O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 16 de 23

Páginas do PDF

O Campeonato

Capítulo 16

 

Lívia não estava gostando nada daquela história e não se intimidou diante de Rosália:

“Tudo bem, deixa ver se entendi. Além de se fazer passar por gay e amante do Murilo Chaves, o André ainda vai ter que fingir que é um aspirante a mafioso? Sim, porque se o seu pensamento estiver correto o André vai ser convidado pra uma conversinha com os chefões, não vai?”

Rosália e Mariana se entreolharam, enigmáticas.

“Creio que não será necessário”, Rosália respondeu.

Mariana pegou no meu braço e disse:

“Vem comigo, André, só um instante.”

“O que você quer com ele?”, Lívia perguntou, o nariz empinado.

“Essa garota é muito atrevida”, Mariana falou no meu ouvido.

“Não fala no ouvido dele!”

O Gordo se aproximou de Lívia, com uma voz suave:

“Deixa os dois conversarem, Lívia, só um instante. É só um instante, não é?”

“Claro”, Mariana respondeu.

Lívia começou a chorar:

“Vão matar você, André, você não pode entrar naquele inferno, eles vão acabar com você.”

O Gordo abraçou Lívia. Mariana me fez um sinal e a segui, até a cozinha. Tirei uma cerveja da geladeira, ofereci a ela.Recusou. Abri a cerveja e dei um gole, longo. Quando acabei, ela disse:

“Você deve estar estranhando o fato de eu apoiar a sugestão da Rosália.”

“Não, eu entendo. Sei que você está ressentida, só isso.”

Mariana quase pulou em cima de mim.

“Ressentida? Eu? Quem você pensa que é? Humphrey Bogart?”

Comecei a rir, eu sempre ria nessas horas. Ela continuou séria.

“Não estou nem aí se você resolveu se transformar num papa-anjo, entendeu? Não foi por causa disso que te chamei aqui.”

“E foi por que então?”

Ela fez uma pausa que deve ter sido curta mas me pareceu de séculos. Depois disse:

“Você sabe que eu ainda gosto muito de você, não sabe? Eu sei que você sabe, André, e sabe também que a última coisa que quero na vida é ver você correndo risco de se machucar, de... morrer. Se apoiei a ideia da Rosália é porque sei que você vai estar protegido.”

Fiz cara de quem não está entendendo nada.

“Montenegro me ligou, hoje”, ela disse.

“Ligou pra você? A que horas?”

“Pouco antes de você e o Gordo chegarem.”

“E como ele descobriu seu telefone? Ou melhor, como descobriu que você existe?”

“Escuta, André, Montenegro é um homem muito poderoso, não foi difícil pra ele descobrir que eu e você andamos saindo juntos.”

“Mas isso tudo é completamente absurdo, Mariana. Por que um cara assim tão poderoso precisa de mim?”

“Montenegro não é tão crápula quanto parece. Ele está mesmo desesperado pelo desaparecimento do filho e sabe que não é nada fácil chegar aonde o Pedro está. Se ele fosse se utilizar de profissionais, ou de políticos, ou de alguém influente, o pessoal do campeonato iria descobrir, eles têm esses figurões todos na palma da mão. O que Montenegro te disse não é nenhum disparate. Você não consta da ficha dos mafiosos, entende, André, eles não sabem da sua existência.”

“Como não, se eles sabem da existência do Gordo?”

“Eles não estavam atrás do Gordo.”

“Ah não? E quem eram aqueles dois sujeitos armados na frente do prédio do meu amigo, esperando pra acabar com ele?”

“Você está falando dos dois homens que você tentou afastar com a história dos travestis, e que depois apareceram na livraria.”

“Sim.”

“Não eram do campeonato, eram homens do Montenegro. Seguranças.”

“O quê?”

“Quer uma prova? Você não me contou nada sobre esse episódio, contou?”

“Claro que não, aconteceu essa madrugada.”

“Então como é que eu sei?”

A resposta era óbvia, mas não falei nada. Dei de ombros.

“Pensa um pouco.”

Eu não queria dar razão a Mariana mas o argumento dela não tinha réplica.

“O Montenegro te contou.”

“Pois é.”

“E que droga esses caras estavam fazendo lá então?”

“Protegendo Lívia.”

