O Campeonato
Capítulo 22
Fiquei paralisado por um momento, em estado de choque. Depois pulei em cima do cara.
“Seu desgraçado, seu...”
Não pude completar a frase. Senti a mão do segurança crescendo na minha direção, depois a dor, terrível, e o gosto de sangue na boca.
O gorila me acertara um soco que me deixou completamente tonto. Lívia limpou o sangue, passou gelo na minha gengiva, nos meus lábios.
“Não havia necessidade disso”, o Gordo falou.
“Meus homens não são treinados para serem gentis, é bom que saibam desse detalhe desde já.”
“Você acaba de caluniar o irmão dele, seu babaca!”, Lívia gritou, “o que você queria que ele fizesse?”
Foi então que finalmente reconheci Santiago.
“Você estava na festa do Alto, naquela noite. Você conversou comigo, agora lembrei. É o cara que trabalha com o Augusto no Banco do Brasil, você quer sacanear com ele, quer o lugar dele, seu desgraçado!”
Ele bateu palmas.
“Muito bem, é bom saber que sua memória não foi afetada. Mas deixa eu lhe dizer uma coisa: alguém andou mentindo pra você, e não fui eu.”
Não entendi. Fiquei esperando uma explicação.
“Não sou exatamente um rival do seu irmão, muito pelo contrário.”
“Como assim, porra!”, o Gordo reagiu.
“Muito simples, meu querido”, ele falou, encarando o Gordo, “eu trabalho pro Augusto.”
Eu segurava o gelo junto dos meus lábios. Por sorte o cara não me arrancara nenhum dente mas o ferimento ainda doía. Quando Santiago falou aquilo, joguei o gelo de volta no balde, com violência. Santiago fez um sinal ao garçom, que levou o balde e o trouxe logo depois, com novas pedras.
“Não pense que eu vou aceitar esse absurdo. Você pode trabalhar pro meu irmão, como está dizendo, pode até ser amigo dele...”
“Não chegaria a tanto”, ele me interrompeu.
“Tudo bem, mas você poderia até ser amigo dele, meu irmão nunca teve mesmo boas companhias, viveu sempre cercado de gente safada, mas isso não quer dizer que ele tenha alguma participação nesse campeonato de mafioso. Não tem nada a ver uma coisa com a outra! Você está mentindo! É tudo mentira, caralho! Mentira!”
Santiago curvou o corpo para a frente, apoiou os braços nas coxas, se aproximando um pouco mais de mim. Então falou, numa voz suave:
“Se você acompanhar com atenção o que vou lhe dizer, se não se deixar levar pelas emoções, vai ver que não estou mentindo.”
Ficou ainda um tempo naquela posição, me encarando,depois voltou ao normal.
Lívia pegou uns salgadinhos e me obrigou a comer. Tive que fazer um certo esforço, não era fácil mastigar com aquele corte na boca, mas foi bom, estava há horas sem comer nada.
“Estou ouvindo”, falei.
Ele começou:
“Você e seu... assistente já devem ter se perguntado por que razão um homem como Montenegro, milionário, poderoso, teria procurado um detetive iniciante, e através de um anúncio nos classificados.”
Esperei. Santiago continuou:
“Não encontraram uma resposta, suponho.”
“Ele disse que precisava encontrar o filho, que estava cansado de profissionais, queria um detetive amador, e jovem”, o Gordo respondeu, “mas depois soubemos da verdade: ele queria que algum desconhecido entrasse no campeonato e resgatasse o filho dele, alguém que não levantasse suspeitas, um elemento surpresa.”
O Gordo ainda não sabia que o Pedro não estava lá, eu não tivera tempo de lhe contar.
“Você disse ‘depois soubemos da verdade’ ou foi impressão minha?”, Santiago perguntou ao Gordo.
“Não foi impressão, eu disse exatamente isso.”
“Pois acaba de dizer uma grande besteira.”
O Gordo não gostou, se mexeu na cadeira, inquieto.
Mandei uma pergunta que estava engasgada fazia tempo:
“O Pedro existe?”
