O Campeonato

Flávio Carneiro · Capítulo 5 de 23

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O Campeonato

Capítulo 5

 

 

Procurei um telefone. Teclei o número escrito no cartão. Atendeu uma voz de mulher, pedi para falar com Mariana Paranhos. Era a própria.

“Você é a garota do Lamas?”

Eu sabia que era, mas precisava ter certeza.

“E você é o André, detetive particular em começo de carreira.”

Incrível como tanta gente sabia da minha vida.

Marcamos de nos encontrar em uma hora no bar Hipódromo, no Baixo Gávea. Era meio contramão, seria mais prático ali no Centro mesmo, onde eu já estava e onde ficava o escritório dela, mas precisava dar uma checada no Hipódromo. Fora ali que o Pedro tinha sido visto pela última vez.

Chamei um táxi. Agora eu só andava de táxi. Sentei no banco de trás. Tentei organizar os fatos na minha cabeça. Estava indo me encontrar com uma mulher bonita, atraente, que me dera bola uma noite num outro bar. Apesar disso, não era a expectativa de viver uma aventura amorosa o que me guiava ao encontro. No fundo precisava conhecer melhor Mariana Paranhos para entender, pelo menos, o que ela fazia no Lamas justo naquela noite. Não me parecia coincidência. Queria saber também como ela descobrira meu nome e minha nova profissão.

Cheguei rápido, o trânsito estava fluindo bem. Pedi uma mesa estratégica, na calçada. Da minha mesa podia observar as pessoas que entravam e saíam. Costumava ir ali, antigamente, quando comecei o curso de Direito na PUC. Naquela época dois inimigos mortais travavam combate dentro de mim: de um lado a sala de aula, com alguns senhores de terno e gravata se alternando no papel de professor, de outro o burburinho dos bares perto da faculdade. Era uma concorrência desleal, reconheço hoje.

Chamei o garçom, pedi um chope. Eram pouco mais de seis horas da tarde e o bar começava a encher. Se ainda for como na minha época, pensei comigo, deve lotar de agora até umas oito, oito e meia, depois se esvaziar de uma vez e começar a encher de novo lá pelas dez. Eram os ciclos do lugar, o revezamento de turno dos frequentadores.

Discretamente mostrei ao garçom a foto do Pedro com alguns amigos. Perguntei se conhecia alguém. Todos. Eram fregueses da casa, ele informou, mas andavam sumidos nos últimos dias.

“Esse aqui, quando foi que você o viu pela última vez?”

O garçom perguntou se eu era da polícia. Respondi que não, era detetive particular, estava trabalhando para o pai do garoto. Mostrei minha carteirinha. Era a primeira vez que eu fazia isso, senti algo estranho, como se não fosse eu que estivesse ali.

“Esse é o Pedro, bom menino. Aconteceu alguma coisa com ele?”

“Aconteceu. Está desaparecido.”

O garçom ficou mudo.

“Se souber de alguma coisa me liga”, pedi, dando a ele o meu cartão.

Perguntei pelo proprietário. Não estava, talvez nem viesse hoje. Eu poderia falar com o gerente, se quisesse. Ele me indicou um senhor na parte de dentro do bar, encostado ao balcão, conferindo alguns papéis. Agradeci.

Fui até o gerente. Repeti as mesmas perguntas. Conhecia bem o Pedro, muito educado, atencioso com os garçons. Também já trocara algumas palavras com o pai, doutor Montenegro, um contato superficial. Doutor Montenegro almoçava lá, de vez em quando. Quanto aos meninos, não tinha reparado nada de estranho da última vez em que estiveram ali. Na verdade, nem se lembrava direito de quando tinha sido mas se tivesse ocorrido algo fora do comum ele se lembraria. Estava penalizado com o desaparecimento do Pedro. Sim, entraria em contato se descobrisse alguma pista.

Voltei para a mesa. Abri um livro, comecei a ler. Não tinha sido a atitude mais apropriada, dali a pouco minha convidada chegaria e eu odiava interromper minhas leituras, fosse pelo que fosse. Mas também não tinha nada a fazer enquanto ela não chegasse. Acabei não resistindo, mergulhei nas primeiras páginas do romance e me esqueci do mundo.