Fiquei olhando para ela, estupefato.

“Mariana, eu estou... estupefato”, eu disse, a estranha palavra ecoando por toda a cozinha.

“Você anda aprendendo umas palavras novas com o Gordo, confessa”, ela brincou.

Pela primeira vez naquele dia revi o sorriso de Mariana. Bálsamo.

“Por que o Montenegro precisava proteger Lívia?”

“Por quê? Porque Lívia poderia ajudar você a participar do campeonato, com as informações que tem.”

“Não é o que está acontecendo.”

“Essa Montenegro errou. Não contava com os estragos que uma mulher apaixonada pode causar.”

Novo silêncio, olhos nos olhos. Eu precisava beijar aquela mulher. Ela leu meus pensamentos como se lesse um livro aberto à sua frente. Meus pensamentos, aliás, não deviam ser um livro assim tão difícil de ler.

“Não, André, por favor. Temos pouquíssimo tempo.”

Controlei-me, a custo. Bebi mais um gole da cerveja.

“Quer dizer que passei aquele sufoco desgraçado pra tirar a Lívia justo das mãos dos seus protetores?”

“Foi isso o que eu quis te contar quando você me ligou dizendo que ia trazer a Lívia pra cá, está lembrado?”

“Acho que eu estava com muito sono naquela hora.”

“Sei.”

“Mariana, me responde com sinceridade. Você acha mesmo que o Montenegro só quer encontrar o filho, mais nada?”

“Acho não, tenho certeza. Seu plano pode não ser dos melhores, concordo, mas o coitado está tentando a última cartada. Se não der certo com você, não vai dar com mais ninguém.”

“Não confio nele, não dá pra confiar nele, convenhamos. Não sei como você pode ter tanta certeza de que o cara não é um safado.”

Mariana abaixou a cabeça e ficou assim um tempo.

“Eu tenho que te dizer uma coisa, André.”

“Fala logo.”

“Eu já conhecia o Montenegro antes de te conhecer.”

Aquelas palavras me apunhalaram, entraram pelos meus ouvidos como se fosse uma lâmina afiada.

“Ele é muito amigo do meu ex-marido. Sei muito bem quem é o Montenegro. Ele não está mentindo, pode ter certeza. E pode estar certo também de que ele não vai deixar que nada te aconteça.”

“Que droga, Mariana, como é que você quer que eu acredite nisso?”

O telefone tocou. Era o celular de Mariana. Ela atendeu.

“É pra você”, ela disse, me entregando o telefone.

“André, sou eu, Montenegro.”

Esperei.

“André, você está aí? Diga alguma coisa.”

“Como é que o senhor teve coragem de me meter numa fria dessas? O que foi que eu fiz pro senhor, merda!”

“Sossega, garotão, sossega. Eu precisava de você, e você precisava de mim.”

“Eu não precisava do senhor porra nenhuma! Precisava apenas de um pouco de dinheiro, só isso.”

“Justamente o que eu tinha pra te oferecer: um pouco de dinheiro.”

Devolvi o telefone para Mariana.

“Não quero falar com esse babaca”, eu disse.

Ela colocou o telefone de volta na minha mão.

“Acho melhor falar, agora não é mais só a sua vida que está em jogo.”

Respirei fundo.

“O que o senhor quer?”

“Bom menino.”

Odeio quando me chamam de bom menino.

“Vou ser breve, meu caro. Eu já sabia, há algum tempo, desse campeonato, antes mesmo de você me contar. Mas não poderia te dizer isso sem te assustar, então deixei que você mesmo descobrisse.”

“Filho da puta!”, falei baixinho, entre dentes.

“Agora é o seguinte. Eu sei que meu filho está naquele antro de marginais, e vivo.”

“Sabe como?”

“Tenho informantes lá dentro, André. Mas não posso eu mesmo entrar, todos sabem quem eu sou. Você não está visado, é minha única chance de recuperar meu filho. Você vai participar dessa final, você tem que participar dessa final. Siga os planos da Rosália.”

Então era isso.

“Foi o senhor quem bolou esse plano maluco, não foi? Rosália só está repetindo.”

“Sim, fui eu. Rosália está colaborando comigo desde que Pedro desapareceu, tem sido uma aliada da mais alta confiança.”