O Gordo e Lívia olharam para mim, espantados.
“Ainda não pude contar a vocês: o Pedro não estava lá dentro. No seu lugar tinha um outro rapaz.”
“Quer dizer que o Montenegro te mandou entrar na cova dos leões pra buscar o filho sabendo que o filho não estava lá? Ou ele não sabia?”, o Gordo perguntou.
“É lógico que sabia”, Santiago respondeu.
“Então por quê?”, perguntei.
“Vocês ainda não me deixaram responder à primeira pergunta. Assim não vamos chegar a lugar algum.”
“Tudo bem, responde: esse tal de Pedro existe ou não?”
“Existe, e é realmente filho do Montenegro. A questão é que ele jamais esteve desaparecido. Nesse momento, inclusive, deve estar tomando vinho à beira do Sena, ou bebendo cerveja num pub londrino.”
“Como é que é?”, o Gordo perguntou, quase pulando da poltrona, “você está me dizendo que arriscamos nossas vidas pra procurar um pentelho filhinho de papai que está passeando na Europa?”
“Acertou. Montenegro deu essa viagem de presente ao filho. Aliás, os três líderes sempre fazem isso durante o campeonato, mandam a família pra fora do país, por uma questão de segurança. Só que o Montenegro embarcou o filho com bastante antecedência, porque fazia parte do seu plano, claro. Normalmente os líderes despacham as famílias uma semana antes dos jogos. Se você, André, quiser ligar pra casa do Augusto agora e falar com a esposa dele, ou com algum dos filhos, não vai encontrar ninguém. Estão todos de férias, nos Estados Unidos. Quer tentar?”
Eu não queria tentar. Sabia que era verdade.
“Murilo Chaves não mandou a família pro exterior”, Lívia disse.
“Murilo não estava mais interessado em nada, a não ser nos seus próprios adolescentes, nos seus... meninos.”
“Se o que você diz é verdade, como é que Kate, namorada do Pedro, não sabia de nada?”, perguntei.
“E quem te disse que ela era namorada do Pedro?”
Droga! Aquele safado estava insinuando que Kate também era do grupo do Montenegro e eu sabia que ele poderia estar certo. Mais uma mulher bonita que me passava a perna.
“Porra, mas esse cara comprou todo mundo? Rosália, Mariana, essa tal de Kate?”, Lívia perguntou.
“Mulheres”, o Gordo disse, “ele só trabalhou com mulheres.”
“Montenegro não é bobo, sabia com quem estava lidando”, Santiago falou, olhando para mim.
Lívia não gostou:
“O que você está insinuando?”
Acalmei Lívia. Assim não chegaríamos nunca ao final da história.
“Voltando à questão inicial, por que o Montenegro me envolveu nessa confusão toda?”, perguntei.
Ele sorriu.
“Agora vem a melhor parte.”
***
“Vou tentar ser o mais claro possível, só me interrompam quando for absolutamente necessário. De acordo?”
Concordamos, embora eu soubesse que nenhum de nós cumpriria a promessa. Era lógico que iríamos interromper o cara a toda hora, e encher seus ouvidos com as perguntas que fervilhavam na nossa cabeça.
Ele acendeu outro cigarro.
“Começando do início. Todos já sabemos que o campeonato está dividido em três forças, e agora vocês já sabem os verdadeiros nomes dos líderes: Murilo, Montenegro, Augusto. Claro, se acreditam em mim. Sabem também, imagino, que cada um desses cavalheiros conta, ou contava, com uma equipe pessoal de seguranças e, principalmente, de assessores.”
“Você é um assessor”, eu disse.
Ele confirmou.
“Nossa principal tarefa, como assessores, é traçar estratégias para manter sempre sob controle a fatia de poder adquirida ao longo dos anos de existência do campeonato e, se possível, ampliá-la ainda mais. Desnecessário dizer que essa ampliação só pode se dar às custas da perda de poder por parte de um dos outros líderes, ou mesmo dos dois.”