Levei um susto quando ouvi uma voz dizendo:

“Rex Stout, leitura bem apropriada.”

Era Mariana.

“Para um detetive”, ela completou a frase, com um sorriso que não pude definir se de cumplicidade ou de ironia.

“Há quanto tempo você está aqui?”, perguntei, ainda surpreso.

Enquanto estava lendo, Mariana Paranhos tinha simplesmente se sentado à minha mesa e eu não percebera. Agora estava ali, as pernas cruzadas, a menos de um metro de distância.

Vestia uma blusa de cetim sem mangas, de alças, branca, contrastando com sua pele queimada de sol, e uma saia justa. Os cabelos presos num coque improvisado.

“Não se preocupe, acabei de chegar. Seu caso não é tão grave assim. Posso ver?”

“Claro”, eu disse, lhe entregando o livro.

Era um romance do Rex Stout: Ser canalha.

“Bom?”, ela perguntou.

“Creio que sim.”

“Ser canalha”, ela leu em voz alta o título. Não sei por que, tive a impressão de que ela se referia a mim, embora não tivesse motivos, ainda.

“Bebe alguma coisa?”, perguntei.

Ela hesitou por alguns segundos. Mordeu o lábio inferior, levemente, num gesto natural, como se fosse uma menina diante de uma vitrine de sorvetes.

“Vou acompanhar você. Um chope”, ela disse, sorrindo.

Pedi ao garçom.

Ela mantinha o livro aberto. Voltou a ficar séria, cara de adulta. Leu a epígrafe:

“Preciso registrar”, deu uma pausa, um rápido olhar na minha direção, depois de novo o livro, “que se pode sorrir e, sorrindo, ser canalha. Hamlet, ato I, cena 5.”

Fechou o livro. Colocou-o sobre a mesa.

Virou o rosto na minha direção, os grandes olhos negros, irresistíveis. Se eu não agisse rapidamente, estaria perdido.

“Primeira pergunta”, disparei, “como você sabia meu nome, e o meu trabalho?”

“E que é um iniciante.”

“Exato.”

“Não há mistério algum. Estava na mesa ao lado da sua,lembra?”

Como poderia esquecer?

“O restaurante não estava cheio”, ela continuou, “dava pra ouvir a conversa de um vizinho de mesa. Além disso, vocês não estavam exatamente cochichando.”

Era verdade. O Gordo aumentava o volume da voz quando bebia, e eu acabava aumentando também. Ela ouviu tudo o que conversamos naquela noite.

“Bom, então você sabe também o que fomos fazer ali.”

“Sei. O mesmo que eu.”

“Hem?”

“Também estou investigando o Murilo Chaves.”

Eu não podia acreditar.

Ficamos em silêncio, enquanto o garçom nos servia os chopes.

“Não é possível. Dois detetives investigando o mesmo sujeito, na mesma hora, no mesmo restaurante, em mesas vizinhas?”

“Não é provável, você está querendo dizer. Improvável é diferente de impossível. O mundo está cheio de casos assim.”

Eu ia retrucar, dizer alguma coisa mas uma outra mulher, passando por nossa mesa, atrás da cadeira de Mariana, desviou minha atenção. Era uma adolescente, loura. Não pude reparar nos detalhes mas tive a impressão de ser a namorada do Pedro. Seria sorte demais. Ela sentou numa mesa do outro lado do bar, com um cara mais velho.

Mariana seguiu a direção do meu olhar.

“Nabokov tinha razão”, ela disse.

Fiquei vermelho. Eu já tinha lido Lolita. Não estava mais na idade de ficar vermelho na frente de uma mulher mas aconteceu.

“Não é o que você está pensando.”

“Não estou pensando nada.”

“Essa garota é, acho que é, a namorada do filho de um cliente.”

“Que cliente?”

“Doutor Montenegro, um empresário. O filho dele desapareceu, há três semanas. Ele quer que eu encontre o menino.”