“O dinheiro que ela me ofereceu, a pasta com um milhão de dólares...”

“Fui eu que providenciei, é claro. São seus honorários. Isso é, caso você queira ir até o final do seu trabalho, evidentemente.”

Pausa.

Ele continuou:

“Escuta, o plano é bom, não vai falhar. Não se preocupe com a segurança, meus homens vão estar por perto, sempre estiveram. Aliás...”

“Foi um equívoco, eu sei, não podia adivinhar que os gorilas trabalhavam pro senhor.”

“Tudo bem, agora ouve com muita atenção. Está me ouvindo?”

“Estou.”

“Durante a apresentação do meu filho e sua parceira, vai haver uma explosão na suíte de um dos apostadores. No meio da confusão, o segurança encarregado do Pedro vai tirá-lo de lá e levá-lo para o corredor. Assim que você ouvir a explosão, saia da sua suíte e corra na direção do Pedro e do segurança, compreendeu?”

“Esse segurança do Pedro é um dos seus homens?”

“É. Mas vão aparecer outros que não trabalham pra mim. Vai haver pancadaria e tiroteio, se prepara. Meus homens vão servir de escudo pra você. Sua tarefa é sair com Pedro por uma porta lateral, no corredor, não tem como errar, vai estar aberta. Lá fora vão estar te esperando, com a fuga preparada.”

“E a moça?”

“Que moça?”

“A parceira do Pedro?”

“Porra, André! Eu por acaso sou o pai dela, caralho?”

Dei uma volta pela cozinha, segurando o celular e pensando no pai da parceira do Pedro. O Montenegro gritava de lá um monte de alô, eu não respondia. Mariana veio atrás de mim, querendo me tirar o telefone, devia estar pensando que eu estava bêbado. Eu não estava bêbado.

“Tudo bem, já entendi. Vou correr por fora.”

“Isso, meu filho, isso mesmo. Ninguém vai prestar atenção em você, vai estar quebrando o pau entre os seguranças e você vai sair pela tangente com o Pedro. Fui claro?”

“E se eles não permitirem que eu chegue à minha suíte? Se quiserem me interrogar antes?”

“É um risco que precisamos correr.”

Desliguei. Ele ligou de novo.

“Por que você desligou, André?”

“Por nada, queria ter a sensação de bater o telefone na sua cara, só isso.”

Mariana arregalou os olhos.

“Faça o seu trabalho, moleque”, ele encerrou a conversa, “para o seu bem, e para o bem do seu amigo, e da sua namoradinha.”

Desligou. Joguei o telefone na pia, com força. O aparelho se espatifou todo.

“Você está ficando histérico e isso não é nada bom.”

“Como você queria que eu estivesse? Meu melhor amigo corre perigo, minha namorada corre perigo, eu mesmo estou à beira da morte, na sala tem uma cobra venenosa querendo me devorar, esse velho doente me diz que está tudo bem, você me diz que está tudo bem e eu não posso nem mesmo dizer… não posso dizer...”

“Dizer o quê?”

“Que estou a fim de duas mulheres ao mesmo tempo.”

Mariana me beijou na boca, loucamente. O mundo rodou na minha cabeça.

Depois do beijo, ela me disse, seus lábios quase colados nos meus, me disse baixinho, a voz rouca:

“Quando tudo acabar... quando tudo isso acabar, conversamos novamente sobre esse assunto. Combinado?”

“Isso é alguma forma de consolo?”

Ela levou a mão ao meu rosto, num carinho.

“Não preciso te consolar.”

“Posso interromper?”, o Gordo disse, “acabou a cerveja.”

“Pega e vem pra sala”, falei, saindo dali.

 

***

 

Quando cheguei à sala, Lívia pulou no meu pescoço, num abraço apertado.

“Então?”, Rosália perguntou.

“Eu vou.”

Lívia ficou parada me olhando, sem acreditar. Ficamos todos calados, cinco estátuas. Até que Lívia falou alto com Mariana:

“O que você fez com ele?”

“Oba, vamos ter um pouco de ação”, o Gordo disse, às minhas costas.

“Não vamos ter ação nenhuma”, falei, tirando Lívia da frente de Mariana, “chega de cenas por hoje. Já disse que vou participar do campeonato.”