“Lógico, mas...”, o Gordo tentou interromper.
Santiago fez um sinal com a mão, pedindo que o Gordo esperasse.
Continuou:
“Entre as atividades que desenvolvemos está a espionagem. Conheço profundamente a vida do Montenegro e do Murilo Chaves. Infância, juventude, gostos, traumas, laços familiares, amizades, patrimônio, negócios, os nomes de seus aliados, seus métodos de trabalho. E também tenho consciência de que, da mesma forma que sei tudo sobre nossos inimigos, eles também sabem tudo sobre Augusto. E sobre os familiares de Augusto.”
“Desde quando eles espionam a gente?”, perguntei.
“Por quê?”
“O que esses bandidos sabem sobre meus pais?”
“Tudo”, ele respondeu, calmamente.
Minha cabeça começou a rodar outra vez. Estava muito fraco, mal alimentado, todo moído. Lívia segurou meu rosto,perguntou se eu estava bem, pediu ao garçom que preparasse um lanche. O garçom olhou para Santiago, ele autorizou.
“Toma isso”, Lívia me passou um comprimido. As benditas bolinhas verdes, já tinha me esquecido delas. Engoli o comprimido, com um gole d’água.
Eu não tolerava a ideia de que durante anos tinham espionado meu pai e minha mãe, vendo o que eles faziam, indo atrás deles na feira, no supermercado, na igreja. Se o Augusto tinha mesmo culpa no cartório, eu nunca o perdoaria por ter deixado que meus pais corressem risco de vida.
“Continuo?”
Fiz que sim.
“Quando Montenegro foi te procurar, André, já sabia bastante coisa sobre você e, claro, sobre o seu amigo.”
Até o Gordo. Sem que eu pudesse controlar, uma cena se desenhou, nítida, diante de mim, como num sonho: eu e o Gordo, nós dois bebendo no Bar Brasil, falando bobagens, e de repente todas as pessoas do bar, inclusive os garçons, os funcionários do balcão, o proprietário, todo mundo olhando para a gente, em silêncio, olhares inquisidores, e o Gordo paralisado, o braço no gesto interrompido de levar à boca um pedaço de costeleta, eu com o copo de chope suspenso no ar, eu e o meu amigo ali no bar em que bebíamos sempre, onde éramos reconhecidos, e queridos, de uma hora para outra acusados de alguma coisa que não sabíamos, alguma falta grave, os dois na berlinda, estáticos, cheios de culpa.
Esfreguei os olhos com as duas mãos, não iria começar a delirar, só me faltava essa.
“Naquele dia”, Santiago continuou, “em que fez contato com você pela primeira vez, Montenegro já tinha todo o plano perfeitamente montado.”
“E que plano era esse?”, perguntei.
“Primeiro seu lanche, não quero que desmaie no meio da história.”
O garçom colocou a bandeja à minha frente, com um cheeseburger, guardanapos, ketchup, mostarda, um suco de laranja e um copo com gelo. O sanduíche tinha cara de ter saído do micro-ondas, a aparência não era a mesma de um cheeseburger feito na hora, na chapa. Devorei assim mesmo, parecia um bicho comendo. Todos olhavam pra mim, eu imaginava o espetáculo dantesco que estava propiciando, mas não quis nem saber, estava faminto. Terminei, pedi outro ao garçom. Lívia me olhou com uma expressão de mãe.
“Está melhor?”, ela perguntou, acariciando meus cabelos.
Não me sentia muito bem mas pelo menos a tontura estava passando.
“Vamos lá, qual era o plano?”, o Gordo perguntou.
“Um plano bem tramado, sem dúvida, típico do Montenegro. Devo admitir que meu rival é um bom estrategista, meio fantasioso, como vocês vão constatar, mas um bom estrategista. Ele estava diante de um problema: como eliminar Murilo e Augusto?”
“Só isso que ele queria, mais nada?”, Lívia perguntou,irônica.