“Interessante. Conta mais.”

Pedi outro chope. Ela me acompanhou.

Mariana me inspirava confiança, entre outras coisas. Sabia que não devia ficar contando toda a minha história, era arriscado, mas quando me dei conta, alguns petiscos e rodadas de chope depois, ela já sabia quase tudo não só sobre o caso mas também sobre a minha vida. Se continuasse assim não iria muito longe na profissão.

Só uma coisa eu não havia contado: a preferência sexual de Murilo Chaves. Aquela informação seria o meu trunfo, como constatei mais tarde.

“Acho que vamos nos dar muito bem”, ela disse, quando concluí meu relato.

Havia uma dose de malícia na sua voz. Em nenhum momento da noite Mariana foi explícita, sabia manter certa ambiguidade, entre o profissional e o íntimo, num jogo de sedução capaz de envolver o mais gélido dos homens. Eu já começava a me render.

Numa última tentativa de escapar, voltei a falar de trabalho:

“Há quanto tempo você está investigando o Murilo Chaves?”

“Há exatamente dois dias. Eu o vi pela primeira vez ontem. Só o conhecia de fotos.”

“Então sabe pouco sobre ele.”

“Quase nada, mas já deu pra perceber que não é flor que se cheire.”

“Como é que você sabe?”

“Intuição feminina.”

“Só isso?”

Eu tentava tirar alguma informação. Mariana certamente sabia mais do que queria demonstrar, não era uma iniciante.

“Tem mais uma coisa.”

“Diga.”

“Quando alguém me contrata pra esse tipo de caso, é porque existe realmente um culpado, e não é o cliente.”

“Que tipo de caso?”

“Adultério.”

“Quem te contratou?”

“Quem você acha que poderia ser? A esposa dele, é claro.”

Eu não estava acreditando, aquilo era muito bom.

“De fato, tenho certeza de que vamos nos dar bem”, eu disse, retribuindo o tom malicioso.

“Vamos lá, meu adorável detetive, o que você tem pra me dizer?”

“Deixa ver se entendi direito. A esposa do Murilo Chaves desconfia que ele tem outra mulher e contratou você pra dar o flagrante.”

“Isso.”

“E você vai precisar fotografar os dois, lógico.”

“Sim, vou. Sem fotos não há como provar nada.”

“Pois seu caso já está encerrado, doutora. Eu sei como conseguir o flagrante.”

“Como?”

“Ainda não posso dizer. Primeiro precisamos fazer um acordo.”

Ela aproximou o rosto do meu, bem perto, fingindo que estávamos discutindo o assunto mais secreto do mundo. Senti seu perfume. Deu ao rosto uma expressão séria, arqueou as sobrancelhas, olhou para os lados, imitando uma espiã de filme.

“Pode dizer, camarada André.”

Eu ri. Ela segurou o disfarce por mais alguns segundos, depois se recostou novamente. Chamou o garçom. Pediu água mineral e um copo com limão e gelo.

“Posso lhe dar uma informação que você não tem.”

“E em troca...”

“Em troca você me empresta uma coisa que eu não tenho.”

“E o que seria?”

“Uma boa máquina fotográfica.”

“Só isso? Negócio fechado.”

Não seria só aquilo. Com o dinheiro que me sobrara poderia comprar tranquilamente uma máquina fotográfica. Eu queria um pouco mais: saber até onde Mariana sabia sobre Murilo Chaves, e me pareceu que uma troca de favores seria um bom caminho para aumentar nossa intimidade. Também sabia aonde é que tal intimidade poderia me levar.

“Murilo Chaves não tem outra mulher”, eu disse.

“Não?”

“Não. Isso não quer dizer que seja fiel.”

Ela me olhou, intrigada.

“Murilo Chaves não gosta de mulheres.”

“Quer dizer que...”

“Quer dizer que Murilo Chaves é homossexual. Gosta de homem.”

Ela respirou fundo. Roubou um gole do meu chope.

“E como foi que você descobriu?”