“Ótimo”, Rosália falou.

“Vou entrar nessa final, com uma condição.”

“O que você quiser, querido.”

“Nunca mais me chama de querido, está me ouvindo, nunca mais!”

Rosália recuou, assustada.

“A condição é a seguinte: a maleta com os dólares fica com o Gordo. Se acontecer alguma coisa comigo, o dinheiro é dele e da Lívia.”

“Você ficou maluco, endoidou de vez. Quem disse que nós queremos essa merda desse dinheiro?”, o Gordo disse.

“Aceito”, Rosália falou.

Lívia não se conformava:

“Essa coroa enfeitiçou você”, ela disse, se referindo não a Rosália mas a Mariana.

“Coroa? Eu sou coroa?”

“É coroa sim, você tem o dobro da minha idade!”

“E o triplo do juízo.”

“Coroa!”

Aquela baixaria já começava a me tirar do sério. O Gordo achava graça.

“Vou participar do campeonato e não se fala mais nisso.Vamos seguir o plano de Rosália. Lívia e o Gordo vão ficar aqui até que eu volte.”

“Se você voltar, meu amigo, se você voltar.”

“Ele vai voltar, Gordo”, Mariana falou.

“André”, o Gordo tentou uma última vez, “uma conversinha em particular nem pensar, não é?”

“Não.”

O Gordo entendeu que eu sabia de coisas que ele não sabia. Eu contaria tudo a ele, é claro, mas agora minha intenção era despachar Rosália. Não confiava nela.

“Quando vai ser a final?”, o Gordo perguntou, já sentado na sua poltrona, o copo na mão.

“Sábado que vem”, Rosália respondeu.

“Hoje é quarta”, eu disse, “precisamos de um lugar seguro pra esconder Lívia. Até sábado muita coisa pode acontecer.”

Rosália ia falar alguma coisa mas Mariana não deixou:

“Aqui é um lugar seguro.”

“Ótimo”, falei, “então agora é com você, Rosália. Você vai até o motel, leva a grana pro porteiro, combina tudo. Depois nos falamos.”

“É impressão minha ou o grande detetive está querendo se livrar de mim?”

“Impressão sua. Vai cuidar da sua parte ou nada feito. É pegar ou largar.”

Ela olhou para Mariana, depois concordou:

“Combinado. Ligo daqui a duas horas.”

Rosália pegou a bolsa e saiu, sem se despedir de ninguém. Mariana a acompanhou até a porta. Fiz um sinal para o Gordo, ele foi com elas. Eu confiava em Mariana mas daí a deixá-la a sós com Rosália era outra coisa. De agora em diante, precisava ter meus aliados sempre ao meu alcance, sem interferências, eu era o líder, o comandante, mesmo que não tivesse a mínima ideia do que fazer com isso.

 

***

 

“Agora você pode finalmente me responder?”, Lívia me perguntou assim que ficamos a sós na biblioteca.

“Responder o quê?”

“Não se faça de desentendido, André, você sabe muito bem do que estou falando. Por que não me contou que tinha outra namorada?”

“Não sei bem se é uma namorada.”

“Não?”

“Quer dizer, talvez tenha sido, não sei. Não te contei porque não queria te magoar, acho que foi isso.”

“Acha? Não tem certeza?”

“Lívia, arrisquei a minha vida pra te proteger, primeiro lá em casa, depois na casa do Gordo, e ainda continuo do seu lado. Não é o bastante?”

“Claro que não.”

Eu acabava de constatar uma das maiores verdades da vida: nenhum homem consegue satisfazer plenamente uma mulher.

“Podemos falar sobre isso mais tarde?”

“Você sempre me enrola, André, sempre.”

Achei gozado, ela falou como se nos conhecêssemos há vários anos e aquela situação tivesse acontecido outras vezes.

“Sempre?”

“É, sempre.”

“Está certo, eu sempre enrolo você, mas dessa vez juro que não é enrolação.”

Ela pegou o copo de vinho, bebeu, segurou um pouco de vinho dentro da boca e me beijou. Bebi daquele vinho tinto e daquele beijo, e beberia assim a garrafa inteira, se Mariana e o Gordo não tivessem chegado.