“E é bem provável que tenha conseguido, minha querida, bem provável. Acabar com o Murilo não seria muito difícil, bastava ter um pouco de paciência, já que ele mesmo estava cavando sua própria sepultura, como sabemos. Era uma questão de tempo e o coitado começaria a perder completamente o seu espaço, por displicência, descuido, como de fato aconteceu. Montenegro não precisou nem se dar ao trabalho de mandar matá-lo, o próprio amante, o tal de Renato, um jovem apressado, como todo jovem, aliás, fez o serviço. Montenegro estava realmente com sorte esse ano.”
“As fotos que eu fiz, para os jornais...”, o Gordo começou a dizer.
“Ótimas, sou grato a você pelo excelente trabalho. Eu, Augusto e, claro, Montenegro ficamos muito satisfeitos com o resultado.”
“Merda!”, o Gordo disse, socando a poltrona.
Ele entendeu que, mesmo sem querer, havia colaborado com Montenegro. O escândalo nos jornais foi a gota d’água, era o que faltava para o Murilo Chaves se ferrar de vez dentro do campeonato.
“Não creio que Montenegro tenha pensado exatamente nesse escândalo, mas quando ele sugeriu que vocês investigassem Murilo Chaves, certamente sabia que poderia acabar acontecendo alguma coisa assim. Murilo estava facilitando demais, e com dois entusiasmados detetives na sua cola certamente haveria notícia.”
“E houve”, completei.
“Sim. Como podem ver, Montenegro pensou em cada detalhe.”
Chegou meu segundo cheeseburger, e outra coca. Comi um pouco mais devagar mas nada que se equipare a uma exibição de boas maneiras. Quando acabei, me deu um sono avassalador, se eu pudesse dormiria ali mesmo, sentado.
“Mas como contei no início”, Santiago disse, aumentando o volume da voz e me tirando daquela letargia, “acabar com o Murilo não foi tão difícil. O problema maior seria com o outro líder, o Senhor Branco.”
“Augusto”, Lívia completou.
Segurei o braço de Lívia, falei firme com ela:
“Isso é o que ele está dizendo, ainda não temos prova de nada, ouviu? Não podemos confiar nesse sujeito!”
Santiago deu outro daqueles sorrisos que mais pareciam uma careta.
“Olha, pra mim tanto faz se você, sua namorada ou seu amigo barrigudo acreditam no que estou dizendo. Minha intenção é simplesmente colocá-los a par dos fatos. Foi o próprio Augusto que me pediu pra contar tudo a vocês, ele não quer perder tempo com isso. Agora, se vocês não querem acreditar não é problema meu.”
Eu havia dito aquelas palavras para Lívia de forma agressiva, ela chegou a me pedir desculpas por ter acreditado, por um momento, que Augusto fosse um dos líderes do campeonato. Mas eu acabava de concluir, para mim mesmo, enquanto Santiago não continuava seu relato, que o meu gesto tinha sido simplesmente uma defesa, eu fizera aquilo, falara naquele tom irritado porque por dentro, lá no fundo mais fundo da minha alma, estava fazendo um esforço enorme para não acreditar no que aquele sacana estava contando sobre o meu irmão. E estava ficando cada vez mais difícil resistir.
***
Santiago prosseguiu:
“Com o escândalo envolvendo Murilo Chaves, houve uma reunião com os apostadores e os outros líderes. Nessa reunião ficou decidido que Murilo deveria ser eliminado, por representar um grande risco para a manutenção do campeonato. Renato nos poupou desse trabalho. O campeonato passou a ter, a partir daí, apenas duas famílias, como Montenegro tinha planejado. Mas o que interessa, como resultado dessa reunião, é que ficou mais claro do que nunca que dali em diante qualquer deslize, fosse de Augusto, fosse de Montenegro, seria fatal.”
“Quem pisasse na bola virava presunto”, o Gordo disse.
“Sobretudo com relação à segurança. Afinal, Murilo foi eliminado, ou teria sido, porque relaxou exatamente nesse item: segurança. Assim, qualquer dos dois líderes que, de alguma forma, deixasse vazar alguma informação que colocasse em risco a existência do campeonato estaria condenado à morte. Isso, como vocês verão mais adiante, só veio a colaborar com o plano de Montenegro.”
