O Campeonato
Capítulo 18
Jantamos todos no terraço, à beira da piscina.
O Gordo me pedira o tal livrinho com capa de couro que Lívia trouxera de Aldebaran, o livro com as regras do campeonato. Folheava o pequeno volume, encantado com o capricho das ilustrações, da encadernação, do acabamento.
“É um primor. Isso prova que bom gosto não depende de caráter”, ele disse.
“Você leu a epígrafe, os versos do Cântico dos cânticos?”, perguntei.
“Li.”
“Não é o cúmulo do cinismo os caras usarem um trecho da bíblia como epígrafe?”
“Talvez.”
Lívia deu um gole na minha cerveja e sentou do meu lado, numa espreguiçadeira, o rosto triste. Ficou olhando para o céu.
“Sabe qual é o problema com as estrelas?”, o Gordo perguntou, olhando na mesma direção que Lívia.
Ninguém respondeu. Ele esperou um pouco. Como nenhum de nós se dignasse a dar-lhe a deixa para continuar, ele mesmo formulou a resposta:
“O problema com as estrelas é que elas nunca estão onde a gente pensa que elas estão.”
Novo silêncio.
“Você vê uma estrela qualquer, qualquer uma dessas aí, e pensa que ela está lá, no ponto que você está olhando, mas a bandida não está lá, o que você vê é apenas o brilho que ela lançou há milhões, há bilhões de anos! Um ano-luz é coisa pra cacete, e elas estão a milhões de anos-luz de distância, ou seja, isso que estamos vendo, esse brilho, aconteceu faz tempo! A maioria dessas estrelas aí já nem existem mais, explodiram, bum! O que estamos vendo é apenas o que elas eram antes de explodir. E digo mais...”
Ficamos esperando mas ele não disse logo.
Na verdade, ele mesmo não sabia o que viria a seguir. O Gordo costumava usar esse truque, que eu conhecia muito bem. Quando terminava uma fala e via que o efeito sobre o ouvinte não tinha sido exatamente o esperado, ele completava, enfático: e digo mais, fazendo uma pausa, mais ou menos longa, dependendo das circunstâncias, pausa que servia para deixar o ouvinte na expectativa e que dava ao falastrão tempo para inventar alguma coisa.
“E digo mais”, ele continuou, passado o tempo necessário, “os antigos navegantes, os Colombos da vida, os fodões, com o perdão da palavra, os caras que saíram da velha Europa e vieram parar nesse fim de mundo se guiavam pelas estrelas. Eles só conseguiram chegar aqui porque havia estrelas para guiá-los, ou pelo menos eles pensavam que havia. Quer dizer, existimos graças a uns malucos que se deixaram guiar por coisas que não existem.”
“As estrelas não existem mas os brilhos sim”, eu disse, “isso é que importa, um ponto de referência, um ponto fixo, não interessa se as porcarias das estrelas não estão mais lá, quem está preocupado com isso?”
“Eu estou preocupada com isso”, Lívia disse.
“O quê?”, perguntei.
“Passei a ficar agora. Estou realmente preocupada com isso, não queria que as estrelas que eu vejo daqui não estivessem mais lá, isso é muito ruim.”
“Por que é muito ruim?”
“Porque é. Aliás, é mais do que muito ruim, é horrível!”
Virei meu corpo de lado e fiquei observando Lívia, não tinha certeza se ela estava brincando ou se realmente estava deprimida por saber que via estrelas onde elas não existiam.
“Não estou brincando, André, acho que pela primeira vez na vida consigo enxergar uma verdade com lucidez.”
“E que verdade é essa, Lívia?”, perguntei, dando corda.
“Não sei explicar, mas sei o que é. Tem algo a ver com a aparência das coisas, algo nesse sentido. Gordo, me responde uma coisa: as estrelas cadentes também não estão caindo quando a gente acha que elas estão caindo, certo?”
“Correto.”
“Quer dizer que esse negócio de fazer pedido quando se vê uma estrela cadente é roubada, porque quando você está fazendo o pedido a estrela já caiu faz tempo.”
“Sim. Além do fato de a estrela cadente não ser estrela, mas asteroide.”
“Mais essa, nem estrela é.”
“Pra você ver.”
“E o cara que promete uma estrela pra mulher dele não passa de um canastrão, não é? Porque ele nunca vai poder cumprir o prometido, a não ser que faça uma viagem ao passado.”
“É.”
