem, o meu.”
Ficamos nos olhando, em silêncio.
“Pode ficar tranquila, durmo na sala”, eu disse.
Fui até o quarto, arrumei a cama. Peguei um edredom e travesseiros, levei tudo para o sofá da sala.
“Hora de deitar”, eu disse, levando Lívia ao meu quarto.
Ela se deitou, cobri seu corpo com o lençol, apaguei a luz.
Fiquei na sala, encostado na janela. A janela do meu apartamento dava para o play do edifício vizinho. Estava deserto àquela hora, permaneci ali por um tempo, observando a quadra de basquete, onde uns pentelhos faziam uma barulheira danada nos finais de semana, os bancos de madeira, um velocípede abandonado num canto, esquecido.
Precisava dormir, estava morto de cansaço, mas não conseguia. Voltei para o quarto.
“Lívia”, eu disse, encostado no batente da porta.
“O que foi?”
“Por que você me contou tudo isso?”
Os dois no escuro absoluto, apenas nossas vozes cruzando o espaço.
“Gostei de você. Achei que precisava te avisar do risco que estava correndo. Eles podem te matar, André.”
Eu não disse nada. Saí do quarto. Deitei no sofá e fiquei olhando para o teto. Refletia sobre tudo o que Lívia tinha me contado, tentando achar um encadeamento qualquer dos fatos que me desse uma pista sobre o paradeiro do Pedro.
Ainda havia muita coisa a ser esclarecida. Qual o lugar que a peça Murilo Chaves ocupava no quebra-cabeças? Seria ele o Senhor Preto? Ou o Senhor Cinza? Se haveria uma final, quem disputaria com Lívia e seu parceiro? Já teria acontecido essa outra disputa, paralela, ou ainda estava por acontecer? E onde seria, no mesmo Aldebaran? Se aconteceria, ou se já tinha acontecido outra disputa, o Pedro estaria entre os competidores? Teria sido levado para lá pelo Murilo Chaves, por vingança? Que mafiosos eram esses que liam Rubem Fonseca? Ou será que só o criador do campeonato lia e os outros nem sabiam da existência do conto? E finalmente: como é que eu tinha conseguido me meter numa enrascada tão grande?
Minha mãe costumava dizer que quando eu era criança não tinha medo de nada. Ela se preocupava, dizia para ter cuidado com o trânsito, com assaltos, com a onda forte do mar, com a chuva, o sol, minha mãe tinha medo de tudo, eu não. Um dia, eu ainda era bem pequeno, uma vizinha me perguntou, brincando, por que eu não sentia medo, e respondi, sem pensar: preciso proteger minha mãe.
Ela adorava contar essa história, se sentia orgulhosa, a velha. Meu pai também achava graça, era uma das poucas vezes em que ele ria.
Devo ter ficado uma meia hora assim, pensando besteira, até que ouvi Lívia chamar pelo meu nome.
Fui até o quarto.
“Não consigo dormir”, ela disse.
“Eu também não.”
Pausa, nós dois em absoluto silêncio. Só se ouvia o barulho abafado de um ou outro carro na rua.
“Estou com medo, André.”
Continuei mudo, em pé, ao lado da porta do quarto.
“Desculpa, desculpa por ter te contado tudo isso. Agora você também corre perigo.”
Eu já tinha pensado nessa hipótese.
“Você tem certeza de que ninguém te seguiu até aqui?”
Conversávamos no escuro, eu não tinha acendido nenhuma luz.
“Tenho, sei me cuidar.”
Eu esperava que sim.
“André”, ela disse, numa voz mais suave.
Esperei. Começava a gostar daquilo: ouvir a voz de Lívia e ficar tentando adivinhar como estava o seu rosto enquanto falava, se ela estava deitada ou apenas recostada na cabeceira da cama, se o cabelo caía sobre os olhos.
“Vem deitar comigo.”
Não havia insinuação nenhuma na voz dela, parecia apenas uma menina assustada, pedindo colo.
Fui até a cama, afastei o lençol, me deitei ao lado de Lívia. Ela me abraçou. Estava nua.