Contei o que faltava, a história que o Gordo havia me contado.

“Nós também, eu e o meu amigo, queremos dar um flagrante no Murilo Chaves. E tem que ser rápido.”

“Por quê?”

“Porque domingo tem Flamengo e Vasco, e o Gordo é vascaíno.”

“Ah, sim, um belo motivo, sem dúvida.”

Rimos novamente. Estávamos rindo demais para quem acabara de se conhecer. Estava adorando aquilo mas precisava trabalhar. Do outro lado do bar vi a loura se levantando. Talvez fosse ao banheiro. Era a minha chance de falar com ela sem a presença do acompanhante.

“Com licença, volto já.”

Caminhei até a garota. Ela entrou no banheiro. Esperei que saísse.

“Preciso muito falar com você”, eu disse, parando na frente dela.

Ela quis se desvencilhar, devia receber umas quinhentas cantadas como aquela toda noite. Fui mais rápido:

“É sobre o Pedro.”

Ela ficou me olhando, séria.

“Vamos sair daqui’, disse, me puxando para perto do balcão.

Quando estávamos a sós, ela perguntou:

“Você sabe onde o Pedro está?”

“Engraçado, era justamente isso o que eu ia te perguntar.”

Ela não gostou.

“Quem é você, cara?”

Mostrei minha carteira de detetive. Já me sentia mais à vontade no papel. A garota leu a identificação.

“O doutor Montenegro me contratou, pra encontrar o filho.”

Ela começou a chorar. Eu não queria escândalo. Tentei acalmá-la. De onde estava pude ver que o amigo dela nos olhava com desconfiança. Não o reconheci entre os amigos do Pedro que eu vira na foto. Precisava me apressar, não queria ninguém atrapalhando minha conversa com a namoradinha do filho do meu cliente.

“Fica tranquila, Kate, só quero ajudar.”

Ela gostou de ouvir o próprio nome. Todo mundo gosta. Parou de chorar.

“Não sei onde ele está.”

“Estava com ele na noite em que sumiu?”

“Até certa hora.”

“Que hora?”

“Não sei direito. Uma e meia, acho. Ficamos aqui até uma da manhã, depois ele me levou em casa. A galera ainda esticou numa boate em Ipanema mas ele disse que ia dormir, tinha aula no dia seguinte.”

“Como sabe que ele não te deixou e foi se encontrar com o resto do grupo?”

“Porque eles disseram que ele não foi. E o Pedro não ia mentir pra mim.”

Senti que começaria a chorar novamente. O amigo dela levantou da mesa e ficou de pé, nos vigiando. A qualquer momento viria ver o que estava acontecendo.

Dei a ela o meu cartão.

“Kate, me escuta, ninguém deve saber que estou investigando o caso, entendeu? Se o seu amiguinho perguntar, diz que sou um primo do Pedro que você não via há muito tempo, ou inventa qualquer coisa. Me liga se lembrar de algo importante.”

“Certo.”

Ela pegou o cartão.

“Vamos encontrar seu namorado”, eu ainda disse, antes de voltar à minha mesa.

Mariana folheava o romance do Rex Stout, distraída.

“Desconfia da garota?”, ela perguntou, sem tirar os olhos do livro.

“Não, de forma alguma.”

“E por que não?”

“Não vejo motivos pra ela estar envolvida no sequestro do próprio namorado. Com essa carinha de anjo...”

Mariana fechou o livro. Citou parte da epígrafe, olhando bem nos meus olhos:

“Que se pode sorrir e, sorrindo, ser canalha...”

Ficamos olhando um para o outro, calados. As luzes do bar davam ao seu rosto um brilho diferente.

“Você também tem cara de anjo.”

Ela sustentou o olhar.

“Tem razão. Não confie em mim.”

“Pode ser, quem sabe amanhã. Hoje preciso confiar.”

“Posso saber por quê?”

“Pode. Preciso de uma máquina fotográfica e você tem uma.”

“Não acha que está sendo um pouco interesseiro demais?”

“Acho.”