“O máximo que ele poderia prometer é o brilho da estrela, de acordo?”
“De acordo.”
“A merreca do brilho de uma estrela que já explodiu. Que merda.”
Suspirei e disse:
“Vocês dois sabem realmente como arrebentar, estraçalhar, pisar em cima de qualquer romantismo.”
Eles se calaram, momentaneamente.
Mariana não falava nada. De repente se levantou e disse:
“Boa-noite a todos, vou dormir.”
“Nós já vamos”, falei.
“Não, podem ficar aí o quanto quiserem, eu é que não dormi à tarde, estou morrendo de sono. Vou preparar um quarto pra você, Lívia.”
“Pra gente não precisa, vamos dormir na sala”, eu disse.
“Por que na sala? Tem quarto pra todo mundo.”
“É mais seguro”, o Gordo respondeu antes de mim.
“Mais seguro por quê?”, Lívia perguntou.
Olhamos os dois para ela, ao mesmo tempo.
“Se aparecer algum engraçadinho querendo entrar certamente será pela sala, a não ser que queira escalar o edifício”, o Gordo explicou, meio impaciente.
“Sim, e se entrar algum bandido enquanto estivermos dormindo vocês dois vão fazer o quê? Gritar?”
Senti que o sangue subia pelo pescoço do Gordo, ele estava ficando vermelho. Lívia, apesar do tom insolente, tinha razão. Não estávamos preparados para enfrentar ninguém, só que eu não deixaria que ela nos humilhasse com tanta facilidade.
“Mesmo assim vamos dormir na sala”, eu disse, firme.
Ela ficou séria, talvez estivesse apenas brincando e eu é que não entendera direito. Aliviei:
“Se for preciso, arremesso o Gordo em cima do bandido.”
Lívia começou a rir.
“Não vai ser nada fácil”, ela disse, sem controlar o riso.
“Tenho uma ideia melhor, esperem aqui”, Mariana falou, e saiu.
Ficamos os três ali, calados, Lívia enxugava as lágrimas com a pontinha da toalha, tinha chorado de tanto rir.
“Foi tão engraçado assim?”, o Gordo perguntou.
Abri mais uma cerveja, estava bebendo desde cedo mas não ficava tonto. Aquilo era um mau sinal.
“Nunca mais te conto sobre as estrelas”, o Gordo disse.
Lívia se levantou, foi até onde ele estava sentado e lhe deu um beijo na testa.
“Você não precisa ser bom de briga, Gordo, já é muito bom na cozinha.”
“Devo entender como elogio ou você já está entrando na idade da ironia?”
Lívia enrolou a toalha no pescoço dele, depois correu na direção da piscina, mergulhou. Conquistara completamente o meu amigo, a pequena sacana. O Gordo a olhava com um olhar de profundo carinho, eu sabia que ele faria qualquer coisa para protegê-la, para não deixar que a machucassem. Ela também sabia.
***
Mariana voltou com uma pequena caixa de madeira, que colocou nas minhas mãos. Abri. Era uma arma.
“Já pegou numa arma antes?”, ela perguntou.
Lívia chegou até a beira da piscina e ficou nos observando.
“Não.”
“Que revólver é esse?”, perguntei.
“Não é revólver, é uma pistola. Uma Taurus 9 milímetros. Sente o peso.”
Peguei a pistola.
“É leve, parece de brinquedo.”
“Polímero, é feita de polímero, por isso é leve. Mas não é de brinquedo, pode ter certeza. Me dá aqui, deixa eu te mostrar.”
Ela pegou a arma de volta, mirou num alvo encostado numa das paredes do terraço. Era um alvo com a forma e as dimensões de um corpo humano, desses que eu só tinha visto em filme.Atirou.
“Porra”, o Gordo disse, vendo o furo que a bala tinha feito bem no meio dos olhos da figura.
Eu ainda estava meio zonzo com o barulho. Foi um estrondo seco, forte.
“Não sabia que era tão barulhento.”
“Nos filmes não parece tanto”, ela disse.
Lívia saiu da piscina e veio até nós, excitada.
“Posso tentar?”, perguntou.
“Não, isso não é um dardo.”
Ela não insistiu. Ficou ao lado do Gordo.
“André”, Mariana disse, me passando a arma.
Peguei aquele brinquedo e mirei no alvo, no meio do corpo da figura, na barriga.
“É só apertar o gatilho?”
“É”, Mariana disse, atrás de mim, tapando os meus ouvidos com as mãos.