Ao descolar meus lábios dos lábios de Lívia, um pouco de vinho caiu na minha camisa. Todos olhamos para a mancha na camisa. Mesmo o mais cético dos homens teria visto naquilo um mau presságio.

“O que vamos fazer agora?”, Mariana perguntou.

E o Gordo:

“Você tem uma mesa de sinuca?”

“Tenho, no salão de jogos.”

“Então pronto, vamos jogar sinuca.”

Mariana e Lívia olharam para o Gordo, sem entender.

“Ele bebeu demais?”, Lívia me perguntou.

Apoiei a sugestão do Gordo, no fundo também fiquei com vontade de jogar.

“O Gordo está certo. Tanto faz conversar aqui como no salão, jogando sinuca.”

Lívia chegou perto de mim:

“Pra conversar comigo você não tem tempo mas tem tempo pra jogar sinuca com esse gordão aí. Eu não disse que você sempre me enrola?”

“Entenda como trabalho, minha pequena”, o Gordo disse, “vamos trabalhar agora, e muito.”

“Exercitar nossa massa cinzenta, como diria Poirot”, completei.

“Justamente”, o Gordo arrematou, enquanto caminhávamos para o salão de jogos.

***

 

Antes eu e o Gordo passamos pela cozinha.

“Vocês podem ir andando. Daqui a pouco a gente vai”, eu disse a elas.

Lívia me fuzilou com os olhos. Não estava nem um pouco interessada em ficar a sós com Mariana.

“Não vamos demorar”, completei.

Saíram. Apontei uma cadeira para o Gordo, ele sentou. Fiquei em pé, andando pela cozinha, em silêncio, pensando. Levei um tempo assim, zanzando pela cozinha enquanto colocava meu pensamento em ordem. Estava nervoso, precisava me movimentar um pouco. O Gordo quieto, me acompanhando com o olhar. Logo perdeu a paciência:

“Será que dava pra você parar de ficar dando voltinha e sentar o rabo nessa cadeira?”

“Não consigo pensar sentado.”

“Ah é? Desde quando?”

“Desde agora. Preciso caminhar enquanto penso.”

Abri uma cerveja, continuei dando voltas pela cozinha.

“Desconfio do Epifânio de Morais Netto.”

O Gordo ficou me olhando, calado. Depois perguntou:

“Você levou esse tempo todo pensando e andando feito um maluco só pra chegar a uma conclusão dessas?”

“Olha só, Gordo, você sabe tão bem quanto eu que aquele baixinho asqueroso e bebum da festa do Alto é arraia-miúda, não sabe? Um idiota daqueles jamais seria um dos líderes.”

“E daí?”

“Se até um imbecil como ele sabe do campeonato, é lógico que o Epifânio, muito mais esperto, também sabe. Sabendo da existência do campeonato, e sendo amigo íntimo de um dos líderes, o Murilo Chaves, tão íntimo que foi capaz de bancar aquela festança toda em solidariedade ao boiola...”

“Ex-boiola. O sujeito está morto.”

“Desculpa. Sendo o Epifânio tão amigo do ex-boiola, e sendo um oportunista de marca maior, é óbvio que não se contentaria em ficar na posição de mero apostador, como é o caso do baixinho.”

“Prossiga.”

“O Epifânio é um desgraçado de um sujeito ambicioso pra cacete, Gordo, qualquer um pode ver isso. Vaidoso, tarado, hipócrita, canastrão, um safado completo, não ia perder uma chance dessas de jeito nenhum.”

“E é inteligente também.”

“Pois é. Tudo indica que ele planejou tudo desde o início, na companhia do Murilo e do outro líder, é isso o que eu penso. E tem mais uma coisa: você se lembra do que a Rosália contou? O Murilo Chaves armou toda uma vida paralela, com esposa, filhos etc., até presidente do Flamengo ele foi. Com o Epifânio é a mesma coisa, entende? Quem iria desconfiar de um cara que escreve livros pra ajudar as pessoas? Você viu o último livro dele?”

“Não tive o desprazer.”

“Eu também não teria, se não tivesse sido obrigado a ir ao consultório do safado algumas vezes, durante aquela palhaçada do tratamento pra parar de ler. Numa das sessões ele me deu o livro, mandou que eu lesse.”

“O Epifânio te deu um livro dele durante o tratamento pra parar de ler?”