“Permite uma hipótese?”, o Gordo perguntou.
“Se não for muito longa.”
“Não será. Imaginemos que o Senhor Branco, por exemplo, dê algum vacilo com relação à segurança, que ele, vamos supor, seja flagrado de sutiã e calcinha de madrugada debaixo dos Arcos da Lapa. O Senhor Cinza estará no direito, segundo as normas do campeonato, de matar o Senhor Branco e assumir sozinho a gerência do negócio. Até aí tudo bem. Mas e se, porventura, o Senhor Branco se recusar a aceitar tal punição, se ele tiver mais homens e mais armas que o Senhor Cinza e resolver partir pra briga, como é que ficamos?”
“Acho que o amigo ainda não entendeu como funciona o campeonato.”
“Talvez não”, o Gordo disse, abrindo mais uma cerveja e enchendo o copo.
“Se a questão fosse apenas essa, dar um tiro no outro, o campeonato já estaria extinto há muito tempo. Os líderes sabem que há toda uma complexa rede ligando os apostadores, que não são pistoleiros, como você imagina, mas empresários, políticos, intelectuais, artistas. Há todo um jogo de alianças. Algumas dessas alianças, a maioria, aliás, se fazem e se desfazem com relativa facilidade, mas outras são definitivas. Existem apostadores fiéis ao seu líder, acreditem ou não. E esses apostadores podem causar problemas se quiserem. O Senhor Cinza pode acabar com a vida do Senhor Branco, e pode ainda matar todos os seus seguranças, e até os seus assessores, mas como vai lidar com os apostadores, com aqueles que sempre apostavam no casal indicado pelo Senhor Branco? Vai matá-los também? Não, ele não vai fazer isso simplesmente porque se fizer vai perder dinheiro, o campeonato só existe porque existem apostadores, e estará, ainda, correndo o risco de virar as costas e um dos apostadores, que tenha se sentido traído com a morte do Senhor Branco, denunciar tudo à polícia.”
“O Senhor Cinza, nesse caso, teria que ter um motivo bastante convincente pra matar o Senhor Branco, caso quisesse herdar os seus apostadores”, Lívia concluiu.
“Exato. Não se trata de matar simplesmente, é preciso seguir as regras. Se o regulamento for desrespeitado, aí sim, a punição será aceita por todos. Como aconteceu com Murilo Chaves, por exemplo.”
“Mas o deslize que levou à morte do líder, no caso de Murilo Chaves, foi premeditado por outro líder, Montenegro. Como os apostadores do Murilo aceitaram isso?”, perguntei.
“Nem todos sabem que houve uma armação por parte do Montenegro. Os apostadores não têm acesso a todas as informações que temos, é óbvio. Além disso, antes mesmo de haver o escândalo nos jornais, os próprios apostadores ligados a Murilo Chaves já estavam pensando na possibilidade de escolher um outro líder, Augusto ou Montenegro, porque começavam a perceber que Murilo não era muito confiável. Pro Montenegro, a grande questão não era essa.”
“E qual era?”, o Gordo perguntou.
“Voltamos ao início. Percebo que estamos andando em círculos. Talvez seja mesmo o único caminho.”
Ele fez uma pequena pausa, antes de responder à pergunta do Gordo.
“A grande questão era: como criar um motivo pra justificar a eliminação de Augusto? E é então que nosso amigo André faz sua aparição nessa longa história.”
Não era difícil imaginar aonde o canalha iria chegar com seu raciocínio maquiavélico, mas por um momento tive a esperança de ainda encontrar alguma brecha naquele discurso, algo que pudesse desmontá-lo e salvar a honra, a integridade, a dignidade do meu irmão, e a minha. Eu estava sendo desnudado até a alma na frente do Gordo e de Lívia e não conseguia reagir. Ao destruir a imagem do meu irmão, o cara também estava acabando comigo, estava me matando aos poucos e eu não podia fazer nada, ninguém podia fazer nada, a não ser esperar o desfecho, o punhal entrando de uma vez no meu peito, e a punhalada estava próxima, eu sentia.