Apertei o gatilho e senti um baque, como se alguém me empurrasse para trás.
“Nada mau”, o Gordo disse, “você teria desarmado o sujeito, se ele fosse canhoto.”
Eu tinha acertado a mão esquerda da figura.
“Onde foi que você mirou?”, Mariana me perguntou.
“Na barriga.”
O Gordo riu, o puto, não era ele que tinha um canhão daqueles nas mãos.
“Você deve ter apertado o gatilho com a base do dedo. Quando acontece isso normalmente o tiro sai à esquerda da mira. Se você atirar mais com a ponta do dedo, sai à direita. Procure puxar o gatilho com a parte central do dedo, entre a primeira e a segunda articulações. Vamos de novo.”
“Você não teria um protetor de ouvido?”, perguntei.
Ela pegou a caixa de madeira onde guardava a pistola e tirou um silenciador. Encaixou o silenciador, me devolveu a arma. Antes que eu tentasse outra vez acertar aquele maldito alvo, ela me deu outras dicas: afastar um pouco as pernas, dobrar ligeiramente os joelhos.
“Dá mais firmeza.”
Era uma posição meio ridícula, sobretudo porque Lívia e o Gordo estavam logo atrás me observando e eu não podia ver o rosto deles, mas obedeci.
“Agora pegue a arma com as duas mãos e alongue bem os braços, o máximo que você puder, como se quisesse encostar um cotovelo no outro.”
“Posso atirar?”
“Firme as mãos, e os punhos. Ouça bem, André, todo seu corpo, principalmente braços, punhos, mãos, deve permanecer imóvel na hora do tiro, entendeu? Só o dedo indicador, o dedo do gatilho, deve se mover.”
Ouvi atentamente. Tentei firmar o corpo.
“Ok.”
“Mirou bem?”
“Sim. Posso atirar?”
“Pode.”
Apertei o gatilho. O baque foi menor que na primeira vez.
“No ombro direito”, o Gordo disse, chegando mais perto do alvo, “onde foi que você mirou, na cabeça?”
“Na barriga.”
“Meu Deus, que fixação”, ele disse.
“Já está melhor. Isso leva tempo.”
“Você acha mesmo que melhorou?”, perguntei.
Eu já estava começando a gostar daquele jogo.
“No primeiro tiro seu corpo não estava preparado. Ainda não está, mas com algum treinamento você aprende.”
“Por que errei pra cima nas duas vezes? Mirei na barriga e acertei na mão, depois no ombro. Por que não acertei no pé?”
“É o que normalmente acontece com iniciantes. Quer um conselho?”
“Quero.”
“Se tiver que dar um tiro em alguém hoje à noite, mire logo abaixo da cintura.”
“Você quer dizer no...”
“Lá mesmo. Se der sorte, você acerta a barriga ou o peito do cara.”
“Você é muito cruel, Mariana”, o Gordo disse, “não queria estar na sua frente se você tivesse uma arma.”
“Você não vai estar, eu garanto.”
Treinei mais um pouco.
“Quantas balas cabem nesse troço?”, Lívia perguntou.
“Quinze.”
“Quer dizer que você pode matar quinze caras sem ter que trocar a munição?”
“Se tiver uma pontaria tão boa assim.”
“Eu tenho. Posso provar se você quiser”, ela disse.
“Você já provou”, Mariana disse, encerrando o assunto.
Lívia foi para o seu quarto. Mariana trouxe dois colchonetes, travesseiros, lençóis, cobertores. Deixou tudo na sala. Não precisávamos dos cobertores mas ela insistiu, disse que o tempo podia virar, de madrugada.
Antes de nos despedirmos, perguntei:
“Você não vai precisar da arma?”
“O que foi, está com medo de dormir com uma pistola debaixo do travesseiro? Se ninguém disparar ela é inofensiva, querido.”
“Não, não é isso, só não queria que você ficasse desprotegida.”
Ela segurou o meu rosto com as duas mãos e me beijou na boca. Foi um beijo breve, um beijo de boa-noite apenas, mas ela mudou de ideia e, após ter-se afastado de mim, voltou outra vez e de novo me beijou, com vontade. De olhos fechados foram vindo à minha mente cenas recentes, no quarto, na biblioteca, na cozinha, na piscina. De repente ela interrompeu o beijo e me afastou, as mãos empurrando meu peito.