“Hum-hum.”

“E não me diga que você leu.”

“Lógico que não. Mas me lembro do título: As flores do bem.”

“Como é que é?”

“Isso mesmo que você ouviu. É um livro de autoajuda em forma de versos.”

“Poemas de autoajuda? É isso?”

“Exatamente.”

“Puta que o pariu!”

“Entendeu agora? O cara não tem limites. Folheei o livro, por curiosidade, dá vontade de vomitar de tão horrível, e ao mesmo tempo você sabe que aquela porcaria vai vender mais que sabão em pó. Agora me diga, quem é que vai desconfiar de um sujeito que escreve poemas de autoajuda, que publica um livro chamado As flores do bem? Um sujeito respeitado, que aparece com frequência na televisão, nas colunas sociais, sempre de roupas claras, impecável, sorridente, simpático. Quem desconfiaria de um homem assim?”

O Gordo abriu outra cerveja, bebeu no gargalo.

“Então você desconfia do Epifânio de Morais Netto porque ele é rico, poderoso, oportunista, sem escrúpulos e era amigo íntimo de um dos líderes do campeonato. Só por isso?”

“Você acha pouco?”

“O que eu acho é que pode haver ainda outro motivo pra você estar desconfiando do Epifânio.”

“Qual motivo?”

“Raquel.”

Olhei bem nos olhos dele.

“Não seja ridículo.”

“Você ainda está com ciúmes, está com raiva do safado porque ele roubou sua namorada.”

“Claro que não, porra. Eu já não gostava do canalha antes de ter acontecido essa confusão toda, desde o início eu sabia que ele era um escroto, um safado. Além do mais, eu sei que Raquel só fez isso pra se vingar, duvido que ela sinta atração por um cara que nem aquele, um... um... sei lá, um gordo!”

“Nada a ver.”

Fui até a pia, abri a torneira, enfiei minha cabeça embaixo da água. Estava ficando um pouco tenso demais e o Gordo não tinha nada que ter falado na Raquel, eu já quase esquecera o acontecido.

Fiquei ali um tempo, a camisa toda molhada. Desliguei a torneira, enxuguei o rosto e o pescoço com um pano de prato.

“Sua mãe não te ensinou pra que serve um pano de prato?”

“Foda-se!”

Abri outra cerveja.

“Você concorda comigo ou não, Gordo?”

“Concordo. Eu também já desconfiava do Epifânio.”

“E por que não falou de uma vez?”

“Queria ver se você acrescentava alguma coisa ao que eu já havia pensado.”

“E acrescentei?”

“Quase nada. Mas serviu pra confirmar minhas suspeitas.”

“Sabe o que eu acho? Que Murilo Chaves, Montenegro e Epifânio formam um belo time.”

“Pode ser.”

“Só não dá pra entender uma coisa: o que é que eu e você estamos fazendo no meio dessa história?”

Lívia apareceu na porta da cozinha, visivelmente contrariada.

“Vocês vão subir ou querem que eu traga a mesa de sinuca aqui pra baixo?”

“Se for possível...”, o Gordo respondeu, cínico.

Lívia fez que não ouviu, virou de costas e começou a subir as escadas. Fomos atrás dela, carregando as bebidas.

 

***

 

O salão tinha as paredes envidraçadas, dando vista para uma boa parte da orla, desde a pedra do Arpoador, ao longe, até o final da praia do Leblon, bem à nossa frente.

“Deslumbrante!”, o Gordo falou, encostado à vidraça.

A mesa ficava no centro do salão. Numa das paredes havia um alvo, para o jogo de dardos. Na parede oposta uma mesa menor, com duas cadeiras, e um tabuleiro de xadrez, as peças nas suas posições iniciais.

Lívia foi jogar dardos, não sabia jogar sinuca nem estava a fim de aprender, disse.

Comecei bem, escondendo a bola branca logo no início e deixando o Gordo numa situação difícil, mas depois fui perdendo completamente a concentração, pensava no campeonato, nos meus pais, naquele último telefonema do Montenegro. O safado do Gordo não quis nem saber, foi encaçapando uma bola atrás da outra.

“Vamos lá, meu amigo”, falou, o corpo curvado sobre a mesa, o taco na posição, seus olhos mirando atentamente a bola dois, “no que é que você está pensando?”