Peguei sua mão. Estava quente. A minha, úmida. Ela reparou, sem dúvida, mas fingiu que não.

“Para um aprendiz de detetive, você até que está indo bem.”

Ela acariciou meu rosto. Depois me puxou, devagar, e nos beijamos.

De olhos fechados, nossas bocas coladas, fiquei pensando que não tinha comprado o presente da Raquel.

 

***

 

Eram seis da manhã quando saí do apartamento de Mariana. Tínhamos deixado acesa a luz do corredor e a luminosidade era suficiente para eu enxergar minhas roupas espalhadas pelo chão do quarto. Reuni tudo, fui até a sala, me vesti, apanhei sobre a mesa a máquina fotográfica que ela havia me emprestado na noite anterior, guardei na bolsa, destranquei a porta com cuidado, saí.

Poderia ter ficado lá mas não me agradava a ideia de dividir a cama com uma mulher que conhecera naquela noite, pelo menos não para dormir. Imaginei que Mariana também não gostaria de me ver a seu lado quando acordasse, parecia o tipo de mulher que não suporta ver o amante com cabelo desgrenhado e remela nos olhos.

Desci até a praia. Mariana morava no Leblon. Fui caminhando pelo calçadão, na direção do Arpoador. Não dormira nada aquela noite mas não tinha sono, estava leve, como há muito tempo não ficava. Fui andando, observando a praia vazia, só um ou outro maluco correndo na areia e uns caras fazendo tai chi chuan mais adiante. No calçadão tinha mais gente, caminhando, correndo, pedalando, passeando com o cachorro. Uma mulher de vestido longo, preto, descalça, carregando os sapatos na mão, passou por mim.

Na altura do posto nove, em Ipanema, senti fome. Entrei na Vinicius, fui até uma padaria na Visconde de Pirajá. Pedi um sanduíche de queijo no pão francês, média, suco de laranja.

Quando cheguei em casa, Raquel dormia no sofá da sala. Tinha a chave do meu apartamento. Estava de calça jeans e blusa, o que significava que ficara me esperando até cair no sono, sem ter tido tempo de se trocar antes de dormir. Me senti um crápula.

Dei meia-volta, pisando de mansinho. Tranquei a porta por fora, desci as escadas.

Eram oito horas. Às nove eu tinha um encontro com o tal Guimarães, amigo do Augusto. A gravadora ficava na Tijuca. Resolvi ir logo de uma vez. Antes passei na farmácia, comprei pasta de dentes e escova, entrei no banheiro do McDonald’s. Não queria saber daquele emprego, era pura fachada, mas mesmo assim não iria me apresentar com os dentes sujos de pão.

Chamei o táxi. No caminho fui lendo o romance interrompido. Felizmente peguei um engarrafamento na Lagoa, e depois no túnel, e na Praça da Bandeira, de modo que pude ler bastante até chegarmos à Saens Peña, na Tijuca.

“Chegamos, meu chapa”, o motorista avisou, olhando pelo retrovisor.

Quis pedir a ele que esperasse mais um minuto, só até eu terminar o parágrafo, mas senti que ele poderia não gostar da ideia. Marquei a página, paguei a corrida, desci.

Atravessei a praça, entrei numa galeria comercial. Terceiro andar. Subi pela escada rolante. Gostava de escadas rolantes. Ficava me lembrando dos filmes em que o detetive cruza com o criminoso na escada rolante, um descendo, o outro subindo, e começa o tiroteio, a perseguição, aquele fuzuê todo. Vi vários filmes assim. Me lembrei daquela cena final de Os intocáveis, com o carrinho de bebê que o policial vigia ao mesmo tempo em que vigia a saída do mafioso do trem prestes a chegar, e depois o carrinho rolando pela escada no meio do tiroteio entre os policiais e os bandidos mafiosos, uma sequência que é, na verdade, uma citação, uma referência à famosa cena da escadaria em O encouraçado Potemkin, do Eisenstein.

Mas em ambos os casos não havia escada rolante, André, apenas escadas comuns, corrigi a mim mesmo. Eu vivia fazendo isso. Nada grave, chato era quando ficava discutindo comigo mesmo em voz alta na rua, no meio de todo mundo. O Augusto me achava doido. Eu não era doido.