Eu estava meio zonzo, os olhos semicerrados, quando ela se desvencilhou dos meus braços e disse, respondendo à pergunta que eu nem me lembrava mais de ter feito:
“Tenho outra arma comigo, no quarto. Durmam bem.”
Fiquei parado no meio da sala por alguns instantes, até que o Gordo me cutucasse.
“Quer um conselho, André?”
Fiz que sim com a cabeça.
“Esquece essa mulher, pelo menos por enquanto. Um homem dividido jamais acertará um bom tiro, não se esqueça disso.”
“Onde foi que você leu essa bobagem?”
“Em lugar nenhum, inventei agora, e não é bobagem. Você precisa se concentrar na final do campeonato, entendeu? Deixa as mulheres pra depois. Se quer pensar em alguém, pensa em Lívia, que vai te dar menos trabalho.”
“Vou tentar.”
Ajeitei meu colchonete, coloquei a pistola debaixo do travesseiro.
Se eu parasse para pensar, teria consciência do ridículo em que me encontrava. Estava dormindo na sala, com uma arma sob o travesseiro e o Gordo ao meu lado, enquanto naquele mesmo apartamento, em quartos separados, sozinhas, nuas talvez, dormiam as duas mulheres mais lindas do mundo, incapazes de me expulsar da cama se fossem outras as circunstâncias. Apaguei o abajur com um soco.
“O que foi isso?”, o Gordo perguntou, assustado com o barulho.
“Nada, não foi nada.”
Dormimos.
***
No dia seguinte, Rosália apareceu logo depois do café da manhã.
“Pronto para o nosso passeio?”, perguntou, tentando, em vão, ser simpática.
“Podemos sair daqui em segurança, Mariana?”, perguntei.
“Sem problemas. Falei com Montenegro, ele autorizou. Um carro com três homens vai seguir vocês.”
“Quando foi que você falou com o Montenegro?”
“Hoje, bem cedo, você ainda estava dormindo.”
Tomei mais um pouco de suco de laranja. Tinha acordado de péssimo humor e suco de laranja costumava me acalmar. Era assim desde criança, nem minha mãe, nem meu pai, nem médico nenhum conseguia explicar o fenômeno, vitamina C funcionar como calmante, mas funcionava, suco de laranja me deixava mais calmo.
“Vamos?”, eu disse a Rosália.
Pegamos nossas coisas e descemos até a garagem.
Rosália me indicou o carro, a Mercedes vermelha, dizendo que era um modelo esportivo feito sob encomenda. Entramos.
“Quer que eu tire da garagem?”, ela perguntou.
“Acho melhor.”
Não iria correr o risco de arrebentar com o carro antes mesmo de sair da garagem, seria ridículo.
Rosália deu partida e saiu. Reparei que não engatou nenhuma marcha.
“Câmbio automático”, ela disse, “sem caixa de marchas, sem embreagem, só acelerador e freio.”
Do lado de fora do edifício trocamos de lugar. Parti com o carro, devagar, desci a ladeira, peguei a rua do canal, subi na direção de São Conrado. Nunca tinha viajado de avião e nunca tinha dirigido uma Mercedes mas naquele momento tive a nítida impressão de que deviam ser duas coisas muito parecidas. O carro planava, era esse o termo, planava sobre o asfalto.
Rosália foi me ensinando tudo, como controlar o acelerador, o que significava cada um daqueles botões do painel, até como funcionava o sistema de alarme.
Quando já nos aproximávamos do último túnel antes da Barra, Rosália colocou um CD para tocar. João Gilberto.
“Você gosta de João Gilberto?”, perguntei.
“Surpreso?”
“Um pouco.”
“Você não sabe nada de mim, André. Minha vida dá um romance.”
Aquela frase me lembrou uma história que eu tinha lido, muito engraçada. Comecei a rir.
“O que foi?”, ela me perguntou, séria.
Parei, estava sendo deselegante. Podia não gostar daquela coroa, certo, mas era uma mulher refinada, estávamos a sós num carro de bacana passeando pela Niemeyer, o mar lá embaixo, as montanhas mais à frente, o túnel, a voz e o violão de João Gilberto em “Retrato em branco e preto”. Era necessário um mínimo de compostura.
“Desculpa, não tem nada a ver com você, me lembrei de uma piada.”
“Tudo bem. Você tem um sorriso bonito.”
“Obrigado.”
Não dei assunto. Ela percebeu que eu não estava a fim de conversa, queria dirigir um pouco, sentir o carro, saber mais ou menos como funcionava, só isso.