“Este, sim, foi um golpe de mestre. Montenegro conseguiu superar minhas expectativas.”
Esperamos que ele limpasse a boca com o guardanapo. Ele chamou o garçom. Eu já não suportava mais aquilo.
“Fala de uma vez, porra!”, gritei.
Um dos seguranças fez menção de se levantar, mas Santiago o impediu. O garçom veio, Santiago cochichou alguma coisa no ouvido dele, o que me irritou mais ainda.
Finalmente falou:
“Desde o início a grande preocupação do Montenegro era com Augusto, não com Murilo. Quando um dos assessores do Montenegro lhe disse que você, André, tinha colocado um anúncio nos jornais se oferecendo como detetive particular, o plano começou a se desenhar na cabeça de Montenegro. Ele sabia de duas coisas. Primeira: seu irmão, Augusto, tem você como um filho.”
Comecei a chorar. Merda!, não queria chorar, não na frente daquele puto, e dos dois seguranças, e do garçom, e nem na frente do Gordo e da Lívia, mas ele falou que o Augusto me queria como um filho, não deu pra segurar e desabei numa choradeira sem fim, ridícula, incontrolável, há horas sabia que isso poderia acontecer, estava fora do meu normal, meu corpo, minha cabeça, eu era um farrapo, então era claro que aquilo iria acontecer,devia estar preparado mas quando aconteceu só consegui deixar tudo vir abaixo e tapar o rosto com as mãos, morrendo de vergonha.
Todos esperaram, em silêncio, que eu desse o meu vexame particular. Lívia enxugou meu rosto, abriu uma cerveja e me deu. Bebi.
“Posso continuar?”
Fiz que sim.
“Além disso, Montenegro sabia também que o André idolatrava Augusto. Sabia que o considerava um pai. Foi justamente a partir daí, dessa relação tão forte entre os dois irmãos, aliada a um puro lance de acaso, o anúncio nos jornais, que Montenegro arquitetou sua estratégia.”
“Colocar André no campeonato. E fazer todos pensarem que ele era um espião”, o Gordo disse.
“Até que enfim um raciocínio rápido.”
O Gordo fez de conta que não ouviu.
Santiago tentou concluir:
“O que Montenegro pensou foi...”
“Como você pode saber o que foi que o cara pensou, cacete!”, Lívia interrompeu, gritando.
“Creio que os ânimos estão um pouco exaltados demais por aqui”, Santiago disse.
Abracei Lívia, não poderia deixar que um dos brutamontes lhe acertasse um soco.
“Entenda como uma hipótese o que vou dizer, Lívia. Já disse que parte da minha narrativa são hipóteses, deduções, encare dessa forma e procure apenas me ouvir. Montenegro pensou: se eu fizer com que André seja introduzido no campeonato justamente na final, que é o evento mais importante do ano, e se deixar claro para os apostadores que André é um impostor, e se, por fim, todos souberem que esse impostor é nada mais nada menos que o irmão caçula do Senhor Branco, o que poderia acontecer?”
“Augusto seria obrigado a matar o André”, o Gordo respondeu.
Olhei para ele. O Gordo estava triste. Mantinha com esforço um semblante tranquilo, não era tão emotivo como eu, mas eu tinha certeza de que ele também estava arrasado com aquela história toda.
“Sim, seria obrigado a matar o próprio irmão, para provar que estava cumprindo o regulamento do campeonato.”
“Mas não foi isso que ele fez”, o Gordo disse.
“Não, não foi.”
Olhei bem nos olhos de Santiago e perguntei:
“Por quê? Por que ele não me matou? Responde, seu puto, por que o Augusto não me matou?”
Ele sustentou meu olhar por algum tempo, depois respondeu:
“Sinto muito, mas acho que isso você vai ter que perguntar ao próprio.”