Cheguei ao terceiro andar, entrei pelo corredor, parei diante de uma porta com a plaqueta: Quintal Records. Toquei o interfone.

“Bom-dia, o senhor Guimarães, por favor. Diz que é o André, irmão do Augusto”, respondi à voz feminina que me atendeu.

A porta abriu. Entrei. A sala de recepção era minúscula, um sofá de três lugares, uma mesinha de centro, só. Na parede, várias fotos do Rio antigo, em preto e branco. A secretária me encaminhou à sala do Guimarães.

O Guimarães era um senhor grisalho, calvo, magérrimo, meio corcunda, a pele amarelada. Talvez no convívio diário fosse um sujeito simpático, alegre, bem-humorado, mas à primeira vista só pude concluir que era uma péssima figura para se encontrar de manhã.

Apertou minha mão, perguntou pelo Augusto, indicou uma cadeira. Tudo muito sério, soturno, como se estivesse me dando os pêsames.

“Um cafezinho?”

Aceitei. Abriu a porta e pediu dois cafés à secretária. Acendeu um cigarro. Tragou, tossiu, apagou o cigarro inteiro no cinzeiro.

“Bom, vamos ao que interessa”, ele disse, esboçando o primeiro sorriso desde que eu chegara. Tinha os dentes manchados de nicotina.

“Seu irmão me disse que você é um rapaz culto, de muita leitura, e que aprecia música popular.”

Não era nada daquilo mas confirmei com a cabeça.

“Deve ter dito também que a Quintal Records é uma gravadora nova, estamos começando.”

Concordei. Ele continuou falando sobre as dificuldades de se montar uma pequena empresa nesse país, dos impostos, dos encargos sociais etc., eu pensando que ele não precisava enrolar tanto para me dizer que meu salário seria uma merreca. Eu já sabia disso, e tinha tudo previamente ensaiado: escutaria o velho, aceitaria o emprego, ele ligaria para o Augusto, eu viria trabalhar alguns dias, uma semana no máximo, depois inventaria um motivo e cairia fora. Tempo, era disso que eu precisava, ganhar tempo para ir tocando minhas investigações sem que meu irmão desconfiasse de nada.

A secretária trouxe o café. Dei um gole. Horrível. Guimarães bebeu o dele. Acendeu outro cigarro, tragou, tossiu, apagou no cinzeiro. Era um homem metódico.

Aproveitei que ele estava calado e perguntei qual seria a minha função na Quintal Records.

“Ah sim, claro, eu ia chegar lá. Mesmo sendo uma gravadora pequena, e praticamente desconhecida, já recebemos um bom número de fitas. São grupos iniciantes, querendo gravar o primeiro CD. Recebemos as fitas, a secretária esclarece que passarão por uma análise e em breve será dado um parecer sobre o trabalho. Vê aquela caixa?”

Virei na direção que ele apontava. Era uma caixa de madeira envernizada, escura. Devia caber um montão de fitas ali.

“É um trabalho de muita responsabilidade, filho. Daquela caixa podem sair grandes nomes da nossa música popular. O profissional que for avaliar esse material vai precisar de muita competência, conhecimento musical, e critérios, sobretudo isso: critérios. Não queremos cometer nenhuma injustiça, você me entende, e além disso o que sair daí levará o selo da nossa gravadora, não vamos sujar nosso nome no mercado lançando música ruim. Compreende?”

“Claro. E quem é esse profissional, alguém conhecido?”

“Ainda não temos.”

Ele silenciou. Acendeu outro cigarro. Tragada, tosse,cinzeiro.

Fiquei olhando o cara. Levei um tempo até entender.

“O senhor não está querendo dizer que...”

“Isso mesmo, André. Você acaba de ser contratado para o Departamento de Triagem.”

Triagem. Então era isso.

“Olha, senhor Guimarães, agradeço muito mas acho que não estou capacitado para a função.”