Sem que eu pedisse, ela começou a contar sua vida, a que dá um romance. Falou da infância pobre no interior de não sei onde, da chegada ao Rio, do casamento, dos filhos, das traições do Murilo Chaves, contou trezentas situações em que se sentiu humilhada, pisoteada, ferida, a última das mulheres. Não se parecia nada com aquela senhora cheia de si, a grande dama da festa do Murilo Chaves, ou a Rosália de retórica perfeita, de raciocínio exato. Estava completamente entregue, na lama, e senti que a qualquer momento iria cair no choro.
Eu não estava interessado na biografia de Rosália. Desliguei. Agora dirigia pela orla, vendo de relance as ondas fortes rebentando na praia. Ela continuou falando sozinha por um bom tempo.
Aumentei o volume do som. Ela calou de repente. Esperei um tempo, até ter certeza de que não voltaria a falar da sua vida. Então abaixei outra vez.
Por um momento julguei que ela não iria reagir. Ledo engano.
“Você sabe que carro é esse que você está dirigindo, seu imbecil?”
Não respondi. Ela tirou um frasco da bolsa, tomou um comprimido.
“Calmantes?”, perguntei.
De rabo de olho percebi que ela me fuzilava. Depois abaixou a cabeça e ficou um tempo assim. Pensei que estivesse chorando.
De repente se empertigou toda, ajeitou o cinto de segurança e começou a disparar uma palavra atrás da outra, quase sem respirar:
“Airbags dianteiros, programa eletrônico de estabilidade, retrovisor interno com antiofuscante automático, sensor de chuva, coluna de direção com ajuste manual, limpadores de faróis, persiana do vidro traseiro com acionamento elétrico.”
Achei que ela fosse ter um troço mas não, continuou, alucinada:
“Vidros elétricos, freios de emergência, câmbio automático de cinco marchas, faróis com lâmpadas de xenônio, detector de ocupação do assento do acompanhante.”
“Quê? Detector de ocupação do assento do acompanhante? Que merda é essa?”
“E com teto solar”, ela disse, acionando alguma coisa no painel. O teto do carro se abriu e senti o sol e o vento no meu rosto, um calorzinho bom.
“Cintos de segurança dianteiros com pré-tensionador e limitador de tensão, limitador de velocidade, kit de primeiros socorros...”
“Não quero comprar seu carro, muito obrigado.”
Ela falava como um vendedor com distúrbios mentais.
“Motor V8”, ela disse e parou, finalmente.
Eu já fizera o retorno quando ela começou a sandice e agora estávamos voltando para casa.
“Você não merece dirigir este automóvel. Sabe que ele vai de 0 a 100 quilômetros em sete segundos? E que alcança a velocidade de até 250 quilômetros por hora?”
“Eu não preciso andar 250 quilômetros em uma hora. Se andar 250 quilômetros em três dias ainda sobra muito tempo na minha vida pra beber cerveja.”
Entramos no túnel. No escuro cheguei a ficar com medo do que aquela demente pudesse aprontar, talvez tivesse uma faca escondida na bolsa, quem sabe. Saímos do túnel. Nada, nenhum punhal. Parecia mais calma. Voltamos em silêncio até o Leblon. Estacionei, desci do carro, ela passou para o banco do motorista.
Do lado de fora, quis me despedir de Rosália. Eu tinha essa mania, podia brigar horas com uma pessoa, com a Raquel, por exemplo, xingar todos os palavrões jamais sonhados, descer ao fundo do poço, mas quando acabava não conseguia ir embora sem dizer tchau. Desligar telefone na cara dos outros eu desligava, numa boa, mas sair sem me despedir era impossível. Não era por educação, humanidade ou o que seja, era uma mania mesmo, como tantas outras.
Pela janela Rosália ficou me olhando por alguns segundos, fixamente. Pela primeira vez pude ver o medo nos olhos dela. Era uma mulher madura, milionária, mas tinha medo, e isso talvez fosse a única coisa que nos unia. Ela me olhava como quem pede ajuda.
Apoiei as mãos no teto do carro e disse, tentando ser gentil:
“Escuta, Rosália, eu...”
“Será que posso subir?”
Pensei um pouco.
“Acho melhor não.”
Eu havia decidido que até sábado só estaria com meus aliados, e Rosália não era minha aliada.