Caçapa. Eu não tinha matado nem uma bola e o cara já estava partindo para a bola três. Eu já nem olhava o placar.

“Não te contei uma coisa, Gordo.”

“O quê?”

“O Montenegro me ligou.”

“Quando?”

“Quando eu estava na cozinha, com Mariana. Ligou pro celular.”

“Você não tem celular.”

“O celular da Mariana, é claro.”

Gordo e Lívia olharam para Mariana ao mesmo tempo. Mariana olhou para mim. Fiquei esperando uma reação qualquer da parte dela. Mariana assentiu com um leve movimento de cabeça, sinalizando que eu podia contar a verdade. Contei tudo.

Mesmo calado, o Gordo deixou clara sua desaprovação quando soube que Montenegro e Mariana já se conheciam antes. Lívia quase destroçou o alvo.

“O que vocês queriam que eu fizesse? Ele me ameaçou, disse que se eu falasse qualquer coisa, se contasse que já nos conhecíamos, eu e o André sofreríamos as consequências.”

“E por que ele te autorizou a revelar esse segredo agora?”, o Gordo perguntou.

“Porque isso poderia me ajudar a convencer o André.”

Foi minha vez de entrar no interrogatório:

“Me convencer de que o Montenegro não é um mau-caráter... O cara te ameaça, a você e a mim, e não é mau-caráter? O que é um mau-caráter pra você, Mariana?”

Ela não gostou da pergunta mas se conteve. Cruzou as pernas lentamente e a barra do vestido subiu um pouco, deixando à mostra as coxas bronzeadas. Felizmente Lívia não viu aquilo.

“Não vamos perder tempo falando sobre isso. Se o Montenegro era meu amigo ou não é uma coisa que não interessa, a questão é que não dá mais pra voltar atrás. Eu não pedi pra entrar nessa confusão, nem você, mas a verdade é que entramos e agora o único jeito é ir até o fim.”

“O que você acha, Gordo?”, perguntei.

Ele pensou um pouco. Depois disse:

“Infelizmente nesse ponto ela tem razão, André. O jeito é seguir adiante.”

“Nenhuma outra alternativa?”

“Receio que não.”

Ele se aproximou de mim e disse, me olhando de frente:

“Você sabe que se eu pudesse iria com você, não sabe?”

“Sei, mas não pode.”

Retomei o jogo. Não fui tão mal, deixei o Gordo em sinuca.

Mariana chegou mais perto:

“Já disse que o Montenegro é de confiança. Agora precisamos pensar numa forma de comunicação pra quando você estiver lá dentro, isso é que importa. Eu mesma posso providenciar todo o material necessário.”

O Gordo permaneceu em silêncio, analisando a situação da bola branca, encostada na sete.

“Consegue sair dessa?”, perguntei, me referindo à sinuca.

“Talvez.”

“Preparo tudo até sexta-feira. É um equipamento simples, você não vai ter dificuldade nenhuma em aprender a usar”, Mariana disse.

“E se eles descobrirem esse equipamento? Se tirarem a sua roupa, se te revistarem inteirinho, inclusive... inclusive naquele lugar, se descobrirem que você está entrando lá como um espião?”

“Ele não corre esse risco, Gordo, não vão descobrir nada, eu garanto.”

O Gordo fez sua jogada. A bola branca saiu da sinuca, pela tabela, e na volta raspou de leve na quatro, derrubando-a, uma belíssima jogada de efeito. Eu já tinha perdido o jogo há muito tempo mas o Gordo fazia questão de se exibir. Ao lado, Lívia começava a me irritar com o barulho dos dardos.

“Lívia, dá pra atirar essas flechinhas mais devagar?”

“Falou comigo?”, ela perguntou, e em seguida só senti o dardo zunindo rente ao meu ouvido.

“Meu Deus”, Mariana disse, se escondendo atrás do Gordo.

Lívia me encarou:

“Ficou com medo, amor?”

“O que você acha?”, perguntei, ainda assustado e tentando descobrir qual tinha sido o destino daquele dardo.

“Não se preocupe, só acerto o alvo quando eu quero”, ela disse, e mirou na escultura de madeira do outro lado da sala, sobre um pedestal, uma escultura de meio metro mais ou menos, representando uma mulher, nua.