“Não seja modesto, rapaz.”

“Não é modéstia, eu não conheço música tanto assim. Gosto de João Gilberto, tudo bem, mas...”

“João Gilberto? O que o João Gilberto tem a ver com isso?”

Pronto, acabara de se instaurar o samba do crioulo doido. O Augusto tinha perguntado se eu gostava do João Gilberto, então achei que o trabalho tivesse a ver com esse tipo de música, o Guimarães inclusive tinha dito “música popular”, mas percebi que havia algum engano nessa história.

“Desculpe, seu Guimarães, mas o que é que a Quintal Records costuma gravar?”

“O Augusto não te disse?”

“Não, receio que não.”

“Pagode. Só gravamos pagode.”

Odeio três coisas na vida: formiga, cerveja quente e pagode. Olhei de novo para a caixa de madeira.

“Não se assuste, você vai aprender com o tempo. Além disso, vou ajudar você no início, ensinar algumas coisinhas, truques do ofício”, ele disse, me piscando o olho.

Fiquei imaginando o Guimarães avaliando grupos de pagode. Piada.

“Seu irmão vai se orgulhar de você, tenho certeza.”

Golpe baixo, pensei.

Tentei uma última cartada. Se desse certo, ótimo, se não eu sairia por aquela porta e nunca mais veria a cara do velho Guimarães. E foda-se o Augusto!

“Combinado, aceito.”

“Isso, meu jovem, é assim que se fala.”

“Só uma coisa, seu Guimarães.”

“Pois não.”

“Hoje é quarta-feira e tenho alguns problemas pra resolver até o final de semana. Posso começar na segunda?”

“É você quem sabe.”

Me levantei, apertei a mão do Guimarães. Ele abriu a porta, me deu um tapinha nas costas, disse: até segunda. Até segunda, respondi. A secretária me disse tchau, eu respondi: adeus. Nunca mais voltaria a vê-la.

 

***

 

Saí da galeria, desci a escada do metrô. Mais uma escada rolante, pensei, e imaginei bandas de pagode subindo a escada na direção contrária à minha, batucando, cantando, e eu atirando, pou, peguei um, pou pou, peguei mais dois, pou pou pou pou, disparei minha pistola imaginária e fui vendo cair cada um dos pagodeiros, com aquele sorriso fixo estampado no rosto. No fim da escada ainda me virei, tinha sobrado um lá em cima, com um pandeiro, pou, derrubei o desgraçado.

Fiquei esperando o trem do metrô, depois do massacre. Dessa vez não quis pegar um táxi, podia pegar o metrô ali mesmo na Saens Peña, vazio, era estação terminal, e descer na outra ponta da linha, em Copacabana. O trajeto durava uns quarenta e cinco minutos e eu não teria que ficar escutando buzina de carro. Escolhi um banco nos fundos, sentei, abri a bolsa, tirei o livro. Ainda era o Rex Stout, eu estava quase na metade.

Li novamente o parágrafo interrompido pelo motorista do táxi que me trouxera à Tijuca, e comecei o capítulo onze, onde o inspetor Cramer, da delegacia de homicídios, conversa com Nero Wolfe, reencenando o velho embate entre o detetive policial e o detetive particular. Logo no início me deparei com uma frase de Cramer que me fez parar a leitura e refletir. Dizia o seguinte, referindo-se ao que já descobrira na investigação de um assassinato: “Tudo que eu tenho não vale um níquel. É nesse ponto que estou. De duas, uma: ou eu estou ficando mais velho, ou os assassinos mais espertos.”

No meu caso não havia dúvida: eu estava ficando velho.Tinha vinte e seis anos, mas parecia ter passado dos quarenta nos últimos dois dias. E tudo que pudesse ter conseguido de informação não valia um níquel. Minha situação ainda era pior do que a de Cramer, ele podia estar blefando, querendo tirar alguma informação de Nero Wolfe, mas eu não. Quando me encontrasse com Montenegro, teria pouco a dizer: o Murilo Chaves é bicha. Ele talvez até já soubesse disso, por outras fontes, conhecia o homem de outros lugares, a julgar pela foto. Eu estava desanimado. Voltei ao livro. Li.