Ela entendeu. E não gostou. Eu ainda quis dizer alguma coisa, algo que a confortasse um pouco, mas não deu tempo. Ela levantou os vidros, com raiva.
Já ia sair mas mudou de ideia. Abaixou os vidros novamente e me disse, amarga:
“Agora você já pode dizer aos seus amigos que dirigiu uma Mercedes.”
E partiu.
***
Antes de subir os degraus da portaria vi, na esquina, um carro preto estacionado, com dois homens de terno dentro dele. Só podiam ser seguranças do Montenegro, e certamente não seriam os únicos, devia ter mais gente escondida em algum lugar, talvez até mesmo no interior do prédio. Na escada de incêndio, por exemplo, falei comigo mesmo, em voz alta.
Cumprimentei o porteiro. Tive a impressão de que ele me olhou de um modo diferente, meio desconfiado. Será que me ouviu falando sozinho?
“Algum problema?”, perguntei.
“Não, senhor, problema nenhum”, ele respondeu, sério, abrindo a porta do elevador.
Subi. Encontrei o Gordo na sala, andando de um lado para o outro.
“Até que enfim você chegou. Preciso te mostrar uma coisa.”
“O que é?”
“Vem comigo.”
Fomos à biblioteca. Lívia já estava lá, sentada numa poltrona, folheando uma revista qualquer.
“Dá uma olhada nisso aqui, André”, o Gordo falou, me passando um jornal.
Fui até a mesa, puxei uma cadeira, sentei. Afastei uns livros que alguém deixara espalhados, abri o jornal. Era uma matéria de página inteira, sobre o Epifânio de Morais Netto.
“Essa não é exatamente a leitura mais adequada pra se começar o dia, eu sei”, o Gordo comentou.
“Meu dia já começou há horas, e muito mal.”
Comecei a ler. O texto dizia que o Epifânio acabara de receber um prêmio do governo francês. Elogios de pessoas importantes, escritores consagrados, críticos literários etc.
“Bando de idiotas!”
“Calma, o pior ainda vem por aí.”
A matéria continuava com um comentário geral sobre os livros do Epifânio. Em destaque, uma resenha de As flores do bem. A autora da resenha dizia que o livro era um marco na história da literatura brasileira, uma obra ousada, de profundo lirismo. Dizia também que o Epifânio fazia jus ao próprio nome, já que aquelas páginas só poderiam ter sido escritas a partir de uma sagrada epifania. Ridículo.
“Vira a página.”
“Tem mais?”
“Claro.”
Virei. Uma entrevista com o crápula. Título: O novo candidato a imortal.
“O que é isso?”
“O cara está se candidatando à Academia Brasileira deLetras.”
Era verdade. O entrevistador perguntou o motivo da candidatura e o Epifânio respondeu que nunca tivera essa pretensão, considerava a si mesmo um escritor menor, um diletante apenas, mas atendera a pedidos de amigos e a centenas de e-mails e cartas de leitores que só esperavam o seu consentimento para iniciar uma campanha a seu favor. Alguns membros da Academia também haviam conversado com ele, informalmente, ressaltando a importância de obras como As flores do bem num mundo dominado pela violência e pela corrupção.
No centro da página havia uma foto enorme do Epifânio. Foto colorida, ele de terno, o rosto cuidadosamente escanhoado, os cabelos ligeiramente grisalhos penteados para trás com gel, um largo sorriso no rosto. Era a própria imagem da simpatia. Segundo indicava a legenda, a foto tinha sido tirada na biblioteca particular do Epifânio. Ao fundo, via-se a estante carregada de livros.
“Era isso que você queria me mostrar?”
“Acho que você não analisou com cuidado o material.”
“Já li o texto. O puto ganhou um prêmio literário, vai se candidatar à Academia, e daí?”
“Repara atrás dele, nos livros.”
Peguei novamente o jornal, fiquei observando a foto atentamente. Dava para ver a lombada de alguns livros, ler os títulos. Dei uma passada por eles mas não vi nada de excepcional.
“Presta atenção, tem um livro aí no meio que é uma pista quente.”
Tentei outra vez.
“Chega, Gordo, não tem pista nenhuma aqui.”
“Sinceramente, o álcool andou queimando seus neurônios. Vou te dar uma última dica: dá uma olhada nesse livro vermelho, do lado direito do Epifânio, e me diz qual é o título, por favor.”
“O vermelho?”
“Sim.”
Li em voz alta:
“Cântico dos cânticos.”