“Voilà!”, ela disse, batendo palmas ao ver o dardo fincado na testa da mulher de madeira. A escultura cambaleou, depois desabou no chão.

“Deviam mandar internar essa menina”, Mariana falou, ainda se protegendo atrás do Gordo.

“Ela tem boa pontaria, pelo menos”, ele comentou, tentando disfarçar o susto.

Lívia ficou de frente para Mariana, o dardo na mão,ameaçador.

“Desculpe pelo estrago, querida. Não era você naquela escultura, era? Bem que achei parecida.”

“Lívia”, falei, tentando chegar mais perto.

Ela fez um gesto com as mãos, indicando que eu não me aproximasse.

“Você já tomou uma decisão, não tomou, André? Vai entrar naquele campeonato, vai se meter em briga de cachorro grande, não vai? E vai ficar incomunicável, vai entrar lá com esses penduricalhos todos que essa dondoca quer colocar em você e nada disso vai funcionar na hora, simplesmente porque isso aqui não é filme de James Bond, André, será que você ainda não percebeu? Se te derem um tiro, só vamos ficar sabendo uma semana depois, merda!”

“Eu não tenho outra escolha, Lívia.”

“Tem, claro que tem.”

“Qual?”

“Vamos fugir.”

“Fugir pra onde? Com que dinheiro?”

“Não sei, a gente arranja. Eu já fugi uma vez, com o Santo, e conseguimos nos dar muito bem, fomos pra Europa, conhecemos o mundo todo.”

“Ah, sim, se deram bem, muito bem, você está aqui, nesse sufoco, e o Santo...”

Ela arremessou um dardo no alvo, com raiva. Mosca.

“Você é realmente boa nisso”, o Gordo disse.

“Lívia”, tentei argumentar, “tem um exército de mafiosos atrás de você. Nossa única chance é eu entrar e sair com vida desse campeonato. Então a gente foge, com a ajuda do Montenegro, e com bastante dinheiro.”

“Você não vai ver nem a cor desse dinheiro, escuta o que estou te dizendo!”

“O dinheiro ficará com vocês, em lugar seguro. Vamos planejar tudo, com calma. Depois da fuga nos encontramos.”

“Onde? Eu posso saber?”

“Ainda precisamos pensar nisso.”

“Sinto muito, André”, o Gordo disse, “mas agora serei obrigado a dizer uma frase horrível: eu não tenho um plano.”

“Viu? Nem o Gordo tem um plano!”

“Não tenho por um motivo bastante simples: não há o que planejar. O que podemos fazer é ficar escondidos aqui até sábado e torcer pra que os aparelhos que a Mariana vai arranjar funcionem. E, pior ainda, que o Montenegro cumpra a sua parte.”

“Vocês são malucos, todos vocês”, Lívia falou, sentando na mesa de sinuca.

O Gordo tentou evitar o desastre mas já era tarde.

“Porra, você estragou o jogo todo, garota!”

“Pergunta se vou pedir desculpa.”

Fui até a bandeja, peguei outra cerveja, abri. Falei olhando para o Gordo:

“Quer dizer que não há nada a fazer, a não ser esperar.”

“Fazer o quê, meu amigo? Estamos completamente à mercê do seu cliente. Aliás, que belo cliente você foi arrumar...”

“Como se a culpa não fosse sua: citação de Poe, grande ideia.”

“Sabe de uma coisa, André? Isso ainda não está bem explicado. Esse cara não foi atrás de você por causa daquele anúncio ridículo. Tem alguma coisa aí que não bate.”

“Gordo, eu já desisti de entender, agora o que eu quero é sair dessa, com todos vocês, e vivos.”

Mariana interrompeu:

“Mais uma vez eu te peço, André, confia em mim, o Montenegro é um homem de palavra, já me provou isso antes.”

“Provou como?”

“Não vem ao caso. Só te peço que fique calmo, na medida do possível. Se depender dele você vai sair são e salvo daquele lugar e fazer o que quiser com o seu dinheiro.”

“Uma parte da grana também é sua, você está com a gente, estamos todos no mesmo barco.”

“Todos no mesmo barco, direto pro fundo do mar”, Lívia falou.