Acabei me envolvendo na leitura, como sempre, e só me dei conta de que era o último passageiro quando senti a vassoura da faxineira do metrô varrendo meu pé. Tinha pressa, logo entrariam outros passageiros. Saí rapidamente. Mais um parágrafo interrompido, lamentei.

Guardei o livro na bolsa e caminhei pela interminável estação do metrô de Copacabana. Subi a escada rolante, dessa vez sem delírios. Pensava num lugar no meio do caminho entre a estação do metrô e o meu apartamento em que houvesse uma floricultura. Não podia chegar de mãos abanando, tinha uma mulher me esperando em casa desde a noite passada.

Me lembrei de um lugar. Comprei orquídeas, Raquel adorava. A moça caprichou no arranjo.

Abri a porta do apartamento silenciosamente, receoso mas preparado para tudo, tinha uma história pronta na minha cabeça.

“Raquel”, falei baixinho, já dentro de casa.

Sem resposta. Caminhei até o quarto, passei pela cozinha, banheiro. Ninguém. Coloquei as flores num canto da pia, na cozinha. Voltei à sala. Estava achando estranho não ver nenhum sinal de Raquel. Que ela não tivesse me esperado, tudo bem, era previsível, mas que não houvesse quebrado nada, nem um copo, nem lançado um cinzeiro pelo vidro da janela ou destroçado um abajur era estranho, muito estranho.

Fui até a mesinha do telefone e não pude evitar o grito de terror.

Um exército de formigas, abomináveis, fazia um banquete sobre, debaixo, dentro de pedaços de páginas de um livro cortado em pedacinhos. Um dos pedaços identifiquei de imediato: fazia parte da capa de um livro meu. Não um livro qualquer, era uma edição americana de O falcão maltês, do Dashiell Hammet, com fotos, estudos sobre o livro, depoimentos, uma edição que eu conseguira comprar por uma pechincha num sebo e devia estar valendo uma boa grana se eu um dia quisesse vendê-la, o que absolutamente não estava nos meus planos. Era a única peça valiosa da minha biblioteca, tinha muito orgulho daquele livro, preferia passar fome a vendê-lo. E agora ele estava ali, os pedaços lambuzados de doce de leite, esquartejado, trucidado pelas formigas.

Num gesto de desespero, ainda tentei salvar alguma coisa. Impossível, as formigas deviam estar trabalhando no desmonte do meu livro havia horas e uma ou outra página que ainda sobrara intacta estava melecada até a alma com doce de leite. Dessa vez Raquel tinha ido longe demais. Recortara com a tesoura o meu livro mais querido, e, não satisfeita, passou nos pedaços de página todo um pote de doce de leite, entregando o livro ao apetite voraz das formigas que eu odiava desde criança, Raquel sabia disso, e que invadiram o apartamento depois da morte dos meus pais.

Urrava ainda minhas lamentações quando tocou o telefone. Deixei cair na secretária:

“André, é o Montenegro, por favor, atenda.”

Com supremo esforço, enfiei a mão entre as formigas. Elas já estendiam seu território por toda a mesa de telefone, incluindo este e a secretária.

“Alô”, eu disse, levando o telefone ao ouvido e sentindo que elas pulavam do aparelho para o meu rosto.

Aguentei firme.

“Não posso falar muito”, o Montenegro disse, felizmente, “espero você na esquina da 28 de Setembro com a Gonzaga Bastos, Vila Isabel, em duas horas.”

“Porra, Vila Isabel?”

Desligou. Vila Isabel fica ao lado da Tijuca, de onde eu tinha acabado de chegar. Joguei longe o aparelho, as mãos lambuzadas, formigas no meu rosto, no cabelo, corri desesperado até o banheiro, abri o chuveiro, entrei de roupa e tudo.

A água foi descendo sobre meu corpo e me acalmando um pouco. Fiquei pensando se valia a pena continuar bancando o detetive, minha vida estava de pernas pro ar.